{"id":28963,"date":"2022-06-30T08:00:38","date_gmt":"2022-06-30T11:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28963"},"modified":"2022-06-29T21:53:52","modified_gmt":"2022-06-30T00:53:52","slug":"sofrimento-psiquico-na-era-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28963","title":{"rendered":"Sofrimento ps\u00edquico na era do neoliberalismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/revistaoipe.files.wordpress.com\/2022\/06\/copia_de_post_ipe__2_.jpeg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Uma entrevista com Heribaldo Maia, via\u00a0Revista O Ip\u00ea, por Guilherme Monteiro<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo e historiador Heribaldo Maia lan\u00e7a em Bras\u00edlia seu novo <a href=\"https:\/\/www.rupturaeditorial.com\/produto\/neoliberalismo_e_sofrimento_psiquico\/\">livro<\/a>, \u201cNeoliberalismo e sofrimento ps\u00edquico: o mal-estar nas universidades\u201d. Confira sua entrevista exclusiva para O Ip\u00ea sobre sa\u00fade mental, ensino superior e milit\u00e2ncia<\/p>\n<p>Historiador de forma\u00e7\u00e3o, mestrando em filosofia e um \u00e1vido estudioso da psican\u00e1lise, o pernambucano Heribaldo Maia desponta como um dos importantes quadros dessa nova gera\u00e7\u00e3o de comunistas do Brasil. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e com um livro que acaba de ser publicado, o pernambucano nos recebeu para uma entrevista onde conversamos sobre sa\u00fade mental, educa\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Revista O Ip\u00ea: Como surgiu a ideia de escrever o livro \u201cNeoliberalismo e sofrimento ps\u00edquico: o mal-estar nas universidades\u201d?<br \/>\nHeribaldo Maia: Essa ideia surgiu da observa\u00e7\u00e3o e da viv\u00eancia. Eu estudava \u00e0 noite, turno onde tem as pessoas mais precarizadas, porque elas t\u00eam que trabalhar e estudar, um corre gigantesco. A maioria desse pessoal sempre estava reclamando de estresse e ansiedade por conta da universidade, chegando at\u00e9 a adoecer. T\u00ednhamos professores que passavam uma quantidade de trabalhos e leituras sem uma compreens\u00e3o da realidade dos alunos e simplesmente davam falta se a pessoa se atrasasse, mesmo que por conta do emprego. Tive um companheiro que participou do processo de ocupa\u00e7\u00e3o das universidades em 2016 e acabou se suicidando j\u00e1 pr\u00f3ximo de apresentar o trabalho de conclus\u00e3o de curso. N\u00e3o \u00e0 toa, uma frase que a gente ouvia muito das pessoas e que eu coloco no livro, \u00e9 \u201cisso aqui \u00e9 uma m\u00e1quina de moer gente\u201d.<\/p>\n<p>Fora isso, eu mesmo passei por um processo de adoecimento durante a universidade. At\u00e9 certo momento eu estava indo bem, com boas notas, mas depois passei a sofrer muito de estresse e ansiedade, tendo crises depressivas com mais frequ\u00eancia. Al\u00e9m disso, estava um pouco desiludido com o curso de hist\u00f3ria, pois gostava muito de Teoria da Hist\u00f3ria, mas esse tema era muito pouco abordado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).<\/p>\n<p>Como eu sempre gostei de fazer disciplinas de outros cursos, fui frequentando o departamento de filosofia, e l\u00e1 conheci o professor Filipe Campello, que me apresentou os autores da Teoria Cr\u00edtica, o que tamb\u00e9m me levou ao tema do livro. Como j\u00e1 militava, me peguei pensando: \u201cpoxa, estou passando por essa situa\u00e7\u00e3o e estou vendo aqui autores falando sobre depress\u00e3o e ansiedade de maneira cr\u00edtica sem ser aquela coisa meio autoajuda\u201d. Me capturou r\u00e1pido, e a partir da\u00ed comecei a estudar firmemente o tema. Portanto, foi uma esp\u00e9cie de acaso te\u00f3rico por um lado, observa\u00e7\u00e3o de colegas, amigos e companheiros de luta e uma pr\u00f3pria experi\u00eancia de adoecimento tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>RI: Como voc\u00ea enxerga essa l\u00f3gica neoliberal presente na universidade, pela qual, ao mesmo tempo em que se exige uma produtividade grande, deixa-se o aluno isolado tanto no processo de forma\u00e7\u00e3o quanto no de pesquisa?