{"id":29288,"date":"2022-10-04T11:18:41","date_gmt":"2022-10-04T14:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29288"},"modified":"2022-10-04T11:18:41","modified_gmt":"2022-10-04T14:18:41","slug":"ogun-na-luta-de-classes-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29288","title":{"rendered":"\u00d2g\u00fan na luta de classes do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-2022-10-03T191219.399.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Guilherme Rom\u00e3o &#8211; militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira<\/p>\n<p>&#8220;Eu o sa\u00fado<br \/>\nQue eu n\u00e3o depare com sua ira<br \/>\nEu sa\u00fado \u00d2g\u00fan<br \/>\nEu o sa\u00fado, aquele que tem \u00e1gua em casa, mas prefere banho de sangue<br \/>\nQue o sangue caia no ch\u00e3o para que haja paz e tranq\u00fcilidade&#8221;<\/p>\n<p>(Trecho de um Oriki &#8211; poema de louvor &#8211; de \u00d2g\u00fan)<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVIII, com a chegada dos primeiros iorub\u00e1s, na condi\u00e7\u00e3o de escravizados, advindos do territ\u00f3rio que hoje \u00e9 Benin e Nig\u00e9ria, na \u00c1frica, chegou tamb\u00e9m \u00d2g\u00fan. Num tumbeiro o Orix\u00e1 agricultor, ferreiro e guerreiro &#8211; que segundo a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 irm\u00e3o de Ex\u00fa e de Ox\u00f3ssi &#8211; foi o respons\u00e1vel por abrir a estrada para os demais Orix\u00e1s do Orum (mundo espiritual) ao Aiy\u00ea (mundo f\u00edsico) e a ensinar \u00e0 humanidade o dom\u00ednio do fogo e do ferro, como material primordial na forja de ferramentas para o desenvolvimento tecnol\u00f3gico de seu trabalho.<\/p>\n<p>\u00d2g\u00fan teve lentamente sua caracter\u00edstica de guerreiro elevada em detrimento das demais, devido \u00e0s necessidades materiais imediatas de seus fi\u00e9is. Pelos itans (par\u00e1bolas tradicionais) \u00d2g\u00fan \u00e9 o orix\u00e1 que, quando tomado pela ira, se torna o mais brutal e implac\u00e1vel guerreiro, aquele que tem o t\u00edtulo de Ologun (senhor da guerra), e que mesmo tendo \u00e1gua em casa prefere se banhar com o sangue dos inimigos. Tal exalta\u00e7\u00e3o hoje, por muitas vezes, ignora que a motiva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de resili\u00eancia perante a explora\u00e7\u00e3o. \u00d2g\u00fan \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da guerra como \u00faltima e mais radical forma de defesa do seu territ\u00f3rio perante a domina\u00e7\u00e3o estrangeira. \u00c9 a guerra de resist\u00eancia a fim de preservar seus recursos e a autonomia para desenvolver suas for\u00e7as produtivas atrav\u00e9s da tecnologia.<\/p>\n<p>Frantz Fanon certa vez disse que o colonialismo n\u00e3o \u00e9 um corpo dotado de raz\u00e3o e sim a viol\u00eancia em seu estado puro e que s\u00f3 se submete perante uma viol\u00eancia ainda maior por parte dos condenados da terra. Para ilustrar isso tem uma cantiga de \u00d2g\u00fan, da tradi\u00e7\u00e3o de Ketu que diz:<\/p>\n<p>&#8220;Seu poder nos protege nas lutas, \u00d2g\u00fan Onir\u00e8<\/p>\n<p>Pedimos que use as suas armas para vencer nossas lutas<\/p>\n<p>\u00d2g\u00fan Akoro pedimos que nos d\u00ea for\u00e7as e nos ajude a vencer nossas lutas&#8221;<\/p>\n<p>Em territ\u00f3rio brasileiro e sob a carga hist\u00f3rica de luta organizada em quilombos, a figura de \u00d2g\u00fan al\u00e9m de virar o s\u00edmbolo de prote\u00e7\u00e3o para as casas das comunidades terreiros &#8211; atrav\u00e9s da folha de mari\u00f4 (folha de palmeira) no batente das portas, como quem diz &#8220;\u00d2g\u00fan protege essa casa e comunidade tanto no mundo f\u00edsico quanto espiritual&#8221; &#8211; para os iorub\u00e1s, agora sob o a\u00e7oite do modo de produ\u00e7\u00e3o colonial e em territ\u00f3rio estrangeiro, passa a ser tamb\u00e9m a lideran\u00e7a para liberdade almejada, tendo em vista que a urg\u00eancia era a de insubordina\u00e7\u00e3o e sede de sangue do seus exploradores e opressores. A situa\u00e7\u00e3o concreta imp\u00f4s aos negros a necessidade da luta e ela foi acatada, tanto antes quanto depois da chegada do orix\u00e1 ao Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;\u00d2g\u00fan, dono de dois fac\u00f5es,<\/p>\n<p>Usou um deles para preparar a horta<\/p>\n<p>e o outro para abrir caminho.