{"id":295,"date":"2010-02-26T17:39:54","date_gmt":"2010-02-26T17:39:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=295"},"modified":"2010-02-26T17:39:54","modified_gmt":"2010-02-26T17:39:54","slug":"america-latina-e-os-desafios-da-esquerda-revolucionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/295","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina e os desafios da esquerda revolucion\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>Muitos l\u00edderes e analistas de esquerda cometem um grave erro de percep\u00e7\u00e3o ao supervalorizar as mudan\u00e7as pol\u00edticas ocorridas na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos anos. Suas explica\u00e7\u00f5es v\u00e3o desde aquelas que percebem os triunfos eleitorais da centroesquerda como &#8220;avan\u00e7os revolucion\u00e1rios&#8221;, at\u00e9 as que, menos otimistas, afirmam entretanto que a Am\u00e9rica Latina oferece novas oportunidades para transformar profundamente as rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia e mis\u00e9ria privilegiando a via institucional e aproveitando &#8220;as portas que se abriram&#8221; desde a democracia burguesa. Isso traz como consequ\u00eancia a subvaloriza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da luta extrainstitucional e antissist\u00eamica, da mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o popular e da cria\u00e7\u00e3o de poder alternativo local.<\/p>\n<p>O complexo e contradit\u00f3rio processo que vive a Am\u00e9rica Latina desde muitos anos requer, no entanto, an\u00e1lises mais abrangentes para n\u00e3o se deixar enganar pelas ilus\u00f5es que, ainda que fazendo chamados \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, coloca a luta eleitoral privilegiadamente como o \u00fanico caminho poss\u00edvel e &#8220;sensato&#8221; para a esquerda.<\/p>\n<p>A esquerda revolucion\u00e1ria tem como desafios aplicar estrat\u00e9gias capazes de construir verdadeiras alternativas de poder e recuperar a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas em decad\u00eancia. Isto passa por reconhecer, para al\u00e9m dos triunfalismos, algo que j\u00e1 hoje \u00e9 evidente: o refluxo da mobiliza\u00e7\u00e3o social na Am\u00e9rica Latina e o ressurgir da direita.<\/p>\n<p><strong>Crise do neoliberalismo no in\u00edcio do s\u00e9culo e triunfo eleitoral de centroesquerda:<\/strong><\/p>\n<p>Depois da contraofensiva neoliberal dos anos 90, ao fim da d\u00e9cada e in\u00edcio do s\u00e9culo, sua derrota no plano econ\u00f4mico desacreditou a direita tradicional, criou como\u00e7\u00f5es sociais e produziu uma crise que derrocou v\u00e1rios governos da regi\u00e3o por via da mobiliza\u00e7\u00e3o popular: a revolta derrubou tr\u00eas presidentes no Equador, v\u00e1rios na Argentina e dois na Bol\u00edvia. Os movimentos sociais foram os grandes protagonistas das jornadas rebeldes que deixaram dezenas de mortos como saldo e puseram temporariamente em xeque a institucionaliza\u00e7\u00e3o dominante. Ind\u00edgenas, camponeses, cocaleros, trabalhadores mineiros, piqueteros e massas urbanas empobrecidas desenvolveram jornadas de protesto social demonstrando em certos pa\u00edses grande capacidade de a\u00e7\u00e3o e vontade de sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>As revoltas desataram uma crise de institucionalidade que, no entanto, n\u00e3o conseguiu ser capitalizada pelos movimentos sociais para criar verdadeiras alternativas de poder.<\/p>\n<p>Ainda que de maneira desigual, a crise e os protestos permitiram em certos casos a chegada ao governo de candidatos de centroesquerda que capitalizaram a revolta social para substituir a direita tradicional (Argentina, Uruguai, Chile, Brasil, Equador). Em outros casos surgiram l\u00edderes dos pr\u00f3prios movimentos sociais (Bol\u00edvia), e um militar bolivariano que obteve popularidade por encabe\u00e7ar um golpe fracassado a um governo corrupto de direita (Venezuela).<\/p>\n<p>Apesar dos matizes (n\u00e3o \u00e9 o mesmo Venezuela, Bol\u00edvia e Equador que o resto da regi\u00e3o do cone sul) nenhum dos governos de centroesquerda na regi\u00e3o conseguiu desenvolver ou consolidar mudan\u00e7as estruturais profundas, nem apresentar alternativas reais ao projeto neoliberal. Venezuela \u00e9 uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o neste caso, cujo processo revolucion\u00e1rio ainda tem imensos desafios pela frente, e onde seguramente a a\u00e7\u00e3o decidida das organiza\u00e7\u00f5es de base classistas ser\u00e1 um fator decisivo no aprofundamento dos avan\u00e7os.