{"id":28837,"date":"2022-05-28T08:36:17","date_gmt":"2022-05-28T11:36:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28837"},"modified":"2022-05-28T08:36:17","modified_gmt":"2022-05-28T11:36:17","slug":"estado-terrorista-de-israel-prossegue-limpeza-etnica-na-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28837","title":{"rendered":"Estado terrorista de Israel prossegue limpeza \u00e9tnica na Palestina"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/unnamed-1.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o, Via ABRIL ABRIL<\/strong><\/p>\n<p><em>[Uma violenta carga policial \u00e0 sa\u00edda do Hospital de S\u00e3o Lu\u00eds dispersou a multid\u00e3o que acompanhava o funeral da jornalista Shireen Abu Akleh, assassinada quando cobria uma a\u00e7\u00e3o repressiva das tropas israelitas em Jenin, na Cisjord\u00e2nia, e n\u00e3o poupou os palestinos que transportavam o f\u00e9retro, cuja queda esteve iminente. Jerusal\u00e9m, 13 de Maio de 2022.\u00a0Cr\u00e9ditos: Ahmad Gharabli \/ AFP]<\/em><\/p>\n<p><strong>O fuzilamento de Shireen Abu Akleh<\/strong><\/p>\n<p>A primeira vez que estive em Jenin, na parte norte da Cisjord\u00e2nia ocupada por Israel, foi em fevereiro de 1988, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 34 anos. Vivia-se ent\u00e3o o in\u00edcio da chamada primeira Intifada ou a \u00abrevolta das pedras\u00bb, o levante popular palestino que era j\u00e1 um sinal inequ\u00edvoco de que o epicentro da resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o tendia a deslocar-se para o interior dos pr\u00f3prios territ\u00f3rios ocupados.<\/p>\n<p>Depois de uma explos\u00e3o social na cidade de Gaza, inesperada pela dimens\u00e3o, a intensidade e a espontaneidade da resposta popular a um atropelamento mortal de v\u00e1rias pessoas por um ve\u00edculo conduzido por um colono israelita, a multid\u00e3o come\u00e7ou a arremessar pedras ao dispositivo militar destacado para reprimir o movimento; o epis\u00f3dio funcionou como a gota que transbordou o c\u00e1lice, o escape para tanta humilha\u00e7\u00e3o acumulada, o rastilho que incendiou a revolta at\u00e9 ent\u00e3o contida. E n\u00e3o mais parou. Os soldados responderam \u00e0s pedras disparando balas reais, fuzilando a eito, mas isso n\u00e3o impediu que os focos de inconformismo ativo se espalhassem em poucos dias por todos os territ\u00f3rios palestinos ocupados, de Gaza a Jerusal\u00e9m Leste, de Jenin, Nablus a Hebron passando por Ramallah e Bel\u00e9m, aldeias e vilas ao longo desses caminhos milenares.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, talvez \u00fanica at\u00e9 agora, meios corporativos de comunica\u00e7\u00e3o e alguma opini\u00e3o p\u00fablica tiveram contato com uma realidade do problema israel-palestino para l\u00e1 da vers\u00e3o oficial do \u00abterrorismo\u00bb \u00e1rabe amea\u00e7ando a \u00abseguran\u00e7a\u00bb do Estado de Israel. Afinal, balas contra pedras, tanques contra crian\u00e7as, mortes de um lado e arranh\u00f5es do outro incomodaram temporariamente algumas consci\u00eancias e for\u00e7aram dirigentes ocidentais a sair episodicamente, em palavras, da sua cumplicidade institucional com o Estado de Israel.