{"id":29957,"date":"2023-02-14T18:43:32","date_gmt":"2023-02-14T21:43:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29957"},"modified":"2023-02-14T18:43:32","modified_gmt":"2023-02-14T21:43:32","slug":"jose-rodrigues-dos-santos-100-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29957","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: 100 anos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/unnamed-3.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Um sindicalista negro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por Carlos Rico (CNMO Maring\u00e1), via\u00a0<\/strong><strong>COLETIVO NEGRO MINERVINO DE OLIVEIRA<\/strong><\/p>\n<p>Nascia no dia 05 de janeiro de 1923, em Cabeceira do Mocambo (BA), JOS\u00c9 RODRIGUES DOS SANTOS, \u201cum dos mais importantes l\u00edderes do movimento sindical rural do Estado [Paran\u00e1] e do Brasil.\u201d, nas palavras do historiador Angelo Priori [1], tendo participado \u201cdiretamente, da funda\u00e7\u00e3o de 86 sindicatos em toda a regi\u00e3o e da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Lavoura do Estado do Paran\u00e1\u201d. [2]<\/p>\n<p>Falar das lutas populares no Brasil significa lembrar e prestar rever\u00eancia a personagens como Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos, cuja trajet\u00f3ria militante contribuiu de maneira decisiva na organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora do pa\u00eds. N\u00e3o se pode falar das lutas sindicais no Brasil sem mencionar os sacrif\u00edcios e o empenho de homens e mulheres como Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos.<\/p>\n<p>Teve papel important\u00edssimo na organiza\u00e7\u00e3o sindical de trabalhadoras e trabalhadores rurais em um per\u00edodo em que a luta pela terra no Brasil apresentava contornos de tens\u00e3o extremos. A Guerra de Porecatu, conflito armado entre pequenos propriet\u00e1rios e posseiros contra os grandes propriet\u00e1rios e grileiros de terra nas cidades de Porecatu, Jaguapit\u00e3 e Centen\u00e1rio do Sul no norte do Paran\u00e1 ocorrido na d\u00e9cada de 1940, \u00e9 um dos principais eventos que marcam as d\u00e9cadas de 40 e 50 do s\u00e9culo XX [3].<\/p>\n<p>Por conta desses conflitos, em 1954, a Uni\u00e3o dos Lavradores e Trabalhadores Agr\u00edcolas do Brasil (ULTAB), dirigida politicamente pelo Partido Comunista Brasileiro, colocou como tarefa pol\u00edtica das suas lideran\u00e7as e dirigentes a organiza\u00e7\u00e3o sindical dos trabalhadores rurais no norte do Paran\u00e1. Assim, em 1956, de forma pioneira, \u00e9 criado em Maring\u00e1 o Sindicato de Empregados Rurais de Maring\u00e1, tendo como presidente Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadoras e trabalhadores rurais tinha como contesta\u00e7\u00e3o imediata o regime de trabalho, em que os trabalhadores n\u00e3o recebiam o sal\u00e1rio integralmente em dinheiro corrente e recebiam parte em \u2018bor\u00f3\u2019, moeda paralela que circulava em cada fazenda. Al\u00e9m do n\u00e3o cumprimento da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, sem direito a sal\u00e1rio m\u00ednimo e f\u00e9rias, os propriet\u00e1rios impediam os trabalhadores de cultivar alimentos para subsist\u00eancia que podiam ser produzidos em conjunto nos cafezais [4]. Os casos de persegui\u00e7\u00e3o, ass\u00e9dio e viol\u00eancia tamb\u00e9m eram comuns, como relatou Bonif\u00e1cio Martins [5], vinculado ao PCB, vereador por Maring\u00e1 entre os anos de 1956 e 1964, outro personagem importante da hist\u00f3ria das lutas populares de Maring\u00e1 e do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Assim, como relata o pr\u00f3prio Jos\u00e9 Rodrigues no livro AS MEM\u00d3RIAS DO SINDICALISTA JOS\u00c9 RODRIGUES DOS SANTOS, \u201cem 54, ficou bem conhecida na regi\u00e3o a luta contra o bor\u00f3 [\u2026], a not\u00edcia foi \u201cpublicada [no jornal \u2018Terra Livre\u2019] e o Partido me chamou para integrar-me como militante e depois como quadro.