{"id":2943,"date":"2021-06-26T14:14:55","date_gmt":"2021-06-26T17:14:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2943"},"modified":"2021-06-30T15:43:23","modified_gmt":"2021-06-30T18:43:23","slug":"chamando-a-contradicao-pelo-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2943","title":{"rendered":"Chamando a contradi\u00e7\u00e3o pelo nome"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AM-JKLVh-_KIEvyPqzUBX7L2Xvi-b2btz5QgcpOet9qKooxtSLfXCltwoHBWQVZ5gqzJIvHzQg_tJ2n3jusBbFWNqLciNEbv7TTuRcxO1TDOLHf-CWPcjkMzQPHBlZIyNtVp3RyZID2IKNQlYdyn2bv66QL7=w940-h529-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Ilustra\u00e7\u00e3o de Katie Horwich<\/p>\n<p>Leia Marxistas<\/p>\n<p>Por Christian Stache. Publicado em mar\u00e7o de 2021 em Das Fleischkapital. Zur Ausbeutung von Arbeitern, Natur und Tieren (O Capital da Carne. Sobre a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, da natureza e dos animais).<\/p>\n<p>Traduzido por L\u00edvia Maria e revisado por Rebecca Borges e Maila Costa.<\/p>\n<p>A comunista brasileira, militante pela liberta\u00e7\u00e3o animal e feminista Maila Costa fala sobre as maquina\u00e7\u00f5es da maior corpora\u00e7\u00e3o produtora de carne do mundo, a JBS, e sobre o veganismo popular.<\/p>\n<p>O governo de Jair Bolsonaro come\u00e7ou em janeiro de 2019 no Brasil. O que mudou nesse momento na pol\u00edtica da esquerda?<\/p>\n<p>Primeiramente \u00e9 preciso enfatizar que medidas neoliberais, como a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os sociais p\u00fablicos e a redu\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, foram iniciadas em 2016 por Michel Temer, ap\u00f3s o golpe contra Dilma Rousseff. A trupe de Bolsonaro come\u00e7ou ent\u00e3o, durante seu mandato atual, a fazer de tudo para expandir a condi\u00e7\u00e3o colonial do Brasil na divis\u00e3o internacional do trabalho. Por um lado, isso dificultou o trabalho da esquerda radical, mas por outro lado, a crescente precariza\u00e7\u00e3o da vida \u2014 e das condi\u00e7\u00f5es trabalhistas \u2014 fez com que muitas pessoas refletissem sobre si mesmas e sua classe, e se tornassem parte do movimento de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Um opositor da pol\u00edtica de esquerda no Brasil \u00e9 a maior empresa de carne do mundo, a JBS. Como se sabe, membros do governo Bolsonaro haviam recebido subornos da empresa no passado. Qual \u00e9 hoje a rela\u00e7\u00e3o entre o governo e a JBS?<\/p>\n<p>O governo mant\u00e9m atualmente uma comiss\u00e3o que representa os interesses do agroneg\u00f3cio. O comit\u00ea \u00e9 financiado por 38 grupos lobistas. A JBS pertence a alguns deles. Al\u00e9m disso, a empresa tem sido financiada, desde o fim do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2016, com pelo menos 4 milh\u00f5es de euros do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), um banco estatal brasileiro, que, ali\u00e1s, tamb\u00e9m det\u00e9m a\u00e7\u00f5es da JBS. Al\u00e9m disso, Tereza Cristina, ministra da agricultura de Bolsonaro, \u00e9 propriet\u00e1ria de terras e realiza neg\u00f3cios com os donos da JBS, a fam\u00edlia Batista. Mas ela afirma, \u00e9 claro, n\u00e3o haver conflitos de interesses entre o minist\u00e9rio e sua empresa.<\/p>\n<p>A JBS, em apenas dez anos, passou de um pequeno abatedouro a um conglomerado privado l\u00edder no Brasil. Em 2018, o grupo teve um faturamento recorde de 41,3 bilh\u00f5es de euros. Voc\u00ea pode resumir para n\u00f3s o sistema JBS e as consequ\u00eancias para animais, trabalhadores e natureza?<\/p>\n<p>A JBS passou de uma empresa nacional para um conglomerado internacional quando a fam\u00edlia Batista decidiu negociar a\u00e7\u00f5es da empresa na bolsa e comprar os concorrentes. O BNDES financiou as estrat\u00e9gias de internacionaliza\u00e7\u00e3o da JBS. Isso aconteceu como parte da pol\u00edtica de expans\u00e3o do governo Lula para empresas nacionais daquela \u00e9poca. A crescente expans\u00e3o global de produtos de origem animal, especialmente na China, tamb\u00e9m foi crucial para esse desenvolvimento. A JBS usou incentivos fiscais e subs\u00eddios, pagamento de subornos, n\u00e3o apenas sobre o processamento de carne, mas tamb\u00e9m para expandir a sua influ\u00eancia em outras \u00e1reas, como nos bancos e no setor de telecomunica\u00e7\u00f5es. Atualmente 235 mil pessoas trabalham para a empresa. O setor inteiro de abate no Brasil \u00e9 terr\u00edvel.