{"id":29321,"date":"2022-10-13T16:27:01","date_gmt":"2022-10-13T19:27:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29321"},"modified":"2022-10-13T16:27:01","modified_gmt":"2022-10-13T19:27:01","slug":"o-rap-e-a-revolucao-entrevista-com-don-l","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29321","title":{"rendered":"O rap e a revolu\u00e7\u00e3o: entrevista com Don L"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-2022-10-13T162329.627.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Pedro Diniz via Revista O Ip\u00ea<\/p>\n<p>&#8220;Lutar do lado errado \u00e9 j\u00e1 perder a guerra<br \/>\nDo lado certo a gente vence mesmo quando perde<br \/>\nE quando vence, vence duas vezes&#8221; Don L<\/p>\n<p>No dia 6 de agosto de 2022, o famoso coro do Partid\u00e3o de \u201cLutar, Criar, Poder Popular!\u201d foi o que ecoou no eixo cultural Ibero-americano pela noite de Bras\u00edlia. Endossado por Don L no palco, o p\u00fablico bradava as palavras de ordem, criando uma atmosfera inconformada e esperan\u00e7osa em um show onde a busca pelo poder popular era o fio condutor da cr\u00edtica e da rima.<\/p>\n<p>Era uma atmosfera criada por uma paix\u00e3o quase aristot\u00e9lica, movendo o p\u00fablico de uma situa\u00e7\u00e3o de in\u00e9rcia para a a\u00e7\u00e3o: a a\u00e7\u00e3o do questionamento e da poesia. As vozes un\u00edssonas cantando que temos \u201cp\u00e2nico de nada\u201d pois \u201celes sangram como eu sangro\u201d; os rostos que por a\u00e7\u00e3o dos canh\u00f5es de luz e fluir do suor no rosto iam espocando iluminados em meio \u00e0 penumbra da noite; o movimento dos corpos dan\u00e7ando em meio ao p\u00f3 da terra seca do DF \u2013 eram todos elementos que contribu\u00edam para a aura de paix\u00e3o revolucion\u00e1ria que crescia ali.<\/p>\n<p>Foi com esse cen\u00e1rio v\u00edvido em mente, as vozes j\u00e1 desgastadas da catarse musical que hav\u00edamos passado e a ansiedade pelo o que viria, que a revista O Ip\u00ea teve o prazer de entrevistar Don L.<\/p>\n<p>RI: Qual o papel do rap na vindoura revolu\u00e7\u00e3o brasileira?<br \/>\nDon L: Acho que o rap, assim como outros estilos de m\u00fasica popular brasileira, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o cultural para que a gente possa se ver como um povo, um coletivo em luta pela revolu\u00e7\u00e3o e um pa\u00eds com poder popular onde um povo tenha autonomia. Mas acho que n\u00e3o s\u00f3 o rap, mas tamb\u00e9m outros estilos de m\u00fasica t\u00eam esse papel de ser uma constru\u00e7\u00e3o cultural nossa como povo.<\/p>\n<p>RI: Ent\u00e3o tocar\u00e1 boombap ao fundo da revolu\u00e7\u00e3o?<br \/>\nDon L: \u2018Pode p\u00e1\u2019! Muito boombap, muito samba, muito trap\u2026 O Brasil \u00e9 muito rico culturalmente. De uma ponta a outra do pa\u00eds n\u00f3s temos muitos ritmos e essa diversidade estar\u00e1 toda presente, eu tenho certeza disso.<\/p>\n<p>RI: J\u00e1 entrando na seara do RPA2 [Roteiro Pra A\u00efnouz, vol.2, \u00faltimo disco de est\u00fadio de Don L]: um ponto que a gente percebe \u00e9 que o \u00e1lbum tem uma cronologia hist\u00f3rica, come\u00e7ando com a explora\u00e7\u00e3o em Vila Rica chegando at\u00e9 a Volta da Vit\u00f3ria. E isso nos traz uma sensa\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a, pois \u00e9 um \u00e1lbum que foge do pessimismo de uma guerrilha que perde, mas fala sobre a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o. E voc\u00ea? Qual o seu otimismo quanto \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o brasileira?<br \/>\nDon L: Eu acho que \u00e9 inevit\u00e1vel, \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o ou \u00e9 o fim. \u00c9 o capitalismo ou barb\u00e1rie mesmo, porque a gente n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o. E essa parada de colocar o passado e o futuro [no \u00e1lbum] d\u00e1 uma distanciada melhor e voc\u00ea consegue ver o seu tempo hist\u00f3rico com mais clareza. Porque \u00e0s vezes parece que j\u00e1 passou muito tempo ou que a gente j\u00e1 perdeu por estar em um ponto muito distante das nossas \u00faltimas vit\u00f3rias. Mas se voc\u00ea puder colocar um distanciamento maior, isso tudo pode fazer parte de um pequeno momento da nossa hist\u00f3ria em que a gente teve dificuldades, mas que enfim fomos vitoriosos.<\/p>\n<p>RI: E um ponto que \u00e9 muito candente em todo mundo que se percebe enquanto comunista s\u00e3o as chaves de virada da sua radicaliza\u00e7\u00e3o. Qual foi a chave de virada da radicaliza\u00e7\u00e3o do Don L?