{"id":29681,"date":"2022-12-27T16:18:10","date_gmt":"2022-12-27T19:18:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29681"},"modified":"2022-12-27T16:19:50","modified_gmt":"2022-12-27T19:19:50","slug":"astrojildo-pereira-o-maior-homem-de-sua-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29681","title":{"rendered":"Astrojildo Pereira: o maior homem de sua terra"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2022\/07\/astrojildo-3.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>R\u00f4mulo Caires<\/strong><\/p>\n<p>Jornal O MOMENTO &#8211; PCB da Bahia<\/p>\n<p>\u201cNaquele momento, o seu cora\u00e7\u00e3o bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo \u2014 no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.\u201d<br \/>\n(Euclides da Cunha em \u2018A \u00faltima visita\u2019)<\/p>\n<p>Assim Euclides da Cunha escrevia sobre a famosa visita de Astrojildo Pereira a Machado de Assis, durante os momentos finais da vida do grande escritor brasileiro. Era 1908, tempo de Primeira Rep\u00fablica, poucos anos antes da grande campanha civilista pela elei\u00e7\u00e3o de Rui Barbosa contra o militar Hermes da Fonseca. Machado estava em seu leito de morte, tinha diante de si aquelas poucas pessoas que compunham seu c\u00edrculo \u00edntimo, inclusos nomes como o do escritor carioca Coelho Netto. Astrojildo, ent\u00e3o um jovem de 18 anos, entrou de repente, n\u00e3o quis se identificar, beijou a m\u00e3o de Machado, levantou-se e foi embora. O gesto marcaria a personalidade modesta de Astrojildo e ao mesmo tempo eternizaria o seu profundo humanismo e admira\u00e7\u00e3o pelas letras brasileiras.<\/p>\n<p>Astrojildo Pereira Duarte Silva nasceu em 1890 em Rio Bonito, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Posteriormente mudou-se para Niter\u00f3i, passou alguns anos em col\u00e9gio aristocr\u00e1tico at\u00e9 a decis\u00e3o de largar a escola e romper com antigos la\u00e7os. O autodidatismo marcar\u00e1 sua trajet\u00f3ria, fato que n\u00e3o era incomum aos intelectuais do per\u00edodo. Foi oper\u00e1rio gr\u00e1fico e depois jornalista. Em 1911 fez viagem pela Europa e se introduziu nos c\u00edrculos anarquistas. A derrota de Rui Barbosa em 1910 calou fundo em Astrojildo, mas seu \u00edmpeto de luta s\u00f3 aumentou e por isso decidiu-se pelo anarquismo.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o Astrojildo tornou-se figura destacada no movimento oper\u00e1rio, escrevendo para diversos jornais anarquistas, participando das crescentes greves e sendo importante organizador das lutas sindicais. O refluxo do anarcossindicalismo e a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 funcionaram como um novo marco na vida de Astrojildo, que se juntaria a outros combatentes destacados para fundar o Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922. No mesmo ano assistir\u00edamos em S\u00e3o Paulo \u00e0 Semana de Arte Moderna, contradit\u00f3rio movimento, mas que, em conjunto aos outros acontecimentos do per\u00edodo, sinalizava para uma nova \u00e9poca no Brasil e no mundo.<\/p>\n<p>Por cerca de 8 anos Astrojildo ser\u00e1 secret\u00e1rio-geral do PCB e guiar\u00e1 o partido na constru\u00e7\u00e3o de seus quadros partid\u00e1rios, na dedica\u00e7\u00e3o cada vez maior ao estudo da realidade nacional e ser\u00e1 decisivo na amplia\u00e7\u00e3o do leque de alian\u00e7as do PCB. Grande intelectual que era, Astrojildo foi capaz de absorver as principais contribui\u00e7\u00f5es da Internacional Comunista sem perder de vista as particularidades do Brasil. Com a mais recente republica\u00e7\u00e3o de sua obra, podemos notar claramente o refinamento te\u00f3rico de Astrojildo, sua independ\u00eancia intelectual e sua grande capacidade pol\u00edtica. Definitivamente com Astrojildo n\u00e3o tivemos \u201cderrota da dial\u00e9tica\u201d como quer Leandro Konder.<\/p>\n<p>Em 1931 e com a pat\u00e9tica pol\u00edtica obreirista que invadiu o PCB, Astrojildo foi expulso do partido. Que tipo de partido expulsa Astrojildo Pereira? Que tipo de partido expurga o maior quadro comunista brasileiro dos anos 20, aquele que n\u00e3o s\u00f3 impediu que o partido se transformasse em seita irrelevante como trouxe decisivas contribui\u00e7\u00f5es para o avan\u00e7o da consci\u00eancia de classe no Brasil e para as formula\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista em nosso pa\u00eds? Aquele mesmo que viajou at\u00e9 a Bol\u00edvia para encontrar o Cavaleiro da Esperan\u00e7a e ser decisivo no recrutamento e forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do