<\/p>\n<p>Uma not\u00edcia com destaque no jornal Haaretz levou-me nesse dia at\u00e9 um sub\u00farbio de Jenin: como resposta ao arremesso de pedras por garotos de uma escola, os soldados israelenses tinham enterrado vivos tr\u00eas dos perigosos \u00abterroristas\u00bb, com idades entre os nove e os 12 anos. Na verdade fora um sepultamento tempor\u00e1rio, consumado com o aux\u00edlio de um bulldozer, uma cerim\u00f3nia s\u00e1dica de intimida\u00e7\u00e3o, coa\u00e7\u00e3o e terror que fazia jus \u00e0 pol\u00edtica de \u00abquebra-ossos\u00bb decidida pelo primeiro-ministro Isaac Rabin contra os respons\u00e1veis por pedradas.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o resgatou os garotos, mas j\u00e1 n\u00e3o conseguira salvar a vida de um dos colegas, abatido a tiro alguns minutos antes no p\u00e1tio de recreio da pr\u00f3pria escola. No vel\u00f3rio sem corpo, o sil\u00eancio sepulcral e as faces inertes e inexpressivas dos anci\u00e3os da aldeia testemunhavam a certeza, ao contr\u00e1rio da ousadia dos mais novos ao desafiarem um dos ex\u00e9rcitos mais poderosos do mundo, de que n\u00e3o havia volta a dar \u00e0quele destino de viol\u00eancia, opress\u00e3o e supress\u00e3o dos mais elementares direitos humanos de um povo esquecido.<\/p>\n<p>O tempo, a experi\u00eancia, o estado do mundo e a irresponsabilidade criminosa de quem nele manda n\u00e3o tiram a raz\u00e3o aos cidad\u00e3os mais velhos de Jenin. Agora, em 11 de Maio, 34 anos e alguns dias depois daquela manh\u00e3 sombria, a jornalista Shireen Abu Akleh, com origem palestina e nacionalidade norte-americana, foi sumariamente executada em Jenin com uma bala no rosto disparada com precis\u00e3o milim\u00e9trica por um soldado israelense. Tinha 51 anos e fazia o seu trabalho cobrindo para a esta\u00e7\u00e3o de televis\u00e3o Al Jazeera mais um ataque da tropa sionista em busca de \u00abterroristas\u00bb num campo de refugiados palestinos.<\/p>\n<p>Afinal, pouco ou nada mudou em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, a n\u00e3o ser que o inc\u00f4modo internacional suscitado pela pol\u00edtica de \u00abquebra-ossos\u00bb foi passageiro e esfumou-se. A persegui\u00e7\u00e3o e a limpeza \u00e9tnica dos palestinos prossegue na Palestina perante o sil\u00eancio dos poderes mundiais, a come\u00e7ar pela ONU e respectivo secret\u00e1rio-geral, e pelos incans\u00e1veis defensores dos direitos humanos agraciados com uma seletividade finamente burilada. O assassinato de Shireen Abu Akleh, como os de mais 380 palestinos, entre eles 90 crian\u00e7as, em 2021, e os 34 em mar\u00e7o e abril deste ano, incluindo mais seis crian\u00e7as, foram recebidos com o sil\u00eancio banal das coisas rotineiras, inevit\u00e1veis, condenadas \u00e0s latas de lixo das reda\u00e7\u00f5es e das chancelarias. V\u00edtimas, v\u00edtimas a s\u00e9rio pelas quais o nosso mundo civilizado chora, s\u00e3o os \u00abm\u00e1rtires\u00bb nazistas da cidade ucraniana de Mariupol.<\/p>\n<p>Em mem\u00f3ria de Shireen Abu Akleh<br \/>\nDiz quem conheceu a jornalista Shireen Abu Akleh que era uma profissional competente, apreciada pela coragem, integridade e pelas reportagens cuidadas e sens\u00edveis sobre a vida das popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o. \u00abEscolhi o jornalismo para estar perto das pessoas\u00bb, diz Shireen num v\u00eddeo que a Al Jazeera divulgou depois de ter sido fuzilada. \u00abPode n\u00e3o ser f\u00e1cil mudar a realidade, mas pelo menos consegui trazer a voz das pessoas para o mundo\u00bb.