{"id":29349,"date":"2022-10-21T12:13:56","date_gmt":"2022-10-21T15:13:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29349"},"modified":"2022-10-21T12:13:56","modified_gmt":"2022-10-21T15:13:56","slug":"1922-2022-100-anos-de-agostinho-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29349","title":{"rendered":"1922-2022: 100 anos de Agostinho Neto"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-2022-10-21T121055.564.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por, Carlos Lopes Pereira, via ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>No ano do centen\u00e1rio de Agostinho Neto, figura maior da luta de emancipa\u00e7\u00e3o nacional e social de Angola e primeiro presidente do pa\u00eds libertado, evocam-se elementos centrais da sua vida e da sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria e patri\u00f3tica. A vida pol\u00edtica de Agostinho Neto constitui uma exemplar ilustra\u00e7\u00e3o de um tra\u00e7o fundamental da resist\u00eancia no nosso pa\u00eds: o de ter tornado indissoci\u00e1veis a luta pela liberta\u00e7\u00e3o do povo portugu\u00eas e a luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos povos das col\u00f4nias. Poderosa converg\u00eancia emancipat\u00f3ria que desempenhou papel decisivo no 25 de Abril de 1974.<\/p>\n<p>Figura maior da luta de emancipa\u00e7\u00e3o nacional e social de Angola, Agostinho Neto, l\u00edder pol\u00edtico, poeta e m\u00e9dico, nasceu h\u00e1 100 anos (1922-2022). Dirigiu o MPLA (Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola) na luta pol\u00edtica e armada de liberta\u00e7\u00e3o nacional e, derrotado o colonialismo portugu\u00eas, proclamou em 1975 a independ\u00eancia de Angola, tornando-se o primeiro presidente da Rep\u00fablica Popular de Angola.<\/p>\n<p>Viveu e estudou em Coimbra e Lisboa durante mais de uma d\u00e9cada, foi preso quatro vezes pela PIDE e deportado para Cabo Verde, perseguido e reprimido por participar ativamente na luta contra o fascismo e o colonialismo. N\u00e3o obstante a sanha persecut\u00f3ria de que foi v\u00edtima, foi um sincero amigo do povo portugu\u00eas, que nunca se confundiu com o regime colonial-fascista.<\/p>\n<p>A partir de 1962, ap\u00f3s a sua evas\u00e3o de Portugal, regressou \u00e0 \u00c1frica e, eleito presidente do MPLA \u2013 j\u00e1 antes era seu Presidente de Honra \u2013, conduziu a luta libertadora ao longo de mais 13 anos at\u00e9 \u00e0 independ\u00eancia de Angola, sendo hoje considerado o fundador da na\u00e7\u00e3o angolana.<\/p>\n<p>Sob a sua dire\u00e7\u00e3o, o MPLA resistiu aos crimes do ex\u00e9rcito colonial portugu\u00eas e \u00e0s dificuldades da guerrilha; aos ataques de outras organiza\u00e7\u00f5es, a UPA\/FNLA e a Unita, mais empenhadas em liquidar o MPLA do que combater os colonialistas; a trai\u00e7\u00f5es, deser\u00e7\u00f5es e divis\u00f5es no interior do pr\u00f3prio movimento; a problemas como o racismo, o tribalismo, o regionalismo; \u00e0 hostilidade de pa\u00edses que fazem fronteira com Angola, como o Zaire, do ditador de Mobutu Sese Seko; \u00e0 inexist\u00eancia durante anos de aux\u00edlio da OUA (Organiza\u00e7\u00e3o de Unidade Africana). Com coragem e tenacidade, \u00e1rduo trabalho e sacrif\u00edcio, as dificuldades foram sendo superadas e o MPLA conquistou o respeito e a admira\u00e7\u00e3o das for\u00e7as progressistas africanas e mundiais.