{"id":2984,"date":"2012-06-07T21:59:53","date_gmt":"2012-06-07T21:59:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2984"},"modified":"2012-06-07T21:59:53","modified_gmt":"2012-06-07T21:59:53","slug":"istvan-meszaros-e-o-partido-como-ferramenta-de-luta-ofensiva-dos-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2984","title":{"rendered":"Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros e o partido como ferramenta de luta ofensiva dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<p>A proposta da ofensiva socialista, de que fala M\u00e9sz\u00e1ros, exige, dos interessados na supera\u00e7\u00e3o do sistema, esfor\u00e7os para a efetiva\u00e7\u00e3o progressiva, j\u00e1 no presente, de um tipo de organiza\u00e7\u00e3o diverso do que est\u00e1 posto pela realidade alienante do capital.<\/p>\n<p>Data: 18\/05\/2012<\/p>\n<p>&#8220;Todo mandato \u00e9 minucioso e cruel, eu gosto das frugais transgress\u00f5es&#8221; Mario Benedetti<\/p>\n<p>Um dos pontos culminantes da teoriza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desenvolvida por Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros em Para al\u00e9m do capital [1]\u00e9 quando o fil\u00f3sofo estabelece a atualidade hist\u00f3rica da ofensiva socialista. Essa atualidade nada tem a ver com a ideia de que o capitalismo esteja em vias de acabar ou de que o sucesso da a\u00e7\u00e3o socialista seja hoje assegurado por alguma condi\u00e7\u00e3o objetivamente dada na hist\u00f3ria. O que M\u00e9sz\u00e1ros, na verdade, afirma \u00e9 que, em virtude da profunda crise estrutural do sistema do capital, na qual estamos inseridos, &#8220;a necessidade de instituir algumas mudan\u00e7as fundamentais na organiza\u00e7\u00e3o e a orienta\u00e7\u00e3o do movimento socialista se apresentou na agenda hist\u00f3rica&#8221; [2]. Para podermos delinear o sentido dessas mudan\u00e7as fundamentais, devemos compreender as contradi\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o ser do capital na presente etapa hist\u00f3rica da humanidade.<\/p>\n<p>A crise estrutural de que fala o fil\u00f3sofo \u2013 que de modo algum come\u00e7ou com as complica\u00e7\u00f5es no setor financeiro da economia, nos pa\u00edses de centro, em 2007 \u2013 foi o produto do fim da chamada &#8220;fase ascendente do desenvolvimento do capital&#8221; e da consequente confronta\u00e7\u00e3o desse sistema com algumas contradi\u00e7\u00f5es que se lhe afiguraram insol\u00faveis. Em raz\u00e3o disso, o capital se viu obrigado a se reestruturar de uma maneira em que a produ\u00e7\u00e3o destrutiva passou a ser o elemento predominante de seu movimento autoconstitutivo.<\/p>\n<p>Tal produ\u00e7\u00e3o destrutiva \u2013 com seu correspondente consumo destrutivo &#8211; \u00e9 que d\u00e1 a forma da crise estrutural e faz com que a atual din\u00e2mica sociometab\u00f3lica da humanidade se assemelhe, no dizer de M\u00e9sz\u00e1ros, a um c\u00e2ncer em progress\u00e3o [3].<\/p>\n<p>O aprofundamento dessa crise estrutural \u2013 uma crise que \u00e9 rastejante e n\u00e3o c\u00edclica, e que \u00e9 vis\u00edvel, por exemplo, na preponder\u00e2ncia imperialista do Complexo Militar-Industrial e na sua incessante necessidade de guerras e conflitos, que arrastam atr\u00e1s de si o conjunto da economia mundial \u2013 apresenta-se, segundo o fil\u00f3sofo h\u00fangaro, como a tend\u00eancia fundamental de nossa \u00e9poca. Como tal, esse fen\u00f4meno n\u00e3o pode ser combatido lan\u00e7ando-se m\u00e3o simplesmente de reformas, por mais engenhosas que estas venham a ser, e sim por interm\u00e9dio de uma reestrutura\u00e7\u00e3o completa e radical das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e dos processos de tomada de decis\u00e3o pol\u00edtica vigentes em nossa sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, por generalizar a destrutividade a uma escala jamais vista \u2013 a escala planet\u00e1ria \u2013 e torn\u00e1-la o &#8220;motor&#8221; da produ\u00e7\u00e3o que a crise estrutural do capital se constitui no elemento fundante da atualidade hist\u00f3rica de um projeto alternativo, qualitativamente superior, de regula\u00e7\u00e3o do metabolismo social humano.