{"id":28854,"date":"2022-06-01T12:19:35","date_gmt":"2022-06-01T15:19:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28854"},"modified":"2022-06-01T12:19:35","modified_gmt":"2022-06-01T15:19:35","slug":"a-ascensao-da-otan-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28854","title":{"rendered":"A ascens\u00e3o da OTAN na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"528\" width=\"696\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/pera-12-696x528.jpeg?resize=696%2C528&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Vijay Prashad | Globetrotter. Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Marin para a Revista Opera.<\/p>\n<p>A OTAN n\u00e3o se expande somente em dire\u00e7\u00e3o ao leste europeu: desde a d\u00e9cada de 50, a alian\u00e7a tem tentado assegurar sua hegemonia tamb\u00e9m sobre a \u00c1frica. [Na foto: Soldados norte-americanos do 1\u00ba Batalh\u00e3o do 503\u00ba Regimento de Infantaria da 173\u00aa Brigada Paraquedista com soldados das For\u00e7as de Defesa do Qu\u00eania durante os exerc\u00edcios Justified Accord, em 13 de mar\u00e7o de 2022. (Foto: Capt. Abigail Hammock \/ AFRICOM)]<\/p>\n<p>A ansiedade com a expans\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fronteira russa \u00e9 uma das causas da atual guerra na Ucr\u00e2nia. Mas esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica tentativa de expans\u00e3o da OTAN, uma organiza\u00e7\u00e3o criada em 1949 pelos Estados Unidos para projetar seu poder militar e pol\u00edtico sobre a Europa. Em 2001, a OTAN conduziu uma opera\u00e7\u00e3o militar \u201cfora de \u00e1rea\u201d no Afeganist\u00e3o, que durou 20 anos, e em 2011 a organiza\u00e7\u00e3o \u2013 a pedido da Fran\u00e7a \u2013 bombardeou a L\u00edbia e derrubou seu governo. As opera\u00e7\u00f5es militares da OTAN no Afeganist\u00e3o e na L\u00edbia foram o prel\u00fadio para as discuss\u00f5es de uma \u201cOTAN Global\u201d, um projeto para usar a alian\u00e7a militar da OTAN al\u00e9m do definido em sua carta de funda\u00e7\u00e3o, do Mar do Sul da China ao Mar do Caribe.<\/p>\n<p>A guerra da OTAN na L\u00edbia foi a primeira grande opera\u00e7\u00e3o militar da organiza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica, mas n\u00e3o foi a primeira pegada europeia deixada no continente. Depois de s\u00e9culos de guerras coloniais europeias na \u00c1frica, novos estados emergiram em consequ\u00eancia da Segunda Guerra Mundial, afirmando sua soberania. Muitos desses estados \u2013 de Gana \u00e0 Tanz\u00e2nia \u2013 se recusaram a permitir que for\u00e7as militares europeias entrassem novamente no continente, raz\u00e3o pela qual estas pot\u00eancias europeias tiveram de recorrer a assassinatos e golpes militares para ungir governos pr\u00f3-ocidentais na regi\u00e3o. Isso permitiu a cria\u00e7\u00e3o de bases militares ocidentais na \u00c1frica e deu a empresas ocidentais liberdade para explorar os recursos naturais do continente.<\/p>\n<p>As primeiras opera\u00e7\u00f5es da OTAN ficaram na fronteira da \u00c1frica, com o Mar Mediterr\u00e2neo sendo a principal linha de frente. A OTAN criou as For\u00e7as Aliadas do Sul da Europa (AFSOUTH) em N\u00e1poles em 1951, e depois as For\u00e7as Aliadas do Mediterr\u00e2neo (AFMED) em Malta em 1952. Os governos ocidentais estabeleceram essas forma\u00e7\u00f5es militares para guarnecer o Mar Mediterr\u00e2neo contra a marinha sovi\u00e9tica e criar plataformas de onde poderiam intervir militarmente no continente africano. Ap\u00f3s a Guerra dos Seis Dias em 1967, o Comit\u00ea de Planejamento de Defesa da OTAN, que foi dissolvido em 2010, criou a For\u00e7a Naval On-Call do Mediterr\u00e2neo (NOCFORMED) para pressionar os estados pr\u00f3-sovi\u00e9ticos \u2013 como o Egito \u2013 e defender as monarquias do norte da \u00c1frica (A OTAN foi incapaz de impedir o golpe anti-imperialista de 1969 que derrubou a monarquia na L\u00edbia e levou o coronel Muammar Gaddafi ao poder; o governo de Gaddafi expulsou as bases militares dos EUA do pa\u00eds logo depois).