{"id":29617,"date":"2022-12-13T11:51:37","date_gmt":"2022-12-13T14:51:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29617"},"modified":"2022-12-13T11:52:38","modified_gmt":"2022-12-13T14:52:38","slug":"nao-karl-marx-nao-era-eurocentrico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29617","title":{"rendered":"N\u00e3o, Karl Marx n\u00e3o era euroc\u00eantrico"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4484454447_4028b3412f_o.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><br \/>\nPor Kevin B. Anderson<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Luiz Fernando Lunardello<\/p>\n<p>Os cr\u00edticos de Marx o acusaram de impor um modelo europeu de desenvolvimento hist\u00f3rico ao resto do mundo. Mas o verdadeiro Marx rejeitou o pensamento euroc\u00eantrico e desenvolveu uma vis\u00e3o sofisticada da hist\u00f3ria mundial, com toda a sua diversidade e complexidade.<\/p>\n<p>Apesar de um renascimento do interesse em sua cr\u00edtica ao capitalismo, os ataques a Karl Marx continuam vindo de m\u00faltiplas dire\u00e7\u00f5es. Ainda que diversos, compartilham a implica\u00e7\u00e3o de que o marxismo est\u00e1 morto, ultrapassado, superado por teorias e eventos mais recentes. Mas se o marxismo est\u00e1 de fato morto, por que seus cr\u00edticos sentem a necessidade de insistir nisso, de \u201cprovar\u201d seu ponto repetidamente?<\/p>\n<p>A verdadeira resposta \u00e9 \u00f3bvia. O marxismo nunca morreu completamente, embora tenha declinado, sido declarado morto e depois revivido v\u00e1rias vezes nos \u00faltimos cento e cinquenta anos. Da\u00ed a necessidade que os cr\u00edticos de Marx sentem em continuar tentando enterr\u00e1-lo, at\u00e9 agora sem sucesso.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Edward Said<\/p>\n<p>A perspectiva liberal padr\u00e3o sustenta que o socialismo marxista leva ao totalitarismo e, eventualmente, ao colapso econ\u00f4mico. Em suma, \u201cexperimentos\u201d marxistas \u2013 vide a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 s\u00e3o perigosos e devemos nos ater \u00e0 alternativa mais vi\u00e1vel, o capitalismo liberal. No entanto, como consequ\u00eancia da Grande Recess\u00e3o e do crescimento de fortes tend\u00eancias fascistas na era Donald Trump, d\u00favidas crescentes sobre o futuro do capitalismo e da democracia liberal enfraqueceram os fundamentos de tais argumentos.<\/p>\n<p>Uma acusa\u00e7\u00e3o mais amplamente divulgada, dirigida a Marx, especialmente entre intelectuais e acad\u00eamicos progressistas, centrou-se na no\u00e7\u00e3o de que Marx era um eurocentrista \u2013 um pensador do s\u00e9culo XIX fora de sintonia com as sensibilidades multirraciais e anticoloniais do s\u00e9culo XXI. Essa linha de cr\u00edtica ganhou ampla aceita\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a repercuss\u00e3o da obra Orientalismo: O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente de Edward Said (1978).<\/p>\n<p>Said encontrou duas grandes falhas em Marx. Primeiro, ele teria aderido a uma grande narrativa ou s\u00e9rie unilinear de est\u00e1gios de desenvolvimento social e econ\u00f4mico. De acordo com essa perspectiva, Marx utilizou esse modelo unilinear, baseado na hist\u00f3ria da Europa Ocidental, sem justificativa real para analisar e medir sociedades n\u00e3o capitalistas fora daquela regi\u00e3o. Em segundo lugar, Said acusou Marx de etnocentrismo, e at\u00e9 mesmo de racismo, em seus retratos de sociedades n\u00e3o-ocidentais.