{"id":29352,"date":"2022-10-24T08:16:28","date_gmt":"2022-10-24T11:16:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29352"},"modified":"2022-10-24T08:17:50","modified_gmt":"2022-10-24T11:17:50","slug":"nao-adianta-negociar-e-preciso-ir-para-a-ofensiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29352","title":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o adianta negociar: \u00e9 preciso ir para a ofensiva.&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/unnamed-2.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Entrevista de Sofia Manzano para a Revista O Sabi\u00e1, por Sofia Schurig, fundadora e editora-chefe. Comunica\u00e7\u00e3o na UFBA. \u00c9 da reda\u00e7\u00e3o digital da Jacobin Brasil e estagi\u00e1ria no N\u00facleo Jornalismo.<\/strong><\/p>\n<p>Economista, professora e ex-candidata \u00e0 presid\u00eancia, Sofia Manzano tem sacadas geniais aos jovens que est\u00e3o tristes e desmotivados com a pol\u00edtica nacional.<\/p>\n<p>Para falar sobre o futuro da pol\u00edtica brasileira, entrevistamos Sofia Manzano, ex-candidata \u00e0 presid\u00eancia pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e doutora em hist\u00f3ria econ\u00f4mica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Desde 2013, ela mora na Bahia, e d\u00e1 aulas de economia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Durante a campanha presidencial, entrevistamos Manzano como candidata.<\/p>\n<p>O bolsonarismo n\u00e3o sumir\u00e1 com Jair Bolsonaro deixando a presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Lula, se eleito, enfrentar\u00e1 m\u00faltiplas dificuldades econ\u00f4micas, disputas no novo Congresso, al\u00e9m de uma resist\u00eancia popular por aqueles que continuam presos no que Manzano chama de \u201cpuls\u00e3o de morte\u201d do bolsonarismo. Esta entrevista n\u00e3o \u00e9 direcionada aos vira-voto, mas aos jovens que n\u00e3o possuem d\u00favidas acerca de quem votar pela democracia, apenas est\u00e3o deprimidos, desmotivados e confusos com o cen\u00e1rio pol\u00edtico louco em que vivemos no Brasil.<\/p>\n<p>Uma candidata que teve boa parte de sua vota\u00e7\u00e3o concentrada na juventude, Manzano \u00e9 a melhor pessoa para conversar sobre isso. Atrav\u00e9s de uma entrevista descontra\u00edda, onde a questionamos mais sobre comunica\u00e7\u00e3o do que economia, podemos ver algumas sacadas importantes da professora sobre o cen\u00e1rio brasileiro. A economista tamb\u00e9m faz pontos importantes sobre o por qu\u00ea continuar lutando por um mundo melhor, ainda que isso seja chato e cansativo.<\/p>\n<p><strong>Com a nova elei\u00e7\u00e3o para o parlamento, vimos que a extrema-direita ganhou muito mais espa\u00e7o, enquanto a direita tradicional e a centro-direita perderam espa\u00e7o. Ao mesmo tempo, a esquerda, a legislativa, vai indo cada vez mais \u00e0 direita, se adequando cada vez mais. Assim, algumas pautas v\u00e3o perdendo for\u00e7a, como, por exemplo, a pauta do aborto ou de uma renda universal m\u00ednima. Alguns partidos da esquerda radical e outros pequenos setores da centro-esquerda tentam resistir e isso parece dar certo, mas parece se criar um panorama que a esquerda est\u00e1 se tornando mais de direita. Queria saber se voc\u00ea concorda com esse cen\u00e1rio, e te ouvir sobre quais s\u00e3o as suas opini\u00f5es sobre essa nova bancada.<\/strong><\/p>\n<p>Ainda \u00e9 bastante cedo para analisarmos completamente a composi\u00e7\u00e3o do Congresso, porque fazer parte de uma legenda, de um partido, \u00e9 muito flu\u00eddo no Brasil. De fato, o PL (Partido Liberal) elegeu muitos deputados, diversas outras legendas da direita que apoiam Bolsonaro tamb\u00e9m elegeram e algumas das figuras importantes do bolsonarismo mais reacion\u00e1rio foram eleitas. Entretanto, devemos entender que tudo depende do segundo turno, porque o Congresso Nacional, mesmo ap\u00f3s a Assembleia Nacional Constituinte, flutua conforme os objetivos do capital, evidentemente, mas tamb\u00e9m das possibilidades de a\u00e7\u00e3o que o Executivo propicia para ele.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao mesmo tempo que se tem uma bancada de direita, tem um conjunto de lideran\u00e7as e outros deputados eleitos que ampliaram, digamos, uma pauta de esquerda importante. Como voc\u00ea mesmo disse: alguns deputados do PSOL ou mesmo de outras legendas, que representam, por exemplo, os povos ind\u00edgenas \u2013 poder\u00e3o ter uma for\u00e7a no Congresso a depender de muitos outros elementos, n\u00e3o apenas a composi\u00e7\u00e3o do parlamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos saber exatamente o que vai ser desse Congresso, porque esses deputados do PL, por exemplo, que hoje se elegeram na rasteira do Bolsonaro, mudar\u00e3o para outras legendas e outras posi\u00e7\u00f5es numa rapidez expressiva, caso Bolsonaro perca no segundo turno. Inicialmente, \u00e9 dif\u00edcil j\u00e1 sairmos derrotados desse processo apenas por conta de quem foi eleito para o legislativo.