{"id":28908,"date":"2022-06-13T21:26:48","date_gmt":"2022-06-14T00:26:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28908"},"modified":"2022-06-13T21:26:48","modified_gmt":"2022-06-14T00:26:48","slug":"os-males-do-brasil-sao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28908","title":{"rendered":"Os males do Brasil s\u00e3o\u2026"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2022\/06\/artigo_mauro-1.png?w=767\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Mauro Iasi analisa a forma\u00e7\u00e3o social do Brasil e reflete sobre nossas principais contradi\u00e7\u00f5es, defendendo que um programa revolucion\u00e1rio para o pa\u00eds deve ser, necessariamente, anticapitalista, antimonopolista e dirigido para uma ampla e profunda desmercantiliza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cDo que se trata na elabora\u00e7\u00e3o da teoria revolucion\u00e1ria \u00e9<br \/>\na determina\u00e7\u00e3o dos fatos e situa\u00e7\u00f5es real<br \/>\ne efetivamente presentes e atuantes [\u2026] que uma vez<br \/>\ndesembara\u00e7ados das peias que ainda o ret\u00eam,<br \/>\ne deixados ao seu livre jogo, resultem ou<br \/>\ndeveriam resultar os objetivos revolucion\u00e1rios\u201d.<br \/>\nCaio Prado J\u00fanior<\/p>\n<p>Em um contexto eleitoral em que o que menos se discute s\u00e3o programas e propostas, reduzida a disputa a nomes e torcidas, \u00e9 nosso dever apontar, ainda que de maneira breve, os pontos que julgamos essenciais a serem enfrentados. Como pensava Caio Prado J\u00fanior, expresso em nossa ep\u00edgrafe, um programa revolucion\u00e1rio deve identificar aqueles complexos de contradi\u00e7\u00f5es que se apresentam como transforma\u00e7\u00f5es em curso ou potenciais e que estariam contidas e reprimidas pela \u201cin\u00e9rcia natural de toda situa\u00e7\u00e3o estabelecida\u201d (PRADO Jr., 1978, p. 133).<\/p>\n<p>De forma introdut\u00f3ria podemos apontar tr\u00eas grandes blocos de temas que, segundo nosso ju\u00edzo, comp\u00f5e hoje o complexo de contradi\u00e7\u00f5es principais de nossa sociedade: as contradi\u00e7\u00f5es do setor industrial e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos assalariados, a nova configura\u00e7\u00e3o da agricultura com as determina\u00e7\u00f5es dos monop\u00f3lios capitalistas no campo e a luta pela terra, e a combina\u00e7\u00e3o desses dois primeiros fatores na configura\u00e7\u00e3o de uma crise urbana.<\/p>\n<p>Nossa forma\u00e7\u00e3o social \u00e9 resultado de um desenvolvimento da ordem colonial e olig\u00e1rquica para o capitalismo na forma de um capitalismo dependente e subordinado \u00e0s determina\u00e7\u00f5es de um centro imperialista. Devemos, no entanto, acrescentar a esta premissa que o capitalismo dependente assume diferentes formas nos diversos momentos hist\u00f3ricos de nosso pa\u00eds, ou seja, \u00e9 um ponto de partida singular que carece de concretude para que dele possamos derivar contradi\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es em curso, assim como os entraves que bloqueiam seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>O imperialismo aqui n\u00e3o age, como pensava Karl Kautsky, bloqueando o desenvolvimento industrial e especializando as forma\u00e7\u00f5es sociais dependentes na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e de mat\u00e9rias primas. Mas, como pensava Vladimir L\u00eanin, exportando capitais e desenvolvendo \u00e1reas de influ\u00eancia nas quais \u00e9 essencial implantar e garantir formas de propriedade e rela\u00e7\u00f5es sociais pr\u00f3prias da ordem burguesa. Isto significa que o imperialismo desenvolve os pa\u00edses onde atua, logicamente de maneira a distorcer estas forma\u00e7\u00f5es sociais na forma da depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o de \u00e1reas nas quais seja poss\u00edvel extrair a mais-valia e concentr\u00e1-la no centro imperialista.