{"id":29676,"date":"2022-12-26T07:03:52","date_gmt":"2022-12-26T10:03:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29676"},"modified":"2022-12-26T07:03:52","modified_gmt":"2022-12-26T10:03:52","slug":"capitaes-de-areia-o-filme-que-foi-salvo-pelos-sovieticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29676","title":{"rendered":"&#8220;Capit\u00e3es de Areia&#8221;: o filme que foi salvo pelos sovi\u00e9ticos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-2022-12-26T070024.941.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por MARIA AZ\u00c1LINA, via <\/strong><a href=\"https:\/\/patrialatina.com.br\/o-filme-norte-americano-baseado-em-uma-obra-de-jorge-amado-que-os-sovieticos-salvaram-da-destruicao\/\"><strong>P\u00e1tria Latina<\/strong><\/a><\/p>\n<p><em>O filme estadunidense baseado em uma obra de Jorge Amado que os sovi\u00e9ticos salvaram da destrui\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>[Imagem: cena do filme &#8220;Capit\u00e3es de Areia&#8221; de Hall Bartlet, <em>The Sandpit Generals<\/em>, 1971 \/ Hall Bartlett Productions]<\/p>\n<p>Em 1971, uma adapta\u00e7\u00e3o para o cinema de \u2018Capit\u00e3es da Areia\u2019 esteve entre as produ\u00e7\u00f5es concorrendo no Festival Internacional de Cinema de Moscou. Apesar de n\u00e3o vencer a premia\u00e7\u00e3o, foi a c\u00f3pia do filme ali utilizada a \u00fanica remanescente, e seu sucesso contribuiu para sua preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1971, concorreu \u00e0 premia\u00e7\u00e3o do 7\u00b0 Festival Internacional de Cinema de Moscou um filme independente, intitulado \u201cThe Sandpit Generals\u201d (mas que foi distribu\u00eddo \u00e0 \u00e9poca pela American International Pictures tamb\u00e9m sob o t\u00edtulo \u201cThe Wild Pack\u201d e relan\u00e7ado, em 1975, provavelmente pelo pr\u00f3prio diretor, como \u201cThe Defiant\u201d). E, apesar de n\u00e3o levar nenhum pr\u00eamio, foi justamente a participa\u00e7\u00e3o neste evento que garantiu a sobreviv\u00eancia da pel\u00edcula.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o, uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica da obra \u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d, de Jorge Amado, tamb\u00e9m tinha de tudo para n\u00e3o ter participado do festival, j\u00e1 que, ainda em abril de 1971, o Departamento de Estado dos EUA declarou que boicotaria o evento e n\u00e3o credenciaria qualquer delega\u00e7\u00e3o para visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m, uma pequena empresa concordou em conceder o filme. Ele mesmo n\u00e3o recebeu nenhum pr\u00eamio no festival, mas concorreu. Depois de dois anos, o filme entrou no circuito e tanto para o governo como para o p\u00fablico, isso foi muito bom\u201d, disse o cr\u00edtico de cinema Sergu\u00eai Lavrentiev em um epis\u00f3dio do talk-show \u201cZakriti pokaz\u201d (do russo, \u201cExibi\u00e7\u00e3o Fechada\u201d), em 2019, no Primeiro Canal estatal.<\/p>\n<p>Acontece que o filme se tornou um hit na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com uma bilheteria de mais de 40 milh\u00f5es de espectadores. Mas, em 1997, quando o Primeiro Canal quis transmiti-lo na TV pela primeira vez, descobriu que n\u00e3o seria t\u00e3o simples assim.<\/p>\n<p>\u201cPedimos \u00e0 Columbia Pictures, mas descobrimos que ela n\u00e3o tinha c\u00f3pias do filme, e nem mesmo a Biblioteca do Congresso respondeu nada de muito concreto sobre os direitos dele\u201d, contou na \u00e9poca, em entrevista \u00e0 TV Konstantin Ernst, diretor-geral do canal.<\/p>\n<p>Em junho daquele ano, enquanto rodava Los Angeles atr\u00e1s de aquisi\u00e7\u00f5es, Ernst acabou encontrando o livro de um produtor cuja fam\u00edlia era da cidade de Gomel (atualmente, na Bielorr\u00fassia) e que tinha feito centenas de t\u00edtulos \u2014 e, coincidentemente, aquele tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cEu o procurei na lista telef\u00f4nica ali mesmo, na loja, o encontrei no dia seguinte e ent\u00e3o ele me contou que o filme foi um verdadeiro fracasso nos EUA e, por isso, ele n\u00e3o pagou o diretor, mas como forma de recompens\u00e1-lo, lhe deu os direitos sobre o filme\u201d, contou Ernst. O diretor Hall Bartlet (1922-1993) tinha morrido havia alguns anos, e os direitos do filme passaram \u00e0 fam\u00edlia. Assim, depois de contat\u00e1-la, Ernst finalmente conseguiu transmiti-lo na TV russa.<\/p>\n<p>Gosfilmfond entra em a\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2019, quando o t\u00edtulo foi exibido na \u00edntegra no talk-show \u201cZakriti pokaz\u201d, do Primeiro Canal, o apresentador Aleksandr Gordon contou em detalhes sobre a c\u00f3pia restaurada que exibia ali, com direito a uma ampla discuss\u00e3o adicional de mais de uma hora.<\/p>\n<p>\u201cQuando decidimos transmitir o t\u00edtulo, o [\u00f3rg\u00e3o estatal russo de preserva\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica] Gosfilmfond tinha uma \u00fanica c\u00f3pia do filme, que ficou guardada por 50 anos, em \u00f3timas condi\u00e7\u00f5es de armazenamento \u2014 por\u00e9m, sem possibilidade de ser exibida. Ent\u00e3o come\u00e7aram a restaur\u00e1-la manualmente, quadro por quadro, e depois coloristas e t\u00e9cnicos lhe conferiram as mesmas condi\u00e7\u00f5es em que os espectadores do festival de Moscou a viram\u201d, explicou.