{"id":2969,"date":"2012-06-06T06:59:00","date_gmt":"2012-06-06T06:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2969"},"modified":"2012-06-06T06:59:00","modified_gmt":"2012-06-06T06:59:00","slug":"bernardo-kucinski-e-quem-foi-mesmo-que-financiou-a-repressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2969","title":{"rendered":"Bernardo Kucinski: E quem foi mesmo que financiou a repress\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>O depoimento de Claudio Guerra, em \u201cMem\u00f3rias de uma guerra suja\u201d, detalha o envolvimento de empres\u00e1rios com a ditadura. Esse \u00e9 o aspecto que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski. Sua irm\u00e3, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e integram a lista dos desaparecidos. Bernardo atesta: \u201cEst\u00e1 tudo l\u00e1: empresas como Gasbras, White Martins, Itapemirim, grupo Folha e o banco Sudameris; o dinheiro dos empres\u00e1rios jorrava para custear as opera\u00e7\u00f5es clandestinas e premiar bandidos com bonifica\u00e7\u00f5es generosas\u201d.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20181\" target=\"_blank\">Saul Leblon, na Carta Maior<\/a><\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo \u2013 O livro \u2018Mem\u00f3rias de uma guerra suja\u2019, depoimento do ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra, a Marcelo Netto e Rog\u00e9rio Medeiros, foi recebido inicialmente com certa incredulidade at\u00e9 por setores progressistas. H\u00e1 revela\u00e7\u00f5es ali que causam uma rejei\u00e7\u00e3o visceral de auto-defesa. Repugna imaginar que em troca de cr\u00e9ditos e facilidades junto \u00e0 ditadura, uma usina de a\u00e7\u00facar do Rio de Janeiro tenha cedido seu forno para incinerar cad\u00e1veres de presos pol\u00edticos mortos nas m\u00e3os do aparato repressivo.<\/p>\n<p>O acordo que teria sido feito no final de 1973, se comprovado, pode se tornar o s\u00edmbolo mais abjeto de uma faceta sempre omitida nas investiga\u00e7\u00f5es sobre a ditadura: a colabora\u00e7\u00e3o funcional, direta, n\u00e3o apenas cumplicidade ideol\u00f3gica e pol\u00edtica, mas operacional, entre corpora\u00e7\u00f5es privadas, empres\u00e1rios e a repress\u00e3o pol\u00edtica. Um caso conhecido \u00e9 o da \u2018Folha da Tarde\u2019, jornal da fam\u00edlia Frias, que cedeu viaturas ao aparato repressivo para camuflar opera\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>Todavia, o depoimento de Guerra mostra que nem o caso da usina dantesca, nem o repasse de viaturas da Folha foram exce\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o aspecto do relato que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski, que acaba de ler o livro. Sua irm\u00e3, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e desde ent\u00e3o integram a lista dos desaparecidos pol\u00edticos brasileiros.<\/p>\n<p>Bernardo atesta:\u2019 Esta tudo l\u00e1: empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha e o banco Sudameris, que era o banco da repress\u00e3o; o dinheiro dos empres\u00e1rios jorrava para custear as opera\u00e7\u00f5es clandestinas e premiar os bandidos com bonifica\u00e7\u00f5es generosas\u2019.<\/p>\n<p>No livro, Claudio Guerra afirma que Ana Rosa e Wilson Campos \u2014 a exemplo do que teria ocorrido com mais outros oito ou nove presos pol\u00edticos \u2014 tiveram seus corpos incinerados no imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no munic\u00edpio fluminense de Campos.<\/p>\n<p>A incredulidade inicial come\u00e7a a cair por terra. Familiares de desaparecidos pol\u00edticos tem feito algumas checagens de dados e descri\u00e7\u00f5es contidas no livro. Batem com informa\u00e7\u00f5es e pistas anteriores. Consta ainda que o pr\u00f3prio governo teve acesso antecipado aos relatos e teria conferido algumas vers\u00f5es, confirmando-as. Tampouco o livro seria propriamente uma novidade para militantes dos direitos humanos que trabalham junto ao governo. \u2028\u2028O depoimento de Guerra, de acordo com alguns desses militantes, teria sido negociado h\u00e1 mais de dois anos, com a participa\u00e7\u00e3o direta de ativistas no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>A escolha dos jornalistas que assinam o trabalho \u2013 um progressista e Marcelo Netto, ex-Globo simp\u00e1tico ao golpe de 64 \u2013 teria sido deliberada para afastar suspeitas de manipula\u00e7\u00e3o. Um pedido de prote\u00e7\u00e3o para Claudio Guerra j\u00e1 teria sido encaminhado ao governo. Sem d\u00favida, o teor de suas revela\u00e7\u00f5es, e a lista de envolvimentos importantes, recomenda que o ex-delegado seja ouvido o mais rapidamente poss\u00edvel pela Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<p>Bernardo Kucinski, autor de um romance, \u2018K\u2019, \u2013 na segunda edi\u00e7\u00e3o \u2013 que narra a angustiante procura de um pai pela filha engolida no sumidouro do aparato de repress\u00e3o, respondeu a quatro perguntas de Carta Maior sobre as \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d:<\/p>\n<p><strong> Carta Maior \u2013 Depois de ler a obra na \u00edntegra, qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a veracidade dos relatos? <\/strong><\/p>\n<p>Kucinski \u2013 As confiss\u00f5es s\u00e3o congruentes e n\u00e3o contradizem informa\u00e7\u00f5es isoladas que j\u00e1 possu\u00edamos. Considero o relato basicamente veraz, embora claramente incompleto e talvez prejudicado pelos mecanismos da rememora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que se trata da confiss\u00e3o de uma pessoa diretamente envolvida nas atrocidades que relata.