{"id":29228,"date":"2022-09-09T13:07:43","date_gmt":"2022-09-09T16:07:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29228"},"modified":"2022-09-11T18:51:05","modified_gmt":"2022-09-11T21:51:05","slug":"crise-alimentar-no-mundo-o-capitalismo-e-o-culpado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29228","title":{"rendered":"Crise alimentar no mundo: o capitalismo \u00e9 o culpado"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-95.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Um novo relat\u00f3rio da ONU confirma que a escassez global n\u00e3o \u00e9 simplesmente resultado da guerra entre dois grandes produtores de gr\u00e3os, mas sim das pr\u00e1ticas de longa data de acumula\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Por Bert Schouwenburg | Morning Star \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Marin para a Revista Opera<\/p>\n<p>Atendendo a um pedido da reuni\u00e3o plen\u00e1ria das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 16 de dezembro de 2021, o relator especial sobre o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, Michael Fakhiri, apresentou um relat\u00f3rio provis\u00f3rio \u00e0 assembleia geral que inclui uma an\u00e1lise das quest\u00f5es emergentes da pandemia de Covid-19 e seu impacto na seguran\u00e7a alimentar e nutricional.<\/p>\n<p>Em seu resumo, ele afirma que h\u00e1 uma crise alimentar, mas a maioria dos governos nacionais n\u00e3o deu uma resposta internacional substantiva a ela. Seu relat\u00f3rio destaca as restri\u00e7\u00f5es estruturais e descreve como uma transi\u00e7\u00e3o justa para a agroecologia poderia ser um caminho a seguir.<\/p>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio de Fakhiri, a fome vem crescendo desde 2015. Em 2021, entre 702 e 828 milh\u00f5es de pessoas foram afetadas por ela, 103 milh\u00f5es a mais do que durante o per\u00edodo de 2019 a 2020, e 46 milh\u00f5es a mais do que em 2020.<\/p>\n<p>A desigualdade de g\u00eanero na seguran\u00e7a alimentar, que j\u00e1 vinha crescendo em 2020, se expandiu ainda mais de 2020 a 2021, estimulada especialmente por diferen\u00e7as nas regi\u00f5es da \u00c1sia, Am\u00e9rica Latina e Caribe. Em 2021, 31,9% das mulheres estavam em inseguran\u00e7a alimentar moderada ou grave, em compara\u00e7\u00e3o com 27,6% dos homens.<\/p>\n<p>A desigualdade aumentou acentuadamente durante a pandemia de Covid-19, com a riqueza de bilion\u00e1rios e os lucros de corpora\u00e7\u00f5es subindo a n\u00edveis recordes, particularmente no setor alimentar, onde os ganhos estavam aumentando na ordem de 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares a cada dois dias. Em 2021, a multinacional de com\u00e9rcio de alimentos Cargill obteve quase 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em lucro l\u00edquido, seu maior super\u00e1vit em 156 anos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A pandemia da fome pode ser atribu\u00edda ao fracasso da governan\u00e7a global. N\u00e3o \u00e9 apenas um problema de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m um desafio aos direitos humanos, cujo impacto \u00e9 determinado por uma lideran\u00e7a fraca, desigualdade socioecon\u00f4mica, racismo sist\u00eamico e discrimina\u00e7\u00f5es estruturais.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia trouxe \u00e0 tona a quest\u00e3o dos alimentos, j\u00e1 que 26 pa\u00edses t\u00eam ao menos 50% de suas importa\u00e7\u00f5es de trigo provenientes dos dois estados em guerra. Apesar disso, a subida nos pre\u00e7os dos gr\u00e3os e no \u00f3leo de cozinha n\u00e3o \u00e9 resultado da escassez em si, mas sim de acumuladores, comerciantes e especuladores se aproveitando da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o principal para que o mundo esteja vivendo uma crise alimentar \u00e9 a recusa em cooperar e coordenar esfor\u00e7os para aliviar seus efeitos, o que permite em seu lugar a crescente influ\u00eancia do agroneg\u00f3cio e da especula\u00e7\u00e3o de commodities.<\/p>\n<p>De fato, o agroneg\u00f3cio aproveitou a pandemia para lucrar, e usou seu poder financeiro para intimidar e pressionar os governos a interromper medidas que promovem o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e a uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Consequentemente, as desigualdades existentes foram agravadas pela pandemia. Mesmo antes do in\u00edcio do Covid-19, os trabalhadores agr\u00edcolas e de alimentos experimentavam as maiores incid\u00eancias de pobreza no trabalho e inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Em 2021, o n\u00famero de crian\u00e7as em trabalho infantil aumentou para 160 milh\u00f5es, dos quais 70% estavam na agricultura. Mas, apesar da crise alimentar sem precedentes de hoje, o mundo aguarda um compromisso multilateral em nome dos Estados membros da ONU para realizar o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A fim de melhorar essa dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o, o relator sugere que o quadro jur\u00eddico internacional para o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o seja atualizado para incluir pol\u00edticas de com\u00e9rcio que sejam submetidas \u00e0 soberania alimentar e os direitos trabalhistas, ao inv\u00e9s de se pautar simplesmente pela l\u00f3gica de compra e venda de commodities comest\u00edveis.<\/p>\n<p>No entanto, os estados enfrentam restri\u00e7\u00f5es estruturais que tornam improv\u00e1veis gastos adicionais. Em resposta \u00e0 pandemia, todos eles tomaram mais empr\u00e9stimos, fazendo com que suas d\u00edvidas aumentassem no ritmo mais r\u00e1pido em cinco d\u00e9cadas e elevando os pagamentos da d\u00edvida dos pa\u00edses pobres aos n\u00edveis mais altos desde 2001.