<br \/>\nHM: Acho que um ponto importante \u00e9 perceber que o neoliberalismo continua sendo o capitalismo de sempre, s\u00f3 que com t\u00e9cnicas mais aperfei\u00e7oadas de controle das pessoas. O capitalismo sempre foi, desde que nasceu, um sistema de que depende de um n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o das pessoas por conta de sua pr\u00f3pria estrutura\u00e7\u00e3o. Marx j\u00e1 falava isso. Ele \u00e9 ardiloso, por assim dizer. S\u00f3 que para isso, ele tamb\u00e9m precisa criar formas de controle para que essa explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se transforme em organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de uma classe que \u00e9 explorada, ou seja, voc\u00ea precisa criar uma esp\u00e9cie de c\u00e1lculo: mais explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora com o menor custo pol\u00edtico para a classe burguesa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se arrumam mecanismos que operam para tentar mascarar um pouco a realidade, como \u00e9 o caso da ideologia, discutida por Marx. Mesmo autores n\u00e3o marxistas tamb\u00e9m prop\u00f5em essa discuss\u00e3o, como o caso de Foucault, sobre a quest\u00e3o da disciplina. Dito isso, neoliberalismo \u00e9 uma forma ainda mais aperfei\u00e7oada de se tentar ao m\u00e1ximo fazer com que as pessoas n\u00e3o se revoltem dentro do capitalismo. Ou seja, o neoliberalismo \u00e9 mais do que uma nova forma de gest\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica: \u00e9 uma forma de criar pessoas, criar sujeitos, criar uma subjetividade, uma mente para o mundo neoliberal.<\/p>\n<p>Isso se expressa muito bem na universidade, afinal, como a universidade consegue fazer com que o aluno seja muito produtivo ao mesmo tempo em que est\u00e1 muito isolado? \u00c9 um ultra individualismo t\u00edpico da organiza\u00e7\u00e3o neoliberal e que tem a ver com a pr\u00f3pria forma como a produtividade se arraiga como cultura. Ent\u00e3o, por exemplo, essa cultura da produtividade nos diz que se pode ser quem quiser e que se pode ser feliz o tempo todo. Surgem slogans da publicidade como \u201cnada \u00e9 imposs\u00edvel\u201d; \u201cseja voc\u00ea mesmo\u201d; \u201ctudo est\u00e1 ao alcance de suas m\u00e3os, s\u00f3 depende de voc\u00ea\u201d etc.. Alguns autores liberais, claro, n\u00e3o excluem que existiram diferentes pontos de partida e que algumas pessoas ter\u00e3o caminhos mais dif\u00edceis que outras, mas isso n\u00e3o significa que voc\u00ea n\u00e3o tenha potencial de \u201cchegar l\u00e1\u201d! Essa famosa frase! L\u00e1 onde? Ningu\u00e9m sabe, mas tem de se chegar l\u00e1.<\/p>\n<p>Uma estrat\u00e9gia muito comum ao neoliberalismo, e que aparece de forma bem expl\u00edcita na universidade, \u00e9 a ideia de que, existindo ou n\u00e3o algum tipo de incentivo, voc\u00ea produz o seu caminho atrav\u00e9s de um processo cont\u00ednuo de autoavalia\u00e7\u00e3o do qual s\u00f3 depende de voc\u00ea. Por exemplo, o que \u00e9 constru\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo lattes? Basicamente, \u00e9 um sistema de avalia\u00e7\u00e3o de sua produtividade e determina quem voc\u00ea \u00e9 enquanto estudante, enquanto pessoa que est\u00e1 fazendo esse caminho acad\u00eamico. Mas mesmo que voc\u00ea n\u00e3o queira seguir carreira acad\u00eamica, s\u00f3 se formar e sair da faculdade, o neoliberalismo se assegura de deixar claro que voc\u00ea pode se prejudicar no mercado de trabalho se n\u00e3o aderir ao produtivismo. \u00c9 necess\u00e1rio \u201cinvestir em si mesmo\u201d, se capacitar porque o mercado de trabalho pede pessoas capacitadas. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim entrar, se formar e sair direto para o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Como essa gest\u00e3o \u00e9 individual, ningu\u00e9m precisa colocar uma arma na sua cabe\u00e7a porque voc\u00ea sabe que voc\u00ea precisa fazer isso para ser considerado bem-sucedido. Contudo, a realidade \u00e9 que, independente do quanto voc\u00ea queira, isso n\u00e3o significa que voc\u00ea vai conseguir, mesmo que fa\u00e7a tudo que esteja ao seu alcance. A universidade ent\u00e3o se torna um ambiente que, assim como o mercado de trabalho e a sociedade, reproduz uma esp\u00e9cie de luta de todos contra todos, de uma concorr\u00eancia desenfreada, onde por mais que sejamos colegas, tamb\u00e9m estamos concorrendo por um lugar no futuro.<\/p>\n<p>Ainda mais grave \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das pessoas que entraram, por exemplo, com pol\u00edticas de cotas, que geralmente s\u00e3o pessoas com condi\u00e7\u00f5es de vida mais precarizadas e que, al\u00e9m de ter que fazer todo esse percurso, ainda precisam arrumar dinheiro para se alimentar na universidade, para conseguir, \u00e0s vezes, nem o livro, mas pagar uma xerox, j\u00e1 que por vezes nem mesmo t\u00eam computador. Eu mesmo fiquei com o computador quebrado por muito tempo, usando o da universidade.<\/p>\n<p>No caso das universidades privadas, onde o interesse pela pesquisa costuma ceder espa\u00e7o para a prepara\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho, soma-se a isso tudo a preocupa\u00e7\u00e3o de pagar pelos seus estudos enquanto se tem de lidar com um ideal de produtividade relacionado \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o para se conseguir um emprego de boa remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso contribui para a produ\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de impossibilidade de se criar v\u00ednculos de solidariedade entre as pessoas. Significa ent\u00e3o que esses v\u00ednculos n\u00e3o existem? Eles existem, mas n\u00e3o s\u00e3o capazes de fazer frente \u00e0 l\u00f3gica individualista. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, para voc\u00ea conseguir ter chances de em algum momento conquistar seu ganha p\u00e3o, garantir um teto, comida e algum tipo de lazer e descanso, voc\u00ea precisa passar por toda essa maratona de concorr\u00eancia absoluta.<\/p>\n<p>RI: Muitas pessoas enxergam em seu trabalho acad\u00eamico uma forma de transformar o mundo. Isso dialoga muito com as ideias de uma pessoa que tamb\u00e9m se organiza em movimentos e partidos pol\u00edticos. Como voc\u00ea enxerga a rela\u00e7\u00e3o entre essas duas esferas para que se opere, de fato, uma transforma\u00e7\u00e3o em nossa sociedade?<br \/>\nHM: A milit\u00e2ncia \u00e9 um espa\u00e7o bastante complexo. Por um lado, estamos ali, naquele ambiente de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, partilhando a possibilidade de um futuro diferente, de um outro mundo. N\u00f3s somos vinculados por esse horizonte de alguma forma, mas ao mesmo tempo tamb\u00e9m somos sujeitos deste mundo. Quando digo que n\u00f3s somos sujeitos, quero dizer que a gente tamb\u00e9m reproduz este mundo. O fato de se saber essas articula\u00e7\u00f5es entre capitalismo e subjetividade, entre capitalismo e ideologia, n\u00e3o faz com que a gente esteja fora da lata de lixo da ideologia. A gente tamb\u00e9m est\u00e1 dentro dela, mas de maneira tensionada. Isso cria um problema para as organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Recomendo ler o livro \u201cArquitetura de Arestas\u201d, de Edmilson Paran\u00e1 e Gabriel Tupinamb\u00e1. Eles abordam algo que eu j\u00e1 vinha pensando, mas que conseguiram colocar de maneira muito melhor. Foi \u00f3timo! Facilitou muito o trabalho (risos)! Para eles, as organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o esses espa\u00e7os onde n\u00f3s compartilhamos essa tens\u00e3o de sermos sujeitos deste mundo e ao mesmo tempo sermos sujeitos de um mundo que est\u00e1 por vir, porque n\u00f3s ainda o estamos construindo.