<\/p>\n<p>Tal constata\u00e7\u00e3o nos leva a afirmar que o Brasil \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o social que se industrializou e capitalizou em grande escala, inclusive capitalizando a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, consolidando-se como uma importante plataforma de a\u00e7\u00e3o do capital imperialista (FONTES, 2010). O desenvolvimento do tipo particular de capitalismo no Brasil passa por acentuados processos de concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios. No entanto, desde sua gesta\u00e7\u00e3o, o capital monopolista aqui \u00e9 parte integrante do capital monopolista e imperialista. Um dos resultados desta forma particular \u00e9 a necess\u00e1ria e incontorn\u00e1vel superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho (MARINI, 1977; LUCE, 2018) e uma forma pol\u00edtica alicer\u00e7ada na enorme concentra\u00e7\u00e3o de riqueza em uma pequena minoria da sociedade, condenando as demais classes a uma estrutural subalternidade (FERNANDES, 1975).<\/p>\n<p>Se em um determinado per\u00edodo essa forma possibilitou o processo de industrializa\u00e7\u00e3o e o crescimento do capitalismo no campo, o car\u00e1ter monop\u00f3lico e dependente produz contradi\u00e7\u00f5es no processo de valoriza\u00e7\u00e3o. Enquanto nos pa\u00edses centrais isto leva ao imperialismo, nos pa\u00edses perif\u00e9ricos \u00e9 imposto \u00e0s burguesias locais o papel de queimar capital e amortecer os efeitos da crise do capital mundial. Uma das contratend\u00eancias (MARX, 2017) de todo capital monopolista desenvolvido diante de uma crise de supervaloriza\u00e7\u00e3o \u00e9 o deslocamento para o capital fict\u00edcio e as formas do capital financeiro. Desta maneira resulta uma burguesia (na cidade e no campo) eminentemente parasit\u00e1ria e profundamente dependente do capital financeiro e do Estado.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o fundamento da crise do setor industrial brasileiro e dos efeitos delet\u00e9rios sobre a classe trabalhadora. A forma mais desenvolvida do monop\u00f3lio industrial \u00e9 tamb\u00e9m a mais profundamente parasit\u00e1ria e mant\u00eam seu patamar de lucros pela intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, pela tecnologiza\u00e7\u00e3o do capital constante e, consequente, poupan\u00e7a de for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Como veremos, esta base \u00e9 comum no monop\u00f3lio capitalista do setor industrial e no monop\u00f3lio capitalista no campo, mas \u00e9 nas rela\u00e7\u00f5es assalariadas no setor industrial que assume a dimens\u00e3o mais perversa. O atual padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o (ANTUNES, 1999) acaba por exigir um enorme retrocesso nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, o que vem sendo identificado como a crescente precariza\u00e7\u00e3o do trabalho (ANTUNES, 2020; ANTUNES, BRAGA, 2009). O efeito, al\u00e9m do \u00f3bvio desemprego, apresenta como tend\u00eancia o rebaixamento dos sal\u00e1rios e uma piora generalizada nas condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Podemos resumir esta primeira contradi\u00e7\u00e3o da seguinte forma: o desenvolvimento do capitalismo brasileiro se d\u00e1 pelo aumento da explora\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e da vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O segundo bloco deriva de aspectos comuns, uma vez que o desenvolvimento do capitalismo no campo traz consigo as contradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital. O primeiro aspecto a ser destacado \u00e9 a monopoliza\u00e7\u00e3o. Com base hist\u00f3rica no latif\u00fandio, a moderna forma capitalismo no campo j\u00e1 nasce monop\u00f3lica e vinculada ao imperialismo, seja pela orienta\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria para a exporta\u00e7\u00e3o, seja pelo alto v\u00ednculo com o capital financeiro. Os dois aspectos fazem com que o setor capitalista no campo seja profundamente dependente do Estado.<br \/>\nAqui tamb\u00e9m a crise do capital imp\u00f5e o caminho de tecnifica\u00e7\u00e3o dos capitais constantes e consequente poupan\u00e7a de for\u00e7a de trabalho, o que altera profundamente as rela\u00e7\u00f5es sociais e as formas de propriedade no campo.<\/p>\n<p>As velhas formas do latif\u00fandio se relacionar com a pequena propriedade camponesa (uso sazonal da for\u00e7a de trabalho, meeiros e outras formas) s\u00e3o superadas pela intensifica\u00e7\u00e3o da expropria\u00e7\u00e3o (e consequente concentra\u00e7\u00e3o de terras) e forma\u00e7\u00e3o de uma camada de assalariados rurais em condi\u00e7\u00f5es de baixos sal\u00e1rios e extrema precariza\u00e7\u00e3o. A pequena propriedade camponesa fica estrangulada, sobrevivendo de mercados locais e, muitas vezes subordinada aos grandes monop\u00f3lios (como no caso da ind\u00fastria do tabaco e de pequenos animais de abate).