{"id":29057,"date":"2022-07-21T18:18:39","date_gmt":"2022-07-21T21:18:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29057"},"modified":"2022-07-21T18:18:39","modified_gmt":"2022-07-21T21:18:39","slug":"do-dente-de-lumumba-ao-chocalho-de-martin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29057","title":{"rendered":"Do dente de Lumumba ao chocalho de Martin"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.kis24.info\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG-20220117-WA0030.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Luis Su\u00e1rez-Carreno &#8211; ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Do cad\u00e1ver de Patrice Lumumba, her\u00f3i da independ\u00eancia do Congo, apenas foi preservado um dente. Os seus assassinos, agentes da pot\u00eancia colonial, destru\u00edram o resto. O dente foi agora devolvido \u00e0 fam\u00edlia pelo governo belga. \u00c9 uma ocasi\u00e3o para recordar Lumumba e toda uma not\u00e1vel gera\u00e7\u00e3o de jovens dirigentes de movimentos e processos de emancipa\u00e7\u00e3o nacional de pa\u00edses colonizados. N\u00e3o foi o \u00fanico a ser assassinado. E a resist\u00eancia ao colonialismo e ao neocolonialismo prolonga-se at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias o governo belga decidiu devolver \u00e0 fam\u00edlia daquele que foi her\u00f3i da independ\u00eancia do Congo, Patrice Lumumba, os \u00fanicos restos preservados dele, especificamente um dente que havia sido removido e guardado como trof\u00e9u-lembran\u00e7a por um dos funcion\u00e1rios belgas participantes de seu sequestro, tortura, assassinato e posterior destrui\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver, em janeiro de 1961.<\/p>\n<p>O nome de Patrice Lumumba provavelmente n\u00e3o significa nada para pessoas de gera\u00e7\u00f5es recentes; no entanto, para a minha gera\u00e7\u00e3o, nascida em meados do s\u00e9culo passado, faz parte de uma constela\u00e7\u00e3o de l\u00edderes e personagens agora j\u00e1 m\u00edticos que, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, se levantaram em todo o planeta para demolir as sequelas da ordem colonial e resistir \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o da nova ordem imperialista no contexto da Guerra Fria. A nova ordem exigia que os jovens estados fossem formalmente independentes, mas beligerantemente pr\u00f3-ocidentais e anticomunistas. O que exigia esmagar os movimentos emancipat\u00f3rios que proliferavam como um rastilho por todo o planeta naqueles anos, inspirados tanto no exemplo da URSS encabe\u00e7ando a derrota do nazismo como nos novos modelos de revolu\u00e7\u00f5es \u2018terceiro-mundistas\u2019, em primeiro e destacado lugar, China (1949) e, dez anos depois, Cuba (1959).<\/p>\n<p>Contra o cen\u00e1rio bipolar da Guerra Fria, emergiu o chamado movimento dos pa\u00edses n\u00e3o alinhados, formalmente criado em 1961 em Jacarta por uma maioria de estados p\u00f3s-coloniais emergentes que abarcavam uma ampla gama ideol\u00f3gica e pol\u00edtica \u2013 desde democracias nacionalistas capitalistas a socialismos de economia estatizada \u2013 e tamb\u00e9m geogr\u00e1fica, do Egito de Nasser \u00e0 Indon\u00e9sia de Sukarno, a Cuba de Fidel, o Brasil de Goulart, a \u00cdndia de Nehru, Gana com Nkrumah, a Iugosl\u00e1via de Tito ou o Congo de Lumumba. Movimento que nas d\u00e9cadas posteriores iria perdendo terreno, mas que na sua origem representava uma genu\u00edna alternativa \u00e0s a\u00e7\u00f5es hegemonistas e imperialistas.<\/p>\n<p>Todo o arsenal diplom\u00e1tico, econ\u00f4mico e militar dos EUA foi ent\u00e3o mobilizado para abortar qualquer projeto emancipat\u00f3rio e impor governos fantoches atrav\u00e9s da compra das oligarquias locais e seus pol\u00edticos, mas sobretudo treinando e orientando remotamente os comandantes das for\u00e7as armadas nacionais para orquestrar golpes de estado, tentando, tanto quanto poss\u00edvel, evitar o envolvimento direto do pr\u00f3prio ex\u00e9rcito estadunidense.<\/p>\n<p>Este procedimento foi aplicado de forma particularmente bem sucedida, massiva e sangrenta na Indon\u00e9sia a partir de 1965, contra uma democracia em constru\u00e7\u00e3o liderada por Sukarno ap\u00f3s o longo e exaustivo colonialismo da Holanda, e impondo um regime militar que em poucos meses assassinou &#8211; sem sequer aparentar uma m\u00ednima ades\u00e3o aos direitos humanos &#8211; at\u00e9 um milh\u00e3o de pessoas suspeitas, ou seja, democratas.<\/p>\n<p>Da\u00ed surge a doutrina intervencionista que viria a ser chamada \u2018m\u00e9todo de Jacarta\u2019 e que havia j\u00e1 sido aplicada no Ir\u00e3 em 1953, nas Filipinas e na Guatemala em 1954, no Iraque em 1963, e continuaria a ser aplicada em anos posteriores no Brasil contra a pol\u00edtica nacionalista de Goulart (presidente entre 1961 e 1964), na chamada \u2018guerra suja\u2019 mexicana desde 1960, ou no Cone Sul latino-americano nos anos 70 e 80, entre muitos outros cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Obviamente, os golpes dirigidos a partir da sombra nem sempre funcionam: a Coreia (in\u00edcio dos anos 1950) e o Vietn\u00e3 (1955 a 1975) foram exemplos em que o ex\u00e9rcito imperialista se viu for\u00e7ado a envolver-se direta e completamente, com um descomunal saldo de destrui\u00e7\u00e3o e morte, para colher em \u00faltima inst\u00e2ncia o fracasso pol\u00edtico, geoestrat\u00e9gico e, obviamente, moral.