{"id":29120,"date":"2022-08-10T08:50:45","date_gmt":"2022-08-10T11:50:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29120"},"modified":"2022-08-10T08:35:36","modified_gmt":"2022-08-10T11:35:36","slug":"de-beirute-a-gaza-ha-coisas-que-nunca-mudam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29120","title":{"rendered":"De Beirute a Gaza h\u00e1 coisas que nunca mudam"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/17113.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o via\u00a0<a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/internacional\/de-beirute-gaza-ha-coisas-que-nunca-mudam\">ABRIL ABRIL<\/a><\/p>\n<p>[Na foto: Palestinos inspecionam um edif\u00edcio residencial atingido pela avia\u00e7\u00e3o israelense, em Rafah, no Sul da Faixa de Gaza, a 6 de agosto de 2022<br \/>\nCr\u00e9ditos \/ middleeasteye.net]<\/p>\n<p>Gaza \u00e9 hoje a Beirute Ocidental de 40 anos atr\u00e1s, com a agravante de a sua popula\u00e7\u00e3o, calculada em dois milh\u00f5es de pessoas num territ\u00f3rio \u00ednfimo, ter sido privada de todos os meios de defesa e at\u00e9 de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Passam agora exatamente 40 anos sobre os dias t\u00f3rridos de 1982 em que, ao cabo de v\u00e1rias perip\u00e9cias pr\u00f3prias da vida de um jornalista, consegui chegar a Beirute Ocidental, regi\u00e3o cercada e impunemente bombardeada pelas for\u00e7as armadas de Israel. A invas\u00e3o israelense consolidara ainda mais a divis\u00e3o sect\u00e1ria da capital libanesa em setores ocidental e oriental, separados por uma \u00ablinha verde\u00bb.<\/p>\n<p>Agora, quatro d\u00e9cadas depois, as mesmas for\u00e7as armadas de Israel cometem mais um pico da agress\u00e3o permanente que mant\u00eam contra a Faixa de Gaza, territ\u00f3rio palestino transformado num campo de concentra\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto, tal como Beirute Ocidental foi em 1982.<\/p>\n<p>H\u00e1 coisas que nunca mudam: regimes criminosos agindo tranquilamente \u00e0 margem das leis internacionais, sustentados por c\u00famplices dizendo-se democratas, civilizados e ju\u00edzes dos direitos humanos; e povos sujeitos a guerras de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>No caso dos palestinos, quando a situa\u00e7\u00e3o se altera, \u00e9 no sentido \u00fanico do agravamento cont\u00ednuo. Um povo submetido a um tratamento cruel e a uma limpeza \u00e9tnica h\u00e1 sete d\u00e9cadas e meia, e que, ao contr\u00e1rio de outros \u00abmais parecidos conosco\u00bb, como se diz na linguagem pr\u00f3pria da xenofobia colonial, n\u00e3o consegue suscitar grandes ondas de como\u00e7\u00e3o internacional, acompanhadas pelo coro de berros transtornados de jornalistas e comentadores sem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>Os palestinos resistem quase sozinhos, com a sua coragem inigual\u00e1vel e os parcos meios de que disp\u00f5em para fazer frente a um inimigo s\u00e1dico e selvagem, sem limites, beneficiado por um ilimitado poder militar e de lobby transnacional, al\u00e9m de uma impunidade internacional sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De Beirute, em 1982, at\u00e9 Gaza, em 2022, h\u00e1 um fio hist\u00f3rico condutor com uma l\u00f3gica e uma coer\u00eancia t\u00e3o fortes que lhe permitiram resistir \u00e0s grandes convuls\u00f5es ocorridas ao longo dos \u00faltimos 40 anos. Acabou uma guerra fria e come\u00e7ou outra, derrubou-se um muro em Berlim e constru\u00edram-se outros na Europa e em v\u00e1rios lugares atrav\u00e9s do mundo, mas o mart\u00edrio palestino continua, afinal inc\u00f3lume aos terremotos pol\u00edticos, militares e estrat\u00e9gicos atrav\u00e9s dos quais se faz, e tamb\u00e9m se desfaz, aquilo a que a tecnol\u00edngua de consumo obrigat\u00f3rio decidiu chamar globalismo.