{"id":29586,"date":"2022-12-05T18:18:30","date_gmt":"2022-12-05T21:18:30","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29586"},"modified":"2022-12-05T18:18:30","modified_gmt":"2022-12-05T21:18:30","slug":"notas-sobre-jose-saramago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29586","title":{"rendered":"Notas sobre Jos\u00e9 Saramago"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/16467.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cr\u00e9ditos \/ vilanovaonline.pt<\/p>\n<p>Portal AbrilAbril<\/p>\n<p>Por J\u00daLIO F. R. COSTA<\/p>\n<p>Tal como Saramago, h\u00e1 quem n\u00e3o se conforme com o \u00ablado para o qual o mundo gira\u00bb, e lute todos os dias contra esse despotismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou a melhor pessoa para falar da vida e obra de Jos\u00e9 Saramago. Simplesmente porque n\u00e3o \u00e9 de todo o tema sobre o qual me debru\u00e7o habitualmente. Contudo, visto que, de forma muito mais pobre, participo em alguns dos of\u00edcios que nos trazem aqui hoje1, nomeadamente o cinema e a escrita, aceitei o convite para vir debitar umas palavras que, com algum esfor\u00e7o, se podem enquadrar.<\/p>\n<p>Vivemos tempos que passam por v\u00e1rias etapas de lavagem: desde o capitalismo ser lavado para verde, ao enxaguamento do sistema com perfumadas \u00e1guas elogiosas, at\u00e9 \u00e0 for\u00e7osa centrifuga\u00e7\u00e3o que separa os crimes do imperialismo. J\u00e1 se ouviu por a\u00ed dizer at\u00e9 que o statu quo atual \u00e9 o socialismo, grande raiz de todos os males.<\/p>\n<p>Dizendo respeito a Jos\u00e9 Saramago, prestigiado autor que dispensa apresenta\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m o tentam empurrar pela m\u00e1quina-de-lavar adentro, lavando a obra para lhe retirar o homem, e separando o homem do comunista que era. Pois bem, ao arrepio de todas essas tentativas, suspeito porque \u00e9 um solo que tamb\u00e9m me \u00e9 comum, afirmo a impossibilidade de desligar todos esses elementos. Se \u00e9 evidente que um livro para ser escrito necessita de m\u00e3os que o fa\u00e7am, \u00f3bvio tamb\u00e9m \u00e9 que sem um c\u00e9rebro os dedos n\u00e3o mexem. E, se a massa cinzenta foi tingida de vermelho pelo pr\u00f3prio, quem s\u00e3o os outros para lhe tirarem a foice e o martelo das m\u00e3os com as quais escreveu?<\/p>\n<p>\u00abE, se a massa cinzenta foi tingida de vermelho pelo pr\u00f3prio, quem s\u00e3o os outros para lhe tirarem a foice e o martelo das m\u00e3os com as quais escreveu?\u00bb<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago afirmou, numa entrevista, que observava um mundo terr\u00edvel, um mundo que podia ser muito melhor, mas onde reina a tirania, a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, e que foi no Comunismo que encontrou a forma de participar na luta contra esse estado de coisas \u2013 ainda hoje evidente apesar de todas as tentativas de encobrimento. A sua maior participa\u00e7\u00e3o na luta traduziu-se em v\u00e1rias l\u00ednguas e ganhou um Pr\u00eamio Nobel. Galard\u00e3o que se entalou no \u00e2mago de anticomunistas da sociedade em geral e autodeclarados concorrentes do mundo liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>A obra de Saramago \u00e9 marcada por uma an\u00e1lise da natureza humana. Por vezes marcada pelo realismo. Outras vezes, atrav\u00e9s de hip\u00f3teses desenvolvidas hiperbolicamente at\u00e9 um extremo que permite dissertar acerca dos comportamentos humanos perante a adversidade, dando ao leitor ferramentas para pensar o mundo em que vive. \u00c9 o caso do Ensaio Sobre a Cegueira ou As Intermit\u00eancias da Morte. E tamb\u00e9m do conto em que se baseia o filme Embargo.