{"id":29226,"date":"2022-09-09T12:30:58","date_gmt":"2022-09-09T15:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29226"},"modified":"2022-09-09T12:09:36","modified_gmt":"2022-09-09T15:09:36","slug":"sofia-manzano-21-agro-a-industria-da-pobreza-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29226","title":{"rendered":"Sofia Manzano 21: \u201cAgro, a ind\u00fastria da pobreza do Brasil\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-93.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Leopoldo Neto (roteiro e condu\u00e7\u00e3o), Vit\u00f3ria Regina (roteiro e condu\u00e7\u00e3o) e Norberto Liberator (roteiro e arte)<br \/>\nColaborou Guilherme Correia<\/p>\n<p>Revista Badar\u00f3 entrevista Sofia Manzano, candidata \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/p>\n<p>Nenhuma outra legenda no Brasil possui tanta longevidade quanto o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Entre per\u00edodos na clandestinidade, rupturas (conhecidas como \u201crachas\u201d), sabotagens externas e internas, mas tamb\u00e9m participa\u00e7\u00f5es decisivas em mobiliza\u00e7\u00f5es e conquistas sociais no Brasil, o Partid\u00e3o chegou, em 2022, a seu centen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em 1917, mesmo ano da primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista vitoriosa na hist\u00f3ria da humanidade, o Brasil tamb\u00e9m passou por um marco na agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de esquerda: a greve geral que resultou, entre outras conquistas, no teto de oito horas de trabalho di\u00e1rio \u2013 \u00e0 \u00e9poca, as jornadas costumavam ir de nove a 12 horas. Embora naquele momento o anarquismo, sobretudo a vertente anarcossindicalista, predominasse entre as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores, a paralisa\u00e7\u00e3o foi um embri\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de um partido de vanguarda. \u00c9 o que diz Astrojildo Pereira, um dos fundadores do Partid\u00e3o, em artigo publicado em 1952 na revista Problemas.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o do PCB em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna, traz rela\u00e7\u00f5es diretas com o evento. Ali estavam Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Patr\u00edcia Galv\u00e3o (Pagu), futuros representantes de um bra\u00e7o hist\u00f3rico do partido, o dos artistas e intelectuais. Deste tamb\u00e9m fariam parte Jorge Amado \u2013 que, como deputado federal, foi autor da lei que criminalizou a intoler\u00e2ncia religiosa \u2013, C\u00e2ndido Portinari, Ana Montenegro, Graciliano Ramos, Dias Gomes, Oscar Niemeyer, M\u00e1rio Schenberg, entre outros. Dentre  figuras de destaque, h\u00e1 ainda atletas, como o boxeador Waldemar Zumbano, o jogador de futebol Le\u00f4nidas da Silva e o ex-jogador, jornalista e treinador Jo\u00e3o Saldanha.<\/p>\n<p>Durante estes 100 anos, fez-se imposs\u00edvel falar sobre hist\u00f3ria da pol\u00edtica brasileira de forma s\u00e9ria sem citar o PCB, o que se torna uma ironia quando se pensa na visibilidade dada hoje, nos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e0s candidaturas do Partid\u00e3o. O pavor da burguesia se mant\u00e9m, mas de outra forma. Se Yedo Fiuza, prefeito de Petr\u00f3polis e terceiro colocado na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1946 (quando obteve 10% dos votos), enfrentou uma intensa campanha de difama\u00e7\u00e3o, a economista e professora Sofia Manzano enfrenta a falta de espa\u00e7o. Na contram\u00e3o da grande m\u00eddia, a Badar\u00f3 conversou com Sofia (sem interromp\u00ea-la). O material bruto pode ser conferido tamb\u00e9m em nosso canal do YouTube.<\/p>\n<p>Revista Badar\u00f3: Voc\u00ea iniciou sua milit\u00e2ncia no PCB, em 1989, per\u00edodo que foi marcado pelo colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O partido, naquele ano, lan\u00e7ou candidatura de Roberto Freire (Cidadania), que hoje \u00e9 um pol\u00edtico de direita. Tr\u00eas anos mais tarde, a partir de um golpe interno, a legenda mudou de nome e hoje, ainda mais descaracterizada, ele comp\u00f5e a chapa da ruralista Simone Tebet (MDB). Como se deu a disputa interna dentro do partido naquele momento e como se deu a reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB enquanto uma legenda marxista-leninista?<\/p>\n<p>Sofia Manzano: \u00c9 interessante, principalmente para quem \u00e9 mais jovem e s\u00f3 tem o conhecimento da d\u00e9cada de 1980, do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo no Brasil nos anos 1990 atrav\u00e9s da escola, dos livros, e agora da internet, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante dizer que naquele momento a gente vivia um verdadeiro turbilh\u00e3o de acontecimentos, no Brasil especialmente, por diversos motivos.<\/p>\n<p>O PCB, partido que agora, em 2022, completou seu centen\u00e1rio, j\u00e1 era um partido muito antigo no Brasil, mas que passou o per\u00edodo da ditadura sendo duramente perseguido e grande parte ou a totalidade do seu comit\u00ea central, sua dire\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, que sobreviveu, foi exilada. E nesse ex\u00edlio, na Europa, mas tamb\u00e9m na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, uma parte desse comit\u00ea central come\u00e7ou a abandonar, j\u00e1 nos anos 1970, a perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>E quando voltam para o Brasil, a partir de 1979, com a sa\u00edda de Lu\u00eds Carlos Prestes, inclusive, que estava em contradi\u00e7\u00e3o com esse \u2013 digamos assim \u2013 abandono, pela maioria do comit\u00ea central, da perspectiva revolucion\u00e1ria, h\u00e1 uma hegemonia dentro do PCB das posi\u00e7\u00f5es reformistas, inclusive j\u00e1 com pr\u00e1ticas de direita mesmo, mesmo ainda no PCB.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, nos anos 1980, na retomada da democracia no Brasil, o PCB apoiou candidatos como Ant\u00f4nio Erm\u00edrio de Moraes, em S\u00e3o Paulo, ou Moreira Franco, no Rio de Janeiro, nas elei\u00e7\u00f5es estaduais. Ent\u00e3o, j\u00e1 havia um processo de degenera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica por parte da dire\u00e7\u00e3o nacional do partido.