<\/p>\n<p>Este segundo bloco pode ser assim resumido: o intenso crescimento do capitalismo no campo conduz aos monop\u00f3lios e \u00e0 acentua\u00e7\u00e3o da expropria\u00e7\u00e3o, levando, ao mesmo tempo, \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho dos trabalhadores rurais e pequenos camponeses, assim como \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do \u00eaxodo rural.<\/p>\n<p>O terceiro bloco de contradi\u00e7\u00f5es deriva da conflu\u00eancia destes dois primeiros. O \u00eaxodo rural tinha uma funcionalidade para o modelo econ\u00f4mico brasileiro \u2013 implantado nos anos 1950, garantido pelo golpe de 1964 e n\u00e3o alterado em seus fundamentos na longa e inacabada transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u2013 qual seja, a forma\u00e7\u00e3o de uma massa de assalariados urbanos destinados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do capital industrial. Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, no entanto, sofremos uma dupla expropria\u00e7\u00e3o, tanto pela concentra\u00e7\u00e3o intensificada pelo monop\u00f3lio capitalista no campo, como pelo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio industrial, que forma uma enorme massa de trabalhadores que sofrem o m\u00e1ximo da precariza\u00e7\u00e3o e se dividem entre a informalidade, os postos indesejados na divis\u00e3o do trabalho ou circulam na economia pol\u00edtica do crime organizado.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, segundo acreditamos, a raiz da chamada crise urbana. Devemos destacar, como nos ensina Lefebvre (2021), que a cidade \u00e9 como uma fotografia do modo de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica, cultural, econ\u00f4mica e pol\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es que constituem o capital. Portanto, n\u00e3o devemos estranhar o fato que nas atuais formas de acumula\u00e7\u00e3o de capitais, brevemente descritas acima, a cidade do capital se apresente como crise. O espa\u00e7o urbano acaba por absorver tanto a crise industrial como da crise agr\u00e1ria, expressando seus efeitos em v\u00e1rias crises particulares: da moradia, do acesso a servi\u00e7os essenciais (educa\u00e7\u00e3o, cultura, sa\u00fade, lazer, etc.), saneamento, transporte, seguran\u00e7a, etc.<br \/>\nA cidade da crise do capital, no entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas o recept\u00e1culo da crise do capital, ela tem uma funcionalidade no interior do processo de valoriza\u00e7\u00e3o. O espa\u00e7o urbano se transforma em alvo da valoriza\u00e7\u00e3o do capital, seja pela chamada gentrifica\u00e7\u00e3o \u2013 na verdade, a mercantiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico a servi\u00e7o da valoriza\u00e7\u00e3o do capital \u2013, seja pelo crescimento do mercado de servi\u00e7os e desenvolvimento de supostas \u201cpol\u00edticas p\u00fablicas\u201d. Da mesma forma que nos dois primeiros aspectos apontados, o capital que explora o espa\u00e7o urbano \u00e9 profundamente dependente do Estado que atua como intermedi\u00e1rio essencial de distribui\u00e7\u00e3o de recursos que acabam por mover os setores da economia monopolista. O mais evidente \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o civil, mas tal fun\u00e7\u00e3o se expressa da mesma forma nas chamadas pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica, transporte, lixo, infraestrutura e mesmo em pol\u00edticas sociais financeirizadas (GRANEMAN, 2012; SILVA, 2012).<\/p>\n<p>O espa\u00e7o urbano n\u00e3o \u00e9 somente o destino daqueles que foram expropriados no campo, \u00e9 um espa\u00e7o de continuidade de expropria\u00e7\u00f5es (BOSCHETTI, 2018). Expropria\u00e7\u00e3o de moradias e de bairros, mas tamb\u00e9m expropria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos, expropria\u00e7\u00e3o de direitos, expropria\u00e7\u00e3o de recursos e expropria\u00e7\u00e3o de desejos, cada um desses apropriado pelo monop\u00f3lio capitalista urbano ou seu representante, o Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Podemos resumir esse terceiro aspecto nos seguintes termos: o espa\u00e7o urbano e sua crise resultam da forma do capital monopolista na ind\u00fastria e no desenvolvimento do capitalismo monopolista no campo, tornando-se ele pr\u00f3prio um espa\u00e7o de expropria\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da