{"id":28954,"date":"2022-06-28T07:53:48","date_gmt":"2022-06-28T10:53:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28954"},"modified":"2022-06-28T07:53:48","modified_gmt":"2022-06-28T10:53:48","slug":"estudantes-indigenas-e-as-lutas-de-junho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28954","title":{"rendered":"Estudantes, ind\u00edgenas e as lutas de junho"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-41.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Quem disse que sumiu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por Leonardo Silva Andrada<\/strong><\/p>\n<p>No ocaso do outono, testemunhamos eventos emblem\u00e1ticos de setores que v\u00eam ocupando papel de destaque nas lutas populares, em um pa\u00eds que resiste \u00e0 escalada de arbitrariedades do neofascismo. Mesmo com toda a dificuldade para se consolidar institucionalmente, em virtude de sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia para se firmar como escolha preferencial da nossa tacanha burguesia, o grupo forjado em torno do presidente se esfor\u00e7a para avan\u00e7ar sua agenda. Depende de muita boa vontade tratar como t\u00e1tica e estrat\u00e9gia, a forma como atua essa horda, em um movimento que associa a a\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica nas institui\u00e7\u00f5es e a brutalidade da criminalidade pura e simples. Os protagonistas dos eventos de junho foram alvos dessa combina\u00e7\u00e3o truculenta, cada um em seu campo. O setor da educa\u00e7\u00e3o, alvo de cortes de recursos, perdas salariais dos trabalhadores, interven\u00e7\u00f5es na administra\u00e7\u00e3o das unidades e tentativas de militariza\u00e7\u00e3o de escolas, \u00e9 exemplo da atua\u00e7\u00e3o institucional de avan\u00e7o do neoliberalismo com a capa rota do fascismo, e reagiu com dois atos consistentes. A luta ind\u00edgena, que desde o final do ano passado vem sendo ponta de lan\u00e7a das lutas sociais no pa\u00eds, tristemente foi alvo da face mais brutal desse padr\u00e3o de avan\u00e7o, vis\u00edvel no assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips.<\/p>\n<p>Os atos de rua em defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica ocorreram em duas etapas, com a articula\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es locais no dia 9 e um grande encontro das entidades nacionais em Bras\u00edlia no dia 14. Capitaneado pelo ANDES, sindicato nacional dos docentes de ensino superior, o ato na capital federal contou com a participa\u00e7\u00e3o do SINASEFE, a FASUBRA e o movimento estudantil, garantindo a for\u00e7a necess\u00e1ria \u00e0s demandas populares contra as tentativas de inviabiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 de se cogitar se essa retomada de tra\u00e7\u00e3o indica a disposi\u00e7\u00e3o dos estudantes para recuperar o papel que cumpriram em momentos chave da hist\u00f3ria pol\u00edtica nacional. No Estado Novo, na ditadura burgo-militar, no impeachment de Collor, contra o impeachment de Dilma, a posi\u00e7\u00e3o estrutural de estudantes associada \u00e0s quest\u00f5es conjunturais da pol\u00edtica educacional, impulsionaram a luta estudantil em processos cruciais na din\u00e2mica pol\u00edtica brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O movimento estudantil se configurou como \u00faltimo espa\u00e7o de respiro da resist\u00eancia na primeira fase da ditadura burgo-militar, depois de estrangulada a luta agr\u00e1ria, os sindicatos controlados sob interven\u00e7\u00e3o e neutralizado o movimento popular al\u00e9m da reativa\u00e7\u00e3o da persegui\u00e7\u00e3o aos comunistas, que j\u00e1 vinha de per\u00edodo anterior. Restaram os estudantes e as tentativas de express\u00e3o art\u00edstica, que galvanizaram o descontentamento at\u00e9 que as possibilidades de encontro entre as demandas populares e a vida cultural, impulsionadas pelo movimento estudantil, finalmente se tornaram alvo do arb\u00edtrio atrav\u00e9s do AI-5 em fins de 1968 e o Decreto-lei 447 em 1969. A censura pr\u00e9via, a deduragem, as expuls\u00f5es e cassa\u00e7\u00f5es acabaram empurrando para a clandestinidade os \u00faltimos quadros militantes que ainda atuavam \u00e0 luz do dia, e a definitiva noite parecia se abater sobre nossa Latino America. Restaurada a institucionalidade da democracia burguesa, com seus limites e