{"id":29854,"date":"2023-01-25T18:36:06","date_gmt":"2023-01-25T21:36:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29854"},"modified":"2023-01-25T18:36:06","modified_gmt":"2023-01-25T21:36:06","slug":"50-anos-do-assassinato-de-amilcar-cabral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29854","title":{"rendered":"50 anos do assassinato de Am\u00edlcar Cabral"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"29855\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29854\/unnamed-1\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/unnamed-1-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed (1)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/unnamed-1-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-29855\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/unnamed-1-1.jpg?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/unnamed-1-1.jpg?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/unnamed-1-1.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Sofia Lisboa<\/strong><\/p>\n<p>Portal ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Um dos fundadores do Partido Africano para a Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde (PAIGC), em 1956, Am\u00edlcar Cabral estudava muitos anos antes os problemas respeitantes ao colonialismo portugu\u00eas e participou em diversas atividades na defesa da emancipa\u00e7\u00e3o dos povos coloniais.<\/p>\n<p>Da necessidade de se criar o PAIGC, diz-nos Am\u00edlcar Cabral: \u00abNa \u00c1frica n\u00e3o houve tais fen\u00f4menos que engendrassem partidos. Podemos pois dizer que trouxemos qualquer coisa de estranho introduzindo na nossa terra um partido, mas isto era necess\u00e1rio, assim como \u00e9 necess\u00e1ria a charrua que n\u00e3o existe na nossa terra ou o trator que n\u00e3o resultou do desenvolvimento econ\u00f4mico do nosso pa\u00eds.\u00bb1<\/p>\n<p>Am\u00edlcar Cabral e Aristides Pereira foram apresentados por Sofia Pomba Guerra, farmac\u00eautica e militante do PCP que cumpria degredo em Bissau.2 Era em sua casa que estes dois e muitos outros cabo-verdianos se encontravam para ouvir as emiss\u00f5es em portugu\u00eas do servi\u00e7o da R\u00e1dio Moscou, ou ainda para ler romances e jornais proibidos, como o Avante!, \u00f3rg\u00e3o central do PCP.3 E nestes encontros desenvolveram paulatinamente o seu m\u00e9todo de conspira\u00e7\u00e3o: formavam pequenos grupos para discutir diversos assuntos culturais, e iam destacando os elementos considerados mais conscientes para com eles desenvolver posteriormente um trabalho pol\u00edtico mais arriscado.<\/p>\n<p>Am\u00edlcar Cabral, nascido na Guin\u00e9-Bissau em 12 de setembro de 1924, de pais cabo-verdianos, tinha passado a inf\u00e2ncia em S\u00e3o Vicente e viria a prosseguir os seus estudos no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, onde chegou em 1945. Na altura em que se iniciou a Guerra Colonial, Cabral tinha um conhecimento sobre a geografia, a economia e a sociologia dos povos do seu pa\u00eds comparativamente superior ao de muitos nacionalistas em fases similares noutras regi\u00f5es. Uma das raz\u00f5es foi o fato de ter realizado o primeiro recenseamento agr\u00edcola do territ\u00f3rio. Este trabalho lhe daria a oportunidade de conhecer a estrutura agr\u00e1ria da Guin\u00e9 profunda, pondo-o em contato direto com as pessoas mais influentes dos v\u00e1rios grupos \u00e9tnicos.4<\/p>\n<p>\u00c9 na sequ\u00eancia desse conhecimento que o PAIGC fixaria como objetivos pol\u00edticos do partido a liquida\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o colonial portuguesa, a cria\u00e7\u00e3o das bases indispens\u00e1veis para a constru\u00e7\u00e3o de uma vida nova para o povo da Guin\u00e9 e Cabo Verde, a constru\u00e7\u00e3o da paz, do bem-estar e do progresso cont\u00ednuo. Definiu-se como partido democr\u00e1tico, progressista, anticolonialista e