{"id":29686,"date":"2022-12-28T16:53:31","date_gmt":"2022-12-28T19:53:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29686"},"modified":"2022-12-28T19:06:47","modified_gmt":"2022-12-28T22:06:47","slug":"os-comunistas-o-progressismo-na-america-latina-e-a-transicao-de-governo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29686","title":{"rendered":"Os comunistas, o progressismo na Am\u00e9rica Latina e a transi\u00e7\u00e3o de governo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"29689\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29686\/img-20221228-wa0005\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG-20221228-WA0005.jpg?fit=804%2C588&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"804,588\" data-comments-opened=\"0\" 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mar\u00e7o de 2005 (em seu XIII Congresso), quando rompemos com o primeiro governo socialdemocrata de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, consolidamos a defini\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter socialista da revolu\u00e7\u00e3o brasileira e decidimos adequar a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria segundo os crit\u00e9rios leninistas.<\/p>\n<p>O fato de a condecora\u00e7\u00e3o recordar David Alfaro Siqueiros valoriza importantes aspectos que marcam a milit\u00e2ncia comunista, dentre os quais destacam-se, na vida deste hist\u00f3rico revolucion\u00e1rio mexicano, o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o, agita\u00e7\u00e3o e propaganda entre as massas e sua dedica\u00e7\u00e3o ao internacionalismo prolet\u00e1rio, como volunt\u00e1rio na Guerra Civil Espanhola, em que foi um heroico Comandante de Brigada, conhecido como \u201cEl Coronelazo\u201d.<\/p>\n<p>Um dos mais importantes pintores da hist\u00f3ria, Siqueiros privilegiou expor sua arte nos muros p\u00fablicos acess\u00edveis aos olhares populares, em detrimento da pintura de cavalete.<\/p>\n<p>Marca tamb\u00e9m esta homenagem uma quadra hist\u00f3rica em que nossos dois partidos coincidiram na interpreta\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios marxistas-leninistas, o que os aproximou na valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da Internacional Comunista, na an\u00e1lise da Revolu\u00e7\u00e3o Russa e da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com base no materialismo dial\u00e9tico, no esfor\u00e7o pelo reagrupamento do Movimento Comunista Internacional de orienta\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, na solidariedade internacionalista e no combate ao revisionismo, ao reformismo, \u00e0s ilus\u00f5es sobre o progressismo e o socialismo de mercado e a identifica\u00e7\u00e3o do imperialismo apenas como agressividade militar e n\u00e3o como fen\u00f4meno da era dos monop\u00f3lios.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo, o PCM valorizou com sua presen\u00e7a importantes eventos promovidos pelo PCB, como as comemora\u00e7\u00f5es dos seus 90 anos (2012) e o seu XIV Congresso (2014), em ambos tendo contribu\u00eddo nos debates que tiveram a participa\u00e7\u00e3o de diversos outros partidos comunistas.<\/p>\n<p>O PCB tamb\u00e9m esteve presente no M\u00e9xico em momentos marcantes, em que me coube a honra de represent\u00e1-lo, como no V Congresso do PCM (2014) e no Semin\u00e1rio Internacional por este promovido, em 2019, por ocasi\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es pelos 25 anos de sua reconstru\u00e7\u00e3o, que tematizou o impacto da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS nos partidos comunistas, quando tive a oportunidade de discorrer sobre a Reconstru\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria do PCB.