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril de 1974 em Portugal e depois da assinatura do cessar-fogo com o ex\u00e9rcito colonial portugu\u00eas, em outubro daquele ano, Agostinho Neto, \u00e0 frente de um MPLA revigorado e dispondo de amplo apoio popular, enfrentou e venceu os inimigos internos de Angola em conluio com agressores estrangeiros: a FNLA e, mais tarde, a Unita, marionetes dos EUA e da \u00c1frica do Sul racista.<br \/>\nEm 11 de novembro de 1975, Agostinho Neto proclamou em Luanda, \u00abperante a \u00c1frica e o Mundo\u00bb, a independ\u00eancia do pa\u00eds, nascendo assim a Rep\u00fablica Popular de Angola, que o imperialismo e seus servi\u00e7ais tentaram em v\u00e3o esmagar no nascedouro.<\/p>\n<p>Nesses dias dif\u00edceis, o MPLA e as her\u00f3icas FAPLA (For\u00e7as Armadas Populares de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola), contando com a solidariedade internacionalista de Cuba e de outros pa\u00edses socialistas, travaram e derrotaram, ao Norte, a invas\u00e3o do ex\u00e9rcito do Zaire e dos mercen\u00e1rios recrutados pela CIA apoiando a FNLA e, no Sul, a invas\u00e3o das colunas de tropas da \u00c1frica do Sul do apartheid enquadrando unidades de pides e mercen\u00e1rios e destacamentos da Unita.<\/p>\n<p>Com estas batalhas, o MPLA criou condi\u00e7\u00f5es para a \u00abresist\u00eancia popular generalizada\u00bb nos anos seguintes, resist\u00eancia aos ataques das for\u00e7as racistas contra a Angola independente e para a hist\u00f3rica vit\u00f3ria militar sobre o \u00abinvenc\u00edvel\u00bb ex\u00e9rcito da \u00c1frica do Sul, em 1987\/88, em Cuito Cuanavale. Desfecho que acelerou a independ\u00eancia da Nam\u00edbia, a liberta\u00e7\u00e3o de Nelson Mandela e a derrubada do apartheid \u2013 abrindo caminho para mudan\u00e7as progressistas na \u00c1frica Austral e for\u00e7ando o recuo do imperialismo norte-americano.<\/p>\n<p>Primeiro presidente da Rep\u00fablica Popular de Angola, Agostinho Neto continuou at\u00e9 \u00e0 sua morte, por doen\u00e7a, em 10 de setembro de 1979, a dirigir, com o MPLA, a luta pela paz e liberdade, pelo refor\u00e7o da unidade nacional angolana (\u00abum s\u00f3 povo, uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o\u00bb), pela defesa da integridade territorial, pela constru\u00e7\u00e3o de um Estado independente e soberano, rumo a uma sociedade desenvolvida e sem explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poeta, m\u00e9dico, combatente antifascista e anticolonialista<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Agostinho Neto (17\/09\/1922-10\/09\/79) nasceu na aldeia de Cachicane, em Catete, na regi\u00e3o de Icolo e Bengo, a umas dezenas de quil\u00f4metros de Luanda. O pai foi professor e pastor protestante, a m\u00e3e professora rural, a fam\u00edlia era grande, o casal teve uma dezena de filhos.<\/p>\n<p>Bom aluno, ajudou os irm\u00e3os na escola e completou o ensino liceal, em Luanda, em 1944. Trabalhou durante mais de dois anos anos nos servi\u00e7os de sa\u00fade da col\u00f4nia, juntando dinheiro para prosseguir os estudos.<\/p>\n<p>Colaborou em publica\u00e7\u00f5es angolanas, estudantis e outras, desde finais dos anos 30, e manteve essa colabora\u00e7\u00e3o at\u00e9 in\u00edcios da d\u00e9cada de 1950, com artigos denunciando a condi\u00e7\u00e3o humana na realidade colonial, criticando o \u00abeurotropismo\u00bb, revelando a literatura nascente, a poesia angolana, o teatro africano. Nos anos 40 integrou o movimento liter\u00e1rio \u00abVamos descobrir Angola\u00bb.