{"id":29256,"date":"2022-09-26T16:38:10","date_gmt":"2022-09-26T19:38:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29256"},"modified":"2023-04-13T10:39:35","modified_gmt":"2023-04-13T13:39:35","slug":"direita-e-esquerda-na-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29256","title":{"rendered":"Direita e esquerda na hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-2022-09-26T163548.101.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><em>A historicamente golpista e hoje &#8220;democr\u00e1tica&#8221; Folha de S\u00e3o Paulo publicou reportagem avaliando o espectro ideol\u00f3gico dos partidos pol\u00edticos, posicionando-os na esquerda, no &#8220;centro&#8221; e na direita.<\/em><br \/>\n<em>Cumprindo o seu papel como ve\u00edculo da imprensa burguesa, entre outros absurdos, o jornal posiciona o PCB como esquerda, no mesmo patamar de PV e PDT.<\/em><br \/>\n<em>Para combater esse tipo de piada de mau gosto e contribuir para informar os trabalhadores, deixamos a sugest\u00e3o desse belo artigo do historiador e camarada Muniz Ferreira: direita e esquerda na hist\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es pontuais acerca de alguns casos de dislexia conceitual<\/strong><\/p>\n<p><strong>Muniz Ferreira*<\/strong><\/p>\n<p>Um dos componentes fundamentais da ofensiva combinada das direitas neoconservadora e neoliberal na atualidade brasileira \u00e9 a demoniza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de esquerda e a reivindica\u00e7\u00e3o de todos os m\u00e9ritos hist\u00f3ricos, econ\u00f4micos e conceituais para si pr\u00f3prias. Elemento constitutivo da onda contrarrevolucion\u00e1ria, que tem varrido a maior parte do mundo desde o final dos anos 1980, este expediente fraudulento constitui a manifesta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e discursiva dos propagandistas da perenidade da ordem burguesa, no sentido de impugnar preventivamente todos os esfor\u00e7os de recomposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as anticapitalistas nos terrenos pol\u00edtico, social e intelectual em escala local, regional e mundial.<\/p>\n<p>Manejando sistematicamente a massiva supremacia que exercem sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria cultural e outros instrumentos de forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, ventr\u00edloquos e escribas, comunicadores e artistas midi\u00e1ticos, acad\u00eamicos enquadrados e pretensos fil\u00f3sofos t\u00eam se colocado a servi\u00e7o das mais impressionantes revis\u00f5es hist\u00f3rico-conceituais comprometidas com a realiza\u00e7\u00e3o do objetivo mencionado. Inscreve-se neste repert\u00f3rio geral as tentativas de apresentar o fascismo e o comunismo como fen\u00f4menos pol\u00edticos n\u00e3o apenas equivalentes em sua suposta malignidade, mas tamb\u00e9m integrados ao mesmo hemisf\u00e9rio pol\u00edtico: aquele ocupado pelas for\u00e7as de esquerda.<\/p>\n<p>Os breves apontamentos seguintes visam oferecer argumentos para a desconstru\u00e7\u00e3o desta insidiosa alquimia discursiva, a qual, pretendendo redefinir os termos do debate hist\u00f3rico pol\u00edtico, n\u00e3o tem logrado produzir outra coisa sen\u00e3o um pat\u00e9tico exemplo de dislexia conceitual.<\/p>\n<p><strong>Direita e esquerda \u2013 conceitos din\u00e2micos<\/strong><\/p>\n<p>As elabora\u00e7\u00f5es originais dos conceitos \u201cdireita\u201d e \u201cesquerda\u201d definiam diferentes atitudes adotadas em face da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Sua acep\u00e7\u00e3o preliminar nomeava as diferencia\u00e7\u00f5es, no \u00e2mbito do pr\u00f3prio processo revolucion\u00e1rio, entre as for\u00e7as s\u00f3cio-pol\u00edticas interessadas em acelerar e aprofundar os aspectos mais radicais (no sentido de resolver pela raiz os problemas identificados pelo projeto revolucion\u00e1rio) das for\u00e7as que, adotando uma postura de gradualismo e modera\u00e7\u00e3o, comprometiam a execu\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios objetivos proclamados na agenda da revolu\u00e7\u00e3o. Tomando como refer\u00eancia uma prosaica distin\u00e7\u00e3o entre os lugares habitualmente ocupados pelos representantes jacobinos (esquerda) e girondinos (direita) no interior da Assembleia Nacional, as designa\u00e7\u00f5es diferenciavam projetos pol\u00edticos e apoios sociais substancialmente distintos.<\/p>\n<p>A furiosa oposi\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o hesitou em recorrer \u00e0 invas\u00e3o militar, apresentada pelo mundo aristocr\u00e1tico europeu aos acontecimentos franceses ratificou e cristalizou a confronta\u00e7\u00e3o entre um campo pol\u00edtico revolucion\u00e1rio burgu\u00eas e popular, de esquerda, e outro aristocr\u00e1tico e contrarrevolucion\u00e1rio, de direita. Deste modo, a contraposi\u00e7\u00e3o inicialmente referida ao debate parlamentar franc\u00eas adquiriu contornos internacionais ainda mais n\u00edtidos e profundos. A uma esquerda revolucion\u00e1ria popular e patri\u00f3tica (patriotes foi uma das designa\u00e7\u00f5es que os revolucion\u00e1rios atribu\u00edram si mesmos em contrapartida aos emigr\u00e9s, aristocratas que partiam para o ex\u00edlio) contrapunha-se agora uma direita nobili\u00e1rquica e transeuropeia.<\/p>\n<p>A derrota militar dos ex\u00e9rcitos bonapartistas, portadores dos \u00faltimos vest\u00edgios institucionais do esp\u00edrito revolucion\u00e1rio que se apoderou da Fran\u00e7a em 1789, possibilitou a cristaliza\u00e7\u00e3o de uma ordem continental politicamente autocr\u00e1tica e elitista e ideologicamente contrarrevolucion\u00e1ria. O diktat imposto pela Conven\u00e7\u00e3o de Viena ao mundo europeu, que reivindicava a legitimidade din\u00e1stica como crit\u00e9rio para o reconhecimento dos governos, consolidou, em car\u00e1ter definitivo, o confronto irreconcili\u00e1vel entre as for\u00e7as pol\u00edticas republicanas, jacobinas e democr\u00e1ticas de esquerda e os poderes mon\u00e1rquicos, absolutistas e conservadores de direita. Com a incorpora\u00e7\u00e3o das for\u00e7as socialistas, assentadas nos interesses classistas e nas reivindica\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, ao territ\u00f3rio das esquerdas, a partir de 1830, configurou-se, em sua quase totalidade, o campo pol\u00edtico da esquerda europeia oitocentista, restando como ressalva a volatilidade hist\u00f3rico-pol\u00edtica da vertente liberal em suas oscila\u00e7\u00f5es de percurso.<\/p>\n<p>Desde o seu advento no s\u00e9culo XVII ingl\u00eas, o liberalismo pol\u00edtico se apresentava como alternativa \u00e0 concep\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da soberania popular (no terreno filos\u00f3fico, conceito elaborado a partir da no\u00e7\u00e3o rousseauniana de Vontade Geral), sacralizando, desde sempre, os direitos naturais do indiv\u00edduo em contraposi\u00e7\u00e3o aos direitos soberanos do Estado. Ao assentar o sistema pol\u00edtico sobre o contrato entre os cidad\u00e3os, n\u00e3o hesitou, no entanto, em hierarquiz\u00e1-los entre aqueles aptos a constitu\u00edrem o governo civil (os propriet\u00e1rios) e os privados de tal aptid\u00e3o (os n\u00e3o propriet\u00e1rios), renomeados, nos escritos de John Locke como cidad\u00e3os \u201cativos\u201d e \u201cpassivos\u201d.<\/p>\n<p>No contexto da Restaura\u00e7\u00e3o Mon\u00e1rquica Francesa (1815-1848) e da Primavera dos Povos de 1848, o liberalismo, atrav\u00e9s da pena de pensadores continentais, como Benjamin Constant, consolidou sua completa dissocia\u00e7\u00e3o das perspectivas jacobinas, republicanas e democr\u00e1ticas. Apegando-se \u00e0 defesa da monarquia constitucional e aos sistemas censit\u00e1rios de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, descomprometeu-se at\u00e9 mesmo com a defesa do sufr\u00e1gio universal. Diferenciando as liberdades pol\u00edticas pr\u00f3prias da democracia cl\u00e1ssica em detrimento das liberdades individuais caracter\u00edsticas da modernidade, descomprometeu-se com a defesa dos direitos exercidos na esfera p\u00fablica em troca da garantia da intocabilidade da esfera privada (1).<\/p>\n<p>Este deslocamento da consci\u00eancia liberal do territ\u00f3rio republicano, democr\u00e1tico e radical e sua reconcilia\u00e7\u00e3o gradativa com as for\u00e7as pol\u00edticas aristocr\u00e1tica e conservadora repercutiu tamb\u00e9m na esfera intelectual e cultural. Ao aderir, na esfera da cultura, aos formalismos art\u00edsticos, ao esteticismo aristocratizante, ao culto da intimidade \u00e1 sombra do status quo, abriu caminho para a ofensiva das for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito do pensamento, possibilitando um assalto aberto \u00e0 Raz\u00e3o emancipat\u00f3ria e a sua desfigura\u00e7\u00e3o instrumentalizadora, como no exemplo paradigm\u00e1tico do socialdarwinismo de Herbert Spencer, companheiro de viagem do vitalismo nietzschiano, ambos antecipadores da \u00e9tica e da est\u00e9tica fascistas do s\u00e9culo XX (2).