<\/p>\n<p>No dia em que \u00d2g\u00fan vinha da montanha<\/p>\n<p>ao inv\u00e9s de roupa usou fogo para se cobrir<\/p>\n<p>E vestiu roupa de sangue.&#8221;<\/p>\n<p>(Trecho de um Oriki de \u00d2g\u00fan)<\/p>\n<p>Iy\u00e1 Akal\u00e1, Iy\u00e1 Adet\u00e1 e Iy\u00e1 Nass\u00f4, nomes que foram preservados pela tradi\u00e7\u00e3o oral s\u00e3o as respons\u00e1veis pela base do culto aos orix\u00e1s, atrav\u00e9s do primeiro terreiro de candombl\u00e9 do Brasil, a Casa Branca do Engenho Velho (Il\u00ea Ax\u00e9 Iya Nass\u00f4 Ok\u00e1), que firmou as suas ra\u00edzes na Bahia. Terreiro esse que anos mais tarde teria como um de seus filhos Carlos Marighella. O espa\u00e7o terreiro foi, e \u00e9 para negros e negras, historicamente, um espa\u00e7o religioso, pol\u00edtico e de planejamento t\u00e1tico-estrat\u00e9gico. E \u00d2g\u00fan funcionou nesses locais como d\u00ednamo e s\u00edmbolo da luta para subverter a ordem social vigente.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o preta sempre infligiu medo ao modo de produ\u00e7\u00e3o colonial. Palmares e a Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana &#8211; que inclusive teve seu pontap\u00e9 inicial num ritual de Vodu, onde dentre outras divindades o orix\u00e1 guerreiro tamb\u00e9m foi exaltado &#8211; fez com que, tanto a igreja cat\u00f3lica com o sincretismo e a demoniza\u00e7\u00e3o, quanto a pol\u00edcia criminalizando os cultos de matriz africana, n\u00e3o fossem suficientes para subjugar culturalmente e nem para apagar o car\u00e1ter belicoso de \u00d2g\u00fan da mente e dos cora\u00e7\u00e3o de todos aqueles, pretos ou n\u00e3o, que n\u00e3o aceitavam dobrar os joelhos e evitar o bom combate.<\/p>\n<p>Haja visto que, sob o sincretismo, \u00d2g\u00fan vira S\u00e3o Jorge guerreiro e que hoje \u00e9 s\u00edmbolo e o santo de simpatizantes de religi\u00f5es negras, umbandistas e todos aqueles que de, certa forma, se relacionam com a marginalidade imposta, \u00e9 impressionante como, tanto \u00d2g\u00fan quanto S\u00e3o Jorge est\u00e3o presentes no cotidiano do trabalhador brasileiro. Seja nos medalh\u00f5es nos pesco\u00e7os perif\u00e9ricos, seja em imagens na prateleira mais alta de um bar ou seja no assentamento na porta e ao lado de seu irm\u00e3o Ex\u00fa, feito do mais puro ferro, onde quem passa deixa seu quinh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00d2g\u00fan, de t\u00e3o pr\u00f3ximo aos humanos que \u00e9, como um Prometeu que n\u00e3o foi punido por seu amor a humanidade, se recusa a viver no mais alto patamar das divindades e prefere, assim como Ex\u00fa, caminhar entre n\u00f3s e est\u00e1 presente em cada movimento mec\u00e2nico, no trabalho cotidiano e, principalmente, nos atos de resist\u00eancia. \u00c9 o ferro que moldado prefere ser valorizado por seu aux\u00edlio \u00e0 vida, mas \u00e9 \u00fatil na viol\u00eancia, caso necess\u00e1rio. Exaltado por Tinco\u00e3s, Alcione, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Clara Nunes e Racionais MCs, \u00d2g\u00fan \u00e9 imortal na cultura marginal brasileira. E \u00e9 exatamente onde ele prefere estar: na roda de samba, comendo feijoada em abril.<\/p>\n<p>Assim, em um momento de radicaliza\u00e7\u00e3o da luta de classes no Brasil, devemos lembrar que luta significa agress\u00e3o m\u00fatua e ningu\u00e9m melhor que \u00d2g\u00fan para nos ensinar que a luta \u00e9 necess\u00e1ria para a resist\u00eancia, para a constru\u00e7\u00e3o da estrada do progresso de nossas vidas e para a obten\u00e7\u00e3o da nossa verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o e para que um dia possamos usar as ferramentas tecnol\u00f3gicas para nossos interesses.<\/p>\n<p>Como sua pr\u00f3pria sauda\u00e7\u00e3o diz, \u00d2G\u00daN Y\u00c8! (\u00d2G\u00daN VIVE!)<\/p>\n<p>Pela autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos colonizados!<\/p>\n<p>Pelo poder popular!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29288\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[223],"class_list":["post-29288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Co","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}