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que tem uma import\u00e2ncia, mas podemos perceber, por exemplo, que um Congresso Nacional que seria, teoricamente, menos de direita do que esse, foi o que promoveu o impeachment, o golpe, contra a Dilma. Tudo depende da movimenta\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas, bem para al\u00e9m do Congresso Nacional.<\/p>\n<p><strong>Em sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o as principais dificuldades de Lula neste segundo turno? Bolsonaro est\u00e1 tirando dinheiro de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os e projetos p\u00fablicos para o or\u00e7amento secreto, ou Bolsol\u00e3o, al\u00e9m das mil\u00edcias digitais. Existem muitas frentes de ataque \u00e0 candidatura. Quais ser\u00e3o as principais dificuldades de Lula nesse turno, e como a esquerda, tanto a centro-esquerda quanto a radical, podem se unir para superar essas dificuldades?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios n\u00edveis de dificuldade, mas Lula tem algumas vantagens para vencer a elei\u00e7\u00e3o. Ele j\u00e1 saiu com, se n\u00e3o me engano, seis milh\u00f5es de votos na frente \u2014 isso \u00e9 uma vantagem expressiva e unificou um campo muito grande que percebe a necessidade imediata de derrotar Bolsonaro.<\/p>\n<p>Acredito que as principais dificuldades est\u00e3o nas fake news, em combater as fake news e ser mais incisivo. Quer dizer, ele tamb\u00e9m tem outro inimigo interno, digamos assim, no campo da pol\u00edtica, a direita liberal no campo da economia, que fica puxando o tempo todo para pautas que prejudicam Lula. Por exemplo, recentemente, o Henrique Meirelles fez um tweet com um fio grande, dizendo da necessidade absoluta de fazer a reforma administrativa para equilibrar as contas p\u00fablicas. Enfim, toda aquela \u201cconversaria\u201d que sabemos que n\u00e3o tem nenhum fundamento de cientificidade, mas que a direita quer por que quer a reforma administrativa. Ent\u00e3o, a campanha do Lula est\u00e1 a todo momento sendo colocada em xeque, dando vaz\u00e3o pro bolsonarismo expandir ainda mais a sua \u00e1rea de influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Agora, o que mais preocupa hoje s\u00e3o as fake news, \u00e9 o discurso irracional que acaba tocando as pessoas de uma forma que \u00e9 pr\u00f3pria do fascismo. Por exemplo, os discursos que a Damares faz, a provoca\u00e7\u00e3o que Bolsonaro fez na Bas\u00edlica de Nossa Senhora Aparecida, tudo isso n\u00e3o \u00e9 sem querer. Isso \u00e9 organizado para criar a todo momento uma como\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal na popula\u00e7\u00e3o mais fragilizada \u2014 sendo que eles se colocam, mesmo fazendo o mal o tempo todo, como os salvadores. Essa \u00e9 uma dificuldade, mas acredito que o Lula apresenta uma rea\u00e7\u00e3o importante nisso, que \u00e9 n\u00e3o menosprezar esse elemento subjetivo e irracional usado nessa campanha. O fascismo bolsonarista est\u00e1 acionando instintos animais e irracionais na popula\u00e7\u00e3o para vencer a elei\u00e7\u00e3o. O Lula consegue tentar frear, de certa forma, esses instintos irracionais e n\u00e3o utilizar da mesma estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Acredito ser bem poss\u00edvel ganhar elei\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tamb\u00e9m perguntou: o que temos que fazer para ajudar nesse sentido? \u00c9 n\u00e3o usar das mesmas estrat\u00e9gias irracionais de combate a esse irracionalismo. Quando se coloca toda uma rede de fake news, um conjunto de elementos de ataques brutais contra a religiosidade \u2014 uma ou outra, agora foi o catolicismo \u2014 n\u00e3o podemos nos colocar no mesmo patamar de atac\u00e1-los da mesma forma. Devemos resgatar na popula\u00e7\u00e3o aquilo que ela tem de racional e humano, isso tamb\u00e9m envolve um resgate do subjetivo humano que n\u00e3o \u00e9 irracional, n\u00e3o \u00e9 essa puls\u00e3o de morte que o Bolsonaro resgata na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, qual \u00e9 esse elemento no meu entender? \u00c9 a perspectiva que podemos, como humanidade, construir um futuro generoso. Uma humanidade que j\u00e1 produziu, por exemplo, a