<\/p>\n<p>Isso significa que n\u00f3s, enquanto sujeitos pol\u00edticos, passamos por um processo de precariza\u00e7\u00e3o violenta e inser\u00e7\u00e3o nessa l\u00f3gica de concorr\u00eancia absoluta, de precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Somos inseridos nos modos de vida que nos imp\u00f5e formas de adoecimento, formas de sofrer, e que, \u00e0s vezes, acarretam inclusive uma falta de tempo para a pr\u00f3pria milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lutar para transformar o mundo tem uma capacidade terap\u00eautica de algum modo, ent\u00e3o quando a gente est\u00e1 militando, a gente acaba dando sentido \u00e0 nossa exist\u00eancia, a gente termina produzindo v\u00ednculos que nos retiram desse processo de individualiza\u00e7\u00e3o absoluta e nos colocam num processo de coletividade. Por\u00e9m, como um desafio para o nosso tempo, tamb\u00e9m cabe \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es pensar sobre como lidar com os militantes em adoecimento, que \u00e0s vezes n\u00e3o est\u00e3o em adoecimento por conta da organiza\u00e7\u00e3o, da tarefa pol\u00edtica, mas est\u00e3o em adoecimento por conta de todas essas determina\u00e7\u00f5es sociais que nos imp\u00f5e essa cultura de produtividade em todos os campos da vida. Como lidar, por exemplo, com a precariedade financeira e material, com a falta de lazer, com a falta de \u00f3cio que os militantes vivenciam no seu dia-a-dia. Isso impacta na milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Militante n\u00e3o descansado n\u00e3o tem como militar, essa \u00e9 a real! Ent\u00e3o, como as organiza\u00e7\u00f5es podem gerir isso? Eu acho que n\u00e3o basta somente a gente sonhar e tentar partilhar esse horizonte de um mundo novo. A gente tamb\u00e9m precisa realizar um pouco desse mundo novo hoje, dentro das organiza\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 algo que eu inclusive quero trabalhar num futuro, at\u00e9 como uma esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o desse livro, sobre como a gente pode produzir espa\u00e7os de n\u00e3o produtividade dentro da milit\u00e2ncia. Em v\u00e1rios momentos, a gente est\u00e1 dentro da milit\u00e2ncia para cumprir uma tarefa, ir para a sede do partido para fazer uma reuni\u00e3o, para produzir algo, ou seja, tudo ainda muito ligado a uma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro que a produ\u00e7\u00e3o em si n\u00e3o \u00e9 algo necessariamente negativo. \u00c9 importante que a gente produza algo, mas a gente n\u00e3o pode se embebecer nessa l\u00f3gica da produtividade que a gente tamb\u00e9m reproduz nesses espa\u00e7os. Ou seja: cabe tamb\u00e9m pensar em espa\u00e7os de socializa\u00e7\u00e3o in\u00fateis, por assim dizer. Reunir todos os camaradas, sei l\u00e1, para assistir um filme qualquer que n\u00e3o seja um filme cabe\u00e7a, para assistir um filme de boneco; ou para praticar um esporte juntos, um jogo; criar um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, e assim por diante.<\/p>\n<p>Esses espa\u00e7os que v\u00e3o produzir um lugar n\u00e3o para necessariamente produzir amizades, mas onde o militante vai poder dizer \u201cestamos aqui juntos apenas desfrutando nossa companhia enquanto camaradas!\u201d. Acredito que isso produz uma palpabilidade desse futuro que a gente pretende construir mais pra frente e d\u00e1 materialidade e concretude para esse v\u00ednculo de camaradagem que a gente tenta refor\u00e7ar na nossa rela\u00e7\u00e3o militante.