{"id":29338,"date":"2022-10-16T08:13:11","date_gmt":"2022-10-16T11:13:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29338"},"modified":"2022-10-16T08:13:11","modified_gmt":"2022-10-16T11:13:11","slug":"os-nossos-valores-sequestrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29338","title":{"rendered":"Os \u00abnossos valores\u00bb sequestrados"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/unnamed-9.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o via ABRIL ABRIL<\/strong><\/p>\n<p>[Foto: Cr\u00e9ditosStephanie Lecocq \/ EPA]<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma ordem \u00abbaseada em regras\u00bb: a lei do \u00abexcepcionalismo\u00bb de \u00e2mbito planet\u00e1rio gerido pela \u00fanica na\u00e7\u00e3o \u00abindispens\u00e1vel\u00bb. E dizem os comentadores autorizados que n\u00e3o existe imperialismo.<\/p>\n<p>Os nossos dirigentes, tanto os que t\u00eam envergadura imperial como os seus s\u00faditos, para quem a soberania nacional \u00e9 coisa arcaica pr\u00f3pria de mentes estagnadas, repetem sem descanso, martelando a cabe\u00e7a dos cidad\u00e3os como no m\u00e9todo tradicional de ensino da tabuada, que agimos em fun\u00e7\u00e3o dos \u00abnossos valores partilhados\u00bb. N\u00f3s, o garboso Ocidente, senhores do planeta e dos espa\u00e7os siderais por mandato divino e usucapi\u00e3o fundado em s\u00e9culos de expans\u00e3o e extors\u00e3o, assim administrando a \u00abciviliza\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abNossos valores partilhados\u00bb nas bocas dos fundamentalistas ocidentais \u00e9 todo um programa de domina\u00e7\u00e3o, um conceito de ordem mundial assentado num \u00fanico poder centralizado com ambi\u00e7\u00e3o de tornar-se global e incontestado.<\/p>\n<p>Se olharmos o mundo \u00e0 nossa volta nestes dias assustadores, equipados com lucidez, independ\u00eancia de racioc\u00ednio e dose cada vez mais elevada de coragem, concluiremos que a aplica\u00e7\u00e3o desses \u00abvalores\u00bb \u2013 a palavra certa \u00e9 imposi\u00e7\u00e3o \u2013 funciona como um gigantesco exerc\u00edcio de manipula\u00e7\u00e3o que transforma princ\u00edpios universais, humanos, inquestion\u00e1veis e comuns a muitas e diversificadas culturas num poder minorit\u00e1rio, de \u00edndole mafiosa e n\u00edveis de crueldade que v\u00e3o da mentira institucionalizada \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o da guerra, passando pelo roubo como forma de governo e de administra\u00e7\u00e3o imperial\/colonial. A este aparelho que pretende impor uma realidade paralela \u00e0quela em que vivemos chama-se \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb, um cat\u00e1logo de normas de comando vol\u00e1teis, casu\u00edsticas, n\u00e3o escritas e a que todo o planeta deve obedecer cegamente, sem se interrogar nem defender.<\/p>\n<p>\u00abOrdem internacional baseada em regras\u00bb \u00e9 o c\u00f3digo imperial que veio soterrar o direito internacional e transformar as organiza\u00e7\u00f5es mundiais que devem aplic\u00e1-lo em \u00f3rg\u00e3os que rodopiam \u00e0 merc\u00ea das \u00abregras\u00bb de cada momento, manipulados, desvirtuados e instrumentalizados segundo as conveni\u00eancias do funcionamento da realidade paralela.<\/p>\n<p>Liberdade e democracia<br \/>\nPoucos princ\u00edpios preenchem tanto as pr\u00e9dicas dos dirigentes mundiais e seus ap\u00eandices \u00e0s escalas regional e nacional do que liberdade e democracia.<\/p>\n<p>Uma liberdade para expandir globalmente, por\u00e9m com uma defini\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica e padr\u00f5es limitados pelas \u00abregras\u00bb da \u00fanica ordem internacional permitida.