{"id":29001,"date":"2022-07-07T18:40:39","date_gmt":"2022-07-07T21:40:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29001"},"modified":"2022-07-07T18:01:21","modified_gmt":"2022-07-07T21:01:21","slug":"o-artista-tem-que-acabar-seu-edgar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29001","title":{"rendered":"O artista tem que acabar (Seu Edgar)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-51.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Um ensaio para os artistas de esquerda, por Rafael Ayres &#8211; Coletivo Cultural Vianinha \u2013 S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Sou muito mais guerrilheiro que MC (com todo respeito) \u2013 Don L<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Em 2018, durante uma oficina de fotografia abstrata, o professor disse algo mais ou menos assim sobre arte:\u00a0<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>se voc\u00eas querem fazer arte, ent\u00e3o procurem um emprego em outra \u00e1rea. S\u00f3 assim voc\u00eas conseguir\u00e3o se dedicar ao seu processo art\u00edstico sem as interfer\u00eancias do dia-a-dia, como se sustentar.<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">\u00a0O que na \u00e9poca pareceu uma forte defesa da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u201cpura\u201d, fora da correria do capitalismo, para a livre express\u00e3o, hoje me parece pura bobagem. Explico: ao retirar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica das amarras da rela\u00e7\u00e3o capitalista, para que ela se expresse livremente, na verdade voc\u00ea est\u00e1 retirando a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica da pr\u00f3pria realidade em que vivemos; subordinar a arte ao nosso tempo livre \u2013 e chamar de\u00a0<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>hobby<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">\u00a0&#8211; significa aceitar o dom\u00ednio capitalista na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">A arte \u00e9 produzida dentro do nosso sistema. \u00c9 ilus\u00e3o achar que h\u00e1 alguma outra forma de produzir arte (feita aqui uma ressalva que me refiro a pessoa que produz arte como a pessoa que vive dentro do sistema capitalista, em ambiente citadino na maioria dos casos). At\u00e9 porque arte \u00e9 resultante do trabalho humano; produzir arte \u00e9 um trabalho como outro qualquer. Arte e trabalho possuem uma natureza criadora comum (1) \u2013 no caso, n\u00f3s. Entender a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica dentro do signo do capitalismo \u00e9 entender que os modos de produ\u00e7\u00e3o capitalista interferem diretamente no fazer art\u00edstico. Contudo, arte n\u00e3o \u00e9 meramente um reflexo desse sistema; este tipo de an\u00e1lise &#8211; que enxerga a produ\u00e7\u00e3o cultural como reflexo de uma sociedade e dos seus meios de produ\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 pobre, incompleta, elimina a criatividade e engessa todo um fazer para se adequar em algum academicismo in\u00fatil (2).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">A produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica pode estar \u00e0 margem da ind\u00fastria (3) &#8211; seja por uma exclus\u00e3o dessa pr\u00f3pria ind\u00fastria, que n\u00e3o enxerga valor de troca no produto produzido, excluindo e marginalizando a produ\u00e7\u00e3o, tanto quanto por uma falta de estrutura\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ind\u00fastria em um determinado local; e tamb\u00e9m completamente cooptada por uma ind\u00fastria cultural (como a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica da Marvel \/ Disney). E h\u00e1 toda uma escala de varia\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es entre esses dois p\u00f3los \u2013 como exemplos, o potencial contra hegem\u00f4nico do samba, do hip-hop, do funk na m\u00fasica; pixo nas artes visuais; entre outros &#8211; onde o fazer art\u00edstico deve ser analisado e compreendido. O ponto, neste ensaio, \u00e9 entender que a arte, vendida como a liberdade do ser humano (qual \u201cliberdade\u201d, veremos mais para frente), o pote de ouro para al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, tamb\u00e9m e subjugada \u00e9 explorada tal como os outros tipos de trabalho s\u00e3o dentro do capitalismo<\/span><span style=\"font-size: large;\"><b>.