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e0 medida que os pre\u00e7os dos alimentos sobem, os pa\u00edses se deparam com a escolha de alimentar as pessoas ou pagar o servi\u00e7o da d\u00edvida. \u00c9 evidente que o sistema financeiro internacional prevalecente, dominado pelos ricos estados ocidentais, impede que os governos cumpram suas obriga\u00e7\u00f5es de alimentar seus povos.<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1950, o sistema alimentar mundial foi gradualmente industrializado. A produtividade n\u00e3o foi medida em termos de sa\u00fade humana e ambiental, mas exclusivamente em termos de produ\u00e7\u00e3o e crescimento econ\u00f4mico. Esse processo promoveu uma depend\u00eancia de m\u00e1quinas baseadas em combust\u00edveis f\u00f3sseis e insumos qu\u00edmicos, substituindo pr\u00e1ticas agr\u00edcolas regenerativas e integradas de longa data.<\/p>\n<p>Apesar de um aumento de 30% na produ\u00e7\u00e3o de alimentos desde meados da d\u00e9cada de 1960, a desnutri\u00e7\u00e3o \u00e9 abundante \u2013 ilustrando assim que o problema n\u00e3o \u00e9 a falta de alimentos, mas a desigualdade e outros impedimentos sist\u00eamicos. O problema fundamental n\u00e3o \u00e9 que o acesso dos agricultores a fertilizantes qu\u00edmicos tenha sido esgotado pela guerra na Ucr\u00e2nia, \u00e9 que muitos agricultores dependem deles em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Os fertilizantes qu\u00edmicos esgotam os nutrientes do solo e causam danos ambientais atrav\u00e9s do escoamento em aqu\u00edferos e cursos de \u00e1gua. No curto prazo, \u00e9 importante que os agricultores tenham acesso a fertilizantes, mas no longo prazo o objetivo final deve ser a independ\u00eancia deles.<\/p>\n<p>A agroecologia \u00e9 definida como a aplica\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicas aos sistemas e pr\u00e1ticas agr\u00edcolas e, na vis\u00e3o de Fakhri, ela \u00e9 essencial para cumprir o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, adaptar-se \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e aumentar a biodiversidade. Como pr\u00e1tica agr\u00edcola, \u00e9 de m\u00e3o-de-obra intensiva e abrange uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o derivadas de conhecimentos locais que se baseiam em recursos imediatamente dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Internacional dos Trabalhadores da Alimenta\u00e7\u00e3o (UITA) apoia amplamente o relator, com a condi\u00e7\u00e3o de que deve haver uma transi\u00e7\u00e3o justa para os trabalhadores agr\u00edcolas e suas fam\u00edlias. Para que isso aconte\u00e7a, a UITA diz que \u00e9 fundamental que os sindicatos tenham voz no planejamento da transi\u00e7\u00e3o, para que n\u00e3o fiquem para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Empregos verdes seguros com representa\u00e7\u00e3o sindical devem ser fundamentais em uma mudan\u00e7a radical do atual sistema desigual e lucrativo de produ\u00e7\u00e3o e consumo sem fim, rumo a um modelo mais sustent\u00e1vel onde as preocupa\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e pequenos produtores s\u00e3o centrais.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 terra e a garantia de direitos de posse para quem nela trabalha s\u00e3o pr\u00e9-requisitos para o gozo do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o \u2013 e isso significa restringir o poder corporativo. Os sistemas alimentares emitem aproximadamente um ter\u00e7o dos gases de efeito estufa do mundo, impulsionados pela agricultura intensiva e pol\u00edticas alimentares orientadas para a exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201cgrupo ABCD\u201d, assim chamado pela conveni\u00eancia alfab\u00e9tica de suas iniciais, ADM, Bunge, Cargill e (Louis) Dreyfus, representam entre 70% e 90% do com\u00e9rcio global de gr\u00e3os, e quatro companhias agroqu\u00edmicas, incluindo a Bayer e a BASF, controlam cerca de 60% do mercado global de sementes e 75% do mercado de pesticidas.<\/p>\n<p>A prioridade delas \u00e9 o lucro dos acionistas e n\u00e3o o bem p\u00fablico. Al\u00e9m disso, os estados s\u00e3o constrangidos em suas a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica alimentar por causa de decretos da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, que limitam o apoio dom\u00e9stico e a participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, juntamente com direitos de propriedade intelectual que favorecem as empresas transnacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante claro que os modos de produ\u00e7\u00e3o capitalistas existentes e os termos de com\u00e9rcio impostos pelas institui\u00e7\u00f5es internacionais dominadas pelo Ocidente s\u00e3o em grande parte os culpados pelas pessoas n\u00e3o terem o suficiente para comer.<\/p>\n<p>O excelente relat\u00f3rio de Fakhri, que pode ser encontrado no site da ONU, \u00e9 leitura essencial para quem deseja ter uma compreens\u00e3o mais clara de como o sistema funciona. No entanto, como Karl Marx disse: \u201cOs fil\u00f3sofos apenas interpretaram o mundo de v\u00e1rias maneiras. O ponto \u00e9, no entanto, mud\u00e1-lo.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29228\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Um novo relat\u00f3rio da ONU confirma que a escassez global n\u00e3o \u00e9 simplesmente resultado da guerra entre dois grandes produtores de gr\u00e3os, mas sim das pr\u00e1ticas de longa data de acumula\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[234],"class_list":["post-29228","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Bq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29228"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29228\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}