<\/p>\n<p>Como parte da primeira cr\u00edtica, Said escreveu que, para Marx, o imperialismo europeu era parte da marcha sempre em frente da \u201cnecessidade hist\u00f3rica\u201d, que resultaria em progresso futuro para toda a humanidade. Como Said observou, os escritos de Marx de 1853 sobre a \u00cdndia no New York Tribune mostram um surpreendente grau de apoio ao colonialismo brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>Marx descreveu os brit\u00e2nicos como sendo \u201csuperiores e, por conseguinte, inacess\u00edveis \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o indiana\u201d, enquanto retratava a \u00cdndia como uma sociedade est\u00e1tica incapaz, at\u00e9 mesmo de resistir ao imperialismo. Said assim caracterizava a posi\u00e7\u00e3o de Marx: \u201cMesmo destruindo a \u00c1sia, a Gr\u00e3-Bretanha estava tornando poss\u00edvel uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>Talvez o exemplo mais flagrante do tipo de problema que Said est\u00e1 destacando ocorra n\u00e3o nos escritos de 1853 sobre a \u00cdndia, mas cinco anos antes, no Manifesto Comunista (1848). Aqui, Marx e Engels pareciam elogiar a penetra\u00e7\u00e3o imperialista na China:<\/p>\n<p>A burguesia, pelo r\u00e1pido aperfei\u00e7oamento de todos os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o imensamente facilitados, atrai todos, at\u00e9 mesmo as na\u00e7\u00f5es mais b\u00e1rbaras, para a civiliza\u00e7\u00e3o. Os pre\u00e7os baratos de suas mercadorias s\u00e3o a artilharia pesada com a qual derruba todas as muralhas chinesas, for\u00e7a-os a abdicar de seu \u00f3dio intensamente obstinado contra estrangeiros. Ela obriga todas as na\u00e7\u00f5es, sob pena de extin\u00e7\u00e3o, a adotar o modo de produ\u00e7\u00e3o burgu\u00eas; a introduzir no seu meio o que chama de civiliza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a tornarem-se eles pr\u00f3prios burgueses.<\/p>\n<p>Aqui, no Manifesto, Marx n\u00e3o apenas parecia celebrar o \u201cprogresso\u201d trazido pelo colonialismo, mas tamb\u00e9m diminu\u00eda os chineses chamando-os de \u201cb\u00e1rbaros\u201d. Esse tipo de linguagem se conecta \u00e0 segunda cr\u00edtica de Said, a acusa\u00e7\u00e3o de etnocentrismo.<\/p>\n<p>Said o colocava na companhia de pensadores da Europa Ocidental, \u201cabrangendo de [Ernest] Renan a Marx\u201d, que haviam desenvolvido um \u201csistema de verdades, no sentido Nietzschiano da palavra\u201d:<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, correto que todo europeu, em suas afirma\u00e7\u00f5es sobre o Oriente, fosse consequentemente um racista, um imperialista e quase totalmente etnoc\u00eantrico.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Marx<\/p>\n<p>Esses argumentos s\u00e3o v\u00e1lidos? Marx era realmente um eurocentrista neste duplo sentido do termo: tanto um te\u00f3rico que construiu uma grande narrativa abstrata que subsumia a hist\u00f3ria e a cultura do mundo \u00e0 da Europa Ocidental, quanto um etnocentrista com uma atitude condescendente (ou pior) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades fora da Europa Ocidental?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o \u00e9 nada simples. Em contraste com alguns marxistas, acho que, embora essas afirma\u00e7\u00f5es sejam exageradas, precisamos reconhecer sua validade parcial, pelo menos quando se trata dos primeiros escritos de Marx sobre sociedades n\u00e3o ocidentais, de 1848 a 1853. A no\u00e7\u00e3o de um Marx euroc\u00eantrico n\u00e3o se sustenta quando se examina a totalidade de seus escritos, no per\u00edodo de 1841 a 1883, pois ele foi, acima de tudo, um pensador que continuou a retrabalhar e desenvolver seu aparato conceitual.<\/p>\n<p>\u201cA no\u00e7\u00e3o de um Marx euroc\u00eantrico n\u00e3o se sustenta quando se examina a totalidade de seus escritos, no per\u00edodo de 1841 a 1883.