{"id":2896,"date":"2012-05-24T01:43:34","date_gmt":"2012-05-24T01:43:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2896"},"modified":"2012-05-24T01:43:34","modified_gmt":"2012-05-24T01:43:34","slug":"a-politica-da-linguagem-e-a-linguagem-da-regressao-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2896","title":{"rendered":"A pol\u00edtica da linguagem e a linguagem da regress\u00e3o pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>O capitalismo e os seus defensores mant\u00eam a domina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos &#8220;recursos materiais&#8221; sob o seu comando, especialmente o aparelho de estado, e suas empresas produtivas, financeiras e comerciais, bem como atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia popular via ide\u00f3logos, jornalistas, acad\u00e9micos e publicit\u00e1rios que fabricam os argumentos e a linguagem para enquadrar as quest\u00f5es do dia.<\/p>\n<p>Hoje as condi\u00e7\u00f5es\u00a0<em>materiais <\/em>para a vasta maioria dos trabalhadores deterioram-se drasticamente pois a classe capitalista descarrega todo o fardo da crise e da recupera\u00e7\u00e3o dos seus lucros sobre as costas das classes assalariadas. Um dos aspectos gritantes deste cont\u00ednuo rebaixamento de padr\u00f5es de vida \u00e9 a aus\u00eancia at\u00e9 agora de um grande levantamento social. A Gr\u00e9cia e a Espanha, com mais de 50% de desemprego na faixa et\u00e1ria dos 16-24 anos e aproximadamente 25% de desemprego geral, experimentaram uma d\u00fazia de greves gerais e numerosos protestos nacionais com muitos milh\u00f5es de pessoas; mais n\u00e3o provocou qualquer mudan\u00e7a real de regime ou de pol\u00edticas. Os despedimentos em massa, os sal\u00e1rios penosos, os cortes em pens\u00f5es e servi\u00e7os sociais continuam. Em outros pa\u00edses, como a It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Inglaterra, protestos e descontentamento manifestam-se na arena eleitoral, com governantes afastados e substitu\u00eddos pela oposi\u00e7\u00e3o tradicional. Mas no decorrer da agita\u00e7\u00e3o social e da profunda eros\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f3mica das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e de vida, a ideologia dominante que informa os movimentos, sindicatos e oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9\u00a0<em>reformista:<\/em>Apelos para\u00a0<em>defender benef\u00edcios sociais existentes, aumentar <\/em>despesas p\u00fablicas e investimentos, pela expans\u00e3o do papel do estado onde a actividade do sector privados deixou de investir ou empregar. Por outras palavras, a esquerda prop\u00f5e conservar um passado em que o capitalismo estava arreado com o estado previd\u00eancia.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que este &#8220;capitalismo do passado&#8221; foi-se e um novo capitalismo mais virulento e intransigente emergiu forjando uma nova estrutura mundial e um poderoso aparelho de estado obstinado e imune a todos os apelos por &#8220;reforma&#8221; e reorienta\u00e7\u00e3o. A confus\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o e m\u00e1 direc\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o popular de massa \u00e9, em parte, devido \u00e0 adop\u00e7\u00e3o por escritores, jornalistas e acad\u00e9micos de esquerda dos conceitos e linguagem adoptados pelos seus advers\u00e1rios capitalistas: linguagem concebida para obscurecer as verdadeiras rela\u00e7\u00f5es sociais de explora\u00e7\u00e3o brutal, o papel central das classes dominantes na revers\u00e3o de ganhos sociais e as liga\u00e7\u00f5es profundas entre a classe capitalista e o estado. Publicit\u00e1rios, acad\u00e9micos e jornalistas elaboraram toda uma litania de conceitos e termos que perpetuam o dom\u00ednio capitalista e desviam seus cr\u00edticos e suas v\u00edtimas dos que perpetram o seu dr\u00e1stico deslizamento rumo ao empobrecimento em massa.