<\/p>\n<p>Levanto aqui algumas hip\u00f3teses para compreendermos as raz\u00f5es da s\u00f3lida aproxima\u00e7\u00e3o que envolveu nossos partidos naquele per\u00edodo e que nos permitiram compartilhar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas comuns nos Encontros Internacionais dos Partidos Comunistas e Oper\u00e1rios (EIPCOs) e apoiar o surgimento da Revista Comunista Internacional, em 2009.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, nossos partidos ousaram ser os primeiros a denunciar o papel do Foro de S\u00e3o Paulo como centro dirigente que articula e orienta as \u201cesquerdas\u201d reformistas latino-americanas, incluindo partidos comunistas, no objetivo principal de chegar ao governo dos seus pa\u00edses pela via eleitoral, ainda que em alian\u00e7a com setores da burguesia, para gerir o capitalismo como se fosse poss\u00edvel humaniz\u00e1-lo e democratiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A meu ver, a principal semelhan\u00e7a que marca a trajet\u00f3ria de nossos partidos nas \u00faltimas d\u00e9cadas e os diferencia em certa medida da maioria dos partidos comunistas de Nuestra America &#8211; que contam com nosso respeito e amizade &#8211; tem a ver com os impactos, em cada um deles, do eurocomunismo, da perestroika e da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS.<\/p>\n<p>Provavelmente, nossos dois partidos foram as maiores v\u00edtimas de revisionistas e oportunistas que, aproveitando-se de hegemonias circunstanciais, promoveram o liquidacionismo que, em momentos distintos, logramos derrotar.<\/p>\n<p>No Partido Comunista do M\u00e9xico este fen\u00f4meno ocorreu de maneira precoce e in\u00e9dita em nosso continente. Ainda em 1981, dez anos portanto antes do fim da URSS, o partido abandonou sua heroica trajet\u00f3ria e optou por seu suic\u00eddio pol\u00edtico e org\u00e2nico, dissolvendo-se em um partido \u201cde esquerda\u201d inspirado no \u201csocialismo democr\u00e1tico\u201d, \u00e0 semelhan\u00e7a do PT (Partido dos Trabalhadores), fundado no Brasil na mesma \u00e9poca.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o do PCM se inicia em 1994, em um momento em que os escombros do Muro de Berlim e sobretudo os da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica j\u00e1 n\u00e3o emba\u00e7avam tanto a vis\u00e3o dos verdadeiros comunistas. No entanto, como era de se esperar, passaram-se alguns anos, como no caso do PCB, para que se formasse uma hegemonia revolucion\u00e1ria no partido mexicano.<br \/>\nIsto se deve a que, nos dois casos, havia tamb\u00e9m entre n\u00f3s aqueles que queriam reviver ou dar sobrevida aos nossos partidos apenas por mera nostalgia ou preserva\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e outros para manter a mesma estrat\u00e9gia, as mesmas t\u00e1ticas e as mesmas formas de organiza\u00e7\u00e3o que os tinham levado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, no caso do PCM, ou \u00e0 beira do precip\u00edcio, no caso do PCB.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Partido Comunista Brasileiro, na d\u00e9cada de 1980, apesar do importante ascenso do movimento oper\u00e1rio e sindical, seguiu, sem identidade pr\u00f3pria em sua pol\u00edtica de frente ampla, a reboque de setores das classes dominantes, na perspectiva de consolidar o que ficou conhecido como \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d e que resultou, no final daquela d\u00e9cada, em um pacto burgu\u00eas, atrav\u00e9s de uma Constituinte que substituiu a forma militar da ditadura burguesa pelo chamado \u201cestado democr\u00e1tico de direito\u201d, mas com a manuten\u00e7\u00e3o, at\u00e9 os dias de hoje, da tutela militar como norma constitucional e da anistia aos torturadores, como ent\u00e3o denunciou corretamente o camarada Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<p>Tendo atuado durante esse per\u00edodo como bombeiro da luta de classes, de forma a evitar que greves e insurg\u00eancias atrapalhassem a \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d &#8211; postura que tornou o