\u201d<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o que hoje chamamos de eurocentrismo e etnocentrismo dificilmente s\u00e3o as \u00fanicas nuances de Marx, mesmo em seus primeiros escritos sobre a \u00cdndia e a China. Por exemplo, os escritos problem\u00e1ticos de 1853 sobre a \u00cdndia tamb\u00e9m continham passagens como esta:<\/p>\n<p>Os indianos n\u00e3o colher\u00e3o os frutos dos novos elementos da sociedade espalhados entre eles pela burguesia brit\u00e2nica, at\u00e9 que na pr\u00f3pria Gr\u00e3-Bretanha as classes agora dominantes tenham sido suplantadas pelo proletariado industrial, ou at\u00e9 que os pr\u00f3prios hindus tenham se tornado fortes o suficiente para se livrarem do jugo ingl\u00eas por completo. De qualquer forma, podemos com certeza esperar por ver, em um per\u00edodo mais ou menos remoto, a regenera\u00e7\u00e3o daquela grande e interessante na\u00e7\u00e3o, cujos gentis nativos\u2026 surpreenderam os oficiais brit\u00e2nicos por sua bravura, cujo pa\u00eds tem sido a fonte de nossas l\u00ednguas, de nossas religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Aqui, Marx n\u00e3o apenas expressou grande apre\u00e7o pela cultura e civiliza\u00e7\u00e3o indianas, mas tamb\u00e9m se destacou como um raro defensor europeu da independ\u00eancia indiana neste per\u00edodo.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as perspectivas de Marx sobre a \u00cdndia e a China sofreram uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel em 1856-58, em resposta \u00e0 resist\u00eancia massiva que essas sociedades estavam apresentando contra o imperialismo brit\u00e2nico. Em artigos para o Tribune que raramente s\u00e3o discutidos, Marx se concentrou n\u00e3o no \u201catraso\u201d asi\u00e1tico, mas na brutalidade colonial da Segunda Guerra do \u00d3pio da Gr\u00e3-Bretanha contra a China \u2013 uma vis\u00e3o expressa aqui em um artigo para esse mesmo jornal, de 1856:<\/p>\n<p>Os cidad\u00e3os inofensivos e comerciantes pac\u00edficos de Cant\u00e3o foram massacrados, suas habita\u00e7\u00f5es destru\u00eddas, o discurso de humanidade violado\u2026 os chineses t\u00eam pelo menos noventa e nove ferimentos sobre os quais reclamar, contra apenas um por parte dos ingleses.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 Revolta dos Cipaios na \u00cdndia, que eclodiu em 1857, Marx novamente apoiou os rebeldes indianos contra os brit\u00e2nicos no Tribune. Em uma carta de 1858 a Engels, ele tamb\u00e9m os chamou de \u201cnossos melhores aliados\u201d em um momento em que a classe trabalhadora europeia entrou em um per\u00edodo de quietude.<\/p>\n<p>Terceiro, a no\u00e7\u00e3o de Marx de est\u00e1gios de desenvolvimento hist\u00f3rico tamb\u00e9m passou por uma mudan\u00e7a importante no final da d\u00e9cada de 1850. Em A Ideologia Alem\u00e3 de 1846, Engels e Marx apresentaram uma teoria dos est\u00e1gios socioecon\u00f4micos, o que mais tarde chamaram de modos de produ\u00e7\u00e3o: sociedades de cl\u00e3s sem Estado, as sociedades escravistas da Gr\u00e9cia e de Roma e o feudalismo servil da Europa Ocidental medieval, seguido pelo capitalismo com seu regime de trabalho assalariado formalmente livre e, finalmente, projetando no futuro, um comunismo moderno baseado no \u201ctrabalho livre e associado\u201d. Em suma, estes s\u00e3o os modos de produ\u00e7\u00e3o divididos em \u201cprimitivos\u201d \u2013 escravos \u2013 feudais \u2013 burgueses \u2013 socialistas.