valoriza\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Chegado a este ponto, conv\u00e9m esclarecer que, ainda segundo Caio Prado J\u00fanior, \u201ca simples determina\u00e7\u00e3o, contudo, das contradi\u00e7\u00f5es presentes no processo hist\u00f3rico brasileiro, n\u00e3o \u00e9 ainda suficiente para a elabora\u00e7\u00e3o de uma teoria revolucion\u00e1ria\u201d (1978, p. 134). Segundo o historiador paulista, agora \u00e9 o momento de lan\u00e7ar nossa aten\u00e7\u00e3o aos fatores subjetivos, isto \u00e9, os seres humanos capazes de transformar essas contradi\u00e7\u00f5es em vetores de luta e de transforma\u00e7\u00e3o. Para ele, as contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se resolvem por si mesmas, automaticamente, mas exigem for\u00e7as sociais que as personifiquem, atrav\u00e9s de comportamentos coletivos, de movimentos e lutas.<\/p>\n<p>Devemos, ent\u00e3o, refletir sobre o atual momento da classe trabalhadora e da luta de classes. Cada uma das contradi\u00e7\u00f5es apresentadas incide sobre segmentos das classes trabalhadoras e produzem efeitos importantes para nossa an\u00e1lise. A crise industrial e os novos padr\u00f5es de valoriza\u00e7\u00e3o resultam num processo de desconcentra\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, dividindo-a em diferentes formas de contrato e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, assim como pulverizando-a no espa\u00e7o geogr\u00e1fico, na cidade e para al\u00e9m dela. O monop\u00f3lio capitalista agr\u00e1rio n\u00e3o cria la\u00e7os empregat\u00edcios em qualquer forma de carreira profissional, trabalhando com uma explora\u00e7\u00e3o intensiva da for\u00e7a de trabalho abundante e precarizando sobremaneira as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Da mesma forma, o espa\u00e7o urbano e o processo continuado de expropria\u00e7\u00f5es fragmenta os trabalhadores em espa\u00e7os segregados, na forma de integra\u00e7\u00e3o das cidades (no que tem papel decisivo os transportes) e numa divis\u00e3o social do trabalho extremamente precarizada (na qual o telemarketing e os trabalhadores de entrega s\u00e3o exemplos significativos).<\/p>\n<p>Podemos dizer que o que prevalece \u00e9 um momento de serializa\u00e7\u00e3o da classe (SARTRE,1979), isto \u00e9, no qual os trabalhadores, ainda que reunidos no espa\u00e7o urbano ou agr\u00e1rio do capital, n\u00e3o se veem como um coletivo, mas como mera conviv\u00eancia de indiv\u00edduos no mesmo espa\u00e7o. Esta serializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o resulta somente das determina\u00e7\u00f5es da crise do capital e seus efeitos, mas tamb\u00e9m da luta de classes. O processo de captura dos trabalhadores para uma longa estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o de classes reverteu a fus\u00e3o conseguida nas d\u00e9cadas de luta que se seguiram \u00e0 crise da ditadura.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que as contradi\u00e7\u00f5es apontadas n\u00e3o produzam movimentos potenciais que apontem para a subst\u00e2ncia de nosso programa. Ainda que fragmentada pelo capital e derrotada por aqueles que almejavam dirigi-la, a classe resiste. No entanto, a forma desta resist\u00eancia \u00e9 determinada pela situa\u00e7\u00e3o objetiva de fragmenta\u00e7\u00e3o e derrota pol\u00edtica. As lutas assumem a forma de resist\u00eancias particulares, de oper\u00e1rios lutando por garantia de emprego e sal\u00e1rios, de trabalhadores rurais lutando contra as expropria\u00e7\u00f5es, de povos ind\u00edgenas demandando a demarca\u00e7\u00e3o de suas terras, de mulheres insurgindo-se contra a opress\u00e3o patriarcal, popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas lutando contra a viol\u00eancia do Estado e negros e negras lutando contra tudo isso com o peso agravante do racismo.<\/p>\n<p>Cabe a n\u00f3s, neste momento, captar o sentido dessas lutas e identificar as \u201cpeias\u201d que impedem que nossas demandas se realizem. Um dos mitos, ou nos termos de Caio Prado, as chamadas verdades consagradas, \u00e9 que os problemas brasileiros se resolveriam pelo desenvolvimento econ\u00f4mico. Entretanto, como procuramos demonstrar, \u00e9 exatamente o desenvolvimento econ\u00f4mico na forma de um capitalismo monopolista e dependente que gera as contradi\u00e7\u00f5es das quais emergem nossas demandas.