<br \/>\nDon L: Eu tive v\u00e1rios momentos de radicaliza\u00e7\u00e3o na minha vida pessoal. Mas a compreens\u00e3o pol\u00edtica vem aos poucos. Ent\u00e3o eu acho que eu n\u00e3o tive um \u201cmomento X\u201d, t\u00e1 ligado? Foi uma constru\u00e7\u00e3o lenta que veio com a minha viv\u00eancia pessoal. E voc\u00ea viver nesse pa\u00eds da maneira como ele \u00e9, com esse n\u00edvel de viol\u00eancia, e tentar pensar uma solu\u00e7\u00e3o e um futuro para o pa\u00eds torna a radicaliza\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel. Ela vem com o estudo, vem com voc\u00ea conseguindo entender a hist\u00f3ria, de onde vem os nossos problemas e onde voc\u00ea se encontra agora. E comigo foi muito isso: foi por causa de uma busca e de n\u00e3o ver concilia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Precisamos de grandes rupturas para poder mudar. Porque a gente est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o, assim como sempre estivemos, que \u00e9 muito violenta.<\/p>\n<p>RI: Um ponto marcante no teu \u00e1lbum, seja em sua parte l\u00edrica ou no uso dos visualizers, \u00e9 que seu conceito \u00e9 perpassado pela interse\u00e7\u00e3o das artes. Na pr\u00f3pria letra, \u00e9 poss\u00edvel ver uma narrativa c\u00eanica se desenrolando, visualizar as cenas descritas. Al\u00e9m disso, o \u00e1lbum se chama Roteiro para A\u00efnouz, o que exp\u00f5e o v\u00ednculo de seu contexto com o diretor Karim A\u00efnouz. Como voc\u00ea faz essa miscel\u00e2nea de artes na sua composi\u00e7\u00e3o?<br \/>\nDon L: Eu sempre tive essa parada de ter uma rima visual, as pessoas j\u00e1 me diziam isso antes de eu pensar a minha rima assim. E eu acho que a forma como eu componho j\u00e1 \u00e9 assim naturalmente, porque sempre que eu estou compondo eu vejo as imagens, isso acaba se materializando na m\u00fasica e as pessoas sentem. Pois eu sempre fico pensando como um filme e foi por a\u00ed que eu decidi fazer uma trilogia, porque eu j\u00e1 componho desse jeito.<\/p>\n<p>E sobre essa quest\u00e3o da mistura de artes e as diversas influ\u00eancias: tem a ver com a minha ambi\u00e7\u00e3o art\u00edstica de querer dialogar com outros tipos de arte, com artes visuais para trazer uma imers\u00e3o, uma experi\u00eancia completa. E eu acho que o di\u00e1logo entre as artes \u00e9 meio tabu, pois as pessoas dialogam pouco a m\u00fasica com as artes visuais, com a videoarte. Pois a gente tem isso feito muito mediado pelo mercado, ou \u00e9 uma coisa hollywoodiana, ou algo muito cult destinado a uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o que tenha acesso a uma \u2018alta cultura\u2019.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu tento fazer algo que dialoga com uma certa tradi\u00e7\u00e3o cultural brasileira \u2013 que \u00e9 popular, mas \u00e0s vezes \u00e9 elitizada \u2013 trazendo para uma acessibilidade popular com imers\u00e3o, trazendo para as pessoas que curtem rap \u2013 que \u00e9 uma m\u00fasica extremamente popular \u2013 um acesso para uma outra coisa, um \u2018bagulho\u2019 mais requintado de arte. Pois isso tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de exclus\u00e3o, separando as artes.<\/p>\n<p>RI: Para finalizar: qual o recado que voc\u00ea pode deixar para a garotada do meio do rap que \u00e9 bombardeada diuturnamente com ideologia burguesa \u2013 por vezes de dentro da pr\u00f3pria cena de rap \u2013 sempre ensinando que o objetivo \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o de capital?<br \/>\nDon L: Acho que devemos observar a realidade. Observar as coisas que est\u00e3o acontecendo \u00e0 nossa volta, pois essa \u00e9 a maior escola. Ser sagaz em tentar colocar os discursos que a gente recebe na sua imagina\u00e7\u00e3o para ver se faz sentido, porque se voc\u00ea observar bem, voc\u00ea ver\u00e1 que n\u00e3o faz muito sentido.<\/p>\n<p>A gente precisa sair desse estado de sono e despertar um pouco para um estado de mais consci\u00eancia da realidade, mas lidando com as nossas contradi\u00e7\u00f5es sempre. Pois somos seres que vivemos em um tempo hist\u00f3rico e vivemos dentro do capitalismo, e temos as nossas contradi\u00e7\u00f5es dentro desse sistema que temos que aprender a lidar. Mas sempre sem perder o horizonte de uma mudan\u00e7a concreta. E a luta \u00e9 coletiva.<\/p>\n<p>A gente \u00e9 sempre bombardeado com essa hist\u00f3ria do indiv\u00edduo, que a mudan\u00e7a est\u00e1 nas costas do indiv\u00edduo, e eu n\u00e3o quero fazer isso. N\u00e3o quero dar um recado para o moleque que t\u00e1 come\u00e7ando o rap, como se a responsa fosse toda dele. Porque sen\u00e3o fica aquele bagulho: \u201cvou na minha quebrada distribuir cesta b\u00e1sica\u201d. E isso n\u00e3o vai mudar a realidade, entendeu? Eu acho que t\u00e1 mais para a gente se ver como parte de um coletivo e enquanto coletivo a gente pensar no que a gente pode fazer para uma mudan\u00e7a efetiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29321\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Uma conversa com o rapper Don L sobre qual o papel do rap na revolu\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria, radicaliza\u00e7\u00e3o e m\u00fasica.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[226],"class_list":["post-29321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7CV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29321"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29321\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}