{"id":29020,"date":"2022-07-13T10:00:11","date_gmt":"2022-07-13T13:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29020"},"modified":"2022-07-13T06:47:24","modified_gmt":"2022-07-13T09:47:24","slug":"o-papel-da-cultura-na-revolucao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29020","title":{"rendered":"O papel da cultura na Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-54.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Gabriel Galego, via Jornal O MOMENTO &#8211; PCB da Bahia<\/strong><\/p>\n<p><em>Na foto: Don L com uma bandeira do PCB em show no RS &#8211; Foto: Facebook PCB-RN<\/em><\/p>\n<p><strong>I &#8211; A l\u00edngua do povo<\/strong><\/p>\n<p>Dentro da sociedade capitalista moderna, a produ\u00e7\u00e3o do trabalho art\u00edstico cumpre um papel essencial, do ponto de vista ideol\u00f3gico. A classe trabalhadora, seja ela rural ou urbana, antes de acessar o conhecimento letrado e cient\u00edfico, primeiro apreende a brasilidade atrav\u00e9s de nossas manifesta\u00e7\u00f5es culturais, que perpassam festividades populares e manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Depois da fam\u00edlia e da religi\u00e3o, as linguagens art\u00edsticas s\u00e3o as primeiras respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias sociais, influenciando fortemente as massas. Nossa consci\u00eancia, enquanto brasileiros, \u00e9 formada por refer\u00eancias culturais diversas \u2013 seja da cultura popular e tradicional, como o samba, o jongo, o maracatu rural, etc.; seja da cultura de massas, nacional ou internacional. A linguagem oral \u2013 e aqui as culturas populares cumprem um papel fundamental \u2013 tem um enraizamento muito mais profundo na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>A linguagem acad\u00eamica e o pensamento filos\u00f3fico ainda s\u00e3o de dif\u00edcil acesso para a maior parte da popula\u00e7\u00e3o. Esses s\u00e3o conhecimentos restritos \u00e0s universidades e a outros espa\u00e7os de poder, como o Estado e a m\u00eddia. Por exemplo, em 1960, 39,6% da popula\u00e7\u00e3o brasileira era analfabeta. Hoje, segundo o IBGE, a taxa est\u00e1 em 6,6%. Entretanto, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Est\u00e1gios, apenas 5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira det\u00e9m o t\u00edtulo de ensino superior completo. O conhecimento letrado, dentro da hist\u00f3ria do Brasil, sempre foi inacess\u00edvel para as classes populares \u2013 e, mais do que isso, foi um instrumento de opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o da classe dominante.<\/p>\n<p>Mas por que essa particularidade hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia brasileira \u00e9 fundamental para os comunistas?<\/p>\n<p>A ci\u00eancia continua sendo um dos elementos centrais para o desenvolvimento da sociedade capitalista e sua manuten\u00e7\u00e3o. Mas as massas falam a l\u00edngua das artes e da religiosidade. As tradi\u00e7\u00f5es populares e tradicionais da cultura brasileira, afro-brasileiras e das culturas ind\u00edgenas est\u00e3o quase sempre ligadas \u00e0 espiritualidade e \u00e0 express\u00e3o art\u00edstica. Algo n\u00e3o pode nunca ser perdido de vista pelos comunistas brasileiros: a ci\u00eancia \u00e9 o sustento da nossa atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, t\u00e1tica e estrat\u00e9gia, mas a arte e a espiritualidade s\u00e3o as melhores formas de comunica\u00e7\u00e3o com os povos. Queremos educar a classe e levar o conhecimento cient\u00edfico, mas n\u00e3o podemos descartar a arte popular e a espiritualidade como insignificantes ou falsas diante da ci\u00eancia do proletariado para entendermos a realidade brasileira.