<\/p>\n<p>A JBS \u00e9 conhecida como a \u201ccampe\u00e3 dos acidentes de trabalho\u201d. Apenas no Estado do Mato Grosso s\u00e3o notificadas 19 mil viola\u00e7\u00f5es de direitos trabalhistas por ano pela JBS. Alia-se a isso o estresse psicol\u00f3gico que o trabalho desumano de abate de animais traz consigo e o alto grau de aliena\u00e7\u00e3o do \u201cproduto\u201d, dos animais e de si mesmos. O destino dos milh\u00f5es de animais n\u00e3o humanos sob o controle da ind\u00fastria \u00e9 simplesmente horr\u00edvel. Os n\u00fameros s\u00e3o enormes: por dia s\u00e3o mortos pela JBS 45 mil bovinos, 47 mil porcos e 10 milh\u00f5es de frangos. Para cumprir as regula\u00e7\u00f5es legais, o gado no Brasil \u00e9 criado em campos abertos. Mas, em outros pa\u00edses que a JBS opera, existe a pecu\u00e1ria intensiva, o que \u00e9 ainda mais cruel. A lista de problemas com os quais somos confrontados s\u00f3 cresce. Por exemplo, como resultado da monocultura para produ\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00e3o animal, a qualidade do solo diminui, a polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e do ar devido a detritos, uso de pesticidas e emiss\u00e3o de gases do efeito estufa aumenta, e a lista continua.<\/p>\n<p>Existe resist\u00eancia direta, ou pelo menos protesto, contra a JBS e esse sistema de explora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>At\u00e9 onde eu saiba, n\u00e3o. \u00c9 extremamente dif\u00edcil organizar a\u00e7\u00f5es contra grandes corpora\u00e7\u00f5es porque o poderio da pol\u00edcia militar \u00e9 usado descaradamente contra a popula\u00e7\u00e3o. Principalmente no campo, onde os animais s\u00e3o criados, \u00e9 muito perigoso fazer alguma coisa. Os capatazes n\u00e3o hesitam em atirar. H\u00e1 dezenas de casos em que ativistas sem-terra e ind\u00edgenas foram v\u00edtimas dos interesses do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds da semiperiferia do sistema capitalista mundial. Os problemas, inclusive os sociais, s\u00e3o graves. Nessa situa\u00e7\u00e3o, faz algum sentido, politicamente falando, lutar pela liberta\u00e7\u00e3o dos animais?<\/p>\n<p>Eu diria que fazer isso, exatamente por causa das complexas condi\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9 sensato e necess\u00e1rio. A hist\u00f3rica posi\u00e7\u00e3o do Brasil na divis\u00e3o do trabalho \u00e9 a de uma col\u00f4nia a servi\u00e7o dos pa\u00edses europeus. Hoje, pode-se encontrar aqui no Brasil partes da produ\u00e7\u00e3o capitalista que se quer banir dos pa\u00edses centrais do capitalismo. Isso inclui a explora\u00e7\u00e3o intensiva de animais, com todas as suas consequ\u00eancias. A fabrica\u00e7\u00e3o de bens de origem animal em grande escala e a produ\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00e3o associada trazem grandes problemas, como o acesso limitado \u00e0 comida por parte da popula\u00e7\u00e3o ou a criminaliza\u00e7\u00e3o de movimentos por reforma agr\u00e1ria. Penso que apontar a mis\u00e9ria dos animais n\u00e3o humanos \u00e9 chamar pelo nome mais uma contradi\u00e7\u00e3o terr\u00edvel do capitalismo, que traz sofrimento extremo.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos tido experi\u00eancias mistas com a esquerda no geral e comunista, em particular, quando nos confrontamos com a quest\u00e3o animal. Qual import\u00e2ncia tem a liberta\u00e7\u00e3o animal na pol\u00edtica do Partido Comunista Brasileiro (PCB)?<\/p>\n<p>Como na maior parte da esquerda, o debate da quest\u00e3o animal entre os comunistas ainda est\u00e1 num n\u00edvel embrion\u00e1rio. A liberta\u00e7\u00e3o animal \u00e9 associada ao veganismo, e esta associa\u00e7\u00e3o gera automaticamente a cr\u00edtica marxista da a\u00e7\u00e3o individual. Eu e alguns camaradas procuramos criticar essa caricatura e esclarecer que a explora\u00e7\u00e3o animal n\u00e3o pode acabar apenas com um estilo de vida vegano. O veganismo \u00e9 uma parte da pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria. Isso vem dos nossos padr\u00f5es \u00e9ticos, que tamb\u00e9m devem se aplicar aos animais. O consumo de animais foi necess\u00e1rio no passado, mas hoje, gra\u00e7as ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, n\u00e3o \u00e9 mais justific\u00e1vel. Os membros do Partido Comunista Brasileiro normalmente entendem que a ind\u00fastria animal apresenta v\u00e1rias contradi\u00e7\u00f5es. Mas isto \u00e9 primeiramente apenas uma vis\u00e3o te\u00f3rica, sem grandes implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou na reprodu\u00e7\u00e3o social cotidiana. A juventude do partido, a Uni\u00e3o da Juventude Comunista (UJC), \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o da regra. L\u00e1 se dedicam, provavelmente seguindo a tend\u00eancia mundial, muito mais camaradas \u00e0 causa animal.