<\/p>\n<p>Em 1857-58, no entanto, escrevendo os Grundrisse, Marx expandiu essa estrutura, introduzindo ao lado dos sistemas greco-romano e feudal da Europa um modo de produ\u00e7\u00e3o asi\u00e1tico (MPA), que ele conectou especialmente aos imp\u00e9rios agr\u00e1rios pr\u00e9-coloniais da \u00cdndia, China, e Oriente M\u00e9dio. Marx tamb\u00e9m mencionou essa estrutura expandida em O Capital, onde escreveu sobre os \u201cmodos de produ\u00e7\u00e3o burgueses asi\u00e1ticos, antigos, feudais e modernos\u201d.<\/p>\n<p>Podemos ver a MPA como uma contrapartida das sociedades greco-romana e feudal. Nunca desenvolvido em detalhes, o conceito \u00e9 importante principalmente como uma indica\u00e7\u00e3o de que Marx n\u00e3o estava tentando abarcar toda a hist\u00f3ria humana na trajet\u00f3ria escravid\u00e3o-feudalismo-capitalismo. Infelizmente, a maioria dos seguidores de Marx \u2013 especialmente na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 insistiu em colocar, na mesma caixa do feudalismo, as sociedades de classe pr\u00e9-capitalistas fora da Europa Ocidental, incluindo imp\u00e9rios agr\u00e1rios bastante centralizados e com importantes centros urbanos.<\/p>\n<p>Uma teoria, n\u00e3o uma chave mestra<\/p>\n<p>Esses tipos de quest\u00f5es haviam se tornado centrais para os \u00faltimos escritos de Marx, de 1877-82, um per\u00edodo em que ele leu obras de antropologia e hist\u00f3ria social em uma ampla variedade de sociedades agr\u00e1rias e pastoris fora da Europa Ocidental, da \u00cdndia \u00e0 Am\u00e9rica Latina e da R\u00fassia para o norte da \u00c1frica. A essa altura, ele havia aprendido russo para sondar a estrutura social daquele pa\u00eds, de onde, para sua grande surpresa, veio a primeira tradu\u00e7\u00e3o completa de O Capital, em 1872.<\/p>\n<p>Grande parte das notas de pesquisa de Marx desse per\u00edodo, principalmente sobre a \u00cdndia, foram publicadas, e outros textos est\u00e3o sendo preparados para isso. Marx tamb\u00e9m escreveu duas cartas conceitualmente significativas sobre uma dessas sociedades agr\u00e1rias, a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, a R\u00fassia ainda era marcada por uma estrutura social predominantemente agr\u00e1ria baseada, no n\u00edvel local, em comunas alde\u00e3s. Essas comunas, embora sob o controle de uma monarquia desp\u00f3tica enraizada nas classes latifundi\u00e1rias, possu\u00edam um grau de propriedade coletiva e arranjos de trabalho que eram inconsistentes com os arranjos sociais mais individualizados do feudalismo da Europa Ocidental.<\/p>\n<p>Marx levantou duas quest\u00f5es significativas nessas cartas. Primeiro, a R\u00fassia estava destinada a seguir o caminho de desenvolvimento da Europa Ocidental? Em segundo lugar, essas comunas alde\u00e3s tinham algum potencial revolucion\u00e1rio e anticapitalista, ou seus habitantes teriam primeiro que ser desapropriados de suas terras para formar um proletariado industrial composto de trabalhadores assalariados em um processo que Marx chamou de \u201cacumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital\u201d?<\/p>\n<p>Muitos estudiosos tamb\u00e9m conclu\u00edram que ele via essas rumina\u00e7\u00f5es sobre a R\u00fassia como conectadas a outras sociedades agr\u00e1rias que ele estava estudando em seus \u00faltimos anos no Sul Global. Em uma carta de 1877, dirigida a intelectuais radicais russos, Marx negou veementemente que tivesse criado uma teoria geral e trans-hist\u00f3rica do desenvolvimento social:<\/p>\n<p>Assim, eventos de not\u00e1vel semelhan\u00e7a, ocorridos em diferentes contextos hist\u00f3ricos, levaram a resultados totalmente d\u00edspares. Estudando cada um desses desenvolvimentos separadamente, pode-se facilmente descobrir a chave desse fen\u00f4meno, mas isso nunca ser\u00e1 alcan\u00e7ado com a chave mestra de uma teoria hist\u00f3rico-filos\u00f3fica geral, cuja suprema virtude consiste em ser supra-hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Aqui, Marx parecia negar, muito antes das cr\u00edticas que lhe foram feitas, a acusa\u00e7\u00e3o que ele criara uma \u201cgrande narrativa\u201d euroc\u00eantrica.