<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, no entanto, que nem todos os integrantes da corrente liberal percorreram todas as esta\u00e7\u00f5es desta trajet\u00f3ria sinuosa. No pr\u00f3prio Reino Unido de Locke e Spencer \u2014 onde o liberalismo se encarnou em um partido pol\u00edtico, no sentido peculiar atribu\u00eddo a esta express\u00e3o no s\u00e9culo XIX, uma tend\u00eancia da esquerda Whig se permitiu uma aproxima\u00e7\u00e3o com o operariado cartista, para a apresenta\u00e7\u00e3o de proposi\u00e7\u00f5es ao parlamento voltadas para a amplia\u00e7\u00e3o do direito ao sufr\u00e1gio. Em outras partes \u2014 na R\u00fassia, por exemplo\u2014, liberais se ergueram contra o absolutismo tzarista, mantendo vivo o imagin\u00e1rio antidesp\u00f3tico que animou esta corrente em sua inf\u00e2ncia pol\u00edtica na Europa Ocidental. Em linhas gerais, entretanto, as sucessivas concess\u00f5es, recuos e concilia\u00e7\u00f5es com as for\u00e7as do velho mundo, praticados pelos segmentos mais representativos da consci\u00eancia liberal europeia, abriu caminho para uma ofensiva geral das for\u00e7as conservadoras e reacion\u00e1rias na virada do s\u00e9culo XIX para o XX. Ao proceder desta forma, propiciou a ocorr\u00eancia de fraturas irrevers\u00edveis que, a partir de ent\u00e3o, cindiriam o territ\u00f3rio liberal em uma esquerda pol\u00edtica adjacente ao campo democr\u00e1tico e radical, um centro pol\u00edtico aderente ao status quo e uma direita c\u00famplice das vertentes mais retr\u00f3gradas e antipopulares.<\/p>\n<p>Por outro lado, ao manifestar sua compatibilidade com o conservadorismo no terreno da pol\u00edtica, a direita liberal iniciou um movimento, o qual, ao t\u00e9rmino de v\u00e1rias d\u00e9cadas de aproxima\u00e7\u00f5es, tens\u00f5es, atritos e converg\u00eancias, acabou por emprestar seu programa econ\u00f4mico privatizante, individualista e antioper\u00e1rio para ser colocado em pr\u00e1tica por governos de confiss\u00e3o conservadora ou neoconservadora (3).<\/p>\n<p>Resta dizer que a esquerda \u2014 configurada no processo da Grande Revolu\u00e7\u00e3o, primeiro em suas variantes democr\u00e1tica radical, republicana e jacobina; mais tarde igualit\u00e1ria e comunista \u2014 na Conspira\u00e7\u00e3o dos Iguais liderada por Grachus Babeuf, tamb\u00e9m seguiu seu rumo. Impulsionada pela sensibilidade social de intelectuais e reformadores humanistas como Saint Simon, Fourier e Robert Owen e pela milit\u00e2ncia pol\u00edtica de homens como Louis Blanc e Auguste Blanqui uma nova esquerda socialista foi adquirindo forma. Com a ades\u00e3o de Marx e Engels ao movimento em meados dos anos 1840 e a posterior reelabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rico pol\u00edtica da teoria socialista em um sentido revolucion\u00e1rio e prolet\u00e1rio, a ala mais radical do campo da esquerda passou a ser ocupada pela vertente comunista e sua concorrente anarquista. \u00c9 este amplo leque de for\u00e7as de esquerda, dos jacobinos aos comunistas, passando por anarquistas e blanquistas, que protagonizam a mais importante experi\u00eancia de exerc\u00edcio de poder pelas massas populares, incluindo seu n\u00facleo prolet\u00e1rio na segunda metade do s\u00e9culo XIX: a Comuna de Paris. Acontecimento impactante, que provocou, como resposta, um recrudescimento elitista e conciliador no campo liberal; autorit\u00e1rio e antipopular no \u00e2mbito conservador, e propiciou um deslocamento de for\u00e7as situadas na ala direita desta corrente para posi\u00e7\u00f5es ainda mais reacion\u00e1rias e regressivistas (tradicionalismos religiosos e seus derivados pol\u00edticos) (4).<\/p>\n<p>A corrente conservadora, como o nome indica, surgiu como express\u00e3o pol\u00edtica da defesa dos princ\u00edpios, valores e institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas caracter\u00edsticas da Europa do Antigo Regime. Autocr\u00e1tica, anti-igualit\u00e1ria e elitista, representou a encarna\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 foi dito, da mais fidedigna rea\u00e7\u00e3o do mundo aristocr\u00e1tico europeu \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Os princ\u00edpios fundamentais, que advogou desde a sua g\u00eanese foram os seguintes: a) a preemin\u00eancia da ordem sobre as liberdades, tanto individuais quanto coletivas; b) privil\u00e9gio da autoridade sobre a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; c) prioridade da legitimidade do poder de estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas procedentes do tecido social (5).<\/p>\n<p>Em suas origens, visceralmente antiliberal e antidemocr\u00e1tico, para n\u00e3o dizer antioper\u00e1rio e antissocialista, o conservadorismo, em sua irradia\u00e7\u00e3o continental e evolu\u00e7\u00e3o temporal, incorporou novos componentes \u00e0 sua matriz inicial. Destarte, em sua sedimenta\u00e7\u00e3o no interior dos mundos mediterr\u00e2neo, latino e cat\u00f3lico incorporou outros elementos a sua identidade pol\u00edtica, como o paternalismo hier\u00e1rquico; a rejei\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica da modernidade; a defesa do direito divino dos reis, a pr\u00e9dica da monarquia cat\u00f3lica: a combina\u00e7\u00e3o do integrismo teol\u00f3gico com o elitismo pol\u00edtico social, o organicismo social como doutrina, e o corporativismo como programa de reestrutura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho, de modo a prevenir a luta de classes (6).<\/p>\n<p>De mesmo modo, no cen\u00e1rio hist\u00f3rico do mundo germ\u00e2nico setentrional tendo como eixo central o Reino da Pr\u00fassia, uma variante espec\u00edfica do conservadorismo pol\u00edtico estabeleceu seus contornos no curso do processo de unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 conclu\u00eddo em 1871 com a cria\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Hohenzollern. Tratava-se de uma vertente que, ao combinar conserva\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o, modernidade e tradi\u00e7\u00e3o, instituiu a chamada \u201cvia prussiana\u201d do desenvolvimento do capitalismo mundial. Destacam-se, nesta vertente, a na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais compreendida como a express\u00e3o da soberania popular (como no discurso dos revolucion\u00e1rios franceses de 1879) nem como encarna\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da subst\u00e2ncia abstrata e gen\u00e9rica do Volk (povo), como postulado pelos rom\u00e2nticos e pangermanistas. A quest\u00e3o da na\u00e7\u00e3o se resolvia com a constitui\u00e7\u00e3o do estado, estabelecendo a equival\u00eancia conceitual Staat-Nation, sem espa\u00e7o para veleidades \u201cut\u00f3picas\u201d e rom\u00e2nticas do tipo Nation-Volk (7).<\/p>\n<p>Mais de um s\u00e9culo depois, no mundo anglo-sax\u00e3o, o conservadorismo conheceu um novo surto de aggiornamento em sua cultura pol\u00edtica, combinando o recrudescimento de sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 modernidade s\u00f3cio-pol\u00edtica (democracia, socialismo) e cultural (modernidade, iluminismo) com a incorpora\u00e7\u00e3o plena da plataforma liberal na economia, agora, na verdade, neoliberal (8).<\/p>\n<p><strong>Direita, militarismo e pr\u00e1ticas exterministas<\/strong><\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o massiva das institui\u00e7\u00f5es repressivas do estado e de for\u00e7as militares na coibi\u00e7\u00e3o das classes subalternas em rebeli\u00e3o e no controle dos setores populares em situa\u00e7\u00f5es normais \u00e9 t\u00e3o antiga quanto a exist\u00eancia do estado e da luta de classes. Na \u00e9poca contempor\u00e2nea, a militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica pelos detentores do poder constitui uma regularidade inscrita no tempo da longa dura\u00e7\u00e3o. A invas\u00e3o militar, a forma\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es agressivas e um quarto de s\u00e9culos de guerras sucessivas contra a Fran\u00e7a, revolucion\u00e1ria primeiro e bonapartista depois, foram os expedientes empregados sem qualquer constrangimento pelas pot\u00eancias aristocr\u00e1ticas europeias para alcan\u00e7ar a restaura\u00e7\u00e3o da monarquia absolutista no territ\u00f3rio franc\u00eas (9).<\/p>\n<p>Execu\u00e7\u00f5es em larga escala, mobiliza\u00e7\u00e3o de destacamentos militares contra popula\u00e7\u00f5es civis, fuzilamentos sum\u00e1rios de lideran\u00e7as revoltosas foram os expedientes utilizados pelas for\u00e7as da ordem no sistema internacional da Conven\u00e7\u00e3o de Viena, para esmagar as reivindica\u00e7\u00f5es nacionais, populares e oper\u00e1rias, seja na Primavera dos Povos, nas guerras de liberta\u00e7\u00e3o do povo italiano ou na Comuna de Paris. Inversamente, foi atrav\u00e9s de guerras sucessivas, as quais manifestavam um poder destrutivo que aumentava direta e proporcionalmente com a incorpora\u00e7\u00e3o das descobertas cient\u00edficas e a evolu\u00e7\u00e3o dos recursos industriais aplicados \u00e0 arte da guerra, que as classes aristocr\u00e1ticas associadas aos extratos superiores das burguesias resolviam suas pend\u00eancias com os de baixo e administravam as rela\u00e7\u00f5es entre si. Uma n\u00edtida ilustra\u00e7\u00e3o disto s\u00e3o os conflitos b\u00e9licos interestatais ocorridos sob a vig\u00eancia do \u201csistema de seguran\u00e7a coletiva\u201d pactuado na Conven\u00e7\u00e3o de Viena: Guerra da Crim\u00e9ia (1853-1856); Guerra Austro-\u00edtalo-francesa (1859-1860); Guerra dos Ducados, entre a Alemanha e a Dinamarca (1864); Guerra Austro-Prussiana (1866); Guerra Franco-Prussiana (1871) e, finalmente, a guerra que implodiu aquele sistema, A Primeira Guerra Mundial (19141918) (10).