{"id":29050,"date":"2022-07-19T18:31:46","date_gmt":"2022-07-19T21:31:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29050"},"modified":"2022-07-19T18:31:46","modified_gmt":"2022-07-19T21:31:46","slug":"sao-paulo-foi-locomotiva-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29050","title":{"rendered":"\u201cS\u00e3o Paulo foi locomotiva do neoliberalismo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/pera-7.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Pr\u00e9-candidato do PCB ao governo do Estado, o agr\u00f4nomo Gabriel Colombo, de 32 anos, fala sobre as bandeiras de sua pr\u00e9-candidatura em entrevista.<\/p>\n<p>Gabriel Colombo nasceu no Rio de Janeiro, em 1990, mas logo mudou-se com a fam\u00edlia para o pequeno munic\u00edpio de Durand\u00e9, no interior de Minas Gerais. Filho do dono de uma pequena lanchonete no centro da cidade de 7 mil habitantes, e de uma dona de casa que fazia doces por encomenda, a fam\u00edlia dependia do movimento dos aposentados, que iam ao centro sacar seus vencimentos, e do fluxo dos estudantes da \u00fanica escola do munic\u00edpio. Com a abertura de novos n\u00facleos escolares e ag\u00eancias banc\u00e1rias na zona rural, os rendimentos da lanchonete foram aos poucos se extinguindo. T\u00e9cnico agr\u00edcola, o pai se muda com a fam\u00edlia para Vi\u00e7osa (MG) para trabalhar, e depois Atibaia (SP).<\/p>\n<p>Em 2009, Colombo passa no curso de Agronomia na Escola Superior de Agricultura da Universidade de S\u00e3o Paulo (Esalq\/USP), em Piracicaba. \u201cVim para a Esalq porque tinha moradia estudantil, tinha pesquisado e era uma das [universidades] que tinha melhores condi\u00e7\u00f5es, com restaurante universit\u00e1rio e bolsa alimenta\u00e7\u00e3o, e foi uma das coisas que garanti desde o in\u00edcio.\u201d \u00c0 \u00e9poca interessado pela quest\u00e3o ambiental, foi fazer est\u00e1gio em uma das maiores fazendas de org\u00e2nicos e hortifrutis do Brasil. \u201cVou para l\u00e1 e tinha a mesma din\u00e2mica de explora\u00e7\u00e3o de trabalho. Os trabalhadores recrutados no interior, trabalhavam durante tr\u00eas ou seis meses para juntar um dinheiro e voltar pra casa, moravam em galp\u00f5es. N\u00e3o mudava muita coisa do que se via em grandes propriedades\u201d, diz. A partir de ent\u00e3o, come\u00e7a a estudar agroecologia e a atuar junto a assentamentos e quilombos, especialmente no Vale do Ribeira, tema que vai estudar no mestrado.<\/p>\n<p>Com os protestos de 2013 e o nascimento do filho, em 2014, passa a se politizar mais. \u201cEra aquela loucura de trabalho prec\u00e1rio, de gar\u00e7om, estudando, saindo da moradia estudantil, porque n\u00e3o podia ter crian\u00e7a\u2026 Mas naquele contexto de 2014, chegava de madrugada ainda com aquela adrenalina do trabalho, enchia uma bacia com \u00e1gua e sal para colocar os p\u00e9s e ia lendo os livros e conversando com minha companheira enquanto ela amamentava o Artur\u201d. Em 2015 decide se organizar, e opta pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), estruturando o n\u00facleo do partido em Piracicaba e regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos 32 anos, representa hoje o PCB como o pr\u00e9-candidato mais jovem ao governo do Estado de S\u00e3o Paulo. Engenheiro agr\u00f4nomo com mestrado em Ecologia, Gabriel apresenta as bandeiras de sua candidatura na primeira de uma s\u00e9rie de entrevistas da Revista Opera com pr\u00e9-candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2022.<\/p>\n<p>Revista Opera: O Estado de S\u00e3o Paulo, apesar de ter passado por um processo de industrializa\u00e7\u00e3o muito forte, apesar de ter como capital a maior metr\u00f3pole do Pa\u00eds, tem uma produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola bastante relevante, mas com muita concentra\u00e7\u00e3o nessa produ\u00e7\u00e3o \u2013 basicamente 25 produtos s\u00e3o produzidos, cana-de-a\u00e7\u00facar e laranja representando um montante grande disso \u2013 e com uma concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria tamb\u00e9m bastante forte. Apesar dessa relev\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola paulista, n\u00f3s temos hoje milh\u00f5es de pessoas no Estado passando fome. Queria saber justamente qual \u00e9 o balan\u00e7o que voc\u00ea faz dessa agroind\u00fastria paulista e o que um eventual governo do Estado comunista teria como proposta para essa quest\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel avan\u00e7ar numa concep\u00e7\u00e3o de combater a grande propriedade no campo?<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: Muito bom. Acho que quando vamos falar do agroneg\u00f3cio, a primeira quest\u00e3o \u00e9 desmistificar essa ideologia do \u201cagro \u00e9 tech, agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tudo\u201d. H\u00e1 dois elementos: primeiro, apesar de alguns setores terem um desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico grande na produ\u00e7\u00e3o, elevando a produtividade \u2013 mesmo em g\u00eaneros alimentares importantes para a mesa dos brasileiros, como o arroz e o feij\u00e3o, produtividade essa que inclusive \u00e9 o que nos permite ainda ter um pouco de arroz e feij\u00e3o \u2013 n\u00f3s temos ainda uma enorme quantidade de \u00e1reas improdutivas. Terras que ficam para a disponibilidade da especula\u00e7\u00e3o de terras, e terras que se tornaram desertificadas, tornaram-se improdutivas, ou seja, terrenos que o capital desenvolveu ao m\u00e1ximo, sem incorporar fertiliza\u00e7\u00e3o, sem ter preocupa\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento das terras a longo prazo, tornando-as improdutivas. Todo mundo que anda pelo Estado de S\u00e3o Paulo percebe \u00e1reas que s\u00e3o pastagens degradadas, aquele capim baixinho, geralmente cheio de cupim na pastagem \u2013 isso \u00e9 terra improdutiva, por mais que tenha uma ou outra cabe\u00e7a de gado ali, essa terra n\u00e3o est\u00e1 cumprindo o que seria um patamar de produtividade capaz de justificar a fun\u00e7\u00e3o social da terra. Tudo isso pode ser desapropriado desde j\u00e1.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 preciso desmistificar: por mais que tenha de fato um desenvolvimento tecnol\u00f3gico no agroneg\u00f3cio, isso n\u00e3o significa pesquisa e desenvolvimento em todas as terras. As terras do capitalismo, tanto pela especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria quanto pela din\u00e2mica de disponibilidade de terras no Pa\u00eds \u2013 o Brasil \u00e9 um pa\u00eds continental \u2013 nunca s\u00e3o pensadas em termos de sua sustentabilidade a longo prazo. A l\u00f3gica \u00e9 sempre do esgotamento e utiliza\u00e7\u00e3o m\u00e1xima dos recursos.<\/p>\n<p>No Brasil temos isso como uma caracter\u00edstica hist\u00f3rica da nossa forma\u00e7\u00e3o social, que \u00e9 o fato de que todas as lavouras primeiro come\u00e7am do litoral. O Caio Prado Jr. inclusive cita em sua obra um historiador que fala que o Brasil explorou sua terra como um caranguejo; primeiro andando pela costa, lateralmente, e s\u00f3 depois entrando. E pra tr\u00e1s sempre v\u00e3o ficando as terras improdutivas. Aqui no eixo Rio-S\u00e3o Paulo d\u00e1 para pensar o que foi isso com as lavouras de caf\u00e9: n\u00f3s vemos hoje na marginal Dutra, por exemplo, muitas \u00e1reas improdutivas, que s\u00e3o resultado desse uso m\u00e1ximo pela agricultura sem uma preocupa\u00e7\u00e3o com a continuidade dessas terras.<\/p>\n<p>Sintetizando: h\u00e1 um aumento de produtividade, mas que n\u00e3o abarca a totalidade das terras. Ent\u00e3o continuamos tendo o problema das terras improdutivas, seja por especula\u00e7\u00e3o, seja por desertifica\u00e7\u00e3o. Isso precisa ser enfrentado, \u00e9 preciso fazer um processo de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 terra no Pa\u00eds, que \u00e9 um debate que ficou lateralizado pela esquerda e, no final da primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo foi deixado de lado, na ideia de que \u201ca quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assentar mais\u201d \u2013 e pol\u00edtica de assentamento j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 reforma agr\u00e1ria \u2013 \u201ca quest\u00e3o \u00e9 modernizar os assentamentos que tem\u201d. Ent\u00e3o nunca se colocou em xeque a grande propriedade da terra, se buscou atender aqueles que ocupavam a terra \u2013 uma pol\u00edtica de assentamentos, n\u00e3o uma pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o nossas pr\u00e9-candidaturas trazem o compromisso de colocar de novo em cena o debate sobre a reforma agr\u00e1ria. E num momento em que, paradoxalmente, o agroneg\u00f3cio aumenta sua produtividade, mas n\u00e3o consegue alimentar a popula\u00e7\u00e3o brasileira e a popula\u00e7\u00e3o paulista. Nunca o agroneg\u00f3cio teve a sua pol\u00edtica ambiental e de terras t\u00e3o bem atendidas quanto no governo Bolsonaro. Ficou marcante com Ricardo Salles na frase \u201cpassar a boiada\u201d. Isso \u00e9 para expropria\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, terras quilombolas, de camponeses. H\u00e1 uma pol\u00edtica de regulariza\u00e7\u00e3o de grilagem das terras na Amaz\u00f4nia que permite a regulariza\u00e7\u00e3o da grilagem de at\u00e9 2,5 mil hectares; a retomada do desmatamento e a falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental \u2013 e vimos isso de forma dram\u00e1tica na quest\u00e3o da morte do Bruno e do Dom; a pol\u00edtica dos agrot\u00f3xicos, tamb\u00e9m um libera-geral. Ou seja, o agroneg\u00f3cio tem tudo dispon\u00edvel, o Plano Safra batendo recordes de investimento \u2013 e, ainda assim, a popula\u00e7\u00e3o brasileira passando fome.