<\/p>\n<p>Deduz-se que Shireen praticava um jornalismo quase ca\u00eddo em desuso, centrado nas pessoas, guiado pela realidade, nem sempre coincidente com a opini\u00e3o \u00fanica formatada para a quest\u00e3o israel-palestina, a mesma que vigora para a guerra na Ucr\u00e2nia. A jornalista da Al Jazeera estava literalmente na mira do establishment do regime sionista do apartheid, que a acusava de situar-se do lado dos \u00abterroristas\u00bb. Da mesma maneira que os jornalistas informando sobre o aparelho nazista que controla o regime ucraniano n\u00e3o passam de \u00abagentes de Putin\u00bb.<\/p>\n<p>Naquela quarta-feira, 11 de maio, Shireen estava com outros jornalistas no campo de refugiados de Jenin reportando mais uma manobra de repress\u00e3o conduzida pelas tropas de ocupa\u00e7\u00e3o. Os profissionais da comunica\u00e7\u00e3o presentes cumpriam todas as normas do protocolo que foi sendo apurado ao longo dos anos, pois s\u00e3o j\u00e1 45 os jornalistas acompanhando a situa\u00e7\u00e3o na Palestina abatidos desde 2000. Usavam colete \u00e0 prova de bala, capacetes, d\u00edsticos de \u00abPRESS\u00bb bem vis\u00edveis e situavam-se a cerca de 200 metros dos soldados israelenses.<\/p>\n<p>Ouviram-se tr\u00eas tiros. Um atingiu nas costas o produtor da Al Jazeera, Ali Samoudi, que ficou ferido. O terceiro disparo provocou a morte imediata de Shireen: atingiu-a na face, precisamente entre a borda do capacete e a gola do colete. Um tiro de sniper, preciso, fatal, efetuado deliberadamente para atingir um alvo escolhido no local exato. Uma execu\u00e7\u00e3o. \u00abUm assassinato flagrante, a sangue-frio\u00bb, denunciou a Al Jazeera. Uma opera\u00e7\u00e3o id\u00eantica \u00e0s que no in\u00edcio surpreenderam os jornalistas em Fallujah, no Iraque, quando come\u00e7aram a surgir cad\u00e1veres com um \u00fanico tiro na cabe\u00e7a entre as v\u00edtimas dos massacres norte-americanos.<\/p>\n<p>Os especialistas que observaram a bala de 5,56 mil\u00edmetros recolhida pelo lado palestiniano consideram que foi um tiro de uma M16, eventualmente uma M16A4s equipada com uma mira telesc\u00f3pica prism\u00e1tica de alt\u00edssima precis\u00e3o. Porta-vozes oficiais israelenses afirmaram prontamente que os autores foram atiradores palestinos \u2013 a can\u00f4nica tese absurda que fazem circular sempre que acontecem situa\u00e7\u00f5es deste tipo. A vers\u00e3o, por\u00e9m, foi desmontada e ridicularizada por um v\u00eddeo dos acontecimentos divulgado pelo Centro de Informa\u00e7\u00e3o israelense B\u2019Tselem para os direitos humanos. Ficou claro que se tratou de um crime cometido a partir da posi\u00e7\u00e3o ocupada pelos soldados de Israel.<\/p>\n<p>A verdade oficial nunca se saber\u00e1 concretamente. Israel recusa-se a autorizar um inqu\u00e9rito independente e, mais uma vez, o assassino ficar\u00e1 impune. Como aconteceu h\u00e1 um ano com a gangue de colonos sionistas que, a exemplo das pr\u00e1ticas das brigadas nazistas ucranianas, assassinaram o cidad\u00e3o palestino Musa Hassuna: o Minist\u00e9rio israelense do Interior \u00abaconselhou\u00bb o Minist\u00e9rio P\u00fablico a encerrar o caso por se tratar de uma situa\u00e7\u00e3o \u00abde autodefesa\u00bb.