<\/p>\n<p>Acho que esse desejo de mudar o mundo \u00e9 fundamental e pode ser terap\u00eautico porque ele pode produzir esses espa\u00e7os onde a gente se retira, mesmo que momentaneamente, deste universo do capital e podemos sentir um pouco do gostinho que tem o mundo para al\u00e9m do capital. E, quando voc\u00ea sente o gostinho de algo, se torna muito mais concreto e muito mais palp\u00e1vel do que apenas se falar desse mundo futuro em termos abstratos.<\/p>\n<p>RI: Quais seriam os caminhos para pensarmos uma universidade mais respons\u00e1vel com a sa\u00fade mental de seus membros?<br \/>\nHM: Eu acho que a nossa milit\u00e2ncia enquanto comunista \u00e9 uma milit\u00e2ncia tensa. A gente tem que lidar o tempo inteiro com essa tens\u00e3o que o Gabriel e o Edmilson descreveram bem, sobre estarmos aqui neste mundo ao mesmo tempo em que estamos tentando construir um mundo futuro. A gente tem que arrumar solu\u00e7\u00f5es paliativas e, enquanto isso, j\u00e1 construir essa estrada rumo a uma sociedade p\u00f3s-capitalista, uma sociedade comunista.<\/p>\n<p>E a\u00ed eu acho que passa por aliar bem esses dois momentos. \u00c9 preciso considerar tamb\u00e9m o seguinte: a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um imperativo do nosso tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 legal? N\u00e3o \u00e9 uma das cinco coisas mais legais que fa\u00e7o no meu dia, mas \u00e9 necess\u00e1rio (risos). E hoje ela \u00e9 mais necess\u00e1ria ainda, porque todos os espa\u00e7os est\u00e3o passando por esse processo de precariza\u00e7\u00e3o e de destrui\u00e7\u00e3o das possibilidades de n\u00f3s termos algum v\u00ednculo de solidariedade.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica possibilita que a gente tenha condi\u00e7\u00f5es de disputar esses espa\u00e7os de maneira mais eficiente, ao inv\u00e9s de cair nessa l\u00f3gica que o neoliberalismo imp\u00f5e t\u00e3o bem, que \u00e9 a milit\u00e2ncia individualizada. Tanto \u00e9 assim que o neoliberalismo n\u00e3o tem problema com a figura do ativista, individual, ele tem problema com a milit\u00e2ncia. Ele at\u00e9 mesmo incentiva uma criticazinha a ele pr\u00f3prio. O capitalismo hoje percebeu que \u00e9 mais eficiente ele mesmo dar as ferramentas para que as pessoas o critiquem. Ent\u00e3o ele mesmo organiza alguns espa\u00e7os de cr\u00edtica ao capitalismo, s\u00f3 que dentro dessa l\u00f3gica do empreendedorismo, do empoderamento individualista, e assim por diante. Assim, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se torna um espa\u00e7o fundamental.<\/p>\n<p>Isto dentro da universidade \u00e9 mais fundamental ainda, porque voc\u00ea vai ter nesse processo de precariza\u00e7\u00e3o a necessidade de luta por manuten\u00e7\u00f5es e avan\u00e7os que s\u00e3o fundamentais para, por exemplo, melhorar a situa\u00e7\u00e3o social dos estudantes da universidade, como a luta por restaurantes universit\u00e1rios, pela moradia universit\u00e1ria, pelas bolsas de perman\u00eancia, pela manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de cotas, pelas condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia na universidade, pela amplia\u00e7\u00e3o de programas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tamb\u00e9m para que mais pessoas tenham acesso \u00e0s universidades.<\/p>\n<p>Tudo isso produz a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para pautar essas quest\u00f5es mais imediatas e paliativas, mas tamb\u00e9m h\u00e1 a necessidade de se construir um grande movimento que paute uma reestrutura\u00e7\u00e3o completa da universidade e, a meu ver, esse movimento passa pela pauta da universidade popular.