<\/p>\n<p>A liberdade prevalecente, e que condiciona todas as outras, acaba por ser a da propriedade privada e da inexist\u00eancia de restri\u00e7\u00f5es ao funcionamento do mercado. Todas as restantes alavancas que devem fazer funcionar o mundo assentam neste princ\u00edpio inquestion\u00e1vel que faz da justi\u00e7a social uma aberra\u00e7\u00e3o, transforma em servos a grande maioria dos seres humanos, converte as organiza\u00e7\u00f5es internacionais e a generalidade dos governos nacionais em instrumentos dos casinos financeiros e das oligarquias econ\u00f3micas sem p\u00e1tria, fronteiras ou limites comportamentais. Uma liberdade condicionada pela ditadura do lucro e a vassalagem ao dinheiro.<\/p>\n<p>Este conceito dominante de liberdade, a liberdade de extors\u00e3o pr\u00f3pria da realidade em que de fato vivemos, \u00e9 desde h\u00e1 muitos s\u00e9culos um alicerce da \u00abciviliza\u00e7\u00e3o\u00bb ocidental \u2013 a \u00fanica reconhecida para efeitos de rela\u00e7\u00f5es internacionais. A ordem \u00abbaseada em regras\u00bb \u00e9 extremamente exigente e vigilante em rela\u00e7\u00e3o a esta m\u00e3e de todas as liberdades e, se necess\u00e1rio for, n\u00e3o hesita em recorrer \u00e0 guerra para a restaurar l\u00e1 onde estiver amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>Com a democracia acontece mais ou menos a mesma coisa. S\u00f3 existe um \u00fanico formato que permite instituir o \u00abpoder do povo\u00bb, mesmo que depois o povo em nada se identifique e beneficie com a interpreta\u00e7\u00e3o da sua vontade que dela fazem os eleitos. \u00c9 mais ou menos assim, segundo o padr\u00e3o \u00abrepresentativo\u00bb determinado pelo Ocidente: de x em x anos criam-se festivais ditos pol\u00edticos onde vigoram a viola\u00e7\u00e3o t\u00e1cita da igualdade de exposi\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es, a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e das chamadas \u00absondagens\u00bb e a divis\u00e3o ostensiva e \u00abinstitucionalizada\u00bb entre os partidos com \u00abvoca\u00e7\u00e3o para governar\u00bb e os outros; ensinados assim a \u00abdecidir\u00bb, as maiorias de eleitores escolhem em \u00abliberdade\u00bb os seus preferidos, garantidamente aqueles aplicam a doutrina oficial \u00abdemocr\u00e1tica\u00bb, nestes tempos o capitalismo na sua arbitrariedade plena, o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Exemplo desta democracia no seu grau m\u00e1ximo de evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a Uni\u00e3o Europeia: neste caso os cidad\u00e3os nem precisam de \u00abescolher\u00bb os dirigentes m\u00e1ximos da organiza\u00e7\u00e3o, simplesmente nomeados para n\u00e3o haver erros nem desvios \u00e0 doutrina governativa oficial e \u00fanica; e supondo que os eleitores \u00abescolhem\u00bb diretamente o Parlamento Europeu, este tem poderes limitados para n\u00e3o perturbar o trabalho arbitr\u00e1rio dos n\u00e3o eleitos ao servi\u00e7o dos seus patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Quanto aos Estados Unidos, o paradigma democr\u00e1tico a que se deve obedecer num mundo unipolar, a escolha imposta aos cidad\u00e3os limita-se a dois aparelhos mafiosos de poder que agem em formato de partido \u00fanico. Sendo esta a democracia que funciona como farol, segundo as senten\u00e7as abalizadas dos mestres da opini\u00e3o \u00fanica, todas as outras devem seguir tendencialmente o mesmo caminho. N\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma ordem \u00abbaseada em regras\u00bb: a lei do \u00abexcepcionalismo\u00bb de \u00e2mbito planet\u00e1rio gerido pela \u00fanica na\u00e7\u00e3o \u00abindispens\u00e1vel\u00bb. E dizem os comentadores autorizados que n\u00e3o existe imperialismo.