{"id":28895,"date":"2022-06-09T11:17:31","date_gmt":"2022-06-09T14:17:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28895"},"modified":"2022-06-13T11:45:23","modified_gmt":"2022-06-13T14:45:23","slug":"fadi-kassem-por-um-verdadeiro-partido-comunista-na-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28895","title":{"rendered":"Fadi Kassem: &#8220;Por um verdadeiro Partido Comunista na Fran\u00e7a&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-32.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Entrevista com Fadi Kassem [1] &#8211; do Polo para o Renascimento Comunista na Fran\u00e7a (PRCF)<\/strong><\/p>\n<p>Carmen Susana Tornquist (CST) [2] &#8211; Em primeiro lugar, gostar\u00edamos de saber como foi criado o Polo para o Renascimento do Comunismo na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Fadi Kassem (FK) &#8211; O Polo para o Renascimento Comunista na Fran\u00e7a (P\u00f4le de Renaissance Communiste en France (PRCF) nasceu em 2004, ou seja, h\u00e1 18 anos. Inicialmente, foram os antigos membros do Partido Comunista Franc\u00eas (PCF) que o criaram. Mas, a partir da d\u00e9cada de 1970, o PCF abandonou progressivamente tudo: a ditadura do proletariado, em 1976, a refer\u00eancia ao marxismo-leninismo em 1979, depois, em 1994, o centralismo democr\u00e1tico. Todos os camaradas que fundaram o PRCF primeiramente tentaram resistir e combater o que n\u00f3s chamamos de euro-muta\u00e7\u00e3o, a muta\u00e7\u00e3o nociva do que oficialmente se chama eurocomunismo \u2013 com o objetivo de salvar o marxismo-leninismo, no interior do Partido e no seio da coordena\u00e7\u00e3o comunista. Como isto n\u00e3o foi poss\u00edvel, os camaradas conclu\u00edram que o PCF estava globalmente perdido e decidiram reconstru\u00ed-lo desde o exterior; ent\u00e3o, um significativo n\u00facleo decidiu fundar o Polo para o Renascimento do Comunismo na Fran\u00e7a (PRCF), com dois objetivos importantes: reconstruir um verdadeiro partido comunista, pois o PCF atual n\u00e3o tem tem grande coisa de comunista, e liderar a luta pelo que chamamos de Frexit Progressista [3]. Como comunistas, queremos acabar com o capitalismo de uma vez por todas, mas queremos fazer isso metodicamente, combatendo todas as estruturas de poder a fim de destru\u00ed-las, particularmente a Uni\u00e3o Europeia que impede, por defini\u00e7\u00e3o, que exista o comunismo, obviamente, mas que impede at\u00e9 mesmo pol\u00edticas sociais um pouco mais ambiciosas. \u00c9 por isto que n\u00f3s estamos convocando a sa\u00edda do euro, da Uni\u00e3o Europeia (UE) e da OTAN que \u00e9 uma m\u00e1quina de guerra contra o povo \u2013 e a Am\u00e9rica Latina sabe algo sobre isso! &#8211; com certeza, lutando contra o capitalismo. Ent\u00e3o esses s\u00e3o os objetivos e isso explica porque o PRCF existe h\u00e1 18 anos, com a esperan\u00e7a dia a dia, m\u00eas a m\u00eas de reconstruir um partido comunista verdadeiramente marxista-leninista.<\/p>\n<p>CST &#8211; E como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas que fazem parte do PCF e tamb\u00e9m os outros apoiadores do PRCF?<\/p>\n<p>FK \u2013 N\u00f3s distinguimos a estrutura do PCF \u2013 que est\u00e1 bloqueada \u2013 dos dirigentes nacionais que, globalmente, preferem se dar bem com o Partido Socialista durante as elei\u00e7\u00f5esmunicipais, legisltativas(e isto se observa ainda hoje com a Nova Uni\u00e3o Popular Ecologista e Social, etc.) dos militantes: alguns tem um duplo perntecimento PCF\/PRCF, porque n\u00e3o somos um partido, somos um Polo. N\u00f3s queremos animar a reconstru\u00e7\u00e3o de um partido. Eu diria que, no momento atual, desde fora do PCF, somos a principal for\u00e7a que tem esse objetivo, mas, n\u00e3o somos os \u00fanicos, e depois, n\u00f3s, sozinhos, n\u00e3o podemos faz\u00ea-lo. A ideia \u00e9 encontrar todos os comunistas, inclusive os de dentro do PCF, que compartilham desta constata\u00e7\u00e3o. Os que permanecem no PCF acreditam que ainda podemos mudar a partir de dentro\u2026 N\u00f3s acreditamos que isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e que temos que passar a outra coisa. Existem \u00e0s vezes diverg\u00eancias e tens\u00f5es, mas n\u00f3s mantemos liga\u00e7\u00f5es com militantes, militantes do PCF, porque n\u00e3o estamos fechados: pelo contr\u00e1rio e militamos por um verdadeiro encontro, uma verdadeira uni\u00e3o.<\/p>\n<p>CST &#8211; E na CGT (Conf\u00e9d\u00e9ration G\u00e9n\u00e9rale du Travail), a grandiosa central sindical francesa [iv]? Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do Polo, as rela\u00e7\u00f5es com a Confedera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>FK \u2013 A quest\u00e3o \u00e9 complexa, porque a CGT a dire\u00e7\u00e3o da confedera\u00e7\u00e3o, seguiu o mesmo caminho que a dire\u00e7\u00e3o nacional do PCF, ou seja, aceitando a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia etc. Mas ainda \u00e9, paradoxalmente, mais f\u00e1cil para n\u00f3s [nos relacionarmos] com a CGT. Claro, h\u00e1 pessoas que, por isto, claramente nos odeiam \u2013 porque dizem que somos \u201cmuito cr\u00edticos\u201d, \u201cmuito comunistas\u201d, \u00abmuito divisionistas\u00bb etc. E h\u00e1 outros, ao contr\u00e1rio, que concordam com o discurso que temos, que \u00e9 o de desenvolver um sindicalismo verdadeiramente revolucion\u00e1rio, de luta. Para melhor compreender isto, \u00e9 preciso saber que a CGT \u00e9 composta de federa\u00e7\u00f5es nacionais, como a dos ferrovi\u00e1rios, de Uni\u00f5es Regionais(URs), Uni\u00f5es departamentais(UDs) e Uni\u00f5es Locais(ULs). Recentemente, na primavera passada, tivemos uma reuni\u00e3o com o secret\u00e1rio do sindicato local da CGT de Tourcoing (cidade do norte da Fran\u00e7a), e juntou-se ao PRCF e poucos dias depois o sindicato local de Tourcoing, juntou-se \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Mundial de Sindicatos (FSM), entrando em ruptura com a Confedera\u00e7\u00e3o Europeia de Sindicatos (CES), porque a CES \u00e9 um instrumento de colabora\u00e7\u00e3o de classes no \u00e2mbito da Uni\u00e3o Europeia que destr\u00f3i todas as conquistas sociais, todos os direitos dos trabalhadores, todas as liberdades p\u00fablicas. \u00c9 por isto que n\u00f3s estamos dizendo que \u00e9 necess\u00e1rio acabar com a Uni\u00e3o Europeia e, portanto, com a CES, a fim de que um verdadeiro sindicalismo de classes e de massas se reconstrua: isto significa aderir \u00e0 FSM e, nacionalmente, desenvolver uma verdadeira CGT de combate, e n\u00e3o uma CGT que colabora com os empregadores, como faz o secret\u00e1rio confederal nacional Philippe Martinez. [v]<\/p>\n<p>CST &#8211; E quais s\u00e3o os sindicatos do setor p\u00fablico mais pr\u00f3ximos do Polo neste momento, na Fran\u00e7a? Ou, se voc\u00ea preferir, quais s\u00e3o os mais radicalizados atualmente, na Fran\u00e7a?