<\/p>\n<p>Esse agroneg\u00f3cio n\u00e3o tem um v\u00ednculo direto da produ\u00e7\u00e3o para a alimenta\u00e7\u00e3o brasileira. H\u00e1 dois fatores nisso: um \u00e9 o pr\u00f3prio capitalismo; para ele n\u00e3o importa atender uma necessidade humana, atender uma necessidade social. Para o capital, o que vale \u00e9 gerar lucro. O segundo fator \u00e9 que o agroneg\u00f3cio \u00e9 vinculado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de commodities. Ent\u00e3o esse paradoxo, de produtividade alta mas com o povo passando fome, \u00e9 escancarado na apar\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 um paradoxo para a burguesia, para o agroneg\u00f3cio: o centro para eles \u00e9 garantir o lucro, garantir a valoriza\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo \u00e9 marcante a produ\u00e7\u00e3o de cana-de-a\u00e7\u00facar e do eucalipto, especialmente ali na regi\u00e3o do Vale do Para\u00edba, seguindo a mesma l\u00f3gica: n\u00e3o s\u00e3o vinculadas ao abastecimento interno do Pa\u00eds ou do Estado, mas ao mercado mundial. Atendendo a um mercado mundial de a\u00e7\u00facar, de etanol, de papel e celulose. E mesmo aqueles produtos que s\u00e3o destinados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o interna, como o caso da carne: para a JBS pouco importa se a produ\u00e7\u00e3o vai ser consumida em S\u00e3o Paulo ou na \u00c1sia, na Europa, na \u00c1frica. E agora, aqui em S\u00e3o Paulo, foi aprovado na Assembleia Legislativa, na semana passada, o PL 277, que permite a compra de terras griladas. \u00c9 importante perceber que a Federa\u00e7\u00e3o de Ind\u00fastrias de S\u00e3o Paulo (FIESP) hoje \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o muito mais forte do agroneg\u00f3cio \u2013 pensando ele como um setor agroindustrial; a cana-de-a\u00e7\u00facar tem as usinas, o eucalipto tem a ind\u00fastria de papel e celulose, a laranja tem a ind\u00fastria c\u00edtrica \u2013 do que se pensarmos uma ind\u00fastria metal\u00fargica ou algo do tipo.<\/p>\n<p>Ou seja: \u00e9 necess\u00e1rio voltar a pautar a reforma agr\u00e1ria, e uma reforma agr\u00e1ria popular, com democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 terra, com garantia de produ\u00e7\u00e3o de alimentos a partir do Estado, uma volta a um projeto de pesquisa e desenvolvimento que busque atender \u00e0s demandas internas, ao abastecimento interno. Com a quantidade de terras que temos em S\u00e3o Paulo, podemos cumprir um papel nacional, com garantia de sustentabilidade, de prote\u00e7\u00e3o da nossa biodiversidade, de amplifica\u00e7\u00e3o da biodiversidade, conserva\u00e7\u00e3o dos rios, etc. E \u00e9 necess\u00e1rio cumprir essa tarefa de demonstrar e denunciar o que \u00e9 isso que se chama de \u201cagroneg\u00f3cio\u201d, que na verdade n\u00e3o nos alimenta.<\/p>\n<p>Revista Opera: Uma pol\u00eamica pol\u00edtica: no contexto do governo Bolsonaro, se tem promulgado a necessidade de adotar a l\u00f3gica da frente ampla, uma alian\u00e7a da centro-esquerda com setores \u00e0 direita, e essa forma aparentemente foi seguida pelo Partido dos Trabalhadores (PT) n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel nacional, mas tamb\u00e9m aqui, a n\u00edvel estadual \u2013 uma chapa com Haddad (PT) saindo a governador e M\u00e1rcio Fran\u00e7a (PSB) ao Senado. O PCB optou por lan\u00e7ar candidaturas pr\u00f3prias, sendo a sua justamente uma express\u00e3o disso, e n\u00e3o embarcar nessa frente. Queria que voc\u00ea explicasse o porqu\u00ea desta posi\u00e7\u00e3o, qual a import\u00e2ncia de manter candidaturas pr\u00f3prias, e porqu\u00ea o eleitor de esquerda deveria apoiar essas candidaturas em detrimento daquelas de frente ampla. E, j\u00e1 que h\u00e1 essa op\u00e7\u00e3o por n\u00e3o fazer parte da frente ampla, se o PCB n\u00e3o pensa na forma\u00e7\u00e3o de uma frente de esquerda para as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: O que a gente vinha defendendo, n\u00e3o s\u00f3 no processo eleitoral, mas tamb\u00e9m nas lutas, era uma frente \u00fanica dos trabalhadores; um momento em que se unificassem os partidos da esquerda revolucion\u00e1ria, e que os socialistas, social-democratas, reformistas, sociais-liberais estivessem em uma frente \u00fanica dos trabalhadores. Ou seja, que mesmo com as diverg\u00eancias, fosse consolidado um campo que apontasse um programa para enfrentar o legado Bolsonaro-Temer nacionalmente. Isso \u00e9, que enfrentasse o teto de gastos, a reforma trabalhista, a reforma da previd\u00eancia, a lei da terceiriza\u00e7\u00e3o, as privatiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 um conjunto de medidas m\u00ednimas, tranquilas para as organiza\u00e7\u00f5es que buscam representar a classe trabalhadora, para serem apresentadas em conjunto \u2013 n\u00e3o s\u00f3 nas elei\u00e7\u00f5es, defendemos isso na retomada das ruas contra Bolsonaro no ano passado, debatemos isso durante o per\u00edodo de pico da pandemia.<\/p>\n<p>\u00c9 um debate que vem desde que Bolsonaro vai para o segundo turno e ganha: como enfrent\u00e1-lo? Frente ampla ou frente \u00fanica dos trabalhadores? N\u00f3s trabalhamos para isso, n\u00e3o s\u00f3 no \u00e2mbito dos partidos, mas sobretudo nas organiza\u00e7\u00f5es populares, nos movimentos sociais, para tentar atrair para a ideia de uma unidade de esquerda no enfrentamento ao governo Bolsonaro \u2013 mas n\u00e3o o Bolsonaro s\u00f3 como uma figura, e sim como um programa que ele expressa e representa. Porque \u00e9 assim que temos que entender: Temer e Bolsonaro s\u00e3o pe\u00e7as no tabuleiro da burguesia em um momento de ofensiva mundial dela contra os trabalhadores. Que repete em todos os pa\u00edses um mesmo padr\u00e3o que enfrentamos aqui. Trabalh\u00e1vamos essa ideia de frente \u00fanica dos trabalhadores at\u00e9 para que nossa resposta n\u00e3o se limitasse \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, mas que n\u00f3s consegu\u00edssemos expressar, com mobiliza\u00e7\u00f5es, com greves, essa insatisfa\u00e7\u00e3o.Vimos jornadas de luta fort\u00edssimas no Chile, na Col\u00f4mbia, agora no Equador, que deram resultados \u2013 no caso de Chile a ponto de derrubar a Constitui\u00e7\u00e3o do Pinochet; no caso da Col\u00f4mbia elegendo Gustavo Petro, inclusive elei\u00e7\u00e3o que traz a\u00ed o aprendizado de que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio conciliar, no cargo de vice, com a direita; e agora no Equador, conseguindo reverter o aumento do pre\u00e7o dos combust\u00edveis. Ent\u00e3o n\u00f3s quer\u00edamos, antes das elei\u00e7\u00f5es, j\u00e1 derrotar Bolsonaro e j\u00e1 derrotar esses programas. N\u00e3o t\u00ednhamos uma l\u00f3gica de quietismo, de \u201cvamos aguardar as elei\u00e7\u00f5es\u201d, nem uma proposta de ir \u00e0s ruas s\u00f3 para desgastar Bolsonaro. N\u00e3o: ach\u00e1vamos poss\u00edvel derrot\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Infelizmente diversas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o toparam entrar nisso de cabe\u00e7a; levavam seus dirigentes, mas n\u00e3o mobilizavam as bases. Algo que, olhando hoje, acho que n\u00e3o cabe a mais ningu\u00e9m, cabe a n\u00f3s, que nos identificamos com o campo da esquerda revolucion\u00e1ria, porque o que me parece \u00e9 que com essa frente ampla, na medida que recua cada vez mais, vamos ter muita dificuldade de mobilizar. Temos express\u00f5es disso, inclusive: at\u00e9 o momento, o que tenho percebido \u00e9 que, por mais que a ades\u00e3o eleitoral ao nome de Lula no primeiro turno seja muito forte, os comit\u00eas populares, por exemplo, que expressariam isso na base, n\u00e3o decolaram. N\u00e3o vejo uma renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PT, por exemplo, nos movimentos de juventude, nos movimentos sociais e nos sindicatos. Me parece que \u00e9 uma coisa que ficou t\u00e3o deslocada, focada nas elei\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o tem sequer esse \u201ccaldo\u201d de se expressar na luta de classes, quase uma express\u00e3o s\u00f3 eleitoral e institucional. E isso n\u00e3o nos permite sair do buraco em que a gente se encontra.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos que fazer portanto um debate program\u00e1tico, e mais, um debate de reorganiza\u00e7\u00e3o da nossa classe. N\u00f3s precisamos ter capacidade novamente de fazer grandes greves, grandes mobiliza\u00e7\u00f5es, apontando para uma unifica\u00e7\u00e3o das lutas, para que n\u00e3o sejam fragment\u00e1rias e que tenham um programa m\u00ednimo que as unifique. Ou seja: ir organizando um processo no qual, a partir de mobiliza\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, haja ganho de consci\u00eancia. N\u00f3s estamos nas elei\u00e7\u00f5es sem nenhuma ilus\u00e3o: o processo tem que despontar sempre para um ganho de for\u00e7as do poder popular e para um processo de revolu\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds, de revolu\u00e7\u00e3o socialista. A burguesia brasileira n\u00e3o vai conceder nada mais para a maioria trabalhadora, isso fica evidente nesse contexto de ofensiva, fica evidente nos \u00faltimos dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua) \u2013 houve uma retomada do emprego? Mas eles s\u00e3o mais prec\u00e1rios, porque teve uma redu\u00e7\u00e3o da renda. 40% da for\u00e7a de trabalho \u00e9 informal. Se a gente soma informais, desalentados, subocupados, temos um quadro que afeta mais da metade da for\u00e7a de trabalho do Pa\u00eds, ou seja, mais da metade vive numa situa\u00e7\u00e3o de instabilidade, de incerteza de futuro. Isso \u00e9 o caldo para um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um descontentamento que \u00e9 muito fragmentado, que n\u00f3s n\u00e3o temos conseguido organizar em lutas na nossa sociedade, e esse \u00e9 o desafio.<\/p>\n<p>O momento eleitoral se apresenta como um momento t\u00e1tico em que mais pessoas est\u00e3o abertas a ouvir tanto um programa quanto uma perspectiva de Pa\u00eds, e n\u00e3o poder\u00edamos nos isentar de disputar esse momento. Sempre fa\u00e7o a analogia, frente a cr\u00edticas mais \u00e0 esquerda, do tipo \u201cvoc\u00eas est\u00e3o disputando elei\u00e7\u00f5es burguesas\u201d, que \u00e9 que as candidaturas representam algo como um panfleta\u00e7o, uma distribui\u00e7\u00e3o de jornais em larga escala. \u00c9 um momento em que n\u00f3s conseguimos amplificar as nossas pautas, porque n\u00e3o estamos rebaixando nada: n\u00e3o deixamos de falar de revolu\u00e7\u00e3o socialista quando estamos no processo eleitoral; n\u00e3o deixamos de falar de poder popular; n\u00e3o deixamos de falar que temos de entender que a burguesia \u00e9 nossa inimiga e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conciliar com ela, porque s\u00e3o os burgueses que matam, encarceram em massa, colocam nas periferias em situa\u00e7\u00f5es subumanas de moradia a nossa popula\u00e7\u00e3o; de superexplora\u00e7\u00e3o de trabalho nos empregos, sem perspectiva de futuro para nossa juventude. Eles n\u00e3o fazem isso porque n\u00e3o sabem conduzir um Pa\u00eds: fazem isso porque esse \u00e9 o projeto de Pa\u00eds deles. \u00c9 uma minoria que enriquece muito, que at\u00e9 na pandemia enriqueceu muito: o n\u00famero de bilion\u00e1rios e sua riqueza aumentou em 30% durante os dois anos de pandemia, enquanto a renda de 90% da popula\u00e7\u00e3o reduziu.