{"id":29403,"date":"2022-10-31T10:03:52","date_gmt":"2022-10-31T13:03:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29403"},"modified":"2022-10-31T10:03:52","modified_gmt":"2022-10-31T13:03:52","slug":"contribuicao-a-uma-introducao-leninista-ao-marxismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29403","title":{"rendered":"Contribui\u00e7\u00e3o a uma introdu\u00e7\u00e3o leninista ao marxismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"555\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/lenin-1024x761.jpg?resize=747%2C555&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Gabriel Landi Fazzio<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cMarx e Engels disseram que seus ensinamentos \u2018n\u00e3o s\u00e3o um dogma, mas um guia para a a\u00e7\u00e3o\u2019. Essas palavras suas foram continuamente repetidas por L\u00eanin\u201d. (Como L\u00eanin estudava Marx, por Nadejda Kr\u00fapskaia)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cSer\u00e1 nomeadamente o dever dos dirigentes esclarecer-se cada vez mais sobre todas as quest\u00f5es te\u00f3ricas, libertar-se cada vez mais da influ\u00eancia das frases tradicionais, pertencentes \u00e0 velha vis\u00e3o de mundo, e ter sempre em mente que o socialismo, desde que se tornou uma ci\u00eancia, tamb\u00e9m requer seu exerc\u00edcio como ci\u00eancia, isto \u00e9, sendo estudado.\u201d (Pref\u00e1cio a As guerras camponesas na Alemanha, por Friedrich Engels)<\/p>\n<p><strong>Um s\u00e9culo promissor para a difus\u00e3o do marxismo no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a mal-sucedida proclama\u00e7\u00e3o do \u201cfim da Hist\u00f3ria\u201d pelos ide\u00f3logos da burguesia, o estudo do marxismo vive uma d\u00e9cada de rejuvenescimento e difus\u00e3o. Muitos fatores fazem crescer o interesse por esse estudo entre as massas da classe trabalhadora e do povo pobre: a intensifica\u00e7\u00e3o das lutas entre a burguesia e o proletariado, na ressaca da crise mundial de 2008; os reveses experimentados pela t\u00e1tica reformista e pela pol\u00edtica democr\u00e1tico-burguesa; a incapacidade dos ide\u00f3logos da burguesia em oferecer \u00e0s massas uma perspectiva de futuro que n\u00e3o seja a distopia e o desespero etc. Se \u00e9 verdade que, nos anos 90, o movimento revolucion\u00e1rio do proletariado sofreu o maior refluxo de toda sua hist\u00f3ria (mais profundo que o refluxo de 1871, ap\u00f3s o massacre da Comuna de Paris); \u00e9 verdade tamb\u00e9m que o interesse crescente pelo marxismo \u00e9 a tend\u00eancia do futuro, que ser\u00e1 t\u00e3o mais revigorada quanto mais intensa se torne a luta de classes em cada pa\u00eds e os choques entres as pot\u00eancias imperialistas ao redor do mundo. A cada dia, cresce em meio \u00e0 classe trabalhadora o n\u00famero de pessoas dispostas a dedicar o melhor de sua exist\u00eancia \u00e0 causa da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m dessa s\u00f3lida base material hist\u00f3rica \u2013 que, como a pradaria seca, permite que a centelha da curiosidade prolet\u00e1ria se dissemine num inc\u00eandio de propaganda[1] e instru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria -, devemos levar em conta um outro fator: a pr\u00f3pria facilidade sem precedente no acesso \u00e0 teoria revolucion\u00e1ria. Nunca antes a classe trabalhadora brasileira teve \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para o estudo minucioso uma quantidade t\u00e3o vasta de escritos de Marx, Engels e L\u00eanin, esses far\u00f3is da teoria revolucion\u00e1ria. N\u00e3o apenas porque muitos textos originais desses autores (rascunhos, esbo\u00e7os, materiais inconclusos etc.) tenham demorado d\u00e9cadas para vir \u00e0 p\u00fablico, mas tamb\u00e9m porque, no nosso pa\u00eds, muitos desses materiais, mesmo dispon\u00edveis h\u00e1 d\u00e9cadas no estrangeiro, simplesmente jamais haviam sido publicados!<\/p>\n<p>Contudo, vivemos nesses tempos nos quais \u201ccada progresso \u00e9, simultaneamente, um retrocesso relativo\u201d[2]. Vejamos a profundidade das transforma\u00e7\u00f5es ocorridas na propaganda da teoria revolucion\u00e1ria e suas implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando o Partido Comunista Brasileiro foi fundado, em 1922, nenhuma obra de Karl Marx e Friedrich Engels, muito menos de L\u00eanin, havia sido traduzida e publicada em territ\u00f3rio nacional[3]. Apenas uma pequena parcela de socialistas, aqueles que dispunham de recursos para importar livros do estrangeiro (tradu\u00e7\u00f5es portuguesas de algumas poucas obras, ou edi\u00e7\u00f5es em outras l\u00ednguas), tinha acesso direto \u00e0s bases te\u00f3ricas do socialismo cient\u00edfico. Os demais haviam encontrado seu caminho para o marxismo indiretamente, atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda promovida por esses camaradas poliglotas (que, eles pr\u00f3prios, n\u00e3o dispunham de um t\u00e3o vasto contato com os textos te\u00f3ricos), sob inspira\u00e7\u00e3o das not\u00edcias advindas da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria russa e, no geral, oriundos de uma forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica com tra\u00e7os de republicanismo revolucion\u00e1rio franc\u00eas, positivismo e anarquismo. Seria tarefa da pr\u00f3pria milit\u00e2ncia comunista reverter tal situa\u00e7\u00e3o, mas ainda levaria d\u00e9cadas para que ao menos as principais obras te\u00f3ricas de Marx e Engels estivessem dispon\u00edveis no pa\u00eds. O caso de O capital \u00e9 emblem\u00e1tico. Publicado pela Editora Unitas em 1932, tendo por base uma vers\u00e3o resumida de Carlo Cafiero, o livro demoraria ainda mais tr\u00eas d\u00e9cadas para, em 1968, obter sua publica\u00e7\u00e3o integral pela Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, com tradu\u00e7\u00e3o de Reginaldo Sant\u2019Anna. Evidentemente, a dura persegui\u00e7\u00e3o ao movimento comunista ao longo dessas d\u00e9cadas explica n\u00e3o s\u00f3 o atraso no trabalho de tradu\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m a dificuldade no acesso \u00e0 literatura j\u00e1 traduzida.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar significativamente a partir dos anos 80, por uma s\u00e9rie de motivos:<\/p>\n<p>1) Com a conquista pela massa prolet\u00e1ria, na luta, da liberdade de organiza\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o (uma conquista depois consagrada constitucionalmente, lan\u00e7ando as bases formais da nossa III Rep\u00fablica burguesa, atualmente em crise terminal), afloraram tamb\u00e9m dezenas de iniciativas editoriais \u201cde esquerda\u201d. Essas iniciativas, mesmo atravessando as turbul\u00eancias do mercado editorial ao longo das d\u00e9cadas seguintes, acabaram por produzir todo o atual quadro de editoras que publicam material marxista no Brasil \u2013 entre as quais a Boitempo \u00e9, sem d\u00favida, a mais proeminente e que mais contribuiu, recentemente, para a publica\u00e7\u00e3o da obras marxistas h\u00e1 muito in\u00e9ditas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>2) Tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da redemocratiza\u00e7\u00e3o burguesa, parte da intelligentsia radical oriunda das classes m\u00e9dias passou a encontrar cada vez mais espa\u00e7o para sua exist\u00eancia profissional nas universidades e, com menor \u201cliberdade de propaganda\u201d, nas escolas em geral. Mas essa possibilidade aberta \u00e0 intelectualidade pequeno-burguesa pela redemocratiza\u00e7\u00e3o dos anos 80 tornou-se, nos anos 90, sob a press\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS, uma prefer\u00eancia. Como a contrarrevolu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dessa \u00e9poca operasse uma profunda ruptura org\u00e2nica entre o movimento prolet\u00e1rio e a intelectualidade radical, esta (desacreditada perante as massas pelos mais diversos erros de seu pr\u00f3prio movimento revolucion\u00e1rio) refugiou-se em carreiras docentes e encastelou-se em \u201clinhas de pesquisa\u201d cada vez menos ligadas \u00e0s problem\u00e1ticas pr\u00e1tico-te\u00f3ricas do movimento socialista e da luta pela hegemonia do proletariado revolucion\u00e1rio em meio ao movimento social em geral. Resguardada nesse \u201cestu\u00e1rio\u201d intelectual, era incapaz de conectar-se diretamente \u00e0 luta prolet\u00e1ria; era incapaz de produzir uma literatura partid\u00e1ria revolucion\u00e1ria e, sobre ela, uma organiza\u00e7\u00e3o da atividade revolucion\u00e1ria e quadros revolucion\u00e1rios. Mas logrou, contudo, ao menos fazer proliferar a literatura acad\u00eamica radical, bem como quadros acad\u00eamicos radicais.