<\/p>\n<p>Essa atitude, isto \u00e9, o menosprezo do conhecimento intr\u00ednseco \u00e0s formas de consci\u00eancia art\u00edstica e espiritual, \u00e9 o que chamo de \u201ccientificismo\u201d. Os comunistas brasileiros, interessados em compreender verdadeiramente sua p\u00e1tria, t\u00eam o dever de aprender com os mestres e mestras da cultura popular, com os sacerdotes e suas in\u00fameras pr\u00e1ticas e sabedorias \u2013 aprofundando os conhecimentos acerca da forma\u00e7\u00e3o cultural brasileira em suas dimens\u00f5es art\u00edsticas e espirituais. Esses conhecimentos faltam aos marxistas contempor\u00e2neos, mas \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como diria Marx, em suas famosas teses contra Feuerbach, o educador tamb\u00e9m precisa ser educado. Se podemos oferecer a ci\u00eancia do proletariado para as massas, deixemos que as massas nos ofere\u00e7am a sabedoria e a est\u00e9tica popular, ind\u00edgena e quilombola, assim como suas formas de organiza\u00e7\u00e3o popular. Somente assim poderemos construir uma Revolu\u00e7\u00e3o genuinamente brasileira \u2013 uma reordena\u00e7\u00e3o radical da pol\u00edtica e economia fundada no marxismo, mas incluindo os diversos povos e na\u00e7\u00f5es presentes no Brasil e, o mais importante, nunca esquecendo das potencialidades revolucion\u00e1rias do sentimento e da f\u00e9.<\/p>\n<p><strong>II &#8211; Os comunistas e a produ\u00e7\u00e3o cultural<\/strong><\/p>\n<p>No ciclo entre 1945-1964, o Partido Comunista Brasileiro nutria ilus\u00f5es na estrat\u00e9gia conciliat\u00f3ria e nacional-libertadora. Entretanto, tamb\u00e9m gozava de grande prest\u00edgio no seio popular. A quest\u00e3o cultural tinha uma import\u00e2ncia crucial para entender Brasil. Nessa \u00e9poca, foram feitas s\u00ednteses muito relevantes para entendermos a cultura brasileira, que nos servem ainda hoje. Por exemplo, em 1937 dois jovens intelectuais, Edison Carneiro e Aydano Ferr\u00e1z, ent\u00e3o militantes do PCB, estavam \u00e0 frente da organiza\u00e7\u00e3o do II Congresso Afro-Brasileiro, que pela primeira vez colocou dezenas de m\u00e3es de santo dentro da universidade e criou la\u00e7os prof\u00edcuos do Partido com os povos de terreiro.<\/p>\n<p>Era not\u00e1vel a capilaridade do PCB entre os chamados intelectuais, artistas e cientistas, com personalidades preocupadas com a quest\u00e3o da cultura [1]. Astrojildo Pereira, no artigo \u201cCultura, Classe e Pol\u00edtica\u201d, escrito em 1960, retoma o pensamento de L\u00eanin e de S\u00edlvio Romero para pensar uma particularidade da cultura brasileira: existe um antagonismo entre a cultura popular e a cultura das classes dominantes. A luta de classes se estabelece tamb\u00e9m nas disputas dentro da cultura nacional. A cultura dominante, em sua modalidade brasileira, \u00e9 sempre subordinada ao imperialismo, sobretudo o norte-americano. Astrojildo, com toda raz\u00e3o, fala que \u201cos imperialistas sabem muito bem que n\u00e3o podem exercer plenamente a sua fun\u00e7\u00e3o dominadora sem uma combina\u00e7\u00e3o adequada de press\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas com press\u00f5es ideol\u00f3gicas e culturais\u201d (p. 258).<\/p>\n<p>Outro pensador marxista, Nelson Werneck Sodr\u00e9, analisa o mesmo fen\u00f4meno de domina\u00e7\u00e3o cultural no quadro brasileiro. Em seu livro \u201cIdeologia do Colonialismo\u201d, escrito em 1961, demonstra como essa subordina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses subdesenvolvidos pelas produ\u00e7\u00f5es culturais do centro est\u00e1 enraizada desde a coloniza\u00e7\u00e3o e aparece na chamada \u201cideologia do colonialismo\u201d e na \u201ctransplanta\u00e7\u00e3o cultural\u201d. Em Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, em que aborda tamb\u00e9m essas categorias, segue a mesma l\u00f3gica levantada por Astrojildo, comentando que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">N\u00e3o era poss\u00edvel que se aceitasse como a face real [do Brasil] aquela em que estavam agrupados escravos negros, trabalhadores