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o da frente ampla seria abrir m\u00e3o de fazer esse debate p\u00fablico para j\u00e1 ir conciliando numa perspectiva institucional e eleitoral: olhar as pecinhas, quem tem peso parlamentar, e dizer \u201cah, tem que trazer o PSB aqui, junto com PT, joga nesse bolo e traz a reboque o PSOL, coloca tamb\u00e9m a REDE e o PCdoB e vamos fazendo um grande arranjo parlamentar eleitoral que vai dar viabilidade para isso nas elei\u00e7\u00f5es\u201d. Isso foge totalmente ao debate de que programa vai ser esse, que projeto vai ser esse. E por mais que seja permitido, nas elei\u00e7\u00f5es, que Lula fale \u2013 como j\u00e1 fez \u2013 sobre legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, teto de gastos, reforma trabalhista, essa coliga\u00e7\u00e3o cria um abismo entre o que ele fala e o que vai ser feito. Porque a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que ele est\u00e1 criando para isso n\u00e3o vai sustentar essas afirma\u00e7\u00f5es; n\u00e3o \u00e9 uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as fundamentada na mobiliza\u00e7\u00e3o popular, \u00e9 fundamentada justamente na correla\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o parlamentar e institucional.<\/p>\n<p>Essa nunca vai ser uma perspectiva para a classe trabalhadora. Porque parte do princ\u00edpio de que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 est\u00e1tica, e s\u00f3 cabe gerenciar melhor o Estado dentro dessa correla\u00e7\u00e3o, para massacrar um pouco menos a classe trabalhadora. N\u00e3o dava para entrarmos rendidos nesse processo eleitoral. Esse \u00e9 o primeiro ponto.<\/p>\n<p>E o segundo \u00e9 compreender que a elei\u00e7\u00e3o no Brasil tem dois turnos. N\u00e3o d\u00e1 para entrarmos no primeiro usando a mesma l\u00f3gica do segundo. No segundo, sim, podemos ir para a l\u00f3gica do menos pior: ningu\u00e9m aqui \u00e9 da linha do \u201cquanto pior, melhor\u201d, ningu\u00e9m diz que as quest\u00f5es objetivas e as demandas imediatas da nossa classe n\u00e3o importam. N\u00f3s nunca falamos isso. Podemos escolher as condi\u00e7\u00f5es com as quais a gente sabe que vai lutar depois. Mas o que precisamos no primeiro turno \u00e9 entender que quanto mais fortalecidos n\u00f3s sairmos em termos de express\u00e3o de votos, mais fortalecidos n\u00f3s estaremos depois. Entendemos como um momento de express\u00e3o de for\u00e7as de projeto: quanto mais peso tivermos ali, na vota\u00e7\u00e3o, mais peso teremos depois na luta de classes. Mais gente que estaremos mobilizando junto. O nosso \u00fanico poder \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o, e a elei\u00e7\u00e3o portanto tem sempre de estar vinculada a esse convite, esse chamado, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o coletiva e \u00e0 sua mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, assim como antes n\u00f3s defend\u00edamos uma frente \u00fanica dos trabalhadores, h\u00e1 espa\u00e7o para n\u00f3s defendermos uma perspectiva ainda mais radical aqui em S\u00e3o Paulo, que \u00e9 expressar nas elei\u00e7\u00f5es uma frente de esquerda socialista, anticapitalista e antiimperialista, que aglutine um polo para al\u00e9m do PCB. Em S\u00e3o Paulo n\u00f3s temos como demonstra\u00e7\u00f5es a favor disso: nos resultados que n\u00f3s j\u00e1 temos nas pesquisas, e como se nacionalizou a disputa pela prefeitura de S\u00e3o Paulo em 2020, em que a coliga\u00e7\u00e3o do Boulos no primeiro turno era PSOL, PCB e Unidade Popular (UP). Agora n\u00f3s temos conversado, essa semana eu estive em conversas junto \u00e0 Unidade Popular (UP), n\u00f3s temos feito esse convite, de sairmos com uma frente de esquerda socialista aqui nestas elei\u00e7\u00f5es, com o mote de \u201cpelo poder popular e pelo socialismo\u201d. \u00c9 uma linha que temos de fortalecer em S\u00e3o Paulo, porque acho que vai nos preparar muito para o que vai vir ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, considerando que podemos fortalecer a experi\u00eancia do que foi e \u00e9 a Frente Povo na Rua, por exemplo, que conseguiu garantir uma ida \u00e0s ruas contra Bolsonaro. \u00c9 garantir que vai ter mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contra os governos de concilia\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos cometer o mesmo erro que o conjunto das organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora cometeu em 2002, de apassivar a nossa classe, dizendo que \u201cisso \u00e9 o que d\u00e1 para fazer no \u00e2mbito do governo\u201d. Sem problemas se \u00e9 o que d\u00e1 pra fazer l\u00e1 no \u00e2mbito do governo, mas isso n\u00e3o nos contenta, ent\u00e3o temos que lutar e mobilizar. Porque \u00e9 isso inclusive o que vai mudar as condi\u00e7\u00f5es para que, l\u00e1 no governo, consigam fazer mais. Ent\u00e3o n\u00f3s defendemos sim isso, que \u00e9 muito importante, e para isso nos propomos a abrir m\u00e3o da nossa pr\u00e9-candidatura ao Senado, papel que hoje o camarada Tito [Fl\u00e1vio Bellini] cumpre, para que a Vivian [Mendes, pr\u00e9-candidata ao Senado pela Unidade Popular] venha como pr\u00e9-candidata ao Senado numa chapa que haja s\u00f3 um pr\u00e9-candidato ao Senado. O vice tamb\u00e9m poderia ser da Unidade Popular para que a gente cumpra essa tarefa, uma avenida aberta que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do PCB, mas de todos os que se identificam com esse campo revolucion\u00e1rio, socialista, radical e popular em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Revista Opera: Uma das grandes marcas das \u00faltimas duas d\u00e9cadas de governos do PSDB aqui em S\u00e3o Paulo tem sido o avan\u00e7o das privatiza\u00e7\u00f5es no Estado. Temos um processo de privatiza\u00e7\u00f5es diretas mesmo, desde o come\u00e7o dos anos 2000 \u2013 o Banco do Estado de S\u00e3o Paulo (BANESPA), a Companhia Energ\u00e9tica de S\u00e3o Paulo (CESP), etc., \u2013 mas tem-se avan\u00e7ado tamb\u00e9m um processo de concess\u00f5es privadas \u2013 linhas de metr\u00f4, rodovias \u2013 e as chamadas \u201cParcerias P\u00fablico-Privadas\u201d, a concess\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie aparelhos p\u00fablicos para empresas ou as chamadas \u201cOrganiza\u00e7\u00f5es Sociais\u201d. Que balan\u00e7o voc\u00ea faz desse processo de privatiza\u00e7\u00e3o no Estado \u2013 sejam diretas ou indiretas, por meio dessas concess\u00f5es \u2013 e, se eleito, como um governo comunista lidaria com isso? Barraria por completo as privatiza\u00e7\u00f5es, encamparia a revers\u00e3o de algumas privatiza\u00e7\u00f5es, estimularia a cria\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas?<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: A sua pergunta sistematiza bem essa multiplicidade de formas da privatiza\u00e7\u00e3o no Estado. Em S\u00e3o Paulo, para al\u00e9m de derrotar Bolsonaro, n\u00f3s temos essa urg\u00eancia de derrotar o legado de 28 anos do PSDB. \u00c9 nisso que S\u00e3o Paulo realmente foi uma locomotiva no Pa\u00eds: em impor o projeto neoliberal.<\/p>\n<p>Falando da primeira forma de privatiza\u00e7\u00e3o. Foram entregues na m\u00e3o da iniciativa privada, de bandeja, de presente, diversas empresas p\u00fablicas que cumpriam um papel fundamental mesmo dentro da l\u00f3gica do desenvolvimento capitalista. O BANESPA, por exemplo, um banco estadual, p\u00fablico, que era o terceiro maior do Pa\u00eds quando foi entregue nas m\u00e3os do Santander. E, para al\u00e9m da estrutura do banco em si, foi entregue na m\u00e3o do Santander, diretamente, os sal\u00e1rios do funcionalismo p\u00fablico do Estado, que passou a receber pelo Santander; parte recebia pela Nossa Caixa, mas que tamb\u00e9m foi privatizada. \u201cToma aqui, voc\u00ea pode pegar toda essa poupan\u00e7a [dos sal\u00e1rios] e utilizar para investimentos\u201d. Foi para a m\u00e3o privada \u2013 e a\u00ed deixamos de fazer os investimentos realmente necess\u00e1rios, no planejamento do Estado, no desenvolvimento de infraestrutura, da habita\u00e7\u00e3o, saneamento, transporte, ind\u00fastria. Reverter essa privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 central; recuperar a capacidade de investimento e planejamento no Estado passa por termos um banco p\u00fablico estadual.<\/p>\n<p>Mas temos diversas outras empresas privatizadas. A distribui\u00e7\u00e3o de energia, que fica a cargo dos Estados, tamb\u00e9m. A CPFL, que \u00e9 o caso da minha regi\u00e3o; na cidade de S\u00e3o Paulo a Eletropaulo. S\u00e3o umas seis distribuidoras de energia no Estado de S\u00e3o Paulo, e todas elas foram privatizadas, e a gente v\u00ea hoje o alto valor que pagamos de energia em consequ\u00eancia disso. Nesse processo de privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os nos setores estrat\u00e9gicos, se coloca, entre um servi\u00e7o que \u00e9 essencial e fundamental para toda a popula\u00e7\u00e3o paulista, o lucro dos empres\u00e1rios, do capital privado. Isso tem que acabar, a gente tem que retomar essas empresas. E essas concess\u00f5es, que t\u00eam prazo, podem ter revis\u00f5es de contrato \u2013 geralmente elas n\u00e3o cumprem uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, como interesse social, ou mesmo termos do contrato, o que permite a encampa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos estudando ainda, porque \u00e9 n\u00edtido em concess\u00f5es como as de rodovias, do transporte p\u00fablico, do Metr\u00f4 e da CPTM, mas poderia ser aplic\u00e1vel tamb\u00e9m \u00e0 concess\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o das distribuidoras de energia. Mas n\u00f3s vamos trabalhar pela sua reestatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E outra empresa p\u00fablica, que \u00e9 fundamental, a maior empresa de \u00e1gua e saneamento do mundo, que \u00e9 a SABESP (Companhia de Saneamento B\u00e1sico do Estado de S\u00e3o Paulo). Ela ainda \u00e9 predominantemente de capital p\u00fablico, mas com 51%; os outros 49% da empresa j\u00e1 est\u00e3o em bolsas de valores, em S\u00e3o Paulo e em Nova Iorque. Ent\u00e3o recomprar\u00edamos estes pap\u00e9is tamb\u00e9m. \u00c9 uma empresa fundamental, hoje temos no Brasil 35 milh\u00f5es de pessoas sem acesso \u00e0 \u00e1gua tratada; 100 milh\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 coleta de esgoto. Isso d\u00e1 ideia do que sejam os n\u00fameros do Estado de S\u00e3o Paulo, onde esses servi\u00e7os tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o universalizados. Uma vez que voc\u00ea tem metade da empresa sendo acionistas \u2013 e estamos vendo agora com a Petrobras o que \u00e9 o acionista pressionando para ter acesso aos seus dividendos \u2013 \u00e9 dinheiro que voc\u00ea vai pagar o acionista e que deixa de ir para investir na renova\u00e7\u00e3o da rede de esgoto e \u00e1gua e da sua expans\u00e3o. Ou seja: essas coisas ficam secundarizadas, a prioridade \u00e9 o pagamento dos dividendos. E o Tarc\u00edsio Freitas (Republicanos) fala em privatizar uma empresa como a SABESP.