<\/p>\n<p>Os governos de centroesquerda encaminharam a rebeldia popular por vias institucionais, fizeram um chamado ao &#8220;comedimento&#8221; e n\u00e3o aproveitaram a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o para desenvolver poder alternativo real. Com discurso progressista, estes governos, na maioria dos casos, desmobilizaram os movimentos sociais, apagaram v\u00e1rios de seus l\u00edderes minando a autonomia e capacidade de resposta destes, ao mesmo tempo em que nomearam para postos chaves dos minist\u00e9rios neoliberais ortodoxos para conseguir um equil\u00edbrio de poder e garantir assim a governabilidade.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica exterior e distanciamento dos EUA: M\u00e1scara antiimperialista, fundo neoliberal<\/strong> Muitas an\u00e1lises de esquerda se concentram na oposi\u00e7\u00e3o que os novos governos de centroesquerda fazem \u00e0 hegemonia Estadunidense: o recha\u00e7o \u00e0 ALCA principalmente \u00e9 tido como uma mostra do car\u00e1ter antiimperialista dos mesmos. Excluindo Cuba e Venezuela, e ainda que em alguns casos, o recha\u00e7o ao estabelecimento ou continuidade das bases estadunidenses seja uma mostra de dignidade nacional, o distanciamento das pol\u00edticas estadunidenses responde melhor a um contexto interno e externo que vale a pena analisar (sobretudo nos pa\u00edses do cone sul): Neste plano externo a diversifica\u00e7\u00e3o dos mercados internacionais e a alta nos pre\u00e7os das mat\u00e9rias primas no in\u00edcio do s\u00e9culo permitiram certa flexibilidade e capacidade de manobra dos governos e subtra\u00edram import\u00e2ncia \u00e0s pol\u00edticas do FMI e do Banco Mundial; isto criou as condi\u00e7\u00f5es no plano interno para o surgimento de uma classe agromineradora exportadora local e estrangeira que aproveitou os altos pre\u00e7os das mat\u00e9rias primas para buscar maiores vantagens em outros mercados. Esta classe domina as finan\u00e7as, exerce press\u00e3o sobre os estados, e exige, ao mesmo tempo, junto aos gabinetes de governo, maior liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado estadunidense (oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ALCA). Na maioria dos casos n\u00e3o se explica, em \u00faltima an\u00e1lise, uma oposi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo, mas melhores rela\u00e7\u00f5es de mercado, mais competitivas e menos unilaterais por parte dos EUA.<\/p>\n<p>Isto evidentemente debilita a pol\u00edtica estadunidense acostumada ao saque incondicional e a ter clientes totalmente submissos aos seus des\u00edgnios. Estes governos buscam e firmam tratados de livre com\u00e9rcio com outras na\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis \u00e0 entrada de seus produtos (Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, pa\u00edses Asi\u00e1ticos e com\u00e9rcio local e regional). No entanto, ao mesmo tempo se avan\u00e7a pouco em um projeto verdadeiro de integra\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria (ALBA) e desenvolvimento end\u00f3geno.<\/p>\n<p><strong>Fortalecimento da direita, debilita\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais<\/strong><\/p>\n<p>Na maioria dos pa\u00edses onde triunfou eleitoralmente a centroesquerda, esta teve que buscar alian\u00e7as para conseguir governabilidade. A reprimariza\u00e7\u00e3o da economia levou estes governos a basearem sua pol\u00edtica econ\u00f4mica na consolida\u00e7\u00e3o do setor agrominerador do qual obtinham grandes dividendos e que lhes permitiam levar a cabo programas sociais tendentes a superar a crise social do in\u00edcio do s\u00e9culo. O equil\u00edbrio de poder constitu\u00eddo pela centroesquerda baseado em suas alian\u00e7as com os grandes produtores e exportadores agromineradores e setores financeiros por um lado, e a base eleitoral composta pela classe trabalhadora urbana e rural de classe m\u00e9dia e baixa pelo outro, terminou por deslocar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as rumo \u00e0 direita agromineradora com muita influ\u00eancia na economia.