<\/p>\n<p><em>Mesmo quando formulam suas cr\u00edticas e den\u00fancias, os cr\u00edticos do capitalismo utilizam a linguagem e os conceitos dos seus apologistas. <\/em>Na medida em que a linguagem do capitalismo entrou no linguajar geral da esquerda, a classe capitalista estabeleceu a hegemonia ou domina\u00e7\u00e3o sobre os seus antigos advers\u00e1rios. Pior, a esquerda, ao combinar alguns dos conceitos b\u00e1sicos do capitalismo com a cr\u00edtica aguda, cria ilus\u00f5es acerca da possibilidade de reformar &#8220;o mercado&#8221; para servir objectivos populares. Isto faz com que falhe a identifica\u00e7\u00e3o das ideias mestras das for\u00e7as sociais que devem ser expulsas dos comandos da economia e do imperativo de desmantelar o estado dominado pela classe. Enquanto a esquerda denuncia a crise capitalista e os salvamentos do estado, a sua pr\u00f3pria pobreza de pensamento mina o desenvolvimento da ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massa. Neste contexto a &#8220;linguagem&#8221; da oculta\u00e7\u00e3o torna-se uma &#8220;for\u00e7a material&#8221; \u2013 um ve\u00edculo do poder capitalista, cuja utiliza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e9 desorientar e desarmar seus cr\u00edticos intelectuais atrav\u00e9s do uso de termos, estruturas conceptuais e linguagem que dominam a discuss\u00e3o da crise capitalista.<\/p>\n<p><strong>Eufemismos chave ao servi\u00e7o da ofensiva capitalista <\/strong><\/p>\n<p>Os eufemismos t\u00eam um duplo significado: O que os termos implicam\u00a0<em>(connote) <\/em>e o que eles realmente significam. Concep\u00e7\u00f5es eufem\u00edsticas sob o capitalismo implicam uma realidade favor\u00e1vel ou comportamento aceit\u00e1vel e actividade totalmente dissociada do engrandecimento da riqueza da elite e da concentra\u00e7\u00e3o de poder e privil\u00e9gio. Os eufemismos disfar\u00e7am o impulso das elites do poder para impor medidas espec\u00edficas de classe e para reprimir\u00a0<em>sem serem adequadamente identificados, <\/em>responsabilizados e opostos pela ac\u00e7\u00e3o popular de massa.<\/p>\n<p>O eufemismo mais comum \u00e9 a palavra &#8220;mercado&#8221;, a qual \u00e9 dotada de caracter\u00edsticas e poderes humanos. Como tal, dizem-nos que &#8220;o mercado exige cortar sal\u00e1rios&#8221; desligado da classe capitalista. Mercados, interc\u00e2mbio de mercadorias ou compra e venda de bens, t\u00eam existido h\u00e1 milhares de anos em diferentes sistemas sociais em contextos altamente diferenciados. Eles t\u00eam sido globais, nacionais, regionais e local. Envolvem diferentes actores s\u00f3cio-econ\u00f3micos e compreendem unidades econ\u00f3micas muito diferentes, as quais v\u00e3o desde casas comerciais gigantes promovidas pelo Estado at\u00e9 ao n\u00edvel de aldeias camponesas de semi-subsist\u00eancia e pra\u00e7as de cidades. Existiram &#8220;mercados&#8221; em todas as sociedades complexas: escravocratas, feudais, mercantis e em primitivas ou tardias sociedades capitalistas competitivas, monopolistas industriais e financeiras.