<\/p>\n<p>Na parte das concess\u00f5es, acho que a mais escandalosa que temos hoje \u00e9 a da CPTM, que foi apelidada de \u201cVia Calamidade\u201d, mas tamb\u00e9m as obras do Metr\u00f4\u2026 A linha 6 do Metr\u00f4, est\u00e1 prometida desde 2008, p\u00f4. Foi o Jos\u00e9 Serra (PSDB) que prometeu entregar em 2012, estamos em 2022, e a previs\u00e3o agora \u00e9 acabar em 2025. \u00c9 um absurdo. Nos casos da linha 8 e 9, os trens parando fora das esta\u00e7\u00f5es, a popula\u00e7\u00e3o tendo que descer; trens descendo juntos, sobrecarregando as esta\u00e7\u00f5es \u2013 houve at\u00e9 aquele epis\u00f3dio em que a popula\u00e7\u00e3o ficou revoltada e quebrou tudo na esta\u00e7\u00e3o do Graja\u00fa. E nas rodovias os reajustes absurdos e abusivos nas tarifas de ped\u00e1gio. E tem um processo inclusive de expans\u00e3o das rodovias para o interior, com duplica\u00e7\u00f5es e melhorias. Aconteceu aqui; estou em Piracicaba, S\u00e3o Pedro \u00e9 uma cidade pr\u00f3xima e tem muita gente que mora l\u00e1 e vem trabalhar aqui. Tinha uma demanda por duplica\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo. O Estado fez isso; investiu, duplicou, melhorou\u2026 E depois concedeu e a empresa que ganhou a licita\u00e7\u00e3o s\u00f3 colocou a pra\u00e7a do ped\u00e1gio. \u00c9 um absurdo: quem pagou foi o Estado! E isso tem acontecido muito em uma s\u00e9rie de rodovias que est\u00e3o sendo expandidas pelo interior e depois concedidas. E nesses casos \u00e9 muito tranquilo fazer a encampa\u00e7\u00e3o. Isso j\u00e1 \u00e9 dado. E outra quest\u00e3o que entra nisso \u00e9 a retomada da Fepasa (Ferrovia Paulista S\/A), reestatizar a Fepasa, rever os contratos que foram concedidos dos trilhos, e diversificar os modais de transportes em S\u00e3o Paulo. No Pa\u00eds e aqui temos uma concentra\u00e7\u00e3o muito grande na malha rodovi\u00e1ria, e precisamos repensar o papel das ferrovias; para o interior, recuper\u00e1-las seria algo fant\u00e1stico, tanto no sentido de conectar mais \u00e0s capitais quanto de facilitar o fluxo de pessoas e mercadorias. Isso aquece a economia de uma maneira enorme, e at\u00e9 para a gente, que tem o trabalho revolucion\u00e1rio, favorece a log\u00edstica. Pegar um trem em S\u00e3o Paulo e sair distribuindo jornal e a Revista Opera, parando em todo o Estado [risos]. Teria uma facilita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio trabalho revolucion\u00e1rio [risos]. Isso \u00e9 melhoria na qualidade de vida do trabalhador, redu\u00e7\u00e3o no custo log\u00edstico do transporte \u2013 que impacta diretamente na redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o de mercadorias e servi\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>Quanto aos servi\u00e7os, o Haddad foi inclusive essencial para a implanta\u00e7\u00e3o dessas Parcerias P\u00fablico-Privadas, ele foi o formulador disso quando era secret\u00e1rio de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica no Minist\u00e9rio da Fazenda, ainda no governo Lula \u2013 e inclusive se orgulha disso, para poder dialogar com o empresariado paulista tem enfatizado esse papel dele, como fez na sua entrevista no Roda Viva. Isso serviu para abrir espa\u00e7o para um sucateamento dos servi\u00e7os. Na sa\u00fade isso \u00e9 muito expressivo, com as Organiza\u00e7\u00f5es Sociais da Sa\u00fade (OSS), que v\u00e3o impondo uma l\u00f3gica empresarial em que o hospital, a Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade (UBS) passam a entender tudo como um custo, um gasto, e a sa\u00fade se distancia daquilo que deveria ser um direito que todos deveriam acessar universal e integralmente. Reduzem a equipe\u2026 Muita gente n\u00e3o sabe: h\u00e1 uma revolta na popula\u00e7\u00e3o pelos m\u00e9dicos muitas vezes mal olharem no olho para atender o paciente, por exemplo. \u00c9 porque o cara tem uma meta de atendimento por hora para cumprir que n\u00e3o permite a ele te fazer um atendimento de qualidade.<\/p>\n<p>Revista Opera: Isso na rede p\u00fablica.<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: Na rede p\u00fablica, exatamente, com administra\u00e7\u00e3o privada! As OSSs hoje geram mais de 60% dos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica do SUS em S\u00e3o Paulo, que vai impondo essa l\u00f3gica. Um dos impactos dessa \u201cracionaliza\u00e7\u00e3o\u201d da sa\u00fade como um gasto \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o de quase 10 mil leitos no Estado de S\u00e3o Paulo entre 2011 e 2020. \u00c9 dram\u00e1tico, fez que entr\u00e1ssemos muito mal na pandemia, e que, uma vez nela, fossem criados muitos leitos de campanha ou provis\u00f3rios que, assim que melhorou a situa\u00e7\u00e3o, foram fechados.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o de precariedade e de confus\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado n\u00f3s n\u00e3o admitimos. Vamos rever tudo o que \u00e9 contrato, fazer um processo ampl\u00edssimo de auditoria em todos os contratos, em todas as privatiza\u00e7\u00f5es, fu\u00e7ar tudo o que teve de errado nessa distribui\u00e7\u00e3o de energia, no BANESPA, na FEPASA, na TELESP, achar tudo o quanto for brecha para poder reestatizar. Essa vai ser a centralidade, acompanhado sempre de um amplo debate p\u00fablico e de participa\u00e7\u00e3o popular em todo esse processo. A capacidade disso gerar empregos, e empregos de diferentes n\u00edveis de complexidade, \u00e9 enorme, bem como de reaquecer algo que nos pa\u00edses dependentes sempre foi uma debilidade, que \u00e9 aproveitar o fato de S\u00e3o Paulo ter tr\u00eas universidades estaduais entre as melhores do pa\u00eds e 19 institutos de pesquisa. Podemos vincular esse processo \u00e0 pesquisa e o desenvolvimento, colocando claramente o papel social das universidades, da forma\u00e7\u00e3o do estudante.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que falando na parte racional e operacional, tudo parece muito f\u00e1cil. Mas isso demonstra a viabilidade de um projeto radical, que mesmo dentro das condi\u00e7\u00f5es da democracia burguesa j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ter conquistas, mas que n\u00e3o tem como ser vitorioso sem apontar para um processo de ruptura. Mesmo para arrancar essas vit\u00f3rias imediatas e sobretudo para uma ruptura, s\u00f3 pode ser realizado de forma concomitante \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do poder popular. N\u00e3o \u00e9 buscando maioria parlamentar, \u00e9 buscando a maioria da popula\u00e7\u00e3o organizada politicamente.<\/p>\n<p>Revista Opera: Uma outra \u00e1rea onde esse processo de privatiza\u00e7\u00e3o tem avan\u00e7ado, especialmente com as Parcerias P\u00fablico-Privadas, \u00e9 a habita\u00e7\u00e3o. S\u00f3 na regi\u00e3o metropolitana do Estado, se pegarmos pre\u00e7o dos alugu\u00e9is, quantidade de domic\u00edlios prec\u00e1rios, coabita\u00e7\u00e3o e adensamento excessivo, temos um d\u00e9ficit de moradia de mais de um milh\u00e3o de moradias. Como um governo comunista lidaria com isso no Estado, partindo do pressuposto de que o que houve aqui neste sentido ficou muito dependente do Minha Casa, Minha Vida \u2013 que est\u00e1 praticamente paralisado para moradia popular? E um outro aspecto: como o Estado lida com as ocupa\u00e7\u00f5es que eventualmente ocorrem. Talvez aqui o s\u00edmbolo maior disso seja o Massacre do Pinheirinho. Como voc\u00ea, se eleito governador, lidaria com essa quest\u00e3o, tendo em vista que quem manda desapropriar \u00e9 o Judici\u00e1rio? Ou seja, teria a\u00ed um certo conflito entre poderes\u2026<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: Conflito com o poder do Estado burgu\u00eas \u00e9 o que a gente mais quer, e estando no governo para fazer isso, nos d\u00e1 for\u00e7a. Tenho brincado que eu seria como o [Eduardo] Suplicy (PT), e acho que todo governador de esquerda tem que assumir esse compromisso; quando ele era vereador em S\u00e3o Paulo, Haddad era prefeito, e em uma \u00e1rea da prefeitura o Alckmin autorizou que a pol\u00edcia fizesse uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse. O Suplicy foi l\u00e1 e se deitou no ch\u00e3o, teve que sair carregado pela pol\u00edcia. Isso \u00e9 um peso pol\u00edtico que se faz, e demonstra que mesmo estando cumprindo cargos e pap\u00e9is dentro do Estado, nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com destruir este Estado burgu\u00eas, n\u00e3o mant\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Os despejos s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es de guerra. O Pinheirinho foi um dos mais brutais, mais violentos e maiores em termos de popula\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Eu acompanhei, estive dentro de um despejo aqui em Piracicaba, em maio de 2020, numa escala muito menor: ali devia ter 100-150 pessoas. E j\u00e1 foi uma opera\u00e7\u00e3o de guerra: [Batalh\u00e3o de] Choque, BAEP (Batalh\u00e3o de A\u00e7\u00f5es Especiais de Pol\u00edcia) \u2013 que foi criado inclusive depois do Massacre do Pinheirinho, e \u00e9 especializado em reintegra\u00e7\u00f5es de posse, repress\u00e3o de greves e manifesta\u00e7\u00f5es e opera\u00e7\u00f5es em favelas, ou seja, escancara o papel da Pol\u00edcia Militar. Nesta opera\u00e7\u00e3o houve apoio do helic\u00f3ptero \u00c1guia, Tropa de Choque, cachorros, os policiais com todos os equipamentos poss\u00edveis; escudos, aquela roupa de Robocop, etc. E usaram, dentro dessa ocupa\u00e7\u00e3o, aquela t\u00e1tica do Caldeir\u00e3o de Hamburgo, t\u00e1tica que ficou conhecida, em que fecham todos os lados, n\u00e3o dando alternativa para quem est\u00e1 no meio. E ali havia crian\u00e7as, idosos, duas ou tr\u00eas mulheres mais velhas desmaiaram. Isso tudo pela manh\u00e3. \u00c9 inadmiss\u00edvel, e ter figuras p\u00fablicas nestes despejos \u00e9 fundamental para ao menos reduzir e constranger \u2013 n\u00e3o quer dizer que vai acabar com essa viol\u00eancia, mas vai constranger.