<\/p>\n<p>A morte de Shireen Abu Akleh parece n\u00e3o ter sido suficiente para satisfazer a \u00e2nsia de vingan\u00e7a do regime de apartheid. No funeral da jornalista, que juntou em Jerusal\u00e9m uma multid\u00e3o s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 que se despediu do lend\u00e1rio dirigente palestino Faisal Husseini em 2003, a pol\u00edcia antimotim assaltou o desfile, espancou participantes e fez tombar o caix\u00e3o, uma imagem revoltante que corre mundo, mas n\u00e3o sensibilizou os grandes meios corporativos. Assaltos e bombardeios contra funerais pareciam ser uma exclusividade da Ar\u00e1bia Saudita no I\u00eamen, mas afinal n\u00e3o \u00e9 assim: a \u00ab\u00fanica democracia do Oriente M\u00e9dio\u00bb segue o exemplo dos seus \u00abinimigos\u00bb \u2013 aliados da maior petroditadura do Golfo.<\/p>\n<p>Israel continua a rejeitar, com a impunidade que lhe est\u00e1 garantida pelos \u00f3rg\u00e3os da \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb guardada por Joseph Biden e os seus s\u00faditos, e garantida pela OTAN, qualquer responsabilidade no sucedido. A desfa\u00e7atez, por\u00e9m, vai mais longe. \u00abMesmo que Shireen Abu Akleh fosse morta pelo Ex\u00e9rcito israelense, n\u00e3o haveria necessidade de pedir desculpa\u00bb, sentenciou Avi Benyahu, ex-porta voz das tropas sionistas. Como explica o deputado Ben Gvir, \u00abos jornalistas da Al Jazeera geralmente ficam no caminho do ex\u00e9rcito e impedem o seu trabalho\u00bb. Nada que um tiro certeiro na altura exata n\u00e3o resolva.<\/p>\n<p>Tal como h\u00e1 tr\u00eas quartos de s\u00e9culo, vale tudo para Israel tentar erradicar o \u00abproblema\u00bb palestino da face da Terra perante as mesmas sossegadas consci\u00eancias que n\u00e3o se sobressaltaram quando a ex-secret\u00e1ria de Estado norte-americana Madeleine Albright garantiu que a morte de 500 mil crian\u00e7as iraquianas \u00abvaleu a pena\u00bb; ou seja, as mesmas almas caridosas que acompanham tranquilamente o massacre de milh\u00f5es de vidas humanas no Afeganist\u00e3o, no Iraque, na L\u00edbia, na S\u00edria, no I\u00eamen s\u00f3 porque s\u00e3o da responsabilidade da OTAN ou de ex\u00e9rcitos de pot\u00eancias ocidentais, em alian\u00e7a com terroristas isl\u00e2micos, que levam a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0s terras da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Na Ucr\u00e2nia n\u00e3o, \u00e9 diferente, h\u00e1 que mobilizar caridades, submiss\u00f5es e centenas de milh\u00f5es de euros que, por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 para sal\u00e1rios, reformas, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o dos portugueses e entreg\u00e1-los em m\u00e3os \u2013 e sem controlo do destino \u2013 ao regime mais corrupto da Europa. Mas \u00e9 na Europa, s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es que defendem a \u00abpureza de sangue\u00bb, est\u00e3o em causa pessoas brancas, quanto mais louros os cabelos e azuis os olhos melhor. Afinal acusar apenas Israel da cultivar formas de apartheid talvez seja injusto.<\/p>\n<p>O Nakba eterno<br \/>\nA Shireen Abu Akleh de nada valeram a compet\u00eancia profissional, o respeito pelo jornalismo, a prioridade dada \u00e0s pessoas e os seus problemas, sequer o passaporte norte-americano. Tal como n\u00e3o valeu \u00e0 volunt\u00e1ria Rachel Corrie em 2003, trucidada por um bulldozer quando se opunha \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de casas palestinas; ou o passaporte brit\u00e2nico de nada serviu ao cineasta James Miller, abatido em 2003 por um soldado israelense quando testemunhava mais um dos corriqueiros massacres de pessoas indefesas em Gaza. Os Estados Unidos, o Reino Unido, tal como todos os sat\u00e9lites orbitando em volta da OTAN, entre os quais Portugal, silenciaram sobre a morte da jornalista da Al Jazeera.