<\/p>\n<p>Ao discutir e analisar &#8220;mercados&#8221; e compreender as transac\u00e7\u00f5es (quem beneficia e quem perde), deve-se claramente identificar as classes sociais que dominam as transac\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas. Escrever na generalidade acerca de &#8220;mercados&#8221; \u00e9 enganoso porque os mercados n\u00e3o existem independentemente das rela\u00e7\u00f5es sociais que definem o que \u00e9 produzido e vendido, como \u00e9 produzido e que configura\u00e7\u00f5es de classe modelam o comportamento dos produtores, vendedores e do trabalho. A realidade do mercado de hoje \u00e9 definida por corpora\u00e7\u00f5es e bancos multinacionais gigantescos, os quais dominam o trabalho e os mercados de\u00a0<em>commodities. <\/em>Escrever de &#8220;mercados&#8221; como se operassem numa esfera acima e para al\u00e9m das brutais desigualdades de classe \u00e9 esconder a ess\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de classe contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Fundamental para qualquer entendimento, mas ignorado pela discuss\u00e3o contempor\u00e2nea, \u00e9 o poder incontestado dos propriet\u00e1rios capitalistas dos meios de produ\u00e7\u00e3o e de distribui\u00e7\u00e3o, a propriedade capitalista da publicidade, os banqueiros capitalistas que concedem ou negam cr\u00e9dito e os respons\u00e1veis do estado nomeados pelos capitalistas que &#8220;regulamentam&#8221; ou desregulamentam rela\u00e7\u00f5es de troca. Os resultados das suas pol\u00edticas s\u00e3o atribu\u00eddos \u00e0s eufem\u00edsticas exig\u00eancias do &#8220;mercado&#8221; as quais parecem estar divorciadas da realidade brutal. Portanto, como insinuam os propagandistas, ir contra &#8220;o mercado&#8221; \u00e9 opor-se ao interc\u00e2mbio de bens. Isto \u00e9 claramente absurdo. Em contraste, identificar exig\u00eancias capitalistas sobre o trabalho, incluindo redu\u00e7\u00f5es em sal\u00e1rios, bem-estar e seguran\u00e7a, \u00e9 confrontar uma forma exploradora espec\u00edfica de comportamento de mercado onde capitalistas procuram ganhar lucros mais altos contra os interesses e o bem-estar da maioria dos trabalhadores assalariados.<\/p>\n<p>Ao confundirem rela\u00e7\u00f5es de mercado exploradoras sob o capitalismo com mercados em geral, os ide\u00f3logos alcan\u00e7am v\u00e1rios resultados: Eles disfar\u00e7am o papel principal dos capitalistas quando evocam uma institui\u00e7\u00e3o com conota\u00e7\u00f5es positivas, isto \u00e9, um &#8220;mercado&#8221; onde pessoas compram bens de consumo e &#8220;socializam-se&#8221; com amigos e conhecidos. Por outras palavras, quando &#8220;o mercado&#8221;, o qual \u00e9 retratado como um amigo e benfeitor da sociedade, imp\u00f5e pol\u00edticas presumivelmente penosas \u00e9 para o bem-estar da comunidade. Pelo \u00e9 o que os propagandistas dos neg\u00f3cios querem que o p\u00fablico acredite ao mercadejarem sua virtuosa imagem do &#8220;mercado&#8221;; eles mascaram o comportamento predat\u00f3rio do capital na ca\u00e7a por maiores lucros.<\/p>\n<p>Um dos eufemismos mais comuns lan\u00e7ado em meio a esta crise econ\u00f3mica \u00e9 &#8220;austeridade&#8221;, um termo utilizado para encobrir as duras realidades de cortes draconianos em sal\u00e1rios, pens\u00f5es e bem-estar p\u00fablico e o aumento dr\u00e1stico de impostos regressivos (IVA). Medidas de &#8220;austeridade&#8221; significam pol\u00edticas para proteger e mesmo aumentar subs\u00eddios do estado a neg\u00f3cios, criar lucros mais altos para o capital e maiores desigualdades entre os 10% do topo e os 90% da base. &#8220;Austeridade&#8221; implica auto-disciplina, simplicidade, parcim\u00f3nia, poupan\u00e7a, responsabilidade, limites em luxos e gastos sup\u00e9rfluos, evitar a satisfa\u00e7\u00e3o imediata em benef\u00edcio da seguran\u00e7a futura \u2013 uma esp\u00e9cie de calvinismo colectivo. A conota\u00e7\u00e3o da palavra \u00e9 o sacrif\u00edcio compartilhado hoje para bem-estar futuro de todos.