quantidade de m\u00fasicas espetaculares que temos, manifesta\u00e7\u00f5es culturais t\u00e3o diversas, bonitas, alegres. Resgatando esses elementos, podemos trazer de volta um conjunto da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 imerso nessa subjetividade m\u00f3rbida que o bolsonarismo \u2014 uma express\u00e3o do fascismo no Brasil. Hoje, estava ouvindo algumas m\u00fasicas, pensando: \u201cGente, quem j\u00e1 produziu isso, n\u00e3o pode caminhar para o fim da exist\u00eancia humana\u201d. J\u00e1 produzimos tantas coisas maravilhosas, e precisamos resgatar esse sentimento lindo e maravilhoso para trazer de volta o aspecto humano da sensibilidade, porque o bolsonarismo est\u00e1 ativando o aspecto desumano da sensibilidade.<\/p>\n<p><strong>Com uma vit\u00f3ria do Lula, e presumindo que ela ser\u00e1 aceita por Bolsonaro sem tumultos ou golpes, algo que me preocupa \u00e9 que o bolsonarismo n\u00e3o acabar\u00e1. A direita brasileira se tornou o bolsonarismo, da mesma maneira que o republicanismo nos EUA se tornou o trumpismo. Como voc\u00ea acredita que, com uma poss\u00edvel vit\u00f3ria de Lula e supondo que Bolsonaro aceite a derrota, poderemos voltar a viver normalmente?<\/strong><\/p>\n<p>Independentemente de o Bolsonaro tentar dar golpe ou n\u00e3o, isso n\u00e3o vem ao caso. N\u00f3s, como atores pol\u00edticos, pessoas pol\u00edticas e militantes, precisamos entender que o que permite o bolsonarismo se crie e perpetue no Brasil \u00e9 a falta de expectativa no futuro. Os brasileiros, sejam eles os mais jovens ou mais velhos, n\u00e3o veem perspectiva de futuro. Esse fim do horizonte faz que se crie esse ressentimento e a viol\u00eancia \u2014 quer dizer, se n\u00e3o tem futuro, ent\u00e3o posso matar o vizinho do lado. A reivindica\u00e7\u00e3o que o bolsonarismo faz de uma liberdade irrestrita n\u00e3o \u00e9 uma liberdade de viver em sociedade, mas uma liberdade de fazer o que quiser e n\u00e3o ser punido por nada, porque eu quero assim \u2014 isso vemos desde uma discuss\u00e3o de condom\u00ednio at\u00e9 falas do pr\u00f3prio Bolsonaro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como enfrentar isso? H\u00e1 v\u00e1rias maneiras. Primeiro, apresentando uma perspectiva de futuro, um projeto ou programa que comece a empolgar os brasileiros, sobretudo a juventude, para ajudar nessa constru\u00e7\u00e3o de perspectiva de futuro. Eu, como comunista, volto sempre a dizer que o comunismo \u00e9 a proposta mais generosa que a humanidade produziu. \u00c9 uma necessidade ir em busca do comunismo, mas, para isso, temos que nos organizar. Para isso, precisamos estar atuando na sociedade, no cotidiano de nossas vidas. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A outra quest\u00e3o diz respeito \u00e0s lutas pontuais e o movimento que um futuro governo Lula pode gerar na sociedade, que \u00e9 um programa para a melhora efetiva nas condi\u00e7\u00f5es de vida objetivas. A vida precisa melhorar para que as pessoas possam ter condi\u00e7\u00f5es de se organizar, se mobilizar, mas nunca podemos parar de pensar em nossa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 apenas nos organizando e atuando na sociedade que teremos condi\u00e7\u00f5es de acionar esse futuro. Simplesmente condenar o bolsonarismo, achar ruim, ir votar e acabou, n\u00e3o resolve. O bolsonarismo, independente do Bolsonaro, tem outros fascistas que podem ser acionados para fazer brotar toda essa situa\u00e7\u00e3o sombria que representa o movimento \u2014 essa puls\u00e3o de morte decorrente da falta de perspectiva de futuro, de falta de horizonte. Teremos que continuar na luta.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos entregar os pontos e achar que a simples resolu\u00e7\u00e3o de problemas pontuais enfrentar\u00e1 o fascismo. O fascismo deve ser enfrentado nos dois pontos. Do lado objetivo, das condi\u00e7\u00f5es materiais, atrav\u00e9s de condi\u00e7\u00f5es materiais para que a popula\u00e7\u00e3o viva, mas tamb\u00e9m dando um sonho, um horizonte, uma utopia. Essa utopia n\u00e3o pode ser o reino ap\u00f3s a morte. Ela deve ser constru\u00edda aqui, e para constru\u00ed-la, temos que nos organizar, lutar e se desenvolver pessoalmente, criar.