<\/p>\n<p>3) Sozinhos, contudo, esses primeiros fen\u00f4menos operavam em \u00e2mbitos muito restritos: o \u00e2mbito da intelectualidade universit\u00e1ria, ou o \u00e2mbito n\u00e3o t\u00e3o mais amplo do p\u00fablico comprador de livros te\u00f3ricos. Mas, em meio a todas essas transforma\u00e7\u00f5es para a propaganda te\u00f3rica, adveio a revolu\u00e7\u00e3o na tecnologia da comunica\u00e7\u00e3o, permitindo uma amplia\u00e7\u00e3o expressiva do \u00e2mbito desta atividade. N\u00e3o, evidentemente, sem alguma relut\u00e2ncia por parte das editoras e dos intelectuais profissionais, cujos direitos autorais foram repetidamente atropelados pela ampla difus\u00e3o gratuita possibilitada na internet\u2026 Mas, seja como for, o trabalho volunt\u00e1rio de milhares de pessoas em todo o mundo vem transformando, h\u00e1 d\u00e9cadas, a rede mundial de computadores em um reposit\u00f3rio imediatamente acess\u00edvel de volumes e mais volumes de literatura marxista, em in\u00fameras l\u00ednguas. Neste caso, n\u00e3o poderia passar desapercebido o trabalho de camaradas como Fernando Ara\u00fajo, gestor do acervo do Arquivo Marxista na Internet em portugu\u00eas[4].<\/p>\n<p>Temos, portanto, esse quadro contradit\u00f3rio: antes dos anos 80, havia um acesso restrito \u00e0 literatura te\u00f3rica revolucion\u00e1ria, mas este acesso era muito mais conectado \u00e0 pr\u00f3pria pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria. Ap\u00f3s os anos 80, a difus\u00e3o da teoria revolucion\u00e1ria ultrapassa em muito as demais formas da atividade revolucion\u00e1ria e, por isso mesmo, muitas vezes n\u00e3o se complementa com qualquer pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria que n\u00e3o a pr\u00f3pria pr\u00e1tica propagand\u00edstica, ou o pr\u00f3prio estudo.<\/p>\n<p>O lado bom de todas essas transforma\u00e7\u00f5es \u00e9 que aumentam as possibilidades da difus\u00e3o te\u00f3rica do marxismo. Todos os dias, espontaneamente, novas pessoas s\u00e3o levadas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura marxista simplesmente porque suas pesquisas nos motores de busca as direciona para tal ou qual p\u00e1gina (o que tamb\u00e9m vale, contudo, para a literatura burguesa em geral). Cada dia mais fica para tr\u00e1s a \u00e9poca da forma\u00e7\u00e3o de quadros baseada quase exclusivamente em sinopses, resumos e manuais. Cada vez mais militantes revolucion\u00e1rios podem instruir-se diretamente a partir do estudo dos escritos cl\u00e1ssicos, fundacionais, do socialismo cient\u00edfico. Cada vez mais quadros podem, a partir deste estudo, resolver por si pr\u00f3prios os problemas te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos de nossa \u00e9poca, debatendo suas quest\u00f5es te\u00f3ricas amplamente, \u00e0s vezes inclusive com pessoas de outros pa\u00edses, atrav\u00e9s das redes sociais, e muito mais.<\/p>\n<p>Contudo, o lado ruim diz respeito justamente \u00e0 aus\u00eancia de conex\u00e3o direta entre a instru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica revolucion\u00e1ria e a pr\u00e1tica coletiva do trabalho revolucion\u00e1rio. Nesse contexto de desconex\u00e3o, a tend\u00eancia \u00e9 que a forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica seja concebida como um fim em si mesmo, ou guiada n\u00e3o pelas necessidades te\u00f3ricas que emergem dos problemas pr\u00e1ticos da milit\u00e2ncia, mas da pura curiosidade e afinidade tem\u00e1tica individual. \u00c9 simplesmente sintom\u00e1tico desta desconex\u00e3o, portanto, que os intelectuais radicais vejam sua principal tarefa n\u00e3o como sendo o trabalho de agita\u00e7\u00e3o e propaganda entre as massas (\u00fanica atividade capaz de operar a indispens\u00e1vel fus\u00e3o entre a teoria revolucion\u00e1ria nascida na intelectualidade e o movimento de massas do proletariado), mas sim como sendo a \u201cpurifica\u00e7\u00e3o do marxismo\u201d, o eterno \u201cretorno a Marx\u201d para \u201cdescobrir o que deu errado\u201d nas experi\u00eancias socialistas do s\u00e9culo XX (partindo da premissa question\u00e1vel de que os desvios e erros do movimento comunista no \u00faltimo s\u00e9culo t\u00eam suas causas principais em debilidades de apreens\u00e3o te\u00f3rica, e n\u00e3o nas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es sociais historicamente determinadas).<\/p>\n<p>Nesse contexto, o \u201cmarxismo\u201d mais difundido assume a forma, no mais das vezes, de mera \u201cmarxologia\u201d[5] diletante, na qual a \u201cpr\u00e1tica\u201d figura como mera categoria conceitual. Para os adeptos mais fervorosos dessa tend\u00eancia, apenas a literalidade \u201cmarxiana\u201d \u00e9 digna de aten\u00e7\u00e3o, e tudo o que veio depois de Marx \u00e9 um desvio e uma corrup\u00e7\u00e3o terr\u00edvel (Engels inclusive \u2013 \u201cafinal, o pr\u00f3prio Marx dizia que n\u00e3o era marxista\u201d, argumentam alguns, distorcendo grosseiramente o contexto de uma frase de efeito pol\u00eamica contra o \u201cesquerdismo\u201d de Guesde e Lafargue)\u2026 ou, ent\u00e3o, essa \u201cnova leitura\u201d ressurge diretamente sob a velha forma da novidade revisionista, que se autodeclara marxismo apenas para se combinar a diversas formas de pr\u00e1tica pol\u00edtica reformista ou abstencionista, antimarxistas, \u201cporque, afinal o mundo mudou\u201d \u2013 e os s\u00e1bios desse tipo se especializaram em \u201cdescobrir\u201d que, se estivesse vivo, Marx, Engels e L\u00eanin seriam hoje reformistas ou abstencionistas, como eles, e n\u00e3o defensores da luta pol\u00edtica do proletariado revolucion\u00e1rio por sua ditadura de classe[6]! Some-se a isso uma certa soberba acad\u00eamica, que condena em absoluto os manuais e resumos te\u00f3ricos, como se nosso movimento dependesse simplesmente de (ou pudesse contar somente com) pessoas que leram, por si pr\u00f3prias, as Obras Completas de Marx\u2026 e pronto. Teremos o quadro completo da intelectualidade marxista profissional que predominou durante todo o per\u00edodo entre os anos 90 e hoje, e que, agora (conforme o pensamento revolucion\u00e1rio se dissemina e forma quadros intelectuais militantes, oriundos das massas trabalhadores \u2013 em especial em meio \u00e0 juventude prolet\u00e1ria), v\u00ea-se cada vez mais escanteada, desorientada e afoita.<\/p>\n<p>Seria uma tolice, no entanto, concluir que basta \u201cmanter o lado bom e suprimir o lado ruim\u201d. Mais que isso: \u00e9 preciso, demarcando como ponto de apoio firme as novas for\u00e7as te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas do proletariado revolucion\u00e1rio (\u201co lado bom\u201d), atravessar o \u201clado ruim\u201d, incorporando inclusive alguns de seus momentos e, no caminho, tamb\u00e9m elevando essas novas for\u00e7as a um patamar superior. Em outras palavras: a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 contrapor a esse retorno a Marx diletante a mera necessidade de aplicar Marx ao presente: trata-se de voltar a fazer, hoje, como Marx \u2013 como L\u00eanin fez, tamb\u00e9m, a seu tempo.<\/p>\n<p>Dito isso, \u00e9 preciso ter em vista a profunda responsabilidade dos revolucion\u00e1rios e das revolucion\u00e1rias de nossa \u00e9poca sobre o futuro da humanidade. Que a fidelidade \u00e0 teoria de Marx, Engels e L\u00eanin n\u00e3o pode ser, com efeito, confundida com a mera repeti\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica, isso parece ser um consenso entre os intelectuais. Contudo, enquanto muito se critica o culto \u00e0 personalidade das lideran\u00e7as dos Estados oper\u00e1rios do s\u00e9culo XX (St\u00e1lin, Mao etc.), n\u00e3o raro esse mesmo culto \u00e0 personalidade reaparecer sob a forma hip\u00f3crita da \u201chumildade\u201d perante os gigantes Marx, Engels e L\u00eanin. Se \u00e9 verdade que hoje podemos ver mais longe com mais facilidade gra\u00e7as ao trabalho pregressos desses colossos da teoria e da atividade revolucion\u00e1ria (porque \u201csubimos em seus ombros\u201d, como diz o antigo mote cient\u00edfico); tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, justamente por isso, devemos encarar a tarefa de estar \u00e0 sua altura e, como eles, ir al\u00e9m daqueles que vieram antes de n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o poucas vezes ouvi, contra mim e contra outros camaradas, \u00e0 guisa de cr\u00edtica a uma suposta \u201carrog\u00e2ncia\u201d: \u201cele acha que \u00e9 L\u00eanin\u201d? Sem d\u00favida, \u00e0 sua \u00e9poca, lutando contra muitos \u201cmarxistas\u201d renomados e mais velhos, L\u00eanin ouviu a mesma censura quanto a \u201cachar que \u00e9 Marx\u201d\u2026 E sem d\u00favida Marx, a seu tempo, tamb\u00e9m ouviu sua boa dose de bobagem. Apenas d\u00e9cadas depois, ap\u00f3s a pr\u00f3pria demonstra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica confirmar a veracidade dos postulados pol\u00eamicos desses camaradas, seus nomes foram recobertos por esse manto de inquestionabilidade. Mas, em vida, estiveram muitas vezes em minoria, condenados por sua radicalidade excessiva, sua suposta estreiteza, sua contund\u00eancia, sua recusa a diluir-se em meio aos erros alheios etc.