{"id":2959,"date":"2012-06-03T22:11:22","date_gmt":"2012-06-03T22:11:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2959"},"modified":"2012-06-03T22:11:22","modified_gmt":"2012-06-03T22:11:22","slug":"maria-alice-braz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2959","title":{"rendered":"Maria Alice Braz"},"content":{"rendered":"\n<p>Na madrugada da \u00faltima sexta-feira, no dia 25 de maio de 2012, faleceu em Araruama a valorosa brasileira Maria Alice. Ela morreu aos setenta e sete anos de infarto no hospital p\u00fablico da cidade, na Unidade de Pronto Atendimento de Araruama &#8211; UPA, e seu enterro foi realizado no Cemit\u00e9rio Jardim da Saudade, no Rio de Janeiro, no final da tarde desta sexta. A bandeira do Brasil cobriu seu caix\u00e3o. As fala\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias n\u00e3o religiosas comoveram os presentes. Foram homenagens mais do que corretas.<\/p>\n<p>A bonita nordestina Maria Alice, de belos tra\u00e7os ainda presentes, nasceu em 19 de mar\u00e7o de 1935, no interior da Para\u00edba, no munic\u00edpio de Sap\u00e9, terra do grande poeta Augusto dos Anjos. Aos dezenove anos, tentando melhorar de vida veio para a cidade do Rio de Janeiro, isto l\u00e1 pelos idos de 1955. Era mais uma retirante das secas do Nordeste. Ainda muito jovem, em sua cidade natal, trabalhou no campo plantando e colhendo feij\u00e3o, mandioca e milho. Na regi\u00e3o urbana foi oper\u00e1ria tecel\u00e3 na f\u00e1brica de tecidos Tibiri.<\/p>\n<p>Ela morou inicialmente em Vicente Carvalho e a seguir em bairros adjacentes, regi\u00e3o localizada no sub\u00farbio do Rio de Janeiro. Nessa localidade conheceu o cativante metal\u00fargico Sebasti\u00e3o Braz, companheiro de toda vida, uni\u00e3o de quase sessenta anos, com quem teve quatro filhos: Olinda, j\u00e1 falecida, Iolanda, Marcel e Marc\u00edlio. O amor, a cumplicidade e o companheirismo do casal eram tanto, sempre juntos, que era dif\u00edcil estar com apenas um dos dois. Os dois na realidade pareciam um s\u00f3.<\/p>\n<p>Maria Alice, ao lado de seu companheiro Sebasti\u00e3o Braz, participou das lutas contra a ditadura militar. Ela lutou bravamente, enfrentando as for\u00e7as golpistas que derrubaram o governo constitucional de Jo\u00e3o Goulart, no dia 31 de mar\u00e7o de 1964. Ela era uma militante comunista aut\u00eantica. Cidad\u00e3 integra que jamais, em tempo algum, abandonou suas ideias revolucion\u00e1rias. Lutou, at\u00e9 os momentos finais, pela constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa, fraterna, igualit\u00e1ria, libert\u00e1ria e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Maria Alice se desdobrou como m\u00e3e de quatro filhos, quando passou a ser provedora do lar, durante o per\u00edodo em que Sebasti\u00e3o Braz, tamb\u00e9m comunista, com marcante atua\u00e7\u00e3o sindical, foi preso pelo regime militar. Na quase clandestinidade em que viveu, nunca perdeu a dimens\u00e3o humana de suas lutas, amparando e dando apoio aos que enfrentavam a brutalidade do regime opressor.<\/p>\n<p>Muitos revolucion\u00e1rios de ent\u00e3o receberam apoio e guarida em seu modesto lar. Maria Alice teve atua\u00e7\u00e3o destacada, durante a ditadura militar, quando abriu as portas de sua casa carinhosamente, corajosamente e conscientemente para acolher os importantes l\u00edderes guerrilheiros Stuart Angel e Carlos Lamarca.<\/p>\n<p>Em 1975, participou da instala\u00e7\u00e3o do N\u00facleo Rio de Janeiro do Movimento Feminino pela Anistia, o qual era dirigido por Regina Von der Weid. Foi ao lado do professor Moraes, Clea Moraes. Cec\u00edlia Coimbra, Flora Abreu e outras importantes lideran\u00e7as pol\u00edticas que, no ano de 1985, colaborou na cria\u00e7\u00e3o do Grupo Tortura Nunca Mais. Tamb\u00e9m, teve atua\u00e7\u00e3o marcante na busca dos restos mortais dos desaparecidos pol\u00edticos da ditadura militar.<\/p>\n<p>O Brasil chora a perda inesperada de t\u00e3o querida camarada. Estamos mergulhados numa imensa tristeza. A perda da querida Maria Alice \u00e9 uma dor que ir\u00e1 doer por muito tempo, at\u00e9 virar uma doce e sublime saudade. Ela era algu\u00e9m que brasileiros politizados recorriam para falar das lutas comunistas, dos enfrentamentos contra os poderosos donos do latif\u00fandio, do sistema financeiro, da m\u00eddia e do congresso, e tamb\u00e9m para discutir estrat\u00e9gias de resist\u00eancias \u00e0s alucinadas e opressoras mensagens religiosas.<\/p>\n<p>Maria Alice disse um n\u00e3o rotundo ao \u00f3pio das religi\u00f5es e viveu como ateia convicta, desenvolvendo atua\u00e7\u00e3o caridosa, fraterna e solid\u00e1ria a todos que dela se aproximavam. Era um ser humano muito avan\u00e7ado. Ela estava sempre na frente, progressista naturalmente, revolucion\u00e1ria por natureza. Nos seus \u00faltimos momentos, quando dizia insistentemente que estava morrendo, em nenhum instante titubeou ou renegou seu ate\u00edsmo e o sonho de um mundo justo, onde fraternidade, igualdade e liberdade vingar\u00e3o os humilhados e esquecidos pobres.<\/p>\n<p>Maria Alice foi um exemplo de mulher guerreira, alcan\u00e7ando m\u00e9ritos semelhantes aos reconhecidos a famosas mulheres. Ela era rebelde, questionadora e revolucion\u00e1ria. Este maravilhoso ser humano deve ser lembrado e reconhecido pelas novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Araruama, cidade que viveu seus \u00faltimos anos, j\u00e1 surge um Movimento encabe\u00e7ado, principalmente, pela Associa\u00e7\u00e3o de Moradores da Pontinha (AMOP), para que se crie o Centro de Mem\u00f3ria Maria Alice. Inicialmente, caberia dar o nome de Maria Alice a um logradouro p\u00fablico da cidade. Outras atividades a seguir viriam, justificando assim o Memorial, cuja finalidade ser\u00e1 identificar, coletar, tratar, preservar e disponibilizar para o p\u00fablico em geral a documenta\u00e7\u00e3o e registros gerados sobre a heroica vida de Maria Alice.<\/p>\n<p>Maria Alice! Viva Maria Alice!<\/p>\n<p>Camarada Maria Alice!<\/p>\n<p>Presente! Sempre Presente!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nJos\u00e9 Antonio Sim\u00f5es\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2959\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2959","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-LJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2959"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2959\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}