<\/p>\n<p><strong>Existe muita cobran\u00e7a, de algumas classes, para que o Lula prometa fazer pol\u00edticas ultraliberais na economia. Se ele fizer isso, n\u00e3o conseguir\u00e1 dar a condi\u00e7\u00e3o de vida material que os brasileiros precisam nesse momento, como voc\u00ea citou. N\u00e3o tem como, por exemplo, fazer qualquer projeto de aux\u00edlio social com o teto de gastos, sem partir para algo como o or\u00e7amento secreto. A campanha, de fato, promete aos eleitores que tudo ser\u00e1 como 2003, e naquele ano, o Lula realmente elaborou um projeto econ\u00f4mico incr\u00edvel. Ele conseguiu criar aquele cen\u00e1rio n\u00e3o apenas com a ajuda de v\u00e1rios economistas, mas tamb\u00e9m se aproveitando do momento de crescimento em que o mundo passava. Agora, vinte anos depois, ele muito provavelmente n\u00e3o conseguir\u00e1 fazer o mesmo. Em sua vis\u00e3o de professora e economista, o que o Lula poder\u00e1 concretizar no cen\u00e1rio econ\u00f4mico, se eleito?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que Lula n\u00e3o ter\u00e1 muitas condi\u00e7\u00f5es, caso n\u00e3o enfrente de forma contundente as limita\u00e7\u00f5es dadas na conjuntura brasileira. Entre elas, o teto de gastos, a reforma trabalhista, a reforma do ensino m\u00e9dio, al\u00e9m das press\u00f5es da grande m\u00eddia para que as contrarreformas se aprofundem, como a privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobras e um conjunto de estruturas do Estado \u2014 como a reforma administrativa e a cobran\u00e7a de mensalidades nas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Todas essas s\u00e3o pautas burguesas, independentemente de estarem na extrema-direita, ou compondo a chapa do Lula \u2014 porque elas tamb\u00e9m a comp\u00f5em. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os economistas liberais e ultraliberais todos est\u00e3o apoiando o Lula. Ele ter\u00e1 muitas dificuldades em enfrentar essa pauta econ\u00f4mica ultraliberal, e n\u00f3s vamos ter que ver se esse movimento de ascens\u00e3o do lulismo enquanto movimento de massas, que tem se demonstrado nos \u00faltimos dias em gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es, vai se perpetuar na defesa dos projetos de Lula para o futuro. N\u00f3s, do PCB, rompemos com o governo Lula em 2005 \u2014 antes do mensal\u00e3o, inclusive \u2014 porque ele estava abrindo m\u00e3o de acionar seu potencial pol\u00edtico de massas pelos conchavos com a direita. N\u00e3o s\u00f3 no parlamento, mas com as for\u00e7as da burguesia no cen\u00e1rio interno.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s teremos que ver o seguinte: Lula ir\u00e1 continuar com a mesma estrat\u00e9gia de conchavos? Assim como voc\u00ea falou, a conjuntura econ\u00f4mica era diferente naquele per\u00edodo. De fato, era. Por isso, ele tinha ainda mais condi\u00e7\u00f5es de fazer e resolveu fazer menos do que poderia. Al\u00e9m da conjuntura econ\u00f4mica ter sido muito mais favor\u00e1vel, ele tinha um apoio de massas muito grande por vencer a elei\u00e7\u00e3o, um partido organizado e com milit\u00e2ncia. Se o Lula n\u00e3o acionar esse potencial pol\u00edtico de massas, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o n\u00famero de votos que voc\u00ea teve, o n\u00famero de votos vira no dia seguinte. Voc\u00ea tem que continuar acionando o seu potencial de massas para pressionar os diversos setores internos da burguesia e das for\u00e7as das fac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para encaminhar medidas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Lula vai ter um problema muito s\u00e9rio de governabilidade em um curt\u00edssimo espa\u00e7o de tempo, mas isso n\u00e3o \u00e9 um problema para a burguesia interna e para o capital. Desde que come\u00e7aram as conversas para que Geraldo Alckmin se tornasse vice no passado, cheguei a dizer que essa era a maneira mais f\u00e1cil de o PSDB chegar \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica sem precisar enfrentar o Lula \u2014 sendo o pr\u00f3prio vice. Se ele n\u00e3o se aproveitar de todo esse conjunto da popula\u00e7\u00e3o brasileira que est\u00e1 depositando essa esperan\u00e7a e confian\u00e7a para mobilizar essas for\u00e7as e implementar um programa econ\u00f4mico que n\u00e3o aprofunde ainda mais o projeto ultraneoliberal, ele perder\u00e1 completamente o apoio que eventualmente consiga ter no Congresso Nacional, e n\u00f3s teremos um Alckmin como presidente.<\/p>\n<p><strong>Me lembro, Sofia, de ter lido o seu plano de governo, al\u00e9m de outros candidatos. Algo que chamou a aten\u00e7\u00e3o no seu plano, n\u00e3o s\u00f3 a minha, mas de muitos, foi a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para 30 horas semanais. Isso n\u00e3o \u00e9 algo radical, mas b\u00e1sico at\u00e9 mesmo em pa\u00edses neoliberais e de direita no norte do mundo, mas no Brasil, direitos b\u00e1sicos sempre s\u00e3o inacess\u00edveis, imposs\u00edveis e radicais. Assim como voc\u00ea disse anteriormente, \u00e9 muito cedo para vermos algo no Congresso, mas voc\u00ea acredita que, caso o Lula seja eleito, h\u00e1 um cen\u00e1rio onde podemos lutar e efetivar esses direitos b\u00e1sicos?