<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Retomando a tese do in\u00edcio do texto, querer fazer uma arte \u201cfora do sistema\u201d \u00e9 somente conformar-se com o pr\u00f3prio capitalismo, tentando inutilmente manter-se fora dele. \u00c9 irrespons\u00e1vel. \u00c9 uma express\u00e3o individualista, alienada, cindida da sociedade, operando, portanto, a pr\u00f3pria mistifica\u00e7\u00e3o do trabalho dentro da arte \u2013 opera\u00e7\u00e3o cultuada e motivada pela burguesia. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, j\u00e1 havia percebido essa quest\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">\u201cAcredito que isso ocorreu \u00e0 maioria de n\u00f3s. A realidade sufocante que se vive l\u00e1 fora (&#8230;) \u00e9 deixada de lado com o teatro. A minha irresponsabilidade \u2013 que fatalmente se chocaria com a minha sobreviv\u00eancia (exce\u00e7\u00e3o feita aos Baby Pignatari) \u2013 poderia continuar a ser exercida \u2013 remunerada. A irresponsabilidade cultural, emocional, digamos assim, poderia continuar a ser exercida \u2013 porque agora ela me sustenta economicamente. \u00c9 caracter\u00edstico em todo meio art\u00edstico a repulsa por todos os problemas da realidade. Os artistas criam outra realidade&#8230; E transformam as suas verdades inclusive como motor social de primeira import\u00e2ncia. (&#8230;) O artista parte para outra realidade e ali consegue de certo modo justificar sua exist\u00eancia \u2013 atrav\u00e9s da liberdade de a\u00e7\u00e3o que encontra \u2013 sem pensar que ela \u00e9 exercida em termos de perpetua\u00e7\u00e3o da mesma realidade de selos e firmas reconhecidas. O artista, no seu teatro, pode continuar a ser o her\u00f3i imaculado \u2013 pode continuar a ser o Fl\u00e1vio Rangel \u2013 jogando violentamente na cara do p\u00fablico a sua mesquinhez\u201d. (4)<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">N\u00e3o podemos fugir da realidade colocada anteriormente: arte \u00e9 resultante do trabalho humano. Ali\u00e1s, fazer arte d\u00e1 muito trabalho. Deixo aqui as palavras do camarada Thiago Cervan, inspirado em Marx:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-size: large;\">\u201cA arte n\u00e3o nasce do talento individual, n\u00e3o brota espontaneamente da mente de seres iluminados. \u00c9 antes produto de seu tempo, e s\u00f3 pode ser compreendida em seu contexto hist\u00f3rico determinado. Como afirmam Marx e Engels em A Ideologia Alem\u00e3: \u2018A concentra\u00e7\u00e3o exclusiva do talento art\u00edstico em alguns indiv\u00edduos e, com isso, a sua permanente asfixia em meio \u00e0s grandes massas \u00e9 consequ\u00eancia da divis\u00e3o do trabalho\u2019. Enquanto uns sobrevivem cantando e recebendo milh\u00f5es, outros constroem pr\u00e9dios com o suor de seu rosto. E outras pessoas n\u00e3o conseguem nem se vender enquanto for\u00e7a de trabalho, n\u00e3o fazem nem mais parte do ex\u00e9rcito industrial de reserva. Temos um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o concomitante com as novas formas de explorar o trabalho que gerou um contingente de \u2018inempreg\u00e1veis\u2019. A arte, tal como hoje a conhecemos, s\u00f3 pode existir gra\u00e7as ao ac\u00famulo de riqueza proporcionada pela massa de trabalhadores an\u00f4nimos que vendem sua for\u00e7a de trabalho para conseguirem garantir minimamente sua reprodu\u00e7\u00e3o. Essa divis\u00e3o entre quem somente vive \u2018pensando\u2019 e quem \u2018executa\u2019 \u00e9 o que proporciona a \u2018concentra\u00e7\u00e3o exclusiva de talento em alguns indiv\u00edduos\u2019 \u2013 a divis\u00e3o trabalho\u201d. (5)<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Tentar escapar disto \u00e9 pura aliena\u00e7\u00e3o. Dizer que \u00e9 fruto de inspira\u00e7\u00e3o, ou alguma