contradi\u00e7\u00f5es, em apenas quatro anos de vig\u00eancia da nova Carta Constitucional os estudantes retomaram as ruas para servir de esteio do movimento que uniu um grande espectro de for\u00e7as pol\u00edticas a remover o primeiro presidente eleito diretamente na Nova Rep\u00fablica. Em per\u00edodo recente, mesmo que as for\u00e7as populares tenham sido derrotadas com o golpe jur\u00eddico parlamentar de 2016, a for\u00e7a da juventude estudantil foi novamente para as ruas, emprestando sua for\u00e7a para tentar barrar o avan\u00e7o reacion\u00e1rio que afinal n\u00e3o foi contido. No momento enfrentamos nova conjuntura adversa, em que o reacionarismo com rasgos neofascistas se valeu da inevit\u00e1vel desmobiliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada pelo isolamento social, imposto por uma pandemia global que s\u00f3 no Brasil ceifou mais de 600 mil vidas. Passado o per\u00edodo mais cr\u00edtico da pandemia, outra vez mais se faz presente o impulso da juventude estudantil.<\/p>\n<p>No \u00faltimo ano, o papel destacado esteve com os ind\u00edgenas, tanto por quest\u00f5es objetivas incontorn\u00e1veis, quanto pela atua\u00e7\u00e3o decidida das organiza\u00e7\u00f5es que conduzem sua luta. Os ind\u00edgenas brasileiros sofrem com o desmonte acelerado das institui\u00e7\u00f5es de governo que deveriam cuidar de suas demandas, como o ICMBio, o IBAMA e a FUNAI, mas n\u00e3o somente. Na medida em que o seu interesse se concretiza como obst\u00e1culo intranspon\u00edvel \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria em determinadas \u00e1reas, tamb\u00e9m enfrentam a forma mais direta que o capital utilizou, ao longo da hist\u00f3ria, para avan\u00e7ar seus neg\u00f3cios: a viol\u00eancia aberta. Minera\u00e7\u00e3o, extra\u00e7\u00e3o de madeira e grilagem de terras para o agroneg\u00f3cio, se valem da invas\u00e3o de reservas, expuls\u00e3o de comunidades e imposi\u00e7\u00e3o do terror, para garantia das margens de lucro.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 fortuito que agora estejamos lamentando as mortes de um indigenista e um jornalista que estavam na linha de frente das amea\u00e7as permanentes que negociadores criminosos perpetram contra os povos da Amaz\u00f4nia. Tamb\u00e9m nos projetos de desenvolvimento capitalista de per\u00edodos passados, no diapas\u00e3o da via prussiana colonial brasileira, esses povos foram tratados como inc\u00f4modos obst\u00e1culos a serem removidos. A ditadura burgo-militar se portava de forma semelhante ao atual governo que a cultua, considerando comunidades ind\u00edgenas como estorvos a impedir a expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola e a integra\u00e7\u00e3o nacional. Na sua concretiza\u00e7\u00e3o como pol\u00edtica de governo, essas express\u00f5es forneceram o verniz ideol\u00f3gico para grandes projetos de parceria entre os tecnoburocratas e militares de um lado e empreiteiras e burguesia agr\u00e1ria, do outro com a devida remunera\u00e7\u00e3o a todos os benefici\u00e1rios em ambos. No per\u00edodo mais recente, o governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes que expressou a vit\u00f3ria eleitoral de uma grande articula\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es populares, optou por uma via de desenvolvimento predat\u00f3rio que tamb\u00e9m favoreceu o grande capital em detrimento das comunidades rurais e urbanas variadas, atingidos por projetos relacionados ao Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento e as obras para a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Considerando a profundidade da crise econ\u00f4mica, social e ambiental em que estamos, em contraste com a solid\u00e3o dos que se levantaram, cabe a reflex\u00e3o: por que os demais setores n\u00e3o os acompanham em luta decidida? Faltariam motivos concretos para a mobiliza\u00e7\u00e3o e o envolvimento das outras categorias? A elimina\u00e7\u00e3o de direitos, as perdas salariais, a infla\u00e7\u00e3o que transfere renda para os rentistas, a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho, n\u00e3o s\u00e3o suficientes para uma ades\u00e3o firme do movimento sindical em seu conjunto? A ancestral concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria defendida de forma brutal, a consequente estrutura agr\u00e1ria que esmaga trabalhadores rurais, camponeses