partido residual entre o proletariado e os movimentos de massa \u2013 no final de 1991 a maioria oportunista do Comit\u00ea Central aproveitou o impacto dos acontecimentos na URSS para convocar um congresso extraordin\u00e1rio para janeiro de 1992, em que o \u00fanico tema era a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, express\u00e3o que, traduzida em termos pr\u00e1ticos, significava liquidar o PCB e criar um novo partido socialdemocrata e \u201claico\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o reconhecendo o congresso, fraudado pelo direito de voto atribu\u00eddo a n\u00e3o militantes do partido, o nascente Movimento Nacional em Defesa do PCB, conhecido por seu manifesto \u201cFomos, somos e seremos comunistas!\u201d &#8211; uma tend\u00eancia assumida abertamente para travar a luta interna &#8211; realizou nos mesmos dias 25 e 26 de janeiro de 1992, em S\u00e3o Paulo, a Confer\u00eancia Nacional de Reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB, onde centenas de militantes decidem invadir o local onde se realizava a farsa congressual para exigir a palavra de alguns de seus membros e voltar ao local da Confer\u00eancia para manter e reorganizar o partido, aprovar uma Declara\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, eleger o novo Comit\u00ea Central, convocar o X Congresso e dar in\u00edcio ao que definem como sua Reconstru\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Simultaneamente, a poucos metros de dist\u00e2ncia, o congresso fraudulento cria um partido definido politicamente como \u201ccentro democr\u00e1tico\u201d (hoje denominado \u201cCidadania\u201d) e aprova decis\u00f5es que jamais lograram viabilizar, nem pol\u00edtica nem judicialmente, ou seja, a \u201cdissolu\u00e7\u00e3o\u201d do PCB e a \u201cpropriedade\u201d de seu nome, sua hist\u00f3ria, sua sigla e seus s\u00edmbolos.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, tanto o PCM como o PCB foram reconstru\u00eddos em meio a diverg\u00eancias internas na d\u00e9cada de 1990, ap\u00f3s o fim da URSS, e consolidaram posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias nos princ\u00edpios dos anos 2000.<br \/>\nNa maioria dos PCs das Am\u00e9ricas n\u00e3o houve solu\u00e7\u00e3o de continuidade, apesar da perplexidade, das diverg\u00eancias e defec\u00e7\u00f5es que naturalmente aqueles acontecimentos causaram em todo o movimento comunista internacional. Em geral, o reformismo prevaleceu e segue sendo hegem\u00f4nico majoritariamente.<\/p>\n<p>Talvez isso ajude a explicar o fato de que grande parte desses PCs se mantenha ainda presa \u00e0 estrat\u00e9gia baseada em etapas intermedi\u00e1rias entre a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa (ou nacional-libertadora) e a revolu\u00e7\u00e3o socialista, o que os leva a se manterem em um c\u00edrculo vicioso, adiando eternamente a luta pelo socialismo\/comunismo, por conta de sucessivas op\u00e7\u00f5es pelo \u201cmal menor\u201d, nos marcos da defesa da democracia burguesa e contra a forma neoliberal de gest\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Esse c\u00edrculo vicioso vem criando em v\u00e1rios pa\u00edses uma bipolaridade entre o campo pol\u00edtico socialdemocrata e o liberal, cujas diferen\u00e7as tendem a diminuir cada vez mais, por conta de uma altern\u00e2ncia de governos (n\u00e3o de poder, que sempre segue nas m\u00e3os da burguesia) em que se revezam, mas n\u00e3o alteram em nada os fundamentos do sistema de acumula\u00e7\u00e3o de capital. Os governos progressistas promovem retrocesso da consci\u00eancia de classe e agem como instrumento da concilia\u00e7\u00e3o entre o capital e o trabalho, legitimando a hegemonia e a institucionalidade burguesas.