<\/p>\n<p>Aqui, \u00e9 preciso esclarecer um ponto: afirmar a atualidade hist\u00f3rica da ofensiva socialista, como o faz M\u00e9sz\u00e1ros, n\u00e3o significa que a revolu\u00e7\u00e3o possa ser feita a qualquer momento ou de qualquer modo. Significa apenas que ela, a revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 a perspectiva da qual se parte para se analisar a realidade concreta e, consequentemente, para se tomar as decis\u00f5es nas quest\u00f5es estrat\u00e9gicas referentes \u00e0 pr\u00e1xis socialista. Somente a partir desse par\u00e2metro \u2013 a atualidade da revolu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o reformismo -, \u00e9 que os prolet\u00e1rios podem organizar coerentemente suas a\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias e aspirar ter \u00eaxito na realiza\u00e7\u00e3o de um projeto societ\u00e1rio alternativo.<\/p>\n<p>A perspectiva da atualidade da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a que nos faz colocar, sempre, diante dos olhos, a supera\u00e7\u00e3o do capital, e n\u00e3o apenas de alguma de suas partes constituintes ou express\u00f5es fenom\u00eanicas, como princ\u00edpio orientador \u00faltimo e determinante de nossa estrat\u00e9gia pol\u00edtica. O capital, como assinala M\u00e9sz\u00e1ros, \u00e9 um sistema de controle do metabolismo social, composto por certo n\u00famero de media\u00e7\u00f5es [4], que se realiza no sentido de explorar a maior quantidade poss\u00edvel de trabalho excedente, num movimento sempre acumulativo e expansivo. A tarefa premente dos revolucion\u00e1rios, nesse contexto, \u00e9 a de eliminar a totalidade desse conjunto de media\u00e7\u00f5es e instaurar uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o social que restitua aos produtores associados aquilo que o capital lhes cerceia: o poder de determinar autonomamente os rumos da atividade produtiva.<\/p>\n<p>Nessa luta encarni\u00e7ada contra o inimigo visceral, \u00e9 preciso que os sujeitos interessados na constru\u00e7\u00e3o de um mundo novo n\u00e3o tenham ilus\u00f5es a respeito de uma das media\u00e7\u00f5es essenciais da composi\u00e7\u00e3o do sistema: o Estado.<\/p>\n<p>O Estado, diz M\u00e9sz\u00e1ros, n\u00e3o pode ser identificado e confundido com os indiv\u00edduos \u2013 ou com os cargos ocupados por esses indiv\u00edduos \u2013 que preenchem sua intrincada estrutura. Ele \u00e9, em realidade, um conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais, com uma correspondente base material, que est\u00e1 atrelado a um conjunto mais amplo, o sistema do capital, que o determina e o faz retroagir sobre sua din\u00e2mica sociorreprodutiva. Por ser, portanto, mera parte dessa totalidade, o Estado n\u00e3o pode control\u00e1-la. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 pelo sistema controlado, como bem explica o fil\u00f3sofo h\u00fangaro.<\/p>\n<p>O Estado recebe do capital a incumb\u00eancia de realizar a harmoniza\u00e7\u00e3o dos conflitos que frequentemente irrompem de seu bojo, frutos dos processos fetichistas de explora\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de trabalho excedente. Imbu\u00eddo dessa exig\u00eancia, o Estado \u00e9 at\u00e9 capaz de atender, aqui e acol\u00e1, algumas das demandas feitas por grupos oprimidos da sociedade, mas ele assim procede, \u00fanica e exclusivamente, a fim de evitar mudan\u00e7as que atentem contra a condi\u00e7\u00e3o fundamental de exist\u00eancia do sistema: o controle hier\u00e1rquico absoluto estabelecido pelo capital sobre o trabalho.