{"id":29347,"date":"2022-10-21T12:13:03","date_gmt":"2022-10-21T15:13:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29347"},"modified":"2022-10-21T12:13:03","modified_gmt":"2022-10-21T15:13:03","slug":"como-o-bolsonarismo-manipula-o-senso-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29347","title":{"rendered":"Como o bolsonarismo manipula o senso comum?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-2022-10-21T121049.666.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por G. Lessa<\/p>\n<p>O pensamento cotidiano, conhecido como senso comum, \u00e9 parte insuper\u00e1vel da subjetividade das pessoas e se relaciona intimamente com as outras formas de compreender o mundo: a religi\u00e3o, a ci\u00eancia, a filosofia e a arte. O fascismo, por ser necessariamente irracionalista, faz a apologia do senso comum como tipo superior de representa\u00e7\u00e3o da realidade social. Essa caracter\u00edstica determina a hostilidade fascista contra o meio art\u00edstico erudito ou popular, a Universidade, as igrejas progressistas e outros p\u00f3los de produ\u00e7\u00e3o cultural. Portanto, para fazermos uma cr\u00edtica te\u00f3rica e pr\u00e1tica da estrat\u00e9gia de propaganda bolsonarismo em geral e, em particular, na campanha do segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 2022, \u00e9 f\u00e9rtil refletirmos mais detidamente sobre o papel do pensamento comum na disputa por hegemonia e dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Senso comum<br \/>\nO senso comum teria as seguintes caracter\u00edsticas, segundo G. Luk\u00e1cs (Est\u00e9tica, Barcelona: Grijalbo, 1966): 1) materialismo espont\u00e2neo e pragmatismo diante dos fatos imediatos 2) foco exagerado nas rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito aparentes, as \u00fanicas que a pessoa leiga tem condi\u00e7\u00f5es de perceber; 3) ren\u00fancia deliberada de compreender as media\u00e7\u00f5es mais densas e explicativas dos fen\u00f4menos, o que abre flanco para a aceita\u00e7\u00e3o de teorias incoerentes, m\u00edsticas ou mitol\u00f3gicas; 4) abertura para a absorver os resultados da religi\u00e3o, da ci\u00eancia, da arte e da filosofia, mas sem poder adotar os m\u00e9todos pr\u00f3prios destas formas mais complexas de conhecimento \u2013 esta caracter\u00edstica implica na aceita\u00e7\u00e3o, via reconhecimento da autoridade, de refer\u00eancias intelectuais fora do senso comum; 5) tend\u00eancia a generaliza\u00e7\u00f5es exageradas a partir de poucos casos particulares; e 6) instabilidade na reten\u00e7\u00e3o do conte\u00fado adquirido das outras formas de conhecimento.<\/p>\n<p>O fascismo\/neofascismo\/bolsonarismo busca estimular pela propaganda e a a\u00e7\u00e3o as propriedades irracionais do senso comum com o objetivo de hegemoniz\u00e1-lo. Procura expulsar os resultados cient\u00edficos\/art\u00edsticos\/filos\u00f3ficos\/religiosos progressistas presentes na mente dos indiv\u00edduos e provocar mudan\u00e7as nas refer\u00eancias de autoridade intelectual em benef\u00edcio de personalidades e grupos de extrema direita (\u201cfil\u00f3sofos\u201d alternativos, perfis fascistas nas redes sociais, igrejas conservadoras etc.). Divulga a \u201cteoria\u201d terraplanista, faz cr\u00edticas infundadas \u00e0s vacinas, tenta estigmatizar as lutas contra as opress\u00f5es de g\u00eanero, defende o uso de medicamentos in\u00fateis, entre outras \u201cexplica\u00e7\u00f5es\u201d disparatadas, oferecidas como substitutos das explica\u00e7\u00f5es racionais sobre os mesmos fatos. Sem ter como vencer a disputa por hegemonia na Universidade, por exemplo, o fascismo instiga o irracionalismo no senso comum para desconect\u00e1-lo desta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ass\u00e9dio