<\/p>\n<p>A arbitrariedade militarista e racista israelense passou por cima da imensa vaga de transforma\u00e7\u00f5es em escala mundial, o que n\u00e3o \u00e9 surpreendente gra\u00e7as \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as que foram emergindo no fim da guerra fria; no entanto, de maneira ins\u00f3lita e mesmo inesperada (que n\u00e3o para os pr\u00f3prios), a resist\u00eancia palestina n\u00e3o foi liquidada por essa mesma onda, entre pequenos e trai\u00e7oeiros avan\u00e7os e devastadores mas n\u00e3o fatais recuos. Perdoe-se a ligeireza da analogia, mas a justi\u00e7a e os direitos leg\u00edtimos de uma aldeia de Asterix continuam sobrevivendo \u00e0 for\u00e7a bruta e \u00e0 crueldade expansionistas no cora\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio \u2013 embora sem alcan\u00e7arem o devido reconhecimento em forma de Estado nacional.<\/p>\n<p>O exemplo de Beirute<br \/>\n\u00c9 assim em Gaza, na Cisjord\u00e2nia e em Jerusal\u00e9m Leste como foi em Beirute no ano de 1982.<\/p>\n<p>Para os que n\u00e3o eram nascidos ou n\u00e3o se recordam, Beirute era alvo de uma brutal ofensiva militar israelense, comandada pelo general Ariel Sharon, que depois chegou a primeiro-ministro mesmo tendo sido condenado internamente por crimes cometidos nessa opera\u00e7\u00e3o. O objetivo declarado, como de costume, era o de \u00abcombater o terrorismo palestino\u00bb, isto \u00e9, liquidar as estruturas embrion\u00e1rias de um Estado \u00e1rabe na Palestina, na altura instaladas no L\u00edbano. E, se poss\u00edvel, assassinar o pr\u00f3prio dirigente m\u00e1ximo da resist\u00eancia nacional palestina, ent\u00e3o Yasser Arafat, o que foi tentado v\u00e1rias vezes, na altura sem \u00eaxito.<\/p>\n<p>No recuo perante as tropas invasoras israelenses, apoiadas por uma for\u00e7a a\u00e9rea poderos\u00edssima que agia sem qualquer oposi\u00e7\u00e3o, a resist\u00eancia conjunta palestina e libanesa concentrou-se na parte Oeste de Beirute, que ficou ent\u00e3o completamente cercada.<\/p>\n<p>Do lado da resist\u00eancia aos invasores atuavam as estruturas paramilitares das for\u00e7as pol\u00edticas palestinas concentradas na Organiza\u00e7\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) e no Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina \u2013 embri\u00e3o do ex\u00e9rcito nacional do futuro Estado; e tamb\u00e9m grupos paramilitares libaneses ligados a partidos e movimentos pol\u00edticos, al\u00e9m de organiza\u00e7\u00f5es de \u00e2mbito nacional ou das v\u00e1rias confiss\u00f5es religiosas: mu\u00e7ulmanas sunitas, xiitas, drusas e at\u00e9 crist\u00e3s maronitas.<\/p>\n<p>As tropas agressoras sionistas eram ainda apoiadas pelas principais organiza\u00e7\u00f5es fascistas crist\u00e3s maronitas libanesas, como o Partido da Falange, da poderosa fam\u00edlia Gemayel, de \u00edndole feudal e \u00abcultura\u00bb colonial francesa, e o chamado Ex\u00e9rcito do Sul do L\u00edbano, de fato criado pelo regime de Tel Aviv.<\/p>\n<p>Embora as perip\u00e9cias vividas pelo jornalista para chegar \u00e0 \u00e1rea cercada de Beirute n\u00e3o sejam para aqui chamadas, h\u00e1 uma que tem um aspecto relevante, sobretudo pela sua atualidade. No caminho por estrada entre a capital s\u00edria, Damasco, e Beirute Oriental fui submetido a v\u00e1rios controles de identifica\u00e7\u00e3o pela mir\u00edade de grupos militares e paramilitares presentes no terreno, mas o \u00faltimo, e decisivo, aconteceu no quartel-general dos fascistas da Falange, fazendo o papel de filtro de admiss\u00e3o a pedido das for\u00e7as israelenses.