anti-imperialista. Estas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o reveladoras, indiscutivelmente, do car\u00e1ter antifascista do PAIGC e do movimento de emancipa\u00e7\u00e3o que este dirigia. Num apelo aos portugueses feito num artigo na revista Partisans em 1962, Am\u00edlcar Cabral explicava como encaravam o regime fascista portugu\u00eas: \u00ab\u00c9 preciso reafirmar claramente que, embora sendo contra toda a esp\u00e9cie de fascismo, os nossos povos n\u00e3o lutam especificamente contra o fascismo portugu\u00eas: n\u00f3s lutamos contra o colonialismo portugu\u00eas. A destrui\u00e7\u00e3o do fascismo em Portugal dever\u00e1 ser obra do pr\u00f3prio povo portugu\u00eas, a destrui\u00e7\u00e3o do colonialismo portugu\u00eas ser\u00e1 obra dos nossos pr\u00f3prios povos.\u00bb5 A realidade de outras guerras coloniais, nomeadamente a guerra na Arg\u00e9lia, n\u00e3o podia faz\u00ea-lo chegar a outra conclus\u00e3o. Os regimes democr\u00e1ticos das pot\u00eancias ocidentais estavam longe de garantir por princ\u00edpio a independ\u00eancia das respectivas col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Tendo como prioridade pol\u00edtica a liberta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio do dom\u00ednio colonial portugu\u00eas, Cabral deixaria pistas em v\u00e1rios momentos sobre o tipo de sociedade que deveria ser constru\u00edda quando alcan\u00e7ado esse objetivo, que refletiam a sua proximidade a convic\u00e7\u00f5es socialistas: \u00abNa base da vida do nosso Partido, queremos destruir toda a possibilidade de aqueles que libertam a terra ou outros, que venham abusar do nosso povo amanh\u00e3. [sic] O nosso objetivo n\u00e3o pode ser o de ir tomar conta do pal\u00e1cio do governador para fazer na nossa terra o que aquele governador queria fazer.\u00bb6 Basil Davidson, citando Cabral, d\u00e1-nos mais um elemento sobre a posi\u00e7\u00e3o deste em rela\u00e7\u00e3o ao caminho a seguir: [construir uma nova sociedade], \u00abnestas circunst\u00e2ncias ser\u00e1 necessariamente por meios socialistas, pois s\u00f3 existem dois caminhos abertos para uma na\u00e7\u00e3o se tornar independente agora: voltar \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista (via neocolonialismo, capitalismo, capitalismo de Estado) ou mover-se rumo ao socialismo.\u00bb7<\/p>\n<p>A partir de 1961, o partido decidiu instalar o seu secretariado-geral em Conacri, capital da Rep\u00fablica da Guin\u00e9. Entre outras a\u00e7\u00f5es, praticou uma pol\u00edtica de estreitas rela\u00e7\u00f5es internacionais com a Arg\u00e9lia e com a Rep\u00fablica \u00c1rabe Unida, inscrevendo-se num movimento mais amplo do que apenas o da luta contra o colonialismo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a alian\u00e7a com os pa\u00edses socialistas era estreita e a contribui\u00e7\u00e3o em meios t\u00e9cnicos, humanos e em apoio para a forma\u00e7\u00e3o nos seus pa\u00edses foi significativa. O discurso em rela\u00e7\u00e3o ao sistema socialista era claro: \u00abComo toda a gente sabe, os pa\u00edses socialistas t\u00eam uma clara posi\u00e7\u00e3o anticolonialista e anti-imperialista. Tal n\u00e3o acontece por acaso. Os partidos pol\u00edticos que dirigiram a conquista do poder pelo povo nos pa\u00edses que hoje s\u00e3o socialistas eram partidos comunistas, cuja ideologia consistia na defesa intransigente dos interesses das massas exploradas \u2013 oper\u00e1rios, camponeses e outros trabalhadores explorados \u2013 e que preconizavam a luta pol\u00edtica, atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o dessas massas exploradas, para acabar definitivamente com a sociedade capitalista e, em consequ\u00eancia, com a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.