<\/p>\n<p>Sobretudo no capitalismo dependente, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, h\u00e1 uma tend\u00eancia do n\u00famero de ocupa\u00e7\u00f5es e favelas s\u00f3 crescerem. O \u00edndice que eu j\u00e1 citei, do PNAD: no Estado de S\u00e3o Paulo, metade das pessoas ocupadas recebem at\u00e9 1.800 reais. \u00c9 menos que um sal\u00e1rio m\u00ednimo e meio. N\u00e3o d\u00e1 para pagar aluguel, comer, e pagar as contas com isso. 90% da popula\u00e7\u00e3o brasileira recebe at\u00e9 tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos. Se voc\u00ea ganha 3.700 reais, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 na faixa dos 10% mais ricos \u2013 parece muito, n\u00e3o \u00e9? Mas a diferen\u00e7a entre voc\u00ea e o cara que \u00e9 milion\u00e1rio \u00e9 gigantesca; em termos de popula\u00e7\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 perto dele, mas de riqueza est\u00e1 muito longe, est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo daquele que ganha um sal\u00e1rio m\u00ednimo ou um sal\u00e1rio m\u00ednimo e meio. Ou seja, uma desigualdade social gritante, e sem contar que a rotatividade do trabalho no Brasil \u00e9 muito alta, e quem est\u00e1 na informalidade nem sempre consegue ter uma garantia de renda m\u00eas a m\u00eas. Ent\u00e3o conseguir pagar o aluguel \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 uma garantia para todos, e temos de ter no\u00e7\u00e3o da profundidade disso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 muito claro, na cabe\u00e7a do senso comum, mas quem est\u00e1 na ocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o trabalhadores e trabalhadoras. Porque se o cara tem dois filhos e recebe 3 mil reais, o sal\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o aguenta pagar aluguel, comprar comida e pagar tudo. E muitas vezes ele vai para a ocupa\u00e7\u00e3o. Quem est\u00e1 l\u00e1, na ocupa\u00e7\u00e3o, \u00e9 quem aceitou por um momento viver debaixo de um barraco, em geral com a fam\u00edlia, porque n\u00e3o tem outra condi\u00e7\u00e3o. O Estado n\u00e3o pode chegar l\u00e1 e falar: \u201cn\u00e3o, aqui voc\u00ea n\u00e3o pode ficar\u201d. E se chegar pra falar isso, em casos por exemplo das chuvas, de terrenos irregulares, muito \u00edngremes, pr\u00f3ximos aos rios, o Estado tem que chegar e garantir moradia em outra \u00e1rea, sem risco. Mas despejar violentamente e sem dar alternativa? \u00c9 um absurdo. \u00c9 um absurdo despejar violentamente e \u00e9 absurdo despejar sem dar alternativa. N\u00e3o pode acontecer.<\/p>\n<p>Qualquer pessoa de esquerda, ocupando um cargo p\u00fablico ou n\u00e3o, tem que estar do lado de quem est\u00e1 ocupando. N\u00e3o tem nem o que pensar. \u00c9 um direito fundamental, que \u00e9 o direito \u00e0 moradia, que n\u00f3s temos que defender. E desenvolver inclusive mais o trabalho das ocupa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o essa quest\u00e3o: como enfrentar, estando no cargo? Vamos enfrentar, p\u00f4, n\u00e3o tem problema nenhum. Ali est\u00e1 um setor muito importante dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de moradia, o enfrentamento ao d\u00e9ficit de moradia. No Estado de S\u00e3o Paulo todo s\u00e3o 1,8 milh\u00e3o de pessoas ou fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit habitacional. Que muitas vezes entendemos que o d\u00e9ficit \u00e9 s\u00f3 aquela pessoa que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua. N\u00e3o! Todo mundo convive com muita gente que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit habitacional, que compromete uma parte expressiva do sal\u00e1rio com o pagamento de aluguel. O superadensamento tamb\u00e9m \u00e9 comum; nesse contexto de pandemia, com um per\u00edodo prolongado de desemprego elevado, acima de 10 milh\u00f5es de pessoas, o superadensamento cresceu muito. O que acontece? O cara n\u00e3o consegue pagar aluguel. Ent\u00e3o vai pra casa dos pais. Acontece a mesma coisa com o irm\u00e3o dele, ou \u00e0s vezes at\u00e9 com os pr\u00f3prios pais \u2013 e eles v\u00e3o pra casa do av\u00f4, da tia, at\u00e9 chegar a quem realmente tem a casa pr\u00f3pria ou at\u00e9 chegar numa situa\u00e7\u00e3o em que, juntando muitos, d\u00e1 para pagar o aluguel mensalmente. E isso vai levando para que haja 10, 15 pessoas numa casa com dois, tr\u00eas quartos, e um banheiro. Essa situa\u00e7\u00e3o tem sido muito comum.<\/p>\n<p>E, ao mesmo tempo, a frase que j\u00e1 \u00e9 conhecida: tanta gente sem casa, tanta casa sem gente. Assim como falamos na agricultura, a produ\u00e7\u00e3o de moradias atende mais \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de valor de troca do que \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do que seria seu objetivo social, ou seja, ser um teto para algu\u00e9m. H\u00e1 no centro de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 aqui em Piracicaba, muitos vazios urbanos. \u00c1reas ou pr\u00e9dios que est\u00e3o esperando para que se especule; est\u00e3o esperando que valorize para fazer um loteamento, ou mesmo fazer um pr\u00e9dio, e nesse \u00ednterim esses propriet\u00e1rios nem pagam IPTU, ficam acumulando d\u00edvidas. \u00c9 necess\u00e1rio enfrentar isso, fazer, a partir do governo do Estado, uma exig\u00eancia de que todas as prefeituras implementem o IPTU progressivo, e que realizem a desapropria\u00e7\u00e3o das \u00e1reas ociosas. Porque se h\u00e1 d\u00edvida no IPTU, muitas vezes n\u00e3o \u00e9 preciso nem pagar para desapropriar, s\u00f3 assume. \u00c9 exigir e confiscar, e destinar para habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um outro problema, que \u00e9 a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o tendo como fim o lucro e a valoriza\u00e7\u00e3o da renda da terra. Que passa por um circuito de atender os interesses das empreiteiras e da constru\u00e7\u00e3o civil enquanto ind\u00fastria. Tem que desvincular a moradia deste circuito, criar uma l\u00f3gica de controle de pre\u00e7o dos alugu\u00e9is, porque o que permite tamb\u00e9m que a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria avance \u00e9 que uma determinada \u00e1rea, valorizada porque passou a ter um Metr\u00f4, um equipamento p\u00fablico, um parque, o cara, numa situa\u00e7\u00e3o de precariedade e instabilidade de emprego, pense a vender essa casa, que passou a valer mais, e vai mais para a periferia. Ent\u00e3o sem mudar a l\u00f3gica de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria \u00e9 imposs\u00edvel enfrentar o problema da moradia..<\/p>\n<p>Em Piracicaba n\u00f3s temos um exemplo, de uma prefeitura do PT \u2013 para n\u00e3o me chamarem de antipetista, quando eles fazem as coisas certas n\u00f3s valorizamos \u2013 que \u00e9 a EMDHAP (Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba). Foi criada na prefeitura do Jos\u00e9 Machado, nos anos 90, n\u00e3o tinha nenhum programa nacional de financiamento da habita\u00e7\u00e3o. E o que ela fazia? Era o corpo t\u00e9cnico de engenheiros civis e arquitetos que projetavam a urbaniza\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica habitacional do munic\u00edpio. Ela tamb\u00e9m era respons\u00e1vel por produzir materiais de constru\u00e7\u00e3o recicl\u00e1veis, a partir do material de demoli\u00e7\u00e3o de obras. Ent\u00e3o conseguiam produzir aqueles bloc\u00f5es de cimento para as moradias. Veja: faziam o recurso, baixando o custo para o material de constru\u00e7\u00e3o, e forneciam o corpo t\u00e9cnico. O trabalho de constru\u00e7\u00e3o, como a classe trabalhadora estava organizada, era por meio do processo de mutir\u00f5es, responsabilidade dos pr\u00f3prios moradores. E isso fez com que parte expressiva dos bairros de Piracicaba fossem resultado de ocupa\u00e7\u00f5es urbanas, e que adquirissem uma urbaniza\u00e7\u00e3o planejada e moradias planejadas. \u00c9 claro que depois, com a intensifica\u00e7\u00e3o do processo neoliberal, v\u00e3o aparecendo os puxadinhos, as condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias, mas demonstra que, a partir do Estado, \u00e9 muito tranquilo fazer muitas coisas. H\u00e1 recursos, h\u00e1 muita disponibilidade de for\u00e7a de trabalho, e h\u00e1 muito corpo t\u00e9cnico; nunca formamos tantos engenheiros, arquitetos, inclusive mestres e doutores, que est\u00e3o desempregados, sem nenhuma fun\u00e7\u00e3o, e que t\u00eam de ser chamados para participar desse processo revolucion\u00e1rio de constru\u00e7\u00e3o de um Pa\u00eds para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Revista Opera: Entrando um pouco no tema da seguran\u00e7a p\u00fablica. N\u00f3s temos no Estado, por um lado, uma Pol\u00edcia Militar que historicamente \u00e9 reconhecida pela sua trucul\u00eancia \u2013 com a participa\u00e7\u00e3o em uma s\u00e9rie de chacinas e massacres, desde o Carandiru, passando pelos Crimes de Maio, at\u00e9 as chacinas da Grande S\u00e3o Paulo em 2015 \u2013 e que, apesar da queda recente da letalidade por conta das c\u00e2meras, ainda mata muito, e no geral \u00e9 vista com muita desconfian\u00e7a pelas classes populares, especialmente pela juventude. Por outro lado, temos, especialmente nos \u00faltimos anos, um n\u00famero crescente de crimes como roubos, furtos e homic\u00eddios, especialmente na Regi\u00e3o Metropolitana do Estado. Qual \u00e9 seu programa para a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica, tendo em vista essas duas coisas? E uma outra quest\u00e3o: h\u00e1 uma discuss\u00e3o sobre o quanto o governador tem de controle sobre a tropa da PM, com muitos argumentando que n\u00e3o h\u00e1 controle nenhum, que a PM funciona quase que de forma aut\u00f4noma. O que na sua vis\u00e3o deveria ser feito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia policial? E como voc\u00ea planejaria impor eventuais mudan\u00e7as, considerando o poder que essa corpora\u00e7\u00e3o tem?