{"id":29212,"date":"2022-09-06T09:04:09","date_gmt":"2022-09-06T12:04:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29212"},"modified":"2022-09-06T09:04:09","modified_gmt":"2022-09-06T12:04:09","slug":"memoria-laudelina-de-campos-mello","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29212","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria: Laudelina de Campos Mello"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-91.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Camila Oliver<\/p>\n<p>Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), em 2019, mais de seis milh\u00f5es de pessoas trabalharam em servi\u00e7os dom\u00e9sticos. Desse total, 92% s\u00e3o mulheres \u2014 em sua maioria negras, de baixa escolaridade e oriundas de fam\u00edlias de baixa renda. E 7 entre cada 10 trabalhadoras\/es n\u00e3o t\u00eam carteira assinada. Al\u00e9m disso, em junho de 2021, uma mulher foi resgatada de condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP) e em 2022 outra mulher negra nessa mesma condi\u00e7\u00e3o foi resgatada em Lauro de Freitas, na Regi\u00e3o Metropolitana de Salvador. Vale ressaltar que esse quadro j\u00e1 foi ainda pior, quando n\u00e3o havia leis que assegurassem direitos \u00e0s\/aos trabalhadoras\/es dom\u00e9sticas\/os.<\/p>\n<p>Por esse motivo, nesta edi\u00e7\u00e3o de julho, a Mem\u00f3ria de O Momento faz homenagem a Laudelina de Campos Mello, pioneira na luta por direitos de trabalhadoras e trabalhadores dom\u00e9sticas\/os no Brasil. A sua iniciativa fez surgir o movimento sindical dos\/as dom\u00e9sticas\/os na cidade de Santos, S\u00e3o Paulo, em 1936.<\/p>\n<p>Laudelina nasceu em Po\u00e7os de Caldas, Minas Gerais, em 12 de outubro de 1904, filha de pais alforriados pela Lei do Ventre Livre, em 1871. Come\u00e7ou a trabalhar aos sete anos de idade, ficou \u00f3rf\u00e3 de pai aos 12 anos e abandonou a escola para cuidar dos irm\u00e3os enquanto a m\u00e3e trabalhava. Aos 16 anos, j\u00e1 atuava em organiza\u00e7\u00f5es sociais do movimento negro, sendo eleita presidente do Clube 13 de Maio, que promovia atividades recreativas e pol\u00edticas entre a popula\u00e7\u00e3o negra de sua cidade. Aos 18 anos, mudou-se para a cidade de S\u00e3o Paulo e, aos 20, casou-se com Geremias Henrique Campos Mello. Em 1924, mudou-se para a cidade de Santos, onde nasceu o seu primeiro filho.<\/p>\n<p>Em Santos, Laudelina participou da agremia\u00e7\u00e3o Saudade de Campinas, grupo que celebrava a cultura negra. Com dois filhos, Laudelina e Geremias separaram-se em 1938. Em 1936, Laudelina filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos movimentos pol\u00edticos e populares intensificou-se. Tornou-se uma das diretoras da Frente Negra Brasileira (FNB), a maior entidade negra do s\u00e9culo XX. Na FNB, Laudelina criou o Departamento Dom\u00e9stico buscando a conscientiza\u00e7\u00e3o da categoria. A miss\u00e3o da FNB era \u201cintegrar o povo preto \u00e0 sociedade\u201d, promovendo cursos profissionalizantes, da valoriza\u00e7\u00e3o da cultura negra, da conscientiza\u00e7\u00e3o racial, pol\u00edtica e da luta por direitos da popula\u00e7\u00e3o negra e contra a viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>Ainda em 1936, Laudelina fundou a primeira Associa\u00e7\u00e3o de Trabalhadores Dom\u00e9sticos do pa\u00eds, a qual foi fechada durante o Estado Novo, retornando \u00e0s atividades apenas em 1946. Na pauta de reivindica\u00e7\u00f5es da associa\u00e7\u00e3o estavam: aux\u00edlio \u00e0s trabalhadoras e a seus familiares e inclus\u00e3o da categoria na CLT.<\/p>\n<p>Durante a Ditadura Vargas, Laudelina integrou, como volunt\u00e1ria, o Primeiro Batalh\u00e3o Militar de Santos, mandado para a It\u00e1lia na Segunda Grande Guerra (1939-1945). No campo de batalha, as suas fun\u00e7\u00f5es eram: socorrer as tropas, cuidar da alimenta\u00e7\u00e3o dos combatentes e atuar como soldada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1950, Laudelina foi para Campinas, cidade onde trabalhadoras brancas tinham prefer\u00eancia, o que a levou a protestar junto do Correio Popular contra a veicula\u00e7\u00e3o de an\u00fancios preconceituosos. Assim, ela tamb\u00e9m integrou-se ao Movimento Negro de Campinas.