<\/p>\n<p>A pergunta que defronta a intelectualidade revolucion\u00e1ria n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, se cada um de n\u00f3s disp\u00f5e, individualmente, de tal ou qual capacidade pessoal que nos permita o brilhantismo do estilo ou do racioc\u00ednio l\u00f3gico-abstrato de Marx, por exemplo. A quest\u00e3o \u00e9 que \u00e9 nosso dever fazer no m\u00ednimo o mesmo tanto, mas de fato mais do que p\u00f4de fazer Marx, a seu tempo, pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, precisamente porque podemos partir do estudo de sua obra te\u00f3rica e pr\u00e1tica. Ou, ent\u00e3o, se nenhum de n\u00f3s crer que possamos nos p\u00f4r \u00e0 altura dessas pessoas (gente de carne e osso, hist\u00f3rica e concretamente determinada e limitada, como todo ser humano, e n\u00e3o semideuses), restaria apenas saber com base em que tipo de mediocridade devemos nivelar por baixo nossas atividades e tarefas hist\u00f3ricas\u2026<\/p>\n<p>Portanto, sejamos todos L\u00eanin. N\u00e3o basta que tenhamos centenas ou milhares de camaradas que conhe\u00e7am o marxismo: precisamos pensar e atuar como Marx, o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel precisamente pela combina\u00e7\u00e3o do afinco no estudo te\u00f3rico, da pr\u00e1tica coletiva centralizada e da constante pol\u00eamica democr\u00e1tica. S\u00f3 essa combina\u00e7\u00e3o pode, pela cr\u00edtica e autocr\u00edtica, forjar, a partir de diversas pessoas com n\u00edveis desiguais de compreens\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica, um conhecimento e uma atividade coletivos, uma organiza\u00e7\u00e3o dos quadros avan\u00e7ados da classe prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Assim, no intuito de contribuir para essa reflex\u00e3o sobre o que constitui o \u201cpensar e agir ao modo de Marx\u201d, oferecemos \u00e0s e aos camaradas o artigo abaixo, escrito pela companheira de L\u00eanin, Nadejda Kr\u00fapskaia, traduzido e revisado \u00e0 guisa de introdu\u00e7\u00e3o leninista ao estudo de Marx. Boa leitura!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p><strong>Como L\u00eanin estudava Marx, por Nadejda Kr\u00fapskaia<\/strong><\/p>\n<p>Devido ao atraso da ind\u00fastria na R\u00fassia, o movimento oper\u00e1rio s\u00f3 come\u00e7ou a se desenvolver nos anos [18]90, quando a luta revolucion\u00e1ria da classe trabalhadora j\u00e1 estava se desenvolvendo em v\u00e1rios outros pa\u00edses. J\u00e1 havia transcorrido a experi\u00eancia da grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a experi\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o de 1848, a experi\u00eancia da Comuna de Paris em 1871. Os grandes l\u00edderes ideol\u00f3gicos do movimento oper\u00e1rio \u2013 Marx e Engels \u2013 foram forjados no fogo da luta revolucion\u00e1ria. Os ensinamentos de Marx mostraram a dire\u00e7\u00e3o tomada pelo desenvolvimento social, a inevitabilidade da desintegra\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista, a substitui\u00e7\u00e3o dessa sociedade pela sociedade comunista, os caminhos que ser\u00e3o tomados pelas novas formas sociais, o caminho da luta de classes; eles revelaram o papel do proletariado nessa luta e a inevitabilidade de sua vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nosso movimento oper\u00e1rio se desenvolveu sob a bandeira do marxismo. N\u00e3o cresceu cegamente, tateando seu caminho, mas seu objetivo e seu caminho eram claros. L\u00eanin desempenhou um tremendo papel na ilumina\u00e7\u00e3o do caminho da luta do proletariado russo com a luz do marxismo. Cinquenta anos se passaram desde a morte de Marx, mas, para o nosso partido, o marxismo ainda \u00e9 o guia para a a\u00e7\u00e3o. O leninismo \u00e9 apenas mais um desenvolvimento do marxismo, um aprofundamento do mesmo.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 \u00f3bvio o motivo pelo qual \u00e9 t\u00e3o grande o interesse em esclarecer a quest\u00e3o do estudo de Marx por L\u00eanin.<\/p>\n<p>L\u00eanin tinha um conhecimento maravilhoso de Marx. Em 1893, quando chegou a S\u00e3o Petersburgo, surpreendeu a todos n\u00f3s, que j\u00e1 \u00e9ramos marxistas na \u00e9poca, com seu tremendo conhecimento das obras de Marx e Engels.<\/p>\n<p>Nos anos noventa, quando os c\u00edrculos marxistas come\u00e7aram a se formar, estud\u00e1vamos principalmente o primeiro volume de O capital. Era poss\u00edvel obter O capital, embora com grandes dificuldades. Mas as coisas eram extremamente dif\u00edceis com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras obras de Marx. A maioria dos membros dos c\u00edrculos nem sequer havia lido o Manifesto comunista. Eu, por exemplo, o li pela primeira vez apenas em 1898, em alem\u00e3o, quando estava no ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Marx e Engels eram absolutamente proibidos. Basta mencionar que, em 1897, em seu artigo Para uma caracteriza\u00e7\u00e3o do romantismo econ\u00f4mico[7], escrito para o jornal Nova Palavra, L\u00eanin foi obrigado a evitar o uso das palavras \u201cMarx\u201d e \u201cmarxismo\u201d, e a falar de Marx de maneira indireta para n\u00e3o causar problemas ao jornal.<\/p>\n<p>L\u00eanin entendia l\u00ednguas estrangeiras e dedicou o seu melhor a escavar tudo o que podia de Marx e Engels em alem\u00e3o e franc\u00eas. Anna Ilinichina conta como ele leu Mis\u00e9ria da filosofia em franc\u00eas juntamente com sua [outra] irm\u00e3, Olga. A maior parte das coisas ele teve que ler em alem\u00e3o. Traduziu para russo, para si mesmo, as partes mais importantes das obras de Marx e Engels, as que mais o interessavam.<\/p>\n<p>Em seu primeiro grande trabalho, publicado ilegalmente por ele em 1894, O que s\u00e3o os \u2018amigos do povo\u2019 e como lutam contra os social-democratas?[8], h\u00e1 cita\u00e7\u00f5es do Manifesto comunista, da Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia Pol\u00edtica, de Mis\u00e9ria da filosofia, de A ideologia alem\u00e3, da carta de Marx a Ruge de 1843 e dos livros de Engels, o Anti-D\u00fchring e A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o os \u2018amigos do povo\u2019 ampliou enormemente a vis\u00e3o da maioria dos ent\u00e3o marxistas, que ainda tinham muito pouco conhecimento das obras de Marx. Tratou de uma s\u00e9rie de perguntas de uma maneira totalmente nova e foi tremendamente bem sucedido nessa empreitada.<\/p>\n<p>Na obra seguinte de L\u00eanin, O conte\u00fado econ\u00f4mico do narodismo e uma cr\u00edtica dele no livro de Struve[9], j\u00e1 encontramos refer\u00eancias ao 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, \u00e0 Guerra civil na Fran\u00e7a, \u00e0 Cr\u00edtica do programa de Gotha e ao segundo e terceiro volumes de O capital.<\/p>\n<p>Mais tarde, a vida na emigra\u00e7\u00e3o possibilitou a L\u00eanin familiarizar-se com todas as obras de Marx e Engels e estud\u00e1-las. O breve esbo\u00e7o biogr\u00e1fico de Marx[10], escrito por L\u00eanin em 1914 para a Enciclop\u00e9dia Granat, ilustra melhor do que qualquer outra coisa o maravilhoso conhecimento das obras de Marx por L\u00eanin. Isso tamb\u00e9m \u00e9 evidenciado pelos in\u00fameros extratos de Marx que L\u00eanin anotava constantemente, durante a leitura de suas obras. O Instituto L\u00eanin tem muitos cadernos contendo excertos de Marx.<\/p>\n<p>L\u00eanin usou esses excertos em seu trabalho, leu-os repetidamente e fez anota\u00e7\u00f5es sobre eles. L\u00eanin n\u00e3o s\u00f3 conhecia Marx, mas tamb\u00e9m refletia profundamente sobre todos os seus ensinamentos. Em seu discurso no Terceiro Congresso da Uni\u00e3o da Juventude Comunista de toda a R\u00fassia, em 1920, L\u00eanin disse aos jovens que era necess\u00e1rio \u201cse apropriar de toda a soma dos conhecimentos humanos, e apropriar-se disso de tal modo que o comunismo n\u00e3o seja algo aprendido de cor, mas pensado por voc\u00eas mesmos, seja uma conclus\u00e3o necess\u00e1ria do ponto de vista da educa\u00e7\u00e3o moderna.\u201d \u201cSe um comunista fosse se vangloriar do seu comunismo com base em conclus\u00f5es j\u00e1 prontas, por ele recebidas, sem ter empreendido um trabalho s\u00e9rio, muito dif\u00edcil e muito grande, sem compreender completamente os fatos em rela\u00e7\u00e3o aos quais ele tem a obriga\u00e7\u00e3o de adotar uma atitude cr\u00edtica, esse comunista seria uma triste figura.