<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: Bom, esse \u00e9 um dos temas que mais nos tira voto, digamos assim [risos]. Mas n\u00f3s temos que come\u00e7ar a pavimentar esse debate novamente. Acho que foi outra coisa que ficou naturalizada para a esquerda; a esquerda que defendeu e implementou as UPPs, por exemplo. N\u00e3o pautam o problema da viol\u00eancia policial. No Estado da Bahia, com Rui Costa (PT), \u00e9 onde h\u00e1 uma das maiores taxas de viol\u00eancia policial, um governador que, na Chacina do Cabula, que teve doze mortos, falou que o policial \u00e9 igual um artilheiro na linha do gol, ou seja, matar pro cara \u00e9 como fazer um gol. Afirma\u00e7\u00f5es absurdas, e no Estado de S\u00e3o Paulo nem se fala \u2013 o D\u00f3ria, no \u201cbolsod\u00f3ria\u201d, falou que bandido n\u00e3o vai pra cadeia, vai pro cemit\u00e9rio; coisas absurdas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o acho que temos de retomar esse debate sobre a Pol\u00edcia Militar. E a\u00ed o que defendemos \u00e9, de fato, o fim da Pol\u00edcia Militar. D\u00e1 para fazer isso numa gest\u00e3o? N\u00e3o d\u00e1. \u00c9 tarefa de um processo revolucion\u00e1rio, sem d\u00favida. Mas d\u00e1 para irmos desmilitarizando a seguran\u00e7a p\u00fablica. Porque tudo em termos de seguran\u00e7a p\u00fablica nesse per\u00edodo neoliberal foi respondido com militariza\u00e7\u00e3o. Inclusive sem ter qualquer tipo de preocupa\u00e7\u00e3o de entender quais tipos de viol\u00eancia ocorrem na sociedade e como n\u00f3s enfrentamos cada uma. Se perguntarmos, por exemplo, qual \u00e9 o papel da Pol\u00edcia Militar no combate \u00e0 viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT, sobretudo com as pessoas trans, \u00e9 de se imaginar que essas pessoas n\u00e3o v\u00e3o sentir muita seguran\u00e7a do lado da Pol\u00edcia Militar. Qual o papel da Pol\u00edcia Militar no enfrentamento ao racismo? O papel \u00e9 na promo\u00e7\u00e3o do racismo, porque a letalidade policial est\u00e1 onde? Na juventude negra e perif\u00e9rica. At\u00e9 no que ela promove, na pol\u00edtica de encarceramento em massa, o principal grupo encarcerado, privado de liberdade no Pa\u00eds, \u00e9 a juventude negra.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 para pensar como resposta, em termos de seguran\u00e7a p\u00fablica, em seguran\u00e7a da vida, na militariza\u00e7\u00e3o. A militariza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resposta para a defesa da propriedade privada, para a defesa das classes dominantes. N\u00e3o \u00e9 uma resposta para a seguran\u00e7a da vida e da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Basta pensarmos: a Pol\u00edcia Militar est\u00e1 mais equipada, mais treinada, tem mais armas. A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 se sentindo mais segura? N\u00e3o sente. Inclusive temos um aumento dos assaltos, dos roubos, que apontam para outro elemento: que uma das formas principais de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia e garantia \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 o enfrentamento \u00e0 desigualdade social. Os pequenos furtos e roubos seriam, grande parte deles, resolvidos a\u00ed. E mesmo na l\u00f3gica de quem n\u00e3o est\u00e1 preocupado em resolver a desigualdade social, quando vai enfrentar o roubo de celular, por exemplo, faz a l\u00f3gica mais burra que existe: coloca a pol\u00edcia na rua, o que n\u00e3o resolve nada. Tenho sempre usado o exemplo do celular; quando tive o meu roubado em S\u00e3o Paulo, falaram: \u201cse formos na rua Santa Efig\u00eania amanh\u00e3 \u00e9 prov\u00e1vel que a gente compre seu celular de volta, os caras podem n\u00e3o ter desmontado ainda\u201d. Porque h\u00e1 um circuito, que \u00e9 conhecido: o celular vai ser revendido, ou desmontado, para as pe\u00e7as serem reutilizadas no mercado paralelo. Ent\u00e3o tem que enfrentar o circuito. Primeiro, n\u00e3o tem que existir a figura da pessoa que precisa roubar o celular \u2013 seja para consumir drogas, seja por necessidades econ\u00f4micas, de ter acesso ao b\u00e1sico, que sabemos que est\u00e1 ocorrendo muito, pelos pre\u00e7os, pela infla\u00e7\u00e3o dos alimentos. Isso n\u00e3o vai ser enfrentado pela l\u00f3gica da militariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O poder da Pol\u00edcia Militar acho que \u00e9 evidente at\u00e9 no debate. Todos os pr\u00e9-candidatos ao governo fazem quest\u00e3o de falar do valor da Pol\u00edcia Militar, o Haddad fala em plano de carreira vinculado a metas \u2013 me pergunto que meta \u00e9 essa; vai ser quantos mata? Quantos encarcera? Ele fala de resolu\u00e7\u00e3o de crime; mas que crime? N\u00e3o esclarece, o que me deixa muito preocupado, para um partido que j\u00e1 apoiou as UPPs e que tem Rui Costa, o que isso pode significar aqui no Estado de S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o, de fato, \u00e9 algo que tem peso, que tem for\u00e7a, \u00e9 um grande contingente de 80 mil policiais atualmente. Mas acho que h\u00e1 de ser feito esse trabalho da desmilitariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, o outro lado, em termos de governo: \u00e9 \u00f3bvio que vai ter rea\u00e7\u00f5es. N\u00f3s vimos isso no Cear\u00e1, em que os policiais se insurgiram, houve aquele epis\u00f3dio com o Cid Gomes, e a possibilidade disso acontecer \u00e9 real. Mas \u00e9 isso: todos os governos fazem sempre o que? Injetam recursos na Pol\u00edcia, pensam na militariza\u00e7\u00e3o como resposta. \u00c9 preciso ir mudando essa din\u00e2mica: n\u00e3o investir mais, n\u00e3o abrir mais concurso para pol\u00edcia. Vamos abrir para professor, que est\u00e1 desde 2013 sem concurso no Estado de S\u00e3o Paulo. Ir criando l\u00f3gicas de enfraquecimento dessa din\u00e2mica [de militariza\u00e7\u00e3o]. Fazer um debate p\u00fablico, a mobiliza\u00e7\u00e3o em defesa das lutas contra o racismo, acabar com a pol\u00edtica de encarceramento em massa. 80% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do Estado de S\u00e3o Paulo \u00e9 presa por porte de drogas \u2013 alguns enquadrados como tr\u00e1fico, outros n\u00e3o \u2013 e por furto. N\u00e3o s\u00e3o atentados contra a vida. Essas pessoas n\u00e3o t\u00eam que estar presas. Ent\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio fazer um debate para mudar essa legisla\u00e7\u00e3o, e fazer uma pol\u00edtica de desencarceramento: mutir\u00f5es jur\u00eddicos que v\u00e3o permitir que as pessoas saiam da pris\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para naturalizar termos 200 mil pessoas presas no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>E h\u00e1 a quest\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias. Fui o \u00fanico pr\u00e9-candidato que esteve numa manifesta\u00e7\u00e3o que houve em fevereiro, por melhores condi\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias, em v\u00e1rias cidades do Estado. Fui no ato aqui de Hortol\u00e2ndia, e s\u00e3o quest\u00f5es que foram anunciadas na m\u00eddia, relat\u00f3rios da Defensoria P\u00fablica, organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos: na pandemia, nos pres\u00eddios houve pena de fome, foram proibidas as visitas, racionamento de \u00e1gua \u2013 n\u00e3o por faltar \u00e1gua, mas como pena, para constranger e controlar a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Essa quest\u00e3o das visitas, me emocionei ao ver l\u00e1 em Hortol\u00e2ndia v\u00e1rias crian\u00e7as da idade do meu filho que falavam: \u201cestou h\u00e1 dois anos sem ver meu pai\u201d. E a quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da pena de fome \u2013 que consistia em deixar a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria de 12 a 20 horas sem comer, segundo o levantamento que as organiza\u00e7\u00f5es tinham \u2013 \u00e9 muita comida estragada; 20% dos pres\u00eddios que foram visitados pela Defensoria P\u00fablica n\u00e3o serviam prote\u00edna alguma. P\u00f4, o cara est\u00e1 encarcerado, n\u00e3o \u00e9 para ele ser tratado em condi\u00e7\u00f5es subumanas. Mesmo dentro da l\u00f3gica punitivista, a ideia \u00e9 que o cerceamento da liberdade criaria as condi\u00e7\u00f5es de ressocializa\u00e7\u00e3o. As pris\u00f5es no Brasil hoje n\u00e3o cumprem esse papel.<\/p>\n<p>Ou seja, recapitulando: \u00e9 necess\u00e1rio enxugar a pol\u00edcia, fazer desmilitariza\u00e7\u00e3o, acabar com a pol\u00edtica de encarceramento em massa e fazer uma pol\u00edtica de desencarcerar, e um outro ponto, que \u00e9 a quest\u00e3o da legaliza\u00e7\u00e3o das drogas. A guerra \u00e0s drogas \u00e9 um grande justificador social \u2013 somado aos programas que incentivam a viol\u00eancia policial, do tipo Datena, Marcelo Rezende \u2013 que vai garantir uma ades\u00e3o social \u00e0 naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra a classe trabalhadora, como o que v\u00e3o enquadrar socialmente como \u201cbandidos\u201d. A guerra \u00e0s drogas cria a figura do traficante, dos caras super armados, que quando voc\u00ea vai ver n\u00e3o \u00e9 quem vai preso. O verdadeiro tr\u00e1fico de armas n\u00e3o \u00e9 enfrentado \u2013 houve agora o caso de um CAC (Ca\u00e7ador, Atirador e Colecionador) que adquiria v\u00e1rios fuzis e estava vendendo para o tr\u00e1fico do Rio; teve tamb\u00e9m o caso do Vivendas da Barra, do vizinho do Jair Bolsonaro. E o verdadeiro tr\u00e1fico de drogas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 combatido \u2013 nos helic\u00f3pteros, como aquele em Minas Gerais, nos avi\u00f5es da FAB, nos portos. E, por fim, \u00e9 necess\u00e1rio refor\u00e7ar, e muito, o controle sobre a pol\u00edcia, incentivando e investindo na organiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o para den\u00fancias, para criar uma corregedoria da pol\u00edcia que n\u00e3o seja da pr\u00f3pria pol\u00edcia, que seja popular e acompanhada por ativistas, militantes dos direitos humanos. Porque \u00e9 absurdo: n\u00e3o vai ser aceit\u00e1vel, vai ser caso de demiss\u00e3o, quem entrar numa casa na periferia sem ordem judicial. Quem enquadrar algu\u00e9m para fazer constrangimento. Ent\u00e3o tem que ter canais de den\u00fancia para que isso ocorra \u2013 \u00e9 uma forma de enfrentar a corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E acho que, neste tema, \u00e9 necess\u00e1rio falar do equ\u00edvoco que \u00e9 chamar Alckmin (PSB) para ser chamado de companheiro. Porque ele foi um dos grandes respons\u00e1veis em S\u00e3o Paulo pela pol\u00edtica do encarceramento em massa, pelo aumento da viol\u00eancia policial, do aumento do n\u00famero de homic\u00eddios praticados por policiais. O M\u00e1rio Covas (PSDB), quando assume em 1995 \u2013 o Alckmin era o vice \u2013, eles assumiam com o legado do Massacre do Carandiru. Ent\u00e3o tinham que impor uma s\u00e9rie de medidas de controle das tropas. Recomendo acompanharem o Ponte Jornalismo, que faz uma descri\u00e7\u00e3o de como o Alckmin, a partir de quando ele assume, em 2001, retira v\u00e1rios desses mecanismos. \u00c9 a primeira vez em que S\u00e3o Paulo chega ao n\u00famero de 900 pessoas mortas, nos primeiros tr\u00eas anos ap\u00f3s essas medidas tomadas pelo Alckmin. Ele foi respons\u00e1vel por isso, al\u00e9m do Massacre do Pinheirinho, por ter na sua conta diversas chacinas, e por ser o criador do BAEP. Ent\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que fez, e fez muito, para matar os nossos, para torturar os nossos, para prender os nossos; n\u00e3o d\u00e1 para ser chamado de companheiro e ser colocado de democrata.