<\/p>\n<p>A incapacidade para adiantar mudan\u00e7as estruturais profundas, para modificar as rela\u00e7\u00f5es de propriedade da terra, para organizar efetivamente o movimento popular como motor estrat\u00e9gico de mudan\u00e7a, trouxe como resultado uma debilita\u00e7\u00e3o da centroesquerda e um fortalecimento crescente da direita, agora na ofensiva. Os movimentos sociais se debilitaram, perderam influ\u00eancia e em alguns casos militantes.<\/p>\n<p>Em resumo, os governos de centroesquerda, por falta de vontade ou incapacidade, adiantaram uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o passiva&#8221; funcional \u00e0 sobreviv\u00eancia do sistema capitalista cuja crise org\u00e2nica no in\u00edcio do s\u00e9culo era evidente. Isto \u00e9, com consignas progressistas ressignificadas (mudando algo, para que nada mude), administraram a crise neoliberal, aceitaram as engrenagens do sistema, e devolveram a legitimidade \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, conscientes ou n\u00e3o, reconstru\u00edram a hegemonia dominante e abriram espa\u00e7o para o ressurgimento de direitas.<\/p>\n<p><strong>A direita retoma a ofensiva<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da esquerda tradicional que somente se mobiliza em tempos de campanha eleitoral e privilegia a luta parlamentar, a direita em mudan\u00e7a, com seus grandes recursos, utiliza todos os meios ao seu alcance para recuperar sua hegemonia. Em todos os pa\u00edses controla os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o que desenvolvem fen\u00f4menos midi\u00e1ticos pr\u00f3 fascistas (Col\u00f4mbia), campanhas de descr\u00e9dito multimilion\u00e1rios (Venezuela, Equador); tem desenvolvido projetos separatistas (Bol\u00edvia) onde a oligarquia agromineradora controla v\u00e1rias prov\u00edncias ricas em recursos; tem promovido iguais projetos no estado de Zulia (Venezuela), com a infiltra\u00e7\u00e3o crescente de grupos paramilitares colombianos, e em Guayaquil (Equador).<\/p>\n<p>No Brasil, a oligarquia agroexportadora, os imensos investimentos estrangeiros em megaprojetos de agrocombust\u00edveis e exporta\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, com a cumplicidade do governo, t\u00eam for\u00e7ado o \u00eaxodo de milhares de camponeses, debilitado e perseguido aos Sem Terra (MST) e desmatado milh\u00f5es de hectares. Na Argentina, a oligarquia agr\u00e1ria tem mobilizado milhares de pessoas em uma paralisa\u00e7\u00e3o que buscava concess\u00f5es sobre os impostos de exporta\u00e7\u00e3o governamentais.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a direita tem conseguido constituir uma base social forte em v\u00e1rios pa\u00edses e tem combinado a luta parlamentar com a mobiliza\u00e7\u00e3o das ruas de maneira efetiva. Tem utilizado a mobiliza\u00e7\u00e3o massiva para consolidar projetos de ultradireita (Col\u00f4mbia), avan\u00e7ar sobre campanhas contra as pol\u00edticas progressistas (referendo na Venezuela), bloquear estradas e parar a economia (Argentina) e consolidar projetos separatistas (Bol\u00edvia).<\/p>\n<p>Na maioria dos pa\u00edses a embaixada estadunidense e ag\u00eancias como a National Endowment for Democracy (NED, Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia em portugu\u00eas) t\u00eam gastado milhares de d\u00f3lares para financiar partidos de oposi\u00e7\u00e3o, dar assessoria sobre propaganda eleitoral, promover candidatos de direita e desestabilizar governos advers\u00e1rios de seus interesses, ao mesmo tempo em que reativam a IV Frota e d\u00e3o milh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda militar a governos terroristas como o colombiano.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a direita tem promovido a viol\u00eancia das ruas e o terrorismo em v\u00e1rios pa\u00edses. Tem criado grupos de choque para fustigar simpatizantes do governo central na Bol\u00edvia e Venezuela, grupos armados privados para retirar de seus lugares camponeses no Brasil e Col\u00f4mbia, e consolidar assim megaprojetos agromineradores e energ\u00e9ticos.