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os anos 1980 no Brasil eram anos de ascenso da luta de classes, com a reorganiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, mesmo que fora das diretrizes \u201crevolucion\u00e1rias\u201d, mas \u00e9 um momento de ascenso da luta de classes com as greves do ABC, os movimentos das Diretas J\u00e1, com a consolida\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT) ou da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT), como uma central sindical que se contrapunha \u00e0s pr\u00e1ticas burocr\u00e1ticas e pelegas das outras centrais que existiam. <\/p>\n<p>Todo um movimento de euforia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 extens\u00e3o de direitos \u2013 tanto \u00e9 que esse movimento que vai crescer nos anos 1990 \u2013 \u00e9 que impulsiona a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 ter sido t\u00e3o progressista, tendo em vista que, no restante do mundo, o que estava havendo era o contr\u00e1rio. J\u00e1 era um processo de regress\u00e3o tanto por conta do colapso que j\u00e1 vinha ocorrendo nos pa\u00edses socialistas, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e no Leste Europeu, mas tamb\u00e9m nos pa\u00edses capitalistas, com a implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo e da destrui\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo que existia de programas sociais-democr\u00e1ticos cl\u00e1ssicos dos partidos sociais-democratas cl\u00e1ssicos, como o Partido Trabalhista na Inglaterra ou os partidos comunistas e sociais-democratas europeus em geral.<\/p>\n<p>Por um lado, a dire\u00e7\u00e3o do PCB vem com uma ideia reformista e abandona a perspectiva revolucion\u00e1ria; e j\u00e1 passa a apoiar posturas eleitoreiras e de direita, e por outro lado, o movimento da classe trabalhadora est\u00e1 em ascens\u00e3o e \u00e9 capitaneado pelo PT, pela CUT e o MST, por exemplo, que foi fundado em 1984. E, ao mesmo tempo, o grande capital est\u00e1 impondo um retrocesso generalizado das pol\u00edticas e da luta de classes em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>Tudo isso vai culminar em 1988, com a Constitui\u00e7\u00e3o no Brasil, para a composi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Assembleia Nacional Constituinte, que n\u00e3o era nada progressista e mesmo assim foi obrigada pelo movimento de massas a se constituir, a ser institu\u00edda como uma constituinte progressista; nas elei\u00e7\u00f5es de 1989 e 1990, e, no interior do partido, o abandono completo da perspectiva comunista, marxista-leninista e revolucion\u00e1ria. O PCB, ent\u00e3o, naqueles moldes, dirigidos por aquela dire\u00e7\u00e3o traidora que abandonou a perspectiva revolucion\u00e1ria, sofre um colapso junto com o colapso dos pa\u00edses do Leste Europeu. No entanto, h\u00e1 uma base no PCB que n\u00e3o v\u00ea dessa forma. Que participa, inclusive, desse ascenso da luta de classes.<\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas que n\u00e3o est\u00e3o nas c\u00fapulas do movimento sindical e do pr\u00f3prio partido e nem dos gabinetes de deputados e vereadores que o PCB tinha naquele momento, que est\u00e3o nos sindicatos, pessoas que est\u00e3o participando da luta cotidiana da classe trabalhadora que est\u00e1 em ascens\u00e3o no Brasil. E essas pessoas v\u00e3o questionar: \u201cO que essa dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 fazendo? Isso n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade, a luta de classes n\u00e3o acabou, n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria\u201d. Mas n\u00e3o \u00e9 porque houve um processo de derrocada no Leste Europeu que o socialismo n\u00e3o \u00e9 uma perspectiva. Ent\u00e3o, essa base do partido se prop\u00f5e a resistir e a reorganizar o PCB. <\/p>\n<p>A gente tem que lembrar que, ao contr\u00e1rio de hoje, que n\u00f3s temos v\u00e1rias formas de comunica\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pidas, hoje \u00e9 muito f\u00e1cil achar qualquer pessoa em qualquer lugar, naquele tempo n\u00e3o era. N\u00e3o s\u00f3 porque como o PCB tinha vindo de um processo de clandestinidade muito duro, pouca gente conhecia o conjunto do partido no Brasil todo. Ent\u00e3o, a n\u00f3s que resistimos \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do PCB, no come\u00e7o, foi muito dif\u00edcil reorganizar o partido, porque a gente n\u00e3o sabia quem militava e quem queria continuar militando em outros lugares, por conta da caracter\u00edstica do nosso partido, de ter sido muito perseguido e ter um esquema de clandestinidade muito forte, e, por outro lado, tamb\u00e9m que os pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram t\u00e3o \u201cmodernos\u201d quanto hoje e eram muito caros. O m\u00e1ximo que a gente conseguia era fazer uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica de um estado para o outro e uma liga\u00e7\u00e3o interurbana era car\u00edssima \u2013 e a gente n\u00e3o tinha dinheiro.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o ficamos com estrutura, com dinheiro, com recursos, com nada. Mesmo assim, n\u00f3s conseguimos fazer essa reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que tem significado n\u00e3o s\u00f3 a manuten\u00e7\u00e3o do PCB como partido e como legenda, legalmente constitu\u00edda, que hoje pode disputar elei\u00e7\u00e3o inclusive, mas principalmente por reconstruir o programa pol\u00edtico revolucion\u00e1rio para a classe trabalhadora, a partir de uma leitura, uma an\u00e1lise da realidade concreta, da realidade brasileira, das fra\u00e7\u00f5es de classe, das contradi\u00e7\u00f5es internas, enfim, do que \u00e9 o Brasil e como e por que n\u00f3s precisamos fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil. Foi isso que n\u00f3s fizemos nesses \u00faltimos 30 anos e continuamos fazendo, at\u00e9 a gente conseguir fazer a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> Revista Badar\u00f3: O que voc\u00ea acha sobre a utiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201ccolapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d?  Voc\u00ea concorda que foi, de fato, um colapso, ou foi uma s\u00e9rie de acontecimentos? Al\u00e9m disso, durante esses 30 anos, do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica at\u00e9 hoje, voc\u00ea avalia que nos \u00faltimos cinco, sete anos, h\u00e1 um crescente interesse no marxismo, no socialismo e nessa ideia da revolu\u00e7\u00e3o, mais do que houve nas duas d\u00e9cadas anteriores?