{"id":29157,"date":"2022-08-19T15:52:55","date_gmt":"2022-08-19T18:52:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29157"},"modified":"2022-08-19T15:58:33","modified_gmt":"2022-08-19T18:58:33","slug":"o-litio-do-chile-esgota-a-terra-e-os-povos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29157","title":{"rendered":"O l\u00edtio do Chile esgota a terra e os povos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-78.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>[Minera\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no Salar de Atacama, Chile, por evapora\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de po\u00e7os de salmoura. (Foto: Coordena\u00e7\u00e3o-Geral de Observa\u00e7\u00e3o da Terra\/INPE)]<\/p>\n<p>Por Vijay Prashad e Taroa Z\u00fa\u00f1iga Silva | Globetrotter. Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Marin para a Revista Opera<\/p>\n<p>O salar do Atacama, localizado no norte do Chile e com uma extens\u00e3o de mais de 1200 quil\u00f4metros quadrados, \u00e9 a maior fonte de l\u00edtio do mundo. Estamos diante de um penhasco, olhando para o grande po\u00e7o, no extremo sul do salar, protegido da vista do p\u00fablico. \u00c9 ali que as grandes empresas chilenas se instalaram para extrair o l\u00edtio e export\u00e1-lo \u2013 em grande parte sem process\u00e1-lo \u2013 ao mercado mundial. \u201cSabe quem era sogro do rei do l\u00edtio no Chile?\u201d, nos pergunta Loreto, respons\u00e1vel por nos guiar at\u00e9 esse mirante para contemplar as brancas areias do salar. Sua resposta n\u00e3o nos surpreende muito: se trata nada mais nada menos que o falecido ditador militar Augusto Pinochet, que governou o Chile de 1973 a 1990. Com \u201crei do l\u00edtio\u201d ele se refere a Julio Ponce Lerou, o maior acionista da empresa mineira de l\u00edtio Sociedad Qu\u00edmica y Minera de Chile (SQM), e genro do ditador.<\/p>\n<p>A SQM e a Albemarle, as duas principais mineradoras chilenas, dominam o salar do Atacama. \u00c9 imposs\u00edvel conseguir uma permiss\u00e3o para visitar o extremo sul do salar, onde estabeleceram suas opera\u00e7\u00f5es. As empresas extraem o l\u00edtio bombeando salmoura no subsolo do salar e deixando-a evaporar durante meses antes de levar adiante o processo de extra\u00e7\u00e3o. \u201cA SQM rouba nossa \u00e1gua para extrair o l\u00edtio\u201d, declarou em 2018 a ex-presidenta do Conselho de Povos Ind\u00edgenas do Atacama, Ana Ramos, segundo o Deutsche Welle. O concentrado que resta ap\u00f3s a evapora\u00e7\u00e3o \u00e9 convertido em carbonato de l\u00edtio e hidr\u00f3xido de l\u00edtio, que logo s\u00e3o exportados, formando as mat\u00e9rias primas chave na produ\u00e7\u00e3o de baterias de \u00edon de l\u00edtio. Aproximadamente um ter\u00e7o do l\u00edtio mundial procede do Chile. Segundo o banco Goldman Sachs, \u201co l\u00edtio \u00e9 a nova gasolina\u201d.<\/p>\n<p>O que faz a necessidade<br \/>\nA propriedade do salar \u00e9 disputada entre o Estado, os povos origin\u00e1rios deste territ\u00f3rio e as empresas privadas. Mas, como nos disse um membro da comunidade Lickanantay \u2013 uma das comunidades ind\u00edgenas que reconhecem o salar de Atacama como sua morada \u2013, a maioria dos propriet\u00e1rios da terra j\u00e1 n\u00e3o vivem na regi\u00e3o. Juan, que se dedica \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de cavalos e descende de uma fam\u00edlia dedicada ao pastoreio, nos conta que as pessoas de l\u00e1 agora \u201cvivem das rendas da terra. N\u00e3o lhes importa o que ocorrer aqui\u201d. No entanto, Juan sabe que essas rendas s\u00e3o min\u00fasculas. \u201cO que nos pagam para explorar nossas terras \u00e9 praticamente uma gorjeta\u201d, diz ele. \u201cN\u00e3o \u00e9 nada comparado com o que ganham. Mas, ainda assim, \u00e9 muito dinheiro\u201d. Para a maioria dos Lickanantay, diz Juan, \u201co l\u00edtio n\u00e3o \u00e9 um tema porque, embora se saiba que ele \u00e9 danoso ao meio ambiente, nos est\u00e1 trazendo dinheiro\u201d, diz. \u201cA necessidade leva o povo a fazer muitas coisas.\u201d<\/p>\n<p>Os impactos ambientais negativos da extra\u00e7\u00e3o do l\u00edtio foram amplamente estudados pela comunidade cient\u00edfica e observados pelos guias tur\u00edsticos da zona. Angelo, um desses guias, nos conta que lhe preocupa que as reservas de \u00e1gua sejam contaminadas devido \u00e0s atividades mineradoras e que teme o impacto que isso tem sobre a fauna do deserto do Atacama, incluindo os flamingos. \u201cDe vez em quando encontramos um flamingo rosado morto\u201d, nos diz. Cristina In\u00e9s Dorador, doutora em ci\u00eancias naturais que participou da reda\u00e7\u00e3o do novo projeto de Constitui\u00e7\u00e3o do Chile, publicou diversos trabalhos sobre o decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o de flamingos no salar. No entanto, Dorador tamb\u00e9m disse que poderiam ser utilizadas novas tecnologias para evitar o impacto ambiental negativo generalizado. Ingrid Garc\u00e9s Millas, doutora em Ci\u00eancias da Terra pela Universidade de Zaragoza e pesquisadora da Universidade de Antofagasta, destacou em um artigo para o Le Monde Diplomatique que o atual uso da extra\u00e7\u00e3o do l\u00edtio provocou a deteriora\u00e7\u00e3o das \u201cformas de vida dos povos andinos\u201d. Um exemplo que mencionou foi que, enquanto a ind\u00fastria do l\u00edtio utiliza o abastecimento de \u00e1gua subterr\u00e2nea, as \u201ccomunidades se abastecem com caminh\u00f5es-cisterna\u201d.