<\/p>\n<p>Essa altern\u00e2ncia se d\u00e1 porque, em geral, o governo de turno \u00e9 derrotado na elei\u00e7\u00e3o seguinte, por n\u00e3o ter podido cumprir as promessas que fez em campanha para superar o desemprego, a fome e a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>No caso do Chile \u2013 onde a esquerda trocou o auge de um poderoso movimento de massas com possibilidade insurrecional por uma Constituinte em que acabou derrotada &#8211; o rod\u00edzio chega a ser quase matem\u00e1tico. A altern\u00e2ncia de governo entre os polos progressista e liberal vem ocorrendo invariavelmente nas \u00faltimas seis elei\u00e7\u00f5es consecutivas, desde o in\u00edcio deste s\u00e9culo. Recentemente, o liberal Pi\u00f1era foi derrotado pelo progressista Boric que no momento negocia com a burguesia uma nova Constituinte agora mais rebaixada, em uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mais desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, inicia-se neste ano uma prov\u00e1vel altern\u00e2ncia de governos na Col\u00f4mbia, onde a vit\u00f3ria de Petro resultou no primeiro governo socialdemocrata de sua hist\u00f3ria, n\u00e3o por acaso em seguida a uma das mais importantes revoltas populares de sua hist\u00f3ria, um \u201cestallido\u201d com \u201cparo nacional\u201d de mais de um m\u00eas de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a altern\u00e2ncia de governos na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos tempos tem envolvido v\u00e1rios pa\u00edses simultaneamente. A onda progressista mais consistente da primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo resultou na volta de governos liberais em v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o, os quais v\u00eam dando lugar agora a uma onda \u201ccor de rosa\u201d, que j\u00e1 se apresenta desbotada por mais concilia\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es, inclusive em pa\u00edses que mantiveram governos progressistas, como Bol\u00edvia, Nicar\u00e1gua e Venezuela.<\/p>\n<p>Os novos governos progressistas j\u00e1 assumem com o receio de serem v\u00edtimas de golpes institucionais ou do fantasma do fascismo, que s\u00e3o usados como chantagem para que se comportem nos limites da institucionalidade burguesa e n\u00e3o ousem sequer pensar na aplica\u00e7\u00e3o de medidas que possam sugerir um vi\u00e9s anticapitalista e desagradar o \u201cmercado\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o digo isso por subestimar governos e movimentos de ultradireita ou mesmo fascistizantes, sobretudo nesta quadra em que o agravamento da crise do capitalismo leva as classes dominantes a restringir as liberdades democr\u00e1ticas conquistadas para impor suas contrarreformas e pautas destinadas a manter seus padr\u00f5es de mais valia e suas margens de lucro. No momento em que aqui me pronuncio surge uma crise no Peru que sugere a inten\u00e7\u00e3o das classes dominantes de instalar um governo \u201cpuro-sangue\u201d do capital, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 ambiguidade populista do err\u00e1tico e vacilante Castillo.<\/p>\n<p>A fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das armas de que disp\u00f5em as burguesias em seu arsenal de possibilidades para manter sua hegemonia. Mas \u00e9 preciso que os comunistas analisem esse risco do ponto de vista da realidade concreta da luta de classes em seus pa\u00edses.<br \/>\nPor exemplo, no caso do Brasil dos \u00faltimos quatro anos, apesar de o presidente ser de ultradireita e ter estimulado o surgimento de mil\u00edcias com inspira\u00e7\u00e3o fascista e a aquisi\u00e7\u00e3o e posse de armas, a hegemonia burguesa no pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o s\u00f3lida \u2013 frente a uma esquerda reformista e um movimento sindical degenerado \u2013 que a amea\u00e7a fascista funcionou mais como t\u00e1tica diversionista do que realidade, de tal forma que as chamadas esquerdas passaram quatro anos privilegiando a palavra de ordem \u201cFora Bolsonaro!