{"id":29975,"date":"2023-02-15T15:26:26","date_gmt":"2023-02-15T18:26:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=29975"},"modified":"2023-02-15T15:26:26","modified_gmt":"2023-02-15T18:26:26","slug":"mulher-negra-comunista-maria-aragao-e-o-pcb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29975","title":{"rendered":"Mulher negra comunista: Maria Arag\u00e3o e o PCB"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"29976\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29975\/image-1-15\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image-1.png?fit=580%2C400&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"580,400\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (1)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image-1.png?fit=580%2C400&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-29976\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image-1.png?resize=580%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image-1.png?w=580&amp;ssl=1 580w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image-1.png?resize=300%2C207&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis<\/strong><\/p>\n<p>Maria Jos\u00e9 de Camargo Arag\u00e3o, nascida em 10 de fevereiro de 1910, no Engenho Central, interior do Maranh\u00e3o, \u00e1rea de conflitos de terra, concluiu o Curso Normal em S\u00e3o Lu\u00eds. Em 1934, foi para o Rio de Janeiro com a m\u00e3e doente, que morreu logo depois. Enfrentando sacrif\u00edcios e passando fome, ingressou no Curso de Medicina, na antiga Universidade do Brasil e conseguiu cumprir o sonho de formar-se m\u00e9dica, em novembro de 1942.<\/p>\n<p>Foi trabalhar no Rio Grande do Sul, onde sofreu preconceito por ser m\u00e3e solteira. Sua filha morreu v\u00edtima de uma epidemia, o que a fez retornar para o Rio. Em 1944, entrou para o PCB, ap\u00f3s participar do hist\u00f3rico com\u00edcio de Carlos Prestes em S\u00e3o Janu\u00e1rio. Em 1945, voltou ao Maranh\u00e3o para organizar o Partido. Dirigindo o jornal Tribuna do Povo, revelou-se grande agitadora e organizadora pol\u00edtica. Em 1951, durante a revolta popular que explodiu no Estado contra as pr\u00e1ticas coronelistas de Vitorino Freire, foi presa pela primeira vez. Passou mais de oitenta dias presa, mas recebeu solidariedade de muita gente do povo.<\/p>\n<p>Durante a ditadura de 1964-1985, foi perseguida, presa e torturada em diversas ocasi\u00f5es. Neste per\u00edodo, fez da medicina e da aten\u00e7\u00e3o aos prolet\u00e1rios sua principal miss\u00e3o. Na d\u00e9cada de 1980, dirigiu o Sindicato dos M\u00e9dicos, atuou na greve dos profissionais de sa\u00fade e na cria\u00e7\u00e3o da Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos. Faleceu aos 81 anos, em 1991. Milhares de pessoas participaram do seu vel\u00f3rio e do enterro, que se transformou num ato pol\u00edtico promovido por entidades sociais e partidos de esquerda. No Centro Hist\u00f3rico da capital maranhense, em 2003, foi inaugurado o Memorial Pra\u00e7a Maria Arag\u00e3o, projetado por Oscar Niemeyer.<\/p>\n<p><strong>O ingresso de Maria Arag\u00e3o no PCB<\/strong><\/p>\n<p>Fonte: Portal TraduAgindo<\/p>\n<p>Trecho do depoimento autobiogr\u00e1fico de Maria Jos\u00e9 Arag\u00e3o, mulher negra, nordestina, m\u00e9dica e militante comunista.