<\/p>\n<p>Na verdade, essa an\u00e1lise sobre os acontecimentos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, n\u00f3s n\u00e3o temos uma posi\u00e7\u00e3o fechada sobre isso. \u00c9 um processo sempre de estudo, de verifica\u00e7\u00e3o. Eu particularmente n\u00e3o vejo como um colapso moment\u00e2neo, vejo como um processo que vem de longa data, de n\u00e3o avan\u00e7ar com o que a gente acredita ser a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, que \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o coletiva cada vez mais coletiva dos processos produtivos, sociais, culturais, econ\u00f4micos e etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a partir do momento em que, por diversas raz\u00f5es \u2013 n\u00e3o estou nem julgando aqui se isso aquilo era necess\u00e1rio ou n\u00e3o \u2013 passa a ter uma centraliza\u00e7\u00e3o muito forte sobre as decis\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas, etc. e um descolamento com rela\u00e7\u00e3o a classe trabalhadora, quem est\u00e1 produzindo e a falta de correspond\u00eancia entre essas duas inst\u00e2ncias, isso j\u00e1 come\u00e7a a abrir fissuras na constru\u00e7\u00e3o do socialismo e \u00e9 pr\u00f3prio do capitalismo ter esse processo de aliena\u00e7\u00e3o entre o processo de decis\u00e3o e de execu\u00e7\u00e3o no trabalho, por exemplo. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, qual \u00e9 a diferen\u00e7a em ter um capitalismo institu\u00eddo, em que a classe trabalhadora simplesmente tem que trabalhar de forma alienada, e o que ocorreu na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica? Ent\u00e3o, eu acho que \u00e9 um processo longo, que merece uma an\u00e1lise, estudo bastante aprofundado, mas resumidamente, essa \u00e9 a quest\u00e3o que eu coloco.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao interesse n\u00e3o s\u00f3 ao marxismo, eu vejo sim, uma retomada do interesse do marxismo, mas acima de tudo, a retomada do interesse e da rea\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao comunismo. Porque muita gente logo que, aqui no Brasil, que a direita vai tomando forma e come\u00e7a a bater de forma muito acentuada no comunismo, muita gente passou a falar com a gente assim: \u201cNossa, cuidado agora, voc\u00eas v\u00e3o ser extintos, voc\u00eas v\u00e3o ser mortos\u201d. N\u00e3o, isso \u00e9 uma possibilidade, a  gente \u00e9 sempre bastante perseguido e morto quando o fascismo se instaura, mas por outro lado, eu j\u00e1 dizia isso h\u00e1 alguns anos. <\/p>\n<p>A dial\u00e9tica nos ensina uma coisa: quando se fala muito de forma equivocada e at\u00e9 mentirosa sobre o comunismo, faz tamb\u00e9m surgir a curiosidade de muitos do que \u00e9 o comunismo. Isso traz para a gente a oportunidade de dizer, de maneira clara, de maneira honesta, qual \u00e9 a proposta comunista, o que \u00e9 comunismo. \u00c9 at\u00e9 mais f\u00e1cil, \u00e0s vezes \u2013 n\u00e3o que eu queira nenhuma situa\u00e7\u00e3o de radicalidade \u2013 do que quando, por exemplo, a gente tem uma hegemonia reformista no pensamento, porque a\u00ed voc\u00ea n\u00e3o consegue brechas para colocar uma vis\u00e3o cr\u00edtica radical porque o reformismo \u00e9 como se desse conta, ou quisesse dar conta, de todas as quest\u00f5es e n\u00e3o desse espa\u00e7o para nenhum questionamento.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um primeiro elemento. O segundo elemento da ascens\u00e3o do interesse pelo comunismo, pelo marxismo e pela pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pr\u00f3prio colapso do capitalismo. \u00c9 a realidade concreta . Ent\u00e3o, hoje, quando sou entrevistada por diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa que perguntam e falam: \u201cAh, mas o comunismo n\u00e3o deu certo,o socialismo n\u00e3o deu certo\u201d, eu falo: \u201cPera\u00ed, de onde n\u00f3s estamos falando? N\u00f3s estamos falando de um modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista que absolutamente n\u00e3o deu certo mesmo\u201d. <\/p>\n<p>O que n\u00e3o deu certo \u00e9 o capitalismo e, como est\u00e1 cada vez mais evidente que o capitalismo n\u00e3o deu certo, basta a gente assistir, por exemplo, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Qualquer coisa de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u00c9 sempre um futuro dist\u00f3pico catastr\u00f3fico em que haja uma acentua\u00e7\u00e3o da diferencia\u00e7\u00e3o de classes sociais. \u00c9 sempre uma classe que est\u00e1 totalmente submetida \u00e0 mais terr\u00edvel barb\u00e1rie e uma classe dominante que \u00e9 ali a plutocracia, a concentra\u00e7\u00e3o brutal de todos os privil\u00e9gios. Por que estou falando de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica? Porque a arte, \u00e0s vezes, \u00e9 a capacidade de a gente imaginar o futuro. E o capitalismo \u00e9 t\u00e3o brutal que, na pr\u00f3pria arte, ele est\u00e1 incapacitando os artistas de imaginar o futuro. <\/p>\n<p>Todo futuro que os artistas conseguem imaginar \u00e9 o passado. Tudo que se pode imaginar em termos de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para o futuro \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o piorada do passado. E tem aquela famosa frase: \u201cHoje a humanidade consegue imaginar o fim do mundo, o apocalipse, mas n\u00e3o o fim do capitalismo\u201d. Ent\u00e3o eu acho que isso, essa situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica em que n\u00f3s vivemos, que \u00e9 colocada pelo capitalismo, isso est\u00e1 evidente e surge ou faz com que um conjunto grande, principalmente da juventude, comece a observar algumas coisas que foram produzidas l\u00e1 no s\u00e9culo XIX que estavam dizendo: \u201colha, n\u00f3s somos capazes de mudar isso e de produzir uma coisa diferente\u201d. A gente n\u00e3o precisa s\u00f3 imaginar o fim do mundo ou um futuro dist\u00f3pico e terr\u00edvel. A gente pode imaginar uma coisa boa, a gente pode pensar e imaginar coisas que sejam emancipadoras. Ent\u00e3o eu acho que isso tamb\u00e9m faz com que o interesse pelo marxismo, pela revolu\u00e7\u00e3o e pelo comunismo tenha ressurgido nos \u00faltimos anos. S\u00e3o esses dois elementos, talvez.<\/p>\n<p>Um fator marcante nas elei\u00e7\u00f5es deste ano \u00e9 essa aglutina\u00e7\u00e3o de diversos setores da pol\u00edtica em torno do Lula. Como voc\u00ea avalia a necessidade de uma candidatura pr\u00f3pria que apresenta pautas de mudan\u00e7as estruturais em um momento em que grande parte da esquerda, at\u00e9 alguns setores mais radicais, considera apoio pragm\u00e1tico \u00e0 chapa Lula-Alckmin logo no primeiro turno?