mesti\u00e7os livres, comerciantes urbanos, pequenos funcion\u00e1rios. Esta era o Brasil, sem d\u00favida, \u2014 mas o Brasil que se devia esconder, como se escondem as vergonhas, aparentando identidade com os padr\u00f5es externos, alardeando que tamb\u00e9m aqui havia gente do mesmo molde que o europeu de classe superior. (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, p. 138)<\/p>\n<p>Essa configura\u00e7\u00e3o da luta de classes dentro da cultura nacional, que al\u00e9m dos pobres e negros, ainda abarca as centenas de etnias ind\u00edgenas \u2013 essa disputa entre Brasil e Brazil, como diria Aldir Blanc \u2013 ainda n\u00e3o se esgotou. Atualmente, somos a minoria dentro do debate p\u00fablico, inclusive dentro da esquerda. Por outro lado, desde 1990 os comunistas forjaram uma leitura cient\u00edfica eficaz da realidade econ\u00f4mica e social brasileira. Avan\u00e7amos com a nossa estrat\u00e9gia, efetuando uma profunda autocr\u00edtica e descartando a ideia do etapismo. Olhando desse ponto de vista, pudemos superar problemas te\u00f3ricos graves que enviesavam a leitura da conjuntura e da estrat\u00e9gia do Partido. Houve avan\u00e7o na constru\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o que tem dado resultados muito significativos, sobretudo na editora\u00e7\u00e3o independente e na forma\u00e7\u00e3o de quadros de cientistas competentes. Estamos engatinhando em dire\u00e7\u00e3o a uma influ\u00eancia decisiva no campo ideol\u00f3gico. Apesar desses passos, atualmente n\u00e3o temos um grande nome marxista, seja cientista ou artista, dedicado \u00e0 quest\u00e3o da cultura popular e das artes.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cinco anos, t\u00eam aparecido nomes da arte independente que se identificam com o comunismo, como Siba, FBC e Don L. Dentro da juventude, como tem sido o costume da renova\u00e7\u00e3o de quadros dos comunistas, j\u00e1 vemos nomes que come\u00e7am a se destacar, sobretudo no hip-hop, mas ainda s\u00e3o pouco conhecidos do grande p\u00fablico. Estou convencido que essa falta de presen\u00e7a na cultura nos impede de criar uma comunica\u00e7\u00e3o mais efetiva com as massas, que toque as mentes, mas tamb\u00e9m os cora\u00e7\u00f5es. A inser\u00e7\u00e3o dos comunistas na produ\u00e7\u00e3o cultural e na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, reconhecendo a potencialidade de sua cultura popular, est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 nossa inser\u00e7\u00e3o nas massas, sendo uma de suas m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Importante pontuar que a rela\u00e7\u00e3o do Partido com a produ\u00e7\u00e3o intelectual nunca foi isenta de atritos \u2013 basta pensarmos na pol\u00edtica do realismo socialista. Ou no desprezo dos comunistas pela arte abstrata na primeira metade do s\u00e9culo XX, interpretada como \u201carte burguesa\u201d. Existe uma rela\u00e7\u00e3o entre o controle do Partido e a liberdade individual do artista, do ponto de vista da forma e do conte\u00fado das obras art\u00edsticas \u2013 que, por vezes e em determinadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, se torna uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29020\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"A inser\u00e7\u00e3o dos comunistas na produ\u00e7\u00e3o cultural e na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, reconhecendo a potencialidade de sua cultura popular, est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 nossa inser\u00e7\u00e3o nas massas, sendo uma de suas m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[224],"class_list":["post-29020","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7y4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29020"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29020\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}