<\/p>\n<p>Em 1947 foi para Portugal estudar Medicina na Universidade de Coimbra. Despediu-se da m\u00e3e dedicando-lhe um dos seus mais belos poemas, \u00abAdeus \u00e0 hora da largada\u00bb. Nele viajou pelo futuro: \u00abAmanh\u00e3\/ entoaremos hinos \u00e0 liberdade\/ quando comemorarmos\/ a data da aboli\u00e7\u00e3o desta escravatura\u00bb. E explica o porqu\u00ea da largada: \u00abN\u00f3s vamos em busca de luz\/ os teus filhos M\u00e3e\/ (todas as m\u00e3es negras\/cujos filhos partiram)\/ v\u00e3o em busca de vida\u00bb (1).<\/p>\n<p>Em Portugal, primeiro em Coimbra e depois em Lisboa (para onde se muda em 1950), ao mesmo tempo que mant\u00e9m contatos com os patriotas em Angola, convive com jovens angolanos e de outras col\u00f4nias e com estudantes e intelectuais progressistas portugueses, integrando-se rapidamente nas lutas contra a ditadura fascista.<\/p>\n<p>Em Coimbra, fez parte da dire\u00e7\u00e3o da Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio (CEI), em 1948. No ano seguinte, ingressa no MUD (Movimento de Unidade Democr\u00e1tica) Juvenil e participa nas atividades da organiza\u00e7\u00e3o contra o fascismo, pela liberdade e democracia, pela paz. Em 1949, integrou a campanha de apoio \u00e0 candidatura de Norton de Matos \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica apoiada pela oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>J\u00e1 em Lisboa frequentou entre 1951 e 1953 o Centro de Estudos Africanos, com jovens patriotas angolanos, santomenses, caboverdianos, guineenses, mo\u00e7ambicanos (M\u00e1rio Pinto de Andrade, L\u00facio Lara, Francisco Jos\u00e9 Tenreiro, Alda Esp\u00edrito Santo, Am\u00edlcar Cabral, Vasco Cabral, No\u00e9mia de Sousa, Marcelino dos Santos, entre outros).<\/p>\n<p>Em 1952, na capital do imp\u00e9rio, foi preso pela primeira vez pela PIDE, quando com camaradas portugueses distribu\u00eda panfletos do MUD Juvenil em defesa da paz e contra a OTAN. Foi internado na cadeia de Aljube, incomunic\u00e1vel, entre mar\u00e7o e junho, acusado pelas autoridades fascistas de \u00abatividades subordinadas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o secreta e subversiva que usa a designa\u00e7\u00e3o de partido comunista portugu\u00eas\u00bb.<\/p>\n<p>Em 1954, participou da organiza\u00e7\u00e3o do Clube Mar\u00edtimo Africano, uma coletividade desportiva, cultural e recreativa que juntava estudantes e marinheiros. Por essa via, de Angola chegam cartas, not\u00edcias e documentos das organiza\u00e7\u00f5es nacionalistas e assim \u00e9 mantida a liga\u00e7\u00e3o com a terra\u2026 Tamb\u00e9m nesse ano foi eleito para a Comiss\u00e3o Central do MUD Juvenil.<\/p>\n<p>A segunda pris\u00e3o ocorreu entre 9\/2\/55 e 12\/6\/57, e Agostinho Neto passou pelo Forte de Caxias e pelo Aljube, antes de ser transferido para a cadeia da PIDE no Porto. Foi julgado, juntamente com meia centena de democratas portugueses, no Tribunal Plen\u00e1rio Criminal do Porto, por \u00abatentar contra a seguran\u00e7a do Estado\u00bb. Foi condenado a 18 meses de cadeia, pena dada como expiada durante a pris\u00e3o preventiva, que durou mais de 28 meses.<\/p>\n<p>Face \u00e0 deten\u00e7\u00e3o, escritores, artistas e cientistas de v\u00e1rias nacionalidades escreveram ao presidente da Rep\u00fablica de Portugal a exigir a liberta\u00e7\u00e3o de Agostinho Neto. Entre os intelectuais a exigir a liberdade do poeta, cuja obra era j\u00e1 conhecida mundo fora, contavam-se Jean Cocteau, Louis Aragon, Jean Paul Sartre, Tristan Tzara, Henri Lefebvre, Elsa Triolet, Simonone de Beauvoir, Nicolas Guillen, Diego Rivera, David Siqueiros (2).