<\/p>\n<p>Eu at\u00e9 entendo, mas n\u00e3o posso concordar. Primeiro pelo seguinte: n\u00f3s temos um processo eleitoral que \u00e9 em dois turnos. Ele \u00e9 em dois turnos justamente para permitir que as mais diversas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e programas pol\u00edtico-eleitorais ou programas pro pa\u00eds possam ser debatidos e disputados na sociedade. Quando a gente resume o processo eleitoral a um turno s\u00f3, tem que ganhar no primeiro turno a qualquer custo, n\u00f3s eliminamos o debate program\u00e1tico. Ent\u00e3o, por mais que cada candidato ou cada bloco de chapas fa\u00e7am as alian\u00e7as que quiserem \u2013 porque cada um tem o direito de fazer as alian\u00e7as e apoiar quem quiser \u2013 a grande quest\u00e3o que n\u00f3s estamos fazendo nesse processo de campanha eleitoral \u00e9 o seguinte: n\u00f3s vamos votar para presidente em qual programa? O que voc\u00ea prop\u00f5e? O seu candidato, a sua candidata, vai fazer o qu\u00ea pelo Brasil? Esse debate est\u00e1 praticamente interrompido neste momento. <\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que temos que derrotar Bolsonaro, estamos nesta luta muito antes, inclusive, do que setores que est\u00e3o com a chapa do Lula\u2026 ali\u00e1s, grandes parte dos setores da chapa do Lula ajudaram a eleger Bolsonaro e estavam apoiando Bolsonaro at\u00e9 ontem, mas alguns setores, por exemplo, o pr\u00f3prio PT e a CUT n\u00e3o sa\u00edram, n\u00e3o jogaram peso nas ruas para derrotar Bolsonaro quando a gente podia muito antes. Teria evitado inclusive muita morte e muita fome no Brasil, mas n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1, nessa luta. Agora, nesse momento em que n\u00f3s temos que pensar e colocar pra sociedade um debate pol\u00edtico sobre um programa para o futuro, essa posi\u00e7\u00e3o de resumir o processo eleitoral em apenas derrotar o Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 muito preocupante, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma carta branca, um cheque em branco, para quem derrotar o Bolsonaro nesse processo eleitoral; \u00e9 a pr\u00f3pria n\u00e3o derrota do Bolsonaro ou do bolsonarismo, porque grande parte das for\u00e7as que compunham esse bloco bolsonarista est\u00e3o apoiando o presidente Lula. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00f3s vemos com muita tranquilidade a necessidade de fazermos essa disputa eleitoral, colocando um programa, criticando a despolitiza\u00e7\u00e3o desse processo, chamando inclusive as for\u00e7as pol\u00edticas para virem com a gente debater programa e pautando, isto que eu acho importante: pautando lutas concretas que n\u00e3o sejam s\u00f3 defensivas, sejam lutas ofensivas pra classe trabalhadora. N\u00f3s temos que sair daquele local em que n\u00f3s estamos eternamente falando: \u201cn\u00e3o \u00e0 reforma previdenci\u00e1ria, n\u00e3o \u00e0 reforma trabalhista, n\u00e3o \u00e0 PEC do teto de gastos, n\u00e3o \u00e0 reforma do ensino m\u00e9dio\u201d e tudo isso t\u00e1 vindo pra cima da gente. Quer dizer, n\u00f3s estamos na defensiva, n\u00f3s estamos numa posi\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito confort\u00e1vel para a classe dominante, para a burguesia. \u00c9 deixar a gente sempre encostado nas cordas e apanhando o tempo todo, sendo derrotado o tempo todo. O que n\u00f3s  estamos propondo agora \u00e9 ir pra ofensiva. \u00c9 l\u00f3gico que n\u00f3s pretendemos revogar a reforma trabalhista, as reformas previdenci\u00e1rias, as privatiza\u00e7\u00f5es, a Lei do Teto de Gastos, a Lei do Ensino M\u00e9dio. <\/p>\n<p>Tudo isso faz parte do nosso programa pol\u00edtico-eleitoral, mas n\u00f3s queremos outra coisa, n\u00f3s queremos redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para 30 horas semanais sem redu\u00e7\u00e3o salarial, n\u00f3s queremos acabar com a terceiriza\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o p\u00fablico e concurso p\u00fablico, j\u00e1! Amplia\u00e7\u00e3o dos concursos p\u00fablicos. N\u00f3s queremos o fim da pol\u00edtica de austeridade fiscal, colocar estas quest\u00f5es \u00e9 colocar a burguesia nas cordas, porque agora \u00e9 ela que vai ter que dizer n\u00e3o, \u00e9 ela que vai ter que se proteger, \u00e9 ela que tem que ficar na defensiva. E o mais interessante de tudo \u00e9 que, quando a gente coloca essas pautas no debate, n\u00f3s mobilizamos um conjunto da classe trabalhadora que n\u00e3o est\u00e1 organizada, que foi apassivada, que est\u00e1 desacreditada e que eventualmente at\u00e9 votou no Bolsonaro, mas que v\u00ea ali um motivo pelo qual eu tenho que sair \u00e0s ruas. Eu tenho que sair \u00e0s ruas n\u00e3o por uma defesa abstrata da democracia, n\u00e3o por uma defesa abstrata de um Estado de Direito, eu tenho que sair \u00e0s ruas porque eu preciso viver, e pra viver eu tenho que reduzir a minha jornada de trabalho. Eu preciso sair \u00e0s ruas porque eu preciso de um SUS, e para ter o SUS, tem que ter concurso p\u00fablico para os profissionais do SUS. Ent\u00e3o, esse momento \u00e9 importante por isso.<\/p>\n<p>Dentro do pacto de concilia\u00e7\u00e3o de classes, uma das cr\u00edticas existentes tanto aos governos Lula quanto aos governos Dilma, vem justamente no sentido de um presidencialismo de coaliz\u00e3o e muitas vezes a ret\u00f3rica de que n\u00e3o conseguiu governar, n\u00e3o p\u00f4de aprovar tal pauta\u2026 E quando voc\u00ea prop\u00f5e uma s\u00e9rie de pautas radicais, no sentido de ir \u00e0 raiz de certos problemas estruturais, como voc\u00ea v\u00ea essa quest\u00e3o de em uma eventual vit\u00f3ria, de bater com um legislativo que \u00e9 composto por camadas reacion\u00e1rias? Por exemplo, a gente v\u00ea em outros casos \u2013 obviamente que cada realidade hist\u00f3rico-concreta tem as suas determina\u00e7\u00f5es \u2013, quando o Allende ganhou, ele governava por decreto e conseguia passar certas pautas, mas existem possibilidades de chamar as pessoas para a rua. Eu gostaria que voc\u00ea comentasse um pouco das t\u00e1ticas e das estrat\u00e9gias, que eu sei que o programa apresenta, que busca fugir dessa ret\u00f3rica de \u201cn\u00e3o aprovou, n\u00e3o deu\u201d.