<\/p>\n<p>As conversas na sede da OTAN sobre opera\u00e7\u00f5es \u201cfora de \u00e1rea\u201d ocorreram com frequ\u00eancia crescente depois que a OTAN se juntou \u00e0 guerra dos EUA no Afeganist\u00e3o. Um alto funcion\u00e1rio da OTAN me disse em 2003 que os Estados Unidos haviam \u201cdesenvolvido um apetite para usar a OTAN\u201d em sua tentativa de projetar poder contra poss\u00edveis advers\u00e1rios. Dois anos depois, em 2005, em Adis Abeba, Eti\u00f3pia, a OTAN come\u00e7ou a cooperar estreitamente com a Uni\u00e3o Africana (UA). A UA, que foi formada em 2002, e foi a \u201csucessora\u201d da Organiza\u00e7\u00e3o da Unidade Africana, lutou para construir uma estrutura de seguran\u00e7a independente. A falta de uma for\u00e7a militar vi\u00e1vel fez com que a UA muitas vezes se voltasse para o Ocidente em busca de assist\u00eancia e pedisse ajuda \u00e0 OTAN com log\u00edstica e apoio a\u00e9reo para sua miss\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o da paz no Sud\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao lado da OTAN, os EUA operaram sua capacidade militar por meio do Comando Europeu dos Estados Unidos (EUCOM), que supervisionou as opera\u00e7\u00f5es do pa\u00eds na \u00c1frica de 1952 a 2007. Posteriormente, o general James Jones, chefe do EUCOM de 2003 a 2006, formou o Comando dos EUA para a \u00c1frica (AFRICOM) em 2008, com sede em Stuttgart, Alemanha, porque nenhuma das 54 na\u00e7\u00f5es africanas estava disposta a dar-lhe um lar. A OTAN come\u00e7ou a operar no continente africano atrav\u00e9s do AFRICOM.<\/p>\n<p>L\u00edbia e a estrutura da OTAN para a \u00c1frica<br \/>\nA guerra da OTAN na L\u00edbia mudou a din\u00e2mica da rela\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses africanos e o Ocidente. A Uni\u00e3o Africana (UA) desconfiava da interven\u00e7\u00e3o militar ocidental na regi\u00e3o. Em 10 de mar\u00e7o de 2011, o Conselho de Seguran\u00e7a da UA criou o Comit\u00ea de Alto N\u00edvel ad hoc sobre a L\u00edbia. Os membros desse comit\u00ea inclu\u00edam o ent\u00e3o presidente da UA, Dr. Jean Ping, e os chefes de estado de cinco na\u00e7\u00f5es africanas \u2013 o ex-presidente da Maurit\u00e2nia, Mohamed Ould Abdel Aziz, o presidente da Rep\u00fablica do Congo, Denis Sassou Nguesso, o ex-presidente do Mali, Amadou Toumani Tour\u00e9, o ex-presidente da \u00c1frica do Sul, Jacob Zuma, e o presidente de Uganda, Yoweri Museveni \u2013 que deveriam voar para Tr\u00edpoli, na L\u00edbia, e estabelecer negocia\u00e7\u00f5es entre os dois lados da guerra civil l\u00edbia ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o do comit\u00ea. O Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas, no entanto, impediu que essa miss\u00e3o entrasse no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em uma reuni\u00e3o entre o Comit\u00ea ad hoc de Alto N\u00edvel sobre a L\u00edbia e as Na\u00e7\u00f5es Unidas em junho de 2011, o Representante Permanente de Uganda nas Na\u00e7\u00f5es Unidas durante esse per\u00edodo, Dr. Ruhakana Rugunda, disse: \u201cN\u00e3o \u00e9 sensato que certos jogadores estejam intoxicados com a superioridade tecnol\u00f3gica e comecem a pensar que s\u00f3 eles podem alterar o curso da hist\u00f3ria humana em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade para toda a humanidade. Certamente, nenhuma constela\u00e7\u00e3o de estados deve pensar que pode recriar a hegemonia sobre a \u00c1frica\u201d. Mas isso \u00e9 precisamente o que os estados da OTAN come\u00e7aram a imaginar.