<\/p>\n<p>Como viajava num grupo de jornalistas e operadores de c\u00e2mara brit\u00e2nicos e norte-americanos, o processo decorreu sem grandes sobressaltos, mas fica a nota da colabora\u00e7\u00e3o das for\u00e7as ditas civilizadas, ocidentais e democr\u00e1ticas, na ocasi\u00e3o briosamente representadas pelas tropas invasoras israelenses, com as organiza\u00e7\u00f5es fascistas e terroristas libanesas. Coisa que se diria contranatura mas que, tendo em conta a presente colabora\u00e7\u00e3o da OTAN com os nazistas ucranianos na defesa de um regime ditatorial em Kiev, n\u00e3o passa de uma intimidade de longa data, natural, frequente, corrente e at\u00e9 coerente, pode-se dizer.<\/p>\n<p>O estado de Beirute Ocidental era indescrit\u00edvel e cada minuto a mais de exist\u00eancia, dia e noite, sentia-se como um milagre de sobreviv\u00eancia. A maior parte dos edif\u00edcios estava arrasada ou em ru\u00ednas, cad\u00e1veres insepultos, desfigurados, muitos j\u00e1 em decomposi\u00e7\u00e3o, jaziam por todo o lado, principalmente nas imedia\u00e7\u00f5es e no interior dos campos de refugiados palestinos \u2013 n\u00e3o existiam condi\u00e7\u00f5es para os funerais escaparem ao fogo dos avi\u00f5es israelenses; n\u00e3o havia \u00e1gua e apenas funcionavam alguns prec\u00e1rios pontos de eletricidade dependentes de geradores, numa cidade quase desprovida de combust\u00edveis; os recursos alimentares eram m\u00ednimos, os refugiados amontoavam-se em pequenas divis\u00f5es no interior dos edif\u00edcios que restavam, situados principalmente na Rua Hamra, at\u00e9 ent\u00e3o uma \u00e1rea comercial, financeira, jornal\u00edstica e hoteleira da cidade. O uso de telex \u2013 o meio de comunica\u00e7\u00e3o escrita existente na altura \u2013 era poss\u00edvel apenas algumas horas por dia, de maneira intermitente e a pre\u00e7os proibitivos; o telefone para numerosos pa\u00edses, entre os quais Portugal, n\u00e3o funcionava.<\/p>\n<p>De noite, os bombardeios israelenses com obuses eram cegos, n\u00e3o importava onde ca\u00edssem desde que fosse no per\u00edmetro urbano cercado, chegando a atingir o hotel onde se concentravam os representantes da imprensa e da TV norte-americanas \u2013 habitualmente alvo de precau\u00e7\u00f5es especiais por parte dos agressores. A partir dos primeiros sinais de dia come\u00e7avam os bombardeios a\u00e9reos, em vagas sucessivas de F-15 \u2013 a gera\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada de ca\u00e7as-bombardeiros ent\u00e3o em poder da For\u00e7a A\u00e9rea israelense \u2013 e sem qualquer oposi\u00e7\u00e3o. As consequ\u00eancias eram devastadoras, n\u00e3o havia ref\u00fagios, e no dia 10 de agosto, que ficou para a hist\u00f3ria como a \u00abhorrenda quinta-feira\u00bb, a chacina foi impiedosa sobre multid\u00f5es que corriam desencontradas e \u00e0 deriva pelas ruas.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o do Apocalipse. Quem tenha vivido uma situa\u00e7\u00e3o destas, como posteriormente me aconteceu v\u00e1rias vezes em Gaza, jamais poder\u00e1 considerar como l\u00edcito, justificado, muito menos banal o recurso \u00e0 guerra e o seu prolongamento como via para criar estabilidade, resolver conflitos, pacificar regi\u00f5es. \u00c9 exatamente o oposto da democracia e do respeito pelos direitos humanos. O predom\u00ednio do militarismo \u00e9 uma porta franqueada ao terrorismo, \u00e9 criminoso.