<\/p>\n<p>O relato trata do in\u00edcio da organiza\u00e7\u00e3o de Maria Arag\u00e3o no ent\u00e3o Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1945. Maria Arag\u00e3o retornou ao Maranh\u00e3o com a miss\u00e3o de refor\u00e7ar o PCB. Na \u00e9poca, o Partido chegou a ter mais de dois mil militantes, incluindo o interior do Estado, onde a m\u00e9dica era tratada como prostituta ou besta-fera por alguns padres que incitavam a popula\u00e7\u00e3o contra ela, dizendo que \u201ccomia criancinhas\u201d. Na cidade de Cod\u00f3, chegou a ser apedrejada.<\/p>\n<p>Originalmente dispon\u00edvel no livro \u201cMaria por Maria ou a Saga da Besta-Fera nos Por\u00f5es do C\u00e1rcere e da Ditadura\u201d de Euclides Moreira Neto, publicado pela Editora Engenho, em 2015. Dispon\u00edvel aqui.<\/p>\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o de Andrey Santiago.<\/p>\n<p>Bem, mas eu disse:<\/p>\n<p>\u2013 Eu vou entrar, voc\u00eas j\u00e1 sabem como eu sou. E eles sabiam que eu era teimosa, que eu sou teimosa. A\u00ed, de manh\u00e3 fui procurar a Mochel, eram duas Mochel, ambas morreram, a Celina e a Eline.<\/p>\n<p>Eline era minha colega de turma, nunca me convidou pra entrar no Partido.<\/p>\n<p>\u2013 Me convidou depois para sair do Partido e ir pro PC do B, e eu mandei-a pra puta que a pariu (isso n\u00e3o \u00e9 pra sair?). Bem, ent\u00e3o eu fui l\u00e1 onde as Mochel e disse:<\/p>\n<p>\u2013 Eu quero entrar pro Partido Comunista.<\/p>\n<p>A\u00ed elas disseram:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3timo, muito bem, t\u00e1 aqui, assina uma ficha.<\/p>\n<p>\u2013 Tinha uma ficha pra assinar e a\u00ed me levaram, apresentaram l\u00e1 e me puseram para estudar os estatutos.<\/p>\n<p>\u2013 Que raiva que eu tenho disso hoje, quanto eu sofri por causa disso, como foi dolorosa a minha forma\u00e7\u00e3o como comunista por causa desse descaso, por isso tive que estudar as coisas.<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed o partido precisou de gente pra trabalhar, pra construir a sua sede. Eu me atirei apaixonadamente nas obras.<\/p>\n<p>\u2013 Eu s\u00f3 sei fazer essas coisas\u2026 inclusive, meus erros eu os cometo apaixonadamente.<\/p>\n<p>\u2013 Sou assim mesmo, \u00e9 minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem, ent\u00e3o eu comecei a trabalhar, procurei todos, principalmente os que eram maranhenses, os que eu conhecia, meus amigos, meus alunos pra dar dinheiro, pra tatat\u00e1, tatat\u00e1 e tal e chamei aten\u00e7\u00e3o pela minha f\u00faria.<\/p>\n<p>A\u00ed disseram o seguinte:<\/p>\n<p>\u2013 Quem pode ir para o Maranh\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Quem pudesse ir para o Maranh\u00e3o, devia vir, pois, aqui estavam precisando de militantes pra levantar o Partido.<\/p>\n<p>Maria se autocriticando, revela:<\/p>\n<p>\u2013 A idiota da Maria Arag\u00e3o berra \u201ceu posso!\u201d\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Eu posso! Foi o que disse, pois vinha em grupo pra c\u00e1, inclusive um fulano que dizia ter sido da \u201cColuna\u201d, mas Prestes n\u00e3o se lembrava dele. E a mem\u00f3ria de Prestes \u00e9 fotogr\u00e1fica, hoje ele se lembra, locais, datas, \u00e9 impressionante, com 90 anos que ele fez agora.<\/p>\n<p>\u2013 Bem, Prestes n\u00e3o se lembrava dele.<\/p>\n<p>\u2013 Ele se chamava Euclides Neiva. Ent\u00e3o, veio um grupo de maranhenses pra c\u00e1 e eu vim tamb\u00e9m, n\u00e3o veio o meu companheiro, meu ex-companheiro.<\/p>\n<p>\u2013 Eu vim pro Maranh\u00e3o, sem saber porra nenhuma.<\/p>\n<p>\u2013 Um amigo meu, Dalc\u00eddio Jurandir, era um escritor, tem livros publicados e me deu v\u00e1rios conselhos.