<\/p>\n<p>Contudo, na pr\u00e1tica &#8220;austeridade&#8221; descreve pol\u00edticas que s\u00e3o concebidas pela elite financeira para implementar redu\u00e7\u00f5es no padr\u00e3o de vida de uma classe espec\u00edfica e em servi\u00e7os sociais (tais como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o) dispon\u00edveis para trabalhadores e empregados assalariados. Significa que fundos p\u00fablicos podem ser desviados numa extens\u00e3o ainda maior para pagar altos juros a possuidores de t\u00edtulos ricos enquanto sujeitam a pol\u00edtica p\u00fablica aos ditames dos senhores do capital financeiro.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de falar de &#8220;austeridade&#8221;, com sua conota\u00e7\u00e3o de severa auto-disciplina, os cr\u00edticos de esquerda deveriam descrever claramente as pol\u00edticas da classe dominante contra o trabalho e as classes assalariadas, as quais aumentam desigualdades e concentram no topo ainda mais riqueza e poder. Pol\u00edticas de &#8220;austeridade&#8221; s\u00e3o portanto uma express\u00e3o de como as classes dominantes utilizam o estado para comutar o fardo do custo da sua crise econ\u00f3mica para cima do trabalho.<\/p>\n<p>Os ide\u00f3logos das classes dominantes apropriaram-se de conceitos e termos, os quais a esquerda originalmente utilizou para o avan\u00e7o de melhorias em padr\u00f5es de vida e que se voltaram contra si. Dois destes eufemismos, tomados da esquerda, s\u00e3o &#8220;reforma&#8221; e &#8220;ajustamento estrutural&#8221;. &#8220;Reforma, durante muitos s\u00e9culos, referia-se a mudan\u00e7as, as quais diminu\u00edam desigualdades e aumentavam a representa\u00e7\u00e3o popular. &#8220;Reformas&#8221; eram mudan\u00e7as positivas que promoviam o bem-estar p\u00fablico e a restri\u00e7\u00e3o do abuso de poder por regimes olig\u00e1rquicos ou plutocr\u00e1ticos. Ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, contudo, importantes acad\u00e9micos, economistas, jornalistas e respons\u00e1veis da banca internacional subverteram o significado de &#8220;reforma&#8221; transformando-o no seu oposto: agora refere-se \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o de direitos do trabalho, ao fim da regulamenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica do capital e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios p\u00fablicos que tornavam a alimenta\u00e7\u00e3o e o combust\u00edvel acess\u00edveis aos pobres. No vocabul\u00e1rio capitalista de hoje &#8220;reforma&#8221; significa reverter mudan\u00e7as progressistas e restaurar os privil\u00e9gios de monop\u00f3lios privados. &#8220;Reforma&#8221; significa acabar com a seguran\u00e7a de emprego e facilitar despedimentos maci\u00e7os de trabalhadores pelo rebaixamento ou elimina\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o por despedimento. &#8220;Reforma&#8221; j\u00e1 n\u00e3o significa mudan\u00e7as sociais positivas; agora significa reverter aquelas mudan\u00e7as arduamente conquistas e restaurar o poder irrestrito do capital. Significa um retorno \u00e0 fase primitiva e mais brutal do capital, antes de existirem organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores e quando a luta de classe era suprimida. Portanto &#8220;reforma&#8221; agora significa restaurar privil\u00e9gios, poder e lucro para os ricos.<\/p>\n<p>De um modo semelhante, os cortes\u00e3os lingu\u00edsticos da profiss\u00e3o econ\u00f3mica puseram o termo &#8220;estrutural&#8221;, como em &#8220;ajustamento estrutural&#8221;, ao servi\u00e7o do poder desenfreado do capital. Ainda na d\u00e9cada de 1970 a mudan\u00e7a &#8220;estrutural&#8221; referia-se \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o da terra dos grandes latifundi\u00e1rios para os destitu\u00eddos de terra; uma mudan\u00e7a de poder dos plutocratas para as classes populares. &#8220;Estruturas&#8221; referia-se \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do poder privado concentrado no estado e na economia. Hoje, contudo, &#8220;estrutura&#8221; refere-se \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas, as quais tiveram origem nas lutas do trabalho e da cidadania para proporcionar seguran\u00e7a social, para proteger o bem-estar, sa\u00fade e aposenta\u00e7\u00e3o de trabalhadores. &#8220;Mudan\u00e7as estruturais&#8221; s\u00e3o agora o eufemismo para esmagar aquelas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, acabar com os constrangimentos ao comportamento predat\u00f3rio do capital e destruir a capacidade do trabalho para negociar, lutar ou preservar seus avan\u00e7os sociais.