\u201d[11]<\/p>\n<p>L\u00eanin n\u00e3o estudou apenas as obras de Marx, mas estudou o que foi escrito sobre Marx e o marxismo pelos seus opositores do campo da burguesia e da pequena-burguesia. Em suas pol\u00eamicas com eles, L\u00eanin explica as posi\u00e7\u00f5es fundamentais do marxismo.<\/p>\n<p>Seu primeiro grande trabalho foi O que s\u00e3o os \u2018amigos do povo\u2019 e como lutam contra os social-democratas\u2026, onde ele contrastou o ponto de vista dos narodniks [populistas] (Mikhailovski, Krivenko, Iuchakova) com o ponto de vista de Marx.<\/p>\n<p>No artigo O conte\u00fado econ\u00f4mico dos narodismo e uma cr\u00edtica dele no livro de Struve, ele ressaltou os modos pelos quais o ponto de vista de Struve era diferente do ponto de vista de Marx.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s estudar a quest\u00e3o agr\u00e1ria[12], ele escreveu uma brochura, A quest\u00e3o agr\u00e1ria e os cr\u00edticos de Marx[13], onde os pontos de vista pequeno-burgueses dos social-democratas David e Hertz, e dos cr\u00edticos russos Chernov e Bulg\u00e1kov, foram contrastados com o ponto de vista de Marx.<\/p>\n<p>Du choc des Opinions jaillit la v\u00e9rit\u00e9 (do choque de opini\u00f5es emerge a verdade), diz o prov\u00e9rbio franc\u00eas. L\u00eanin adorava realiz\u00e1-lo. Ele trouxe constantemente \u00e0 luz e contrastou, com base nas quest\u00f5es do movimento oper\u00e1rio, os pontos de vista de classe.<\/p>\n<p>\u00c9 muito caracter\u00edstico como L\u00eanin estabeleceu v\u00e1rios pontos de vista lado a lado. O Volume XIX de Obras completas[14] lan\u00e7a bastante luz sobre isso \u2013 l\u00e1, est\u00e3o reunidos os excertos, anota\u00e7\u00f5es, planos de artigos etc. sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria, abrangendo todo o per\u00edodo pr\u00e9-1917.<\/p>\n<p>L\u00eanin recapitula cuidadosamente as declara\u00e7\u00f5es dos \u201ccr\u00edticos\u201d, seleciona e copia as frases mais claras e mais caracter\u00edsticas e as contrap\u00f5em \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Marx. Ao analisar cuidadosamente as declara\u00e7\u00f5es dos \u201ccr\u00edticos\u201d, ele tenta mostrar a ess\u00eancia de classe de suas declara\u00e7\u00f5es, apresentando as quest\u00f5es mais importantes e urgentes em relevo proeminente.<\/p>\n<p>L\u00eanin, com muita frequ\u00eancia, agudizou deliberadamente uma quest\u00e3o. Ele considerava que o tom n\u00e3o era importante. \u00c9 poss\u00edvel se expressar de modo \u00e1spero e mordaz. O importante \u00e9 que voc\u00ea v\u00e1 direto ao ponto. No pref\u00e1cio \u00e0 publica\u00e7\u00e3o da correspond\u00eancia de F. A. Sorge[15], ele repete uma cita\u00e7\u00e3o de Mehring em sua correspond\u00eancia com Sorge: \u201cMehring est\u00e1 certo ao dizer que Marx e Engels se importavam pouco com boas maneiras. Eles n\u00e3o ficavam pensando longamente antes de desferir um golpe, mas eles tamb\u00e9m n\u00e3o se queixavam por cada golpe que recebiam.\u201d A incisividade da forma e do estilo era natural para L\u00eanin. Ele a aprendeu com Marx. Ele diz: \u201cMarx relata como ele e Engels lutaram constantemente contra a condu\u00e7\u00e3o \u2018miser\u00e1vel\u2019 do jornal Sozial-Demokrat e muitas vezes lutaram agudamente (wobei oft scharf hergeht)\u201d. L\u00eanin n\u00e3o temia a agudeza, mas ele exigia que as obje\u00e7\u00f5es fossem direito ao ponto. L\u00eanin tinha uma palavra favorita, que ele usava com frequ\u00eancia: \u201cfraseologia\u201d. Se uma pol\u00eamica come\u00e7asse sem ir direto ao ponto, se as pessoas come\u00e7assem a agarrar-se a min\u00facias ou a fazer malabarismos com fatos, ele costumava dizer: \u201cisso \u00e9 mera fraseologia\u201d. L\u00eanin expressou-se com ainda mais veem\u00eancia contra pol\u00eamicas que n\u00e3o tinham o objetivo de clarificar as quest\u00f5es, mas de tirar a limpo pequenos rancores fracionistas. Este era o m\u00e9todo favorito dos mencheviques. Escondendo-se atr\u00e1s de cita\u00e7\u00f5es de Marx e Engels, retiradas de seu contexto, das circunst\u00e2ncias em que foram escritas, eles se punham inteiramente a servi\u00e7o de objetivos fracionistas. No pref\u00e1cio da correspond\u00eancia de F. A. Sorge, L\u00eanin escreveu: \u201cImaginar que o conselho de Marx e Engels ao movimento oper\u00e1rio anglo-americano pode ser simples e diretamente adaptado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es russas significa utilizar o marxismo n\u00e3o para elucidar seu m\u00e9todo, n\u00e3o para estudar as peculiaridades hist\u00f3ricas concretas do movimento oper\u00e1rio em pa\u00edses definidos, mas a servi\u00e7o dos ressentimentos mesquinhos da intelligentsia.\u201d<\/p>\n<p>Aqui chegamos diretamente \u00e0 quest\u00e3o de como L\u00eanin estudava Marx. Isso pode ser visto, em parte, na cita\u00e7\u00e3o anterior: \u00e9 necess\u00e1rio elucidar o m\u00e9todo de Marx, aprender com Marx como estudar as peculiaridades do movimento oper\u00e1rio em pa\u00edses determinados. Foi isso que L\u00eanin fez. Para L\u00eanin, os ensinamentos de Marx eram um guia para a a\u00e7\u00e3o. Ele usou uma vez a seguinte express\u00e3o: \u201cQuem quer se consultar com Marx?\u201d \u00c9 uma express\u00e3o muito caracter\u00edstica. Ele mesmo constantemente \u201cse consultou com Marx\u201d. Nos pontos de viragem mais dif\u00edceis da revolu\u00e7\u00e3o, ele mais uma vez voltou \u00e0 leitura de Marx. \u00c0s vezes, quando se entrava em seu quarto, quando todos estavam ansiosos, L\u00eanin estava lendo Marx e mal podia desviar sua aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era para acalmar seus nervos, n\u00e3o para se armar com a cren\u00e7a no poder da classe oper\u00e1ria, acreditando em sua vit\u00f3ria final. L\u00eanin tinha o bastante dessa f\u00e9. Ele se enterrou em Marx para \u201cse consultar\u201d com Marx, para encontrar uma resposta dele \u00e0s candentes quest\u00f5es do movimento oper\u00e1rio. No artigo F. Mehring sobre a Segunda Duma[16], L\u00eanin escreveu: \u201cA argumenta\u00e7\u00e3o de tais pessoas baseia-se em uma pobre sele\u00e7\u00e3o de cita\u00e7\u00f5es. Eles adotam a posi\u00e7\u00e3o geral sobre o apoio \u00e0 grande burguesia contra a pequena burguesia reacion\u00e1ria e, sem cr\u00edticas, a adaptam aos Cadetes russos e \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Mehring d\u00e1 a essas pessoas uma boa li\u00e7\u00e3o. Qualquer um que queira se consultar com Marx sobre as tarefas do proletariado e da revolu\u00e7\u00e3o burguesa deve adotar o racioc\u00ednio de Marx que se aplica precisamente \u00e0 \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o burguesa alem\u00e3. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que nossos mencheviques t\u00e3o temerosamente evitam esse racioc\u00ednio. Neste racioc\u00ednio, vemos a express\u00e3o mais completa e clara da luta implac\u00e1vel contra a burguesia conciliadora, que foi realizada pelos bolcheviques russos na Revolu\u00e7\u00e3o Russa\u201d.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo de L\u00eanin consistia em tomar as obras de Marx tratando de situa\u00e7\u00f5es similares e analis\u00e1-las cuidadosamente, comparando-as com o momento atual, descobrindo semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de 1905\u20131907 ilustra, melhor que qualquer coisa, como L\u00eanin fazia isso.<\/p>\n<p>Na brochura Que fazer?, em 1902, L\u00eanin escreveu:<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria agora coloca diante de n\u00f3s uma tarefa imediata que \u00e9 a mais revolucion\u00e1ria de todas as tarefas imediatas do proletariado de qualquer outro pa\u00eds. A realiza\u00e7\u00e3o desta tarefa, a destrui\u00e7\u00e3o do basti\u00e3o mais poderoso n\u00e3o s\u00f3 da rea\u00e7\u00e3o europeia, mas tamb\u00e9m (podemos dizer agora) asi\u00e1tica, faria do proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucion\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>Sabemos que a luta revolucion\u00e1ria de 1905 elevou o papel internacional da classe oper\u00e1ria russa, enquanto a derrubada da monarquia czarista em 1917 fez com que o proletariado russo se tornasse a vanguarda do proletariado revolucion\u00e1rio internacional \u2013 mas isso ocorreu apenas 15 anos ap\u00f3s Que fazer? ser escrito. Quando, em 1905, ap\u00f3s o Domingo Sangrento, em 9 de janeiro, a onda revolucion\u00e1ria da Pra\u00e7a Dvortsoff come\u00e7ou a elevar-se cada vez mais, colocou-se urgentemente a quest\u00e3o de para onde o partido deveria liderar as massas, que pol\u00edtica deveria seguir. E, aqui, L\u00eanin consultou Marx. Ele citava com especial aten\u00e7\u00e3o as obras de Mar que tratam das revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1tico-burguesas francesa e alem\u00e3 de 1848: As lutas de classes na Fran\u00e7a de 1848\u201350 e o terceiro volume de A heran\u00e7a liter\u00e1ria de Marx e Engels, publicado por F. Mehring, tratando da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p>Em junho-julho de 1905, L\u00eanin escreveu a brochura Duas t\u00e1ticas da social-democracia na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica[17], onde a t\u00e1tica dos mencheviques (que adotaram a linha de concilia\u00e7\u00e3o com a burguesia liberal) foi contrastada com a t\u00e1tica dos bolcheviques (que pediam \u00e0 classe oper\u00e1ria que continuasse com uma determina\u00e7\u00e3o e luta irreconcili\u00e1vel contra a monarquia at\u00e9 o ponto de rebeli\u00e3o armada).