<\/p>\n<p>FK &#8211; Como n\u00f3s somos uma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o determinamos as posi\u00e7\u00f5es dos sindicatos. E, de fato, o que queremos \u00e9 reunir o sindicalismo de classe e de combate. Militamos para uma reuni\u00e3o dos sindicalistas de classe e de combate e, para n\u00f3s, a organiza\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria \u2013 mas n\u00e3o a \u00fanica \u2013 \u00e9 a CGT. Temos contatos muito bons, por exemplo, com um setor da Federa\u00e7\u00e3o dos Motoristas, sobretudo com a se\u00e7\u00e3o de Versalhes, nos Yvelines ) e com a CGT \u2013 Energia Paris. E temos boas rela\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Departamental de Vend\u00e9e. Ent\u00e3o temos contatos com alguns camaradas da CGT que a deixaram ou que ainda s\u00e3o seus membros, e acabamos de realizar, no Primeiro de maio deste ano, um dossi\u00ea sobre os sindicalistas da CGT na nossa revista Iniciativa Comunista. A CGT \u00e9, ent\u00e3o, o sindicato que consideramos priorit\u00e1rio, mas n\u00e3o exclusivo: temos camaradas na PRCF que, por exemplo, s\u00e3o sindicalizados no sindicato SUD [vi], um sindicato radical n\u00e3o-comunista no qual seus membros \u00e0s vezes tem posi\u00e7\u00f5es que n\u00f3s consideramos desvios esquerdistas. Mas h\u00e1 l\u00e1 muito bons militantes que lutam lutam, globalmente, pelos interesses dos trabalhadores: temos camaradas sindicalistas no SUD para a prote\u00e7\u00e3o das florestas no \u00e2mbito do Gabinete Nacional das Florestas (Office nationale des For\u00eats); tamb\u00e9m temos um camarada sindicalizado na For\u00e7a Oper\u00e1ria (Force ouvri\u00e8re) \u2013 (FO): este \u00e9 um caso interessante, porque Force Ouvri\u00e8re \u00e9 historicamente anticomunista, na verdade. Mas desde alguns anos, notamos que os panfletos distribu\u00eddos pela PRCF nas manifesta\u00e7\u00f5es foram levados pelos sindicalistas da Force Ouvri\u00e8re, porque h\u00e1 uma radicaliza\u00e7\u00e3o, em uma pequena parte dos sindicalistas da FO e que s\u00e3o cada vez menos hostis a n\u00f3s. Digamos que a CGT \u00e9 o nosso parceiro priorit\u00e1rio, mas n\u00e3o estamos fechados a conversas e trocas com sindicalistas do Sud e da FO. Por outro lado, com a CFTD, que \u00e9 o outro grande sindicato franc\u00eas completamente alinhado com a CES, n\u00e3o temos muito que esperar, infelizmente.<\/p>\n<p>CST &#8211; E nos servi\u00e7os p\u00fablicos, por exemplo, funcion\u00e1rios de sa\u00fade, pessoas que trabalhamem hospitais e escolas, professores como voc\u00ea, etc., como funcionam as coisas?<\/p>\n<p>FK &#8211; No campo dos servi\u00e7os p\u00fablicos, tamb\u00e9m existem sindicatos muito espec\u00edficos&#8230; Por exemplo, na Educa\u00e7\u00e3o Nacional, o principal sindicato da Fran\u00e7a se chama SNES (Syndicat Nationale d\u2019 einsegnement secondaire), formado pelas escolas e liceus (ensino m\u00e9dio), que envolvem os estudantes que frequentam a escola dos 11 aos 18 anos. Eu, particularmente, estou no SNES porque \u00e9 o mais importante, mas n\u00e3o \u00e9 necessariamente o mais combativo. O que deve ser visto, por exemplo, na Educa\u00e7\u00e3o Nacional, \u00e9 que h\u00e1 uma grande desarticula\u00e7\u00e3o, muitos professores est\u00e3o resignados com o desmonte do servi\u00e7o p\u00fablico e que perderam a combatividade. Mas \u00e9 poss\u00edvel mobilizar localmente: por exemplo, no col\u00e9gio onde trabalho, h\u00e1 3 ou 4 colegas sindicalizados bastante din\u00e2micos, e conseguimos mobilizar a sala de professores (e sempre com apoio dos pais dos estudantes) e muitas vezes t\u00eam taxas de greve de pelo menos 40 ou 50 % quando h\u00e1 greve, ainda conseguimos liderar uma luta local. No contexto da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, muitas vezes \u00e9 o SNES, mas tamb\u00e9m \u00e9 a CGT, SUD, e pronto. Na sa\u00fade \u00e9 um pouco parecido. A CGT, no entanto, est\u00e1 suficientemente presente, Solidaires tamb\u00e9m\u2026 E, de fato, tudo depende de qual setor de servi\u00e7os p\u00fablicos. No caso da pol\u00edcia, infelizmente, muitas vezes s\u00e3o sindicatos de direita, ou at\u00e9 mais, que n\u00e3o s\u00e3o realmente sindicatos, mas, sim, \u00abretransmissores\u00bb de influ\u00eancia pol\u00edtica &#8230; N\u00f3s temos alguns contatos com a pol\u00edcia, por exemplo, o sindicato Vigie, que \u00e9 um sindicato espec\u00edfico da pol\u00edcia, e tamb\u00e9m tentamos estabelecer contato com a CGT. O certo \u00e9 que a CGT e o CFTD s\u00e3o os mais presentes em todos os servi\u00e7os p\u00fablicos, mas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente maioria ou principais sindicatos, como na Educa\u00e7\u00e3o Nacional.<\/p>\n<p>CST \u2013 E o fen\u00f4meno dos Gilets Jaunes (GJ) [7], que tanto tem chamado aten\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos? O Polo frequentemente se refere a eles\u2026 Gostaria muito que voc\u00ea falasse um pouco sobre esse assunto.<\/p>\n<p>FK &#8211; Claro! Em 9 de novembro, fui convidado pelo Mouvement Constituant Populaire (Movimento constituinte popular), que \u00e9 um grupo dos Gilets Jaunes (GJ), para falar da campanha pol\u00edtica que estamos liderando pelo Frexit Progressista. Isto expressa claramente os la\u00e7os que temos com os GJ desde seu in\u00edcio. Quando o movimento come\u00e7ou, no dia 17 de novembro de 2018, o PRCF imediatamente tomou uma posi\u00e7\u00e3o em favor dos GJs, dissemos claramente: \u201capoio absoluto aos GJ, agora mesmo\u201d. T\u00ednhamos feito um panfleto para isso, e muito rapidamente\u2026 (a gente estava no movimento com os GJ, com o nosso discurso tamb\u00e9m, mas&#8230; a gente n\u00e3o queria disputar o movimento: n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos e isto estava fora de quest\u00e3o\u2026 Era claramente uma revolta de trabalhadores e de cidad\u00e3os indignados frente ao aumento do pre\u00e7o da gasolina. Ent\u00e3o \u2013 e n\u00e3o se falau muito sobre isso, mas \u00e9 um dado central \u2013 o fato de que a velocidade nas estradas secund\u00e1rias foi reduzida de 10 km\/hora. No entanto, como h\u00e1 muitos radares de velocidade, e as pessoas tinham que ir trabalhar de manh\u00e3, bem, elas foram flagradas de uma hora para outra com a mudan\u00e7a, e receberam multas, e, bem, eram multas de alto valor. E tudo isso acumulado ao alto custo de vida, dado de \u00abpresente\u00bb para os mais ricos, capitalistas etc., e, bem, depois de quase 40 anos de pol\u00edtica ultra capitalista, houve uma revolta popular, e n\u00f3s, imediatamente, apoiamos. O importante a destacar \u00e9 que os Gilets Jaunes s\u00e3o bem hostis aos partidos pol\u00edticos. Ent\u00e3o, n\u00f3s, como forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder\u00edamos ter tido uma recep\u00e7\u00e3o bastante negativa: mas n\u00e3o foi o caso. Em primeiro lugar, porque, como eu disse, nunca tivemos o objetivo de dirig\u00ed-los; n\u00f3s \u00edamos para discutir, trocar e disseminamos certas ideias, mas n\u00e3o est\u00e1vamos l\u00e1 para disputar o movimento e nem fazer filia\u00e7\u00f5es a qualquer pre\u00e7o; desde ent\u00e3o, s\u00e3o os diversos grupos de GJ que est\u00e3o nos buscando e n\u00f3s estamos reiteradamente constatando que somos um dos raros grupos pol\u00edticos na Fran\u00e7a que foram sinceros na abordagem com eles. Ent\u00e3o, tr\u00eas anos e meio depois, temos tido boas rela\u00e7\u00f5es com v\u00e1rios grupos de GJ que nos contactam para transmiss\u00f5es, para manifesta\u00e7\u00f5es e que at\u00e9 desejam que os ajudemos na organiza\u00e7\u00e3o do movimento, na estrutura\u00e7\u00e3o, na reflex\u00e3o coletiva e cidad\u00e3. N\u00f3s apoiamos de imediato os GJ, e, em contrapartida, certos grupos mant\u00e9m, rela\u00e7\u00f5es conosco e numerosos grupos n\u00e3o nos s\u00e3o desfavor\u00e1veis.