caracter\u00edstica sobrenatural \u00e0 arte \u00e9 jogar as regras do capital, achando-se fora do sistema por alguma quest\u00e3o est\u00fapida de superioridade moral \u2013 a genialidade, uma voca\u00e7\u00e3o, um dom divino? \u00c9 querer sentir-se fora de um sistema que oprime a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial, numa tentativa estapaf\u00fardia de fugir da explora\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m da responsabilidade de lutar contra essa explora\u00e7\u00e3o. Afinal, como bem colocou S\u00e9rgio Ferro:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">\u201co trabalho livre (<i>trabalho realizado pelos artistas)\u00a0<\/i>merece respeito. Como ele \u00e9 privil\u00e9gio de seres superiores, &#8211; os g\u00eanios -, por tabela fica demonstrado que os que trabalham subordinados s\u00e3o naturalmente inferiores. [&#8230;] Que desafogo para os exploradores descobrir que sua viol\u00eancia obedece aos planos celestes que enxertaram a necessidade da submiss\u00e3o no ser mesmo da maioria.\u201d (6)<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Basicamente o que S\u00e9rgio Ferro est\u00e1 colocando \u00e9 o trabalho pretensamente livre dos artistas s\u00f3 pode existir porque existe o trabalho subordinado e alienado da grande maioria da sociedade. Mistificando o pr\u00f3prio trabalho art\u00edstico para apresentar a obra de arte como algo diferente do trabalho (ou seja, o artista que n\u00e3o quer ser visto como trabalhador subordinado), o que ocorre, de fato, \u00e9 o refor\u00e7o (ainda que involunt\u00e1rio) da estrutura que oprime a todos os trabalhadores e trabalhadoras. Portanto,<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\"><b>como que um artista pode combater o autoritarismo e o fascismo de nosso tempo, se o ilustre artista se coloca acima do c\u00e9u e da terra, respondendo um chamado de deus?<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Mais uma vez: antes do artista, somos trabalhadores &#8211; e me permito discordar do Vianinha. (7) Produzir arte \u00e9 um trabalho, e como tal, precisamos nos reconhecer enquanto trabalhadores. Trabalhadores de uma categoria que ainda n\u00e3o se reconhece completamente como tal. Em sentido estrito (o da produ\u00e7\u00e3o, seja ela alienada ou n\u00e3o), h\u00e1 diferen\u00e7as na forma em que trabalhamos \u2013 em que pese essa diferen\u00e7a vem diminuindo, na minha vis\u00e3o. O nosso trabalho, diferentemente da maioria da classe trabalhadora, ainda n\u00e3o \u00e9 alienado (em sua maioria \u2013 h\u00e1 de se pensar na produ\u00e7\u00e3o do audiovisual que ocorre grande divis\u00e3o do trabalho). Temos controle do processo (ainda). Esperam de n\u00f3s a \u201coriginalidade\u201d, a criatividade. O escultor, em tese, ainda pode esculpir o que quiser. O compositor comp\u00f5e livremente. Mas a perversidade da explora\u00e7\u00e3o \u00e9 a ilus\u00e3o de termos o controle da nossa produ\u00e7\u00e3o e do nosso tempo (j\u00e1 viu a dificuldade de conseguir vender nossa arte? De conseguir financiamento? De conseguir que paguem decentemente por um show?). A ilus\u00e3o de uma liberdade? Que liberdade \u00e9 essa? Lenin j\u00e1 a define muito bem:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-size: large;\">\u201cEm segundo lugar, senhores individualistas burgueses, devemos dizer-vos que os vossos discursos sobre a liberdade absoluta n\u00e3o passam de hipocrisia. Numa sociedade baseada no poder do dinheiro, numa sociedade em que as massas dos trabalhadores vivem na mis\u00e9ria e em que um punhado de ricos vive como parasitas n\u00e3o pode haver \u201cliberdade\u201d real e efetiva. \u00c9 livre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua editora burguesa, senhor escritor? Ao seu p\u00fablico burgu\u00eas, que lhe exige pornografia em romances e quadros, a prostitui\u00e7\u00e3o, sob a forma de \u201ccomplemento\u201d da \u201csagrada\u201d arte c\u00eanica? Esta liberdade absoluta \u00e9 uma frase burguesa ou anarquista (porque, como concep\u00e7\u00e3o do mundo, o anarquismo \u00e9 o burguesismo voltado do avesso). N\u00e3o se pode viver na sociedade e ser livre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade. A liberdade do escritor, do artista, da atriz burgueses \u00e9 apenas uma depend\u00eancia mascarada (ou que hipocritamente se mascara) do saco do dinheiro, do suborno, da situa\u00e7\u00e3o de viver por conta de algu\u00e9m.