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas importantes para as lutas dos trabalhadores, pois mostra que n\u00e3o se pode pretender &#8220;encilhar&#8221; o capital por meio de reformas feitas a partir do Estado. O capital \u00e9, como explica M\u00e9sz\u00e1ros, uma for\u00e7a material que, para ser batida, precisa ser golpeada, sem vacila\u00e7\u00f5es, em suas ra\u00edzes extraparlamentares [5].<\/p>\n<p>Por consequ\u00eancia, o desafio central, para os prolet\u00e1rios, passa a ser o de, sem dispensar as batalhas no interior do Estado \u2013 batalhas defensivas, por defini\u00e7\u00e3o, mas extremamente importantes na medida em que buscam oferecer resguardo contra os ataques perpetrados pelo capital -, conseguir compor uma for\u00e7a material que seja, tamb\u00e9m, extraparlamentar, cr\u00edtica e radical, capaz de promover a reestrutura\u00e7\u00e3o completa das media\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas vigentes nas m\u00faltiplas esferas da sociedade.<\/p>\n<p>Isso significa, em outras palavras, que as lutas no interior das institui\u00e7\u00f5es estatais, al\u00e9m de precisarem ser feitas com a maior firmeza poss\u00edvel, devem estar articuladas com as disputas extraestatais que visam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es coletivas capazes de regular, de maneira aut\u00f4noma e horizontal, a atividade produtiva humana. A ofensiva socialista de que fala M\u00e9sz\u00e1ros \u00e9, justamente, o projeto que objetiva combinar dialeticamente essas modalidades de combate a fim de trazer \u00e0 luz tais associa\u00e7\u00f5es e fazer com que estas sirvam de base \u00e0s grandes transforma\u00e7\u00f5es a serem implementadas nos \u00e2mbitos da economia e da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ent\u00e3o, nesse contexto, forjar as ferramentas de luta prolet\u00e1ria em conformidade com essa orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica geral, de coadunar nega\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o, combate defensivo e ofensivo, no sentido da efetiva\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Ora, como \u00e9 sabido, nos \u00faltimos anos, com as manifesta\u00e7\u00f5es mais explosivas da crise estrutural do capital, muitas foram as tentativas de constru\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00f5es de combate que possibilitassem aos trabalhadores do mundo realizar reivindica\u00e7\u00f5es de variados tipos. Diversos foram os pa\u00edses em que homens e mulheres sa\u00edram organizadamente \u00e0s ruas para questionar uma multiplicidade de acontecimentos, entre eles o fato de que as decis\u00f5es fundamentais, de cunho pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social, que afetavam diretamente suas vidas, estavam sendo tomadas \u00e0 revelia de suas vontades[6]. At\u00e9 mesmo o Brasil, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, foi palco para o pronunciamento de numerosas vozes, que, descontentes, clamavam por melhores condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia [7].<\/p>\n<p>Essas organiza\u00e7\u00f5es desempenham uma tarefa verdadeiramente \u00e1rdua e indispens\u00e1vel: tomam ruas, ocupam pra\u00e7as, elaboram modos criativos de protesto, montam piquetes, pressionam, fazem agita\u00e7\u00e3o, enfrentam a repress\u00e3o violenta do Estado, executam princ\u00edpios de uma a\u00e7\u00e3o que se pode considerar como negativa em rela\u00e7\u00e3o a essa ordem na qual a din\u00e2mica sociometab\u00f3lica se desenvolve sem que os sujeitos que a sustentam tenham a possibilidade de dar a ela um rumo consciente e coletivamente planejado.<\/p>\n<p>A grande limita\u00e7\u00e3o de tais movimentos \u2013 e este \u00e9 o seu calcanhar de Aquiles \u2013 \u00e9 que s\u00e3o incapazes de transcender a a\u00e7\u00e3o meramente negativa (ou defensiva) e avan\u00e7ar no sentido de afirmar, na pr\u00e1tica e em escala de massa, uma nova forma de regula\u00e7\u00e3o do metabolismo social que aponte para a supera\u00e7\u00e3o definitiva do complexo contradit\u00f3rio do capital enquanto controlador fetichista e destrutivo da atividade produtiva humana.