<\/p>\n<p>Na Alemanha, Su\u00ed\u00e7a e outros pa\u00edses do hemisf\u00e9rio ocidental, os movimentos que lutam pelos animais s\u00e3o dominados por diferentes variedades de liberalismo, dentro das quais o veganismo \u00e9 o eixo. Voc\u00ea pode descrever como o movimento de defesa e liberta\u00e7\u00e3o dos animais est\u00e1 posicionado no Brasil?<\/p>\n<p>Como em todos os movimentos anti-opress\u00e3o, h\u00e1 uma propens\u00e3o ao liberalismo. O veganismo est\u00e1 se tornando mais popular no Brasil, inclusive o veganismo pol\u00edtico, ou, como geralmente chamamos, o \u201cveganismo popular\u201d. \u00c9 claro que uma grande parte dos veganos daqui pertence \u00e0 classe m\u00e9dia branca e acredita no \u201cveganismo de mercado\u201d. Mas cada vez mais pessoas da classe trabalhadora tamb\u00e9m est\u00e3o se tornando veganas no sentido pol\u00edtico, ou seja, n\u00e3o apenas por al\u00edvio de consci\u00eancia ou por raz\u00f5es de sa\u00fade. O n\u00famero de coletivos anti-especistas tem crescido nos \u00faltimos anos. N\u00e3o consigo pensar agora em nenhum exclusivamente marxista. Mas h\u00e1 alguns que representam posi\u00e7\u00f5es anticapitalistas e nos quais os marxistas est\u00e3o inclu\u00eddos, geralmente em conjunto com os anarquistas. Al\u00e9m disso, existem iniciativas muito interessantes, como a Favela Org\u00e2nica. Este \u00e9 um projeto na favela da Babil\u00f4nia, no Rio de Janeiro. Seu objetivo \u00e9 ensinar os residentes locais sobre o uso de plantas que ca\u00edram no esquecimento em consequ\u00eancia da industrializa\u00e7\u00e3o dos alimentos. Os ativistas tamb\u00e9m t\u00eam como objetivo derrubar a ideia de que o veganismo \u00e9 elitista. A Animal Liberation Front (ALF ou Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Animal) tamb\u00e9m est\u00e1 ativa no Brasil. Por fim, pessoas como eu e alguns camaradas estamos trabalhando em organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e nos movimentos populares mais amplos e estamos realizando os debates necess\u00e1rios por l\u00e1.<\/p>\n<p>O que devem fazer os marxistas e ativistas pela liberta\u00e7\u00e3o animal no centro do imperialismo para apoiar camaradas na semiperiferia e periferia?<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 morei na Europa. A diferen\u00e7a entre os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o animal l\u00e1 e no Brasil \u00e9 enorme. Na Europa as pessoas t\u00eam a impress\u00e3o de que o avan\u00e7o da liberta\u00e7\u00e3o animal se reduz \u00e0 compra de produtos veganos. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de questionar por que algumas pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 comida ou por que ind\u00edgenas s\u00e3o mortos ou expulsos de suas terras para que os grandes latif\u00fandios possam plantar soja. No Brasil essas quest\u00f5es est\u00e3o sempre na ordem do dia. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel falar sobre a aboli\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o animal sem abordar os outros problemas. A ala marxista dos movimentos pela liberta\u00e7\u00e3o animal deve mostrar solidariedade. Deve buscar entender as diferentes condi\u00e7\u00f5es materiais de vida em outras partes do mundo e inclu\u00ed-las na an\u00e1lise da totalidade social.<\/p>\n<p>Maila Costa \u00e9 militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e mora no Estado do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>A revista Das Fleischkapital. Zur Ausbeutung von Arbeitern, Natur und Tieren \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o do coletivo B\u00fcndnis Marxismus und Tierbefreiung pode ser encontrado no Instagram, Twitter e Facebook.<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>https:\/\/leiamarxistas.medium.com\/chamando-a-contradi%C3%A7%C3%A3o-pelo-nome-958931e0b6b<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2943\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-2943","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Lt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2943"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2943\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}