fascista ao senso comum \u00e9 combatido por socialdemocratas, comunistas, alguns segmentos liberais e outras correntes pol\u00edticas comprometidas com valores racionalistas e humanistas, apesar de entre elas, claro, existirem disputas e interpreta\u00e7\u00f5es diferentes de \u201craz\u00e3o\u201d e \u201chumanidade\u201d. O resultado do embate depender\u00e1 de duas vari\u00e1veis: 1) a experi\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o com pol\u00edticas p\u00fablicas e formas de mobiliza\u00e7\u00e3o propostas por cada tend\u00eancia; 2) o conte\u00fado das mensagens e a estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o dos partidos. Como j\u00e1 tratamos da primeira vari\u00e1vel em artigo anterior, e desejamos focar na estrat\u00e9gia discursiva antifascista para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es 2022, vejamos a segunda vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>Combate ao uso fascista do senso comum<\/p>\n<p>As tend\u00eancias pol\u00edticas racionalistas e humanistas n\u00e3o devem estimular as dimens\u00f5es irracionais do senso comum. Por princ\u00edpio, mas tamb\u00e9m por uma quest\u00e3o pr\u00e1tica: quanto mais se instigar as dimens\u00f5es obscuras do pensamento cotidiano (por exemplo, a partir de uma campanha de \u201cfake news de esquerda\u201d), mais ele ser\u00e1 suscet\u00edvel ao fascismo, na medida em que o materialismo espont\u00e2neo estar\u00e1 mais submetido a \u201cteorias\u201d absurdas.<\/p>\n<p>No segundo turno das Elei\u00e7\u00f5es de 2022 e na luta cont\u00ednua contra o fascismo\/neofascismo\/bolsonarismo, al\u00e9m de continuar a fazer discurso racional, focado na transmiss\u00e3o em linguagem popular da produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, da arte, da filosofia e da religi\u00e3o progressista, a esquerda precisa promover, por meio de mensagens e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a autoridade intelectual das institui\u00e7\u00f5es produtoras de discursos racionais, no campo da erudi\u00e7\u00e3o, como as Universidades p\u00fablicas, bibliotecas e laborat\u00f3rios estatais (Fiocruz, Butant\u00e3 etc), e no campo da cultura popular, como as escolas de samba, os movimentos sociais e os grupos de esquerda da periferia. Sem deixar, evidentemente, de disputar hegemonia nestas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel defendermos uma batalha da ci\u00eancia\/filosofia\/arte contra o pensamento cotidiano, como se ele fosse um h\u00f3spede indesejado e o vil\u00e3o da hist\u00f3ria da mente. Sem o senso comum, a humanidade n\u00e3o teria sobrevivido nos milhares de anos da chamada Pr\u00e9-hist\u00f3ria e nem se diferenciado da natureza. Mesmo contemporaneamente, a inexist\u00eancia deste tipo de pensamento tornaria invi\u00e1vel a vida cotidiana, pois n\u00e3o temos tempo para considera\u00e7\u00f5es cient\u00edficas diante das centenas de decis\u00f5es que somos obrigados a tomar durante um dia.<\/p>\n<p>O melhor caminho \u00e9 entend\u00ea-lo, respeit\u00e1-lo e lhe transferir os melhores resultados das formas racionais de entendimento (entre os quais est\u00e1 o pensamento religioso progressista, pois ele junta a f\u00e9 com resultados da ci\u00eancia\/filosofia\/arte). Em s\u00edntese: para combater o fascismo no campo das ideias, precisamos agir para reconectar o senso comum com as refer\u00eancias racionais de autoridade intelectual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29347\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"O senso comum torna vi\u00e1vel a vida cotidiana, mas suas dimens\u00f5es irracionais s\u00e3o estimuladas e usadas pelo fascismo. 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