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que se amplia uma possibilidade de luta, n\u00e3o se abre, porque as possibilidades de luta sempre existem. Elas ampliam justamente porque conseguimos eleger um conjunto de deputados de diversos espectros progressistas da sociedade brasileira e est\u00e3o mobilizados. N\u00e3o apenas mobilizados no sentido de ficar na defensiva no Congresso, mas ir para a ofensiva. Acredito que o mais importante na minha campanha presidencial foi mostrar para um conjunto \u2014 ainda muito pequeno da juventude trabalhadora brasileira \u2014 que precisamos sair da defensiva e ir para a ofensiva.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ir para a ofensiva da forma que n\u00f3s mobilizamos a juventude e a classe trabalhadora para ir at\u00e9 ao Congresso Nacional e exigir que pautas importantes sejam atendidas. N\u00e3o adianta ter a estrat\u00e9gia da negocia\u00e7\u00e3o. Existem algumas experi\u00eancias que demonstram como isso \u00e9 poss\u00edvel de ser feito, e como isso \u00e9 bem efetivo. A primeira experi\u00eancia foi a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. A Assembleia Nacional Constituinte fez com que a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o \u2014 que \u00e9 considerada uma boa Constitui\u00e7\u00e3o, pena que j\u00e1 desmontaram tanto ela que j\u00e1 n\u00e3o sobra nada do que ela era antigamente \u2014, garantisse um conjunto de direitos important\u00edssimos. Os congressistas que compunham a assembleia eram na sua ampla maioria de extrema-direita, direita ou do centr\u00e3o. S\u00f3 para se ter uma ideia, o PT tinha 6 deputados, o PCB tinha 3, e alguns setores mais progressistas do trabalhismo tinham mais uns 10 ou 12. O resto era o centr\u00e3o e a direita. Como \u00e9 que foi poss\u00edvel aquela Constitui\u00e7\u00e3o? Ora, s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a sociedade estava t\u00e3o mobilizada para que aquilo fosse feito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 muito importante hoje, por exemplo, trazermos para fora do Congresso as pautas que s\u00e3o debatidas. N\u00e3o apenas na noite em que a vota\u00e7\u00e3o come\u00e7a e na madrugada em que ela termina, para depois fazermos manifesta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o \u00e0 isso, n\u00e3o \u00e0quilo. Temos que trazer essas pautas antes que elas se definam no Congresso, e fazer com que a popula\u00e7\u00e3o participe desse debate.<\/p>\n<p>Durante a campanha, fui muito questionada porque a minha campanha foi uma das \u00fanicas que falou com bastante \u00eanfase sobre a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha. Fomos questionados por diversos meios \u201cmas a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 contra a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha, voc\u00ea n\u00e3o acha que voc\u00ea estreita o seu discurso se voc\u00ea defende a legaliza\u00e7\u00e3o?\u201d. Respondo da seguinte forma: a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha vai acontecer, porque j\u00e1 est\u00e1 sendo debatido. Agora, temos que trazer esse debate para a sociedade. A legaliza\u00e7\u00e3o da maconha est\u00e1 sendo preparada de forma que s\u00f3 os grandes monop\u00f3lios do agroneg\u00f3cio e das ind\u00fastrias farmac\u00eautica e tabagista possam plantar, se beneficiar e distribuir os derivados da maconha, mesmo para o uso recreativo. Ent\u00e3o, \u00e9 como se teremos a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha, mas voc\u00ea n\u00e3o pode plantar o seu p\u00e9 de maconha em casa, porque a\u00ed \u00e9 ilegal. A legaliza\u00e7\u00e3o vai ocorrer, n\u00f3s como sociedade apenas n\u00e3o estamos participando desse debate.<\/p>\n<p>Temos que fazer com que a sociedade participe de diversas outras pautas importantes e progressistas, para que se encaminhe essas pautas para um sentido progressista. Ter\u00e1 que haver alguma regula\u00e7\u00e3o do trabalho, principalmente para a juventude, porque da forma que o trabalho foi absolutamente desregulado pela reforma trabalhista, isso inviabiliza o pr\u00f3prio desenvolvimento dessa juventude e o desenvolvimento da acumula\u00e7\u00e3o de capital no Brasil. Agora, essa regula\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 no congresso e se tornar um novo pacote goela abaixo para n\u00f3s, ou iremos nos apropriar disso e falar que queremos uma jornada de trabalho de trinta horas semanais, que a m\u00e3o de obra de todos os trabalhadores de aplicativo sejam intermediados por uma empresa p\u00fablica? Outra quest\u00e3o, a pauta LGBTQIA+ ir\u00e1 avan\u00e7ar. Queremos que ela avance apenas para existir um grau de igualdade formal, ou que exista, por exemplo, uma pol\u00edtica de cotas, a efetividade da garantia do direito do nome social, um programa de sa\u00fade espec\u00edfico para a popula\u00e7\u00e3o LGBT, principalmente para as mulheres trans?