<\/p>\n<p>Solto do c\u00e1rcere, concluiu a licenciatura em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 27\/10\/58, casando-se no mesmo dia com Maria Eug\u00e9nia Silva e, nos meses seguintes, fez o internato m\u00e9dico, est\u00e1gios e especialidades em v\u00e1rios hospitais de Lisboa. Regressou a Angola, com a fam\u00edlia, em 22\/12\/59 e, em Luanda, trabalhou como m\u00e9dico em dois consult\u00f3rios privados. Ao mesmo tempo, restabeleceu contatos clandestinos com quadros do MPLA, que se organizava no interior e no exterior.<\/p>\n<p>Em 1959, a repress\u00e3o colonial abatera-se em Angola com for\u00e7a sobre as organiza\u00e7\u00f5es nacionalistas e tinham sido presos quase meia centena de patriotas, que depois, no chamado \u00abProcesso dos 50\u00bb, viriam a ser \u00abjulgados\u00bb e condenados pelos tribunais fascistas, alguns com pesadas penas no Tarrafal, em Cabo Verde.<\/p>\n<p>Em 1960, a PIDE continuou a reprimir e a prender independentistas angolanos e, em junho, Agostinho Neto tamb\u00e9m foi detido no seu consult\u00f3rio em Luanda. Poucas semanas depois, com receio da crescente rea\u00e7\u00e3o popular \u2013 registrara-se, entretanto, uma revolta em Catete, brutalmente reprimida, e a aldeia de Cachicane fora incendiada e arrasada \u2013, as autoridades o transferiram, junto com sua fam\u00edlia, para Lisboa, onde o prenderam mais uma vez no Aljube.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa \u00e9poca, de setembro de 1960, escrito no c\u00e1rcere, o seu poema \u00abHavemos de voltar\u00bb em que, premonit\u00f3rio, com uma convic\u00e7\u00e3o inquebrant\u00e1vel, garante: \u00ab\u00c0s casas, \u00e0s nossas lavras\/\u00e0s praias, aos nossos campos\/havemos de voltar\/\u00c0s nossas terras\/vermelhas do caf\u00e9\/brancas do algod\u00e3o\/verdes dos milheirais\/havemos de voltar\/ (\u2026) \u00c0 bela p\u00e1tria angolana\/nossa terra, nossa m\u00e3e\/havemos de voltar\/Havemos de voltar\/\u00e0 Angola libertada\/Angola independente\u00bb (3).<\/p>\n<p>As autoridades decidem, ent\u00e3o, deportar Agostinho Neto para Cabo Verde, onde iria trabalhar, vigiado \u201cadequadamente\u201d, como delegado de sa\u00fade, na Ponta do Sol, na ilha de Santo Ant\u00e3o. Ali chegou de barco, a partir de S\u00e3o Vicente, em 19\/10\/60, com a esposa e filho. Entretanto, com o apoio da Rep\u00fablica da Guin\u00e9, a dire\u00e7\u00e3o do MPLA no exterior fixa-se em Conakry e designa Agostinho Neto Presidente de Honra do movimento.<\/p>\n<p>Na Ponta do Sol, de dif\u00edcil acesso, as grades da cadeia foram substitu\u00eddas pelas \u00ab\u00e1guas do mar que nos cercam\u00bb, escreve o poeta, m\u00e9dico e combatente. E foi ali, em Santo Ant\u00e3o, em 1961, que tomou conhecimento da revolta na Baixa de Cassanje, em janeiro e no 4 de fevereiro, em Luanda, que marcou o in\u00edcio da luta armada de liberta\u00e7\u00e3o nacional em Angola. Em agosto de 1961 foi para a Praia, na ilha de Santiago, para fazer um est\u00e1gio no hospital da capital da col\u00f4nia. Um m\u00eas depois, a PIDE o prendeu de novo para evitar que lan\u00e7asse na cidade \u00aba semente da subvers\u00e3o com vista \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o da ordem\u00bb e em outubro o reenviava, com a fam\u00edlia, de barco, para Lisboa.