<\/p>\n<p>Revista Opera: Por fim, pegando as demandas e os temas mais importantes para a popula\u00e7\u00e3o hoje, a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. Historicamente no Estado a educa\u00e7\u00e3o enfrenta, digamos, um esvaziamento, e a coisa tem piorado muito na \u00faltima d\u00e9cada, e especialmente nos \u00faltimos 4-8 anos o ataque \u00e0 escola p\u00fablica foi muito forte. E h\u00e1 inclusive alguns estudiosos que, olhando para o que foi feito em termos de privatiza\u00e7\u00e3o no resto do Estado, olhando \u00e0s Parcerias P\u00fablico-Privadas e a quest\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Sociais, acham que o pr\u00f3ximo alvo, o pr\u00f3ximo foco de privatiza\u00e7\u00e3o, vai ser a educa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea v\u00ea o sucateamento da educa\u00e7\u00e3o estadual, e o que voc\u00ea proporia, quebrando com essa l\u00f3gica de privatiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: Dentro da l\u00f3gica das privatiza\u00e7\u00f5es, sucatear \u00e9 sempre o passo que antecede. E no caso dos servi\u00e7os p\u00fablicos em que n\u00f3s temos uma classe trabalhadora muito pobre, muito explorada, nem todos podem pagar pela educa\u00e7\u00e3o privada \u2013 ent\u00e3o voc\u00ea mant\u00e9m o servi\u00e7o p\u00fablico de m\u00e1 qualidade para for\u00e7ar essa demanda, de colocar o filho numa escola particular. Assim como \u00e9 com a quest\u00e3o do plano de sa\u00fade. Isso fecha muito bem nessa l\u00f3gica de n\u00e3o privatizar totalmente, mas criar diversas formas de privatiza\u00e7\u00e3o, sucateando sempre o p\u00fablico para que o sonho, o desejo, a alternativa que o conjunto da sociedade vai buscar \u00e9 o privado. E quem ficar na p\u00fablica \u00e9 s\u00f3 quem n\u00e3o conseguir pagar. O meu filho est\u00e1 na escola p\u00fablica \u2013 eu n\u00e3o teria condi\u00e7\u00e3o de pagar, mas \u00e9 tamb\u00e9m por uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica, de disputar, entender e lutar pela educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Diversas formas de privatiza\u00e7\u00e3o foram sendo impostas. Hoje o material escolar, com o Plano Nacional do Livro Did\u00e1tico, que \u00e9 o que fundamenta a distribui\u00e7\u00e3o, a intermedia\u00e7\u00e3o com as prefeituras e tamb\u00e9m nos Estados, \u00e9 feito na base da Parceria P\u00fablico-Privada. Quem est\u00e1 fornecendo material, estes grandes conglomerados da educa\u00e7\u00e3o, todos eles t\u00eam editora. E o conte\u00fado tem se tornado cada vez mais apostilado, cada vez mais mastigado, ao ponto da figura do professor se tornar inclusive complementar: o que dita o conte\u00fado e a aula \u00e9 a apostila, n\u00e3o o professor, com base em um apoio de material did\u00e1tico. Isso leva a um ponto \u2013 vale abrir um par\u00eantesis \u2013 que \u00e9 que cada vez mais se pode precarizar a forma\u00e7\u00e3o desses professores, porque a l\u00f3gica \u00e9 que nem querem um professor muito pensante, cr\u00edtico, criativo. Primeiro, ele n\u00e3o deve ter tempo pra isso: querem que ele v\u00e1 l\u00e1 e d\u00ea o m\u00e1ximo de aula que puder, para explorarem ele, pagarem o menos que puderem. Segundo, querem que ele siga o conte\u00fado fechadinho: n\u00e3o querem correr o risco de algum professor formando uns revolucion\u00e1rios por a\u00ed nas escolas, sobretudo nas periferias do Brasil.<\/p>\n<p>Outro ponto \u00e9 a terceiriza\u00e7\u00e3o, como predominou em v\u00e1rios setores, da alimenta\u00e7\u00e3o e da limpeza. Eu publiquei recentemente nas redes sociais uma den\u00fancia dos camaradas de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, que est\u00e1 valendo para todo o Estado, que \u00e9 a terceiriza\u00e7\u00e3o da merenda. Que as merendeiras que trabalham oito horas est\u00e3o sendo contratadas a 1.300 reais. E as escolas com cerca de 300 alunos t\u00eam s\u00f3 uma merendeira. E quando tem mais, \u00e9 uma e meia: uma e meia por que? Porque contratam outra metade do per\u00edodo. H\u00e1 um contrato que \u00e9 de 4 horas di\u00e1rias, e ela recebe 600 reais, e outro que \u00e9 de 3 horas di\u00e1rias, recebendo 400 reais. E o hor\u00e1rio da merenda inviabiliza para essa merendeira trabalhar em outro lugar, porque ela vai trabalhar no hor\u00e1rio do almo\u00e7o, que encavala em outro per\u00edodo e ela n\u00e3o consegue acumular outros trabalhos. Veja: isso \u00e9 regularizar trabalhos que recebem menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Essa que \u00e9 a verdade. E a merenda na escola sempre cumpriu um papel de enfrentamento \u00e0 fome no nosso Pa\u00eds.<\/p>\n<p>E do ponto de vista do professor tamb\u00e9m um processo de precariza\u00e7\u00e3o gritante. Desde 2013 n\u00e3o tem concurso p\u00fablico! Isso em casa tem um impacto direto grande, porque meu filho nasceu em 2013, e a minha companheira \u00e9 bi\u00f3loga e ia fazer a prova. Mas a prova foi \u00e0s v\u00e9speras do meu filho nascer, ent\u00e3o ela n\u00e3o conseguiu fazer a prova \u2013 na \u00e9poca falamos \u201ctudo bem, ano que vem, no m\u00e1ximo em dois anos, abre o concurso de novo e voc\u00ea faz\u201d. At\u00e9 hoje n\u00e3o teve outro concurso p\u00fablico: foi se expandindo a l\u00f3gica da categoria O.<\/p>\n<p>Revista Opera: Chegou-se a um n\u00edvel em que muitas vezes o cara se forma para ser professor, mas a precariza\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte que ele acaba indo atuar em outra \u00e1rea, a ponto de agora o Estado estar querendo permitir que professores de outras \u00e1reas d\u00eaem aulas de Geografia e Hist\u00f3ria \u2013 al\u00e9m do governador Rodrigo Garcia (PSDB) declarando, frente ao fato de 20% das aulas n\u00e3o terem ocorrido por falta de professores, que \u201ctemos que ver pelo lado bom, que s\u00e3o as 80% de aulas que aconteceram\u201d.<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: \u00c9 um absurdo, e se torna aceit\u00e1vel falar absurdos. E de fato, agora entra tamb\u00e9m a l\u00f3gica do \u201cnot\u00f3rio saber\u201d no Ensino M\u00e9dio, que est\u00e1 come\u00e7ando a ser implementada em alguns lugares. Que antes se pensava que poderia ser algo que caminharia junto do Escola Sem Partido, ou seja, abrir espa\u00e7o para a extrema-direita dentro da sala de aula, mas que na pr\u00e1tica, hoje, tem cumprido um papel de cobrir um d\u00e9ficit de contrata\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E a reforma do Ensino M\u00e9dio tem como consequ\u00eancia um programa de ensino integral. E o professor de categoria O fica preso em uma escola, e se n\u00e3o h\u00e1 o professor de uma determinada disciplina ou ele falta n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel chamar, fazer aqueles contrata\u00e7\u00f5es de professores avulsos. Ent\u00e3o vai algu\u00e9m de outra \u00e1rea; \u00e9 muito comum um professor de F\u00edsica dar aula de Hist\u00f3ria, por exemplo. Tem acontecido cada vez mais, o que para a qualidade do ensino \u00e9 terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Agora, com o Projeto de Lei Complementar 3 de 2022 do D\u00f3ria, h\u00e1 outros elementos que mudam a situa\u00e7\u00e3o do professor da categoria O. A quest\u00e3o da aula dia, por exemplo: voc\u00ea d\u00e1 cinco aulas em um dia, mas se falta em uma delas, a primeira ou a \u00faltima, porque morreu algu\u00e9m da sua fam\u00edlia ou o que quer que seja, o professor perde todo o dia de pagamento. Se ele n\u00e3o chega a tempo da primeira aula, ele pode at\u00e9 dar as outras quatro, mas perde o dia de pagamento. E outro elemento na sa\u00fade: restringe a um s\u00f3 dia de afastamento por sa\u00fade e uma hora para consulta m\u00e9dica. Quem consegue fazer consulta m\u00e9dica em uma hora? Mesmo se o postinho for do lado da sua casa. Isso levou agora, nesta quarta onda de Covid, a que muitos professores fossem trabalhar contaminados, com Covid. Porque n\u00e3o poderiam perder o pagamento de cinco dias ou de quatro dias, se tivessem ainda o direito de afastamento de um dia. Isso foi denunciado, mas n\u00e3o ganha espa\u00e7o na imprensa. \u00c9 um absurdo um neg\u00f3cio desses!<\/p>\n<p>Isso na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica; ent\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma reabertura dos concursos p\u00fablicos, assumir publicamente a produ\u00e7\u00e3o de materiais did\u00e1ticos \u2013 isso tem de ser feito junto das universidades; tem que ser parte do papel de forma\u00e7\u00e3o das escolas de Letras, Educa\u00e7\u00e3o, produzirem os materiais did\u00e1ticos. Por outro lado, comentei sobre o papel da alimenta\u00e7\u00e3o escolar no combate \u00e0 fome, a import\u00e2ncia da contrata\u00e7\u00e3o da merendeira. A merendeira \u00e9 inclusive uma figura de lembran\u00e7a carinhosa da nossa inf\u00e2ncia. At\u00e9 isso perde o papel, porque agora \u00e9 uma terceirizada. Provavelmente numa mesma semana n\u00e3o vai ser nem a mesma merendeira, no ano certamente n\u00e3o vai ser a mesma. At\u00e9 esse v\u00ednculo afetivo foi destru\u00eddo. E \u00e9 necess\u00e1rio atuar pela revoga\u00e7\u00e3o da reforma do Ensino M\u00e9dio. Porque al\u00e9m das quest\u00f5es de conte\u00fado, de esvaziamento da parte de humanas \u2013 Geografia, Sociais, etc., \u2013 tem o elemento de imp\u00f4r na escola, e muito, uma l\u00f3gica de ideologia empreendedora, a ideia do \u201cprojeto de vida\u201d, que acabam por responsabilizar a juventude pela situa\u00e7\u00e3o de desemprego e de baixa condi\u00e7\u00e3o de vida em que se encontra. Esse \u00e9 um projeto criminoso, \u00e9 um absurdo, inaceit\u00e1vel. Com o Ensino M\u00e9dio organizado com essa reforma, se criam os \u201citiner\u00e1rios interativos\u201d; voc\u00ea vai ter o itiner\u00e1rio em Ci\u00eancias, o itiner\u00e1rio de Letras, etc., e junto com esses h\u00e1 os \u201citiner\u00e1rios profissionalizantes\u201d. E o aluno pode substituir, por exemplo, o itiner\u00e1rio de ci\u00eancias por um itiner\u00e1rio profissionalizante \u2013 o estudante n\u00e3o vai ter acesso ao conte\u00fado b\u00e1sico, que \u00e9 inclusive requerido no ENEM, para substituir por alguma coisa para ele supostamente se formar profissionalmente. Mas nesse itiner\u00e1rio profissionalizante h\u00e1 desde cursos b\u00e1sicos de m\u00eddias sociais, curso b\u00e1sico de Excel, at\u00e9 coisas de est\u00e9tica; cabeleireiro, pedicure, etc. Mas tem coisas absurdas, alguns camaradas estavam denunciando itiner\u00e1rios profissionalizantes para o estudante fazer bolo de pote. Ou seja, se vai naturalizando a divis\u00e3o social do trabalho, \u00e9 dizer \u201cvoc\u00ea n\u00e3o precisa nem estudar, meu amigo, universidade n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea. Voc\u00ea precisa \u00e9 se profissionalizar logo nisso aqui para contribuir com a renda da sua fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Revista Opera: A pr\u00f3pria escola.