\u201d [6]. A a\u00e7\u00e3o do PCB teve grande impacto na organiza\u00e7\u00e3o das lutas sociais do norte do Paran\u00e1:<\/p>\n<p>\u201cEm Londrina havia muitas c\u00e9lulas do partido, inclusive na regi\u00e3o rural. Foi nessa \u00e9poca que come\u00e7ou a vir gente de fora. Foi quando veio o Jo\u00e3o Saldanha, do Comit\u00ea Central, que ficou um ano e pouco vindo e ficando dez, quinze, vinte dias. Veio tamb\u00e9m o Greg\u00f3rio Bezerra, o M\u00e1rio Rosas, o Agriberto de Azevedo, o M\u00e1rio Alves, que era jornalista, e o Grabois.\u201d [7]<\/p>\n<p>Em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 modesta por\u00e9m r\u00e1pida mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, a Igreja Cat\u00f3lica do Paran\u00e1, representada pelos bispos de Maring\u00e1, Londrina, Campo Mour\u00e3o e Jacarezinho, decidiu por organizar a Frente Agr\u00e1ria Paranaense (FAP), uma entidade que visava combater a influ\u00eancia comunista entre trabalhadoras e trabalhadores rurais [8]. De acordo com depoimento do padre Osvaldo Rambo [9]:<\/p>\n<p>\u2015 Havia um rapaz, que via longe, um tipo\u2018 negro mas que era muito ativo. Rapaz muito astuto, fazia facilmente v\u00e1rios amigos. Ele come\u00e7ou a trabalhar com a organiza\u00e7\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es e dos sindicatos de orienta\u00e7\u00e3o de esquerda. Logo, n\u00f3s da igreja, os padres das par\u00f3quias; alguns, observamos isso a tempo. [\u2026] Mas n\u00f3s, considerando que esse rapaz, Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos, tinha \u00eaxito, de fato, em organizar o movimento. Assim sendo, n\u00f3s, dentro da igreja, os bispos, dois, tr\u00eas bispos da regi\u00e3o norte [\u2026] pensamos que dever\u00edamos fazer alguma coisa em oposi\u00e7\u00e3o a esse movimento.<\/p>\n<p>Forjado a partir da mis\u00e9ria, da fome e da viol\u00eancia de classe que viu e viveu na pele desde crian\u00e7a, foge de casa aos 13 anos em 1936: \u201cO in\u00edcio da minha caminhada come\u00e7a por a\u00ed, procurando, fugindo, trabalhando, pensando e querendo mudar este mundo.\u201d [10]. Viveu boa parte da vida vida fugindo, lutando, se rebelando, perseguido e na clandestinidade numa \u00e9poca em que a organiza\u00e7\u00e3o e a manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora eram reprimidas de forma sistem\u00e1tica pelos patr\u00f5es e pelas for\u00e7as do Estado.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos tamb\u00e9m foi suplente de vereador em Maring\u00e1 na chapa que elegeu Bonif\u00e1cio Martins em 1960, assumindo a fun\u00e7\u00e3o legislativa em 1963 durante um afastamento de Bonif\u00e1cio e pode ter sido o primeiro vereador negro da hist\u00f3ria da cidade. Foi perseguido pela ditadura empresarial-militar assim como outras lideran\u00e7as populares, caso do pr\u00f3prio Bonif\u00e1cio Martins e de Jos\u00e9 Lopes dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Constru\u00e7\u00e3o Civil de Maring\u00e1, segundo suplente da chapa comunista eleita em 1960. Importante lembrar que, embora militantes ou vinculados ao PCB, n\u00e3o concorreram como candidatos do partido, uma vez que o PCB teve seu registro cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 1947.<\/p>\n<p>Conforme Celene Tonella, Jorge Villalobos e Reginaldo Dias, autores do livro AS MEM\u00d3RIAS DO SINDICALISTA JOS\u00c9 RODRIGUES DOS SANTOS:<\/p>\n<p>\u201cJos\u00e9 Rodrigues dos Santos pode ser definido [\u2026] como um caso emblem\u00e1tico daquelas pessoas que adquiriram cidadania atrav\u00e9s da milit\u00e2ncia pol\u00edtica, partid\u00e1ria e sindical. Homem pobre, negro e analfabeto at\u00e9 os 23 anos, n\u00e3o foi barrado pelos obst\u00e1culos de uma sociedade discriminat\u00f3ria e excludente. Tornou-se l\u00edder sindical e partid\u00e1rio que circulava entre pol\u00edticos da envergadura de Jo\u00e3o Goulart e Brizola, e de dirigentes partid\u00e1rios como Prestes, Greg\u00f3rio Bezerra e Carlos Marighella, entre outros.