<\/p>\n<p>Ainda que em um momento de defensiva, as lutas oper\u00e1rias, dos trabalhadores rurais, dos diversos setores urbanos explorados e oprimidos apontam para demandas muito precisas: trabalho, sal\u00e1rios, condi\u00e7\u00f5es de vida, moradia, acesso a servi\u00e7os essenciais como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, transporte e outros. Da mesma forma as diversas opress\u00f5es sobre mulheres, negros, LGBTQI+, povos ind\u00edgenas e outros, se chocam com um muro de impossibilidades.<\/p>\n<p>Nossas demandas n\u00e3o ser\u00e3o atendidas pelo mero desenvolvimento econ\u00f4mico, uma vez que \u00e9 exatamente o grande monop\u00f3lio que se apresenta como barreira contra essas demandas. O mito que o crescimento econ\u00f4mico geraria recursos para enfrentar esses problemas \u00e9 uma fal\u00e1cia. Entre os anos 1940 e os anos 1980, o PIB brasileiro quintuplicou enquanto o \u00edndice do sal\u00e1rio m\u00ednimo caiu para mais da metade, assim como se agravaram todos os grandes problemas advindos do pr\u00f3prio modelo de desenvolvimento. Mesmo no per\u00edodo recente, de uma democracia de coopta\u00e7\u00e3o sob os governos petistas, os 10% mais ricos que em 1999 detinham 53% da riqueza nacional passaram a deter 74,2% em 2014. Os principais grupos econ\u00f4micos tiveram seu patrim\u00f4nio aumentado em 47% e seus lucros l\u00edquidos em 98%.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente no campo no qual a maior parte das terras, 42,5% est\u00e1 concentrada em 0,8% de im\u00f3veis com uma \u00e1rea m\u00e9dia de 6185 hectares, enquanto 1,4% dos estratos de \u00e1rea \u2013 o que equivale a uma \u00e1rea m\u00e9dia de apenas 4,7 hectares \u2013 est\u00e1 ocupado por 33% dos im\u00f3veis. Outros 25,4% dos im\u00f3veis apresentam uma \u00e1rea m\u00e9dia de 16,2 hectares e ocupam 3,7% da \u00e1rea total do Brasil destinada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no campo.<\/p>\n<p>Crescer a economia do capital monopolista significa garantir e aumentar as taxas de mais-valia e de lucro para que, ao final de um ciclo de crescimento, os \u00edndices da quest\u00e3o social s\u00f3 se agravem para os trabalhadores. O direito ao trabalho, por exemplo, transforma-se em um meio funcional para aumentar a explora\u00e7\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o de renda e propriedades. Marx nos ensina (2013) que toda mercadoria \u00e9 formada por tr\u00eas partes constitutivas: o valor de uso, o valor (cuja unidade faz de algo uma mercadoria) e mais-valia (o que determina o car\u00e1ter capitalista da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias). Para n\u00f3s o trabalho deve dirigir-se fundamentalmente para a produ\u00e7\u00e3o de valores de uso dirigidos \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades reais dos seres humanos e n\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o do capital. Isto fica claro na atual forma da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola voltada para a produ\u00e7\u00e3o de commodities e n\u00e3o para a alimenta\u00e7\u00e3o. Para que isto seja poss\u00edvel \u00e9 necess\u00e1rio criar uma forte e ampla estrutura econ\u00f4mica e de servi\u00e7os estatais sob controle dos trabalhadores, assim como setores estrat\u00e9gicos (energia, minera\u00e7\u00e3o, finan\u00e7as, mercado externo, etc.).<\/p>\n<p>Neste sentido, nosso programa deve ser, necessariamente, anticapitalista e antimonopolista e dirigido para uma ampla e profunda desmercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. Este ponto n\u00e3o \u00e9 novidade, esteve presente nas formula\u00e7\u00f5es do PCB e tamb\u00e9m nas resolu\u00e7\u00f5es do PT, inicialmente, para depois ser abandonado. Ocorre que agora ele ganha uma concretude decisiva. O centro de nossas demandas \u00e9 de fato moradia, comida, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, transportes, saneamento, seguran\u00e7a, cultura, esporte, lazer, e tudo aquilo que permite a reprodu\u00e7\u00e3o da vida em condi\u00e7\u00f5es dignas. Estes itens n\u00e3o podem ser ve\u00edculos de valoriza\u00e7\u00e3o do valor, mas direitos. A luta por direitos ganha assim uma nova dimens\u00e3o, distanciando-se de sua atual aliena\u00e7\u00e3o e fetichismo no qual o direito n\u00e3o vem necessariamente associado \u00e0 sua subst\u00e2ncia, de maneira que temos direito \u00e0 moradia, mas n\u00e3o casas, ou direito ao trabalho, mas n\u00e3o a empregos.