<\/p>\n<p>Certo, veja bem, quando voc\u00ea encabe\u00e7a um programa pol\u00edtico de uma classe especificamente, voc\u00ea n\u00e3o pode jogar o jogo no terreno do inimigo. Fazer o jogo no terreno da concilia\u00e7\u00e3o com o legislativo, ou como eu digo, no balc\u00e3o de neg\u00f3cios do Congresso Nacional, \u00e9 perder a partida de sa\u00edda. De sa\u00edda, voc\u00ea j\u00e1 perdeu a partida. Ent\u00e3o, ou voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 comprometido com os interesses da classe trabalhadora de fato, ou voc\u00ea t\u00e1 completamente enganado e n\u00e3o aprendeu com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 a\u00ed que a gente ganha o jogo. N\u00e3o t\u00f4 nem dizendo ganhar, n\u00e9. Eu t\u00f4 dizendo avan\u00e7ar as nossas pe\u00e7as no tabuleiro. E por que que eu t\u00f4 dizendo isso? Porque aquele ascenso da luta de classes que eu falei nos anos 1980, que inclusive deu origem ao PT e \u00e0 CUT, foi esse ascenso que obrigou o Congresso Nacional e a Assembleia Nacional Constituinte a colocar, na Constitui\u00e7\u00e3o, o SUS como uma pol\u00edtica universal de sa\u00fade. <\/p>\n<p>Foi aquele ascenso que obrigou a colocar na Constitui\u00e7\u00e3o uma s\u00e9rie de direitos econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos e n\u00e3o foi numa negocia\u00e7\u00e3o no Congresso. Porque o Congresso na \u00e9poca tinha no m\u00e1ximo, eu n\u00e3o me lembro direito, mas uns seis ou sete deputados constituintes do PT, acho que uns tr\u00eas do PCB e mais quatro ou cinco tradicionais trabalhistas, brizolistas, de fato de esquerda. O resto era de centro-direita, era mais ou menos a mesma coisa que a gente tem hoje. Na verdade, hoje a gente teria at\u00e9 mais for\u00e7a porque a gente tem talvez uns 100 e poder\u00edamos contar com eles, porque se dizem comprometidos com a classe trabalhadora. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, veja, se n\u00f3s est\u00e1vamos pensando em ter uma constitui\u00e7\u00e3o com a representa\u00e7\u00e3o na Assembleia Nacional Constituinte, era mais f\u00e1cil esperar uma constitui\u00e7\u00e3o fascista e n\u00e3o essa, chamada de Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3. Ent\u00e3o a hist\u00f3ria nos ensina que se n\u00f3s temos uma classe trabalhadora organizada, consciente dos seus interesses, mobilizada e independente, com independ\u00eancia e autonomia de governos, a gente consegue ampliar os direitos e consegue avan\u00e7ar nessa luta pol\u00edtica por um programa que n\u00f3s estamos colocando, que \u00e9 um programa t\u00e1tico. Agora, \u00e9 evidente que isso n\u00e3o \u00e9 um programa estrat\u00e9gico e nem a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>A\u00ed, a gente precisa ter n\u00e3o s\u00f3 uma classe trabalhadora organizada, mobilizada e pressionando as mobiliza\u00e7\u00f5es, como a gente tem que constituir o que n\u00f3s chamamos de poder popular, que \u00e9 uma estrutura de poder paralelo, pra se conformar uma dualidade de poder que coloque em xeque o poder da burguesia sobre o Estado. Voc\u00ea falou do processo do Allende. Por mais que tenha governado por decreto, ele tinha uma mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, ele tinha uma organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Tanto que ele n\u00e3o foi derrotado no Congresso chileno, n\u00e3o foi derrotado nas elei\u00e7\u00f5es. Ele sofreu um golpe militar financiado pelos Estados Unidos, patrocinado pelos Estados Unidos. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu penso que a gente n\u00e3o pode colocar o governo chileno como exemplo de por que temos que ceder espa\u00e7o no Congresso Nacional. O Allende n\u00e3o foi derrotado pelo Congresso, ele avan\u00e7ou tanto naquilo que se prop\u00f4s \u2013 e com uma classe trabalhadora organizada \u2013 que eles tiveram que sofrer uma derrota militar, que custou as vidas de mais de 30 mil pessoas. Aquilo foi uma guerra civil, num processo revolucion\u00e1rio, em que n\u00f3s perdemos. Mas faz parte da hist\u00f3ria, \u00e0s vezes a gente ganha, \u00e0s vezes perde. \u00c9 como se os bolcheviques tivessem perdido a guerra civil que ocorreu logo ap\u00f3s a tomada do poder, em 1917. Por sorte, os bolcheviques venceram a guerra civil. Na Comuna de Paris, os communards perderam tamb\u00e9m, foram milhares de mortos.<\/p>\n<p>Quando a social-democracia rebaixada ou esse projeto de concilia\u00e7\u00e3o de classes coloca, para a classe trabalhadora, que a \u00fanica arena poss\u00edvel de se fazer a disputa \u00e9 a do inimigo, ela j\u00e1 est\u00e1 derrotada. E n\u00e3o \u00e9 nessa arena que n\u00f3s nos estamos propondo a governar. E estamos disputando para ganhar a elei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que estamos disputando aqui por proselitismo ou por propaganda pol\u00edtica, porque na nossa arena, a gente tem vit\u00f3rias tamb\u00e9m. Por exemplo, neste ano mesmo, os povos ind\u00edgenas conseguiram frear o julgamento do Marco Temporal. E n\u00e3o foi uma negocia\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional, nem no Judici\u00e1rio. Foi com uma imensa mobiliza\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas armados, na Esplanada dos Minist\u00e9rios, dizendo: \u201cn\u00e3o vamos admitir Marco Temporal, nem que precisemos ir para guerra\u201d. E eles estavam ali armados e pintados para guerra. <\/p>\n<p>O Marco Temporal, ent\u00e3o, n\u00e3o foi aprovado. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que nos inspirar nessas pr\u00e1ticas e mostrar como \u00e9 que vai ser nosso governo. Essas pautas que estamos colocando agora, como parte do nosso programa, v\u00e3o ser aprovadas com a classe trabalhadora armada e preparada para a guerra, para que isso seja implementado.<\/p>\n<p>Muitos grupos de centro-esquerda, at\u00e9 jovens, ficam muito nesse discurso de que a gente n\u00e3o consegue governar, ent\u00e3o pensar na for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais da classe trabalhadora \u00e9 extremamente interessante para pensar na democratiza\u00e7\u00e3o do Estado. A poss\u00edvel supera\u00e7\u00e3o, mas antes pensar em inst\u00e2ncias mais democr\u00e1ticas. Al\u00e9m da sua candidatura, h\u00e1 outra que tamb\u00e9m \u00e9 marxista, a da Unidade Popular. Gostaria que voc\u00ea pontuasse as principais diferen\u00e7as no programa, e que comentasse se houve um di\u00e1logo sobre uma candidatura conjunta ou se isso nunca foi um debate.