<\/p>\n<p>Portanto, por mais valorosas que possamos considerar essas media\u00e7\u00f5es, devemos for\u00e7osamente concluir que elas precisam, para levar suas batalhas adiante, at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, orientar-se de maneira ofensiva contra o capital. E esse salto program\u00e1tico s\u00f3 pode ser efetuado se os trabalhadores souberem fazer bom uso do instrumento cuja tarefa essencial \u00e9 a de organizar as lutas de classes de uma forma em que se consiga ir al\u00e9m das reivindica\u00e7\u00f5es concernentes aos interesses parciais (econ\u00f4micos) dos diversos setores da classe e, consequentemente, colocar em quest\u00e3o a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica \u2013 uma rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 pol\u00edtica, isto \u00e9, que envolve poder &#8211; existente entre capital e trabalho, que permeia a classe como um todo.<\/p>\n<p>Esse instrumento de que estamos falando \u00e9 o partido [8]. A atribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do partido \u00e9 a de, justamente,politizar as lutas econ\u00f4micas dos trabalhadores, ou seja, tornar-se ve\u00edculo para que a consci\u00eancia prolet\u00e1ria ultrapasse o n\u00edvel da particularidade e atinja o da totalidade concreta acerca do ser da sociedade na qual est\u00e3o inseridos e que atualmente \u00e9 controlada pelo sistema do capital. Numa palavra: o partido deve servir de media\u00e7\u00e3o entre a classe revolucion\u00e1ria e a consci\u00eancia revolucion\u00e1ria [9].<\/p>\n<p>Para tanto, o partido necessita ter a melhor prepara\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica poss\u00edvel \u2013 profissionalizar-se, em todos os \u00e2mbitos da pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria -, ao mesmo tempo em que se mant\u00e9m organicamente vinculado \u00e0s fileiras prolet\u00e1rias. Ele n\u00e3o \u00e9, nesse contexto, o causador da revolu\u00e7\u00e3o, mas a ferramenta dial\u00e9tica que ensina e aprende com os trabalhadores e que lhes possibilita apreender concretamente as m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es sociometab\u00f3licas que afetam as suas exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Comprando diariamente as lutas da classe trabalhadora, inserindo-se em seu interior, realizando den\u00fancias sobre as arbitrariedades do capital, fazendo agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, usando as palavras de ordem adequadas, educando e preparando material, t\u00e1tica e estrategicamente as massas para a atividade revolucion\u00e1ria \u2013 as batalhas ofensivas com o fim de formar media\u00e7\u00f5es alternativas de regula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o -, o partido se converte em elemento efetivo de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O partido n\u00e3o pode, portanto, em hip\u00f3tese alguma, permanecer a reboque das causas economicistas dos trabalhadores, mas sim buscar a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia das massas a partir da conjuga\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es negativas e afirmativas em todos os espa\u00e7os pass\u00edveis de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sua pr\u00f3pria forma de constitui\u00e7\u00e3o interna, nesse contexto, precisa ser prenunciadora de uma forma\u00e7\u00e3o social qualitativamente superior. Organiza\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica s\u00e3o, aqui, duas faces de uma mesma moeda. Isso quer dizer, em outras palavras, que as media\u00e7\u00f5es alternativas da luta prolet\u00e1ria \u2013 partido incluso \u2013 n\u00e3o podem se estruturar de uma maneira que reproduza a l\u00f3gica de funcionamento sociometab\u00f3lico do capital \u2013 um modo de controle hier\u00e1rquico e fetichista da atividade produtiva. A proposta da ofensiva socialista, de que fala M\u00e9sz\u00e1ros, exige, dos interessados na supera\u00e7\u00e3o do sistema, esfor\u00e7os para a efetiva\u00e7\u00e3o progressiva, j\u00e1 no presente, de um tipo de organiza\u00e7\u00e3o diverso do que est\u00e1 posto pela realidade alienante do capital.