<\/p>\n<p>Da\u00ed que os praticantes da democracia ocidental, a \u00fanica, tenham ainda como miss\u00e3o fiscalizar os exerc\u00edcios democr\u00e1ticos atrav\u00e9s do mundo. Por isso a Uni\u00e3o Europeia, por exemplo, arroga-se o direito de \u00abaceitar\u00bb ou n\u00e3o os referendos nos quais as popula\u00e7\u00f5es do Donbass decidiram juntar-se \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n<p>Trata-se, afinal, de aplicar o princ\u00edpio de reconhecer as elei\u00e7\u00f5es e consultas populares que d\u00e3o o resultado pretendido pelo Ocidente e rejeitar as outras cujos eleitores decidiram de forma n\u00e3o tolerada pelos vigilantes da ordem internacional, como se tivessem violado as \u00abregras\u00bb mesmo cumprido os mecanismos processuais das vota\u00e7\u00f5es institu\u00eddos como \u00fanicos. \u00c9 \u00e0 luz desse entendimento discriminat\u00f3rio que os Estados Unidos e os seus sat\u00e9lites n\u00e3o reconhecem resultados eleitorais na Venezuela, na Nicar\u00e1gua, na R\u00fassia, por exemplo, mas assinam por baixo a legitimidade de fraudes como em Honduras, de golpes como no Brasil, Paraguai, Bol\u00edvia, Ucr\u00e2nia, Paquist\u00e3o (s\u00f3 alguns dos mais recentes) ou a designa\u00e7\u00e3o como presidentes de indiv\u00edduos que nem sequer concorreram a elei\u00e7\u00f5es \u2013 o caso de Juan Guaid\u00f3 na Venezuela.<\/p>\n<p>A democracia ocidental \u00e9, como se prova, bastante el\u00e1stica em casos que chegam a ro\u00e7ar o absurdo e muito restritiva no reconhecimento de atos eleitorais leg\u00edtimos, por\u00e9m menos convenientes para os interesses dos \u00abexcepcionalismos\u00bb. \u00c9 uma quest\u00e3o de exerc\u00edcio do poder internacional que o Ocidente julga possuir \u00e0 luz de \u00abregras\u00bb casu\u00edsticas determinadas consoante os interesses de uma \u00abciviliza\u00e7\u00e3o\u00bb que n\u00e3o envolve mais de 15% da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Recorrendo a exemplos muito atuais, eis como a \u00abdemocracia ocidental\u00bb \u00e9 peculiar no pr\u00f3prio Ocidente. Robert Habeck, ministro da Economia da Alemanha, colosso cada vez mais reduzido a um tapete de Washington, garante que n\u00e3o lhe interessa a opini\u00e3o do eleitorado, o essencial \u00e9 que a R\u00fassia seja derrotada pela Ucr\u00e2nia. E Josep Borrell, o \u00abministro dos neg\u00f3cios estrangeiros\u00bb da Uni\u00e3o Europeia, que ningu\u00e9m elegeu, determina que os cidad\u00e3os europeus \u00abt\u00eam de pagar o pre\u00e7o\u00bb necess\u00e1rio para \u00abderrotar a R\u00fassia\u00bb. Ora aqui est\u00e3o \u00abregras\u00bb que corrigem a pr\u00f3pria democracia padr\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo Borrell, espanhol e tamb\u00e9m socialista, \u00e9 clar\u00edssimo na interpreta\u00e7\u00e3o dos \u00abnossos valores partilhados\u00bb. Considera que na vida internacional h\u00e1, evidentemente, \u00abdois pesos e duas medidas\u00bb: os nossos, os \u00abcorretos\u00bb, e os dos outros, atributos daquilo que George W. Bush qualificou como \u00aba barb\u00e1rie\u00bb.<\/p>\n<p>Direitos humanos<br \/>\nPedra de toque dos \u00abnossos valores partilhados\u00bb, os direitos humanos tra\u00e7am a grande fronteira entre o Ocidente \u00abcivilizado\u00bb e os outros \u2013 85% da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Direitos humanos s\u00e3o, por sinal, valores que ilustram a preceito a tese de Borrell sobre dois pesos e duas medidas: n\u00f3s sabemos o que s\u00e3o direitos humanos, os outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>Os principais acontecimentos da atualidade permitiram at\u00e9 refinar o conceito de direitos humanos a partir da clarifica\u00e7\u00e3o entre seres humanos e entes sub-humanos \u2013 distin\u00e7\u00e3o baseada nas pr\u00e1ticas de Volodimyr Zelensky, por sua vez inspirada nos conceitos purificadores de Stepan Bandera e seus pares, pais e her\u00f3is do regime ucraniano de Kiev, no seu tempo colaboradores dos nazistas alem\u00e3es em massacres de dezenas de milhares de seres humanos \u2013 talvez deva escrever-se sub-humanos.<\/p>\n<p>As na\u00e7\u00f5es europeias dan\u00e7am a m\u00fasica tocada por Zelensky segundo partitura das \u00abregras\u00bb de Washington, para que os russos do Donbass e os russos em geral, sub-humanos por defini\u00e7\u00e3o dos nazistas que mandam em Kiev, sejam devidamente sacrificados tal como vinha a acontecer, metodicamente, como resultado de uma guerra iniciada h\u00e1 oito anos.