<\/p>\n<p>Na metr\u00f3pole, foi de novo para a cadeia. Libertado em 24\/3\/62, fixou resid\u00eancia fixa em Lisboa e continuou a ser vigiado de perto pela PIDE, que o autorizou a trabalhar como m\u00e9dico no Hospital de Santa Marta. O que as autoridades fascistas n\u00e3o imaginavam \u00e9 que Agostinho Neto e a fam\u00edlia, juntamente com Vasco Cabral, um patriota guineense, tamb\u00e9m perseguido pela PIDE, muito em breve sairiam de Portugal, numa arrojada opera\u00e7\u00e3o organizada pelo PCP, a pedido do MPLA. A\u00e7\u00e3o considerada mais tarde pelos comunistas portugueses \u00abum dos momentos mais altos nas rela\u00e7\u00f5es de amizade, coopera\u00e7\u00e3o e solidariedade existentes entre o PCP e o MPLA\u00bb.<\/p>\n<p>Amizade antiga, como lembrou \u00c1lvaro Cunhal, em 1981: \u00abA amizade fraternal existente entre o PCP e o MPLA \u00e9 de hoje e foi de sempre, ela data do momento da pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o do MPLA. Baseou-se na identidade de interesses fundamentais do povo portugu\u00eas e do povo angolano em luta simult\u00e2nea, coincidente e convergente pela liberta\u00e7\u00e3o do fascismo e do colonialismo\u00bb. E mais: \u00abAinda que em condi\u00e7\u00f5es diversas e por formas diversas, irmanados num mesmo combate contra inimigos comuns, revolucion\u00e1rios angolanos e revolucion\u00e1rios portugueses, patriotas angolanos e patriotas portugueses, MPLA e PCP, percorremos um mesmo e duro caminho de luta que veio finalmente a conduzir \u00e0 derrota do fascismo e do colonialismo, ao fim de uma guerra criminosa, \u00e0 conquista da independ\u00eancia pelo povo angolano e \u00e0 conquista da liberdade pelo povo portugu\u00eas\u00bb (4).<\/p>\n<p>Dos momentos mais altos nas rela\u00e7\u00f5es de solidariedade entre o PCP e o MPLA<\/p>\n<p>No dia 6 de julho de 2022 passaram 60 anos do dia em que Agostinho Neto saiu de Portugal, ent\u00e3o submetido ao terror fascista, para retomar na \u00c1frica, \u00e0 frente do MPLA e do povo angolano, o seu posto de combate. Liderou a partir da\u00ed (1962) a luta armada de liberta\u00e7\u00e3o nacional e, derrotado o colonialismo, proclamou em 11\/11\/75 a independ\u00eancia de Angola, tornando-se o primeiro presidente da Rep\u00fablica Popular de Angola e lan\u00e7ando os fundamentos da na\u00e7\u00e3o angolana.<\/p>\n<p>Num grande com\u00edcio do Partido Comunista Portugu\u00eas realizado em 28 de julho de 1981, em Lisboa, no Pavilh\u00e3o dos Desportos, com a presen\u00e7a de uma delega\u00e7\u00e3o do MPLA-Partido do Trabalho, dirigida por L\u00facio Lara, o ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do PCP, \u00c1lvaro Cunhal, falou pela primeira vez em p\u00fablico do epis\u00f3dio da evas\u00e3o de Agostinho Neto de Portugal em 1962.<\/p>\n<p>\u00ab(\u2026) Dado o secretismo indispens\u00e1vel que rodeou a execu\u00e7\u00e3o dessa evas\u00e3o, os inimigos dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o fizeram na \u00e9poca muitas especula\u00e7\u00f5es. Desenvolveram campanhas. Lan\u00e7aram intrigas, cal\u00fanias e insinua\u00e7\u00f5es. Chegaram a dizer que Agostinho Neto tinha sido posto na \u00c1frica por tal ou tal servi\u00e7o de tal ou tal pa\u00eds ocidental. E todo este barulho porque, na situa\u00e7\u00e3o existente e considerando as caracter\u00edsticas e as condi\u00e7\u00f5es em que se desenvolvia a luta de liberta\u00e7\u00e3o, o MPLA entendeu, a nosso ver corretamente e de acordo com o nosso Partido, dar como \u00fanica informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica acerca da evas\u00e3o que esta tinha se realizado com a ajuda de antifascistas portugueses. E at\u00e9 hoje, nada mais foi divulgado\u00bb, revelou ent\u00e3o \u00c1lvaro Cunhal.