<\/p>\n<p>A via Russa<\/p>\n<p>O contexto imediato dessas discuss\u00f5es era a quest\u00e3o de saber, da mesma forma que os pr\u00f3prios intelectuais russos se perguntavam, se sua sociedade estava \u201cinevitavelmente\u201d destinada a seguir o caminho da Europa Ocidental se quisesse progredir. Sobre este ponto, Marx escreve em uma carta de 1881 \u00e0 revolucion\u00e1ria russa Vera Zasulich:<\/p>\n<p>Ao analisar a g\u00eanese da produ\u00e7\u00e3o capitalista, digo: \u201cNo centro do sistema capitalista, portanto, est\u00e1 a completa separa\u00e7\u00e3o do produtor dos meios de produ\u00e7\u00e3o\u2026 a base de todo esse desenvolvimento \u00e9 a expropria\u00e7\u00e3o dos lavradores. At\u00e9 agora, isso foi realizado de maneira radical apenas na Inglaterra\u2026 mas todos os outros pa\u00edses da Europa Ocidental est\u00e3o passando pelo mesmo desenvolvimento\u201d (O Capital, ed. francesa, p. 315). Assim, a \u201cinevitabilidade hist\u00f3rica\u201d deste processo est\u00e1 expressamente limitada aos pa\u00edses da Europa Ocidental.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Marx estava negando ter criado um modelo unilinear de desenvolvimento social baseado na trajet\u00f3ria da Europa Ocidental. Nesse contexto, tamb\u00e9m devemos notar que em suas notas de pesquisa sobre a \u00cdndia nesse per\u00edodo, ele atacou explicitamente a vis\u00e3o de que a \u00cdndia pr\u00e9-colonial era uma sociedade feudal.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, Marx tamb\u00e9m se interessou nas contradi\u00e7\u00f5es sociais dentro da sociedade russa, onde um importante movimento revolucion\u00e1rio j\u00e1 havia se desenvolvido. Ele n\u00e3o apenas negou a seus interlocutores russos que suas teorias mostravam que comunas alde\u00e3s deveriam ser \u201cinevitavelmente\u201d destru\u00eddas em um processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva ao estilo ocidental. Ele tamb\u00e9m via essas aldeias como a base social para um novo tipo de movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esse movimento seria paralelo, mas n\u00e3o seguido, ao da classe trabalhadora europeia, como ele e Engels escreveram no pref\u00e1cio de uma edi\u00e7\u00e3o russa de 1882 do Manifesto:<\/p>\n<p>Se a Revolu\u00e7\u00e3o Russa se tornar o sinal para uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria no Ocidente, de modo que as duas se complementem, a atual propriedade comum russa da terra pode servir como ponto de partida para o desenvolvimento do comunismo.<\/p>\n<p>Aqui, Marx estava apresentando um conceito multilinear de revolu\u00e7\u00e3o, em que as comunas alde\u00e3s da R\u00fassia poderiam se tornar um importante aliado das classes trabalhadoras industriais da Europa Ocidental. Mas ele foi ainda mais longe, argumentando que uma revolta camponesa desse tipo na periferia do capitalismo poderia vir primeiro, como o \u201cponto de partida\u201d que poderia desencadear um movimento revolucion\u00e1rio em toda a Europa.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Marx nunca defendeu uma autarquia socialista agr\u00e1ria. Ele acreditava que, desprovida de v\u00ednculos com pa\u00edses mais desenvolvidos, uma revolu\u00e7\u00e3o camponesa na R\u00fassia n\u00e3o poderia, por si s\u00f3, levar a uma forma vi\u00e1vel de comunismo moderno. Em vez disso, ele estava defendendo uma revolu\u00e7\u00e3o global contra um sistema global de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, o capitalismo.