<\/p>\n<p>Gabriel Colombo: Exatamente, a pr\u00f3pria escola afirmando isso. Isso \u00e9 cruel. A escola afirmando isso, em um momento de desemprego alt\u00edssimo, os sal\u00e1rios desvalorizados. Para a fam\u00edlia do jovem, ou para ele mesmo, ele pensa \u201cpoxa, \u00e9 a maneira de eu ganhar meu dinheirinho, minimamente ir num rol\u00ea, ajudar minha m\u00e3e a comprar um g\u00e1s, comprar a cesta que ela n\u00e3o est\u00e1 conseguindo\u201d. \u00c9 cruel porque no imediato tem tido ades\u00e3o da pr\u00f3pria juventude. Porque o conte\u00fado \u00e9 sucateado, n\u00e3o t\u00eam o mesmo professor o ano todo, em algumas mat\u00e9rias at\u00e9 falta o professor, a apostila lida com ele como se ele fosse um burro, o conte\u00fado rebaixado, n\u00e3o atrai ningu\u00e9m \u2013 esses projetos acabam tendo ades\u00e3o do estudante. Parece que ningu\u00e9m liga para a escola: o estudante vai, a merenda \u00e9 ruim, os pr\u00e9dios est\u00e3o depredados, a bola que ele vai jogar futebol est\u00e1 toda surrupiada. Se ningu\u00e9m liga, para qu\u00ea o estudante vai ligar? Se ele sabe que vai se formar e a possibilidade de ter um emprego por ter se formado \u00e9 baix\u00edssima? Que o que importa \u00e9 s\u00f3 mais ou menos saber ler e escrever e, agora, saber mexer em redes sociais? Ent\u00e3o \u00e9 cruel.<\/p>\n<p>A reforma do Ensino M\u00e9dio foi implementada pelo Temer, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o era o Rossieli Soares, que \u00e9 o atual secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o \u2013 era do D\u00f3ria, agora se mant\u00e9m com o Rodrigo Garcia. E a reforma do Ensino M\u00e9dio veio pouco depois da tentativa de reorganiza\u00e7\u00e3o do Alckmin aqui no Estado. N\u00e3o d\u00e1 para falar em educa\u00e7\u00e3o no Estado de S\u00e3o Paulo sem falar no papel important\u00edssimo da luta dos secundaristas no final de 2015, que em uma semana explodiu em 200 ocupa\u00e7\u00f5es de escolas em S\u00e3o Paulo. Foi algo que mobilizou o conjunto da sociedade, fez com que o Alckmin revisse a pol\u00edtica, demitisse o secret\u00e1rio estadual de educa\u00e7\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m levou isso para o plano nacional. Eles pensaram l\u00e1 em cima, digamos assim: \u201cprecisamos fazer alguma coisa, porque a juventude vem forte\u201d. A reforma do Ensino M\u00e9dio tem essa base; em 2016, quando foi aprovada, tamb\u00e9m houve ocupa\u00e7\u00f5es de escolas, mas n\u00e3o com a mesma for\u00e7a e capacidade \u2013 j\u00e1 tinha vindo o golpe, j\u00e1 tinha outra conjuntura que jogou para baixo o movimento e n\u00e3o permitiu uma vit\u00f3ria ali.<\/p>\n<p>\u00c9 importante relembrar tamb\u00e9m que, antes da tentativa de reorganiza\u00e7\u00e3o do Alckmin, houve a maior greve dos professores da rede estadual, que foi a greve de 90 dias em 2015. Que n\u00e3o conseguiu ser vitoriosa, mas deu muito g\u00e1s para a ocupa\u00e7\u00e3o secundarista, que veio logo a seguir. Isso refor\u00e7ou a necessidade deles n\u00e3o abrirem concursos, e refor\u00e7a a necessidade desses impeditivos para a categoria O \u2013 a quest\u00e3o do aula-dia, por exemplo, para o cara n\u00e3o faltar e ir participar de uma mobiliza\u00e7\u00e3o, de uma greve. Se ele falta alguns dias, vai perdendo b\u00f4nus e uma s\u00e9rie de coisas. Ent\u00e3o desestimula o professor a participar da organiza\u00e7\u00e3o da sua categoria, desidratando o sindicato.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a l\u00f3gica dessas reformas e do Programa Ensino Integral (PEI). H\u00e1 at\u00e9 uma pol\u00eamica, perguntam: \u201cent\u00e3o voc\u00eas defendem o ensino integral?\u201d Sim, n\u00f3s defendemos, mas no modelo do que foram os CIEPS do Brizola, no Rio, n\u00e3o esse PEI, que hoje \u00e9 inclusive uma promotora da invas\u00e3o escolar. No Estado, mais da metade dos munic\u00edpios t\u00eam s\u00f3 uma escola estadual. Se a escola desses munic\u00edpios adota o PEI, o estudante que trabalha em algum per\u00edodo n\u00e3o t\u00eam alternativa: n\u00e3o vai conseguir trabalhar mais, ou vai ter de deixar a escola e trabalhar. Ent\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dar for\u00e7a \u00e0 luta pela revoga\u00e7\u00e3o da reforma do Ensino M\u00e9dio. E \u00e9 bom lembrar que essa reforma foi uma pauta do \u201cTodos pela Educa\u00e7\u00e3o\u201d, que \u00e9 um absurdo. Quando falaram do balc\u00e3o de neg\u00f3cios dos pastores no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o o que pensei \u00e9 que ningu\u00e9m fala que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 balc\u00e3o de neg\u00f3cios h\u00e1 muito tempo \u2013 inclusive com o Haddad \u2013 dos setores privados da educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 os conglomerados de faculdade, mas tamb\u00e9m o Todos pela Educa\u00e7\u00e3o, Funda\u00e7\u00e3o Lemann, Instituto Ayrton Senna, Funda\u00e7\u00e3o do Bradesco, do Ita\u00fa. Foram estes os que ditaram esses itiner\u00e1rios profissionalizantes, disseram: \u201cmeu amigo, o que a gente precisa \u00e9 s\u00f3 Portugu\u00eas, Matem\u00e1tica, redes sociais, saber planilhar algumas coisas e saber atender bem no telefone. \u00c9 isso que precisamos para explorar essa juventude\u201d. Em um mercado prec\u00e1rio, flex\u00edvel. Um absurdo, um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>E, por fim, precisamos pensar tamb\u00e9m no ensino superior. As universidades estaduais paulistas est\u00e3o muito sucateadas, \u00e9 preciso ter um processo de reinvestimento. H\u00e1 menos professores hoje nas tr\u00eas estaduais paulistas do que tinha em 1995, ao mesmo tempo que houve uma expans\u00e3o das vagas: uma express\u00e3o clara do sucateamento. As universidades est\u00e3o colocadas e subordinadas aos interesses privados, com muito poucos projetos que pensem as nossas demandas em termos de sociedade, da classe trabalhadora. E precisamos acabar com o vestibular. \u00c9 algo que temos batido na tecla: vestibular \u00e9 uma coisa bizarra, \u00e9 o sintoma da falta de vagas na universidade p\u00fablica no Pa\u00eds. E nos debates tenho enfatizado, porque me perguntam: \u201cmas o vestibular n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de medir conhecimento?\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de medir conhecimento. \u00c9 uma l\u00f3gica concorrencial, h\u00e1 uma nota de corte, e para o estudante ir para a segunda fase vai depender do quanto os outros estudantes tiraram. \u00c9 o funil para adequar a demanda de universidade p\u00fablica ao n\u00famero de vagas que existem. E para expandir as vagas \u00e9 preciso contratar professor, contratar profissional t\u00e9cnico-administrativo, mas sobretudo uma transforma\u00e7\u00e3o radical na sociedade que d\u00ea conta de encontrar um papel social e econ\u00f4mico para as pessoas que saem formadas depois. Porque hoje a universidade cumpre muito um papel de retardar a entrada do jovem no desemprego. \u00c9 aquela brincadeira: \u201csa\u00ed da estat\u00edstica universit\u00e1ria para entrar na estat\u00edstica do desemprego\u201d. Era isso que se falava na \u00e9poca em que me formei, e isso \u00e9 muito real; t\u00e3o real que engloba inclusive a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, entre mestre e doutores h\u00e1 mais de 25% de desempregados no Pa\u00eds. \u00c9 preciso que tenha vagas, \u00e9 inadmiss\u00edvel que a \u00fanica alternativa que sobre para um professor, ou um doutor em engenharia da produ\u00e7\u00e3o, seja trabalhar para a Uber. \u00c9 um desperd\u00edcio social e humanit\u00e1rio absurdo, e para combater isso a universidade tem de caminhar junto a uma perspectiva de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dar esse car\u00e1ter para a universidade, para a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica estadual, e mesmo pensar em uma universaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 creche integral, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar nada disso fora de um processo revolucion\u00e1rio. A nossa burguesia n\u00e3o tem nenhum interesse em, digamos, aproveitar bem o material humano que h\u00e1 na nossa sociedade. O v\u00ednculo dela \u00e9 s\u00f3 garantir uma explora\u00e7\u00e3o e uma superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, e passam longe de uma perspectiva de reindustrializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do Brasil enquanto um pa\u00eds soberano em que as necessidades da maioria da popula\u00e7\u00e3o sejam atendidas. \u00c9 muito f\u00e1cil entender, por exemplo, que o vestibular \u00e9 s\u00f3 um funil. Mas na pr\u00e1tica isso demanda um enfrentamento \u00e0queles que imp\u00f5em esse funil, que \u00e9 a burguesia brasileira. Ent\u00e3o todas essas propostas n\u00e3o s\u00e3o nada se n\u00e3o tivermos uma perspectiva de poder pol\u00edtico, de tomada de poder pela classe trabalhadora e constru\u00e7\u00e3o do poder popular e da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29050\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Pr\u00e9-candidato do PCB ao governo do Estado, o agr\u00f4nomo Gabriel Colombo, de 32 anos, fala sobre as bandeiras de sua pr\u00e9-candidatura em entrevista.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[224],"class_list":["post-29050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7yy","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29050"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29050\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}