<\/p>\n<p>Como resultado destes desenvolvimentos, dois elementos de grande import\u00e2ncia hist\u00f3rica se consolidaram no interior do mundo das ideias de ent\u00e3o. Em primeiro lugar o militarismo, alimentado pela cren\u00e7a na utiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a como o recurso mais eficiente para solucionar disputas e contenciosos entre os estados. A mais caracter\u00edstica corporifica\u00e7\u00e3o desta concep\u00e7\u00e3o foi a aristocracia Junker da Pr\u00fassia, conduzida atrav\u00e9s de sucessivas opera\u00e7\u00f5es militares, ao comando do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o (em 1871), e a condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia ascendente no sistema de poder mundial no final do s\u00e9culo XIX (11).<\/p>\n<p>O segundo elemento foi o nacionalismo. Na \u00e9poca das guerras tecnol\u00f3gicas (metralhadoras, encoura\u00e7ados, submarinos e avi\u00f5es de combate), com capacidade crescente de provocar danos \u00e0 pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o civil e letalidade sem precedentes, tornou-se indispens\u00e1vel a dissemina\u00e7\u00e3o de ideologias que mobilizassem para a morte ex\u00e9rcitos de milh\u00f5es de pessoas e persuadisse outros tantos milh\u00f5es de civis a suportarem as vicissitudes e priva\u00e7\u00f5es produzidas pela guerra. Para este prop\u00f3sito, foram elaboradas, ou resgatadas, duas diferentes modalidades de ideologias nacionais. A primeira combinava elementos discursivos de car\u00e1ter estatal com um componente acess\u00f3rio conservador ou liberal (12). Em sua narrativa, o estado encarnava o esp\u00edrito da na\u00e7\u00e3o, por vezes uma obra da provid\u00eancia, por outro, o para\u00edso idealizado da comunh\u00e3o dos cidad\u00e3os para al\u00e9m das barreiras de classe riqueza e poder. Uma segunda tomava emprestado motivos e representa\u00e7\u00f5es da cultura rom\u00e2ntica, retratando o estado-na\u00e7\u00e3o como a cristaliza\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito nacional, frequentemente entendido como a unidade de destino, de tradi\u00e7\u00e3o e cultura, de l\u00edngua, de confiss\u00e3o e de sangue (13).<\/p>\n<p>Neste ponto, \u00e9 essencial recuperar as formas atrav\u00e9s das quais as for\u00e7as de esquerda resistiam, rejeitavam e se opunham a estas constru\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas das classes dominantes. \u00c0s mistifica\u00e7\u00f5es nacionalistas de extra\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica ou estatista, as esquerdas democr\u00e1ticas, republicanas e jacobinas, de base crescentemente pequeno-burguesas e n\u00e3o mais burguesas, recuperavam o seu conceito original de na\u00e7\u00e3o como a express\u00e3o da soberania popular. Acep\u00e7\u00e3o esta que continuaria a se manifestar, ao longo do vindouro s\u00e9culo XX, nos movimentos anti-imperialistas e de liberta\u00e7\u00e3o nacional do chamado mundo perif\u00e9rico (14).<\/p>\n<p>J\u00e1 as esquerdas oper\u00e1rias e socialistas apresentavam como alternativa aos nacionalismos e militarismos das classes dirigentes suas perspectivas internacionalistas (\u201cOs oper\u00e1rios n\u00e3o tem p\u00e1tria\u201d, a n\u00e3o ser quando ascendem ao poder e se convertem em \u201cclasse nacional\u201d, imediatamente antes de se engajarem, na condi\u00e7\u00e3o de agentes propulsores, ao processo da revolu\u00e7\u00e3o mundial) e antimilitaristas (\u201cpaz entre n\u00f3s, guerra aos senhores\u201d), contrapondo aos projetos das classes dirigentes de lan\u00e7ar os trabalhadores uns contra os outros nas guerras, a solidariedade internacional dos trabalhadores contra as classes dirigentes no cen\u00e1rio mundial (15).<\/p>\n<p>Nem mesmo a transforma\u00e7\u00e3o de uma parcela da lideran\u00e7a do socialismo mundial em linha auxiliar do nacionalismo e do militarismo estatais, \u00e0s v\u00e9speras, durante e depois da Primeira Guerra Mundial, invalidou esta descri\u00e7\u00e3o. A reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento socialista no p\u00f3s Primeira Grande Guerra com a cria\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista ratificou e consolidou as distin\u00e7\u00f5es pol\u00edtico ideol\u00f3gicas anteriores: a uma direita burguesa-aristocr\u00e1tica nacionalista e militarista, continuou se opondo uma esquerda oper\u00e1ria internacionalista, antimilitarista e revolucion\u00e1ria (16).<\/p>\n<p><strong>As direitas ap\u00f3s a Primeira Grande Guerra<\/strong><\/p>\n<p>A Primeira Guerra Mundial al\u00e9m de materializar as mais disparatadas distopias militaristas, rom\u00e2nticas e exterministas, produziu tamb\u00e9m implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas multifacetadas. Uma delas foi propiciar os elementos germinais para uma nova s\u00edntese entre o nacionalismo rom\u00e2ntico e o militarismo aristocr\u00e1tico estatal. Da inusitada experi\u00eancia vivida por combatentes de diferentes proced\u00eancias e condi\u00e7\u00f5es sociais nas trincheiras das linhas de combate, forjou-se uma narrativa, que reconheceu a\u00ed as bases de reconstru\u00e7\u00e3o do sentimento nacional atrav\u00e9s de um \u201cromantismo de a\u00e7o\u201d, calcado na generaliza\u00e7\u00e3o da Fronterlebnis (experi\u00eancia do Front). Em seu desdobramento, esta constru\u00e7\u00e3o intelectual serviu de esteio a toda uma concep\u00e7\u00e3o, que combinava o elogio da modernidade t\u00e9cnica com o culto da \u201calemanidade\u201d; rejeitava os cosmopolitismos de orienta\u00e7\u00e3o liberal e os socialismos de extra\u00e7\u00e3o marxista e prolet\u00e1ria, oferecendo os componentes ideol\u00f3gicos e discursivos para o advento de uma nova direita nacionalista, contrarrevolucion\u00e1ria e, pela primeira vez, mobilizadora de massas (17).<\/p>\n<p>O segundo aspecto foi o lan\u00e7amento das bases para a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas estatais de contrainsurg\u00eancia preventiva e permanente, para as quais as direitas seriam de grande valia. O ponto de partida foi o triunfo bolchevique no outubro russo de 1917 seguido pelos levantes revolucion\u00e1rios na Alemanha, \u00c1ustria e Hungria nos anos 1918 e 1919. Vislumbrando nestes acontecimentos russos o ingresso da Europa na \u00e9poca das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias, desde ent\u00e3o potencialmente apoiadas pelos recursos de uma entidade estatal expressiva, classes dirigentes e governos europeus recorreram a um vasto somat\u00f3rio de recursos tanto preventivos (concess\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas), quanto repressivos e militares (mobiliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as militares regulares e irregulares contra os revolucion\u00e1rios). Esta foi a g\u00eanese de um novo ciclo de militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, na qual o combate ao inimigo revolucion\u00e1rio interno passava a ser interpretado nos termos da guerra de destrui\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio m\u00e1ximo que acabara de ser travada, propiciando o interesse de setores crescentes das classes dirigentes, que experimentaram mais diretamente a \u201camea\u00e7a revolucion\u00e1ria\u201d (Alemanha, \u00c1ustria, It\u00e1lia, Hungria) e dos setores sociais sob sua influ\u00eancia, nos novos movimentos direitistas, que combinavam discursos e pr\u00e1ticas militaristas (Corpos Livres, Capacetes de A\u00e7o, SA, Fasci di Combatimento, Cruz Flechada), com um nacionalismo exacerbado, rom\u00e2ntico, antioper\u00e1rio e antissemita.<\/p>\n<p><strong>De onde vem o fascismo?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 o advento destes fen\u00f4menos pol\u00edticos, todas as direitas europeias eram, sem exce\u00e7\u00e3o, conservadoras e elitistas (estamos aqui falando da pol\u00edtica europeia anterior \u00e0 I Guerra Mundial). O chamado \u201cpopulismo\u201d (sic!) v\u00f6lkish n\u00e3o passava de uma corrente cultural sem representa\u00e7\u00e3o no mundo da pol\u00edtica partid\u00e1ria, por\u00e9m os ecos deste romantismo v\u00f6lkish, conquanto politicamente derrotado no movimento de unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, ressurgiriam atualizados na Rep\u00fablica de Weimar atrav\u00e9s das obras de autores como Friedrich e Ernest J\u00fcnger, Carl Schmitt, Werner Sombart, Oswald Spengler e Martin Heidegger.<br \/>\nA principal fun\u00e7\u00e3o destes intelectuais de direita era demonstrar que a idealiza\u00e7\u00e3o das virtudes inatas do Volk alem\u00e3o poderia conviver com o culto da autoridade estatal e a apologia da moderniza\u00e7\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica. Era o Modernismo Reacion\u00e1rio, corrente intelectual que, ao reunificar as principais vertentes do pensamento de direita alem\u00e3o, preparou as condi\u00e7\u00f5es espirituais para o triunfo do nacional socialismo.<\/p>\n<p>Assim como seus antecessores v\u00f6lkish do s\u00e9culo XIX, os modernistas reacion\u00e1rios desprezavam as tradi\u00e7\u00f5es radicadas no iluminismo: o pensamento calcado na raz\u00e3o, o materialismo filos\u00f3fico, a no\u00e7\u00e3o de luta de classe, o cosmopolitismo liberal, a democracia representativa e o socialismo. Vislumbravam a exist\u00eancia de dois tipos de comunidades nacionais, aquelas baseadas na unidade do sangue, no \u00edmpeto das energias vitais primordiais e as que se fundavam no intelecto, na individua\u00e7\u00e3o e na multiplicidade. Valorizavam as primeiras em detrimento das segundas, conduzindo suas formula\u00e7\u00f5es ao limite do anti-intelectualismo e da reprova\u00e7\u00e3o daqueles que, segundo eles, \u201ctra\u00edam o sangue com o intelecto\u201d, preconizando, em lugar disso, \u201cpensar com o sangue\u201d. Rejuvenecidos pelo contato com o esteticismo voluntarista de Nietzsche, o social-darwinismo e pela Fronterlebnis (experi\u00eancia do Front) (18), militaram na linha de frente de defesa da v\u00f6lkishkultur alem\u00e3, germinada na for\u00e7a do sangue, da ra\u00e7a e do destino germ\u00e2nicos, contra as conspurca\u00e7\u00f5es da Zivilisation desenraizada, sem alma, artificial. Ideologia de vanguarda no campo da pol\u00edtica da direita na \u00e9poca de Weimar, o modernismo reacion\u00e1rio de matriz v\u00f6lkish definiu as balizas essenciais da cultura conservadora germ\u00e2nica do s\u00e9culo XX, antecedendo, preparando o terreno, enriquecendo o acervo ideol\u00f3gico do nacional socialismo.