{"id":29105,"date":"2022-08-04T15:24:12","date_gmt":"2022-08-04T18:24:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29105"},"modified":"2022-08-04T15:24:12","modified_gmt":"2022-08-04T18:24:12","slug":"medicalizacao-da-sociedade-e-racismo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29105","title":{"rendered":"Medicaliza\u00e7\u00e3o da sociedade e racismo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"374\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omomento.org\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/capamed-750x375.jpg?resize=747%2C374&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por R\u00f4mulo Caires<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o conceito de medicaliza\u00e7\u00e3o vem sendo cada vez mais mobilizado para elucidar o avan\u00e7o da medicina em dire\u00e7\u00e3o ao corpo social, processo que mais do que produzir sa\u00fade tem contribu\u00eddo para a individualiza\u00e7\u00e3o de problemas que encontram suas determina\u00e7\u00f5es fundamentais no pr\u00f3prio desenvolvimento da sociedade. Nesse sentido, a medicaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente o uso abusivo de medica\u00e7\u00f5es, ainda que este aspecto fa\u00e7a parte do fen\u00f4meno, mas pode ser compreendido como um processo mais abrangente que transforma quest\u00f5es de ordem econ\u00f4mica, pol\u00edtica, cultural, educacional etc., em problemas m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Desenvolvemos em texto anterior a import\u00e2ncia das pr\u00e1ticas de sa\u00fade e da medicina na garantia da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Neste texto, aprofundaremos outro aspecto da rela\u00e7\u00e3o entre medicina e capitalismo: seu papel no controle social e na normaliza\u00e7\u00e3o dos conflitos. Desde o surgimento da \u201cquest\u00e3o social\u201d ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, em que uma s\u00e9rie de \u201creformadores\u201d passaram a se preocupar com as condi\u00e7\u00f5es de vida e sa\u00fade da massa da popula\u00e7\u00e3o, notou-se que a medicina tinha um papel importante em dirimir as insatisfa\u00e7\u00f5es populares. O Estado Moderno emerge e incorpora em suas a\u00e7\u00f5es a realiza\u00e7\u00e3o de certas demandas advindas das classes trabalhadoras, especialmente no per\u00edodo de ascens\u00e3o revolucion\u00e1ria da burguesia, que para destronar as classes feudais valeu-se de uma pol\u00edtica de alian\u00e7as com os setores plebeus.<\/p>\n<p>Esse processo produziu uma s\u00e9rie de teorias que advogavam pela igualdade e liberdade dos seres humanos e, com isso, alguns desses reformadores estavam realmente interessados em diminuir as injusti\u00e7as sociais e melhorar a vida de amplos setores da popula\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, esse per\u00edodo teve breve dura\u00e7\u00e3o. A burguesia foi revolucion\u00e1ria at\u00e9 a tomada de poder e logo se assustou com a possibilidade de os setores populares utilizarem as armas que a burguesia utilizou contra o feudalismo contra o pr\u00f3prio modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista nascente. A Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana \u00e9 um dos primeiros marcos da transforma\u00e7\u00e3o da burguesia de classe revolucion\u00e1ria em classe conservadora. Os revolucion\u00e1rios haitianos logo compreenderam que a ideia de igualdade e liberdade propagandeada pela burguesia n\u00e3o valia para eles. A burguesia n\u00e3o aceitou que a popula\u00e7\u00e3o negra e formada essencialmente por ex-escravizados fizesse parte da \u201chumanidade\u201d.<\/p>\n<p>Foi justamente no decorrer do s\u00e9culo XIX que se generalizaram ideias que explicavam os conflitos e as desigualdades existentes a partir da teoria das ra\u00e7as e do racismo cient\u00edfico. A ci\u00eancia foi convocada a explicar o objeto \u201cra\u00e7a\u201d e construiu todo um arcabou\u00e7o que justificava a exclus\u00e3o a partir da suposta \u201cinferioridade natural\u201d das ra\u00e7as n\u00e3o-brancas. A medicina, enquanto pr\u00e1tica reconhecida socialmente por estabelecer os par\u00e2metros de normalidade, adentra essa seara e tem papel fundamental na consolida\u00e7\u00e3o das teorias racistas que emergiram durante o s\u00e9culo XIX. N\u00e3o ser\u00e1 objeto desse texto uma an\u00e1lise ampla da rela\u00e7\u00e3o da medicina com as teorias raciais, mas tomaremos o caso brasileiro como exemplo de valor pois julgamos que o Brasil foi um local no qual a medicina e a justifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do racismo operaram em m\u00e1xima sintonia.<\/p>\n<p>Como exposto anteriormente, cabe geralmente \u00e0 medicina definir o que \u00e9 normal e o que \u00e9 patol\u00f3gico. Essa defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 neutra e depende diretamente das condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada sociedade, do per\u00edodo hist\u00f3rico em quest\u00e3o etc. Justamente no per\u00edodo em que a burguesia se torna uma classe conservadora, o que Marx chamou de decad\u00eancia ideol\u00f3gica da burguesia, amplia-se com mais for\u00e7a concep\u00e7\u00f5es naturalistas da hist\u00f3ria humana. Uma dessas concep\u00e7\u00f5es pode ser caracterizada como paradigma psicopatol\u00f3gico, no qual as lutas sociais s\u00e3o interpretadas n\u00e3o enquanto luta de classes mas enquanto luta daqueles bem nascidos e considerados aut\u00eanticos humanos e aqueles considerados inferiores e condenados a perecerem. Tais teorias foram ent\u00e3o utilizadas como m\u00e1quina de guerra contra o proletariado como forma de justificar a superexplora\u00e7\u00e3o de seus setores mais oprimidos, especialmente a classe trabalhadora negra.