\u201d (8)<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\"><a name=\"m_4134196755330366735__GoBack\"><\/a><\/span><span style=\"font-size: large;\">\u00c9 necess\u00e1rio lembrar que parte destes artistas possuem outras formas de renda para sobreviver al\u00e9m da sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o &#8211; e \u00e9 aqui a justificativa da diminui\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as na forma do trabalho, afinal est\u00e1 cada vez mais imposs\u00edvel sobreviver somente da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica sem algum malabarismo: s\u00e3o professores, oficineiros, trabalham regularmente para alguma empresa, fazem trabalhos\u00a0<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>free lancer\u00a0<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">em \u00e1reas correlatas como a publicidade, s\u00e3o contratados &#8211; ou melhor \u2013 s\u00e3o precarizados com os famosos \u201cPjotinhas\u201d &#8211; da ind\u00fastria cultural (produtoras, emissoras de TV, est\u00fadios, etc.) e outras formas de sobreviv\u00eancia. Entendem-se como trabalhadores e artistas, sentem a explora\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidos; por\u00e9m, em sua maioria, vislumbram a arte como uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, uma v\u00e1lvula de escape (e \u00e9 ineg\u00e1vel que arte tamb\u00e9m tenha essa fun\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o estou negando esta possibilidade): seja na possibilidade de ganhar reconhecimento e fama em um futuro pr\u00f3ximo ou ent\u00e3o justamente como um ref\u00fagio tempor\u00e1rio da opress\u00e3o deste sistema. Mas para fugir da opress\u00e3o deste sistema, voc\u00ea acaba tornando-se porta-voz do pr\u00f3prio sistema. (9) Voc\u00ea amansa. Voc\u00ea segue o que a gravadora sugere. Voc\u00ea submete-se ao \u00faltimo truque do algoritmo para manter as\u00a0<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>views<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">, gerando milhares de visualiza\u00e7\u00f5es para propaganda. E caso voc\u00ea chegue l\u00e1, famoso e bem recompensado financeiramente, finalmente acumulou dinheiro para estar livre de todas as amarras e produzir o que bem quiser. Por\u00e9m, para manter essa grana (e a vida boa, por que n\u00e3o?) l\u00e1 estar\u00e1 voc\u00ea, fazendo seu dinheiro render em aplica\u00e7\u00f5es financeiras e outros neg\u00f3cios paralelos que continuam a explorar a grande massa que continuou l\u00e1 embaixo. Parab\u00e9ns g\u00eanio. Aposto que Elon Musk quer ser seu amigo agora.<\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: large;\"><i>Isso num \u00e9 sobre onde c\u00ea vem, \u00e9 sobre onde c\u00ea quer chegar<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: large;\"><i>E o que vai mudar pra quem vem de onde c\u00ea vem quando tiver l\u00e1<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: large;\"><i>Rapper<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: large;\"><i>C\u00ea fez uma grana e num trouxe ningu\u00e9m<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: large;\"><i>Num fala que isso \u00e9 hip-hop<br \/>\n(Fazia Sentido \u2013 Don L)<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Este \u00e9 um ensaio para os artistas de esquerda porque acredito que a pessoa que est\u00e1 lendo este texto tem uma preocupa\u00e7\u00e3o genu\u00edna contra a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Portanto, entende a provoca\u00e7\u00e3o feita e pensa em alternativas. Surge uma boa e cl\u00e1ssica pergunta da luta pol\u00edtica, que devemos fazer sempre:\u00a0<\/span><span style=\"font-size: large;\"><b>o que fazer?