<\/p>\n<p>A \u00abdemocracia ocidental\u00bb apostando o que tem e n\u00e3o tem, a pr\u00f3pria vida dos cidad\u00e3os por ela regidos, para que um regime nazista liquide sub-humanos \u00e9 um cen\u00e1rio apropriado para quem defende os direitos humanos acima de tudo? \u00c9 o aval para a convers\u00e3o do nazismo \u00e0 democracia ou, antes de tudo, a demonstra\u00e7\u00e3o de que a \u00abdemocracia ocidental\u00bb segue na dire\u00e7\u00e3o do inferno do fascismo? O que nada tem de il\u00f3gico, pois foi o fascismo que embalou no ber\u00e7o a ditadura neoliberal que d\u00e1 forma ao regime financeiro-econ\u00f3mico-pol\u00edtico dominante em termos internacionais, exercido com ambi\u00e7\u00f5es globalistas e totalit\u00e1rias e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, dita a \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb.<\/p>\n<p>Governantes, comentadores, analistas e outros formatadores da opini\u00e3o \u00fanica incomodam-se quando, a prop\u00f3sito da situa\u00e7\u00e3o no Donbass, se recordam as atrocidades cometidas pelos Estados Unidos e a OTAN, ou respectivos bra\u00e7os mais ou menos informais, nas guerras \u2013 algumas delas \u00abhumanit\u00e1rias\u00bb \u2013 levadas at\u00e9 \u00e0 Iugosl\u00e1via, Afeganist\u00e3o, Iraque, Som\u00e1lia, L\u00edbia, S\u00edria, I\u00eamen. Sem esquecer o caso exemplar\u00edssimo do Kosovo, onde os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia praticaram uma secess\u00e3o territorial sem qualquer consulta \u00e0s popula\u00e7\u00f5es envolvidas e entregaram o governo a terroristas fundamentalistas isl\u00e2micos especializados em m\u00faltiplos tr\u00e1ficos, todos eles rigorosamente respeitadores dos direitos humanos, como est\u00e1 comprovado.<\/p>\n<p>E que autoridade t\u00eam os que condenam a anexa\u00e7\u00e3o do Donbass, com o presidente norte-americano \u00e0 cabe\u00e7a, os mesmos que s\u00e3o c\u00famplices da anexa\u00e7\u00e3o de quase toda a Palestina e territ\u00f3rios s\u00edrios por Israel, do Saara Ocidental por Marrocos, que esfacelaram o Iraque e a L\u00edbia, que roubam ouro e milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares ao Afeganist\u00e3o, \u00e0 R\u00fassia, \u00e0 Venezuela, \u00e0 L\u00edbia, sem esquecer o petr\u00f3leo da S\u00edria?<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia natural da defini\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es \u00fanicos e civilizacionais dos direitos humanos surgem outros direitos t\u00e3o ou mais invocados como sagrados, por exemplo o de opini\u00e3o, o de express\u00e3o, o respeito pela privacidade de cada um, a liberdade de informar e ser informado.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 rica em exemplos de como a \u00abdemocracia ocidental\u00bb, o mundo baseado \u00abem regras\u00bb e a partilha dos \u00abnossos valores\u00bb andam de m\u00e3os dadas com o cinismo, a hipocrisia, a mentira pura e simples e o desrespeito pelo ser humano (para j\u00e1 nem falar nos sub-humanos).<\/p>\n<p>A press\u00e3o sobre as opini\u00f5es e a liberdade de pensar torna-se cada vez mais asfixiante, intolerante, adquirindo contornos inquisitoriais. Regra geral, a partir sobretudo da implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo durante os \u00faltimos 40 anos, as opini\u00f5es dissonantes da verdade \u00fanica e tolerada foram desaparecendo da comunica\u00e7\u00e3o social, dos espa\u00e7os de debate p\u00fablico, das institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>O que \u00e9 silenciado n\u00e3o existe, o comum dos mortais habituou-se a viver com os conceitos que recebe de enxurrada, quase sem tempo para pensar, se tiver preocupa\u00e7\u00e3o e cuidado em n\u00e3o perder o h\u00e1bito de faz\u00ea-lo. A individualidade, a faculdade de pensar fundiram-se e dissolveram-se no interior de um imenso rebanho de repetidores de verdades absolutas e incontest\u00e1veis que, n\u00e3o poucas vezes, agridem e alienam a sua condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os livres e com direitos.