<\/p>\n<p><strong>O mito do reformismo: Novas roupagens, velhas ilus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que sucedeu com a socialdemocracia europ\u00e9ia de finais do s\u00e9culo XIX e das primeiras seis d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, em pa\u00edses beneficiados por um desenvolvimento econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social capitalista baseado na explora\u00e7\u00e3o colonial e neocolonial, que lhes permitiu acumular excedentes e redistribuir uma parte deles entre os grupos sociais subalternos, na Am\u00e9rica Latina a transnacionaliza\u00e7\u00e3o e desregulariza\u00e7\u00e3o das economias, sua crescente depend\u00eancia no que diz respeito ao capital financeiro internacional, e \u00e0 Nova Ordem Mundial imposta, criou um mecanismo de seguran\u00e7a que restringia ainda mais aos governantes a tomada de decis\u00f5es de maneira aut\u00f4noma ou o desenvolvimento de projetos de reforma progressista. Assim mesmo, depois da pacifica\u00e7\u00e3o e a derrota pol\u00edtica sofrida pela esquerda nas d\u00e9cadas anteriores, onde se instauraram ditaduras de &#8220;seguran\u00e7a nacional&#8221; e o imperialismo usou a interven\u00e7\u00e3o direta e a luta contrainsurgente para destruir os movimentos revolucion\u00e1rios dos anos sessenta, setenta, abriu-se nos noventa um cen\u00e1rio onde o imperialismo reconstruiu a hegemonia burguesa, instaurando a &#8220;democracia neoliberal&#8221; como forma \u00fanica de governo na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta maneira, o imperialismo pode &#8220;tolerar&#8221; certos governos de centroesquerda, sempre e quando respeitem as regras do jogo, posto que pode garantir que, ainda que nas urnas se vote por um candidato de esquerda, a economia sempre estar\u00e1 sujeita \u00e0s pol\u00edticas de mercado. Isto restringe enormemente as possibilidades de levar a cabo reformas progressistas na regi\u00e3o. Os governos de centroesquerda t\u00eam enorme dificuldade para implementar mudan\u00e7as de fundo, redistribui\u00e7\u00e3o de terras e em poucos casos renacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas. As elites agromineradoras se negam a compartilhar ou redistribuir seus enormes dividendos obtidos dos altos pre\u00e7os das mat\u00e9rias primas e pressionam os governos para desregulamentar a economia e aprofundar o neoliberalismo. Ao mesmo tempo, o imperialismo segue desenvolvendo uma pol\u00edtica contrainsurgente na Col\u00f4mbia e amea\u00e7ando com uma interven\u00e7\u00e3o na Venezuela, onde a recupera\u00e7\u00e3o da empresa estatal petroleira tem permitido ao governo levar a cabo projetos alternativos &#8220;intoler\u00e1veis&#8221; para os poderosos.<\/p>\n<p>Em resumo, nem hoje, nem nunca, existiram as condi\u00e7\u00f5es para adiantar na Am\u00e9rica Latina um projeto reformista equipar\u00e1vel ao da socialdemocracia europ\u00e9ia (nem sequer na etapa desenvolvimentista da metade do s\u00e9culo passado). Mais ainda, reformas progressistas b\u00e1sicas de hoje se chocam com o obst\u00e1culo da hegemonia neoliberal.<\/p>\n<p>Os setores de esquerda que pretendem reeditar hoje, inclusive com linguagem marxista, as velhas ilus\u00f5es reformistas do passado, ou aqueles que fazem um chamado ao &#8220;realismo&#8221;, ou a construir um &#8220;capitalismo nacional&#8221;, abandonam na pr\u00e1tica o projeto estrat\u00e9gico da revolu\u00e7\u00e3o a longo prazo e terminam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sendo funcionais \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da hegemonia capitalista.<\/p>\n<p>Os desafios da esquerda revolucion\u00e1ria: constru\u00e7\u00e3o de poder alternativo, luta pela hegemonia socialista A rela\u00e7\u00e3o entre a estrat\u00e9gia e a t\u00e1tica pol\u00edticas tem sido sempre um problema que tem gerado debates na esquerda atrav\u00e9s da hist\u00f3ria. No entanto, a hist\u00f3ria mesmo tem demonstrado que os movimentos pol\u00edticos de esquerda exitosos t\u00eam conseguido perceber os momentos t\u00e1ticos em sua rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com o objetivo estrat\u00e9gico (sem nunca perd\u00ea-lo de vista); t\u00eam presente sempre a categoria de totalidade na hora de analisar as tarefas pol\u00edticas imediatas; t\u00eam percebido, para al\u00e9m dos fen\u00f4menos superficiais do momento, os aspectos gerais de tend\u00eancia de uma \u00e9poca, e t\u00eam se preocupado em todos os casos em incentivar a iniciativa pol\u00edtica direta do campo popular como motor de transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, no entanto, muitos movimentos pol\u00edticos se perdem nas tarefas do dia a dia, caem na rotina, tendem a desligar-se dos movimentos sociais, e pouco a pouco se deixam arrastar pela chantagem institucional.