<\/p>\n<p>O cinegrafista argentino Ricardo Aronovich, que participou da equipe de \u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d e tamb\u00e9m do talk show de Gordon nota, por\u00e9m, que a c\u00f3pia deixa de fora partes dos quadros que ele mesmo filmou: \u201cQuando voc\u00ea olha para o filme hoje, s\u00f3 v\u00ea metade da tela, porque filmamos em CinemaScope, formato 1 por 2,15. Isso me faz pensar que a c\u00f3pia n\u00e3o foi feita a partir de c\u00f3pias digitais, sequer de DVD, mas de VHS.\u201d<\/p>\n<p>E, realmente, as c\u00f3pias que chegavam \u00e0 URSS tinham formato anam\u00f3rfico e, quando as exibiam ali, as ajustavam para o formato local de tela grande, deixando de fora do quadro parte da imagem. De qualquer maneira, foi o sucesso alcan\u00e7ado pela pel\u00edcula que a salvou da extin\u00e7\u00e3o na URSS e, posteriormente, na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Sucesso sovi\u00e9tico e al\u00e9m<\/p>\n<p>\u201cOs anos 1970 foram terr\u00edveis para o cinema e marcados por uma censura muito vigilante. Depois da Primavera de Praga, passou-se a ver em tudo um revisionismo tcheco e lutava-se contra isso. Assim, s\u00f3 entravam cinco filmes estadunidenses ao ano no circuito do pa\u00eds: sobre o cachorro Benji, sobre um le\u00e3o marinho ou outros animais incr\u00edveis. Alguns outros filmes estreavam, mas com enorme atraso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u2018Capit\u00e3es da Areia\u2019 foi bom para o governo e para os espectadores. Para o governo, porque era baseado no romance de um autor comunista, popular entre n\u00f3s e altamente propagandeado, Jorge Amado. Um filme sobre crian\u00e7as abandonadas sob o amaldi\u00e7oado sistema capitalista. J\u00e1 para o povo, se tratava de um melodrama, com os mais incr\u00edveis e belos jovens her\u00f3is, que dava prazer de olhar\u201d, diz o cr\u00edtico Sergu\u00eai Lavrentiev.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar, por\u00e9m, que a produ\u00e7\u00e3o estadunidense rodada na Bahia usou alguns atores locais, mas os protagonistas eram interpretados por dois jovens loiros de olhos claros, em uma clara decis\u00e3o eug\u00eanica que \u00e9 atacada pelo pr\u00f3prio cinegrafista Ricardo Aronovich. \u201cAqueles olhos azuis, \u00e9 isso o que me incomoda\u201d, diz ele no talk show do Primeiro Canal. As cenas de nudez tamb\u00e9m tiveram repercuss\u00e3o entre os jovens e influ\u00eancia sobre a bilheteria, e muitos atribuem a elas o sucesso do filme.<\/p>\n<p>Mas um fator ineg\u00e1vel para seu \u00eaxito foi a trilha sonora, com m\u00fasica do baiano Dorival Caymmi. Com \u201cCapit\u00e3es de Areia\u201d, sua Su\u00edte do Pescador ficou t\u00e3o famosa que gerou uma infinidade de vers\u00f5es em russo, como escreve a pesquisadora Marina Darmaros em um artigo acad\u00eamico do peri\u00f3dico Tradu\u00e7\u00e3o em Revista, da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro, em que discorre sobre essa infinidade de \u201ctextos de substitui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA letra vertida ao russo [na vers\u00e3o mais disseminada, gravada pelo grupo Nestch\u00e1stni sl\u00fatchai, em 1998] n\u00e3o tem qualquer liga\u00e7\u00e3o com o texto de Caymmi em portugu\u00eas e, ao inv\u00e9s de um pescador colocando a jangada no mar e partindo para o trabalho, a can\u00e7\u00e3o russa discorre sobre meninos de rua\u201d, escreve Darmaros.<\/p>\n<p>A pesquisadora tamb\u00e9m localizou e traduziu um trecho autobiogr\u00e1fico do presidente russo Vladimir Putin que reitera o sucesso sovi\u00e9tico do filme \u00e0 \u00e9poca: \u201cNos primeiros anos de escola, n\u00e3o me aceitaram entre os pioneiros [movimento equivalente ao dos escoteiros na URSS]. Afinal, criei-me no p\u00e1tio [dos pr\u00e9dios], onde a autoafirma\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a se manifesta de maneira completamente diversa. Viver no p\u00e1tio e criar-se nele \u00e9 o equivalente a viver na selva. \u00c9 muito parecido. Muito! No p\u00e1tio, a vida \u00e9 livre. A vida da rua \u00e9, em si mesma, muito livre. Exatamente como no filme \u2018Capit\u00e3es da Areia\u2019. Para a gente, era o mesmo. A diferen\u00e7a estava, talvez, apenas nas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Em \u2018Capit\u00e3es\u2019 era mais quente, e l\u00e1 a garotada se reunia na praia. Mas, de resto, o que acontecia com eles e com a gente era absolutamente a mesma coisa.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29676\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"O filme estadunidense baseado em uma obra de Jorge Amado que os sovi\u00e9ticos salvaram da destrui\u00e7\u00e3o.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-29676","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7IE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29676\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}