<\/p>\n<p>Houve sim, temos muita proximidade, nossos programas t\u00eam muita similaridade. Temos muito apre\u00e7o, muita amizade pelas candidaturas da UP. Pelo L\u00e9o P\u00e9ricles, estivemos juntos nos lan\u00e7amentos m\u00fatuos das nossas pr\u00e9-candidaturas e candidaturas, mas avaliamos, de nossa parte, que neste momento hist\u00f3rico seria mais interessante n\u00f3s termos duas candidaturas, que falem com muito mais gente, que possam organizar muito mais trabalhadoras e trabalhadores, do que centralizar isso numa figura s\u00f3. <\/p>\n<p>Porque o momento eleitoral \u00e9 o momento em que a classe trabalhadora est\u00e1 mais aberta a discutir pol\u00edtica. Tanto n\u00f3s como a UP n\u00e3o temos recursos, n\u00e3o temos dinheiro, temos um bloqueio da m\u00eddia hegem\u00f4nica, n\u00e3o temos tempo de televis\u00e3o. Portanto, n\u00f3s temos uma dificuldade muito grande de acessar um conjunto mais amplo da classe trabalhadora. E por isso, n\u00f3s n\u00e3o vemos problema em fazer isso com duas candidaturas, que t\u00eam programas muito parecidos, porque n\u00f3s estamos falando com mais gente. <\/p>\n<p>Muita gente cobra: \u201cah, por que a esquerda n\u00e3o se une?\u201d. Gente, a esquerda est\u00e1 unida! A esquerda revolucion\u00e1ria est\u00e1 unida, n\u00f3s estamos nas ruas e nas brigas juntos, o tempo todo. N\u00f3s disputamos os sindicatos muitas vezes nas mesmas chapas, os DCEs nas mesmas chapas, constru\u00edmos as mobiliza\u00e7\u00f5es em conjunto. Agora, neste momento, n\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o, ou uma quest\u00e3o de diverg\u00eancias profundas \u2013 como temos com outras for\u00e7as pol\u00edticas \u2013 estarmos separados. Muito pelo contr\u00e1rio, acreditamos que, dessa forma, falamos com mais gente. Se fosse s\u00f3 eu a candidata, com apoio da UP, ou s\u00f3 o L\u00e9o com apoio do PCB, ter\u00edamos menos espa\u00e7o ainda do que n\u00f3s j\u00e1 temos.<\/p>\n<p>Vamos ler uma pergunta enviada pelos militantes do PCB aqui do MS: No discurso hegem\u00f4nico, o agroneg\u00f3cio \u00e9 vendido como pilar fundamental e indiscut\u00edvel da economia, enquanto se oculta os danos causados por esse modelo. Em Mato Grosso do Sul, estado s\u00edmbolo do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do agroneg\u00f3cio, o debate da terra para quem realmente trabalha nela se faz central. Qual sua concep\u00e7\u00e3o sobre os caminhos para enfrentar a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e a especializa\u00e7\u00e3o produtiva?<\/p>\n<p>Se eu puder fazer uma propagandinha, no lan\u00e7amento da nossa candidatura na USP, eu fiz uma interven\u00e7\u00e3o bastante longa sobre o papel do agroneg\u00f3cio, come\u00e7ando por dizer o seguinte: \u201cagro, a ind\u00fastria da pobreza do Brasil\u201d. Eu acho que \u00e9 essa a frase que a gente tem que estampar em nossas camisetas. <\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 danoso pro meio ambiente e para as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, mas em todos os sentidos: ele \u00e9 o respons\u00e1vel pela desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, pela pol\u00edtica macroecon\u00f4mica do pa\u00eds; ele pouco contribui ou contribui quase nada com a tributa\u00e7\u00e3o, porque o ITR (Imposto Territorial Rural), pago por todas as propriedades rurais do pa\u00eds inteiro, corresponde ao IPTU da cidade de S\u00e3o Paulo; ent\u00e3o o agro n\u00e3o \u00e9 taxado, n\u00e3o paga ICMS para exportar, e isso faz com que os estados que s\u00e3o muito fortes no agro t\u00eam baixa arrecada\u00e7\u00e3o fiscal por causa disso \u2013 na verdade eles s\u00f3 n\u00e3o t\u00eam uma menor porque o governo federal compensa com transfer\u00eancia de recursos \u2013 e mais, o agro \u00e9 danoso pra pol\u00edtica, porque ele domina o Congresso Nacional; a ci\u00eancia e tecnologia, em vez de estarmos pesquisando o sistema de agroflorestas, org\u00e2nicos, a gente est\u00e1 pesquisando venenos, transg\u00eanicos, herbicidas, esses produtos t\u00f3xicos. <\/p>\n<p>O agro \u00e9 respons\u00e1vel pelo crime, porque quando se mata um ind\u00edgena em Amambai, ou quando se assassina ou se tenta expulsar de suas terras origin\u00e1rias os patax\u00f3, no Sul da Bahia, quem promove isso \u00e9 o agro. N\u00e3o \u00e9 o pistoleiro que est\u00e1 ali na ponta. O agro \u00e9 respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o cultural. O que n\u00f3s temos hoje dessa produ\u00e7\u00e3o cultural, dessa mercadoria de baix\u00edssima qualidade, \u00e9 responsabilidade financiada pelo agroneg\u00f3cio, que impede inclusive que as express\u00f5es genu\u00ednas e aut\u00eanticas de nosso povo na m\u00fasica seja incentivada, produzida e disseminada no pa\u00eds. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o o agroneg\u00f3cio \u00e9 um dos setores centrais da nossa campanha e n\u00f3s defendemos que qualquer tipo de pol\u00edtica macroecon\u00f4mica, de ci\u00eancia e tecnologia, cultural ou mesmo de combate \u00e0 viol\u00eancia, tem que passar pelo enfrentamento radical ao agroneg\u00f3cio. Por isso, n\u00f3s defendemos uma s\u00e9rie de medidas. Desde uma reforma agr\u00e1ria popular que tome as terras do agroneg\u00f3cio, que foram terras griladas, invadidas, todas essas terras que n\u00e3o os pertencem e que est\u00e3o sendo expandidas dessa forma. <\/p>\n<p>Mas mais do que isso, a demarca\u00e7\u00e3o imediata das terras ind\u00edgenas reivindicadas como origin\u00e1rias e n\u00e3o somente a partir do Marco Temporal; a institui\u00e7\u00e3o de parques de preserva\u00e7\u00e3o nacional em regi\u00f5es necess\u00e1rias para preserva\u00e7\u00e3o de nascentes de \u00e1gua, de recupera\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es, n\u00e3o necessariamente no bioma amaz\u00f4nico, mas em todos os biomas que est\u00e3o sendo devastados pelo agroneg\u00f3cio. <\/p>\n<p>Nomeadamente o Cerrado, mas tamb\u00e9m a Caatinga, a Mata de Cocais no norte do Maranh\u00e3o, a Mata Atl\u00e2ntica, mas al\u00e9m disso, uma revers\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica para que o agroneg\u00f3cio pague imposto, seja tributado, para que haja uma diversifica\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, com o estado comprando alimentos da produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar, para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o sistema hospitalar, escolar e para a constru\u00e7\u00e3o de restaurantes populares que retirem, das tarefas femininas, a tarefa reprodutiva de fazer comida todos os dias. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos um programa bem estruturado que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de mudar a matriz econ\u00f4mica ou de reindustrializar o pa\u00eds, mas de mudar o papel desta classe, desse setor da classe dominante \u2013 que \u00e9 o setor do agroneg\u00f3cio \u2013 e coloc\u00e1-lo em posi\u00e7\u00e3o defensiva.