<\/p>\n<p>CST &#8211; E sobre a Lei do Trabalho(\u00abLoi Travail\u00bb), que foi promulgada, votada e discutida em 2016, j\u00e1 no governo de Macron?<\/p>\n<p>FK &#8211; \u00c9 isso! Ela foi publicada em 2016, e, em seguida, nos tivemos o que chamamos de \u00abordenan\u00e7as\u00bb, ou seja, decis\u00f5es que o governo aprova pela for\u00e7a (mesmo quando \u00e9 o presidente que deu a \u00abordem\u00bb) sem passar sequer pelo debate na Assembleia Nacional. Ou seja, \u00abzero\u00bb debate!<\/p>\n<p>CST &#8211; Ent\u00e3o, podemos dizer que a Lei do Trabalho flexibiliza enormemente os contratos de trabalho ?<\/p>\n<p>FK &#8211; Sim, muito claramente, e por isso n\u00f3s a chamamos de Loi Ch\u00f4mage (Lei do Desemprego). Na Fran\u00e7a, o C\u00f3digo do Trabalho \u00e9 uma conquista dos sindicatos de luta, de classista, sobretudo, e foi verdadeiramente bem estruturado desde 1910\u2026. Uma das medidas emblem\u00e1ticas do C\u00f3digo do Trabalho foi que, anteriormente, quando havia um acordo entre empregadores e trabalhadores, este era um acordo setorial, ou seja, de abrang\u00eancia nacional: por exemplo, o setor ferrovi\u00e1rio da CGT, de que falei, que negocia em n\u00edvel nacional com a dire\u00e7\u00e3o nacional da SNCF (Soci\u00e9t\u00e9 Nationale des Chemins de Fer) [8]. Com a Lei do Desemprego, em 2016, passamos para um acordo de empresa. Ou seja, a partir de agora, o acordo passou a ser feito em uma \u00fanica empresa. Assim, um chefe de uma empresa pode decidir aumentar as horas de trabalho, diminuir os sal\u00e1rios etc. e necessariamente, nesta escala, o sindicalismo \u00e9 menos forte, quanto menor a escala, menos forte ele ser\u00e1, mesmo que seja combativo. Foi uma das medidas importantes, al\u00e9m do fato de que era poss\u00edvel demitir com muito mais facilidade e al\u00e9m de receber menos dinheiro no tribunal de justi\u00e7a \u2013 que se chama Le Conseil des Prud&#8217;homme \u2013 quando somos demitidos. Entretanto, foi um governo dito socialista que fez isto! Uma nova trai\u00e7\u00e3o \u2013 os socialistas na Fran\u00e7a traem desde 1914, j\u00e1 estamos acostumados \u2013 n\u00e3o era uma novidade. Mas foi a maior de todas as trai\u00e7\u00f5es! E depois, esta Lei \u00abDesemprego\u00bb era uma exig\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia., pois o pr\u00f3prio Presidente da Comiss\u00e3o Europ\u00e9ia, na \u00e9poca, Jean Paul Dunker disse: \u201cA Lei do Trabalho, o poder, somos n\u00f3s! N\u00f3s a queremos&#8221;. Assim como destruir pens\u00f5es, aumentar gradualmente o tempo de trabalho para ir at\u00e9 48 horas, como , tamb\u00e9m, o fim da Seguridade social. Tudo isto expressa a aplica\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es tomadas ao n\u00edvel da Uni\u00e3o Europeia\u2026 E Macron \u00e9 o candidato de tudo isso: em 2017, ganhou, e s\u00f3 refor\u00e7ou o que foi votado em 2016. Ora, uma boa parte da esquerda \u2013 entre elas o PCF e a France Insoumise [9] de Jean-Luc M\u00e9lenchon, pensam que ainda podemos fazer uma Europa social. Isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Desde suas origens, o que a UE tem feito \u00e9 destruir tudo em termos de conquistas sociais e democr\u00e1ticas. As pessoas, os cidad\u00e3os, os trabalhadores percebem isso. As Ordenan\u00e7as da Lei do Trabalho foram aprovadas apesar da forte oposi\u00e7\u00e3o nas ruas, houve uma viol\u00eancia terr\u00edvel naquele momento que foi desencadeada contra os trabalhadorese sindicalistas, e depois, contra os GJ, por parte das for\u00e7as da \u00abordem\u2019, ou, melhor seria dizer, \u00abfor\u00e7as da desordem\u00bb, e consequentemente, os trabalhadores e os cidad\u00e3os est\u00e3o realmente resignados e confiam cada vez menos no capitalismo, isso \u00e9 \u00f3bvio, e mesmo nos partidos que se dizem de esquerda, que deveriam represent\u00e1-los como o PCF e la France Insoumise (e mesmo que a Nouvelle Union Populaire \u00e9cologique et sociale\u00bb crie uma ilus\u00e3o quanto \u00e0 isto \u2013 cada vez mais os trabalhadores n\u00e3o confiam mais, ent\u00e3o n\u00e3o votam mais.<\/p>\n<p>CST &#8211; E, na tua avalia\u00e7\u00e3o, quais s\u00e3o os desafios para os comunistas diante da fascistiza\u00e7\u00e3o da Europa, na Fran\u00e7a? [10]<\/p>\n<p>FK \u2013 Essa \u00e9 uma quest\u00e3o central. N\u00f3s temos dois principais objetivos enquanto comunistas. Para come\u00e7ar, a paz (e ainda mais agora, com o que se passa na Ucr\u00e2nia). O que requer acabar com o imperialismo e o fascismo. E o que est\u00e1 acontecendo na Fran\u00e7a \u00e9 que o PRCF desde o in\u00edcio n\u00e3o parou de denunciar, \u00e9 o que voc\u00ea dizia: a fascitiza\u00e7\u00e3o. Quer dizer que, pouco a pouco, a cada dia, uma conquista social, uma liberdade p\u00fablica est\u00e1 ruindo. A extrema direita \u00e9 desinibida&#8230; pode se expressar como quiser. \u00c9ric Zemmour [11] \u00e9 produto desta fascistiza\u00e7\u00e3o. Marine Le Pen \u00e9 produto dessa fascistiza\u00e7\u00e3o. E durante anos fomos os \u00fanicos, e repito: os \u00fanicos \u2013 no PRCF &#8211; a denunciar a fascistiza\u00e7\u00e3o. A consequ\u00eancia \u00e9 que agora, as forma\u00e7\u00f5es de esquerda percebem o perigo cada vez mais\u2026 Mas, quando eu digo os \u00fanicos, \u00e9 preciso nuan\u00e7ar: sempre existiram movimentos antifascistas na Fran\u00e7a e que al\u00e9m disso acusam o PRCF de ser \u00abconfusionista\u00bb, ou seja, que de fato n\u00e3o \u00e9ramos realmente de esquerda, mas de parecermos ser de extrema direita. Por que eles estavam dizendo isso? Porque associamos a bandeira vermelha, a bandeira do internacionalismo prolet\u00e1rio \u00e0 bandeira tricolor, \u00e0 bandeira da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. E esses movimentos antifascistas, mesmo anarquistas, mao\u00edstas, avaliam que o tricolor \u00e9 o fascismo. Isto \u00e9 falso. \u00c9 exatamente o oposto. Exatamente o contr\u00e1rio porque o tricolor \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa contra os monarquistas, contra os aristocratas, contra todos aqueles que queriam destruir a soberania nacional. E n\u00f3s, precisamente, dizemos que a soberania nacional e popular se realiza no quadro da na\u00e7\u00e3o, porque a Na\u00e7\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e \u00e9 nesse quadro que obtemos, atualmente, mais direitos sociais, direitos democr\u00e1ticos\u2026 E quanto mais destru\u00edmos a na\u00e7\u00e3o, mais entramos no jogo de for\u00e7as fascistas que historicamente \u2013 e sempre \u2013 tra\u00edram a Fran\u00e7a. Sempre! Como em 1940, quando colaboraram com Hitler. Os combatentes da Resist\u00eancia, em nome da bandeira vermelha e da tricolor, foram os comunistas. Eis porque a fascistiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a: no aparato policial e militar do Estado, temos cada vez mais \u2013 n\u00e3o a maioria, mas uma boa parte de pessoas \u2013 que t\u00eam ideias de extrema-direita. Em 2021, houve uma coluna publicada em que os generais pediram claramente que a ordem fosse restaurada na Fran\u00e7a, notadamente estigmatizando os mu\u00e7ulmanos. Ent\u00e3o, de fato, estamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que a extrema direita, ainda presente nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do segundo turno, se aproveitou das demiss\u00f5es, dos abandonos da esquerda, em particular da chamada esquerda revolucion\u00e1ria \u2013 incluindo o PCF \u2013 e, do fato de que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social se deteriorou de uma forma inimagin\u00e1vel por quarenta anos e, nesta passagem, estigmatizando bodes expiat\u00f3rios e \u00ab respons\u00e1veis\u00bb: os mu\u00e7ulmanos, estes aqui, aqueles ali&#8230;Estamos denunciando isto h\u00e1 anos, estamos finalmente satisfeitos ao ver que este tema da fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais levado \u00e0 s\u00e9rio pela esquerda. Um outro elemento importante para compreender a diferen\u00e7a entre o PRCF e outras for\u00e7as pol\u00edticas \u00e9 que nos dizemos claramente que a fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 aceita voluntariamente e promovida pela Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. A UE em 19 de setembro de 2019 aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o \u2013 da extrema direita aos socialistas e ambientalistas (menos o PCF, nem a France Insoumise) \u2013 votaram uma resolu\u00e7\u00e3o que afirma que o comunismo \u00e9 como o nazismo. Quando dizemos isso, abrimos caminho para a fascistiza\u00e7\u00e3o porque nos subentendemos que o comunismo equivale ao nazismo (que, este tamb\u00e9m, \u00e9 banalizado). \u00c9 abrir caminho em toda a Europa para a ascens\u00e3o do fascismo e da extrema direita e n\u00f3s somos os \u00fanicos, verdadeiramente, a lutar contra esta resolu\u00e7\u00e3o odiosa. Eu sequer ouvi o PCF manifestar-se sobre este assunto. Isso mostra a gravidade da situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>CST &#8211; Voc\u00eas formularam uma proposta tendo por tema a Bandeira (Alternativa tricolor) no contexto das elei\u00e7\u00f5es&#8230; poderia falar um pouco sobre esta campanha?<\/p>\n<p>FK \u2013 Sejamos bem claros: a campanha que estamos fazendo n\u00e3o \u00e9 uma campanha eleitoral, porque sabemos que n\u00e3o temos chance de ser eleitos. N\u00f3s sabemos muito bem que os capitalistas, a burguesia, fazem tudo para controlar as elei\u00e7\u00f5es. O projeto que carregamos, portanto, de reconquistar a soberania nacional popular \u00e9 a Alternativa Tricolor Vermelha, \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o entre essas duas bandeiras. Para n\u00f3s, o tricolor por si s\u00f3 \u00e9 o abandono do tricolor \u00e0 extrema direita, o que n\u00e3o \u00e9, de fato, patri\u00f3tico. Essas pessoas n\u00e3o se sentem imcomodadas de estar sob o dom\u00ednio dos capitalistas, de colaborar com a Alemanha Nazista entre 1940 e 1944, de obedecer Washington e Bruxelas, elas ridicularizam a soberania da Fran\u00e7a e o povo franc\u00eas. Mas, ao mesmo tempo, a bandeira vermelha sozinha n\u00e3o tem nenhuma base material na Fran\u00e7a muito concretamente sem se apoiar sobre a na\u00e7\u00e3o, etc. Porque a educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e9 nacional; o Sistema de Previd\u00eancia social est\u00e1 dentro da estrutura da na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de dizer \u2013 ao contr\u00e1rio do que muitos dizem \u2013 que ser\u00edamos contra o internacionalismo, muito pelo contr\u00e1rio. Jean Jaur\u00e8s disse perfeitamente, que um pouco de internacionalismo se afasta da p\u00e1tria. E muito internacionalismo a traz de volta para l\u00e1. E acrescentou que, inversamente, um pouco de patriotismo afasta o internacionalismo e muito patriotismo o mant\u00e9m. Marx-Engels, depois L\u00eanin e St\u00e1lin, tinham entendido perfeitamente que era preciso articular a quest\u00e3o nacional com a quest\u00e3o da luta pelo socialismo. \u00c9 o que estamos fazendo e por isso associamos a bandeira vermelha da Revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e a bandeira tricolor da Revolu\u00e7\u00e3o francesa. Pela soberania do povo. Somos os \u00fanicos a propor este projeto que consiste em romper com todas as for\u00e7as que impedem a soberania nacional e popular (o euro, a Uni\u00e3o Europeia, a OTAN) e a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista, queremos acabar com o capitalismo, porque somos comunistas para construir uma sociedade socialista.<\/p>\n<p>CST &#8211; Gostaria que voc\u00ea abordasse um pouco sobre um tema sobre o qual Georges Gastaud [12] tem falado bastante: a defesa da l\u00edngua francesa.<\/p>\n<p>FK &#8211; Sim, Georges Gastaud hoje \u00e9 hoje o secret\u00e1rio adjunto do PRCF,ap\u00f3s termos sido juntos co-secret\u00e1rios nacionais por dois anos. Em primeiro lugar, quero dizer que Georges Gastaud, al\u00e9m de ser um camarada, \u00e9 meu amigo. Ou seja, n\u00f3s entendemos perfeitamente, gostamos de nos ver. Ele inscreve um tra\u00e7o extremamente precioso na hist\u00f3ria do marxismo-leninismo atrav\u00e9s de uma reflex\u00e3o not\u00e1vel e, em particular, \u00e9 verdade, sobre a quest\u00e3o da l\u00edngua, discurso que que subbscrevo totalmente. Hoje o que chamamos de globish \u2013 n\u00e3o a l\u00edngua enquanto tal \u2013 \u00e9 usada nos neg\u00f3cios, no direito, na gest\u00e3o, em tudo, imp\u00f5e de fato diretrizes capitalistas aos trabalhadores e est\u00e1 se espalhando por toda parte. N\u00f3s n\u00e3o somos hostis \u00e0 cultura brit\u00e2nica, nem \u00e0 cultura estado-unidense, quero dizer, a m\u00fasica, os filmes, tudo isso, sem problemas. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre apreciar elementos em p\u00e9 de igualdade entre todas culturas e linguas e aceitarmos uma verdadeira coloniza\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica em n\u00edvel mundial. Quando falamos de globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o estamos tratando de cultura de verdade, mas de algo muito padronizado, muito &#8220;de massa&#8221; que est\u00e1 destruindo todas as l\u00ednguas nacionais, n\u00e3o apenas o franc\u00eas, e que est\u00e1 se tornando a \u00fanica l\u00edngua sem ser uma l\u00edngua no sentido cultural, civilizacional ou mesmo pol\u00edtico, \u00e9 um elemento de controle econ\u00f4mico, particularmente \u2013 e legalmente \u2013 sobre os trabalhadores. E n\u00f3s, o que dizemos \u00e9 que a l\u00edngua francesa \u00e9 uma ferramenta de trabalho, de luta, de emancipa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A Fran\u00e7a foi constru\u00edda em torno da l\u00edngua, em particular como uma ferramenta pol\u00edtica, n\u00e3o como uma ferramenta cultural. Ela foi constru\u00edda pelos reis, como Fran\u00e7ois I que, em 1539, fez do franc\u00eas a l\u00edngua administrativa do pa\u00eds, a l\u00edngua \u00fanica. Depois, foram os revolucion\u00e1rios de 1794 que afirmaram com raz\u00e3o que o franc\u00eas era a l\u00edngua da liberdade (abade Greg\u00f3rio, em 1794), a l\u00edngua da Revolu\u00e7\u00e3o, a l\u00edngua da na\u00e7\u00e3o unida e indivis\u00edvel. N\u00f3s estamos bastante decididos a resgatar a l\u00edngua francesa \u2013 assim como todas as l\u00ednguas nacionais no mundo inteiro. E, de passagem, assinalo que n\u00e3o somos hostis, ali\u00e1s, ao contr\u00e1rio do que se possa pensar, \u00e0s l\u00ednguas regionais. N\u00e3o h\u00e1 problemas com o bret\u00e3o, o basco, o catal\u00e3o, o corso, o flamengo e outros, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o sejam l\u00ednguas oficiais reconhecidas. Uma l\u00edngua oficial \u00fanica deve ser reconhecida na Fran\u00e7a e esta \u00e9 o franc\u00eas. Que existam l\u00ednguas como o bret\u00e3o, que os estudantes o aprendam na escola, n\u00e3o h\u00e1 problema, desde que n\u00e3o se torne uma l\u00edngua da Rep\u00fablica porque, se for assim, n\u00e3o h\u00e1 mais Rep\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 mais uma Fran\u00e7a unida, acabou, ent\u00e3o essa \u00e9 a nossa posi\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia busca transformar o ingl\u00eas em uma \u00fanica l\u00edngua, ou seja, nem franc\u00eas, nem alem\u00e3o, nem espanhol, nem portugu\u00eas, nem eslovaco, nem finland\u00eas. Ora, isso, para n\u00f3s, \u00e9 tamb\u00e9m a base da domina\u00e7\u00e3o, o regime do grande capital. O ex-chefe da MEDEF [13], Ernest Antoine Seill\u00e8re, em 2004, explicou claramente que o ingl\u00eas (no sentido de globish), \u00e9 a l\u00edngua dos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>CST: E sobre o que hoje chamamos de identitarismo, de direita ou de esquerda? Voc\u00ea poderia comentar um pouco a respeito disto?<\/p>\n<p>FK: Sim, com certeza. O primeiro identitarismo, historicamente, \u00e9 o da extrema direita. S\u00e3o pessoas que acham que a Fran\u00e7a \u00e9 quase algo que foi constru\u00eddo por algo da ordem do divino, pela vontade de Deus, necessariamente crist\u00e3o &#8230; Ao rev\u00e9s, a extrema-direta essencializa: os franceses s\u00e3o crist\u00e3os e \u00abponto final\u00bb; sem considerar que o cristianismo se imp\u00f4s na Fran\u00e7a durante s\u00e9culos n\u00e3o porque as pessoas de repente quisessem se tornar crist\u00e3s, mas porque havia instrumentos de controle, pol\u00edticos e sociais para isto. N\u00e3o se trata do fato de ler a B\u00edblia, mas o fato de impor uma ordem social, uma ordem pol\u00edtica e uma ordem pol\u00edtica estabelecida que satisfez, na Idade M\u00e9dia, os senhores, os Reis; em conclus\u00e3o: explora\u00e7\u00e3o: a explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores, e isso n\u00e3o mudou, desde este ponto de vista. Mas a extrema direita construiu um identitarismo sobre esta ordem, historicamente, foi contra os judeus atrav\u00e9s do anti-semitismo e que, al\u00e9m disso, existe, ainda, e pior, hoje. \u00c9ric Zemmour, ele mesmo de confiss\u00e3o judia, historiquemente, tenta reabilitar a figura do Marechal P\u00e9tain, querendo fazer crer que este salvou os judeus franceses durante a Segunda Guerra Mundial, o que \u00e9 totalmente falso. Quanto \u00e0 xenofobia, ora, ela existia no final do s\u00e9culo XIX e no in\u00edcio do s\u00e9culo XX em rela\u00e7\u00e3o aos italianos, poloneses e espanh\u00f3is. Hoje, s\u00e3o os mu\u00e7ulmanos que s\u00e3o visados e, al\u00e9m disso, o que \u00e9 interessante \u00e9 que essas pessoas esquecem que o Isl\u00e3 sendo uma religi\u00e3o, pode-se ser franc\u00eas n\u00e3o imigrante e mu\u00e7ulmano ao mesmo tempo. Na realidade atr\u00e1s, tamb\u00e9m \u00e9 racismo principalmente em rela\u00e7\u00e3o aos norte-africanos, principalmente argelinos, porque h\u00e1 tamb\u00e9m o trauma que persiste, da Guerra da Arg\u00e9lia, que em breve, ali\u00e1s, completar\u00e1 o 60\u00ba ano da Independ\u00eancia. Trata-se de um epis\u00f3dio que marcou muito e estrutura, at\u00e9 hoje, a mentalidade da extrema direita. A consequ\u00eancia \u00e9 que foi a extrema direita que criou essas categorias, como \u00ab mu\u00e7ulmanos \u00bb. O problema \u00e9 que numa parte da esquerda radical \u2013 em geral, trotskista \u2013 foram se desenvolvendo as teorias nas quais a gente escuta falar de wokismo [14] &#8211; de n\u00e3o sei o qu\u00ea, ou seja, que consiste em dizer que h\u00e1 racismo (sim, isto \u00e9 verdade!), mas que isto \u00e9 estrutural, quer dizer por defini\u00e7\u00e3o: estruturalmente a Fran\u00e7a \u00e9 racista. Bem, n\u00e3o, isto n\u00e3o \u00e9 verdade! \u00c9 verdade para uma boa parte da burguesia deste pa\u00eds, que encorajou a coloniza\u00e7\u00e3o. Mas esta \u00abesquerda radical\u00bb interpreta a hist\u00f3ria criando identitarismos, que essencializa \u00abos negros\u00bb, \u00abos \u00e1rabes\u00bb, \u00abos mu\u00e7ulmanos\u00bb. Ora, n\u00f3s somos, primeiro, trabalhadores e cidad\u00e3os, qualquer que seja a nossa confiss\u00e3o, quaisquer que sejam as nossas religi\u00f5es, as nossas origens \u00e9tnicas\u2026 e infelizmente, em parte da esquerda francesa, pode-se ver gradualmente estas ideias se difundirem, desdobrando-se sobre atitudes xen\u00f3fobas elas mesmas. H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s aconteceu \u00abuniversidades de ver\u00e3o\u00bb interditadas para brancos. Chegamos a esse tipo de situa\u00e7\u00f5es desconcertantes, reproduzindo de fato os padr\u00f5es da extrema direita, \u00e0s vezes de cabe\u00e7a para baixo, o que alimenta a extrema direita e que pode tamb\u00e9m desdenhar o racismo que existe por parte de alguns dos entre aspas \u201cfranc\u00eas de gema\u201d (\u00ab de souche \u00bb) \u2013 express\u00e3o t\u00edpica da extrema direita e que nao quer dizer nada&#8230;. O PRCF, por defini\u00e7\u00e3o, luta contra o racismo porque \u00e9 o DNA dos marxistas-leninistas, mas recusamos o \u201ccomunitarismo\u201d, porque isto significa colocar etiquetas, essencializar: \u00e9 inviabilizar uma vida comum. Ora, n\u00f3s somos comunistas. Tudo isto se faz em detrimento da luta de classes, que, para n\u00f3s, \u00e9 muito claramente o motor da hist\u00f3ria \u2013 sem negar o racismo que devemos destruir, juntamente com o capitalismo.