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia armada libanesa-palestiniana, civil, paramilitar e militar, unida no interior de uma regi\u00e3o que sempre fora desmilitarizada e deixara de o ser por for\u00e7a do avan\u00e7o dos invasores, n\u00e3o se vergou nem rendeu durante 82 intermin\u00e1veis dias, um feito pouco menos que inacredit\u00e1vel mesmo para quem viveu os combates. A todo o momento se esperava a entrada das tropas israelenses, mas o certo \u00e9 que n\u00e3o se atreveram nem mesmo ap\u00f3s o massacre de 10 de agosto. Os assaltantes sionistas fugiram a experimentar o combate urbano contra quem, em boa verdade, pouco tinha a perder al\u00e9m da vida.<\/p>\n<p>Muitos cad\u00e1veres de soldados chegariam ent\u00e3o ao territ\u00f3rio israelense se isso acontecesse, um pre\u00e7o que o regime de Tel Aviv n\u00e3o se sentiu em condi\u00e7\u00f5es de pagar. E ent\u00e3o negociou, sempre em vantagem porque, como viria a tornar-se um h\u00e1bito, a \u00abmedia\u00e7\u00e3o\u00bb foi exercida pelos Estados Unidos. O acordo encontrado estabeleceu que as for\u00e7as do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e os dirigentes da OLP poderiam sair em seguran\u00e7a de Beirute para a Tun\u00edsia e que tropas transnacionais, especialmente francesas, garantiriam a necess\u00e1ria interposi\u00e7\u00e3o entre as partes em conflito, al\u00e9m de assegurarem a prote\u00e7\u00e3o dos campos de refugiados palestinos.<\/p>\n<p>O mecanismo era prec\u00e1rio mas funcionou durante algumas semanas. Em 17 de setembro, por\u00e9m, os terroristas crist\u00e3os pr\u00f3-Israel do Ex\u00e9rcito do Sul do L\u00edbano, protegidos pelas tropas israelenses, o que foi muito f\u00e1cil de testemunhar, entraram nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila e chacinaram a sangue frio cerca de cinco mil pessoas entre homens, mulheres, crian\u00e7as e idosos, sem discrimina\u00e7\u00e3o. Ainda n\u00e3o se chamava assim, mas foi um concludente exemplo da \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb.<\/p>\n<p>O massacre teve algum eco atrav\u00e9s do mundo, at\u00e9 porque violou um acordo \u00abmediado\u00bb pelos Estados Unidos, e deu origem a sinais de m\u00e1 consci\u00eancia entre membros reservistas do Ex\u00e9rcito israelense, de que d\u00e1 conta o interessante filme Dan\u00e7as com Bachir. O comandante da opera\u00e7\u00e3o, Ariel Sharon, foi condenado na sequ\u00eancia de um inqu\u00e9rito oficial, mas alguns anos depois chegou a primeiro-ministro e, no in\u00edcio deste s\u00e9culo, esteve \u00e0 frente do terror contra a chamada \u00abSegunda Intifada\u00bb palestina.<\/p>\n<p>Foi breve e quase inconsequente a consterna\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 chacina de Sabra e Chatila. Massacres recentes n\u00e3o comprovados, certamente montados segundo roteiros falsos como o de Bucha, nos sub\u00farbios de Kiev, fizeram correr bastante mais tinta e geraram uma ampla, descontrolada e mirabolante cacofonia de polui\u00e7\u00e3o sonora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jornalismo e jornalistas<br \/>\nFui o \u00fanico jornalista portugu\u00eas a trabalhar em Beirute Ocidental durante o cerco israelense. Se anoto esta situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque se trata de um facto relevante a que as circunst\u00e2ncias conferem actualidade, apesar de terem passado 40 anos. Os jornalistas portugueses, como se constata, acorrem na sua esmagadora maioria para lugares de conflito armado onde a narrativa dos factos coincide com a posi\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do pa\u00eds, convergindo na forma\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o hoje ainda mais restritiva e \u00fanica do que ent\u00e3o; o \u00abinimigo\u00bb n\u00e3o deve ter cobertura, n\u00e3o pode ter voz dada a conhecer aos cidad\u00e3os portugueses, est\u00e1 do lado errado do conflito e dos \u00abnossos valores partilhados\u00bb, o salmo dogm\u00e1tico de Bruxelas e Washington.