<\/p>\n<p>O processo n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico \u2013 evolui no pior sentido, o da agress\u00e3o de um direito essencial do ser humano, que \u00e9 o de pensar pela pr\u00f3pria cabe\u00e7a e partilhar as reflex\u00f5es e conhecimentos com os outros. Os acontecimentos atuais, designadamente a guerra na Ucr\u00e2nia e o envolvimento profundo e c\u00famplice do Ocidente institucional no apoio ao regime de inspira\u00e7\u00e3o nazista de Kiev, transformou a estrat\u00e9gia de silenciamento das opini\u00f5es dissonantes numa persegui\u00e7\u00e3o de \u00edndole totalit\u00e1ria. Pensar de maneira diferente tornou-se um delito, uma colabora\u00e7\u00e3o com entidades mal\u00e9ficas, um atrevimento inaceit\u00e1vel e, por isso, submetido a difama\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as de agress\u00e3o e \u00e0s mais rasteiras cal\u00fanias p\u00fablicas. Enquanto a comunica\u00e7\u00e3o social se tornou ref\u00e9m da propaganda terrorista.<\/p>\n<p>Nesta \u00abciviliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e ocidental\u00bb, incapaz de cortar o cord\u00e3o umbilical com o imperialismo e o colonialismo, sobrevivem reconhecidamente os resqu\u00edcios inquisitoriais. Que se afirmam com veem\u00eancia crescente ao ritmo de uma fascistiza\u00e7\u00e3o que os horizontes n\u00e3o afastam.<\/p>\n<p>Neste contexto, os \u00abnossos valores partilhados\u00bb s\u00e3o cada vez mais instrumentos para cria\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o que arrasta perversamente os seres humanos em dire\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias aos seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Trata-se de uma armadilha que \u00e9, ao mesmo tempo, um esfor\u00e7o desesperado para tentar impedir o fim da era do poder unipolar, que parece inevit\u00e1vel \u2013 mas pode ser travado por uma guerra de propor\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Os \u00abvalores partilhados\u00bb autodefinidos como um distintivo da pretensa superioridade humanista e civilizacional do Ocidente, e que s\u00e3o fundamentos da arrog\u00e2ncia de pretender dar li\u00e7\u00f5es a outros povos, culturas e civiliza\u00e7\u00f5es, s\u00e3o, afinal, universais; n\u00e3o t\u00eam donos, propriet\u00e1rios, muito menos policiais e agentes. E as civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o hierarquizadas: classific\u00e1-las num qualquer ranking entre bondade e maldade, legitimidade e ilegitimidade, corre\u00e7\u00e3o e erro \u00e9 um perigoso jogo de car\u00e1ter xen\u00f3fobo \u2013 o que parece incomodar cada vez menos os orgulhosos, prepotentes e fundamentalistas praticantes e adeptos da suposta superioridade ocidental.<\/p>\n<p>De fato, no Ocidente esses t\u00e3o invocados \u00abnossos valores partilhados\u00bb est\u00e3o sequestrados, pelo que \u00e9 f\u00e1cil subvert\u00ea-los e us\u00e1-los perversamente como instrumentos para ludibriar e neutralizar o esp\u00edrito cr\u00edtico da grande maioria dos cidad\u00e3os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29338\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Este conceito dominante de liberdade, a liberdade de extors\u00e3o pr\u00f3pria da realidade em que de fato vivemos, \u00e9 desde h\u00e1 muitos s\u00e9culos um alicerce da \u00abciviliza\u00e7\u00e3o\u00bb ocidental \u2013 a \u00fanica reconhecida para efeitos de rela\u00e7\u00f5es internacionais.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-29338","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Dc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29338","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29338"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29338\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}