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o: o desafio hist\u00f3rico de construir uma pol\u00edtica socialista para al\u00e9m do capital<\/p>\n<p>As tarefas dos trabalhadores s\u00e3o, portanto, imensas e urgentes. A crise estrutural que se aprofunda empurra-os cada vez mais para uma encruzilhada: seguir na trilha da produ\u00e7\u00e3o e consumo destrutivos do capital, que perpassa e contamina negativamente as v\u00e1rias esferas da vida, ou estabelecer um modo alternativo de regula\u00e7\u00e3o do metabolismo social humano, n\u00e3o perdul\u00e1rio, n\u00e3o barbarizante, verdadeiramente sustent\u00e1vel, isento de hierarquias estruturais e fetiches e sob a responsabilidade autogestora dos produtores associados?<\/p>\n<p>Se optarem pelo segundo caminho, dever\u00e3o enfrentar o problema da constru\u00e7\u00e3o das ferramentas de luta, da articula\u00e7\u00e3o das media\u00e7\u00f5es de combate que lhes possibilitar\u00e3o enfrentar e tentar superar, de uma vez por todas, o complexo do capital. Tais media\u00e7\u00f5es precisar\u00e3o ter um car\u00e1ter ofensivo em rela\u00e7\u00e3o ao atual sistema, isto \u00e9, orientar-se e organizar-se de uma maneira em que se possa combat\u00ea-lo a partir de suas ra\u00edzes e visando ir al\u00e9m de sua l\u00f3gica de processualidade interna. A atua\u00e7\u00e3o extraestatal, articulada com e dando sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s batalhas no interior do Estado, necessitar\u00e1 ser o princ\u00edpio orientador indispens\u00e1vel do processo de transi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria socialista.<\/p>\n<p>O partido, como ferramenta de combate, h\u00e1 de ter, nesse contexto, tremenda import\u00e2ncia, visto que ser\u00e1 o encarregado de executar tarefas incontorn\u00e1veis: interligar dialeticamente os diversos setores da classe trabalhadora; orientar seus embates contra o inimigo comum; politizar as variadas lutas que, em raz\u00e3o das circunst\u00e2ncias, se apresentam; conscientizar os prolet\u00e1rios acerca da forma como se constituem e agem as media\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o do capital; e dinamizar sua a\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-pr\u00e1tica na dire\u00e7\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o de novos modos de mediar o metabolismo social humano.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o sentido, lucidamente apontado por M\u00e9sz\u00e1ros, das modifica\u00e7\u00f5es fundamentais a serem feitas no movimento socialista de nossa \u00e9poca hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>[1] Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, Para al\u00e9m do capital: rumo a uma teoria da transi\u00e7\u00e3o (S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2002).<\/p>\n<p>[2] Ibidem, p. 858.<\/p>\n<p>[3] Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, dentro dos marcos deste artigo, detalharmos a explica\u00e7\u00e3o sobre o choque do capital com essas contradi\u00e7\u00f5es \u2013 a ativa\u00e7\u00e3o dos seus assim chamados &#8220;limites absolutos&#8221;, ocorrida por volta de 1970 \u2013 e o surgimento da produ\u00e7\u00e3o destrutiva. Remetemos os interessados no assunto \u00e0 leitura de Para al\u00e9m do capital, cit.