<\/p>\n<p>No Ver\u00e3o de 1982, jornalistas nacionais instalaram-se comodamente em Beirute Oriental de acordo com os crit\u00e9rios seguidos atualmente no Zelenskist\u00e3o; os rar\u00edssimos profissionais que procuram testemunhar a realidade no Donbass, como acontece, por exemplo, com o valios\u00edssimo e profundo trabalho de Bruno Amaral de Carvalho, s\u00e3o considerados uma esp\u00e9cie de traidores da P\u00e1tria, at\u00e9 por membros do governo; chegam a ser convocados por colegas para dar entrevistas, como se necessitassem justificar um comportamento autoritariamente interpretado como aberrante.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m neste aspecto a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou; agravou-se mesmo em termos de desrespeito pelo pluralismo de opini\u00f5es e pelo direito de acesso a todos os \u00e2ngulos de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma outra guerra produzida pela pr\u00f3pria guerra e pelo avan\u00e7o galopante da ideologia militarista.<\/p>\n<p>O fracasso da ONU<br \/>\nDepois de Beirute, estive em Gaza cinco anos, dez anos, 15 anos, 20 anos depois e testemunhei a gradual transforma\u00e7\u00e3o do pequeno territ\u00f3rio palestino numa vers\u00e3o ainda mais aterradora da que existiu h\u00e1 40 anos na parte ocidental da capital libanesa.<\/p>\n<p>O governo terrorista de Israel, com o apoio permanente dos Estados Unidos e tamb\u00e9m de v\u00e1rios outros pa\u00edses da OTAN, sobretudo a Fran\u00e7a e o Reino Unido, tentou por v\u00e1rias vezes voltar a conquistar uma presen\u00e7a militar no L\u00edbano de modo a domesticar este pa\u00eds e transform\u00e1-lo num sat\u00e9lite inofensivo para as suas ambi\u00e7\u00f5es de controle regional \u2013 principalmente sobre a S\u00edria.<\/p>\n<p>Mas a emerg\u00eancia dos nacionalistas xiitas do Hezbollah, em parte incentivada pela chacina de Sabra e Chatila, travou todas as tentativas de invas\u00e3o, principalmente em 1996 e 2006. O grupo de \u00edndole religiosa, que ganhou respeito e apoios em outros setores religiosos e at\u00e9 n\u00e3o religiosos, transformou-se num advers\u00e1rio de respeito que obriga a tropa sionista a ponderar as suas a\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o, evitando o confronto militar direto. Recorre covardemente, como sempre, aos ataques permitidos pela sua superioridade a\u00e9rea, mas o \u00e0-vontade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo desde que existem o Hezbollah e sistemas mais avan\u00e7ados de defesa antia\u00e9rea instalados pela R\u00fassia na S\u00edria, a partir de 2015.