<\/p>\n<p>CST &#8211; Gostaria de te perguntar, ainda, sobre a experi\u00eancia da pandemia na Fran\u00e7a, uma breve avalia\u00e7\u00e3o do Polo sobre o que se passou e ainda se passa, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>FK: Como em muitas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais, a pandemia nos pegou de surpresa. Est\u00e1vamos com a \u00abcabe\u00e7a no volante\u00bb, lutando contra a destrui\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 aposentadoria e por conseguinte n\u00e3o prestamos devidamente aten\u00e7\u00e3o no in\u00edcio ao que estava a acontecer ao n\u00edvel da pandemia, e ningu\u00e9m falava sobre isso, de qualquer maneira: Come\u00e7ando com Emmanuel Macron que, no dia 6 de mar\u00e7o de 2020, explicou que \u00ab a vida tinha que continuar \u00bb indo ao teatro, e com isto, pensamos que n\u00e3o havia pandemia. E ent\u00e3o, dias depois, quando Macron anunciou o confinamento, foi um choque para todo mundo. A partir desse momento, nosso discurso foi muito claro, e foi o seguinte: em primeiro lugar, \u00e9 uma pandemia. Em seguida, uma grave pandemia, uma doen\u00e7a grave, que mata. Tr\u00eas: apesar disso, o poder instalado n\u00e3o s\u00f3 procurou negar a gravidade da situa\u00e7\u00e3o de entrada, mas pior ainda, multiplicou as mentiras, as inconsist\u00eancias e ao mesmo tempo aproveitou a situa\u00e7\u00e3o para destruir progressivamente as liberdades p\u00fablicas, os direitos sociais. A partir do final de mar\u00e7o de 2020, bem, havia o que se chamava &#8220;Estado de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria&#8221; na Fran\u00e7a&#8230; um conjunto de medidas anti-sociais e antipopulares. Por isso, sempre nos opusemos a todas essas medidas liberticidas que, na verdade, n\u00e3o tratavam, n\u00e3o apenas n\u00e3o tratavam, mas, pior ainda, agravavam a situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea deve saber que h\u00e1 18 meses, enquanto est\u00e1vamos em plena pandemia, os fechamentos de leitos hospitalares continuaram, aumentaram, pioraram. Eu me lembro muito bem que em 14 de fevereiro de 2020, quando houve uma manifesta\u00e7\u00e3o das equipes de sa\u00fade dos hospitais, fomos um dos poucos grupos pol\u00edticos presentes para apoi\u00e1-los. No dia 14 de novembro de 2019 tamb\u00e9m, porque faz anos, muitos anos que os Hospitais P\u00fablicos vem sendo massacrados. Nos encontr\u00e1vamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e1vamos em uma pandemia grave, com muitas inconsist\u00eancias e mentiras por parte do governo, por parte da macronie [15], que explicava, primeiramente, que \u00ab isto n\u00e3o \u00e9 grave\u00bb, para, logo a seguir, fechar tudo. Assim, Macron explicava que \u00abas m\u00e1scaras s\u00e3o in\u00fateis\u00bb, porque, na verdade n\u00e3o t\u00ednhamos suficinentemente, nenhuma, para logo depois dizer &#8211; uma vez que foram produzidas em massa &#8211; \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio coloc\u00e1-las o tempo todo, mesmo quando voc\u00ea est\u00e1 sozinho na rua&#8221;! Ent\u00e3o era tudo e seu contr\u00e1rio. Isto \u00e9 importante porque, na Fran\u00e7a, cidad\u00e3os, trabalhadores de boa f\u00e9, come\u00e7aram a desenvolver a idea de uma pandemia, como sendo uma grande reinicializa\u00e7\u00e3o do mundo, ou, como foi chamado, um grande reset e tudo isto. Concordamos com essa ideia, pois \u00e9 claro que foi uma ocasi\u00e3o para o capitalismo impor mais uma vez seu dom\u00ednio. Mas at\u00e9 dizer que a pandemia \u00e9 inventada, que tudo isso foi fabricado, que n\u00e3o se trata de grande coisa, ora, mesmo um pa\u00eds como Cuba socialista tomou medidas dr\u00e1sticas contra a pandemia. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vacinas, bem, h\u00e1 tamb\u00e9m o debate sobre isso na Fran\u00e7a, alguns disseram que a vacina \u00e9 perigosa, ainda mais perigosa que a doen\u00e7a, etc. N\u00f3s, sempre tendo consci\u00eancia de que se trata de um anti-macronismo prim\u00e1rio, que, de sua maneira, alimentou este tipo de discurso: por isto e que nos demandamos que pud\u00e9ssemos ter a produ\u00e7\u00e3o de nossas pr\u00f3prias vacinas, como as de Cuba, China, R\u00fassia \u2026 na medida em que estas eram proibidas e que foi necess\u00e1rio que tiv\u00e9ssemos que esperar as vacinas dos grandes grupos capitalistas, da Pfizer e da Moderna. Inevitavelmente, isso tamb\u00e9m refor\u00e7ou a ideia de que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de conspira\u00e7\u00e3o\u2026 N\u00e3o h\u00e1 nenhuma conspira\u00e7\u00e3o, por outro lado, de que os grupos capitalistas, que Macron e toda a \u00abmacronie\u00bb gostaram muito disto, aproveitando ainda para destruir nossas conquistas sociais e democr\u00e1ticas, mais do que cuidar da sa\u00fade dos trabalhadores, isso \u00e9 indiscut\u00edvel. Mas, h\u00e1 uma pandemia, sim, matou cerca de 120.000 pessoas na Fran\u00e7a, os resultados s\u00e3o muito menos dram\u00e1ticos do que no Brasil e Estados Unidos, isto \u00e9 incontest\u00e1vel, pois justamente no Brasil e nos Estados Unidos, houve essa ideia de que o virus desapareceria porque \u00abn\u00e3o era grave\u00bb, ideia promovida pelos seus dirigentes. Na Fran\u00e7a, poder\u00edamos ter chegado a este est\u00e1gio, ao contr\u00e1rio do que acreditamos, porque Macron estava neste mesmo estado de esp\u00edrito. E, Jean- Michel Blanquer, o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, tamb\u00e9m esteve nesta mesma l\u00f3gica. As mentiras e contradi\u00e7\u00f5es deram a impress\u00e3o de que o governo queria destruir conquistas sociais e democr\u00e1ticas explorando a pandemia. Mas, da\u00ed a dizer que o governo criou a pandemia, n\u00e3o.<\/p>\n<p>CST \u2013 Neste sentido, como o PRCF v\u00ea a quest\u00e3o do Passe sanit\u00e1rio [16] na Fran\u00e7a?