\u201d e divulgando \u201cmemes\u201d sobre suas estultices, enquanto o parlamento burgu\u00eas recusava-se a pautar o impedimento do presidente, para preservar o seu mandato e aprovar tranquilamente as contrarreformas regressivas, as privatiza\u00e7\u00f5es e a destrui\u00e7\u00e3o de direitos sociais e trabalhistas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, o fantasma do fascismo funciona tamb\u00e9m como pretexto para a forma\u00e7\u00e3o de frentes da esquerda com segmentos burgueses, como se o fascismo n\u00e3o fosse um filho adotivo do capitalismo contra o proletariado!<br \/>\nEmbora n\u00e3o possamos descartar o advento de aventuras golpistas, ainda que com poucas possibilidades de \u00eaxito, na atual conjuntura brasileira, o golpe de estado e o fascismo s\u00e3o desnecess\u00e1rios e at\u00e9 inconvenientes para a maioria das classes dominantes, em fun\u00e7\u00e3o, por exemplo, dos preju\u00edzos que poderiam produzir no que se refere \u00e0 perda de investimentos estrangeiros. Al\u00e9m disso, a democracia burguesa \u00e9 indiscutivelmente a melhor forma para legitimar e sustentar sua hegemonia, sobretudo quando exercida tranquilamente, como no caso do Brasil.<br \/>\nUma vez tendo imposto praticamente toda sua pauta de contrarreformas e pol\u00edticas econ\u00f4micas, para a burguesia chegou a hora da concilia\u00e7\u00e3o e da \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que, apesar do \u201cbolsonarismo\u201d, os setores hegem\u00f4nicos e mais l\u00facidos da burguesia que garantiram nos \u00faltimos anos um certo patamar de \u201cestado democr\u00e1tico de direito\u201d n\u00e3o hesitaram agora em apoiar Lula nas recentes elei\u00e7\u00f5es para dar forma a um novo pacto, cujos compromissos principais s\u00e3o no sentido de que o novo governo n\u00e3o toque nas contrarreformas e privatiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 levadas a efeito nem nos fundamentos macroecon\u00f4micos liberais e se limite a pol\u00edticas compensat\u00f3rias, sem qualquer reforma estrutural e sem tocar na tutela, nos privil\u00e9gios e nas prerrogativas das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que Bolsonaro n\u00e3o era em 2018 o candidato do \u201cComit\u00ea Central\u201d da burguesia brasileira, que apostava em candidaturas \u201cliberais e democr\u00e1ticas\u201d no primeiro turno e que s\u00f3 optou depois pelo candidato de ultradireita para completar os resultados do golpe continuado de 2016, que destituiu a presidente Dilma e prendeu Lula para n\u00e3o poder ser candidato em 2018, porque precisava promover contrarreformas radicais e urgentes que o PT, apesar de sua concilia\u00e7\u00e3o de classes, n\u00e3o podia entregar naquele momento com a intensidade e a urg\u00eancia exigidas, por conta de suas ra\u00edzes, seu verniz socialdemocrata e dos v\u00ednculos que ainda mant\u00e9m com parte do movimento popular e sindical.<\/p>\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida de que Lula se esfor\u00e7ar\u00e1 pessoalmente na defesa do meio ambiente, das liberdades democr\u00e1ticas conquistadas, dos direitos humanos, trabalhistas e civis e por um Estado com algum bem estar social, capaz de mitigar as desigualdades e a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Mas os comunistas brasileiros n\u00e3o podemos nos iludir e muito menos iludir o proletariado e os trabalhadores em geral com o novo governo, que andar\u00e1 rigorosamente nos trilhos da ordem do capital. Precisamos dizer-lhes francamente que ser\u00e1 um mandato mais conciliador ainda que todos os governos petistas anteriores, inclusive por conta de aspectos desfavor\u00e1veis da conjuntura nacional e internacional.<\/p>\n<p>Lula cumprir\u00e1 fielmente todos os acordos que vem assumindo desde a campanha, no sentido de restabelecer a \u201cnormalidade democr\u00e1tica\u201d e a governabilidade, o pragmatismo diplom\u00e1tico para a expans\u00e3o do capitalismo brasileiro e, sobretudo, promover a harmonia entre o capital e o trabalho.