<\/p>\n<p>O PCP considerou que chegara o momento de tornar conhecidos certos fatos e que nenhuma raz\u00e3o s\u00e9ria a isso ent\u00e3o se opunha. O secret\u00e1rio-geral do Partido explicou: \u00abParece-nos oportuno, por ocasi\u00e3o desta visita a Portugal da delega\u00e7\u00e3o do MPLA, lado a lado com os seus heroicos dirigentes, diante dos nossos militantes, do povo de Lisboa, esclarecer o fundamental dessa hist\u00f3rica evas\u00e3o. E parece oportuno porque a prepara\u00e7\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o da evas\u00e3o de Agostinho Neto, presidente do MPLA e futuro primeiro presidente da Rep\u00fablica Popular de Angola, constitui um dos momentos mais altos nas rela\u00e7\u00f5es de amizade, coopera\u00e7\u00e3o e solidariedade existentes entre o PCP e o MPLA\u00bb.<\/p>\n<p>Contou \u00c1lvaro Cunhal: \u00abO plano de evas\u00e3o come\u00e7ou a ser estudado quando, depois de uma dilig\u00eancia do MPLA junto ao nosso Partido, em fins de 1961 e princ\u00edpios de 1962, Agostinho Neto se encontrava deportado em Cabo Verde. O MPLA e o nosso Partido come\u00e7aram a trabalhar. Foram enviados a Cabo Verde militantes para estudar a situa\u00e7\u00e3o e as possibilidades da fuga. (\u2026) Admitiu-se que um barco ap\u00f3s a evas\u00e3o pudesse transportar Agostinho Neto para a costa africana. Mas quando este trabalho estava apenas no in\u00edcio, Agostinho Neto foi transferido pela PIDE para Portugal e internado na cadeia do Forte de Caxias\u00bb.<\/p>\n<p>Em liga\u00e7\u00e3o com o MPLA e na nova situa\u00e7\u00e3o, um novo plano foi encarado em duas fases: \u00abA primeira fase: a sa\u00edda de Agostinho Neto da pris\u00e3o seja pela sua liberta\u00e7\u00e3o, como resultado da grande campanha pol\u00edtica em curso, na qual a opini\u00e3o antifascista e anticolonialista estava empenhada, seja organizando a sua evas\u00e3o do Forte, utilizando para tal a rica experi\u00eancia do nosso Partido. A segunda fase: a viagem de Agostinho Neto de Portugal para \u00c1frica, partindo da ideia que, mesmo que fosse libertado, o governo fascista n\u00e3o o deixaria sair de Portugal\u00bb.<\/p>\n<p>Libertado Agostinho Neto em resultado da grande campanha pol\u00edtica e sendo-lhe fixada resid\u00eancia em Lisboa sob vigil\u00e2ncia \u2013 conforme previsto pelo PCP \u2013 p\u00f4s-se em termos pr\u00e1ticos a organiza\u00e7\u00e3o da sua viagem para \u00c1frica. O PCP tinha ent\u00e3o dois aparelhos de fronteira. Um aparelho de fronteira terrestre. E um aparelho de liga\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas, pertencendo a este, entre outros meios t\u00e9cnicos, um barco a motor, tipo iate.<\/p>\n<p>Dado o fato de Agostinho Neto poder ser facilmente reconhecido e ser por isso demasiado arriscado passar pela fronteira terrestre, fosse de forma clandestina ou com passaporte falso, o PCP pronunciou-se abertamente pela viagem mar\u00edtima, elaborando o plano respectivo. Agostinho Neto expressou plena confian\u00e7a no Partido, esteve de acordo com o plano e este foi realizado.<\/p>\n<p>No dia 6 de julho de 1962, ao fim da tarde, Agostinho Neto, sua esposa e seus dois filhos embarcaram na doca de Pedrou\u00e7os. \u00c0 noite o barco saiu do porto de Lisboa, fez rumo a \u00c1frica, contornou a costa portuguesa e a costa espanhola, atravessou o estreito de Gibraltar, seguiu a costa marroquina e, depois de enfrentar violenta tempestade, entrou na ba\u00eda de T\u00e2nger. Agostinho Neto e a sua fam\u00edlia foram desembarcados numa das praias dessa ba\u00eda. Agostinho Neto regressou assim a \u00c1frica, para, \u00e0 frente do MPLA e do povo angolano, retomar a