<\/p>\n<p>Existem um conjunto de elementos que precisam ser debatidos pela sociedade. Precisamos trazer de volta a popula\u00e7\u00e3o brasileira para acionar essas pautas no debate di\u00e1rio e ir para a ofensiva. Vejo com bastante otimismo a atua\u00e7\u00e3o da esquerda e da esquerda socialista no congresso.<\/p>\n<p><strong>Acredito que para essa dianteira, falta o papel dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Uma das fun\u00e7\u00f5es sociais do jornalismo \u00e9 inteirar a sociedade n\u00e3o s\u00f3 no que ela quer, mas no que ela precisa saber. A sabi\u00e1, por exemplo, foi criada com o lema \u201cDemocratizar o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 porque sabemos ela n\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda de maneira igual na sociedade. A comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, em especial o jornalismo, parece estar afastada das necessidades reais do povo. Como algu\u00e9m que estuda e trabalha no meio, vejo que uma das alternativas para solucionar isso \u00e9 o investimento em m\u00eddias estatais p\u00fablicas que sejam independentes da altern\u00e2ncia de poder. No Brasil, elas nunca tiveram essa atua\u00e7\u00e3o forte, ao contr\u00e1rio de pa\u00edses na Europa, como na Inglaterra (BBC) e Alemanha (DW). Como voc\u00ea acha que um novo governo de esquerda pode solucionar esse abismo na representa\u00e7\u00e3o dos interesses e necessidades da popula\u00e7\u00e3o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sem cairmos em discursos ou propostas extremas?<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem s\u00f3 de agora. Eles sempre foram um bra\u00e7o muito poderoso dos grupos dominantes no Brasil. Voc\u00ea deve saber que o Estad\u00e3o e a Folha de S\u00e3o Paulo defenderam a ditadura, que a Globo demorou cinquenta anos para reconhecer seu erro na defesa da ditadura. Al\u00e9m disso, eles s\u00e3o, como meios de jornalismo, um jornalismo que s\u00f3 tem uma vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse um problema que deve ser enfrentado de duas formas. A primeira delas \u00e9 construindo meios de comunica\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea mesma falou da revista o sabi\u00e1, e buscar inser\u00e7\u00e3o, conseguir estar junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Usar plataformas como o YouTube e o Instagram para produzir conte\u00fados e dissemin\u00e1-los com qualidade e seriedade, para diferenciar do que a direita faz e at\u00e9 mesmo uma parcela da esquerda faz, num achismo de opini\u00e3o. Agora, isso tamb\u00e9m passa por uma regulamenta\u00e7\u00e3o. Na Europa e at\u00e9 mesmo nos EUA, n\u00e3o h\u00e1 o que se tem aqui, porque o que h\u00e1 no Brasil n\u00e3o \u00e9 uma liberdade de imprensa. O que se tem no Brasil \u00e9 um \u00fanico grupo, uma \u00fanica classe social que det\u00e9m todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o que s\u00e3o p\u00fablicos. N\u00e3o estou falando da Folha ou do Estad\u00e3o, porque esses s\u00e3o jornais impressos. Agora, televis\u00e3o e r\u00e1dio s\u00e3o concess\u00f5es p\u00fablicas e \u00e9 uma classe social que det\u00e9m todos esses meios de comunica\u00e7\u00e3o. Tem que ter algum mecanismo de regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tem de se incentivar redes locais e de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado que representem outros interesses, assim como blogs e redes de r\u00e1dios comunit\u00e1rias, r\u00e1dios das diversas formas e ter um maior controle sobre a utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico pela m\u00eddia.<\/p>\n<p><strong>Agora, Sofia, quero que entremos em um assunto importante: o futuro da juventude. O nosso jornalismo aqui \u00e9 voltado para a juventude, e sempre tivemos canais muito abertos para contato com os leitores. Uma coisa que percebo, tanto em nossa pr\u00f3pria reda\u00e7\u00e3o quanto nos leitores que mantemos contato, at\u00e9 mesmo na faculdade, \u00e9 que todos n\u00f3s estamos desmotivados. Como podemos continuar indo para as aulas, trabalhando e vivendo, enquanto o mundo est\u00e1 acabando? Como voc\u00ea acredita ser poss\u00edvel incentivar a juventude n\u00e3o apenas a se organizar politicamente, mas tamb\u00e9m uma motiva\u00e7\u00e3o para que os jovens participem no processo de repensar um futuro melhor?