<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Reconhecermo-nos enquanto trabalhadores nos fortalece. As lutas dos trabalhadores s\u00e3o as nossas lutas \u2013 s\u00e3o as mesmas lutas, de formas distintas. E os outros trabalhadores h\u00e3o de reconhecer as nossas lutas. Pois seremos iguais enquanto diferentes. Reconhecermo-nos enquanto trabalhadores nos coloca de volta na sociedade. Somos parte, n\u00e3o somos mais os comentadores de fora, produzindo a nosso bel-prazer a nossa an\u00e1lise cr\u00edtica, tal qual um comentarista da luta de classes \u2013 que finge engajar-se na guerra, por\u00e9m contenta-se, da retaguarda, com os aplausos dados pelos pr\u00f3prios pares.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Uma vez estando dentro da sociedade, a\u00ed sim podemos lutar as nossas lutas, lutar contra o fascismo, somar as nossas for\u00e7as com o resto da massa trabalhadora. E t\u00e3o importante quanto somar as for\u00e7as, permitiremos assim que todos os trabalhadores tamb\u00e9m se identifiquem como potenciais artistas. A arte n\u00e3o pode jamais ser o resultado de um grupo seleto de \u201ciluminados escolhidos\u201d. A arte \u00e9 de todas as pessoas trabalhadoras deste pa\u00eds, para todas as pessoas trabalhadoras deste pa\u00eds, e deve ser feita e experimentada por todas as pessoas trabalhadoras deste pa\u00eds. Essa compreens\u00e3o de\u00a0<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>unidade na diferen\u00e7a<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">\u00a0trar\u00e1 entendimento a todos e fortalecer\u00e1 todas as lutas nos diversos campos. A explora\u00e7\u00e3o dos burgueses recai sobre todos, em formatos diferentes. Somente a a\u00e7\u00e3o conjunta e coordenada dos trabalhadores derrubar\u00e1 este sistema.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">\u00c9 hora de descermos do palco. \u00c9 hora de somar for\u00e7as em busca do objetivo comum. Devemos produzir, sim, pe\u00e7as cr\u00edticas a esse sistema, mas temos tamb\u00e9m o dever de nos inspirar nas lutas hist\u00f3ricas dos trabalhadores. \u00c9 hora de resgatarmos a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Resgatarmos nossa for\u00e7a enquanto categoria. Olhar para o passado, das lutas, lembrar-nos dos perseguidos, assassinados, torturados, refugiados pol\u00edticos&#8230; \u00c9 hora de resgatarmos nossa organiza\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de uma luta por verba p\u00fablica (migalhas). \u00c9 hora de fortalecer a luta por pol\u00edticas estruturantes que beneficiem toda a sociedade. \u00c9 hora de criarmos o novo. De derrubarmos o antigo. A cultura \u00e9 nossa. N\u00e3o \u00e9 da burguesia. N\u00e3o \u00e9 dos conservadores. \u00c9 nossa. N\u00f3s a produzimos.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\"><b>\u00c9 hora de abandonarmos os artistas no c\u00e9u para juntarmo-nos aos trabalhadores na terra.<\/b><\/span><\/p>\n<p>____________________________________________________________________<\/p>\n<p>NOTAS:<br \/>\n(1) \u201cfoi Marx quem viu claramente a rela\u00e7\u00e3o entre a arte e o trabalho atrav\u00e9s de sua natureza criadora comum e, consequentemente, concebeu este \u00faltimo n\u00e3o apenas como uma categoria econ\u00f4mica, mas como categoria filos\u00f3fica ambivalente (fonte de riqueza e de mis\u00e9ria humanas). A concep\u00e7\u00e3o da arte como atividade que, ao prolongar o lado positivo do trabalho, evidencia a capacidade criadora do homem, permite ampliar suas fronteiras at\u00e9 o infinito (\u2026). A fun\u00e7\u00e3o essencial da arte \u00e9 ampliar e enriquecer, com suas cria\u00e7\u00f5es, a realidade j\u00e1 humanizada pelo trabalho humano.\u201d V\u00c1ZQUEZ, Adolfo S\u00e1nchez. As Ideias Est\u00e9ticas de Marx. Rio de Janeiro, ed. Paz e Terra, 1968. p. 47<\/p>\n<p>(2) \u201cA arte, por seu turno, pode cumprir uma fun\u00e7\u00e3o cognoscitiva, a de refletir a ess\u00eancia do real; mas s\u00f3 pode cumprir esta fun\u00e7\u00e3o quando cria uma nova realidade, n\u00e3o mediante a c\u00f3pia ou a imita\u00e7\u00e3o do j\u00e1 existente. Ou seja, os problemas cognoscitivos que o artista se coloca devem ser resolvidos artisticamente. Esquecer isto \u2013 isto \u00e9, reduzir a arte \u00e0 ideologia ou a uma mera forma de conhecimento \u2013 \u00e9 esquecer que a obra art\u00edstica \u00e9, antes de mais nada, cria\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o do poder criador do homem.