maior l\u00edder comunista da hist\u00f3ria do Brasil, Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<p>O tempo longe do PCB permitiu a Astrojildo dedica\u00e7\u00e3o integral a outra de suas grandes paix\u00f5es: a literatura. O grande pol\u00edtico era tamb\u00e9m um grande escritor. Releu com afinco a obra de Machado de Assis e produziu aquelas que certamente s\u00e3o das mais not\u00e1veis p\u00e1ginas do acervo cr\u00edtico do Bruxo do Cosme Velho. Mas n\u00e3o s\u00f3 de Machado de Assis viveu Astrojildo. Analisou com precis\u00e3o a g\u00eanese do romance brasileiro a partir de figuras como Joaquim Manoel de Macedo e Manoel Ant\u00f4nio de Almeida, focando na ideia de um estudo dos costumes urbanos.<\/p>\n<p>\u00c9 famosa a pa\u00edx\u00e3o de Astrojildo pelo Rio de Janeiro e na figura de Lima Barreto ele encontrou p\u00e1ginas not\u00e1veis sobre a vida urbana na capital da Rep\u00fablica. Apesar de ter produzido belos textos sobre a vida e a obra do criador de Gonzaga de S\u00e1 \u00e9 de se lamentar que Astrojildo n\u00e3o tenha escrito obra separada tal qual fez com Machado. Quem tamb\u00e9m diz isso \u00e9 Nelson Werneck Sodr\u00e9, que passou a vida cobrando esse livro de Astrojildo. Para o grande historiador, apenas Astrojildo poderia escrever a obra que desmistificasse toda a s\u00e9rie de equ\u00edvocos sobre os escritos de Lima, de quem Astrojildo foi amigo. Para Sodr\u00e9, somente Astrojildo escreveria um livro \u00e0 altura de um dos maiores de nossos romancistas.<\/p>\n<p>Os anos 30 foram bastante dif\u00edceis na vida de Astrojildo. Estar fora do PCB, a quem tanto se dedicou, pesava em seu destino. Mas ele n\u00e3o conseguiu ficar totalmente longe da pol\u00edtica. Participou das lutas antifascistas e escreveu textos clarividentes sobre o Integralismo. No calor do momento, Astrojildo identificava no Integralismo um movimento da Contrarrevolu\u00e7\u00e3o e foi capaz de analisar o movimento de extrema-direita brasileiro sem recorrer a modelos copiados que ignoravam o espec\u00edfico de nossa realidade nacional.<\/p>\n<p>Astrojildo Pereira volta ao PCB nos anos 40, tem participa\u00e7\u00e3o saudada no I Congresso dos Escritores Brasileiros e chega a ser novamente eleito para o Comit\u00ea Central do Partido nos anos de 1960. Seu retorno foi mais focado na constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica cultural que desse conta de nossos enormes desafios. Dirigiu importantes revistas como Literatura e Estudos Sociais, esta \u00faltima revista te\u00f3rica do PCB que aglutinou desde nomes consagrados a jovens intelectuais que teriam seus nomes cada vez mais conhecidos nos anos seguintes. A Ditadura n\u00e3o perdoou Astrojildo, que foi preso ap\u00f3s o Golpe de 64, passando alguns meses no c\u00e1rcere. Muito doente, teve habeas corpus aceito e p\u00f4de passar seus \u00faltimos dias em liberdade.<\/p>\n<p>No ano do centen\u00e1rio do PCB, faz-se fundamental rememorar a vida e a obra do grande homem, escritor, brasileiro e comunista que foi Astrojildo Pereira. Sua mod\u00e9stia, dedica\u00e7\u00e3o, generosidade e coragem ser\u00e3o sempre lembradas por todas e todos aqueles interessados em transformar radicalmente a realidade opressora do capitalismo. Astrojildo era profundamente ligado ao seu pa\u00eds, mas nunca deixou por um segundo de lembrar que a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 internacionalista ou n\u00e3o ser\u00e1. Foi uma das raras figuras que conseguiram unir com grandeza teoria e pr\u00e1tica, a ess\u00eancia do legado marxista. Modesto que era, Astrojildo nunca aceitaria a pecha de \u201cg\u00eanio\u201d. Mas podemos dizer junto com Astrojildo que n\u00e3o \u00e9 meramente uma quest\u00e3o de mod\u00e9stia, pois ele sabia que a emancipa\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 se dar\u00e1 com a emancipa\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>Viva o legado de Astrojildo Pereira!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29681\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,93,13,50,5],"tags":[225],"class_list":["post-29681","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-c106-comemoracoes","category-s14-cultura","category-c61-cultura-revolucionaria","category-s4-pcb","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7IJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29681","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29681"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29681\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}