<\/p>\n<p>Os fascismos foram, assim, as primeiras direitas a adotar um discurso e um sistema de organiza\u00e7\u00e3o voltados para a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, integrados por componentes discursivos \u201cigualit\u00e1rios\u201d, nacionalistas (de perfil rom\u00e2ntico) e at\u00e9 \u201canticapitalistas\u201d (normalmente expressos nos ataques \u00e0 \u201cplutocracia judaica\u201d ou internacional). Tratava-se de uma estrat\u00e9gia que, como j\u00e1 foi sugerido, visava derrotar a esquerda oper\u00e1ria em lugares onde ela havia alcan\u00e7ado substantiva representatividade junto \u00e0s massas (como na Alemanha e na It\u00e1lia) e disputar espa\u00e7o efetivo nos sistemas pol\u00edticos de representa\u00e7\u00e3o ampliada da Europa do P\u00f3s Primeira Grande Guerra, que avan\u00e7ava em dire\u00e7\u00e3o ao sufr\u00e1gio universal.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, o anticapitalismo fascista se limitava, como visto, ao combate \u00e0s burguesias \u201calien\u00edgenas\u201d (judaica e anglo-americana) e seu igualitarismo encobria a reivindica\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o social n\u00e3o mais baseada nas hierarquias provenientes do nascimento (aristocracia) e da riqueza (burguesia), mas sim na \u201cpureza racial\u2019 (na Alemanha) e na devo\u00e7\u00e3o \u00e0 na\u00e7\u00e3o (na It\u00e1lia) (19).<\/p>\n<p>Tudo isto, no entanto, jamais conheceu qualquer efetiva\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do discurso e da din\u00e2mica interna dos pr\u00f3prios movimentos. Uma vez no poder, as tend\u00eancias \u201cpragm\u00e1ticas\u201d se sobrepuseram \u00e0s \u201cut\u00f3picas\u201d e as \u201crevolu\u00e7\u00f5es fascistas\u201d se dissiparam na acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0s estruturas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais pr\u00e9-existentes. O exemplo hist\u00f3rico mais eloquente disto foi a disputa interna do NSDAP, que resultou na Noite das Longas Facas, com a decapita\u00e7\u00e3o dos setores mais \u201cinconformistas\u201d (sic!) das SA e do Partido Nazista.<\/p>\n<p>Os fascismos, portanto, mudaram a direita no sentido de \u201ccontamin\u00e1-la\u201d com discursos e mesmo pr\u00e1ticas organizativas at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 utilizadas pelas esquerdas (anticapitalismo, igualitarismo e mobiliza\u00e7\u00e3o de massas), apesar do car\u00e1ter farsesco, demag\u00f3gico e incompleto daqueles.<\/p>\n<p><strong>O nazismo era \u201cde esquerda\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>A originalidade do Nacional-Socialismo consistiu em sua capacidade de combinar tradi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas at\u00e9 ent\u00e3o divergentes e at\u00e9 concorrentes. Por um lado o nacionalismo rom\u00e2ntico pangerm\u00e2nico, derrotado no processo de forma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio Alem\u00e3o e, por outro, o nacionalismo estatista e militarista encarnados pela aristocracia Junker e os c\u00edrculos pol\u00edticos vinculados \u00e0 dinastia Hohenzollern. Se para uns a na\u00e7\u00e3o era o Volk, para outros era o Staat.<\/p>\n<p>A reconcilia\u00e7\u00e3o destas duas concep\u00e7\u00f5es no nacional-socialismo fez do movimento o propositor de um novo nacionalismo rom\u00e2ntico e pangerm\u00e2nico (o \u201cromantismo de a\u00e7o\u201d) combinado com o nacionalismo estatista e militarista de extra\u00e7\u00e3o Junker. Tais fatores possivelmente explicam a aprova\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos militar-aristocr\u00e1tico e monarquista da ascens\u00e3o de um ex-cabo austr\u00edaco e sua \u201chorda de desclassificados sociais\u201d das SA ao governo do Reich (o ajuste de contas com a \u201chorda\u201d viria depois). Explicariam tamb\u00e9m os crescentes atritos entre a lideran\u00e7a nazista e os representantes dos demais setores das classes dirigentes alem\u00e3es no per\u00edodo hitleriano quando os objetivos de guerra e da pol\u00edtica exterior do estado alem\u00e3o passaram a se orientar por abordagens cada vez mais \u201cideol\u00f3gicas\u201d e \u201cut\u00f3picas\u201d, como na guerra de destrui\u00e7\u00e3o total contra a URSS, na pol\u00edtica de germaniza\u00e7\u00e3o do Leste e nas demandas de uma instaura\u00e7\u00e3o de uma \u201cNova Ordem Mundial\u201d de cariz racista-arianista.<\/p>\n<p>O historiador ingl\u00eas conservador Hugh Trevor-Ropper se dedicou a uma minuciosa an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es de Hitler com os integrantes e representantes das classes dirigentes alem\u00e3s, conceituadas por ele como German Establishment (20). Com esta categoria, o historiador ingl\u00eas denominava os estratos superiores das burocracias civil e militar do III Reich, os l\u00edderes pol\u00edticos, a diplomacia, em resumo, aquilo que outros autores antes dele j\u00e1 haviam classificado como a elite tradicional, cujas origens remontam ao processo de constitui\u00e7\u00e3o do estado imperial sob a condu\u00e7\u00e3o da dinastia Hohenzollern. Estes personagens teriam desempenhado um papel fundamental na ascens\u00e3o de Hitler ao poder em 1933, constituindo-se, num primeiro momento, em seus fi\u00e9is servidores, para, mais tarde padecerem amargas desilus\u00f5es com os rumos de sua pol\u00edtica e se lan\u00e7arem em sua oposi\u00e7\u00e3o. A trajet\u00f3ria de homens que, a partir de posi\u00e7\u00f5es proeminentes no corpo diplom\u00e1tico e nas for\u00e7as armadas, participaram de conspira\u00e7\u00f5es para destituir o ditador alem\u00e3o, exemplificam, para Roper, o destino deste extrato s\u00f3cio-pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O fator de aproxima\u00e7\u00e3o entre o \u00edmpeto belicoso e expansionista do F\u00fchrer e o programa conservador deste establishment fora seu comprometimento comum com a restaura\u00e7\u00e3o do poderio alem\u00e3o aniquilado pelas disposi\u00e7\u00f5es do Tratado de Paz de Versalhes. Ambos, tanto Hitler quanto os conservadores alem\u00e3es, desejavam a restaura\u00e7\u00e3o do poderio militar do pa\u00eds. Ambos aspiravam a uma ordem pol\u00edtica autorit\u00e1ria, que expurgasse da sociedade e da pol\u00edtica alem\u00e3s as for\u00e7as \u201cnocivas\u201d e \u201calien\u00edgenas\u201d do liberalismo, da democracia, do cosmopolitismo e do socialismo em ascens\u00e3o na Rep\u00fablica de Weimar e acalentavam desejos de aquisi\u00e7\u00f5es territoriais, esta converg\u00eancia, por\u00e9m, terminava aqui.<\/p>\n<p>Os objetivos dos representantes do establishment possu\u00edam um car\u00e1ter essencialmente limitado e restauracionista. Pretendiam o restabelecimento das fronteiras do extinto imp\u00e9rio de Guilherme I, o que acarretava a anexa\u00e7\u00e3o da maior parte da Pol\u00f4nia. Talvez estivessem dispostos a ir \u201cum pouco al\u00e9m\u201d \u2013 como de fato o foram \u2013 absorvendo a \u00c1ustria e os Sudetos, fundamentalmente para preencher o \u201cvazio\u201d pol\u00edtico deixado ali pela dissolu\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio dos Habsburgo, mas no essencial suas demandas tinham car\u00e1ter conservador. Seguramente detestavam a URSS, devido ao seu sistema s\u00f3cio-pol\u00edtico, mas n\u00e3o estavam motivados a conquist\u00e1-la. Jamais cogitaram, acima de tudo, a necessidade de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u201d, mesmo no sentido mais propriamente \u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d, conforme a concebiam os nazistas. Ora, sendo o ponto de converg\u00eancia o \u201crevisionismo\u201d (21) do sistema de Versalhes e o de diverg\u00eancia o \u201crevolucionarismo\u201d (sic!) ideol\u00f3gico nacional-socialista, ambas as perspectivas conviveram no interior dos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de estado do Reich at\u00e9 que a implementa\u00e7\u00e3o da agenda \u201cideol\u00f3gica\u201d hitleriana fraturasse a alian\u00e7a entre os dois setores.<\/p>\n<p>Da conviv\u00eancia entre conservadores e nazistas teria resultado um sentido mais \u201cpragm\u00e1tico\u201d e \u201crazo\u00e1vel\u201d da pol\u00edtica exterior do Reich. Da supremacia nazista dimanou uma pol\u00edtica ideol\u00f3gica em seu car\u00e1ter e em sua condu\u00e7\u00e3o. Para Roper, o divisor de \u00e1guas entre estes dois momentos ocorrera, como n\u00e3o poderia ser diferente, por ocasi\u00e3o da guerra contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Esta guerra \u2014, cujo empreendimento constituiu a quintess\u00eancia do milenarismo hitleriano e em cujo desenrolar seu poderio transitou do z\u00eanite ao nadir \u2014 assinala o div\u00f3rcio definitivo entre o projeto do establishment conservador alem\u00e3o e os objetivos internacionais do Chanceler do Reich. Neste projeto irredut\u00edvel de hegemonia, nesta competi\u00e7\u00e3o inadi\u00e1vel pela anula\u00e7\u00e3o dos efeitos internacionais da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique atrav\u00e9s do poder da contra revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, investiu o autor do Mein Kampf todas as suas for\u00e7as vitais, o que lhe propiciou a visualiza\u00e7\u00e3o do Mil\u00eanio ariano no mundo e a experimenta\u00e7\u00e3o do sabor cartagin\u00eas da derrota.