<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio p\u00f4r fim ao czarismo, escreveu L\u00eanin em Duas t\u00e1ticas. \u201cA confer\u00eancia (dos neo-iskristas) tamb\u00e9m esqueceu que, enquanto o poder permanecer nas m\u00e3os do czar, quaisquer decis\u00f5es de qualquer representante [parlamentar] segue sendo uma conversa fiada, t\u00e3o lament\u00e1vel como as \u2018decis\u00f5es\u2019 do parlamento de Frankfurt, famosas na hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 de 1848. Por essa raz\u00e3o, Marx, na Nova Gazeta Renana, derramou sarcasmo sem piedade sobre os liberais \u2018libertadores\u2019 de Frankfurt, porque pronunciavam excelentes discursos, adotaram todos os tipos de \u2018decis\u00f5es\u2019 democr\u00e1ticas, \u2018estabeleceram\u2019 todos os tipos de liberdade, mas, na realidade, deixaram o poder nas m\u00e3os da monarquia e n\u00e3o organizaram a luta armada contra as tropas da monarquia. E enquanto os libertadores de Frankfurt tagarelavam, a monarquia aguardou seu tempo, concentrou suas for\u00e7as militares e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o, confiando na for\u00e7a real, derrubou os democratas com todas as suas lindas decis\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>L\u00eanin levanta a quest\u00e3o de saber se a burguesia poderia destruir a revolu\u00e7\u00e3o russa por meio de um acordo com o czarismo \u2013 \u201cou\u201d, como Marx disse ao seu tempo, \u201cacertando as contas com o czarismo de maneira \u2018pleb\u00e9ia\u2019\u201d. \u201cQuando a revolu\u00e7\u00e3o vencer decisivamente, deveremos nos acertar com o czarismo de maneira jacobina ou, se voc\u00ea preferir, de maneira plebeia.\u201d \u201cTodo o terrorismo franc\u00eas, escreveu Marx na famosa Nova Gazeta Renana, em 1848, n\u00e3o era sen\u00e3o a maneira plebeia de acertar as contas com os inimigos da burguesia, com o absolutismo, o feudalismo, a nobreza. (Vide A heran\u00e7a liter\u00e1ria de Marx e Engels, publicado por Mehring). As pessoas que assustaram os oper\u00e1rios social-democratas russos com o espantalho do \u201cjacobinismo\u201d na \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica j\u00e1 pensaram no significado dessas palavras de Marx?\u201d<\/p>\n<p>Os mencheviques disseram que sua t\u00e1tica era \u201cpermanecer o partido da extrema oposi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d. E que isso n\u00e3o exclu\u00eda as tomadas parciais do poder de tempos em tempos e a forma\u00e7\u00e3o de comunas revolucion\u00e1rias em uma cidade ou outra. O que significa \u201ccomunas revolucion\u00e1rias\u201d, pergunta L\u00eanin, e responde:<\/p>\n<p>A confus\u00e3o do pensamento revolucion\u00e1rio os leva (os neo-iskristas), como muitas vezes acontece, \u00e0 fraseologia revolucion\u00e1ria. O uso das palavras \u2018comuna revolucion\u00e1ria\u2019 na resolu\u00e7\u00e3o de representantes da social-democracia \u00e9 fraseologia revolucion\u00e1ria e nada mais. Marx mais de uma vez condenou tal fraseologia, quando as tarefas do futuro est\u00e3o escondidas por tr\u00e1s de termos tranquilizadores do passado morto. O fasc\u00ednio pelos termos que desempenharam um papel na hist\u00f3ria \u00e9 convertido, em tais casos, em um ouropel vazio e prejudicial, em fraseologia. Devemos oferecer aos oper\u00e1rios e a todo o povo uma ideia clara e inconfund\u00edvel de por que queremos estabelecer um governo revolucion\u00e1rio provis\u00f3rio, que mudan\u00e7as exatamente devemos levar a cabo se influenciarmos decisivamente o poder, mesmo amanh\u00e3, se a revolta nacional que come\u00e7ou for vitoriosa. Estas s\u00e3o as quest\u00f5es com que se defrontam os l\u00edderes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Esses vulgarizadores do marxismo nunca pensaram nas palavras de Marx sobre a necessidade de substituir a arma da cr\u00edtica pela cr\u00edtica das armas. Usando o nome de Marx em todos os lugares, eles, na realidade, criam uma resolu\u00e7\u00e3o t\u00e1tica totalmente no esp\u00edrito dos tagarelas burgueses de Frankfurt, criticando livremente o absolutismo, aprofundando a consci\u00eancia democr\u00e1tica, mas sem entender que o tempo da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um tempo de a\u00e7\u00e3o, acima e abaixo.<\/p>\n<p>\u201cAs revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o as locomotivas da hist\u00f3ria\u201d, diz Marx. Por essa refer\u00eancia a Marx, L\u00eanin avalia o papel da revolu\u00e7\u00e3o que estava sendo deflagrada.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise mais aprofundada dos escritos de Karl Marx na Nova Gazeta Renana, L\u00eanin deixa claro o que significa a ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado e do campesinato. Mas, ao esbo\u00e7ar a analogia, L\u00eanin tamb\u00e9m se refere \u00e0 quest\u00e3o de como a nossa revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa difere da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa alem\u00e3 de 1848. Ele diz:<\/p>\n<p>Assim, foi apenas em abril de 1849, depois que o jornal revolucion\u00e1rio Nova Gazeta Renana (que havia sido publicado desde 1 de junho de 1848) existia h\u00e1 quase um ano, que Marx e Engels se expressaram a favor de uma organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria independente. At\u00e9 ent\u00e3o, eles simplesmente conduziam o \u2018\u00f3rg\u00e3o da democracia\u2019, que n\u00e3o estava conectado por nenhum v\u00ednculo organizacional com um partido prolet\u00e1rio independente. Esse fato \u2013 \u200amonstruoso e improv\u00e1vel do nosso ponto de vista contempor\u00e2neo \u2013 \u200amostra-nos claramente que havia uma enorme diferen\u00e7a entre o ent\u00e3o Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Alem\u00e3o e o atual russo. Este fato mostra-nos qu\u00e3o mais fracas (devido ao atraso da Alemanha em 1848, economicamente e politicamente \u2013 aus\u00eancia de unidade do Estado) foram as caracter\u00edsticas prolet\u00e1rias do movimento na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica alem\u00e3, o qu\u00e3o mais fraca foi a sua camada prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Particularmente interessantes s\u00e3o os artigos de Vlad\u00edmir Ilitch que se referem a 1907 e s\u00e3o dedicados \u00e0 correspond\u00eancia e \u00e0 atividade de Marx.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o o Pref\u00e1cio da tradu\u00e7\u00e3o das cartas de Marx a K. L. Kugelmann[18], Mehring sobre a Segunda Duma e o Pref\u00e1cio \u00e0s cartas para F. A. Sorge. Esses artigos lan\u00e7am uma luz particularmente v\u00edvida sobre o m\u00e9todo pelo qual L\u00eanin estudou Marx. O \u00faltimo artigo \u00e9 de interesse excepcional. Foi escrito no per\u00edodo em que L\u00eanin retomou mais uma vez o estudo da filosofia, em conex\u00e3o com suas controv\u00e9rsias com Bogd\u00e1nov[19], quando as quest\u00f5es do materialismo dial\u00e9tico exigiam especial aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto estudava as coloca\u00e7\u00f5es de Marx que se referiam a quest\u00f5es an\u00e1logas \u00e0quelas que surgiram entre n\u00f3s em conex\u00e3o com o refluxo da revolu\u00e7\u00e3o e, simultaneamente, as quest\u00f5es do materialismo dial\u00e9tico e hist\u00f3rico, L\u00eanin tamb\u00e9m aprendeu com Marx como aplicar ao estudo do desenvolvimento hist\u00f3rico o m\u00e9todo do materialismo dial\u00e9tico.