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria demasiado complexa e densa para ser resumida num texto (recomendo o livro \u2018O M\u00e9todo de Jacarta. A cruzada anticomunista e os assassinatos em massa que moldaram o nosso mundo\u2019, Vincent Bevins, ), mas o que me interessa destacar aqui s\u00e3o duas quest\u00f5es: por um lado, como a atual Nova Guerra Fria surge da heran\u00e7a mal resolvida da imposi\u00e7\u00e3o violenta de uma hegemonia ocidental (eufemismo para se referir os EUA e seus aliados\/c\u00famplices) sobre a maior parte do planeta na segunda metade do s\u00e9culo XX, ou seja, da anterior Guerra Fria. E, por outro lado, que a mem\u00f3ria da col\u00f4nia e da descoloniza\u00e7\u00e3o, processos que ainda sangram nas suas sequelas, faz parte da vergonha que o Ocidente tem dificuldade em reconhecer, enquanto faz exibi\u00e7\u00e3o de virtudes democr\u00e1ticas e de exemplaridade no que diz respeito aos direitos humanos. Contradi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s que, hoje mesmo, a criminosa pol\u00edtica de fronteiras nos EUA ou na UE revela.<\/p>\n<p>O ato simb\u00f3lico de devolver o dente de Lumumba ao povo congol\u00eas constitui um gesto de repara\u00e7\u00e3o (n\u00e3o de justi\u00e7a) por parte da antiga metr\u00f3pole, \u00e0 qual a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo repetidamente exigiu indeniza\u00e7\u00f5es pela sua longa hist\u00f3ria de pilhagem e crueldade (desde 1885). Tamb\u00e9m na Espanha estamos bem cientes dessa dificuldade quando se trata de assumir a mem\u00f3ria das coloniza\u00e7\u00f5es e dos processos de emancipa\u00e7\u00e3o: isto foi verificado no ano passado, no centen\u00e1rio do \u2018desastre de Anual\u2019, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s guerras do Rif, e torna-se novamente atual com a insist\u00eancia da C\u00e2mara Municipal de Madri na instala\u00e7\u00e3o de um monumento ao legion\u00e1rio. Ou com a recente antidemocr\u00e1tica e contraproducente (mesmo em termos ego\u00edstas para a Espanha) concess\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica neocolonial e repressiva marroquina em rela\u00e7\u00e3o ao Sahara Ocidental pelo governo de Pedro S\u00e1nchez.<\/p>\n<p>A Nova Guerra Fria provocada pelo expansionismo atlantista, alimentada pela invas\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia do autocrata Putin, por sua vez utilizada para o rearmamento e maior expans\u00e3o daquele bloco, faz-nos ansiar pela vis\u00e3o e coragem de Lumumba e de outros dirigentes de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Onde estar\u00e3o os atuais Lumumbas, os movimentos e l\u00edderes n\u00e3o alinhados, defensores da paz e da solidariedade internacional, quando at\u00e9 os governos supostamente progressistas, como o de Pedro S\u00e1nchez, se alistam com entusiasmo para alimentar a nova guerra fria (na realidade nada fria), oferecendo-se como anfitri\u00f5es dos seus sinistros encontros festivos e belicistas?<\/p>\n<p>Termino dizendo que essa anedota do dente de Lumumba me levou, por algum motivo, a evocar o chocalho de Mart\u00edn; o que foi encontrado na exuma\u00e7\u00e3o da vala comum do cemit\u00e9rio de Palencia em 2011, que serviu a Mart\u00edn, agora um anci\u00e3o, para identificar os restos mortais de sua m\u00e3e, agarrada ao chocalho no momento de ser fuzilada. O nexo entre os dois objetos nada mais \u00e9 do que a capacidade dos restos e rastros do passado de ajudar a reconstruir a mem\u00f3ria, a restabelecer os fatos, a desmascarar os seus negacionistas.<\/p>\n<p>Crimes e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos impunes, ocultos, apenas sussurrados que renascem em qualquer objeto aparentemente insignificante.<\/p>\n<p>PS: O chocalho de Mart\u00edn de la Torre Mu\u00f1oz foi encontrado junto aos restos mortais de sua m\u00e3e, Catalina, assassinada pelos rebeldes franquistas, detida pela Guarda Civil em Palencia. Catalina Mu\u00f1oz foi executada aos 37 anos em setembro de 1936 durante a ditadura de Francisco Franco na Espanha e enterrada com o brinquedo do beb\u00ea de nove meses, que s\u00f3 ficou sabendo da hist\u00f3ria 83 anos depois.<\/p>\n<p>______________________________________<br \/>\n1 Existe j\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o portuguesa, da Editora Tinta da China<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/blogs.publico.es\/verdad-justicia-reparacion\/2022\/07\/16\/del-diente-de-lumumba-al-sonajero-de-martin-rastros-de-la-infamia\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29057\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Do cad\u00e1ver de Patrice Lumumba, her\u00f3i da independ\u00eancia do Congo, apenas foi preservado um dente. 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