<\/p>\n<p>E a\u00ed, puxando um gancho sobre a quest\u00e3o da cultura, h\u00e1 uma fala do Gilberto Gil, que at\u00e9 se popularizou nesses tempos na internet, em que ele fala sobre como a cultura deveria ser uma necessidade b\u00e1sica, assim como o feij\u00e3o e arroz. O Minist\u00e9rio da Cultura, ap\u00f3s 33 anos de exist\u00eancia, foi extinto no primeiro dia do governo de Jair Bolsonaro. Qual a sua proposta para o incentivo e democratiza\u00e7\u00e3o da cultura?<\/p>\n<p>Primeiro, dizer que todo governo fascista precisa matar aquilo que \u00e9 a express\u00e3o mais humana de todos n\u00f3s, que \u00e9 a arte, a cultura. Porque o fascismo precisa nos animalizar, ele precisa nos desumanizar para nos governar. Ent\u00e3o ele tem que matar nossa cultura, nossa ci\u00eancia, o saber, e nos colocar na situa\u00e7\u00e3o de seres irracionais, seguidores \u2013 como manadas \u2013 de seitas e coisas desse tipo. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil entender por que Bolsonaro extingue n\u00e3o s\u00f3 o Minist\u00e9rio da Cultura, mas por exemplo, retira tanto recurso da ci\u00eancia e tecnologia, das universidades, da educa\u00e7\u00e3o em geral. Por outro lado, nosso programa prev\u00ea um financiamento p\u00fablico com recursos suficientes na ordem de 1% do or\u00e7amento \u2013 porque hoje a cultura \u00e9 0,001% \u2013 para a cultura, no entanto, com uma estrutura de democratiza\u00e7\u00e3o como voc\u00ea diz, para que esses recursos p\u00fablicos n\u00e3o sejam direcionados apenas \u00e0 ind\u00fastria cultural como eram os moldes da Lei Rouanet. Porque para um projeto cultural aut\u00eantico, comunit\u00e1rio, da classe trabalhadora acessar o recurso da Lei Rouanet, era uma dificuldade t\u00e3o grande que s\u00f3 grandes escrit\u00f3rios especializados \u2013 e que j\u00e1 faziam parte da ind\u00fastria cultural \u2013 conseguiam acessar esses recursos. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como \u00e9 que se faz isso, n\u00e9? Com pol\u00edticas p\u00fablicas que identifiquem nos territ\u00f3rios as manifesta\u00e7\u00f5es culturais pr\u00f3prias da classe trabalhadora, da juventude trabalhadora, e incentiva a partir dali essa produ\u00e7\u00e3o cultural, e n\u00e3o como muitas vezes foi feito, inclusive em governo petista, ao n\u00edvel municipal, que \u00e9 pegar o recurso, por exemplo, de uma secret\u00e1ria de cultura municipal e dar esse recurso\u2026 entender que incentivar a cultura \u00e9 dar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pobre dinheiro para consumir cultura. <\/p>\n<p>Isso foi muito triste, por exemplo, em S\u00e3o Paulo, quando se viu que se pegou dinheiro da Secretaria Municipal de Cultura e ao inv\u00e9s de fomentar a produ\u00e7\u00e3o cultural na periferia, transferia esse dinheiro para ONGs ou determinadas organiza\u00e7\u00f5es \u2013 muitas vezes n\u00e3o estatais, de direito privado \u2013 para que essas ONGs organizassem excurs\u00f5es da periferia para os shoppings centers, para que as crian\u00e7as pudessem assistir blockbuster hollywoodianos de baix\u00edssima qualidade. Isso n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica cultural. Isso \u00e9 uma pol\u00edtica de consumo de uma mercadoria de baixo n\u00edvel, de baixa qualidade. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o nosso programa \u00e9 um programa que coloque recursos na produ\u00e7\u00e3o aut\u00eantica das popula\u00e7\u00f5es, da juventude trabalhadora, para produzir cultura. A forma como essa cultura ser\u00e1 disseminada, massificada, tamb\u00e9m \u00e9 papel do Estado para que ela n\u00e3o seja mercantilizada. Para que ela tenha um acesso universal de todas e todos, que ela possa ouvir um hip-hop em um determinado lugar; uma m\u00fasica produzida por uma comunidade ind\u00edgena de Amambai; um frevo produzido por uma comunidade pernambucana. Enfim, as formas aut\u00eanticas pr\u00f3prias deste momento hist\u00f3rico na produ\u00e7\u00e3o cultural com um financiamento p\u00fablico adequado.<\/p>\n<p>Sofia, a gente estava falando de cultura; e os aparatos est\u00e9ticos e comunicacionais no capitalismo est\u00e3o na m\u00e3o da burguesia. Isso \u00e9 um fato. Um dos debates que sempre entra em quest\u00e3o quando falamos disso, ainda mais contemporaneamente, com a quest\u00e3o da \u201cplataformiza\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 e a gente est\u00e1 sempre buscando operar em plataformas que n\u00e3o s\u00e3o nossas, como Google e YouTube \u2013, mas tamb\u00e9m pensando nos grandes conglomerados de m\u00eddia, qual \u00e9 a vis\u00e3o que o seu programa tem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e essa conglomera\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica? <\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o hist\u00f3rica das for\u00e7as democr\u00e1ticas, principalmente quando estamos falando de r\u00e1dio e televis\u00e3o e tamb\u00e9m podemos estender isso para a internet. S\u00e3o concess\u00f5es p\u00fablicas, s\u00e3o espa\u00e7os p\u00fablicos concedidos \u00e0 iniciativa privada e que, portanto, devem ter uma fun\u00e7\u00e3o social. <\/p>\n<p> Neste sentido, o nosso programa \u2013 como \u00e9 um programa que j\u00e1 \u00e9 bastante antigo na esquerda, n\u00e3o s\u00f3 na esquerda revolucion\u00e1ria, mas tamb\u00e9m na esquerda democr\u00e1tica \u2013 o processo de democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia \u00e9 important\u00edssimo e vital para desbloquear, inclusive, o pr\u00f3prio debate pol\u00edtico, bloqueado pelo capital e pela grande m\u00eddia. E isso n\u00e3o \u00e9 censura ou restri\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade de imprensa. Muito pelo contr\u00e1rio, quem censura e faz restri\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade s\u00e3o, hoje, os grandes conglomerados de m\u00eddia. Ent\u00e3o, no nosso governo, n\u00f3s iremos operar um programa de democratiza\u00e7\u00e3o com o controle dos trabalhadores. E a partir do Estado, das concess\u00f5es p\u00fablicas de r\u00e1dio, TV e dos espa\u00e7os digitais, que tamb\u00e9m fazem parte do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Recentemente, temos visto mobiliza\u00e7\u00f5es em resposta ao discurso golpista de Bolsonaro que n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m da defesa do chamado Estado democr\u00e1tico de Direito e incluem tamb\u00e9m setores \u00e0 direita, como o caso da Carta aos Brasileiros, que chama de \u201cmestre de todos n\u00f3s\u201d o integralista Goffredo Telles da Silva. Gostaria que voc\u00ea comentasse sobre os limites desses movimentos e os caminhos para superar a defesa da democracia burguesa.