<\/p>\n<p>O PCB constr\u00f3i o Movimento por uma Universidade Popular (MUP), que pauta tudo isso que eu falei, mas que tamb\u00e9m visa a construir uma reestrutura\u00e7\u00e3o fundamental da universidade, que tire a universidade dessa l\u00f3gica produtivista e a coloque numa l\u00f3gica de servir \u00e0 sociedade: tanto que sirva para que aqueles que est\u00e3o dentro da universidade se capacitem, sem que se precise ser um animal produtivo, por assim dizer, e que tenha condi\u00e7\u00f5es de permanecer nessa atividade; quanto se torne n\u00e3o um ambiente de concorr\u00eancia, mas um ambiente de democratiza\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por exemplo, \u00e9 claro que precisamos de mecanismos de controle de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas esse controle n\u00e3o pode ser determinante para o futuro das pessoas dentro das universidades. Por que um aluno que fez um artigo \u00e9 menos capaz de fazer um mestrado ou um doutorado, do que um aluno que fez 60 artigos? Pode ter tantos motivos para al\u00e9m da mera capacidade individual. Ou seja, a gente precisa pautar uma universidade que seja democr\u00e1tica em seu acesso, em suas possibilidades tanto de capacita\u00e7\u00e3o profissional quanto de inser\u00e7\u00e3o na carreira acad\u00eamica, e isso passa por uma reestrutura\u00e7\u00e3o profunda, restrutura\u00e7\u00e3o do lattes, da CAPES, do repasse de verbas, dos vestibulares, do ENEM etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu acho que a pauta da universidade popular deve mirar esses dois horizontes simultaneamente: a constru\u00e7\u00e3o de uma universidade popular a longo prazo e pautas imediatas relacionadas \u00e0 luta pela manuten\u00e7\u00e3o e avan\u00e7os. \u00c9 uma luta \u00e1rdua, porque a universidade n\u00e3o \u00e9 um microuniverso isolado de toda a sociedade. Por isso que a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 fundamental, pois ela nos aponta que, sendo a universidade esse campo de luta importante, \u00e9 preciso que se articule essa luta com outras lutas tamb\u00e9m, como as do movimento negro, do ind\u00edgena, do LGBT e daqueles que pautam a luta contra o teto de gastos, contra a forma como \u00e9 gerida a quest\u00e3o do ensino e da pesquisa no Brasil etc.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter claro que ningu\u00e9m, a princ\u00edpio, \u00e9 contra a educa\u00e7\u00e3o! Ningu\u00e9m! Tabata Amaral \u00e9 super a favor da educa\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea falar com Jorge Paulo Lemann, ele ser\u00e1 a favor da educa\u00e7\u00e3o. Luciano Huck tamb\u00e9m \u00e9 super a favor da educa\u00e7\u00e3o. O neoliberalismo \u00e9 a favor da educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>Mas o que a gente tem que mostrar para as pessoas \u00e9 que n\u00e3o basta s\u00f3 ser a favor da educa\u00e7\u00e3o: \u00e9 necess\u00e1rio construir uma educa\u00e7\u00e3o na qual as pessoas se sintam e estejam de fato inclusas! E a grande realidade \u00e9 que o povo brasileiro se encontra exclu\u00eddo do ensino superior. O movimento de uma universidade popular traz para a gente a possibilidade de dizer para as pessoas: \u201colha! a universidade \u00e9 nossa! Vamos tomar ela, mas vamos tomar fazendo uma grande transforma\u00e7\u00e3o!\u201d. Mas a gente n\u00e3o consegue fazer isso, n\u00e3o basta ser apenas ativista pela educa\u00e7\u00e3o, a gente tem que ser militante pela educa\u00e7\u00e3o e, de prefer\u00eancia, militante comunista, para rompermos com as amarras que o capital imp\u00f5e para a realiza\u00e7\u00e3o desse projeto de universidade emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>RI: Uma palavra final para as pessoas que se veem presas entre tentar administrar trabalho, estudo e milit\u00e2ncia e ainda manter sua sa\u00fade mental nessa busca por mudar o mundo<br \/>\nHM: Eu acho que a gente primeiro precisa entender que sofrer, sentir dores ps\u00edquicas, \u00e9 algo normal. Quando a gente chegar ao comunismo n\u00e3o necessariamente ser\u00e1 um universo livre de sofrimento. As pessoas continuar\u00e3o tendo de lidar com o sofrimento quando um ente querido morrer, quando seu bichinho morrer, quando seu time perder, quando perder uma amizade, quando um relacionamento terminar, independente das formas de relacionamento que se far\u00e3o presentes no nosso futuro. Poderemos sofrer de crises existenciais, voc\u00ea poder\u00e1 se pegar pensando \u201co que estou fazendo aqui? Qual o sentido da minha exist\u00eancia?