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 preciso deixar claro que, do ponto de vista dos trabalhadores, o novo governo ser\u00e1 \u201cum mal menor\u201d que o anterior e que nossas principais lutas continuar\u00e3o sendo pela revoga\u00e7\u00e3o das contrarreformas regressivas e privatiza\u00e7\u00f5es e por novos direitos e medidas que fa\u00e7am com que os ricos paguem a conta da crise que geraram.<br \/>\nN\u00e3o podemos conciliar mais em alian\u00e7as com a socialdemocracia, com frentes policlassistas e em priorizar a defesa das liberdades democr\u00e1ticas, ainda que sem subestim\u00e1-las. Caso contr\u00e1rio, estaremos adiando por mais quatro anos a luta pelo socialismo, em uma reincid\u00eancia, na pr\u00e1tica, da estrat\u00e9gia nacional-democr\u00e1tica contra a qual nos insurgimos e derrotamos em 1992.<\/p>\n<p>Nenhuma das revolu\u00e7\u00f5es socialistas vitoriosas at\u00e9 hoje se deu por conta da vig\u00eancia e da amplia\u00e7\u00e3o da democracia burguesa, da elei\u00e7\u00e3o de uma maioria parlamentar progressista e nem por reformas graduais, mas sim a partir da a\u00e7\u00e3o de uma vanguarda revolucion\u00e1ria entrela\u00e7ada em ra\u00edzes profundas com o proletariado e preparada e organizada, inclusive em termos de autodefesa, para cumprir seus objetivos.<\/p>\n<p>N\u00e3o chamo aten\u00e7\u00e3o dessas li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do movimento comunista por considerar de forma voluntarista que a revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista em nossos pa\u00edses, mas porque precisamos correr contra o tempo e nos preparar para momentos em que essas possibilidades revolucion\u00e1rias surgir\u00e3o do ascenso das lutas do proletariado, no contexto da intensifica\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es e guerras interimperialistas da era dos monop\u00f3lios e das cada vez mais agudas e globais crises c\u00edclicas do capitalismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se viverei para presenciar, mas creio que j\u00e1 podemos vislumbrar uma \u00e9poca em que a disjuntiva socialismo ou barb\u00e1rie deixar\u00e1 a humanidade sem qualquer outra alternativa. Por isso, camaradas, insisto em algumas quest\u00f5es que julgo cruciais para a continuidade e o avan\u00e7o dos processos de Reconstru\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria de nossos partidos.<\/p>\n<p>Desde os tempos de Lenin, nenhum partido comunista esteve, est\u00e1 ou estar\u00e1 a salvo do revisionismo, do reformismo e do oportunismo, contra os quais \u00e9 sempre preciso estarmos vigilantes.<br \/>\nAssim sendo, reitero as palavras que encerraram a modesta contribui\u00e7\u00e3o que apresentei no Semin\u00e1rio Internacional promovido por este querido Partido Comunista do M\u00e9xico, em 2019:<br \/>\nS\u00f3 estaremos na vanguarda das Revolu\u00e7\u00f5es Socialistas que vir\u00e3o, em nossos pa\u00edses e no mundo todo, se n\u00e3o abandonarmos o leito f\u00e9rtil do marxismo-leninismo e do internacionalismo prolet\u00e1rio; se n\u00e3o conciliarmos com o reformismo senil e o esquerdismo infantil e se, na t\u00e1tica, n\u00e3o nos afastarmos da estrat\u00e9gia!<\/p>\n<p>Viva o Partido Comunista do M\u00e9xico!<br \/>\nViva o Internacionalismo Prolet\u00e1rio!<\/p>\n<p>Cidade do M\u00e9xico, 17 de dezembro de 2022<\/p>\n<p>* Ivan Pinheiro \u00e9 ex-Secret\u00e1rio Geral do PCB (Partido Comunista Brasileiro)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29686\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,66,10],"tags":[234],"class_list":["post-29686","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7IO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29686"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29686\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}