<\/p>\n<p>Veja s\u00f3, superar a democracia burguesa \u00e9 construir a democracia popular, a democracia da classe. \u00c9 reorganizar a classe trabalhadora no poder popular. \u00c9 assim que a gente de fato supera a democracia burguesa. No entanto, vivemos um momento em que n\u00f3s estamos com amplas possibilidades de futuro imediato. N\u00f3s podemos ver um processo de r\u00e1pida ascens\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e ao ascenso do movimento de massas, n\u00f3s podemos ver uma reedi\u00e7\u00e3o da concilia\u00e7\u00e3o de classe no molde ainda mais rebaixado que tivemos de 2003 a 2014 ou n\u00f3s podemos ter um processo de golpe. Ent\u00e3o, temos que trabalhar tamb\u00e9m com tr\u00eas cen\u00e1rios poss\u00edveis e nos proteger dentro dos limites m\u00e1ximos que conseguimos de extens\u00e3o, inclusive da democracia burguesa. N\u00e3o \u00e9 interesse da classe trabalhadora e de quem quer que seja, que esteja politicamente lutando por ela, um fechamento democr\u00e1tico no pa\u00eds. N\u00e3o pode ser interesse, porque qualquer golpe ou qualquer restri\u00e7\u00e3o \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas burguesas no pa\u00eds \u00e9 uma derrota de d\u00e9cadas para o pequeno avan\u00e7o que a classe trabalhadora pode ter. Portanto, n\u00f3s n\u00e3o somos aliados de setores liberais burgueses na defesa da democracia institucional, mas n\u00f3s na defesa desse espa\u00e7o, temos que aceitar que eles sejam nossos aliados. E n\u00e3o n\u00f3s sermos os aliados deles.<\/p>\n<p>Muito se fala sobre superar o Bolsonaro como se essa vit\u00f3ria nas urnas bastasse. Eu queria entender qual a sua vis\u00e3o, para al\u00e9m do que j\u00e1 foi dito, de como superar o bolsonarismo. Reconhecendo que n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil, considerando o estrago brutal feito durante seu mandato. E entender, tamb\u00e9m, esse estrago como uma consequ\u00eancia do neoliberalismo que n\u00e3o se inicia no governo de Jair Bolsonaro \u2013 \u00e0s vezes falam como se os governos petistas tivessem sido um para\u00edso na terra. \u00c0s vezes parecem esquecer que os mandatos do PT foram mandatos de concilia\u00e7\u00e3o de classe. O Lula, em diversos momentos, se vende como o presidente que mais agradou os banqueiros e per\u00edodo em que os bancos mais lucraram. Para al\u00e9m de superar Jair Bolsonaro nas urnas, como superar o bolsonarismo pol\u00edtica e economicamente? <\/p>\n<p>O bolsonarismo e o Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um raio em c\u00e9u azul. Ele \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, que vem de antes. O neoliberalismo est\u00e1 no Brasil desde a d\u00e9cada de 1990 e n\u00e3o foi interrompido durante o governo Lula. Pelo contr\u00e1rio, foram implementadas diversas pol\u00edticas que contribu\u00edram ainda mais para a consolida\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. Para superar o Bolsonaro e o bolsonarismo, \u00e9 necess\u00e1rio entender quais s\u00e3o as fra\u00e7\u00f5es burguesas que sustentam tanto o neoliberalismo quanto Bolsonaro e o bolsonarismo. <\/p>\n<p>S\u00e3o duas as fra\u00e7\u00f5es burguesas: uma \u00e9 o agroneg\u00f3cio e a outra \u00e9 o mercado financeiro. Ent\u00e3o, para superarmos Bolsonaro e o bolsonarismo teremos que enfrentar essas duas fra\u00e7\u00f5es. Qualquer candidato que n\u00e3o abrir m\u00e3o do apoio e ades\u00e3o do agroneg\u00f3cio e do mercado financeiro, ele n\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de enfrentar o fascismo que se instala no Brasil. Ele ir\u00e1 trabalhar apenas para ter um presidente ou um corpo de ministro que sabe comer com garfo e faca, e que n\u00e3o envergonhe tanto o pa\u00eds internacionalmente. <\/p>\n<p>Contudo, ir\u00e1 no m\u00e1ximo fazer alguns anteparos marginais naquilo que \u00e9 muito horroroso no nosso pa\u00eds, mas n\u00e3o ir\u00e1 estancar o problema de fundo. Al\u00e9m disso, um governo desse molde tamb\u00e9m serve para apaziguar a pr\u00f3pria luta de classes. A continuidade de um governo bolsonarista pode levar a uma explos\u00e3o social descontrolada. Sem controle, sem comando. O que se faz ent\u00e3o? Coloca-se um governo que consiga frear esse descontrole, mas que n\u00e3o mude estrategicamente de dire\u00e7\u00e3o na condu\u00e7\u00e3o dos interesses das fra\u00e7\u00f5es de classe dominante. Como se faz, ent\u00e3o, para superar isso? Enfrentando essas fra\u00e7\u00f5es e  colocando para a classe trabalhadora quais s\u00e3o as bandeiras de luta imediata para enfrentar. <\/p>\n<p>Como se enfrenta o desemprego no Brasil? Com a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalhadora para 30 horas semanais sem a redu\u00e7\u00e3o salarial. Como se enfrenta a fome no Brasil? Com reforma agr\u00e1ria. Como enfrentaremos a precariza\u00e7\u00e3o do SUS e da educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds? Com concurso p\u00fablico. Agora se a gente n\u00e3o coloca essas quest\u00f5es na boca do povo e fa\u00e7a o povo se empolgar e se organizar, e fica com medo de desagradar, ou melhor, escolhe a arena de luta \u2013 que \u00e9 a arena de luta da classe dominante, n\u00f3s vamos produzir um novo bolsonarismo mais r\u00e1pido do que a gente imagina.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"aeT0o7Jxrv\"><p><a href=\"https:\/\/www.revistabadaro.com.br\/2022\/08\/31\/badaro-entrevista-sofia-manzano-candidata-a-presidencia-da-republica\/\">Badar\u00f3 entrevista Sofia Manzano, candidata \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Badar\u00f3 entrevista Sofia Manzano, candidata \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica&#8221; &#8212; Revista Badar\u00f3\" src=\"https:\/\/www.revistabadaro.com.br\/2022\/08\/31\/badaro-entrevista-sofia-manzano-candidata-a-presidencia-da-republica\/embed\/#?secret=qDUbOLd2BM#?secret=aeT0o7Jxrv\" data-secret=\"aeT0o7Jxrv\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29226\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Revista Badar\u00f3 entrevista Sofia Manzano, candidata \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[222],"class_list":["post-29226","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Bo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29226"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29226\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}