<\/p>\n<p>Se a esquerda revolucion\u00e1ria se caracteriza por difundir o socialismo como a alternativa pol\u00edtica a ser conquistada pelo campo popular, por apresentar a luta pelo poder como o objetivo estrat\u00e9gico a alcan\u00e7ar, na maioria dos casos, entretanto, essa estrat\u00e9gia pr\u00e1tica se dilui de fato. Por exemplo, se um objetivo primordial para avan\u00e7ar sobre o projeto revolucion\u00e1rio \u00e9 conseguir uma abertura democr\u00e1tica nacional, a esquerda se perde nas tarefas mais ou menos imediatas da luta eleitoral-parlamentar ou nas coaliz\u00f5es eleitorais; n\u00e3o as percebe na pr\u00e1tica como um momento t\u00e1tico, ainda que importante em certos casos, sempre dependente de uma totalidade mais abrangente da luta social: descuida ou abandona a cria\u00e7\u00e3o de poder alternativo extrainstitucional, a organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular, e em \u00faltima an\u00e1lise, a luta antissist\u00eamica e a organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Desde a institucionalidade burguesa \u00e9 imposs\u00edvel construir uma contra-hegemonia socialista.<\/p>\n<p>Ainda que, tal como o percebia Gramsci, os espa\u00e7os da democracia burguesa sejam um campo de batalha que podem permitir ganhar certas posi\u00e7\u00f5es (&#8220;guerra de posi\u00e7\u00f5es&#8221;), a cria\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de uma hegemonia socialista se desenvolvem principalmente a partir da organiza\u00e7\u00e3o e da luta social.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de base, o impulso e reconstru\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, a articula\u00e7\u00e3o das lutas parciais rumo aos objetivos comuns, a luta pela hegemonia, o desenvolvimento de poder dual (poder local alternativo que dispute o poder com a burguesia) e a rela\u00e7\u00e3o indissol\u00favel entre dirigentes e movimentos sociais ser\u00e3o fatores decisivos que permitir\u00e3o sacudir a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as a favor do campo popular e consolidar projetos alternativos duradouros.<\/p>\n<p>Na atualidade, os crescentes custos no n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o, a crise alimentar produto dos nefastos projetos de agrocombust\u00edveis, a crise mundial capitalista e o crescente descontentamento popular s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que possibilitam retomar a ofensiva, sempre e quando a esquerda revolucion\u00e1ria seja capaz de organizar o campo popular, para al\u00e9m da luta eleitoral, e de impulsionar a rebeldia rumo \u00e0 luta pelo socialismo.<\/p>\n<p>Traduzido por Roberta Moratori<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nAm\u00e9rica Latina Revolucion\u00e1ria\n\n\n\n\nCamilo Moreno, para o Rebeli\u00f3n\nPara n\u00f3s, n\u00e3o se trata de reformar a propriedade privada, mas de aboli-la; n\u00e3o se trata de disfar\u00e7ar os antagonismos de classe, mas de abolir as classes; n\u00e3o se trata de melhorar a sociedade existente, mas de estabelecer uma nova&#8230; Nosso grito de guerra tem de ser sempre: a revolu\u00e7\u00e3o permanente! (K. Marx. Mensagem \u00e0 Liga Comunista, 1850.)\n\u201cOs setores de esquerda que pretendem reeditar hoje, inclusive com linguagem marxista, as velhas ilus\u00f5es reformistas do passado, ou aqueles que fazem um chamado ao &#8220;realismo&#8221;, ou a construir um &#8220;capitalismo nacional&#8221;, abandonam na pr\u00e1tica o projeto estrat\u00e9gico da revolu\u00e7\u00e3o a longo prazo e terminam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sendo funcionais \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da hegemonia capitalista.\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/295\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[63],"tags":[],"class_list":["post-295","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c74-esquerda"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4L","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}