<\/p>\n<p>Mesmo o texto de Roper, que no \u00e2mbito da historiografia burguesa \u00e9 um dos mais avan\u00e7ados na investiga\u00e7\u00e3o acerca da express\u00e3o dos interesses sociais na pol\u00edtica (materializado nas an\u00e1lises das rela\u00e7\u00f5es do Chanceler com as elites aristocr\u00e1ticas da sociedade alem\u00e3), silencia a respeito do posicionamento e das perspectivas de um setor essencial da sociedade alem\u00e3: os homens da grande ind\u00fastria do per\u00edodo. Apenas um deles, o industrial Fritz Von Thyssen \u00e9 mencionado en passant, como exemplo da desilus\u00e3o de apoiadores de primeira hora do nazismo com os rumos adotados pela pol\u00edtica do Reich depois de 1939. A pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o de classe do historiador ingl\u00eas o impediu de identificar nos prop\u00f3sitos belicistas e hegemonistas do nazismo as aspira\u00e7\u00f5es e interesses do grande capital alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Franquismo e Salazarismo foram fascismos tout court?<\/strong><\/p>\n<p>Se considerarmos como modelares as experi\u00eancias dos fascismos alem\u00e3o e italiano, observaremos que eles possuem uma din\u00e2mica hist\u00f3rica e uma anatomia comum. Nos dois casos um movimento ideol\u00f3gico e pol\u00edtico mobilizador extrapartid\u00e1rio (os fasci na It\u00e1lia, os Corpos Livres na Alemanha) antecederam o partido, que surgiu como uma for\u00e7a pol\u00edtica mobilizadora e org\u00e2nica no seio da sociedade civil antes de empolgar o poder de estado. Em ambos os casos, esta organicidade e a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o se assentaram na utiliza\u00e7\u00e3o intensiva de uma ideologia de pureza racial em um caso, de grandeza nacional em outro, bem como no carisma pessoal do l\u00edder (o Duce e o F\u00fchrer). Uma vez no poder, o tra\u00e7o mais saliente do sistema s\u00f3cio pol\u00edtico colocado em pr\u00e1tica nestes pa\u00edses foi a organiza\u00e7\u00e3o corporativa do trabalho atrav\u00e9s dos sindicatos nacionais, que agrupavam trabalhadores e patr\u00f5es sob a bandeira da colabora\u00e7\u00e3o de classes e da rejei\u00e7\u00e3o ao conflito social.<\/p>\n<p>Se estas experi\u00eancias nos fornecem o modelo, faltam alguns destes aspectos tanto no caso espanhol como no portugu\u00eas, sen\u00e3o vejamos. Tanto no caso de Franco quanto no de Salazar faltaram: a) um movimento pol\u00edtico mobilizador pr\u00e9-existente (A Falange Espanhola n\u00e3o foi cria\u00e7\u00e3o de Franco, mas aliada e teve import\u00e2ncia secund\u00e1ria durante o dom\u00ednio franquista). b) faltou a ambos uma ideologia pol\u00edtica pr\u00f3pria ou uma s\u00edntese ideol\u00f3gica pr\u00f3pria, o que fez com que recorressem a um acervo de ideias j\u00e1 existentes, no caso o nacionalismo conservador\/rom\u00e2ntico e o catolicismo integrista, acarretando compromissos com as institui\u00e7\u00f5es que eram as suas encarna\u00e7\u00f5es na sociedade: a monarquia e a Igreja, na Espanha de Franco, a Igreja cat\u00f3lica no Portugal de Salazar. Subsistem tamb\u00e9m muitas d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia do carisma pessoal, sen\u00e3o de Franco, pelo menos de Oliveira Salazar.c) Por fim, n\u00e3o existiu um partido pol\u00edtico franquista ou salazarista de massas antes da chegada de ambos ao poder. Por estes motivos, prefiro considerar que os dois ditadores ib\u00e9ricos foram fascistizantes e filo-fascistas, mas n\u00e3o fascistas, no sentido mais rigoroso e conceitualmente preciso da palavra (22).<\/p>\n<p><strong>A redu\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o do nazismo ao comunismo no mundo ocidental do p\u00f3s Segunda Grande Guerra<\/strong><\/p>\n<p>Os elementos inovadores do nazismo e do fascismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s direitas que os precederam foram astutamente distorcidos pelos ide\u00f3logos da direita liberal no per\u00edodo da guerra fria, para identificar os inimigos de ent\u00e3o, os comunistas, com os inimigos do passado, os fascistas. Em suas elabora\u00e7\u00f5es mais refinadas, como nos textos de Hannah Arendt, a causa comum a fascistas e comunistas (ambos \u201ctotalit\u00e1rios\u201d) era a nega\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e das liberdades individuais, a estatolatria e a ambi\u00e7\u00e3o de estabelecimento do \u201cpoder total\u201d sobre a sociedade. Esta, com varia\u00e7\u00f5es e not\u00f3rio empobrecimento argumentativo nos nossos dias, tem sido a base ideol\u00f3gica das mais do que duvidosas tentativas de redu\u00e7\u00e3o e equipara\u00e7\u00e3o do fascismo ao comunismo e a caracteriza\u00e7\u00e3o de ambos como fen\u00f4menos \u201cde esquerda\u201d.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt \u00e0 reflex\u00e3o acerca do fen\u00f4meno totalit\u00e1rio de modo geral \u2013 e do nacional-socialismo, em particular \u2013 tem sido amplamente reconhecida e valorizada nos campos da pr\u00e1xis pol\u00edtica e das ci\u00eancias humanas. Sua conceitua\u00e7\u00e3o do totalitarismo e a tentativa de empreendimento de sua genealogia hist\u00f3rico-pol\u00edtica t\u00eam desempenhado uma fun\u00e7\u00e3o estimulante seja no apoio, seja na contesta\u00e7\u00e3o \u00e0s suas teses por parte dos estudiosos quer do nazismo, quer do stalinismo.<\/p>\n<p>Contudo, suas interpreta\u00e7\u00f5es do car\u00e1ter e dos processos de concep\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa da Alemanha hitleriana carecem de sustenta\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica. Produzida no quase imediato p\u00f3s-segunda grande guerra (1951) nos Estados Unidos, sua obra n\u00e3o foi beneficiada pela intera\u00e7\u00e3o com uma cultura mais aberta aos novos horizontes da investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, como a vertente historiogr\u00e1fica francesa nucleada pelos Annales. Ao basear suas conclus\u00f5es na aprecia\u00e7\u00e3o de fontes at\u00e9 ent\u00e3o consideradas alternativas, como livros de mem\u00f3rias, relatos, correspond\u00eancia, discursos e textos de doutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, careceu a autora, sobretudo, de um instrumental te\u00f3rico-metodol\u00f3gico que lhe possibilitasse uma apropria\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica dos documentos que logrou consultar. Ademais, \u201cTotalitarismo, o paroxismo do poder\u201d, uma proposta ambiciosa de abordagem te\u00f3rico-pol\u00edtica da problem\u00e1tica do poder total, antecede em praticamente uma d\u00e9cada o adensamento da interlocu\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e historiogr\u00e1fica sobre a variante germ\u00e2nica do fascismo (23).<\/p>\n<p>Para al\u00e9m destas tentativas de interpreta\u00e7\u00e3o, o estabelecimento de equival\u00eancias estruturais entre o regime sovi\u00e9tico e o nazismo esteve a cargo de historiadores vinculados a uma corrente revisionista da historiografia. Esta vertente, que teve na obra do historiador alem\u00e3o Ernest Nolte seu principal expoente, interpretava o hitlerismo como mero reflexo do \u201ccomunismo\u201d (24). Para Nolte, as principais a\u00e7\u00f5es da lideran\u00e7a nazista foram interpretadas como rea\u00e7\u00f5es aos atos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. At\u00e9 mesmo o holocausto judeu teria sido uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o, causada pelos bolcheviques, das antigas classes dirigentes russas e aos supostos massacres sovi\u00e9ticos na Ucr\u00e2nia. Das elabora\u00e7\u00f5es de Nolte emana n\u00e3o a caracteriza\u00e7\u00e3o do nazismo como fen\u00f4meno \u201cde esquerda\u201d, mas a justificativa do nazismo como rea\u00e7\u00e3o ao comunismo e os prim\u00f3rdios de uma constru\u00e7\u00e3o discursiva que igualar\u00e1 os crimes comprovadamente praticados pelos nazistas a supostos delitos de igual propor\u00e7\u00e3o imputados aos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Tal opera\u00e7\u00e3o discursiva perseguiria a produ\u00e7\u00e3o de uma ratifica\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica para as justificativas de car\u00e1ter defensivo e reativo com as quais os pr\u00f3ceres do III Reich procuraram justificar seus arreganhos, inclusive diante do Tribunal de Nuremberg. Mais tarde, em suas obras e nas de seus consortes e sucessores, os massacres de pessoas, atribu\u00eddos aos governos comunistas, ultrapassaria largamente os praticados n\u00e3o s\u00f3 pelos regimes fascistas, mas tamb\u00e9m as v\u00edtimas do colonialismo, das interven\u00e7\u00f5es militares e das guerras desencadeados pelas pot\u00eancias imperialistas. Uma audaciosa opera\u00e7\u00e3o de whitewashing historiogr\u00e1fica e midi\u00e1tica, com fortes repercuss\u00f5es em nossos dias.