pobres, quilombolas e ind\u00edgenas, n\u00e3o \u00e9 o bastante para reativar a luta pela terra, t\u00e3o atuante em per\u00edodos passados? Estudantes e ind\u00edgenas brasileiros est\u00e3o iluminando a senda que nossos vizinhos sul-americanos trilharam recentemente, culminada com vit\u00f3rias eleitorais. Chile, Bol\u00edvia e mais recentemente Col\u00f4mbia, reavivaram na mem\u00f3ria, para os que pareciam ter se esquecido, como o \u00fanico caminho seguro para vit\u00f3ria das for\u00e7as populares \u00e9 a luta de massas. N\u00e3o podemos deixar os que j\u00e1 despertaram sozinhos; n\u00e3o devemos nos isolar de nossos irm\u00e3os-vizinhos, sob pena de sofrermos as piores consequ\u00eancias desse abandono. A derrota da extrema direita \u00e9 uma tarefa emergente, e s\u00f3 ser\u00e1 garantida com a mobiliza\u00e7\u00e3o, a resist\u00eancia e a luta consequente, em que o momento eleitoral \u00e9 parte relevante, mas n\u00e3o suficiente.<\/p>\n<p>A espera por outubro \u00e9 uma ilus\u00e3o que pode trazer problemas no curto, m\u00e9dio e longo prazos. A condu\u00e7\u00e3o da pr\u00e9-campanha mais bem colocada nas pesquisas parece apontar que entendem a intensifica\u00e7\u00e3o da luta nas ruas como um tensionamento indesejado, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem serena de uma candidatura assentada na concilia\u00e7\u00e3o. Desconsideram em absoluto que nessa linha, corre-se o risco de desmobilizar a ponto de comprometer a derrota eleitoral do neofascismo, incentivando um triunfalismo perigoso. Em caso de confirmada a vit\u00f3ria, os limites e contradi\u00e7\u00f5es desse bloco hegemonizado pelo lulismo tendem a criar frustra\u00e7\u00f5es, pois \u00e9 improv\u00e1vel que no contexto atual, consigam replicar a imagem edulcorada que forjaram do primeiro governo Lula. A desilus\u00e3o nascida nessas condi\u00e7\u00f5es facilita a sabotagem de extrema direita, sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para os servi\u00e7os mais sujos de limpeza do terreno para o avan\u00e7o do grande capital. No longo prazo o desencanto alimenta os discursos de antipol\u00edtica, favorecendo os aventureiros que atuam como prepostos de interesses cujo retorno financeiro \u00e9 potencializado \u00e0 medida em que se mant\u00eam nos bastidores.<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio estender exerc\u00edcios de futurologia, fiquemos nos problemas imediatos. A ofensiva reacion\u00e1ria n\u00e3o ser\u00e1 derrotada exclusivamente nas urnas, ainda que este seja um momento importante da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A mobiliza\u00e7\u00e3o e a luta servem para dar ao movimento popular tanto a for\u00e7a para derrotar o obscurantismo truculento, quanto para demonstrar ao seu substituto que n\u00e3o ser\u00e3o aceitas migalhas, em nome de uma concilia\u00e7\u00e3o nacional que s\u00f3 interessa aos estratos superiores. Uma vit\u00f3ria aut\u00eantica n\u00e3o se resume ao ganho simb\u00f3lico de troca do nome do presidente, ela se concretiza em uma altera\u00e7\u00e3o real da orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica. Um programa genuinamente popular envolve, necessariamente, a revoga\u00e7\u00e3o das reformas trabalhista e previdenci\u00e1ria, que deram um giro a mais no torniquete neoliberal sobre a classe trabalhadora. S\u00e3o reformas que resultaram do esfor\u00e7o pol\u00edtico de setores que se articularam em torno do condom\u00ednio golpista para conseguir sua implementa\u00e7\u00e3o; sendo a manifesta\u00e7\u00e3o da luta de classes, em sua express\u00e3o institucional, sua revers\u00e3o n\u00e3o entra no horizonte pol\u00edtico, a n\u00e3o ser que se consolide uma for\u00e7a com capacidade para impor esse gesto. Derrotar o neofascismo e trazer o pr\u00f3ximo governo para nosso campo de reivindica\u00e7\u00f5es requer a mobiliza\u00e7\u00e3o e a luta de massas, m\u00e9todo da constru\u00e7\u00e3o do aut\u00eantico poder popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28954\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Quem disse que sumiu?","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[226],"class_list":["post-28954","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7x0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28954\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}