\u00bb8 Mas a pol\u00edtica de n\u00e3o-alinhamento era considerada fundamental para alargar ao m\u00e1ximo uma base de apoio internacional que contribu\u00edsse para a conquista da independ\u00eancia: \u00ab\u00c9 esta pol\u00edtica que \u00e9 a mais conveniente aos interesses dos nossos povos na etapa atual da nossa hist\u00f3ria. Estamos convencidos disso. Mas, para n\u00f3s, n\u00e3o-alinhamento n\u00e3o quer dizer voltar as costas aos problemas fundamentais da humanidade, \u00e0 justi\u00e7a. N\u00e3o-alinhamento para n\u00f3s \u00e9 n\u00e3o se comprometer com blocos, n\u00e3o nos alinharmos pelas decis\u00f5es dos outros.\u00bb9<\/p>\n<p>A escolha pela luta armada em grande medida dependeria dessa rede de solidariedade internacional, e a decis\u00e3o s\u00f3 seria tomada quando se considerassem esgotadas as tentativas de a\u00e7\u00e3o legal dos grupos nacionalistas, que se chocavam sempre com a barreira levantada pelas autoridades colonialistas portuguesas. \u00c9 s\u00f3 ap\u00f3s o massacre dos marinheiros do cais de Pidjiguiti, que exigiam direitos laborais, em 3 de agosto de 1959, que o partido declararia a luta armada como \u00fanica via poss\u00edvel para a independ\u00eancia. Os acontecimentos convenceram Cabral da impossibilidade de desenvolver uma contesta\u00e7\u00e3o baseada em m\u00e9todos pac\u00edficos.<\/p>\n<p>Numa a\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de quadros em 1965, Cabral apresentou a luta armada como o prolongamento da luta pol\u00edtica, como \u00faltimo recurso: \u00abO povo em armas. Essa deve ser a caracter\u00edstica fundamental de uma resist\u00eancia armada, de um povo que luta pela sua liberdade. (\u2026) Nunca \u00e9 demais repetirmos que o objetivo fundamental da nossa resist\u00eancia armada \u00e9 realizar aquilo que n\u00e3o conseguimos s\u00f3 com pol\u00edtica.\u00bb10<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos desvalorizar o peso e a efic\u00e1cia da a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica levada a cabo por Am\u00edlcar Cabral durante os anos da Guerra Colonial, que seriam tamb\u00e9m os \u00faltimos anos da sua vida. O seu tempo era passado entre Conacri e as m\u00faltiplas viagens onde dinamizava confer\u00eancias de imprensa, dava entrevistas sobre a situa\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9 e realizava reuni\u00f5es para motivar o apoio de outros pa\u00edses e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em junho de 1962, Cabral representou pela primeira vez o PAIGC perante a ONU, atrav\u00e9s de um documento intitulado \u00abO povo da Guin\u00e9 perante as Na\u00e7\u00f5es Unidas\u00bb.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1966, foi em Havana, no decorrer da Tricontinental \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o de Solidariedade dos Povos da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, que fez a interven\u00e7\u00e3o considerada como uma contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica original no plano hist\u00f3rico-filos\u00f3fico, desenvolvendo a an\u00e1lise da marcha da luta dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>\u00abSe \u00e9 verdade que uma revolu\u00e7\u00e3o pode falhar mesmo alimentada por teorias perfeitamente concebidas, ainda ningu\u00e9m realizou uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa sem teoria revolucion\u00e1ria. Os que afirmam \u2013 e com raz\u00e3o \u2013 que a for\u00e7a motora da hist\u00f3ria \u00e9 a luta de classes estariam certamente de acordo para rever esta afirma\u00e7\u00e3o, a fim de a precisar e de lhe dar um campo de aplica\u00e7\u00e3o ainda mais vasto, se conhecessem mais profundamente as caracter\u00edsticas essenciais de certos povos colonizados, quer dizer dominados pelo imperialismo. Com efeito, na evolu\u00e7\u00e3o geral da humanidade e de cada um dos povos que a comp\u00f5em, as classes n\u00e3o aparecem nem como fen\u00f4meno generalizado e simult\u00e2neo na totalidade desses grupos, nem como um todo acabado, perfeito, uniforme e espont\u00e2neo. A defini\u00e7\u00e3o de classes, no seio de um ou v\u00e1rios grupos humanos, \u00e9 uma consequ\u00eancia fundamental do desenvolvimento progressivo das for\u00e7as produtivas e das caracter\u00edsticas da distribui\u00e7\u00e3o das riquezas produzidas por este grupo ou confiscadas a outros grupos. (\u2026) Tudo isto permite levantar a seguinte quest\u00e3o: ser\u00e1 que a hist\u00f3ria s\u00f3 come\u00e7a a partir do momento em que se desenvolve o fen\u00f4meno \u00abclasse\u00bb e por consequ\u00eancia a luta de classes?