<\/p>\n<p>A literatura em geral, e a de Saramago em particular, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es e personagens, consegue comunicar de uma forma que, por exemplo, a filosofia n\u00e3o consegue. Abordo a filosofia devido ao meu defeito de forma\u00e7\u00e3o (acad\u00eamica). Esta disciplina pretende explicar o real atrav\u00e9s de categorias universais, conceitos que servem de ferramentas ao pensar, para que se chegue a mais perguntas em torno de quest\u00f5es que importunam a humanidade h\u00e1 mil\u00eanios, as solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o no percurso e n\u00e3o na meta. No caso da literatura, as mesmas quest\u00f5es s\u00e3o expostas, por\u00e9m ganham uma forma facilmente transmitida a qualquer ser alfabetizado. Na literatura, onde a realidade \u00e9 male\u00e1vel, onde todas as figuras de estilo s\u00e3o permitidas, as contradi\u00e7\u00f5es podem ser efetivamente resolvidas, e as perguntas respondidas \u2013 mesmo que venham no encadeamento de uma multiplicidade de quest\u00f5es.<\/p>\n<p>(Num par\u00eantesis. No cinema, a comunica\u00e7\u00e3o adquire uma complexidade diferente, mas n\u00e3o menos rica. Os sons e as imagens em movimento t\u00eam um poder expressivo sem igual. No entanto, mesmo que na forma de um roteiro, necessitam, quase sempre, da escrita que \u00e9 o embri\u00e3o do que vir\u00e1 a ser.)<\/p>\n<p>Atente-se que n\u00e3o estou fazendo uma hierarquia entre as v\u00e1rias \u00e1reas, estou apenas real\u00e7ando, sem qualquer rigor, caracter\u00edsticas que lhes s\u00e3o particulares.<\/p>\n<p>\u00abH\u00e1 gente neste mundo que deve ter no seu plano de atividades uma cota de embargos e novas al\u00edneas-embargantes a cumprir. Dos embargos gerais, normalmente focados em na\u00e7\u00f5es, surgem os embargos individuais\u00bb<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para terminar, ap\u00f3s uma curta deslavagem a seco, falemos de embargos. Parece-me que nunca os embargos estiveram tanto na moda. Mant\u00eam-se uns antigos e criam-se novos a todo o momento. H\u00e1 gente neste mundo que deve ter no seu plano de atividades uma cota de embargos e novas al\u00edneas-embargantes a cumprir. Dos embargos gerais, normalmente focados em na\u00e7\u00f5es, surgem os embargos individuais \u2013 que s\u00e3o, muitas vezes, consequ\u00eancias transfronteiri\u00e7as. E, \u00e0 custa de uns poucos indiv\u00edduos que det\u00eam o poder de os declarar e fazer cumprir, milh\u00f5es de pessoas t\u00eam a sua vida embargada em diferentes n\u00edveis. Popula\u00e7\u00f5es inteiras passam fome. Guerras escalam para patamares que ro\u00e7am o fim da humanidade. Os pre\u00e7os dos bens alimentares inflacionam, empurrando para a pobreza milh\u00f5es de pessoas. O custo dos combust\u00edveis dita o dia-a-dia do povo. Pod\u00edamos ficar aqui horas a fio enumerando os embargos e as consequentes desgra\u00e7as no mundo, e amanh\u00e3 ter\u00edamos de voltar, porque surgem embargos a todo o momento. Por\u00e9m, tal como Saramago, h\u00e1 quem n\u00e3o se conforme com o \u00ablado para o qual o mundo gira\u00bb, e lute todos os dias contra esse despotismo.<\/p>\n<p>Fugi \u00e0 literatura, e ao \u00abEmbargo\u00bb, do Saramago. Por\u00e9m, por muito descabidas que sejam as interpreta\u00e7\u00f5es, transplanta\u00e7\u00f5es, acrescentos e muta\u00e7\u00f5es, as grandes obras servem para nos fazer pensar e debater, e elas n\u00e3o necessitam de lavagens, porque s\u00e3o elas que ajudam a limpar o mundo de ideias que promovem a sua destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Texto escrito para organizar ideias para uma interven\u00e7\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o de uma sess\u00e3o dos filmes A Maior Flor do Mundo e Embargo, pelo Cineclube de Torres Novas, em Portugal, no \u00e2mbito do Centen\u00e1rio de Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29586\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13,50,18,98],"tags":[223],"class_list":["post-29586","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura","category-c61-cultura-revolucionaria","category-s22-europa","category-c111-portugal","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Hc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29586","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29586"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29586\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}