<\/p>\n<p>No Pref\u00e1cio \u00e0s cartas para F. A. Sorge, escreveu:<\/p>\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o entre o que Marx e Engels t\u00eam a dizer sobre as quest\u00f5es dos movimentos oper\u00e1rios anglo-americano e alem\u00e3o \u00e9 muito instrutiva. Se algu\u00e9m leva em considera\u00e7\u00e3o que a Alemanha, por um lado, e a Gr\u00e3-Bretanha e a Am\u00e9rica, por outro, representam diferentes est\u00e1gios do desenvolvimento capitalista, diferentes formas de governo da burguesia, como classe, em toda a vida pol\u00edtica desses pa\u00edses, a referida compara\u00e7\u00e3o assume um significado especial. Do ponto de vista cient\u00edfico, temos aqui uma amostra da dial\u00e9tica materialista, sua capacidade de estabelecer e enfatizar diferentes pontos, diferentes aspectos da quest\u00e3o em sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0s peculiaridades concretas das v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Do ponto de vista da pol\u00edtica pr\u00e1tica e das t\u00e1ticas do partido oper\u00e1rio, temos aqui uma amostra da maneira como os criadores do Manifesto comunista definiram a tarefa do proletariado em luta aplicada \u00e0s diversas fases do movimento oper\u00e1rio nacional dos v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1905 trouxe \u00e0 tona toda uma s\u00e9rie de novas quest\u00f5es essenciais, durante a solu\u00e7\u00e3o das quais L\u00eanin se aprofundou ainda mais nas obras de Karl Marx. O m\u00e9todo leninista (marxista de ponta a ponta) de estudar Marx foi forjado nas chamas da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este m\u00e9todo de estudo de Marx armou L\u00eanin para lutar contra as distor\u00e7\u00f5es do marxismo e a castra\u00e7\u00e3o da sua ess\u00eancia revolucion\u00e1ria. Sabemos que papel importante o livro O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o de L\u00eanin tem desempenhado na organiza\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e do poder sovi\u00e9tico. Este livro \u00e9 inteiramente baseado em um estudo profundo dos ensinamentos revolucion\u00e1rios de Marx sobre o Estado. L\u00eanin escreve:<\/p>\n<p>D\u00e1-se com a doutrina de Marx, neste momento, aquilo que, muitas vezes, atrav\u00e9s da hist\u00f3ria, tem acontecido com as doutrinas dos pensadores revolucion\u00e1rios e dos dirigentes do movimento emancipat\u00f3rio das classes oprimidas. Os grandes revolucion\u00e1rios foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do \u00f3dio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difama\u00e7\u00e3o por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convert\u00ea-los em \u00eddolos inofensivos, canoniz\u00e1-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma aur\u00e9ola de gl\u00f3ria, para \u2018consolo\u2019 das classes oprimidas e para o seu engano, enquanto se castra a subst\u00e2ncia do seu ensinamento revolucion\u00e1rio, embotando-lhe o gume, aviltando-o. A burguesia e os oportunistas do movimento oper\u00e1rio se unem presentemente para infligir ao marxismo um tal \u2018tratamento\u2019. Esquece-se, esbate-se, desvirtua-se o lado revolucion\u00e1rio, a ess\u00eancia revolucion\u00e1ria da doutrina, a sua alma revolucion\u00e1ria. Exalta-se e coloca-se em primeiro plano o que \u00e9 ou parece aceit\u00e1vel para a burguesia. Todos os social-patriotas (n\u00e3o riam!) s\u00e3o, agora, marxistas. Os s\u00e1bios burgueses, que ainda ontem, na Alemanha, se especializavam em refutar o marxismo, falam cada vez mais num Marx \u2018nacional-alem\u00e3o\u2019 que, a dar-lhes ouvidos, teria educado os sindicatos oper\u00e1rios, t\u00e3o magnificamente organizados, para uma guerra de rapina. Em tais circunst\u00e2ncias, e uma vez que se logrou difundir t\u00e3o amplamente o marxismo deformado, a nossa miss\u00e3o \u00e9, antes de mais nada, restabelecer a verdadeira doutrina de Marx sobre o Estado. (Primeira p\u00e1gina de O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Em Sobre os fundamentos do leninismo, o camarada St\u00e1lin escreveu:<\/p>\n<p>Somente no est\u00e1gio seguinte, o est\u00e1gio da a\u00e7\u00e3o direta, da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, quando a derrubada da burguesia se tornara uma quest\u00e3o pr\u00e1tica imediata, o problema de encontrar reservas para o ex\u00e9rcito prolet\u00e1rio (estrat\u00e9gia) se torna real, e s\u00f3 ent\u00e3o todas as formas de luta e de organiza\u00e7\u00e3o, seja no campo parlamentar ou extraparlamentar (t\u00e1ticas) exigem claramente uma solu\u00e7\u00e3o. At\u00e9 essa fase ter come\u00e7ado, a estrat\u00e9gia prolet\u00e1ria n\u00e3o poderia ser sistematizada e as t\u00e1ticas prolet\u00e1rias elaboradas. As ideias geniais de Marx e Engels sobre t\u00e1tica e estrat\u00e9gia, que os oportunistas da II Internacional haviam sepultado, foram trazidas \u00e0 luz do dia por L\u00eanin, precisamente nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Mas L\u00eanin n\u00e3o se limitou a restabelecer proposi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas individuais de Marx e Engels. Ele as desenvolveu e complementou com novas ideias e proposi\u00e7\u00f5es, criando de tudo isso um sistema de regras e princ\u00edpios condutores para a vanguarda da luta de classes do proletariado. Tais brochuras de L\u00eanin como Que fazer?, Duas t\u00e1ticas, Imperialismo, O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o, A revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e o renegado Kautsky e Esquerdismo ser\u00e3o, sem d\u00favida, contribui\u00e7\u00f5es das mais valiosas para o tesouro comum do marxismo, para o seu arsenal revolucion\u00e1rio. \u201cA estrat\u00e9gia e t\u00e1tica do leninismo \u00e9 uma ci\u00eancia sobre a lideran\u00e7a da luta revolucion\u00e1ria do proletariado\u201d (J. St\u00e1lin, Quest\u00f5es do leninismo). Marx e Engels disseram que seu ensinamento \u201cn\u00e3o s\u00e3o um dogma, mas um guia para a a\u00e7\u00e3o\u201d. Essas palavras deles foram continuamente repetidas por L\u00eanin. O m\u00e9todo pelo qual ele estudou as obras de Marx e Engels e a pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria, bem como todas as circunst\u00e2ncias da \u00e9poca das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias, ajudaram L\u00eanin a converter com justeza o aspecto revolucion\u00e1rio de Marx em um verdadeiro guia de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vou me debru\u00e7ar sobre uma quest\u00e3o de import\u00e2ncia decisiva. H\u00e1 pouco tempo comemoramos o d\u00e9cimo quinto anivers\u00e1rio do Poder Sovi\u00e9tico. E, neste contexto, recordamos como a tomada do poder foi organizada em outubro [de 1917]. N\u00e3o era um ato espont\u00e2neo: foi profundamente pensado por L\u00eanin, que foi guiado pelas instru\u00e7\u00f5es diretas de Marx sobre a organiza\u00e7\u00e3o de uma insurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, colocando a ditadura nas m\u00e3os do proletariado, mudou radicalmente todas as condi\u00e7\u00f5es da luta, mas apenas porque L\u00eanin n\u00e3o se orientou pela letra dos ensinamentos de Marx e Engels, mas por sua ess\u00eancia revolucion\u00e1ria, porque sabia como aplicar o marxismo tamb\u00e9m \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do socialismo na \u00e9poca da ditadura prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>S\u00f3 me debru\u00e7arei sobre alguns pontos. Um trabalho de pesquisa completo \u00e9 necess\u00e1rio aqui: selecionar tudo o que foi extra\u00eddo de Marx e Engels por L\u00eanin, indicando em que per\u00edodos e em conex\u00e3o com quais tarefas do movimento revolucion\u00e1rio. Eu nem mencionei quest\u00f5es t\u00e3o importantes como a quest\u00e3o nacional, o imperialismo etc. A publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos completos de L\u00eanin torna este trabalho mais f\u00e1cil. A maneira de L\u00eanin de estudar Marx em todas as fases da luta revolucion\u00e1ria, do come\u00e7o ao fim, nos ajudar\u00e1 a entender melhor e a aprofundarmo-nos n\u00e3o s\u00f3 em Marx, mas no pr\u00f3prio L\u00eanin, em seu m\u00e9todo de estudar Marx e no seu m\u00e9todo de converter os ensinamentos de Marx em um guia de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais um aspecto do estudo de Marx por L\u00eanin que deve ser mencionado devido ao seu grande significado. L\u00eanin n\u00e3o s\u00f3 estudou o que Marx e Engels escreveram, bem como o que os \u201ccr\u00edticos\u201d de Marx escreveram sobre ele; ele tamb\u00e9m estudou o caminho que levou Marx \u00e0s suas v\u00e1rias vis\u00f5es e as obras e livros que estimularam os pensamentos de Marx e os conduziram em uma dire\u00e7\u00e3o definida. Ele estudou, por assim dizer, as fontes da filosofia marxista, buscando o qu\u00ea e quanto Marx tirou desse ou daquele escritor. Ele estava especialmente preocupado em empreender um estudo profundo do m\u00e9todo do materialismo dial\u00e9tico. Em 1922, no artigo Sobre o significado do materialismo militante[20], L\u00eanin disse que cabia aos contribuintes da revista Sob a bandeira do marxismo organizar o trabalho para um estudo sistem\u00e1tico da dial\u00e9tica de Hegel do ponto de vista materialista. Ele acreditava que, sem uma base filos\u00f3fica s\u00e9ria, \u00e9 imposs\u00edvel aguentar a luta contra a press\u00e3o das ideias burguesas e a restaura\u00e7\u00e3o da filosofia burguesa. Foi com base em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia que L\u00eanin escreveu sobre a maneira de estudar a dial\u00e9tica de Hegel do ponto de vista materialista. Damos aqui o par\u00e1grafo correspondente do artigo de L\u00eanin Sobre o significado do materialismo militante.