<\/p>\n<p>Responder afirmativamente seria situar fora da hist\u00f3ria todo o per\u00edodo de vida dos grupos humanos que vai da descoberta da ca\u00e7a, e posteriormente da agricultura n\u00f4made e sedent\u00e1ria, at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o dos rebanhos e a apropria\u00e7\u00e3o privada da terra. Seria ent\u00e3o tamb\u00e9m \u2013 o que nos recusamos a aceitar \u2013 considerar que muitos grupos humanos da \u00c1frica, da \u00c1sia e da Am\u00e9rica Latina, viviam sem hist\u00f3ria, no momento em que foram submetidos ao jugo do imperialismo. (\u2026) Admitimos sem custo que este fator da hist\u00f3ria de cada grupo humano \u00e9 o modo de produ\u00e7\u00e3o \u2013 o n\u00edvel das for\u00e7as produtivas e o regime de propriedade \u2013 que caracteriza esse agrupamento. Mais ainda, como se viu, a defini\u00e7\u00e3o de classe e a luta de classes s\u00e3o elas pr\u00f3prias o efeito do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas conjugadas com o regime de propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece-nos pois correto concluir que o n\u00edvel das for\u00e7as produtivas, elemento determinante essencial do conte\u00fado e da f\u00f3rmula da luta de classes, \u00e9 a verdadeira e permanente for\u00e7a motora da hist\u00f3ria. Se aceitarmos esta conclus\u00e3o, desfazem-se as d\u00favidas que perturbaram o nosso esp\u00edrito. Porque, se de um lado verificamos que est\u00e1 garantida a exist\u00eancia da hist\u00f3ria antes da luta de classes e evitamos assim reduzir alguns grupos humanos dos nossos pa\u00edses \u2013 e talvez do nosso continente \u2013 \u00e0 triste condi\u00e7\u00e3o de povo sem hist\u00f3ria; por outro lado, pomos a claro a continuidade da hist\u00f3ria, mesmo ap\u00f3s o desaparecimento da luta de classes ou das pr\u00f3prias classes. (\u2026) A eternidade n\u00e3o \u00e9 deste mundo, mas o homem sobreviver\u00e1 \u00e0s classes e continuar\u00e1 a produzir e a fazer a hist\u00f3ria, j\u00e1 que n\u00e3o se pode libertar do fardo das suas necessidades, das suas m\u00e3os e do seu c\u00e9rebro, que est\u00e3o na base do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas\u00bb.11<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1972, deslocou-se a Addis Abeba para prestar depoimento perante a 163.\u00aa Sess\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a. No final da sua interven\u00e7\u00e3o, Cabral convidou o organismo a enviar uma comiss\u00e3o ao interior da Guin\u00e9 para confirmar a exist\u00eancia das zonas j\u00e1 libertadas pelo PAIGC. A visita teve lugar de 18 de mar\u00e7o a 9 de abril de 1972. Por raz\u00f5es de seguran\u00e7a, os observadores foram for\u00e7ados a ficar mais tempo no terreno, o que constituiria uma importante vit\u00f3ria pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Este esfor\u00e7o diplom\u00e1tico foi, desta forma, acompanhado da cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica nas zonas libertadas. Toda a orienta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do PAIGC tinha por preocupa\u00e7\u00e3o a gradual melhoria do n\u00edvel de vida das popula\u00e7\u00f5es destas zonas. Aumentaram-se as produ\u00e7\u00f5es e diversificaram-se as culturas, criaram-se os Armaz\u00e9ns do Povo para fornecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o artigos de primeira necessidade. O governo das regi\u00f5es libertadas efetuou-se atrav\u00e9s de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os, desde o Congresso, ao Conselho Superior da Luta, o Comit\u00ea Executivo da Luta, o Comit\u00ea Nacional das regi\u00f5es libertadas. O trabalho pol\u00edtico continuou intimamente ligado \u00e0 a\u00e7\u00e3o militar, j\u00e1 que correspondia \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de clandestinidade a que o partido era for\u00e7ado.