<\/p>\n<p>[4] Essas media\u00e7\u00f5es \u2013 os meios alienados e os objetivos fetichistas de produ\u00e7\u00e3o, o trabalho &#8220;estruturalmente separado da possibilidade de controle&#8221;, o dinheiro, a fam\u00edlia nuclear, o mercado mundial e as v\u00e1rias formas de Estado do capital -, juntamente com as media\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a atividade produtiva humana, s\u00e3o analisadas por M\u00e9sz\u00e1ros em sua teoriza\u00e7\u00e3o sobre a crise estrutural do capital. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, aqui, entrarmos em min\u00facias a respeito de tais temas. Mais uma vez, remetemos os interessados \u00e0 leitura de Para al\u00e9m do capital, cit.<\/p>\n<p>[5] M\u00e9sz\u00e1ros afirma que o capital \u00e9 uma for\u00e7a extraparlamentar por excel\u00eancia. O termo extraparlamentar tem, grosso modo, na sua argumenta\u00e7\u00e3o, o significado de algo que est\u00e1 al\u00e9m do Estado, ao mesmo tempo em que o incorpora. Ou seja, o capital, para realizar seus prop\u00f3sitos, age dentro do Estado (isto \u00e9, por seu interm\u00e9dio) e fora dele. \u00c9 um sistema, portanto, que engloba as institui\u00e7\u00f5es estatais e as transcende. Para ser vencido, precisa ser confrontado, a partir dos seus fundamentos, em todos os espa\u00e7os onde exerce sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[6] O ano de 2011 foi marcante nesse sentido. Para uma boa leitura acerca de tais acontecimentos, vale a pena conferir a entrevista de Ricardo Antunes para Val\u00e9ria Nader e Gabriel Brito, &#8220;Luta pelos direitos do trabalho \u00e9 hoje vital diante da crise cabal do capitalismo&#8221;, Correio da Cidadania, 08\/09\/2011. Como explica o soci\u00f3logo brasileiro, ainda que cada uma dessas manifesta\u00e7\u00f5es tenha tido a sua singularidade, todas elas revelam um tra\u00e7o comum: expressar um profundo descontentamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem em que se inserem \u2013 ordem esta marcada, de uma forma ou de outra, pela grave crise do capital.<\/p>\n<p>[7] Sobre esse ponto, \u00e9 \u00fatil ler o bom artigo de Fernando Marcelino &#8220;Quatro li\u00e7\u00f5es sobre a nova din\u00e2mica da luta de classes no Brasil&#8221;, Correio da Cidadania, 17\/02\/2012. Ressalte-se, ainda, nesse contexto, o fato de que, entre os anos de 2009 e 2010, houve 964 greves no Brasil.<\/p>\n<p>[8] Apesar de n\u00e3o ser um tema central de sua vasta obra, M\u00e9sz\u00e1ros afirma que os partidos podem ser media\u00e7\u00f5es efetivas nas lutas de classes a favor dos trabalhadores. Apresentamos algumas de suas concep\u00e7\u00f5es a respeito num pequeno artigo, &#8220;Por um partido socialista de orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica ofensiva: notas a partir de Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros&#8221;, Correio da Cidadania, 18\/11\/2011, dispon\u00edvel em.<\/p>\n<p>[9] M\u00e9sz\u00e1ros usa o termo \u2013 retirado d&#8217;A ideologia alem\u00e3 \u2013 consci\u00eancia socialista de massa para se referir \u00e0 consci\u00eancia revolucion\u00e1ria dos trabalhadores. Esse tipo de consci\u00eancia deve dar conta de compreender n\u00e3o somente o que precisa ser negado pela pr\u00e1xis transformadora \u2013 o sistema de media\u00e7\u00f5es do capital -, mas, tamb\u00e9m, fundamentalmente, aquilo que necessita ser afirmado em seu lugar, a comunidade dos homens e mulheres que regulam, de forma consciente e aut\u00f4noma, o metabolismo social humano.<\/p>\n<p>*Cientista social, mestre em Educa\u00e7\u00e3o (Universidade Federal de Santa Catarina \u2013 Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Demetrio Cherobini\n\n\n\n\n\n\n\n\nDemetrio Cherobini* \/ Ag\u00eancia Carta Maior\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2984\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2984","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-M8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2984"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2984\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}