<\/p>\n<p>Seguindo a via aberta pelos art\u00edfices da equipara\u00e7\u00e3o entre nazismo e comunismo iniciada pelos te\u00f3ricos do totalitarismo e do revisionismo, a historiografia conservadora dos EUA conduziu, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1970 do s\u00e9culo XX, tais elabora\u00e7\u00f5es a um novo patamar. Se o revisionista Ernest Nolte realizara a defesa hist\u00f3rica do fascismo apresentando-o como um fen\u00f4meno pol\u00edtico que simplesmente reagia \u00e0s amea\u00e7as e a\u00e7\u00f5es agressivas do \u201ccomunismo sovi\u00e9tico\u201d, coube a Robert Contest e outros expoentes da historiografia conservadora estadunidense tentar comprov\u00e1-lo localizando um holocausto sovi\u00e9tico, o Holodomor (25). Ora, argumentar que um dos piores massacres praticados pelo regime hitlerista teve um correspondente sovi\u00e9tico significa minimizar a malignidade do nazismo, negando sua responsabilidade exclusiva pelo maior de seus crimes. Denunciar um suposto holocausto praticado pelo regime sovi\u00e9tico contra a popula\u00e7\u00e3o ucraniana elimina a singularidade do genoc\u00eddio do povo judeu e equipara, fraudulentamente, fen\u00f4menos pol\u00edticos diametralmente opostos. Ocioso dizer que este suposto holocausto jamais foi comprovado empiricamente e, por isto, rejeitado pelos historiadores acad\u00eamicos situados fora do \u00e2mbito revisionista e ultraconservador.<\/p>\n<p><strong>O Neoconservadorismo<\/strong><\/p>\n<p>Em sua vers\u00e3o intelectualizada e ideol\u00f3gica, o neoconservadorismo emana, de forma essencial, das elabora\u00e7\u00f5es de Leo Strauss, um pensador e professor universit\u00e1rio nascido na Alemanha, ao final do s\u00e9culo 19, radicado nos Estados Unidos no final da d\u00e9cada de 1930, fugido da persegui\u00e7\u00e3o nazista. Dez anos mais tarde, j\u00e1 como docente nas universidades de Chicago e Stanford, Strauss elaborou uma filosofia pol\u00edtica que conjugava a cr\u00edtica da modernidade pol\u00edtica ocidental (Maquiavel, Hobbes, Rousseau e Hegel), o resgate dos valores e ideias da democracia grega e a reivindica\u00e7\u00e3o da restaura\u00e7\u00e3o do direito natural e dos princ\u00edpios transcendentes da religi\u00e3o revelada como pilares para a refunda\u00e7\u00e3o da democracia liberal. Seu pensamento foi acolhido por um setor da elite intelectual norte-americana que, a partir dos anos 50 do s\u00e9culo XX, fora assombrada pelo fantasma da decad\u00eancia dos valores e da desagrega\u00e7\u00e3o das energias vitais de seu pa\u00eds pela influ\u00eancia das concep\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas liberais e progressistas (26).<\/p>\n<p>Como alternativa, foram lan\u00e7adas as bases de um projeto de restaura\u00e7\u00e3o da coes\u00e3o das elites sociais e pol\u00edticas e de conserva\u00e7\u00e3o do poderio mundial dos EUA, tendo por base o resgate dos princ\u00edpios tradicionais da cultura e do modo de vida norte-americanos supostamente sob ataque. A solu\u00e7\u00e3o era o combate \u00e0s amea\u00e7as tanto dentro quanto fora do pa\u00eds, mantendo a sociedade mobilizada e consciente de sua individualidade nacional e da superioridade de seu modo de vida, alegadamente acossados por seus inimigos. Tais ideias encontraram apoio junto aos c\u00edrculos mais direitistas do partido republicano e entraram em complexa simbiose com o pensamento religioso fundamentalista a partir do final dos anos 1970. Seu primeiro momento de esplendor se deu durante a era Reagan, com seus ataques aos direitos civis, o keynesianismo \u00e0s avessas, a corrida armamentista e a confronta\u00e7\u00e3o com o \u201ccomunismo\u201d, leiam-se: as experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o socialista e os movimentos revolucion\u00e1rios ao redor mundo.<\/p>\n<p><strong>Neonazismo e neofascismos em tempos de contrarrevolu\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>O ciclo de contrarrevolu\u00e7\u00f5es, que a partir de 1989 se abateu sobre o Leste Europeu, representou a culmina\u00e7\u00e3o de uma ofensiva das for\u00e7as reacion\u00e1rias a n\u00edvel mundial, capitaneadas pelos governos republicanos de Reagan e Bush pai nos EUA entre os anos 1981-1992. Os epis\u00f3dios mais emblem\u00e1ticos desta vigorosa onda (neo) conservadora na pol\u00edtica mundial foram a demoli\u00e7\u00e3o do Muro de Berlim e a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 em 1989 e a desagrega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991. Com a humilhante capitula\u00e7\u00e3o sem resist\u00eancia dos regimes de transi\u00e7\u00e3o socialista e a ascens\u00e3o das for\u00e7as comprometidas com a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, instaurou-se um clima prop\u00edcio ao fortalecimento sem precedentes e ao ressurgimento das mais empedernidas concep\u00e7\u00f5es e correntes pol\u00edticas da direita mundial. Os protagonistas dos processos de restaura\u00e7\u00e3o burguesa\/capitalista, em seus esfor\u00e7os no sentido de demolir as realiza\u00e7\u00f5es dos regimes derrotados, remover do imagin\u00e1rio social qualquer aprecia\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0s experi\u00eancias hist\u00f3rico-sociais encerradas e disseminar ideias e valores adequados aos novos tempos, criaram um ambiente cultural fecundo para o ressurgimento do racismo, da xenofobia, do anticomunismo em suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es, e do fascismo.<\/p>\n<p>Ainda que o reordenamento pol\u00edtico gerado pelas restaura\u00e7\u00f5es privilegiasse, na maior parte dos casos, os sistemas liberal-representativos, sob clara hegemonia conservadora o caldo de cultura para a r\u00e1pida difus\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es de extrema-direita se espalhou por todo o corpo social. Desta forma, grupos pol\u00edticos, oficiais ou informais, encontraram est\u00edmulo para a reivindica\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es aristocr\u00e1ticas e monarquistas, religioso-integristas, colaboracionistas e at\u00e9 abertamente nazistas e fascistas. Seja na aglutina\u00e7\u00e3o de jovens delinquentes skinheads, seja no retorno de setores religiosos intolerantes e antissemitas, seja na atua\u00e7\u00e3o institucional-parlamentar de grupamentos orientados por agendas ultraconservadoras, a restaura\u00e7\u00e3o representou, no terreno pol\u00edtico cultural, um movimento impetuoso de retorno ao passado.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o apenas nos pa\u00edses antes comprometidos com as experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o socialista o ciclo regressivo se fez sentir. Mesmo na Europa ocidental liberal-capitalista, o Zeitgeist ultrarreacion\u00e1rio e fascistizante foi percept\u00edvel. Ali, a base material para o crescimento das correntes reacion\u00e1rias foi gerada pelos representantes pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos do grande capital, em seus esfor\u00e7os no sentido de fazer recuar conquistas econ\u00f4micas e sociais das classes trabalhadoras, obtidas nas quatro d\u00e9cadas anteriores, solapando as bases do estado de bem estar social e preparando o capital para os processos de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva sob hegemonia neoliberal.<\/p>\n<p>O recuo frequentemente desorganizado das for\u00e7as de esquerda (socialistas, comunistas, esquerda trabalhista) oferece terreno para a ofensiva acelerada das for\u00e7as de ultradireita, sejam elas de extra\u00e7\u00e3o tradicionalista e fascistizante (Fran\u00e7a, Espanha), ultranacionalistas e filo fascistas (Inglaterra, Alemanha, \u00c1ustria) ou \u201cneopopulistas\u201d (sic!) de direita (Holanda, B\u00e9lgica, Dinamarca, It\u00e1lia). Praticamente em toda a Europa ocidental, verificou-se um avan\u00e7o liberal-conservador na pol\u00edtica, uma consolida\u00e7\u00e3o gradual do predom\u00ednio das for\u00e7as de direita e ultradireita e a desfigura\u00e7\u00e3o da centro-esquerda social-democrata, convertida em for\u00e7a auxiliar da direita conservadora-liberal, em suma, o recuo da influ\u00eancia e\/ou o isolamento pol\u00edtico das for\u00e7as de esquerda e ultraesquerda.<\/p>\n<p>Nos dias de hoje, em alguns destes pa\u00edses ocidentais, o neofascismo, fragmentado no aspecto organizativo e marginalizado politicamente pela hegemonia liberal-conservadora, n\u00e3o vai al\u00e9m de uma constela\u00e7\u00e3o de ajuntamentos marginais pol\u00edticos e jovens de instru\u00e7\u00e3o e de emprego pelas pol\u00edticas neoliberais. Em outras circunst\u00e2ncias, manifesta-se sob a forma de partidos pol\u00edticos, clubes e associa\u00e7\u00f5es culturais integrados \u00e0 institucionalidade existente. Nestes \u00faltimos, adaptam sua ret\u00f3rica e seus m\u00e9todos \u00e0 atmosfera pol\u00edtica e intelectual dominante, atualizando e por vezes reformando suas ideias centrais. Deste modo, principalmente no mundo de fala alem\u00e3, as concep\u00e7\u00f5es mais diretamente referidas no nacionalismo rom\u00e2ntico (v\u00f6lkish) e no pangermanismo cedem espa\u00e7o para o nacionalismo xen\u00f3fobo, o racismo comunitarista (europeu) e diferencialista (ariano). A defesa aberta do nazismo e seus malfeitos s\u00e3o dissimulados pelas imposta\u00e7\u00f5es revisionistas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em um arco mais amplo de quest\u00f5es sociais e culturais, a pr\u00e9dica e a atua\u00e7\u00e3o dos grupos neofascistas na disputa pelo cora\u00e7\u00e3o das massas toma forma na condi\u00e7\u00e3o de uma exacerba\u00e7\u00e3o do conservadorismo. Nos temas referentes aos direitos civis, liberdade de escolha e livre orienta\u00e7\u00e3o sexual, estas forma\u00e7\u00f5es perfilam, sem maiores surpresas, com as demais for\u00e7as conservadoras do mundo no combate ao direito ao aborto, na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es feministas, na pouca sensibilidade para com as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas e na condena\u00e7\u00e3o do homossexualismo. Estes grupos costumam defender pol\u00edticas de \u201ctoler\u00e2ncia zero\u201d para delitos menores, reivindicando penas draconianas para pequenos furtos, ao passo que fazem vistas grossas para os crimes financeiros e esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. Quando conseguem representa\u00e7\u00e3o nos parlamentos, seus porta-vozes defendem a reeduca\u00e7\u00e3o pelo trabalho para viciados em drogas e op\u00f5em-se decididamente a que se reduza para menos a idade legal para a pr\u00e1tica de atividades homossexuais.