\u201d [11]<\/p>\n<p>Trabalhador rural nas mais diversas culturas, mineiro, mesmo quando j\u00e1 era lideran\u00e7a popular reconhecida, combinava a sua atividade profissional e sua condi\u00e7\u00e3o de classe com a atividade pol\u00edtica no PCB e no movimento sindical:<\/p>\n<p>\u201cMeu sonho foi sempre escrever um livro. Eu quis, acumulei um material muito grande, para escrever a hist\u00f3ria, a situa\u00e7\u00e3o do homem do campo. Quero caracterizar o latif\u00fandio como um dos maiores crimes, porque tira tudo da terra e n\u00e3o devolve nada a ela. Quero mostrar todas as injusti\u00e7as praticadas, em todos os recantos do Pa\u00eds: despejo, assassinato, m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o, preconceito e todas essas coisas. Isso para dar um sentido, uma orienta\u00e7\u00e3o para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Falar das injusti\u00e7as, das morda\u00e7as colocadas na sociedade, da verdadeira hist\u00f3ria.\u201d [12]<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>[1] PRIORI, A. (1999). Lutas sociais e conflito pol\u00edtico: alguns temas da hist\u00f3ria de Maring\u00e1 (O II Congresso de Trabalhadores rurais e a forma\u00e7\u00e3o da Frente Agr\u00e1ria Paranaense). In DIAS, R. B., GON\u00c7ALVES, J. H. R. (Orgs.), Maring\u00e1 e o Norte do Paran\u00e1: estudos de hist\u00f3ria regional, Maring\u00e1, PR: EDUEM.<\/p>\n<p>[2] TONELLA, C., VILLALOBOS, J. U. G., DIAS, R. B. (1999). As mem\u00f3rias do sindicalista Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: as lutas dos trabalhadores rurais do Paran\u00e1. Maring\u00e1: EDUEM. p. 04.<\/p>\n<p>[3] A revolta de Porecatu. Acesso em 25 de novembro de 2021. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/memorialdademocracia.com.br\/conflitos\/pr&gt;<\/p>\n<p>[4] SILVA, O. H., O nascimento dos sindicatos rurais e o sindicalismo comunista no Paran\u00e1. In 2\u00b0 M\u00d3DULO DO CURSO DE FORMA\u00c7\u00c3O DE EDUCADORES E EDUCADORAS EM CONCEP\u00c7\u00c3O, PR\u00c1TICA SINDICAL E METODOLOGIA DA FORMA\u00c7\u00c3O, S\u00e3o Jos\u00e9, SC: CONTAG. Acesso em 25 de novembro de 2021. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.contag.org.br\/imagens\/f752cadernodetextosIImodulocursosul.pdf<\/p>\n<p>[5] MARTINS, Bonif\u00e1cio. Entrevista. Concedida \u00e0 Divis\u00e3o de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico de Maring\u00e1. 1995.<\/p>\n<p>[6] TONELLA, C., VILLALOBOS, J. U. G., DIAS, R. B. (1999). As mem\u00f3rias do sindicalista Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: as lutas dos trabalhadores rurais do Paran\u00e1. Maring\u00e1: EDUEM. p. 45.<\/p>\n<p>[7] TONELLA, C., VILLALOBOS, J. U. G., DIAS, R. B. (1999). As mem\u00f3rias do sindicalista Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: as lutas dos trabalhadores rurais do Paran\u00e1. Maring\u00e1: EDUEM. p. 56.<\/p>\n<p>[8] [9] SILVA, O. H. (1993) apud PRIORI, A. (1999). Lutas sociais e conflito pol\u00edtico: alguns temas da hist\u00f3ria de Maring\u00e1 (O II Congresso de Trabalhadores rurais e a forma\u00e7\u00e3o da Frente Agr\u00e1ria Paranaense). In DIAS, R. B., GON\u00c7ALVES, J. H. R. (Orgs.), Maring\u00e1 e o Norte do Paran\u00e1: estudos de hist\u00f3ria regional, Maring\u00e1, PR: EDUEM, p. 142.<\/p>\n<p>[10] TONELLA, C., VILLALOBOS, J. U. G., DIAS, R. B. (1999). As mem\u00f3rias do sindicalista Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: as lutas dos trabalhadores rurais do Paran\u00e1. Maring\u00e1: EDUEM. p. 17.<\/p>\n<p>[11] TONELLA, C., VILLALOBOS, J. U. G., DIAS, R. B. (1999). As mem\u00f3rias do sindicalista Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: as lutas dos trabalhadores rurais do Paran\u00e1. Maring\u00e1: EDUEM. p. 05-06.<\/p>\n<p>[12] TONELLA, C., VILLALOBOS, J. U. G., DIAS, R. B. (1999). As mem\u00f3rias do sindicalista Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: as lutas dos trabalhadores rurais do Paran\u00e1. Maring\u00e1: EDUEM. p. 102.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29957\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[224],"class_list":["post-29957","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Nb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29957"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29957\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}