<\/p>\n<p>Mas, para evitar reagir a um fen\u00f4meno desse tipo de forma pouco inteligente, devemos entender que nenhuma ci\u00eancia natural, nenhum materialismo, pode aguentar a luta contra as investidas das ideias burguesas e a restaura\u00e7\u00e3o da filosofia burguesa sem uma s\u00f3lida base filos\u00f3fica. Para amparar essa luta e ajudar a levar a cabo sua conclus\u00e3o bem-sucedida, o cientista natural deve ser um materialista moderno \u2013 um adepto consciente desse materialismo que Marx representa, isto \u00e9, ele deve ser um materialista dial\u00e9tico. Para conseguir isso, os membros de Sob a bandeira do marxismo devem organizar um estudo sistem\u00e1tico da dial\u00e9tica hegeliana do ponto de vista materialista, ou seja, a dial\u00e9tica que Marx aplicou concretamente em seu O capital e utilizada em suas obras hist\u00f3ricas e pol\u00edticas. [\u2026]<\/p>\n<p>Baseando-nos sobre a maneira como Marx aplicou a concep\u00e7\u00e3o materialista da dial\u00e9tica hegeliana, podemos e devemos elaborar essa dial\u00e9tica em todos seus aspectos. A revista deve publicar trechos das principais obras de Hegel; deve interpret\u00e1-los de forma materialista e dar exemplos de como Marx aplicou a dial\u00e9tica, bem como exemplos de dial\u00e9tica no campo das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas. A hist\u00f3ria moderna, particularmente a guerra e a revolu\u00e7\u00e3o imperialistas modernas, fornecem in\u00fameros exemplos desse tipo. Os editores e funcion\u00e1rios de Sob a bandeira do marxismo devem, penso eu, representar uma esp\u00e9cie de \u2018Associa\u00e7\u00e3o de Amigos Materialistas da Filosofia Hegeliana\u2019. Os cientistas naturais modernos encontrar\u00e3o (se buscarem e se pudermos aprender a ajud\u00e1-los) na interpreta\u00e7\u00e3o materialista da dial\u00e9tica hegeliana uma s\u00e9rie de respostas para as quest\u00f5es filos\u00f3ficas que s\u00e3o colocadas pela revolu\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio das ci\u00eancias naturais, que fazem com que os admiradores intelectuais das modas burguesas \u2018deslizem\u2019 para o campo reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os volumes IX e XII das obras escolhidas de L\u00eanin j\u00e1 foram publicados na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Eles divulgaram todo o processo do pensamento de L\u00eanin quando trabalhava nas principais obras de Hegel; eles mostram como ele aplicou o m\u00e9todo do materialismo dial\u00e9tico ao estudo de Hegel, o qu\u00e3o bem ele conectou este estudo com um profundo estudo sobre os escritos de Marx, com a capacidade de converter o marxismo em um guia de a\u00e7\u00e3o nas mais variadas circunst\u00e2ncias.[21]<\/p>\n<p>Mas Hegel n\u00e3o era o \u00fanico objeto do estudo de L\u00eanin. Ele leu a carta de Marx a Engels de novembro de 1859, na qual ele critica severamente o livro de Lassalle, A filosofia de Her\u00e1clito, o Obscuro, de \u00c9feso (dois volumes) e chama esse trabalho de \u201camador\u201d. L\u00eanin oferece, para come\u00e7ar, uma breve formula\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica de Marx: \u201cLassalle simplesmente repete Hegel, ele o descreve, rumina milh\u00f5es de vezes certas palavras de Her\u00e1clito\u201d. Mas, no entanto, L\u00eanin mergulha no estudo deste trabalho de Lassalle, faz constata\u00e7\u00f5es e anota excertos dele, escreve notas e resume: \u201cA cr\u00edtica de Marx \u00e9, na sua totalidade, correta. N\u00e3o vale a pena ler o livro de Lassalle.\u201d Mas o trabalho sobre este livro deu ao pr\u00f3prio L\u00eanin uma compreens\u00e3o mais profunda de Marx: ele entendeu por que esse livro de Lassalle desagradava Marx e em que medida.<\/p>\n<p>Para concluir, mencionarei mais uma forma do trabalho de L\u00eanin sobre Marx \u2013 \u200aa populariza\u00e7\u00e3o dos ensinamentos de Marx. Se o popularizador levar seu trabalho a s\u00e9rio, se seu objetivo \u00e9 dar uma forma muito simples e intelig\u00edvel, uma explica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ess\u00eancia desta ou daquela teoria, esse trabalho o ajudar\u00e1 muito.<\/p>\n<p>L\u00eanin tratou muito bem esse trabalho. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada que eu gostaria tanto quanto poder escrever para os trabalhadores\u201d, ele escreveu do ex\u00edlio para Plekh\u00e1nov e Axelrod.<\/p>\n<p>Ele queria explicar e aproximar as massas dos ensinamentos de Marx. Na d\u00e9cada de noventa, quando trabalhou nos c\u00edrculos oper\u00e1rios, ele tentou explicar, antes de tudo, o primeiro volume de O capital, e ilustrou as proposi\u00e7\u00f5es apresentadas com exemplos da vida de seus ouvintes. Em 1911, na escola do partido em Longjumeau (perto de Paris), onde L\u00eanin estava trabalhando arduamente para a prepara\u00e7\u00e3o de quadros dirigentes para o movimento revolucion\u00e1rio em desenvolvimento, ele lecionou aos trabalhadores sobre economia pol\u00edtica e tentou simplificar, o tanto quanto poss\u00edvel, os fundamentos dos ensinamentos de Marx. Em seus artigos para o Pravda, Ilitch tentou popularizar v\u00e1rios pontos dos ensinamentos de Marx. Uma amostra da populariza\u00e7\u00e3o leninista \u00e9 a sua caracteriza\u00e7\u00e3o, durante as disputas sindicais de 1921[22], da maneira de estudar um assunto com a aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo dial\u00e9tico. L\u00eanin disse:<\/p>\n<p>Para conhecer bem um assunto, \u00e9 preciso se apossar dele e estudar todos os lados, todas as conex\u00f5es e seu lugar apropriado na situa\u00e7\u00e3o dada. Podemos nunca atingir plenamente isso, mas a exig\u00eancia de m\u00faltiplas faces nos permitir\u00e1 afastar os erros e a in\u00e9rcia. Isso vem em primeiro lugar. Em segundo lugar, a l\u00f3gica dial\u00e9tica exige que o objeto seja levado em seu desenvolvimento, em seu \u2018automovimento\u2019 (como Hegel diz) e suas transforma\u00e7\u00f5es. Em terceiro lugar, na \u2018determina\u00e7\u00e3o\u2019 completa do objeto, toda a pr\u00e1tica humana deve figurar como crit\u00e9rio da verdade, bem como um indicador pr\u00e1tico da conex\u00e3o do objeto com aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para as pessoas. Em quarto lugar, a l\u00f3gica dial\u00e9tica nos ensina que \u2018n\u00e3o existe uma verdade abstrata, que a verdade \u00e9 sempre concreta\u2019, como costumava dizer o finado Plekh\u00e1nov, que era um seguidor de Hegel.<\/p>\n<p>Estas poucas linhas s\u00e3o a quintess\u00eancia daquilo que L\u00eanin atingiu como resultado de longos anos de trabalho sobre quest\u00f5es filos\u00f3ficas, nas quais ele sempre usou o m\u00e9todo do materialismo dial\u00e9tico, \u201cconsultando\u201d Marx o tempo todo. Em uma forma sint\u00e9tica, essas linhas indicam tudo o que \u00e9 essencial, que deve ser o guia de a\u00e7\u00e3o durante o estudo dos fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>O modo como L\u00eanin trabalhou em cima de Marx \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de como estudar o pr\u00f3prio L\u00eanin. Suas li\u00e7\u00f5es est\u00e3o inseparavelmente ligadas \u00e0s li\u00e7\u00f5es de Marx, s\u00e3o o marxismo em a\u00e7\u00e3o, o marxismo da \u00e9poca do imperialismo e das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1 Para o conceito leninista de propaganda, vide meu artigo: O que \u00e9 agita\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 propaganda: algumas quest\u00f5es na era das m\u00eddias digitais. Dispon\u00edvel em: https:\/\/18.118.106.12\/2019\/01\/21\/o-que-e-agitacao-e-o-que-e-propaganda-algumas-questoes-na-era-das-midias-digitais\/<\/p>\n<p>2 \u201cA monogamia foi um grande progresso hist\u00f3rico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravid\u00e3o e as riquezas privadas, aquele per\u00edodo, que dura at\u00e9 nossos dias, no qual cada progresso \u00e9 simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam \u00e0s custas da dor e da repress\u00e3o de outros. \u00c9 a forma celular da sociedade civilizada, na qual j\u00e1 podemos estudar a natureza das contradi\u00e7\u00f5es e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade.\u201d Fridrich Engels, em A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado, ao final do cap\u00edtulo II (\u201cA fam\u00edlia\u201d).