<\/p>\n<p>Em 1954, abriu a Escola de Bailado Cl\u00e1ssico Santa Efig\u00eania para meninas pretas, com professora de dan\u00e7a preta, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas de bailes da sociedade branca que n\u00e3o admitiam alunas negras. Em 1961, obteve o apoio do Sindicato da Constru\u00e7\u00e3o Civil de Campinas para fundar, em suas depend\u00eancias, a associa\u00e7\u00e3o de empregadas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>No dia 18 de maio de 1961, mil e duzentas empregadas dom\u00e9sticas estiveram presentes na inaugura\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Profissional Beneficente das Empregadas Dom\u00e9sticas. No ano seguinte, Laudelina foi convidada para participar da organiza\u00e7\u00e3o de diversos sindicatos da categoria em outros estados, militando tamb\u00e9m em movimentos negros e feministas.<\/p>\n<p>Com o Golpe de Estado de 1964, para que a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse fechada, precisou ligar-se \u00e0 Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN). Neste per\u00edodo, v\u00e1rias entidades trabalhistas, movimentos estudantis e organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas entram na clandestinidade, e Laudelina foi presa por ser comunista. Permaneceu pouco tempo na pris\u00e3o, contudo, a entidade acabou se dissociando, pois, mulheres brancas, patroas, assumiram o controle e logo foi fechada. Mas, em 1982, retornou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do movimento por insist\u00eancia de suas antigas companheiras. A associa\u00e7\u00e3o tornou-se Sindicato das Empregadas Dom\u00e9sticas em 1988, a principal diferen\u00e7a \u00e9 que, enquanto a associa\u00e7\u00e3o representa apenas as\/os suas\/seus filiadas\/os, o sindicato pode desenvolver uma atua\u00e7\u00e3o mais pol\u00edtica, de mobiliza\u00e7\u00e3o, e representa toda a categoria.<\/p>\n<p>Laudelina morreu em 12 de maio de 1991, aos oitenta e seis anos, em Campinas, deixando sua casa para o sindicato da cidade. Contudo, Laudelina permanece viva no legado que a sua intensa milit\u00e2ncia produziu. Em 1989, foi criada a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Casa Laudelina de Campos Mello, dedicada a celebrar a atua\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia de Laudelina, e desenvolver a\u00e7\u00f5es de autonomia econ\u00f4mica, produ\u00e7\u00e3o e troca de conhecimentos, al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o profissional de mulheres negras.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria de Laudelina foi homenageada pelo Governo Federal com a adi\u00e7\u00e3o \u00e0 Ordem do M\u00e9rito do Trabalho no grau de Cavaleira post-mortem em 2005. J\u00e1 em 2015 foi produzido o document\u00e1rio Laudelina: Lutas e Conquistas, resultado de uma parceria entre o Museu da Cidade (Campinas\/SP) e o Museu da Imagem e do Som (MIS). Em 12 de outubro de 2020 Laudelina foi homenageada pelo Google com um Doodle.<\/p>\n<p>Laudelina de Campos Mello, presente!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29212\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Em 1936, Laudelina filiou-se ao PCB; tornou-se uma das diretoras da Frente Negra Brasileira (no s\u00e9culo XX, a maior entidade negra do Brasil) e, no mesmo ano, fundou a primeira Associa\u00e7\u00e3o de Trabalhadores Dom\u00e9sticos do pa\u00eds.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365],"tags":[224],"class_list":["post-29212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Ba","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29212\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}