<\/p>\n<p>Mas em Gaza isso n\u00e3o acontece. Gaza \u00e9 hoje a Beirute Ocidental de 40 anos atr\u00e1s, com a agravante de a sua popula\u00e7\u00e3o, calculada em dois milh\u00f5es de pessoas num territ\u00f3rio \u00ednfimo de 360 quil\u00f4metros quadrados (\u00e1rea aproximada do concelho de Montijo, por exemplo), ter sido privada de todos os meios de defesa e at\u00e9 de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A Faixa de Gaza, governada pelo movimento radical isl\u00e2mico Hamas depois de uma divis\u00e3o catastr\u00f3fica da resist\u00eancia palestina na sequ\u00eancia dos acordos de \u00abpaz\u00bb conduzidos pelos Estados Unidos, novamente como \u00abmediadores\u00bb, e por Israel, est\u00e1 fisicamente envolvida por cercas, muros e meios navais de guerra no Mediterr\u00e2neo, impedida de se abastecer de todos os bens essenciais \u00e0 vida, desde alimentos a medicamentos. A \u00e1gua \u00e9 escass\u00edssima e cada vez mais salgada, n\u00e3o existe energia el\u00e9trica durante grande parte do dia, os bombardeios permanentes de Israel, com picos de grande viol\u00eancia como agora mais uma vez se registrou, destru\u00edram grande parte das estruturas sociais, como escolas e hospitais, e devastaram o parque habitacional.<\/p>\n<p>Gaza \u00e9 um monte de ru\u00ednas, uma sociedade de fam\u00edlias destro\u00e7adas e um universo de car\u00eancias como Beirute Ocidental h\u00e1 40 anos. Centenas de milhares de palestinos eram, e s\u00e3o, refugiados no L\u00edbano e o s\u00e3o tamb\u00e9m na sua pr\u00f3pria terra, em Gaza, na Cisjord\u00e2nia, em Jerusal\u00e9m Leste.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, nenhum pa\u00eds e organiza\u00e7\u00e3o com capacidade de interven\u00e7\u00e3o no mundo se move em favor dos direitos deste povo. O comportamento da ONU \u00e9 deplor\u00e1vel e as atitudes dos secret\u00e1rios-gerais tornam-se cada vez mais irrelevantes \u00e0 medida que se sucedem os ocupantes do cargo: quando isso parecia imposs\u00edvel, Ant\u00f3nio Guterres supera em alheamento e inefic\u00e1cia o desastre que foi a gest\u00e3o do sul-coreano Ban Ki-moon.<\/p>\n<p>T\u00e3o c\u00e9lere a tomar posi\u00e7\u00e3o, por sinal enviesada, parcial e desinformada (no m\u00ednimo) na quest\u00e3o ucraniana, o engenheiro Guterres contempla imobilizado a agonia e as peri\u00f3dicas chacinas de Gaza; e, quando age, os resultados chegam a ser pat\u00e9ticos. A ONU tem em seu poder todos os instrumentos para fazer justi\u00e7a, finalmente, ao povo palestino. Existem, contudo, povos de primeira, segunda e terceira, e o da Palestina n\u00e3o cabe sequer em qualquer destes n\u00edveis discriminat\u00f3rios. \u00c9 um p\u00e1ria do qual os senhores do mundo, uma elite parasita que representa pouco e ainda manda muito, observam tranquilamente o exterm\u00ednio gradual. No entanto, esse povo resiste, como h\u00e1 40, h\u00e1 75 anos. E onde est\u00e3o as san\u00e7\u00f5es contra Israel pela Nakba (a cat\u00e1strofe terrorista, genoc\u00eddio, limpeza \u00e9tnica) em pr\u00e1tica h\u00e1 sete d\u00e9cadas e meia?<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do povo palestino diz muito, quase tudo, sobre a qualidade humana, o conceito de justi\u00e7a, a considera\u00e7\u00e3o pelo direito internacional, o respeito pelos direitos humanos por parte da casta colonial e imperial que ainda controla o mundo em coliga\u00e7\u00e3o com o poder sionista transnacional, n\u00e3o apenas centrado em Israel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exclusivo AbrilAbril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29120\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Gaza \u00e9 hoje a Beirute Ocidental de 40 anos atr\u00e1s, com a agravante de a sua popula\u00e7\u00e3o, calculada em dois milh\u00f5es de pessoas num territ\u00f3rio \u00ednfimo, ter sido privada de todos os meios de defesa e at\u00e9 de sobreviv\u00eancia.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-29120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7zG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}