<\/p>\n<p>3 \u201cUma das primeiras tradu\u00e7\u00f5es [do Manifesto comunista] foi a de Octavio Brand\u00e3o a partir da vers\u00e3o francesa de Laura Lafargue, inicialmente publicada em partes entre julho e dezembro de 1923 no jornal carioca Voz Cosmopolita, publicado por um grupo de empregados em hot\u00e9is, restaurantes, caf\u00e9s, bares e anexos, cuja associa\u00e7\u00e3o, o Centro Cosmopolita, era ent\u00e3o pr\u00f3xima do Partido Comunista. [\u2026]<\/p>\n<p>Essa mesma tradu\u00e7\u00e3o seria publicada sob a forma de livro em 1924 em Porto Alegre, custeado pela organiza\u00e7\u00e3o local do Partido Comunista, de cuja tiragem de 3 mil exemplares centenas teriam sido queimados por ordem da dire\u00e7\u00e3o dos Correios de Porto Alegre, onde se encontravam para serem remetidos para outros pontos do pa\u00eds, conforme denunciava a carta do Secretariado Internacional do PC endere\u00e7ada \u00e0 Correspondance Internationale. [\u2026]<\/p>\n<p>Em 1945, sinal inequ\u00edvoco do clima do imediato p\u00f3s\u00ad- guerra com a legalidade do PCB no auge do seu prest\u00edgio, s\u00e3o lan\u00e7adas nada menos que quatro edi\u00e7\u00f5es do Manifesto, todas por editoras do Rio de Janeiro.\u201d BATALHA, Claudio H. M. O Manifesto comunista e sua recep\u00e7\u00e3o no Brasil. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ifch.unicamp.br\/criticamarxista\/arquivos_biblioteca\/dossie9Dossie6.pdf<\/p>\n<p>4 www.marxists.org<\/p>\n<p>5 Complementar \u00e0 marxologia, ou \u201cmarxianismo\u201d \u00e9 a exist\u00eancia de uma infinidade de \u201cfra\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas\u201d, uma vasta prolifera\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias teoricamente contrapostas que, contudo, coexistem e confraternizam nos simp\u00f3sios universit\u00e1rios, onde a verdade \u00e9 \u201cdemocraticamente\u201d fantasiada de opini\u00e3o, e aqueles dispostos a um ponto de vista cr\u00edtico totalizante s\u00e3o tratados como \u201cdogm\u00e1ticos\u201d. Complementar porque esse \u201cmarxianismo\u201d n\u00e3o pode existir sen\u00e3o como marxismo de um novo int\u00e9rprete ou outro de Marx. Com efeito, \u00e9 caracter\u00edstico das tend\u00eancias marxistas universit\u00e1rias se apresentarem como uma \u201cconstela\u00e7\u00e3o\u201d de \u201cmarxismos\u201d, todos igualmente poss\u00edveis e mais ou menos v\u00e1lidos porque, afinal, quem poderia falar em nome do defunto Marx e assegurar que sua interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais verdadeira, mais fiel ao m\u00e9todo etc.? Na realidade, contudo, por tr\u00e1s desse discurso, na medida em que colidem em proposi\u00e7\u00f5es mutuamente excludentes, essas tend\u00eancias todas se consideram verdadeiras e polemizam umas com as outras, agarrando-se a seus int\u00e9rpretes universit\u00e1rios de terceira m\u00e3o favoritos. Nisso, entre outras coisas, o leninismo se diferencia em sua franqueza: n\u00e3o esconde conceber-se como a \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o consequente e, portanto, verdadeira da obra de Marx e Engels (e, precisamente por isso, se autodenomine marxismo-leninismo, dizendo sem hesitar: L\u00eanin, porque indica o modo de desenvolver com rigor e fidelidade aquilo que Marx come\u00e7ou etc).<\/p>\n<p>6 As leituras predominantes de Pachukanis no Brasil, por exemplo, s\u00e3o uma bela demonstra\u00e7\u00e3o de como essas \u201cnovas leituras\u201d, muitas vezes sob uma mesma base interpretativa, divergem e hesitam praticamente entre o reformismo e o abstencionismo enquanto t\u00e1ticas. O verdadeiro marxismo, como diziam Marx e Engels no Manifesto e como esmiu\u00e7a L\u00eanin em seu A guerra de guerrilhas (abaixo), concebe as formas de luta, as quest\u00f5es t\u00e1ticas, de modo bastante distinto:<\/p>\n<p>\u201cComecemos pelo come\u00e7o. Quais s\u00e3o as exig\u00eancias fundamentais que qualquer marxista deve apresentar ao exame da quest\u00e3o das formas de luta? Em primeiro lugar, o marxismo distingue-se de todas as formas primitivas de socialismo pelo fato de ele n\u00e3o amarrar o movimento a qualquer forma determinada e \u00fanica de luta. Ele reconhece as mais diferentes formas de luta, e al\u00e9m disso n\u00e3o as \u2018inventa\u2019, mas apenas generaliza, organiza, d\u00e1 consci\u00eancia \u00e0quelas formas de luta das classes revolucion\u00e1rias que surgem por si no curso do movimento. Absolutamente hostil a todas as f\u00f3rmulas abstratas, a todas as receitas doutrin\u00e1rias, o marxismo exige uma atitude atenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de massas em curso, a qual, com o desenvolvimento do movimento, com o crescimento da consci\u00eancia das massas, com a agudiza\u00e7\u00e3o das crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas, gera m\u00e9todos sempre novos e cada vez mais diversos de defesa e de ataque. Por isso o marxismo n\u00e3o renuncia absolutamente a nenhuma formas de luta. O marxismo n\u00e3o se limita em nenhum caso \u00e0s formas de luta poss\u00edveis e existentes apenas num dado momento, reconhecendo a inevitabilidade de novas formas de luta, desconhecidas dos participantes do per\u00edodo dado, com a modifica\u00e7\u00e3o da conjuntura social dada. O marxismo neste aspecto aprende, se assim nos podemos exprimir, com a pr\u00e1tica das massas, est\u00e1 longe da pretens\u00e3o de ensinar \u00e0s massas formas de luta inventadas por \u2018sistematizadores\u2019 de gabinete. N\u00f3s sabemos \u2013 disse, por exemplo, Kautsky ao analisar as formas da revolu\u00e7\u00e3o social \u2013 que a crise futura nos trar\u00e1 novas formas de luta que n\u00f3s n\u00e3o podemos prever agora.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o marxismo exige um exame absolutamente hist\u00f3rico da quest\u00e3o das formas de luta. Colocar esta quest\u00e3o fora da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica concreta significa n\u00e3o compreender o ABC do materialismo dial\u00e9tico. Em diferentes momentos da evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, dependendo das diferentes condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, nacionais-culturais, de vida etc., diferentes formas de luta passam para primeiro plano, tornam-se as principais formas de luta, e, em liga\u00e7\u00e3o com isso, modificam-se tamb\u00e9m as formas secund\u00e1rias, acess\u00f3rias, de luta. Tentar responder por sim ou n\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o de um determinado meio de luta, sem examinar detalhadamente a situa\u00e7\u00e3o concreta do movimento dado no grau dado do seu desenvolvimento, significa abandonar completamente o terreno do marxismo.\u201d<\/p>\n<p>7 Em Escritos de juventude, v. 2. S\u00e3o Paulo: LavraPalavra Editorial, 2020.<\/p>\n<p>8 Em Escritos de juventude, v. 1. S\u00e3o Paulo: LavraPalavra Editorial, 2020.<\/p>\n<p>9 https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/1894\/narodniks\/index.htm<\/p>\n<p>10 https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1914\/11\/marx-avante.htm<\/p>\n<p>11 https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1920\/10\/02.htm<\/p>\n<p>12 Vide, notadamente, O desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia.<\/p>\n<p>13 https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/1901\/agrarian\/index.htm<\/p>\n<p>14 Na edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, volume 40. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/cw\/pdf\/lenin-cw-vol-40.pdf<\/p>\n<p>15 https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/1907\/apr\/06.htm<\/p>\n<p>16 https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/1907\/apr\/00b.htm<\/p>\n<p>17 https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1905\/taticas\/index.htm<\/p>\n<p>18 https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/1907\/feb\/05.htm<\/p>\n<p>19 Vide Materialismo e empirocriticismo.<\/p>\n<p>20 https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1922\/03\/12-1.htm<\/p>\n<p>21 Vide Cadernos filos\u00f3ficos, publicados parcialmente no Brasil pela Boitempo Editorial.<\/p>\n<p>22 https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1921\/01\/26.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29403\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\u201cSer\u00e1 o dever dos dirigentes esclarecer-se cada vez mais sobre todas as quest\u00f5es te\u00f3ricas, e ter sempre em mente que o socialismo, desde que se tornou uma ci\u00eancia, tamb\u00e9m requer seu exerc\u00edcio como ci\u00eancia, isto \u00e9, sendo estudado.\u201d","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-29403","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Ef","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29403","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29403"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29403\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}