<\/p>\n<p>O termo &#8220;ajustamento&#8221;, como em &#8220;ajustamento estrutural&#8221; (AS), \u00e9 em si pr\u00f3prio um eufemismo suave que implica sintonia fina, a modula\u00e7\u00e3o cuidadosa de institui\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas que apoiam a sa\u00fade e o equil\u00edbrio. Mas, na realidade, &#8220;ajustamento estrutural&#8221; representa um ataque frontal ao sector p\u00fablico e um desmantelamento geral de legisla\u00e7\u00e3o protectora e de ag\u00eancias p\u00fablicas organizadas para proteger o trabalho, o ambiente e os consumidores. &#8220;Ajustamento estrutural&#8221; mascara um assalto sistem\u00e1tico aos padr\u00f5es de vida do povo em benef\u00edcio da classe capitalista.<\/p>\n<p>A classe capitalista tem cultivado uma safra de economistas e jornalistas que apregoam pol\u00edticas brutais em linguagem suave, evasiva e enganosa a fim de neutralizar a oposi\u00e7\u00e3o popular. Infelizmente, muito dos seus cr\u00edticos &#8220;de esquerda&#8221; tendem a apoiar-se na mesma terminologia.<\/p>\n<p>Dada a corrup\u00e7\u00e3o generalizada da linguagem, t\u00e3o difusa nas discuss\u00f5es contempor\u00e2neas acerca da crise do capitalismo, a esquerda deveria cessar de se apoiar neste conjunto enganoso de eufemismos apropriados pela classe dominante. \u00c9 frustrante ver qu\u00e3o facilmente as express\u00f5es seguintes entram no nosso discurso:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Disciplina de mercado&#8221; <\/strong>\u2013 O eufemismo &#8220;disciplina&#8221; denota uma fortaleza de car\u00e1cter s\u00e9ria e consciente em face de desafios em contraposi\u00e7\u00e3o a comportamento irrespons\u00e1vel, escapista. Na realidade, quando vai a par com &#8220;mercado&#8221;, refere-se a capitalistas a aproveitarem-se de trabalhadores desempregados e utilizarem sua influ\u00eancia pol\u00edtica e o poder de despedirem massas de trabalhadores e intimidar os empregados remanescentes para maior explora\u00e7\u00e3o e excesso de trabalho, produzindo portanto mais lucro por menos pagamento. Ela tamb\u00e9m cobre a capacidade de grandes senhores capitalistas elevarem sua taxa de lucro cortando os custos sociais de produ\u00e7\u00e3o, tais como protec\u00e7\u00e3o ambiental e do trabalhador, cobertura de sa\u00fade e pens\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Choque de mercado&#8221; \u2013 <\/strong>Refere-se a capitalistas ocupados com maci\u00e7os e abruptos despedimentos brutais, cortes em sal\u00e1rios e elimina\u00e7\u00e3o de planos de sa\u00fade e pens\u00f5es a fim de melhorar cota\u00e7\u00f5es de ac\u00e7\u00f5es, aumentar lucros e assegurar maiores b\u00f3nus para os patr\u00f5es. Ao ligar o termo suave e neutro de &#8220;mercado&#8221; com &#8220;choque&#8221;, os apologistas do capital disfar\u00e7am a identidade dos respons\u00e1veis por tais medidas, suas consequ\u00eancias brutais e os imensos benef\u00edcios desfrutados pela elite.