\u201d. Essas coisas v\u00e3o trazer algum tipo de sofrimento.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 a gente tentar produzir uma sociedade em que a gente saia desse sofrimento neur\u00f3tico, por assim dizer, desse sofrimento repetitivo, de um mundo que nos sufoca, para um sofrimento banal, e entender que o sofrer tem um aspecto positivo: ele \u00e9 parte de nossa exist\u00eancia. O sofrimento nos ensina, nos aponta possibilidades de pensar outros caminhos na nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia, inclusive enquanto sociedade. E dizer para as pessoas que construir esse futuro hoje, apesar de muito dif\u00edcil, pode ser muito recompensador.<\/p>\n<p>\u00c9 importante entender que a gente n\u00e3o d\u00e1 conta de tudo. Sempre que voc\u00ea acha que algu\u00e9m d\u00e1 conta de tudo \u00e9 mentira. As pessoas n\u00e3o d\u00e3o conta de tudo! E tudo bem! A gente tem que agir conforme nossos limites! Eu sei que \u00e9 dif\u00edcil, pois essa l\u00f3gica produtivista determina inclusive quem n\u00f3s somos para os outros, e isso \u00e9 muito importante, ent\u00e3o a gente termina embebido nessa l\u00f3gica, mas temos que ao menos ir tentando dos\u00e1-la enquanto n\u00e3o sa\u00edmos dela.<\/p>\n<p>O fundamental \u00e9 perceber que juntos a gente pode, se n\u00e3o curar as nossas dores de hoje, ao menos sofrer de outra forma. Coletivamente, a gente pode sofrer de outra forma. Podemos dar outro sentido para o nosso sofrimento. E se isso n\u00e3o significa parar de sofrer, significa pelo menos, como diz Freud, sofrer melhor. Por isso tamb\u00e9m se procura terapia. E sofrer melhor, com mais qualidade, \u00e9 muito melhor do que sofrer pior.<\/p>\n<p>Talvez a milit\u00e2ncia seja esse espa\u00e7o onde n\u00f3s, compartilhando nossas dores, nossas ang\u00fastias, e, ao mesmo tempo, compartilhando essa chama de construir um mundo diferente, consigamos sofrer melhor juntos. E sofrer melhor juntos \u00e9 ainda melhor que sofrer melhor sozinhos. Ent\u00e3o acho que a milit\u00e2ncia, a luta pol\u00edtica e a luta pol\u00edtica comunista possibilitam pra gente um sofrer melhor, porque o nosso sofrer melhor n\u00e3o \u00e9 um sofrer sozinho, \u00e9 um sofrer coletivo que nos retira da paraliza\u00e7\u00e3o em que o capital quer nos colocar.<\/p>\n<p>Walter Benjamin dizia que o capitalismo nos controla nos melancolizando. Hoje o capitalismo nos controla nos tornando depressivos. Ent\u00e3o a possibilidade \u00e9 sofrermos melhor juntos! Sofrer n\u00e3o mais em depress\u00e3o, mas sofrer em a\u00e7\u00e3o! Sofrer em ag\u00eancia! Em pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o! E voc\u00ea, vendo que na milit\u00e2ncia a sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o come\u00e7a em voc\u00ea e n\u00e3o termina em voc\u00ea, pois voc\u00ea tem camaradas com quem pode contar, come\u00e7a a enxergar que, de alguma forma, aquilo que voc\u00ea est\u00e1 construindo \u00e9 imortal.<\/p>\n<p>Lan\u00e7amento do livro \u201cNeoliberalismo e sofrimento ps\u00edquico: o mal-estar nas universidades\u201d, com Heribaldo Maia Data: Sexta (01\/07) Local: Audit\u00f3rio do Sintfub (UnB) \u2013 UnB Bloco C Edif\u00edcio Multiuso 1 Hor\u00e1rio: 19h00 Entrada Gratuita<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28963\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[224],"class_list":["post-28963","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7x9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28963"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28963\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}