\u201c Idem. p.45<\/p>\n<p>(3) \u201cUma cultura residual est\u00e1 normalmente a certa dist\u00e2ncia da cultura dominante efetiva, mas temos de reconhecer que, em atividades culturais reais, ela pode ser incorporada. Isso porque uma parte ou vers\u00e3o dela \u2013 especialmente se o res\u00edduo for de alguma \u00e1rea importante do passado \u2013 ter\u00e1 de ser, em muitos casos, incorporada se a cultura dominante efetiva quiser ter significado nessas \u00e1reas, pois em certas \u00e1reas a cultura dominante n\u00e3o pode permitir muitas dessas pr\u00e1ticas e experi\u00eancias anteriores a ela sem p\u00f4r em risco seu dom\u00ednio. Assim, as press\u00f5es s\u00e3o reais, mas alguns significados e pr\u00e1ticas genu\u00ednos e residuais sobrevivem em alguns casos significativos.\u201d WILLIAMS, Raymond. Base e Superestrutura na teoria cultural Marxista in Cultura e Materialismo. S\u00e3o Paulo, ed. Unesp , 2011 p. 56.<\/p>\n<p>(4) VIANNA FILHO, Oduvaldo. Aliena\u00e7\u00e3o e Irresponsabilidade in Teatro, Televis\u00e3o e Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo, ed. Brasiliense, 1983. p.55.<\/p>\n<p>(5) CERVAN, Thiago. Artistas do Sertanejo Pop e a luta de classes. Maio de 2021. Dispon\u00edvel em https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27244<\/p>\n<p>(6) FERRO, Sergio. Artes Plasticas e Trabalho Livre: de Durer a Velazquez. S\u00e5o Paulo, ed. 34, 2015. p. 16.<\/p>\n<p>(7) \u201cn\u00e3o gosto da express\u00e3o \u2018antes de ser artista \u00e9 um homem\u2019. \u00c9 ao contr\u00e1rio&#8230; antes de ser um homem, ele \u00e9 um artista\u201d. VIANNA FILHO, Oduvaldo. Aliena\u00e7\u00e3o e Irresponsabilidade in Teatro, Televis\u00e3o e Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo, ed. Brasiliense, 1983. p.58<\/p>\n<p>(8) LENIN, Vladimir. A Organiza\u00e7\u00e3o do Partido e a Literatura do Partido in o Centralismo Democr\u00e1tico de Lenin, org. Gabriel Landi e Gabriel Lazzari. S\u00e3o Paulo, ed. Lavrapalavra, 2021. p. 215.<\/p>\n<p>(9) \u201cO Sujeito separado, vazio, individual, que assim procura encontrar-se protegendo seus rastros (deixo vest\u00edgios, logo existo), \u00e9 cria do capital \u2013 \u00e9 o oco que sobra o homem \u00e9 separado de seus meios de trabalho. Ele surge de modo prematuro na arte: o artista tem que renegar seu savoir-faire artesanal: \u2018doa\u2019 sua for\u00e7a de trabalho ao mecenas em troca de seu \u2018dom\u2019 em esp\u00e9cie, a obra parte levando a mensagem do outro, do contradoador, mais que a sua pr\u00f3pria. Sem que possa ser equiparado de modo ao oper\u00e1rio, o artista fica no limbo.\u201d FERRO, Sergio. Artes Plasticas e Trabalho Livre: de Durer a Velazquez. S\u00e3o Paulo, ed. 34. 2015. p. 131.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>LENIN, Vladimir. O Centralismo Democr\u00e1tico de Lenin, org. Gabriel Landi e Gabriel Lazzari. S\u00e3o Paulo, ed. Lavrapalavra, 2021<\/p>\n<p>V\u00c1ZQUEZ, Adolfo S\u00e1nchez. As Ideias Est\u00e9ticas de Marx. Rio de Janeiro, ed. Paz e Terra, 1968.<\/p>\n<p>FERRO, Sergio. Artes Plasticas e Trabalho Livre: de Durer a Velazquez. S\u00e3o Paulo, ed. 34. 2015.<\/p>\n<p>VIANNA FILHO, Oduvaldo. Teatro, Televis\u00e3o e Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo, ed. Brasiliense, 1983.<\/p>\n<p>WILLIAMS, Raymond. Cultura e Materialismo. S\u00e3o Paulo, ed. Unesp , 2011<\/p>\n<p>CERVAN, Thiago. Artistas do Sertanejo Pop e a luta de classes. Maio de 2021. Dispon\u00edvel em https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27244<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29001\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"\u00c9 hora de descermos do palco e somar for\u00e7as em busca do objetivo comum. 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