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o: nazismo \u201cde esquerda\u201d para \u201clibert\u00e1rios\u201d de direita \u2013 um duplo caso de dislexia<\/strong><\/p>\n<p>No espectro pol\u00edtico da chamada \u201cNova Direita Brasileira\u201d, adquirem visibilidade crescente as a\u00e7\u00f5es, discursos e propostas dos chamados \u201clibert\u00e1rios de direita\u201d. J\u00e1 em sua autodesigna\u00e7\u00e3o, esta vertente manifesta seu descompromisso com a l\u00f3gica conceitual e sua aus\u00eancia de escr\u00fapulos na apropria\u00e7\u00e3o de um adjetivo elaborado muito anteriormente para a denomina\u00e7\u00e3o de posicionamento pol\u00edtico e ideol\u00f3gico profundamente distinto. Com efeito, a express\u00e3o \u201clibert\u00e1rio\u201d passou a ser empregada, no final do s\u00e9culo XIX, para definir concep\u00e7\u00f5es, propostas, grupos e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas integradas ou adjacentes ao campo da esquerda revolucion\u00e1ria, que demarcavam suas posi\u00e7\u00f5es em face dos socialismos tanto de inspira\u00e7\u00e3o marxista quanto reformista, atrav\u00e9s da pr\u00e9dica da destrui\u00e7\u00e3o imediata do estado, no processo de supera\u00e7\u00e3o da ordem burguesa-capitalista sem qualquer per\u00edodo intermedi\u00e1rio e sem a realiza\u00e7\u00e3o de quaisquer pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es. Seu n\u00edtido pertencimento \u00e0 esquerda era enfatizado nos substantivos aos quais habitualmente se encontrava associado: anarquismo libert\u00e1rio ou socialismo libert\u00e1rio. Sua utopia societ\u00e1ria apontava, n\u00e3o apenas para a elimina\u00e7\u00e3o completa do estado e todas as formas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m, a exemplo de outras correntes socialistas e revolucion\u00e1rias, para a supress\u00e3o do capital, da propriedade privada e do estado no processo de transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade autogestion\u00e1ria, formada pela livre associa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Atribui-se a Antonio Gramsci a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual o anarquismo teria as suas origens primevas na tradi\u00e7\u00e3o liberal e n\u00e3o no socialismo. Determinados autores, como Max Stirner e Henry David Thoreau, um te\u00f3rico da completa autonomia do indiv\u00edduo em face do estado e da sociedade, o outro propositor da t\u00e1tica da desobedi\u00eancia civil contra o poder da autoridade estatal, foram reivindicados, ao longo do tempo, tanto por anarquistas, quanto por liberais. Os \u201clibert\u00e1rios de direita\u201d de nossos dias encenam sua vincula\u00e7\u00e3o \u00e0 linhagem ideol\u00f3gica e intelectual anarquista, ao verbalizarem a proposi\u00e7\u00e3o de um \u201canarcocapitalismo\u201d (sic!), baseado na plena liberdade individual e na rejei\u00e7\u00e3o do poder do estado, por\u00e9m sua nebulosa identifica\u00e7\u00e3o com os seguidores de Bakunin e Malatesta se dissipa prontamente na enuncia\u00e7\u00e3o das bases materiais de seu projeto social: a propriedade privada como suporte da liberdade individual, a regula\u00e7\u00e3o da vida social pelo mercado, como sucessora do poder do estado.<\/p>\n<p>Organizados desde 1971 em um partido pol\u00edtico nos Estados Unidos e exercendo sua influ\u00eancia em significativas \u00e1reas da vida pol\u00edtica e cultural daquele pa\u00eds, os \u201clibert\u00e1rios de direita\u201d apresentam-se como um dos subprodutos da Contracultura dos anos 1960. Em seus aspectos exteriores esta vertente ideol\u00f3gica paga tributo \u00e0 atmosfera do tempo que a originou. Da Nova Esquerda estadunidense constitu\u00edda naqueles anos, recebeu a influ\u00eancia da rebeli\u00e3o contra os elementos program\u00e1ticos e organizativos das tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que se cristalizaram, ao longo do s\u00e9culo XX, naquela sociedade norte-americana. De seu apre\u00e7o pelo \u201cnovo\u201d emerge sua determina\u00e7\u00e3o em se diferenciar do \u201cvelho\u201d liberalismo estadunidense, acomodado \u00e0s regras do New Deal desde a d\u00e9cada de 30, \u201cleniente\u201d em face das pol\u00edticas \u201cintervencionistas\u201d e reguladoras, \u201cc\u00famplice\u201d do acordo do estado com os sindicatos de trabalhadores. Enquanto \u201clibert\u00e1rios\u201d, por\u00e9m, demarca toda posi\u00e7\u00e3o em face do neoconservadorismo crescente na sociedade estadunidense das \u00faltimas d\u00e9cadas contrapondo as interdi\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es contra reivindica\u00e7\u00f5es e direitos j\u00e1 conquistados de mulheres, negros e homossexuais, a intocabilidade dos direitos individuais, desde que devidamente assentados sobre a propriedade, a riqueza e o poder de compra de cada um (27).<\/p>\n<p>Em termos gerais, os \u201cneolibert\u00e1rios\u201d atualizam os temas do pensamento liberal do s\u00e9culo XIX, j\u00e1 reciclado pela interven\u00e7\u00e3o dos autores da Escola Austr\u00edaca do pensamento econ\u00f4mico de meados do s\u00e9culo XX e pelos neoliberais monetaristas das \u00faltimas cinco ou seis d\u00e9cadas. Requentando antigas utopias individualistas, mercadoc\u00eantricas e antiestatistas, fazem-no, entretanto, parcial e condicionalmente. Rejeitam toda e qualquer interven\u00e7\u00e3o do estado no processo de regula\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas (at\u00e9 mesmo no que se refere ao monop\u00f3lio da moeda e da implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas monet\u00e1rias), nas rela\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho, nos processos de produ\u00e7\u00e3o e redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza produzida socialmente; por\u00e9m n\u00e3o podem dispensar o exerc\u00edcio do papel coercitivo do estado na repress\u00e3o aos indiv\u00edduos, grupos, movimentos e classes sociais que n\u00e3o aceitem as regras contratuais da sociedade do \u201clivre mercado\u201d ou desrespeitem o princ\u00edpio da soberania absoluta da propriedade privada, defendendo at\u00e9 mesmo \u201cditaduras tempor\u00e1rias\u201d e formas aristocr\u00e1ticas de exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>Na noite mercantilizada dos indiv\u00edduos propriet\u00e1rios, todos os estados intervencionistas s\u00e3o vermelhos e pardos. Assim, os fascistas, elogiados um dia por Mises, como uma alternativa v\u00e1lida para a defesa do capital e da propriedade, converteram-se depois em furibundos inimigos das liberdades, individuais e econ\u00f4micas, portadores de concep\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, \u201cpopulistas\u201d e liberticidas, de extra\u00e7\u00e3o socialista, do mesmo tipo da de seus concorrentes, os comunistas. Estava instaurada uma das mais espetaculares simplifica\u00e7\u00f5es conceituais da hist\u00f3ria do pensamento pol\u00edtico de todos os tempos: a inscri\u00e7\u00e3o dos fascismos no campo das esquerdas e a identifica\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e estrutural entre fascistas, socialistas e comunistas.<\/p>\n<p>Por mais persuasiva e convincente que esta infundada redu\u00e7\u00e3o possa parecer aos olhos e ouvidos de pessoas dotadas de intelecto pregui\u00e7oso, ou pouco instru\u00eddo e suscet\u00edvel ao poder da propaganda, ela evidencia o esgotamento dos recursos imaginativos da consci\u00eancia liberal, na \u00e9poca de realiza\u00e7\u00e3o de suas mais sombrias distopias. O m\u00e1ximo volume de sua reverbera\u00e7\u00e3o preceder\u00e1 o canto de cisne da credibilidade das ag\u00eancias e sujeitos que tiverem tido a infelicidade de aprego\u00e1-la.<\/p>\n<p>*Professor do Departamento de Hist\u00f3ria e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Membro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p>1 CONSTANT, Benjamin. \u201cDa liberdade dos antigos comparada \u00e0 dos modernos (1819)\u201d. Revista Filosofia Pol\u00edtica no. 2,1985.<br \/>\n2 MAYER, Arno J. \u201cA burguesia se inclina\u201d. A For\u00e7a da Tradi\u00e7\u00e3o \u2013 A persist\u00eancia do Antigo Regime. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1987. Ver tamb\u00e9m, SCHORSKE, Carl E. Viena Fin-de-Si\u00e8cle. S\u00e3o Paulo: UNICAMP\/Companhia das Letras, 1988. (Cap\u00edtulo I)<br \/>\n3 Cf. GOOBY-TAYLOR, Peter. \u201cWelfare, hierarquia e \u2018nova direita\u2019 na era Thatcher\u201d. Lua Nova, No. 24, Setembro de 1991.<br \/>\n4 BRESCIANI, Maria Stella. \u201cO pensamento pol\u00edtico conservador ap\u00f3s a Comuna de Paris\u201d. In: BOITO JR., Armando (org). A Comuna de Paris na Hist\u00f3ria. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3, 2001.<br \/>\n5 Cf.MAYER, Arno J. Op. cit. 1987. 6STERNHELL, Zeev. \u201cA modernidade e seus inimigos!\u201d. In: STERNHELL, Zeev (Org.). O Eterno retorno \u2013 Contra a Democracia a ideologia da decad\u00eancia. Lisboa: Editorial Biz\u00e2ncio, 1999.