<\/p>\n<p>O caos na L\u00edbia desencadeou uma s\u00e9rie de conflitos catastr\u00f3ficos no Mali, no sul da Arg\u00e9lia e em partes do N\u00edger. A interven\u00e7\u00e3o militar francesa no Mali em 2013 foi seguida pela cria\u00e7\u00e3o do G5 Sahel, uma plataforma pol\u00edtica dos cinco estados do Sahel \u2013 Burkina Faso, Chade, Mali, Maurit\u00e2nia e N\u00edger \u2013 e uma alian\u00e7a militar entre eles. Em maio de 2014, a OTAN abriu um escrit\u00f3rio de contato na sede da UA em Adis Abeba. Na C\u00fapula da OTAN no Pa\u00eds de Gales, em setembro de 2014, os parceiros da alian\u00e7a discutiram os problemas no Sahel que entraram no Plano de A\u00e7\u00e3o de Prontid\u00e3o da alian\u00e7a, que serviu como \u201c[o] motor da adapta\u00e7\u00e3o militar da OTAN ao ambiente de seguran\u00e7a em constante mudan\u00e7a\u201d. Em dezembro de 2014, os ministros das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da OTAN revisaram a implementa\u00e7\u00e3o do plano e se concentraram nas \u201camea\u00e7as que emanam de nossa vizinhan\u00e7a do Sul, Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica\u201d, estabelecendo uma estrutura para enfrentar as amea\u00e7as e os desafios enfrentados pelo Sul, de acordo com um relat\u00f3rio do ex-presidente da Assembleia Parlamentar da OTAN, Michael R. Turner. Dois anos depois, na C\u00fapula da OTAN de Vars\u00f3via, em 2016, os l\u00edderes da OTAN decidiram aumentar a sua coopera\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Africana. Eles \u201c[deram boas-vindas] ao robusto compromisso militar dos Aliados na regi\u00e3o do Sahel-Saara\u201d. Para aprofundar este compromisso, a OTAN criou uma For\u00e7a Africana de Alerta e iniciou o processo de forma\u00e7\u00e3o de oficiais nas for\u00e7as militares africanas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a recente decis\u00e3o do Mali de expulsar os militares franceses est\u00e1 enraizada em uma sensibilidade geral crescente no continente contra a agress\u00e3o militar ocidental. N\u00e3o admira, portanto, que muitos dos maiores pa\u00edses africanos tenham se recusado a seguir a posi\u00e7\u00e3o de Washington sobre a guerra na Ucr\u00e2nia, com metade dos pa\u00edses se abstendo ou votando contra a resolu\u00e7\u00e3o da ONU para condenar a R\u00fassia (isso inclui pa\u00edses como Arg\u00e9lia, \u00c1frica do Sul, Angola e Eti\u00f3pia ). \u00c9 revelador que o presidente da \u00c1frica do Sul, Cyril Ramaphosa, tenha dito que seu pa\u00eds \u201cest\u00e1 comprometido com o avan\u00e7o dos direitos humanos e liberdades fundamentais n\u00e3o apenas de nosso pr\u00f3prio povo, mas tamb\u00e9m dos povos da Palestina, Saara Ocidental, Afeganist\u00e3o, S\u00edria, por toda a \u00c1frica e no mundo.\u201d<\/p>\n<p>A ignom\u00ednia das loucuras ocidentais \u2013 e da OTAN \u2013, incluindo acordos de armas com o Marrocos para que o Saara Ocidental seja entregue ao reino, e o apoio diplom\u00e1tico a Israel, enquanto este estado continua seu tratamento de apartheid contra os palestinos, contrastam fortemente com a indigna\u00e7\u00e3o ocidental com os eventos que ocorrem na Ucr\u00e2nia. As evid\u00eancias desta hipocrisia servem como um aviso ao lermos a linguagem benevolente usada pelo Ocidente quando se trata da expans\u00e3o da OTAN na \u00c1frica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28854\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"A For\u00e7a Africana de Alerta, criada pela OTAN, iniciou o processo de forma\u00e7\u00e3o de oficiais nas for\u00e7as militares africanas.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-28854","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7vo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28854"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28854\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}