<\/p>\n<p>Segundo um relat\u00f3rio da MiningWatch Canad\u00e1 e do Atlas de Justi\u00e7a Ambiental, \u201cpara produzir uma tonelada de l\u00edtio nos salares do Atacama s\u00e3o evaporadas 2 mil toneladas de \u00e1gua, o que provoca um dano importante tanto na disponibilidade da \u00e1gua como na qualidade das reservas subterr\u00e2neas de \u00e1gua doce\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, na regi\u00e3o do Atacama n\u00e3o parece existir um senso de urg\u00eancia quanto ao debate sobre a extra\u00e7\u00e3o do l\u00edtio. A maior parte do povo parece ter aceito que a extra\u00e7\u00e3o do l\u00edtio chegou para ficar. Entre as e os ativistas h\u00e1 discrep\u00e2ncias sobre como abordar o tema. Os mais radicais creem que o l\u00edtio n\u00e3o deve ser extra\u00eddo, enquanto outros debatem quem deve beneficiar-se da riqueza gerada por sua extra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ainda outros, como Angelo e Loreto, que creem que a vontade do Chile de exportar o l\u00edtio sem processamento nega ao pa\u00eds a possibilidade de explorar os benef\u00edcios que poderia significar o processamento do metal dentro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Bens comuns naturais<br \/>\nJustamente antes das elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Chile, em novembro de 2021, entrevistamos Giorgio Jackson, agora um dos assessores mais pr\u00f3ximos do presidente do Chile, Gabriel Boric. Ele nos disse que o novo governo chileno estudaria a possibilidade de nacionalizar recursos chave, como o cobre e o l\u00edtio. Isso j\u00e1 n\u00e3o parece estar na agenda do governo, apesar da expectativa de que os altos pre\u00e7os do cobre e do l\u00edtio possam financiar as t\u00e3o necess\u00e1rias reformas no sistema de pens\u00f5es e na moderniza\u00e7\u00e3o da infraestrutura do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A ideia de nacionaliza\u00e7\u00e3o foi discutida na conven\u00e7\u00e3o constitucional, mas, ao final, n\u00e3o foi inclu\u00edda no projeto da constitui\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 votado no dia 4 de setembro. Em seu lugar, a proposta de constitui\u00e7\u00e3o se baseia no artigo 19 da Constitui\u00e7\u00e3o de 1980, que estabelece o \u201cdireito a viver em um meio ambiente livre de contamina\u00e7\u00e3o\u201d. Com a aprova\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 estabelecida, no artigo 134, a exist\u00eancia de bens comuns naturais, sobre os quais o Estado \u201ctem um dever especial de cust\u00f3dia, com o fim de assegurar os direitos da natureza e o interesse das gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras\u201d.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias do governo do ex-presidente Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, o Minist\u00e9rio de Minera\u00e7\u00e3o do Chile premiou duas empresas \u2013 a BYD Chile SpA e a Servicios y Operaciones Mineras del Norte S.A \u2013 com o direito \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de 80 mil toneladas de l\u00edtio (cada uma) durante um prazo de 20 anos. A Corte de Apela\u00e7\u00f5es de Copiap\u00f3 atendeu a um pedido do governador de Copiap\u00f3, Miguel Vargas, e de v\u00e1rias comunidades ind\u00edgenas. Em janeiro de 2022, o tribunal suspendeu o acordo; decis\u00e3o que foi confirmada em junho pela Corte Suprema do pa\u00eds. Isso n\u00e3o implica que o Chile v\u00e1 dar marcha-r\u00e9 na explora\u00e7\u00e3o do l\u00edtio por parte das grandes empresas, mas sugere que um novo interesse contra a ampla explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais est\u00e1 se desenvolvendo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>At\u00e9 2016, o Chile produzia 37% da cota do mercado mundial de l\u00edtio, o que o tornava o maior produtor mundial deste metal. Quando o governo do Chile aumentou as taxas de royalties para as mineradoras, v\u00e1rias delas reduziram sua produ\u00e7\u00e3o e algumas aumentaram sua participa\u00e7\u00e3o na Argentina (a SQM, por exemplo, ingressou em uma empresa mista conjunta com a Lithium Americas Corporation para trabalhar em um projeto na Argentina). O Chile atualmente est\u00e1 atr\u00e1s da Austr\u00e1lia em termos de produ\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no mercado mundial, caindo de 37% a 29% entre 2016 e 2019 (com a perspectiva de que sua participa\u00e7\u00e3o cair\u00e1 ainda mais, at\u00e9 chegar a 17% em 2030).<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o de Juan sobre \u201ca necessidade levar o povo a fazer muitas coisas\u201d descreve bem o estado de \u00e2nimo entre os moradores do Atacama. As necessidades das pessoas que habitam esta regi\u00e3o parecem estar atr\u00e1s das necessidades das grandes empresas. Os familiares dos antigos ditadores acumulam riquezas \u00e0s custas da terra, enquanto que as e os propriet\u00e1rios dela \u2013 por necessidade \u2013 a vendem em troca de gorjetas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29157\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"O Chile adotou um modelo de extra\u00e7\u00e3o do l\u00edtio que aprofunda sua depend\u00eancia e esgota seus recursos. 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