<\/p>\n<p>Na verdade, o assassinato de Shireen foi um epis\u00f3dio, apenas mais um, de uma extensa trag\u00e9dia de d\u00e9cadas a que os palestinos chamam Nakba, a cat\u00e1strofe. Um drama alimentado n\u00e3o apenas para impedir que os palestinos tenham acesso ao exerc\u00edcio dos seus direitos nacionais, c\u00edvicos e humanos, mas tamb\u00e9m, em \u00faltima inst\u00e2ncia e conhecendo-se a ess\u00eancia do sionismo, para consumar a elimina\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio povo palestino.<\/p>\n<p>Resolu\u00e7\u00f5es sobre resolu\u00e7\u00f5es da ONU, declara\u00e7\u00f5es e mais declara\u00e7\u00f5es dos sucessivos dirigentes das grandes, m\u00e9dias e pequenas pot\u00eancias, entre elas as mais civilizadas de todas, v\u00e1rios acordos de paz para rasgar e centenas de reuni\u00f5es de negocia\u00e7\u00f5es a fingir n\u00e3o t\u00eam travado a marcha da Nakba atrav\u00e9s de 74 anos assinalados agora. A chamada \u00abcomunidade internacional\u00bb convive muito bem com a Nakba. A hipocrisia da casta dirigente mundial \u2013 e de grande parte das nacionais \u2013 n\u00e3o tem limites.<\/p>\n<p>A Nakba \u00e9 a mais criminosa, prolongada e sistem\u00e1tica limpeza \u00e9tnica dos nossos tempos. O meticuloso exterm\u00ednio de um povo: chacinas e expuls\u00f5es em massa; desaparecimento do mapa de centenas de cidades, vilas e aldeias e destrui\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de habita\u00e7\u00f5es; confinamento em campos de refugiados eternos e mesmo em campos de concentra\u00e7\u00e3o, como acontece em toda a Faixa de Gaza; assassinatos seletivos, muros que separam n\u00facleos habitacionais, familiares e propriedades; roubo de bens, coloniza\u00e7\u00e3o por imigrantes sionistas de territ\u00f3rios de onde s\u00e3o expulsos os habitantes com ra\u00edzes seculares, humilha\u00e7\u00f5es, persegui\u00e7\u00f5es, meios de repress\u00e3o e controle que tornam imposs\u00edvel a circula\u00e7\u00e3o das pessoas, mesmo para ir trabalhar; condena\u00e7\u00e3o ao desemprego, tortura, deten\u00e7\u00f5es perp\u00e9tuas sem julgamento, morte e pris\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes \u2013 a lista de crimes sionistas alegadamente para garantir a \u00abexist\u00eancia\u00bb e a \u00abseguran\u00e7a\u00bb do Estado de Israel \u00e9 infinita.<\/p>\n<p>E o mundo assiste, imp\u00e1vido, \u00e0 nega\u00e7\u00e3o mais absoluta de todos os princ\u00edpios e valores que se pregam a cada passo e que, por sinal, chegam a ser invocados por quem gere o planeta para justificar outras atrocidades. Afinal, h\u00e1 uma l\u00f3gica perversa e totalit\u00e1ria em tudo isto e estamos sendo v\u00edtimas dela, cercados por um ambiente de intimida\u00e7\u00e3o poucas vezes atingido. Os palestinos contam apenas com eles pr\u00f3prios para resistir ao exterm\u00ednio organizado. E tamb\u00e9m com a solidariedade de cidad\u00e3os e organiza\u00e7\u00f5es corajosas tratadas como p\u00e1rias ou lun\u00e1ticas pelos meios dominantes \u2013 governos e comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, o Estado de Israel \u00e9 um parceiro de excel\u00eancia da OTAN, tem acordos preferenciais com a Uni\u00e3o Europeia, as suas embaixadas usufruem do direito a barricar ruas, a sua pol\u00edcia pol\u00edtica sobrep\u00f5e-se a pol\u00edcias nacionais, est\u00e1 imune a san\u00e7\u00f5es, participa em todos os acontecimentos culturais e desportivos internacionais, chegando mesmo a organiz\u00e1-los. H\u00e1 casos em que o crime compensa. E assim exemplificam-se muito bem as regras em que se assenta a \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb.<\/p>\n<p>Apesar de tudo isto, os palestinos teimam em resistir e continuar a existir. \u00abUma hist\u00f3ria gloriosa foi apagada; as pessoas n\u00e3o conhecem a longa e impressionante hist\u00f3ria desta terra\u00bb, lamenta Miko Peled, cidad\u00e3o israelense natural de Jerusal\u00e9m, filho de um general que se distinguiu em grandes campanhas sionistas, mas que tem a honestidade intelectual e humanista para compreender a realidade em que vive e na qual os palestinos est\u00e3o presentes. \u00abEsta terra era a Palestina, \u00e9 a Palestina e ser\u00e1 sempre a Palestina\u00bb, assegura. O contr\u00e1rio, afinal, da tese mistificadora do pai do sionismo, Theodor Herzl, quando proclamou a ideia de \u00abuma terra sem povo para um povo sem terra\u00bb. Esvaziar a Palestina do seu povo original continua a ser, como se percebe, a meta do apartheid sionista quase 140 anos depois de ditada a m\u00e1xima herzliana.<\/p>\n<p>O povo palestiniano continua, por\u00e9m, do lado da hist\u00f3ria, mesmo desamparado pelos senhores do mundo, t\u00e3o modernistas nas suas arengas cada vez mais ocas mas t\u00e3o anacr\u00f4nicos e retr\u00f3grados, mesmo que imersos na \u00abtransi\u00e7\u00e3o digital\u00bb. Abu Shireen Akleh fazia por contar a hist\u00f3ria inc\u00f4moda que os poderes planet\u00e1rios querem apagar das vistas e das consci\u00eancias dos cidad\u00e3os. Pagou com a vida essa ousadia, tal como milh\u00f5es v\u00eam pagando, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, por quererem viver libertos da canga dos opressores que n\u00e3o conhecem fronteiras. S\u00e3o tr\u00eas milh\u00f5es na Palestina e mais de sete milh\u00f5es de refugiados (estes refugiados existem h\u00e1 mais de setenta anos!) que n\u00e3o desistem dos seus direitos enquanto quase tudo em volta, na pr\u00e1tica, n\u00e3o os reconhece.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, haver\u00e1 sempre uma Shireen que, contra a corrente de grande parte dos seus companheiros de profiss\u00e3o e contra as balas teleguiadas pelos oligarcas e respectivos amanuenses que ditam as regras de uma intimidante verdade paralela, continuar\u00e3o a manter vivo o direito aos seus direitos. Outras e outros continuar\u00e3o a \u00abtrazer a voz das pessoas para o mundo\u00bb, como fazia Shireen. Mesmo para os que n\u00e3o a querem ouvir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28837\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"A Nakba \u00e9 a mais criminosa, prolongada e sistem\u00e1tica limpeza \u00e9tnica dos nossos tempos: chacinas e expuls\u00f5es em massa; desaparecimento do mapa de centenas de cidades, vilas e aldeias; confinamento em campos de refugiados eternos e de concentra\u00e7\u00e3o...\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[227],"class_list":["post-28837","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7v7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28837"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28837\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}