<\/p>\n<p>Um Marx para os nossos tempos<\/p>\n<p>Dessa forma, o Marx Tardio afastou-se de qualquer tipo de teoria unilinear do desenvolvimento baseada na Europa Ocidental e na qual o resto do mundo tinha que estar conceitualmente preso. Longe de evidenciar uma atitude condescendente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades na periferia do capitalismo, esses \u00faltimos escritos exibiam exatamente o oposto: uma teoriza\u00e7\u00e3o de seu potencial revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Argumentos como os apresentados neste ensaio j\u00e1 estavam sendo vistos na \u00e9poca em que a cr\u00edtica de Edward Said estava ganhando asas. Em Rosa Luxemburg, Women\u2019s Liberation, e Marx\u2019s Philosophy of Revolution (1981), de minha mentora Raya Dunayevskaya, e em Marx Tardio e a via Russa (1983), de Teodor Shanin, a no\u00e7\u00e3o de um Marx que desenvolveu uma perspectiva multilinear e verdadeiramente global sobre a sociedade e a revolu\u00e7\u00e3o, inclusive de g\u00eanero, vieram \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Essas interpreta\u00e7\u00f5es de Marx n\u00e3o receberam muita aten\u00e7\u00e3o em um per\u00edodo de neoliberalismo, p\u00f3s-estruturalismo, p\u00f3s-modernismo e pronunciamentos de uma suposta \u201cmorte\u201d do marxismo. Mas nos anos que se seguiram, as respostas marxistas ao argumento de Edward Said em Orientalismo surgiram, mais notavelmente na obra In Theory (1992) do falecido Aijaz Ahmad e em Marxism, Orientalism, Cosmopolitanism (2013) de Gilbert Achcar. As discuss\u00f5es sobre o Marx Tardio tamb\u00e9m se desenvolveram lentamente, de autores como Heather Brown, Marcello Musto e David Norman Smith, bem como meu pr\u00f3prio livro, Marx at the Margins. Com o retorno a Marx nos \u00faltimos anos, espero que tais perspectivas possam ter encontrado seu momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobre o autor<\/p>\n<p>Kevin B. Anderson &#8211; \u00e9 professor de sociologia, ci\u00eancia pol\u00edtica e estudos feministas da Universidade da Calif\u00f3rnia (Santa B\u00e1rbara). \u00c9 autor de Marx nas Margens: nacionalismo, etnia e sociedades n\u00e3o ocidentais, a ser publicado este ano pela Editora Boitempo, bem como diversos livros e artigos sobre teoria pol\u00edtica e social, com especializa\u00e7\u00e3o em Marx, Hegel, Escola de Frankfurt, Foucault e o debate sobre o orientalismo. \u00c9 tamb\u00e9m um dos colaboradores da MEGA (Marx-Engels Gesamtausgabe), onde contribui para a edi\u00e7\u00e3o de um volume sobre g\u00eanero e sociedades n\u00e3o ocidentais e pr\u00e9-capitalistas.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"GfUGIPTJZq\"><p><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/12\/nao-karl-marx-nao-era-eurocentrico\/\">N\u00e3o, Karl Marx n\u00e3o era euroc\u00eantrico<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;N\u00e3o, Karl Marx n\u00e3o era euroc\u00eantrico&#8221; &#8212; Jacobin Brasil\" src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/12\/nao-karl-marx-nao-era-eurocentrico\/embed\/#?secret=gzDP2t5Tcr#?secret=GfUGIPTJZq\" data-secret=\"GfUGIPTJZq\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29617\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[10,104],"tags":[227],"class_list":["post-29617","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s19-opiniao","category-c117-outras-opinioes","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7HH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29617"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29617\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}