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Exig\u00eancias do mercado&#8221; \u2013 <\/strong>Esta frase eufem\u00edstica \u00e9 destinada a antropomorfizar uma categoria econ\u00f3mica, afastar a cr\u00edtica de propriet\u00e1rios reais de carne e osso, dos seus interesses de classe e do seu desp\u00f3tico estrangulamento do trabalho. Ao inv\u00e9s de &#8220;exig\u00eancias de mercado&#8221;, a frase deveria ser lida: &#8220;a classe capitalista ordena aos trabalhadores que sacrifiquem seus pr\u00f3prios sal\u00e1rios e sa\u00fade para assegurar mais lucro para as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais&#8221; \u2013 um conceito claro que provavelmente despertar\u00e1 a ira daqueles adversamente atingidos.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Livre empresa&#8221; \u2013 <\/strong>Um eufemismo que \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o de dois conceitos reais: empresa privada para lucro privado e competi\u00e7\u00e3o livre. Ao eliminar a imagem subjacente do ganho privado para os poucos contra o interesse dos muitos, os apologistas do capital inventaram um conceito que enfatiza as virtudes individuais de &#8220;empresa&#8221; e &#8220;liberdade&#8221; em oposi\u00e7\u00e3o aos v\u00edcios econ\u00f3micos reais da cobi\u00e7a e da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Mercado livre&#8221; \u2013 <\/strong>Um eufemismo que implica competi\u00e7\u00e3o livre, justa e igual em mercados n\u00e3o regulados encobrindo a realidade da domina\u00e7\u00e3o de mercado por monop\u00f3lios e oligop\u00f3lios dependentes de maci\u00e7os salvamentos do estado em tempos de crise capitalista. &#8220;Livre&#8221; refere-se especificamente \u00e0 aus\u00eancia de regulamenta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e interven\u00e7\u00e3o do estado para defender a seguran\u00e7a dos trabalhadores bem como a do consumidor e a protec\u00e7\u00e3o ambiental. Por outras palavras, &#8220;liberdade&#8221; mascara a destrui\u00e7\u00e3o desumana da ordem c\u00edvica por capitalistas privados atrav\u00e9s do seu exerc\u00edcio desenfreado do poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico. &#8220;Mercado livre&#8221; \u00e9 o eufemismo para o dom\u00ednio absoluto de capitalistas sobre os direitos e meios de vida de milh\u00f5es de cidad\u00e3os, na ess\u00eancia uma verdadeira nega\u00e7\u00e3o da liberdade.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica&#8221; \u2013 <\/strong>Esta frase eufem\u00edstica significa a recupera\u00e7\u00e3o de lucros pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es. Ela disfar\u00e7a a aus\u00eancia total de recupera\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de vida para as classes trabalhadora e m\u00e9dia, a revers\u00e3o de benef\u00edcios sociais e as perdas econ\u00f3micas de detentores de hipotecas, devedores, os desempregados a longo prazo e propriet\u00e1rios de pequenos neg\u00f3cios em bancarrota. O que \u00e9 encoberto na express\u00e3o &#8220;recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica&#8221; \u00e9 como a pauperiza\u00e7\u00e3o em massa se torna uma condi\u00e7\u00e3o chave para a recupera\u00e7\u00e3o de lucros corporativos.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Privatiza\u00e7\u00e3o&#8221; \u2013 <\/strong>O termo descreve a transfer\u00eancia de empresas p\u00fablicas, habitualmente aquelas lucrativas, para capitalistas de grande escala privados, bem conectados, a pre\u00e7os bem abaixo do seu valor real, levando \u00e0 perda de servi\u00e7os p\u00fablicos, emprego p\u00fablico est\u00e1vel e custos mais elevados para os consumidores pois os novos propriet\u00e1rios privados elevam pre\u00e7os e despedem trabalhadores \u2013 tudo em nome de outro eufemismo: &#8220;efici\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Efici\u00eancia&#8221; \u2013 <\/strong>Efici\u00eancia aqui refere-se apenas ao balan\u00e7o de uma empresa; n\u00e3o reflecte os custos pesados da &#8220;privatiza\u00e7\u00e3o&#8221; arcados por sectores relacionados da economia. Exemplo: &#8220;privatiza\u00e7\u00f5es&#8221; dos transportes aumentam custos de neg\u00f3cios a montante a jusante tornando-os menos competitivos em compara\u00e7\u00e3o com competidores em outros pa\u00edses; &#8220;privatiza\u00e7\u00e3o&#8221; elimina servi\u00e7os em regi\u00f5es que s\u00e3o menos lucrativas, levando ao colapso econ\u00f3mico local e ao isolamento dos mercados nacionais. Frequentemente, respons\u00e1veis p\u00fablicos, que est\u00e3o alinhados com capitalistas privados, desinvestem deliberadamente em empresas p\u00fablicas e nomeiam compadres pol\u00edticos incompetentes como parte da pol\u00edtica clientelista, a fim de degradar servi\u00e7os e fomentar descontentamento p\u00fablico. Isto cria uma opini\u00e3o p\u00fablica favor\u00e1vel a &#8220;privatiza\u00e7\u00e3o&#8221; da empresa. Por outras palavras, a &#8220;privatiza\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o \u00e9 um resultado das inefici\u00eancias inerentes das empresas p\u00fablicas, como os ide\u00f3logos do capital gostam de argumentar, mas um acto pol\u00edtico deliberado destinado o ganho do capital privado \u00e0 custa do bem-estar p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Linguagem, conceitos e eufemismos s\u00e3o armas importantes na luta de classe &#8220;dos de cima&#8221; concebidos por jornalistas e economistas capitalistas para maximizar a riqueza e o poder do capital. Na medida em que cr\u00edticos progressistas e de esquerda adoptam estes eufemismos e seu quadro de refer\u00eancia, as cr\u00edticas e alternativas que prop\u00f5em s\u00e3o limitadas pela ret\u00f3rica do capital. Colocar &#8220;aspas&#8221; em torno dos eufemismos pode ser um sinal de desaprova\u00e7\u00e3o mas isto n\u00e3o promove o quadro anal\u00edtico diferente que \u00e9 necess\u00e1rio para o \u00eaxito da luta de classe dos &#8220;de baixo&#8221;. Igualmente importante, deixa de lado a necessidade de uma ruptura fundamental com o sistema capitalista incluindo sua linguagem corrompida e seus conceitos enganosos. Os capitalistas subverteram em grande medida ganhos fundamentais da classe trabalhadora e estamos a cair outra vez em direc\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio absoluto do capital. Isto deve relan\u00e7ar a quest\u00e3o de uma transforma\u00e7\u00e3o socialista do estado, da economia e da estrutura de classe. Uma parte integral desse processo deve a rejei\u00e7\u00e3o total dos eufemismos utilizados pelos ide\u00f3logos capitalistas e a sua substitui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica por termos e conceitos que verdadeiramente reflictam a implac\u00e1vel realidade, que claramente identifiquem os perpetradores deste decl\u00ednio e que definam as ag\u00eancias sociais para a transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>18\/Maio\/2012<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/petras.lahaine.org\/?p=1898\" target=\"_blank\">http:\/\/petras.lahaine.org\/?p=1898<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\npor James Petras\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2896\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-2896","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c41-unidade-comunista"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-KI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2896","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2896"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2896\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2896"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2896"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2896"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}