<\/p>\n<p>Partindo do pressuposto de que o desenvolvimento do capitalismo ocorre de forma desigual ao redor do globo compreendemos que a via no qual o capitalismo emerge no Brasil ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o direta com as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas deste territ\u00f3rio. Antes de ser capitalista, o lugar que veio a ser chamado Brasil funcionou principalmente enquanto produtor de bens prim\u00e1rios para exporta\u00e7\u00e3o a partir principalmente da escraviza\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o dos povos advindos de \u00c1frica. Os processos de desenvolvimento da sociedade foram marcados por seguidas \u201crevolu\u00e7\u00f5es pelo alto\u201d no qual as transforma\u00e7\u00f5es ocorriam \u00e0 revelia das demandas populares a partir da imposi\u00e7\u00e3o de cima para baixo.<\/p>\n<p>O capitalismo brasileiro desenvolveu-se a partir do fim do escravismo e de uma s\u00e9rie de medidas que al\u00e9m de n\u00e3o garantirem a \u201cinclus\u00e3o\u201d da popula\u00e7\u00e3o negra na nova sociedade em forma\u00e7\u00e3o, construiu uma gama de mecanismos que impulsionaram a inferioriza\u00e7\u00e3o do negro como forma de branquear a for\u00e7a de trabalho e expurgar seres considerados \u201cinferiores\u201d e n\u00e3o compat\u00edveis com o progresso nacional. Desde pelo menos o fim da Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana, h\u00e1 um medo generalizado das classes dominantes brasileiras da ocorr\u00eancia de rebeli\u00f5es escravas e toda a forma\u00e7\u00e3o estatal est\u00e1 determinada por este aspecto. O Estado brasileiro se formou como uma via de impedir a mobiliza\u00e7\u00e3o dos ex-escravizados e fixar o \u201clugar do negro\u201d no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nesse sentido, uma das principais armas ideol\u00f3gicas utilizadas pela burguesia interna foram as teorias raciais importadas da Europa e a medicina teve papel fundamental nessa importa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o de formas peculiares de racismo \u00e0 brasileira. Lembremos do papel de alguns m\u00e9dicos como Nina Rodrigues na formula\u00e7\u00e3o da ideia de \u201ccriminoso\u201d e na propaganda de concep\u00e7\u00f5es que tomavam as caracter\u00edsticas do negro enquanto sinais de degenera\u00e7\u00e3o, como \u201cfatores de risco\u201d para o crime. Lembremos tamb\u00e9m das pr\u00e1ticas higienistas que mais do que preocupadas com as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias estavam preocupadas em expulsar os negros de seus locais de moradia para abrir espa\u00e7o para as constru\u00e7\u00f5es que embelezariam as cidades brasileiras e as colocariam mais pr\u00f3ximas dos grandes centros europeus.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 menos importante o papel da eugenia, que teve na figura do m\u00e9dico Renato Kehl seu principal expoente. A eugenia foi mobilizada como uma via de impedir a reprodu\u00e7\u00e3o do negro e garantir as condi\u00e7\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o de uma suposta \u201cra\u00e7a superior\u201d em nosso pa\u00eds. Mesmo que posteriormente algumas dessas teorias tenham sido deixadas de lada pelas classes dominantes, v\u00e1rios de seus aspectos fundamentais se mantiveram e se sofisticaram em teorias posteriores. No Brasil nunca tivemos uma democracia racial, mas muitos foram aqueles que insistiram e insistem nessa ideia. Seja pela via da patologiza\u00e7\u00e3o do negro, da expropria\u00e7\u00e3o de suas formas de autocuidado, da justifica\u00e7\u00e3o do encarceramento em massa a partir da ideia de \u201cguerra as drogas\u201d ou a constru\u00e7\u00e3o de verdadeiros campos de concentra\u00e7\u00e3o nos manic\u00f4mios, a medicina forneceu m\u00faltiplos argumentos \u201ccient\u00edficos\u201d que contribu\u00edram com a perman\u00eancia do negro como pass\u00edvel de ser superexplorado e exterminado.<\/p>\n<p>Desta forma, percebemos o papel que a medicina teve como pr\u00e1tica justificadora do racismo no Brasil. A partir da especificidade da sociedade brasileira, marcada pelo sentido da coloniza\u00e7\u00e3o, a medicina operou como arma de controle social que n\u00e3o s\u00f3 deu uma suposta \u201cmotiva\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d para pr\u00e1ticas de exterm\u00ednio no passado como ainda hoje tem papel na reprodu\u00e7\u00e3o de diversos mecanismos que inferiorizam a popula\u00e7\u00e3o negra. Construir pr\u00e1ticas de sa\u00fade emancipat\u00f3rias deve necessariamente passar pela cr\u00edtica radical do processo de medicaliza\u00e7\u00e3o da sociedade e das diversas formas de constru\u00e7\u00e3o de um suposto lugar \u201cnatural\u201d que condena as pessoas n\u00e3o-brancas a terem sua exist\u00eancia subjugada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29105\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Seja pela via da patologiza\u00e7\u00e3o do negro, da justifica\u00e7\u00e3o da \"guerra as drogas\" ou da constru\u00e7\u00e3o de verdadeiros campos de concentra\u00e7\u00e3o nos manic\u00f4mios, percebemos o papel que a medicina teve como pr\u00e1tica justificadora do racismo no Brasil.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[225],"class_list":["post-29105","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7zr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29105"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29105\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}