<\/p>\n<p>O reconhecimento internacional da independ\u00eancia da Guin\u00e9 deveria seguir o processo de elei\u00e7\u00e3o da primeira Assembleia Nacional Popular nas zonas libertadas, que se realizaria por sufr\u00e1gio direto e universal, dando prova do controle de territ\u00f3rio em certas zonas do pa\u00eds: o PAIGC mostrava uma m\u00e1quina administrativa capaz de realizar um processo eleitoral em tempo de guerra, num territ\u00f3rio delimitado e com uma popula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. A independ\u00eancia foi proclamada unilateralmente em 24 de setembro de 1973 e consagrada em 10 de setembro de 1974, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 25 de abril em Portugal. Am\u00edlcar Cabral j\u00e1 n\u00e3o assistiria ao desfecho da luta \u00e0 qual tinha dedicado a sua vida, tendo sido assassinado em 20 de janeiro de 1973.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o algumas notas de um percurso singular e que, por si s\u00f3, imp\u00f5e respeito. Pela intelig\u00eancia com que articulou politicamente as posi\u00e7\u00f5es de um povo em luta pela sua liberta\u00e7\u00e3o, sem abrir m\u00e3o de princ\u00edpios, mas sem multiplicar trincheiras que poderiam ser contraproducentes, Am\u00edlcar Cabral foi capaz de propor, junto das reivindica\u00e7\u00f5es de uma luta anticolonial, um projeto de pa\u00eds que se transformaria para muito al\u00e9m da independ\u00eancia formal.<\/p>\n<p>1. s.a., Manual Pol\u00edtico, p. 10<br \/>\n2. PEREIRA, Aristides, Uma Luta, um Partido, dois Pa\u00edses, Guin\u00e9-Bissau e Cabo Verde, p.85<br \/>\n3. TOM\u00c1S, Ant\u00f3nio, O Fazedor de Utopias, uma biografia de Am\u00edlcar Cabral, p. 88<br \/>\n4. SOUSA, Juli\u00e3o Soares, Os movimentos unit\u00e1rios anti-colonialistas (1954-1960), o contributo de Am\u00edlcar Cabral in Estudos do s\u00e9culo XX, p.336<br \/>\n5. CABRAL, Am\u00edlcar, Textos pol\u00edticos de Am\u00edlcar Cabral, p. 64 \u00abSe a queda do fascismo em Portugal poderia n\u00e3o conduzir ao fim do colonialismo \u2013 hip\u00f3tese ali\u00e1s admitida por alguns dos l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o portuguesa \u2013 n\u00f3s estamos certos de que a liquida\u00e7\u00e3o do colonialismo portugu\u00eas arrastar\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o do fascismo em Portugal. Atrav\u00e9s da nossa luta de liberta\u00e7\u00e3o, n\u00f3s contribu\u00edmos eficazmente para a queda do fascismo portugu\u00eas e damos ao povo de Portugal a melhor prova da nossa solidariedade.\u00bb<br \/>\n6. CABRAL, Am\u00edlcar, An\u00e1lise dos tipos de resist\u00eancia: resist\u00eancia pol\u00edtica, pp. 3-4<br \/>\n7. DAVIDSON, Basil, The Liberation of Guin\u00e9, aspects of an African Revolution, p.78<br \/>\n8. s.a., Manual Pol\u00edtico, pp. 65-66.<br \/>\n9. idem, p. 96 (interven\u00e7\u00e3o na 2.\u00aa Confer\u00eancia da C.O.N.C.P. em 1965).<br \/>\n10. CABRAL, Am\u00edlcar, An\u00e1lise dos tipos de resist\u00eancia: resist\u00eancia armada, pp. 16, 23.<br \/>\n11. CABRAL, Am\u00edlcar, Textos pol\u00edticos de Am\u00edlcar Cabral, pp. 35-39<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29854\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[177,1,65,10],"tags":[234],"class_list":["post-29854","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-geral","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Lw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29854"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29854\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}