<br \/>\n7 BENNER, Erica. Really Existing Nationalisms \u2013 A Post Communist View from Marx and Engels. Oxford: Clarendon Press, 1996.<br \/>\n8 Cf. GRAY, John. Falso Amanhecer: os equ\u00edvocos do capitalismo global; tradu\u00e7\u00e3o Max Altman. Rio de Janeiro: Record, 1999.<br \/>\n9 LOSURDO, Domenico. \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o, a na\u00e7\u00e3o e a paz\u201d. Estudos Avan\u00e7ados, 22 (62), 2008.<br \/>\n10 HOBSBAWM, Eric. \u201cA Constru\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es\u201d. A Era do Capital. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1996.<br \/>\n11 HOBSBAWM, Eric. A Era dos Imp\u00e9rios. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2009. 12Cf. MAYER, Arno J. Op. cit., 1987.<br \/>\n13 HOBSBAWM, Eric. Na\u00e7\u00f5es e Nacionalismo desde 1780. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2013.<br \/>\n14 LOSURDO, Domenico. \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o, a na\u00e7\u00e3o e a paz\u201d. Estudos Avan\u00e7ados, 22 (62), 2008.<br \/>\n15 Sobre a I Internacional ver: COLE, G. D. H. Historia del Pensamiento Socialista. Vol. II, M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 1975. A respeito da Segunda: CARONE, Edgard. A II Internacional Pelos Seus Congressos (1889-1914). S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1993.<br \/>\n16 Cf. LENIN, V.I. \u201cA Guerra e a Social-Democracia da R\u00fassia\u201d. Obras Escolhidas em Tr\u00eas Tomos, 1977, Edi\u00e7\u00f5es Avante! \u2013 Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es Progresso, Moscovo, pp 557-564.<br \/>\n17 GRAMSCI, Antonio. Sobre el Fascismo. Mexico D.F.: Ediciones Era, 1979.<br \/>\n18 Alguns \u201cmodernistas reacion\u00e1rios\u201d, em particular Ernest J\u00fcnger, que fora militar e combatera nas trincheiras da Primeira Grande Guerra, identificavam na solidariedade constru\u00edda no front, nos la\u00e7os de sangue institu\u00eddos entre os combatentes e no hero\u00edsmo patri\u00f3tico dos que se sacrificaram pela Alemanha as bases para a reconstru\u00e7\u00e3o da unidade da na\u00e7\u00e3o alem\u00e3. N\u00e3o \u00e9 preciso enfatizar aqui em que medida tais formula\u00e7\u00f5es antecipam o discurso de Hitler e seus seguidores. Sobre a vida e as ideias de J\u00fcnger e outros modernistas reacion\u00e1rios ver HERF, Jeffrey. O modernismo reacion\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Editora Ensaio, 1993.<br \/>\n19 TOGLIATTI, Palmiro. Lecciones Sobre El Fascismo. Mexico D.F. Ediciones de Cultura Popular, 1977.<br \/>\n20 TREVOR-ROPER, H. R. \u201cHitler\u00b4s War Aims\u201d In KOCH, H. W. Aspects of the Third Reich. Londres: Macmillan Education, 1988.<br \/>\n21 \u201cRevisionismo\u201d aqui, diz respeito \u00e0 revis\u00e3o dos termos do Tratado de Versalhes, considerados desfavor\u00e1veis ao estado alem\u00e3o.<br \/>\n22 Acerca do Franquismo e sua rela\u00e7\u00e3o com a Falange Espanhola ver, PEREIRA, Ana Brea et alii. Hist\u00f3ria de Espa\u00f1a Contempor\u00e2nea. A Coru\u00f1a: Bahia Edici\u00f3ns, 1997. Sobre o salazarismo: REZOLA, Maria In\u00e1cia. \u201cA igreja cat\u00f3lica nas origens do salazarismo\u201d. Locus: Revista de hist\u00f3ria, Juiz de Fora, v.18, n.1, p. 69-88, 2012.<br \/>\n23 FERREIRA, Muniz. \u201c\u2018Do passado vem a tempestade\u2019 \u2013 notas historiogr\u00e1ficas sobre as pol\u00edticas externas do Terceiro Reich Alem\u00e3o\u201d. In Caderno de Estudos e Pesquisas, Ano VIII, No. 19, jan\/abr, 2004. 24 Acerca das interpreta\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas de Nolte, ver o artigo de Demian Melo no Blog Junho, intitulado \u201cErnst Nolte e a historiografia revisionista\u201d. http:\/\/blogjunho.com.br\/ernst-nolte-e-ahistoriografia-revisionista\/. Acessado em 02\/09\/2017.<br \/>\n25 Ver, a este respeito, LOSURDO, Domenico. Stalin \u2013 Hist\u00f3ria cr\u00edtica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004.<br \/>\n26 Sobre Leo Strauss e o neoconservadorismo, ver ANDERSON, Perry. Spectrum \u2013 de La derecha a La izquierda em El mundo de l\u00e3s ideas. Madri: Ediciones Akal, 2008.<br \/>\n27 Cf. AUGUSTO, Andr\u00e9 Guimar\u00e3es. O que est\u00e1 em jogo no \u201cMais Mises, menos Marx\u201d. http:\/\/marxismo21.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Mises-Marx.pdf . Acesso em 02\/09\/2017.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>ANDERSON, Perry. Spectrum \u2013 de La derecha a La izquierda em El mundo de lasideas. Madri: Ediciones Akal, 2008.<br \/>\nAUGUSTO, Andr\u00e9 Guimar\u00e3es. O que est\u00e1 em jogo no \u201cMais Mises, menos Marx\u201d. http:\/\/marxismo21.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Mises-Marx.pdf. Acesso em 02\/09\/2017.<br \/>\nBENNER, Erica. Really Existing Nationalisms \u2013 A Post Communist View from Marx and Engels. Oxford: Clarendon Press, 1996.<br \/>\nBRESCIANI, Maria Stella. \u201cO pensamento pol\u00edtico conservador ap\u00f3s a Comuna de Paris\u201d. In: BOITO JR., Armando (org). A Comuna de Paris na Hist\u00f3ria. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3, 2001.<br \/>\nCONSTANT, Benjamin. \u201cDa liberdade dos antigos comparada \u00e0 dos modernos (1819)\u201d. Revista Filosofia Pol\u00edtica no. 2,1985.<br \/>\nCARONE, Edgard. A II Internacional Pelos Seus Congressos (1889-1914). S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1993.<br \/>\nCOLE, G. D. H. Historia del Pensamiento Socialista. Vol. II, M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 1975.<br \/>\nFALCON, Francisco e MOURA, Gerson. \u201cA fase de forma\u00e7\u00e3o da sociedade liberal\u201d. A Forma\u00e7\u00e3o do Mundo Contempor\u00e2neo. Rio de Janeiro: Editora Campus.<br \/>\nFERREIRA, Muniz. \u201c\u2018Do passado vem a tempestade\u2019 \u2013 notas historiogr\u00e1ficas sobre as pol\u00edticas externas do Terceiro Reich Alem\u00e3o\u201d. In Caderno de Estudos e Pesquisas, Ano VIII, No. 19, jan\/abr, 2004.<br \/>\nGOOBY-TAYLOR, Peter. \u201cWelfare, hierarquia e \u2018nova direita\u2019 na era Thatcher\u201d. Lua Nova, No. 24, Setembro de 1991.<br \/>\nGRAMSCI, Antonio. Sobre el Fascismo. Mexico D.F.: Ediciones Era, 1979.<br \/>\nGRAY, John. Falso Amanhecer: os equ\u00edvocos do capitalismo global; tradu\u00e7\u00e3o Max Altman. Rio de Janeiro: Record, 1999.<br \/>\nHERF, Jeffrey. O modernismo reacion\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Editora Ensaio, 1993.<br \/>\nHOBSBAWM, Eric. A Era do Capital. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1996.<br \/>\nHOBSBAWM, Eric. A Era dos Imp\u00e9rios. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2009.<br \/>\nHOBSBAWM, Eric. Na\u00e7\u00f5es e Nacionalismo desde 1780. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2013.<br \/>\nLENIN, V.I. \u201cA Guerra e a Social-Democracia da R\u00fassia\u201d. Obras Escolhidas em Tr\u00eas Tomos. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Avante!; Moscovo: Edi\u00e7\u00f5es Progresso, 1977, pp 557-564.<br \/>\nLOSURDO, Domenico. \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o, a na\u00e7\u00e3o e a paz\u201d. Estudos Avan\u00e7ados, 22 (62), 2008.<br \/>\nLOSURDO, Domenico. Stalin \u2013 Hist\u00f3ria cr\u00edtica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004.<br \/>\nMAYER, Arno J. A For\u00e7a da Tradi\u00e7\u00e3o \u2013 A persist\u00eancia do Antigo Regime. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1987.<br \/>\nMELO, Demian. \u201cErnst Nolte e a historiografia revisionista\u201d. Blog Junho: http:\/\/blogjunho.com.br\/ernst-nolte-e-a-historiografia-revisionista\/. Acessado em 02\/09\/2017.<br \/>\nPEREIRA, Ana Brea et alii. Hist\u00f3ria de Espa\u00f1a Contempor\u00e2nea. A Coru\u00f1a: Bahia Edici\u00f3ns, 1997.<br \/>\nREZOLA, Maria In\u00e1cia. \u201cA igreja cat\u00f3lica nas origens do salazarismo\u201d\u201d. Locus: revista de Hist\u00f3ria, Juiz de Fora, v.18, n.1, p. 69-88, 2012.<br \/>\nRUD\u00c9, George. \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1848\u201d. A Multid\u00e3o na Hist\u00f3ria. Rio de Janeiro: Editora Campus.<br \/>\nSCHORSKE, Carl E. Viena Fin-de-Si\u00e8cle. S\u00e3o Paulo: UNICAMP\/Companhia das Letras, 1988.<br \/>\nSTERNHELL, Zeev. \u201cA modernidade e seus inimigos!\u201d. In: STERNHELL, Zeev (Org.). O Eterno retorno \u2013 Contra a Democracia a ideologia da decad\u00eancia. Lisboa: Editorial Biz\u00e2ncio, 1999.<br \/>\nTOGLIATTI, Palmiro. Lecciones Sobre El Fascismo. Mexico D.F.: Ediciones de Cultura Popular, 1977.<br \/>\nTREVOR-ROPER, H. R. \u201cHitler\u00b4s War Aims\u201d In KOCH, H. W. Aspects of the Third Reich. Londres: Macmillan Education, 1988.<\/p>\n<p>Texto publicado no livro \u201cTempos conservadores: estudos cr\u00edticos sobre as direitas\u201d, volume 3.<\/p>\n<p>https:\/\/temposconservadores.blogspot.com\/2020\/01\/saiu-o-volume-3-tempos-conservadores.html<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29256\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,1,33],"tags":[225],"class_list":["post-29256","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s7-formacao-politica","category-geral","category-c34-marxismo","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7BS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29256"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30278,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29256\/revisions\/30278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}