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, tenho que dizer o seguinte: se voc\u00ea desistir, eles vencem. Portanto, n\u00f3s n\u00e3o temos alternativa. Todos n\u00f3s, jovens ou n\u00e3o, n\u00e3o temos alternativa. A nossa \u00fanica alternativa \u00e9 lutar. Bom, como fazer isso? De diversas maneiras. Primeiro, precisamos lutar internamente. Tenho essa preocupa\u00e7\u00e3o com o adoecimento mental da juventude, justamente por conta dessa falta de perspectiva. \u00c9 preciso olhar para o passado e observar que nos piores momentos da humanidade, pessoas acionaram para superar aqueles momentos e sempre foram os revolucion\u00e1rios que acionaram esses gatilhos que superassem os piores momentos.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o \u00e9 sair da defensiva e ir \u00e0 ofensiva, em todos os aspectos. Se chegamos no ambiente da universidade e nos deparamos com uma situa\u00e7\u00e3o em que ela est\u00e1 prec\u00e1ria pela falta de professores, sem disciplinas, n\u00e3o podemos nos acomodar. A todo momento vemos essa acomoda\u00e7\u00e3o nos ambientes universit\u00e1rios, que v\u00eam sofrendo cortes de verba brutais. Ficamos tentando nos adequar a essa restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria e chegou a hora de n\u00e3o nos adequarmos mais, de simplesmente pararmos. N\u00f3s, alunos, professores, trabalhadores da universidade, pararemos no dia 18 de outubro pela educa\u00e7\u00e3o. Devemos parar e mobilizar todas as for\u00e7as poss\u00edveis, ir para a ofensiva, ao inv\u00e9s de nos adequar ao or\u00e7amento.<\/p>\n<p>A segunda quest\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m mobilizar em n\u00f3s as subjetividades boas que nos impulsionem para a luta e a organiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 observar tudo o que a humanidade j\u00e1 fez de t\u00e3o bom e belo, porque temos ressaltado muito o que temos de ruim. No capitalismo, temos um bilh\u00e3o de pessoas passando fome. A degrada\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 terr\u00edvel. Ficamos o tempo inteiro avaliando a trag\u00e9dia em que nos encontramos e \u00e9 muito importante saber dessa trag\u00e9dia. N\u00f3s n\u00e3o podemos tapar o sol com a peneira, mas precisamos relembrar que a humanidade j\u00e1 produziu muitas coisas boas.<\/p>\n<p>Durante a campanha eleitoral, recebi muitos xingamentos de pessoas de extrema-direita afirmando que eu era burra, ignorante, n\u00e3o teria sequer um telefone celular se n\u00e3o fosse o empresariado. Ent\u00e3o, respondi que nunca ouvi falar de nenhum CNPJ que tenha feito um desenvolvimento tecnol\u00f3gico, quem desenvolve as tecnologias s\u00e3o os seres humanos. Precisamos sair da armadilha de pensar que este \u00e9 o \u00fanico mundo poss\u00edvel e ver que tudo at\u00e9 hoje, de bom e de ruim, foi produzido pelos seres humanos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central do que foi produzido de ruim no atual momento em que vivemos \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o social de produ\u00e7\u00e3o capitalista, por isso, ser anticapitalista n\u00e3o \u00e9 retroceder a um mundo imagin\u00e1rio em que n\u00f3s n\u00e3o tenhamos os avan\u00e7os que temos at\u00e9 aqui, mas \u00e9 superar a rela\u00e7\u00e3o social de explora\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel viver tranquilamente neste mundo com a tecnologia que temos e com mais outras que produziremos sem haver degrada\u00e7\u00e3o ambiental, degrada\u00e7\u00e3o humana, degrada\u00e7\u00e3o da sa\u00fade populacional. Por que sei que \u00e9 poss\u00edvel? Porque superamos coisas muito mais dif\u00edceis de se superar, basta ver as coisas que aconteceram ao longo da exist\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<p>Agora, qual \u00e9 o entrave para produzir esse mundo generoso? O capitalismo. Dessa forma, podemos levar \u00e0 juventude a perspectiva de que existe um horizonte de futuro que n\u00e3o \u00e9 dist\u00f3pico, para n\u00e3o simplesmente se acomodar e dizer \u201cesse pa\u00eds n\u00e3o tem mais jeito\u201d ou \u201cvou sair desse pa\u00eds\u201d, porque os outros pa\u00edses tamb\u00e9m est\u00e3o assim. Precisamos, coletivamente, pensar em estrat\u00e9gias de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. N\u00e3o apenas enfrentar as coisas ruins do capitalismo, mas enfrentar e superar.