<\/p>\n<p>FK &#8211; Isto completa, efetivamente, a quest\u00e3o precedente. Entre as primeiras medidas que foram tomadas na Fran\u00e7a, por exemplo, houve a introdu\u00e7\u00e3o de um passe sanit\u00e1rio, ao qual o PRCF se op\u00f4s fortemente. Para come\u00e7ar, porque n\u00e3o \u00e9 um passe sanit\u00e1rio, ao contr\u00e1rio do que se diz. Se fosse mesmo um passe sanit\u00e1rio, com a ideia de controlar a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, n\u00e3o ver\u00edamos muitas pessoas se amontoando nos trens para ir trabalhar e ser exploradas; n\u00e3o ver\u00edamos a necessidade de pedir um passe sanit\u00e1rio em lugares onde n\u00e3o h\u00e1 muita gente. De fato, acima de tudo, esse passe sanit\u00e1rio seria supostamente tempor\u00e1rio, mas o que o governo decidiu? Estend\u00ea-lo potencialmente at\u00e9 o pr\u00f3ximo dia 31 de julho de 2022 \u2013 antes de ser suspenso um m\u00eas antes do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais quando \u2013 mesmo que a epidemia esteja longe de terminar \u2013 tenhamos agora uma popula\u00e7\u00e3o majoritariamente vacinada, que pratiquemos gestos de barreira, que sejamos disciplinados (e, deste ponto de vista, devemos parabenizar os cidad\u00e3os e trabalhadores da Fran\u00e7a \u2013 e n\u00e3o apenas da Fran\u00e7a \u2013 que realmente mostraram responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o a esta epidemia). Eu acrescentaria que se o objetivo de Macron realmente fosse tratar o problema, mais uma vez, teria havido uma estrat\u00e9gia muito diferente, que seria isolar, testar, como por exemplo o que foi feito em Cuba ou na China. E mesmo, tamb\u00e9m n\u00e3o teriam proibido a chegada de vacinas russas, chinesas ou cubanas. Ora, este n\u00e3o foi o caso. Ou seja, fomos obrigados a vacinar-nos com vacinas que \u2013 o PRCF considera bastante utiliz\u00e1veis \u2013 Pfizer e Moderna \u2013 mas que por um lado enriqueceram os grandes grupos capitalistas e depois, que, por outro lado, est\u00e3o basicamente ligadas \u00e0 submiss\u00e3o apenas a essas vacinas, ao passo que se poderia usar vacinas que teriam tranquilizado uma parte da popula\u00e7\u00e3o, exceto, bem, \u00e9 claro, os \u00abanti-vacinas\u00bb &#8211; prim\u00e1rios, obscurantistas \u2013 quanto a este assunto, ent\u00e3o a quest\u00e3o nem se coloca. O passe sanit\u00e1rio, portanto, tem sido utilizado \u2013 e cada vez mais \u00e9 utilizado \u2013 como instrumento de controle social e pol\u00edtico sobre a popula\u00e7\u00e3o. O mais assustador dessa hist\u00f3ria \u00e9 que, infelizmente, parte da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 se acostumando cada vez mais a isto. Ora, se o objetivo do governo era de dividir mais uma vez os cidad\u00e3os e os trabalhadores. Por exemplo, os cuidadores e enfermeiros, entre os quais alguns preferiram n\u00e3o ser vacinados para exercer o seu of\u00edcio por raz\u00f5es que lhes eram pr\u00f3prias, foram obrigados a se vacinar para exercer a profiss\u00e3o, e culpabilizado; quando ficaram desamparados, no auge da pandemia, foram apresentados como her\u00f3is. Consequentemente, n\u00f3s todos chegamos a nos dividir sobre este assunto, divis\u00e3o instalada propositalmente para fragmentar a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Macron, e isto funcionou. Isto sem negar que \u00e9 uma luta importante, mas, existem tantas outras lutas centrais, a come\u00e7ar pela paz mundial amea\u00e7ada pelo risco de uma guerra nuclear, sem contar a fascistiza\u00e7\u00e3o e o desaparecimento da Fran\u00e7a no \u00abEstado Federal Europeu \u00bb, este tipo de coisas. Mas, sim, \u00e9 um instrumento significativo de domina\u00e7\u00e3o e controle que deve ser eliminado, \u00e9 isso que queremos, mas n\u00e3o vamos parar tudo por conta disto. \u00c9 por isto que sim, o passe sanit\u00e1rio \u00e9 um instrumento n\u00e3o negligenci\u00e1vel de contr\u00f4le que dever\u00edamos eliminar (e ningu\u00e9m sabe se n\u00e3o ser\u00e1 reestabelecido). Mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio parar [nossas lutas], com tudo para travar este \u00fanico combate. Na universidade popular que organizamos em novembro de 2021, a gest\u00e3o do estabelecimento exigia o passe sanit\u00e1rio, ent\u00e3o, n\u00f3s chamamos camaradas a mostrar nossas responsabilidades, mesmo que lutemos e combatamos este \u00abpasse\u00bb, pois o que queremos mais do que tudo neste momento \u00e9 reconstruir um verdadeiro partido comunista, o que nos obriga, neste momento, aceitar os constrangimentos que s\u00e3o impostos pelo governo, sen\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 mais vida pol\u00edtica e social, e isso \u00e9 exatamente o que o busca o governo.<\/p>\n<p>CST \u2013 Finalmente, uma pergunta sobre a Am\u00e9rica Latina. Quais s\u00e3o os v\u00ednculos e avalia\u00e7\u00f5es do Polo com os companheiros das organiza\u00e7\u00f5es que se estabelecem no contexto latino-americano, e tamb\u00e9m, as rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem com os partidos comunistas da regi\u00e3o?<\/p>\n<p>FK \u2013 Internacionalmente, e principalmente na Am\u00e9rica Latina, temos rela\u00e7\u00f5es com muitos partidos comunistas: o PCB no Brasil, o PCV na Venezuela, mesmo que seja mais complicado por raz\u00f5es de estrat\u00e9gia. De um modo geral, n\u00f3s, no plano internacional, atuamos em tr\u00eas frentes, internacionalistas, que se articulam entre si: a primeira frente \u00e9 a do Iluminismo comum, ou seja, combatemos o obscurantismo que \u00e9 carregado por Bolsonaro, por Donald Trump, por Boris Johnson no Reino Unido, por Narendra Modi na \u00cdndia, enfim, por todos os tipos de identitarismo de extrema-direita questionando o iluminismo, enquanto que este, para n\u00f3s, favorecem o progresso e a emancipa\u00e7\u00e3o, etc. A segunda frente, anti-imperialista, significa que nem sempre necessariamente estamos de acordo \u2013 \u00e0s vezes, discordamos das pol\u00edticas internas de um pa\u00eds \u2013 mas n\u00f3s combatemos o imperialismo hegem\u00f4nico estadunidense quando ele agride um pa\u00eds soberano. A Venezuela \u00e9 o caso mais representativo: temos rela\u00e7\u00f5es s\u00e9rias e s\u00f3lidas com o ex-embaixador que foi embora h\u00e1 alguns meses e sempre defendemos o regime bolivariano contra as agress\u00f5es incessantemente repetidas dos Estados Unidos. Sublinho que visamos o imperialismo dos EUA e n\u00e3o os trabalhadores dos EUA, porque os trabalhadores dos EUA tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o capitalista em seu pa\u00eds. Mas se neste contexto n\u00f3s defendemos o regime bolivariano, n\u00e3o deixamos de discordar porque o governo de Nicol\u00e1s Maduro, \u00e9 cada vez mais repressivo em rela\u00e7\u00e3o aos camaradas do Partido Comunista da Venezuela, e bem, n\u00f3s apoiamos claramente o Partido Comunista da Venezuela desde este ponto de vista, n\u00e3o podemos aceitar medidas anticomunistas na Venezuela; por\u00e9m, n\u00e3o vamos abandonar completamente o regime, pois, se a Venezuela bolivariana cair, existe o risco que caia tamb\u00e9m em outros pa\u00edses. \u00c9 o que se passou no Brasil: n\u00e3o defendemos Lula\u00a0; ele permitiu que a burguesia brasileira se desenvolvesse bem, mas, ao mesmo tempo, face ao fascista, Lula seria a op\u00e7\u00e3o menos ruim. Mas, ao mesmo tempo, no Brasil n\u00e3o apoiamos Lula, mas apoiamos os camaradas do Partido Comunista Brasileiro e suas decis\u00f5es. E, por