batalha at\u00e9 \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o da sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro Cunhal destacou que, \u00abno cumprimento dos nossos deveres para com o nosso pr\u00f3prio povo e no quadro da solidariedade fraternal para com o MPLA e o povo de Angola, esta miss\u00e3o do PCP estava cumprida\u00bb. E pormenorizou que \u00abna execu\u00e7\u00e3o de todo este plano, al\u00e9m do Secretariado e da Comiss\u00e3o Executiva do CC do PCP, participaram diretamente, na parte final da execu\u00e7\u00e3o, no embarque e na viagem, os camaradas Dias Louren\u00e7o, Blanqui Teixeira e Jaime Serra, todos eles j\u00e1 ent\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do nosso Partido e atualmente [1981] membros da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica, e, ainda, Jos\u00e9 Nogueira, primeiro tenente da Marinha, que pilotava e em cujo nome estava registrado o barco do nosso Partido\u00bb.<\/p>\n<p>Entendeu a dire\u00e7\u00e3o do PCP, disse \u00c1lvaro Cunhal, n\u00e3o se dever deixar passar mais tempo sem repor a verdade hist\u00f3rica sobre t\u00e3o importante acontecimento. E entendeu repor essa verdade hist\u00f3rica, \u00abaqui, lado a lado com os destacados dirigentes do MPLA e da Rep\u00fablica Popular de Angola agora de visita a Portugal, aqui diante dos nossos militantes e do nosso povo, aqui neste com\u00edcio de amizade fraternal\u00bb.<\/p>\n<p>E real\u00e7ou: \u00abn\u00e3o apenas para falarmos do passado e para lembrarmos um exemplo grande e vivo da nossa amizade fraternal\u00bb, mas para \u00abdizermos tamb\u00e9m aqui aos nossos camaradas do MPLA, diante dos nossos militantes e do nosso povo: tal como no passado nas horas mais dif\u00edceis e duras, podereis hoje, amanh\u00e3, sempre e sempre, contar com a amizade fraternal e a solidariedade ativa do Partido Comunista Portugu\u00eas\u00bb.<\/p>\n<p>\u25cf<br \/>\nEvocando a mem\u00f3ria de Agostinho Neto, \u00abO Militante\u00bb presta homenagem ao seu elevado exemplo de revolucion\u00e1rio patriota e internacionalista. Na longa e dura mas exaltante caminhada dos trabalhadores e dos povos pela sua emancipa\u00e7\u00e3o a vida e a obra de Agostinho neto n\u00e3o ser\u00e3o esquecidas.<\/p>\n<p>Notas<br \/>\n(1) M\u00e1rio de Andrade, \u00abAntologia tem\u00e1tica de poesia africana\u00bb, vol. I \u2013 \u00abNa noite gr\u00e1vida de punhais\u00bb, Instituto Caboverdeano do Livro, Praia, 1976, p. 100.\u21b2<br \/>\n(2) \u00abAgostinho Neto e a liberta\u00e7\u00e3o de Angola 1949-1974 \u2013 Arquivos da PIDE-DGS\u00bb, vol. I (1949-1960), edi\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Dr. Ant\u00f3nio Agostinho Neto, Luanda, 2012.\u21b2<br \/>\n(3) Manuel Ferreira, \u00ab50 poetas africanos\u00bb, Pl\u00e1tano Editora, Lisboa, 1986, pp. 32 e 33.\u21b2<br \/>\n(4) Jornal Avante!, edi\u00e7\u00e3o de 30\/07\/81.\u21b2<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/www.omilitante.pcp.pt\/pt\/380\/Efemeride\/1921\/Combatente-antifascista-e-anticolonialista-construtor-da-independ%C3%AAncia-de-Angola.htm?tpl=142<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29349\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Combatente antifascista e anticolonialista, construtor da independ\u00eancia de Angola.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[226],"class_list":["post-29349","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Dn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29349\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}