<\/p>\n<p><strong>Essa \u00e9 uma pergunta que, na verdade, minha m\u00e3e elaborou. Al\u00e9m da leitura do cen\u00e1rio geral, que j\u00e1 \u00e9 desmotivador por si s\u00f3 para qualquer um, a senhora certamente deve receber muitos ataques e coisas odiosas. Ent\u00e3o, como voc\u00ea lida com tudo isso?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os ataques. Os ataques \u00e0s vezes s\u00e3o o mais tranquilo, porque vem de um grau de ignor\u00e2ncia, de brutalidade. Quer dizer, a pessoa se d\u00e1 ao trabalho de entrar na minha rede social para escrever \u201csua burra, vai estudar\u201d. N\u00e3o me importo com isso, n\u00e3o \u00e9 nem a quest\u00e3o que me abala. Evidentemente, tamb\u00e9m sou muito abalada por toda essa situa\u00e7\u00e3o muito dram\u00e1tica pela qual estamos passando. No entanto, aciono os gatilhos importantes para mim e que me fortale\u00e7am nessa perspectiva de luta.<\/p>\n<p>Gosto muito e sou apaixonada por m\u00fasica. Ver, por exemplo, desde uma pe\u00e7a de Bach, Beethoven, um samba brasileiro, um blues norte-americano, at\u00e9 agora, estava escutando Orishas \u2014 rap cubano. Voc\u00ea pensa o que os seres humanos j\u00e1 fizeram. Olha o grau de complexidade que eles j\u00e1 alcan\u00e7aram. Ser\u00e1 que vamos jogar tudo no lixo por conta de um super lucro especulativo que n\u00e3o pode ser apropriado, nem materialmente? Esse \u00e9 um dos meus gatilhos positivos \u2014 hoje se usa muito esse termo \u201cgatilho\u201d para o elemento negativo, ent\u00e3o vamos falar de gatilhos positivos, os da for\u00e7a. Vejo muito do que acho importante para a humanidade na arte. Para mim, a arte \u00e9 a express\u00e3o mais sublime da humanidade. Agora, estamos sendo bombardeados por um lixo na m\u00fasica, na escultura, no cinema, que faz com que pensemos que e a humanidade n\u00e3o produz mais nada de bom. Mas, ela produz, ou pelo menos j\u00e1 produziu em algum momento. Temos que resgatar isso como um elemento bom.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que funciona muito bem para mim \u00e9 o fato de poder conversar com muito mais gente. Eu n\u00e3o leio as coisas e estudo s\u00f3 para me informar, eu leio e estudo para entender porque as coisas est\u00e3o dessa forma, como \u00e9 que elas chegaram aqui. Claro que voc\u00ea precisa ter informa\u00e7\u00e3o, mas voc\u00ea tem que fazer as conex\u00f5es entre essas informa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o adianta voc\u00ea fazer isso s\u00f3 para si, voc\u00ea tem que compartilhar isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para mim um dos elementos que me d\u00e1 muita for\u00e7a e energia \u00e9 a possibilidade de passar para mais gente estas conex\u00f5es que eu vou aprendendo ao longo do tempo, e posso trazer para um conjunto maior de pessoas. Pelo menos essas an\u00e1lises da realidade e passar isso pra frente. Isso me motiva, me d\u00e1 \u00e2nimo, me d\u00e1 energia. Fora o fato de estar organizada, ter que preparar quest\u00f5es que s\u00e3o importantes para a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o. Assim, temos que enfrentar e enfrentamos. Tudo o que n\u00f3s n\u00e3o podemos fazer \u00e9 desistir, porque se desistirmos eles ganham, ganham mesmo.<\/p>\n<p>Pode parecer bobagem o que falo, mas isso \u00e9 efetivo. Por exemplo, pensei durante a campanha, e se n\u00f3s pudermos construir um festival? Ano que vem, precisamos construir um festival de hip hop e rap, n\u00e3o com os grandes nomes, mas com essa juventude gigantesca que conheci durante a campanha e est\u00e1 produzindo rap de alt\u00edssima qualidade. Como podemos acionar isso? Conversando com uma prefeitura, um espa\u00e7o, uma rave, um patrocinador \u2014 n\u00e3o trabalho na produ\u00e7\u00e3o cultural, ent\u00e3o n\u00e3o sei como produzir, mas podemos preparar e mobilizar isso, fazer um Woodstock do rap. Tudo isso d\u00e1 muito \u00e2nimo e muita for\u00e7a. Existem v\u00e1rias formas acionarmos nossos gatilhos do bem, o que a gente tem que enfrentar s\u00e3o os gatilhos do mal os gatilhos da depress\u00e3o do des\u00e2nimo e pensar coletivamente como vamos construir isso.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/revistaosabia.com\/2022\/10\/17\/precisamos-repensar-o-futuro-para-a-juventude\/\">Precisamos repensar o futuro para a&nbsp;juventude<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29352\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"N\u00e3o podemos entregar os pontos e achar que a simples solu\u00e7\u00f5es pontuais enfrentar\u00e3o o fascismo. 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