<\/p>\n<p><strong>CM \u2013 Por que um depoimento com tal gravidade continua a receber uma cobertura t\u00e3o rala da m\u00eddia? Por exemplo, n\u00e3o mereceu capa em nenhuma revista semanal \u2018investigativa\u2019. <\/strong><\/p>\n<p>Kucinski \u2013 Pelo mesmo motivo de n\u00e3o termos at\u00e9 hoje um Museu da Escravatura , n\u00e3o termos um memorial nacional aos mortos e desaparecidos da ditadura militar, e ainda ensinarmos nas escolas que os bandeirantes foram her\u00f3is; uma quest\u00e3o de hegemonia de uma elite de forma\u00e7\u00e3o escravocrata.<\/p>\n<p><strong>CM \u2013 Do conjunto dos relatos contidos no livro, quais lhe chamaram mais a aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Kucinski \u2013 O epis\u00f3dio espec\u00edfico que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a participa\u00e7\u00e3o direta do mesmo grupo de exterm\u00ednio no golpe organizado pela CIA para derrubar o governo do MPLA em Angola, com viagem secreta em avi\u00e3o da FAB.<\/p>\n<p><strong>CM \u2013 O que mais ele revela de novo sobre a natureza da estrutura repressiva montada no pa\u00eds, depois de 64? <\/strong><\/p>\n<p>Kucinski \u2013 Fica claro que as For\u00e7as Armadas montaram grupos de captura e exterm\u00ednio reunindo matadores de aluguel, chefes de esquadr\u00f5es da morte, banqueiros do jogo do bicho, contrabandistas e narcotraficantes. Chamaram esses bandidos e seus m\u00e9todos para dentro de si. Esses criminosos, muitos j\u00e1 condenados pela justi\u00e7a, dirigidos e controlados por oficiais das For\u00e7as Armadas, a partir de uma estrat\u00e9gia tra\u00e7ada em n\u00edvel de Estado Maior, executavam opera\u00e7\u00f5es de liquida\u00e7\u00e3o e desaparecimento dos presos pol\u00edticos, o que talvez explique o barbarismo das a\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m me chamou a aten\u00e7\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o ampla de empres\u00e1rios no financiamento dessa repress\u00e3o, empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha \u2013 que emprestou suas peruas de entrega para seq\u00fcestro de ativistas pol\u00edticos -, e o banco Sudameris, que era o banco da repress\u00e3o; dinheiro dos empres\u00e1rios jorrava para custear as opera\u00e7\u00f5es clandestinas e premiar os bandidos com bonifica\u00e7\u00f5es generosas. Est\u00e1 tudo l\u00e1 no livro.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o perca:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/radio\/o-servico-sujo-do-grupo-folha-ao-regime-militar.html\" target=\"_blank\"><strong>Ivan Seixas, sobre a Folha da Tarde: O jornal que matava nas manchetes<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/radio\/ivan-seixas-otaviao-tinha-medo-de-ser-fuzilado.html\" target=\"_blank\"><strong>Ivan Seixas: Otavi\u00e3o tinha medo de ser fuzilado<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/radio\/rose-nogueira-a-ficha-verdadeira-da-folha.html\" target=\"_blank\"><strong>Rose Nogueira: A ficha (verdadeira) da Folha<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/radio\/benevides-o-esqueleto-no-armario.html\" target=\"_blank\"><strong>Maria Victoria Benevides: O esqueleto no arm\u00e1rio<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/radio\/beatriz-kushnir-quem-eram-os-caes-de-guarda.html\" target=\"_blank\"><strong>Beatriz Kushnir: Quem eram os c\u00e3es de guarda<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/radio\/beatriz-kushnir-como-a-midia-colaborou-com-o-regime-militar.html\" target=\"_blank\"><strong>Beatriz Kushnir: Como a m\u00eddia colaborou com a ditadura<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 4.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nKucinski: \u2018Jorrou dinheiro empresarial \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica\u2019\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2969\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2969","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-LT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2969"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2969\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}