fim, a \u00faltima frente, que diz respeito precisamente \u00e0 Am\u00e9rica Latina em particular, \u00e9 precisamente a frente para reconstruir o verdadeiro internacionalismo comunista. Um verdadeiro movimento comunista internacional. E, deste ponto de vista, temos excelentes rela\u00e7\u00f5es com Cuba socialista: foi assim que organizamos uma primeira universidade popular no final de 2021, nos sub\u00farbios de Paris e membros da Embaixada Cubana estiveram na abertura dos trabalhos. Estamos entre as forma\u00e7\u00f5es mais presentes na Fran\u00e7a ao lado dos camaradas de Cuba Socialista. Ent\u00e3o aqui est\u00e1 como articulamos as tr\u00eas frentes. Para n\u00f3s, a Am\u00e9rica Latina representa quase um tropismo, porque temos um interesse muito forte pelo que se passsa a\u00ed, sem falar das experi\u00eancias hist\u00f3ricas (Cuba, Guevara, o Chile). Estamos, assim, muito contentes que o movimento popular tenha se desenvolvido no Chile, desde 2019 e trinufado com a vit\u00f3ria de Boric. Ent\u00e3o \u00e9 verdade que temos muito interesse e buscamos contatos cada vez mais estreitos com os camaradas da Am\u00e9rica Latina. E, para n\u00f3s isto \u00e9 importante porque se a Am\u00e9rica Latina der uma virada \u00e0 esquerda, ap\u00f3s ter sofrido, nos \u00faltimos anos, com o neoliberalismo e o fascismo, etc, isto trar\u00e1 esperan\u00e7a para a Europa, ou seja, para os trabalhadores e os camaradas europeus, de ver crescer uma onda progressista mais forte.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Esta entrevista foi realizada foi realizada em 10 de novembro de 2021, em Paris. Em raz\u00e3o de um conjunto de fatores, que a impedir de vir \u00e0 luz anteriormente, foi atualizada em maio de 2022, contendo, assim, algumas adapta\u00e7\u00f5es de pequena monta, sem preju\u00edzo de seu cont\u00fado original.<\/p>\n<p>[2] Carmen Susana Tornquist &#8211; Cientista social e professora do Programa de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em planejamento e desenvolvimento s\u00f3cio-ambiental (PPGPLAN)- UDESC. Coordenadora da Casa da Am\u00e9rica Latina -SC e militante da C\u00e9lula Cultural Egl\u00ea Malheiros &#8211; CEM &#8211; PCB SC.<\/p>\n<p>[3] Frexit Progressita \u00e9 uma proposta de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, entre as quais, o PRCF, e alude ao Brexit, processo pelo qual a Inglaterra decidiu, via referendum, sair da UE, a partir de 2017, como forma de \u00abmanter sua autonomia\u00bb. O Frexit progressista acentua a necessidade de incluir, em \u00abrupturas desta natureza, a sa\u00edda da OTAN.<\/p>\n<p>[4] A CGT foi fundada em 1985, em plena efervec\u00eancia do movimento de trabalhadores na Europa, tendo explicitado, em 1906(\u00abCarta de Amiens\u00bb) sua voca\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, classista e revolucion\u00e1ria. Chegou a contar com 50% de ades\u00e3o dos trabalhadores franceses, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, protagonizando conquistas como a jornada de 40 horas, o pagamento de dias feriados e as conven\u00e7\u00f5es de trabalho coletivas.<\/p>\n<p>[5] Philippe Martinez \u00e9 secret\u00e1rio geral da CGT desde 2015, per\u00edodo que envolve a apresenta\u00e7\u00e3o da \u00abLoi Travail\u00bb, sendo considerado &#8211; pelo status quo e m\u00eddia burguesa &#8211; o principal porta voz do sindialismo franc\u00eas nos debates que ocorreram em torno do tema.<\/p>\n<p>[6] As principais centrais sindicais francesas s\u00e3o: CGT,For\u00e7a Oper\u00e1ria, SUD, Solidaires, CFTD.<\/p>\n<p>[7] Mantivemos o nome original, no texto, ao inv\u00e9s de nos referimos aos \u00abcoletes amarelos\u00bb, uma vez que ficaram conhecidos, tamb\u00e9m no Brasil, como Gilets Jaunes.<\/p>\n<p>[8] SNCF (Sociedade nacional das estradas de ferro) \u00e9 uma empresa estatal, respons\u00e1vel pelas linhas f\u00e9rreas e el\u00e9tricas que atendem todo o pa\u00eds. Foi criada em 1937, no governo do \u201cFront Populaire\u201d de Leon Blum, e emprega cerca de 250 mil trabalhadores e trabalhadoras(dados oficiais, referentes \u00e0 2013)<\/p>\n<p>[9] Fran\u00e7a Insubmissa corresponde \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, oficializada em 2016, com vistas \u00e0 candidatura nacional de M\u00e9l\u00e9nchon, em 2016 e 2022, tendo obtido expressiva vota\u00e7\u00e3o em ambos certames(quarto e terceiro lugar respectivamente, nos primeiros turnos). Nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, foi a principal for\u00e7a pol\u00edtica da Nova Uni\u00e3o Popular Social e eecol\u00f3gica, coaliz\u00e3o da qual participaram PCF, o PS e o Polo Ecologista.<\/p>\n<p>[10] Pergunta sugerida pelo camarada Messias Manarim, de Santa Catarina.<\/p>\n<p>[11] Jornalista e candidato \u00e0s Elei\u00e7\u00f5es Presidenciais em 2022, autoidentificado de extrema-direita e situado fora das hostes da fam\u00edlia Le Pen, que tradicionalmente tem obtido a segunda parte dos votos nas elei\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>[12] Fil\u00f3sofo e professor, fundador do PRCF e editor do peri\u00f3dico \u201cIniciative Communiste\u201d, que escreveu, entre outras obras, \u201cMarxisme et universalisme: classes, nations, humanit\u00e9(s)\u201d, publicado em 2015 pela editora Delga. \u00c9 um dos criadores do \u201cManifesto progressista em defesa da l\u00edngua francesa\u201d (2007), sobre o qual se refere esta pergunta.<\/p>\n<p>[13] Sigla da federa\u00e7\u00e3o patronal das empresas, na Fran\u00e7a (Mouvement des entreprises de France), principal representa\u00e7\u00e3o da burguesia no pa\u00eds, desde 1998.<\/p>\n<p>[14] Refer\u00eancia \u00e0 express\u00e3o \u00abestar acordado\u00bb usada para designar movimentos e lutas contra o racismo e direitos de minorias \u2013 \u00abidentit\u00e1rios\u00bb &#8211; que se popularizou desde os Estados Unidos sobretudo a partir de 2013.<\/p>\n<p>[15] Refer\u00eancia aos grupos e pessoas que atuam diretamente junto ao presidente Emanuel Macron.<\/p>\n<p>[16] Este documento, oriundo da UE, passou a ser exigido na Fran\u00e7a em junho de 2021, e \u00e9 exigido por estabelecimentos p\u00fablicos e comerciais para que cada cidad\u00e3o ateste a realiza\u00e7\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o e\/ou testagem do v\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28895\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"O PRCF tem dois objetivos principais: reconstruir um verdadeiro partido comunista na Fran\u00e7a e liderar a luta pela sa\u00fada da Uni\u00e3o Europeia e da OTAN, que \u00e9 uma m\u00e1quina de guerra contra o povo.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-28895","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7w3","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28895"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28895\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}