<\/p>\n<p>Evidente que nem tudo pode ser imediatamente tirado da lista das mercadorias, mas devemos come\u00e7ar pelo que \u00e9 essencial e dirigir os recursos e o trabalho para sua produ\u00e7\u00e3o, na forma de um programa emergencial que caminhe nesta dire\u00e7\u00e3o e n\u00e3o nos afaste de nossos objetivos estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Devemos, no entanto, tirar uma conclus\u00e3o deste caminho program\u00e1tico (conclus\u00e3o que de certa maneira falta em Caio Prado J\u00fanior e constitui a base do equ\u00edvoco da estrat\u00e9gia Democr\u00e1tico Popular). Uma vez que os interesses entre o capital monopolista e o conjunto dos trabalhadores e a maioria da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o antag\u00f4nicos, a efetiva\u00e7\u00e3o de um programa antimonopolista e anticapitalista, fundado na profunda desmercantiliza\u00e7\u00e3o da vida, encontrar\u00e1 feroz resist\u00eancia das classes dominantes (industriais, comerciais, agr\u00e1rias, financeiras e de servi\u00e7os). Isso coloca em relevo a quest\u00e3o do Estado que existe para garantir exatamente este dom\u00ednio e seus interesses.<\/p>\n<p>Isso nos leva a afirmar a necessidade de nosso programa apontar para uma ruptura com o Estado burgu\u00eas e a cria\u00e7\u00e3o de um verdadeiro poder popular como transi\u00e7\u00e3o para um Estado dos trabalhadores do campo e das cidades. Ainda que saibamos que as medidas imediatas n\u00e3o possam caminhar neste sentido \u00e9 obrigat\u00f3rio que o programa aponte para este horizonte estrat\u00e9gico e crie as condi\u00e7\u00f5es para sua efetiva\u00e7\u00e3o, rompendo com a perigosa ilus\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel atingir nossos interesses atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil? Sem d\u00favida. Mas acreditamos como nosso mestre, Silvio Rodr\u00edguez, que \u00e9 hora de sonhar nossos pr\u00f3prios sonhos: \u201cYo he preferido hablar de cosas imposibles \/ porque de lo posible se sabe demasiado\u201d.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<br \/>\nANTUNES, R. O privil\u00e9gio da servid\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020<br \/>\nANTUNES, R., BRAGA, R. Infoprolet\u00e1rios. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2009.<br \/>\nBOSCHETTI, I. (org.) Expropria\u00e7\u00e3o e direitos no capitalismo. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2018.<br \/>\nFONTES, V. O Brasil e o capital-imperilismo: teoria e pr\u00e1tica. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.<br \/>\nFERNANDES, F. A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.<br \/>\nGRANEMANN, S. Fundos de pens\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio em capital. In: SALVADOR, Evil\u00e1sio; BERING, Elaine et al. Financeiriza\u00e7\u00e3o, fundo p\u00fablico e pol\u00edtica social. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2012.<br \/>\nLEFEBVRE, H. A cidade do capital. Rio de Janeiro: Lamparina, 2021.<br \/>\nLUCE, M. S. Teoria marxista da depend\u00eancia: problemas e categorias, uma vis\u00e3o hist\u00f3rica. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2018.<br \/>\nMARINI, R. M. Dial\u00e9ctica de la depend\u00eancia. Cidade do M\u00e9xico: Era, 1977.<br \/>\nMARX, K. O Capital [Livro 2]. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<br \/>\nMARX, K. O Capital [Livro 3]. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<br \/>\nPRADO Jr. C. A revolu\u00e7\u00e3o Brasileira. 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S\u00e3o Paulo: Cortez, 2012.<\/p>\n<p>***<br \/>\nConfira o \u00faltimo Caf\u00e9 Bolchevique, coluna mensal de Mauro Iasi na TV Boitempo, em que o autor analisa as principais contradi\u00e7\u00f5es de nosso pa\u00eds e o programa revolucion\u00e1rio necess\u00e1rio para super\u00e1-las:<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2022\/06\/10\/os-males-do-brasil-sao\/?fbclid=IwAR1lUcATu_3qWkbGfJYcAjRO-8kaRNxlNgSap8ch8afHha7qGJ7DTTQvuJo\">Os males do Brasil&nbsp;s\u00e3o\u2026<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28908\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[221],"class_list":["post-28908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7wg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28908\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}