<\/p>\n<p>Ele me disse:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea precisa ler.<\/p>\n<p>Foi a primeira pessoa que me disse isso:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea precisa ler.<\/p>\n<p>Eu disse:<\/p>\n<p>\u2013 Mas o que \u00e9 que eu vou ler? Os miser\u00e1veis (referindo-se aos seus companheiros de Partido) nunca me disseram isso, me deram uma lista de livros pra eu estudar, bem, nunca tive isso.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, venho pro Maranh\u00e3o, assim nua e crua, sem nada, nada, nada, nada.<\/p>\n<p>\u2013 Esse \u00e9 o \u00f3dio que eu tenho maior da vida, porque isso me fez cometer erros grav\u00edssimos.<\/p>\n<p>\u2013 Bem, ent\u00e3o ele me deu um livro pra ler, um livro volumoso assim (faz gestos).<\/p>\n<p>\u2013 Era um livro sobre L\u00eanin.<\/p>\n<p>\u2013 \u2026 como \u00e9 que eu podia ler aquele livro, meu Deus? Anos depois, eu entendia que aquele livro iria me fundamentar teoricamente.<\/p>\n<p>\u2013 Era uma pol\u00eamica, entre L\u00eanin e St\u00e1lin.<\/p>\n<p>Bem, ent\u00e3o eu vim pra c\u00e1, vim furiosamente, loucamente, pegava jornal, os novos jornais e sabia not\u00edcia de jornal, e era em cima do que tava no jornal que eu discutia, brigava, que eu fazia, que eu convocava gente e ia pra porta de f\u00e1brica, numa verdadeira loucura.<\/p>\n<p>Havia aqui um grupo de comunistas, velhos comunistas, homens s\u00e9rios, e eu queria que eles fizessem propaganda.<\/p>\n<p>Eles diziam:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea entrou agora, voc\u00ea tem raz\u00e3o de acreditar que \u00e9 poss\u00edvel a legalidade. N\u00f3s t\u00ednhamos ido \u00e0 legalidade, Prestes indo pro com\u00edcio e falando em nome do Partido Comunista.<\/p>\n<p>E ele entrou\u2026 a legalidade n\u00e3o teve uma lei, n\u00e3o teve porra nenhuma. Ent\u00e3o estava na legalidade\u2026 (interrompe para atender um vizinho de l\u00e1).<\/p>\n<p>Sim, ent\u00e3o eu vim pra c\u00e1 e comecei a trabalhar sem nenhuma base te\u00f3rica e a cometer erros, a querer que aqueles companheiros fizessem a mesma coisa que eu. Eles diziam:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea tem meses de Partido e n\u00f3s temos anos, voc\u00ea entrou na legalidade e n\u00f3s temos n\u00e3o sei quantos tempos de pris\u00e3o em Ilha Grande, n\u00f3s perdemos emprego, n\u00f3s n\u00e3o conseguimos\u2026<\/p>\n<p>Eu ficava pensativa\u2026:<\/p>\n<p>\u2013 Meu Deus, eu n\u00e3o sentia aquilo, isso me d\u00f3i hoje.<\/p>\n<p>\u2013 Maranh\u00e3o, Maranh\u00e3o, isso me d\u00f3i hoje, me d\u00f3i muito, viu?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o disse:<\/p>\n<p>\u2013 Fa\u00e7a voc\u00ea, voc\u00ea pode, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o fa\u00e7a. Eu fazia. Ia pra porta de f\u00e1brica, fazia com\u00edcio em porta de f\u00e1brica, colava, mexia, pintava caneco, meu Deus que coisa horrorosa!<\/p>\n<p>Cometia erros, por exemplo, esse:<\/p>\n<p>\u2013 Era um querer arrast\u00e1-los para fazer aquilo que eles n\u00e3o podiam fazer e eles tinham raz\u00e3o. Tinha um companheiro de quem eu gostava muito. Ele se chamava Queiroz.<\/p>\n<p>Maria se perguntava:<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 o primeiro nome dele?<\/p>\n<p>Ela mesma se respondia:<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o me lembro, mas sei que ele \u00e9 Queiroz. Queiroz tinha sido expulso do Ex\u00e9rcito, vivia de bisca- te, n\u00e3o sei de que, babab\u00e1, babab\u00e1, babab\u00e1\u2026<\/p>\n<p>N\u00f3s \u00edamos vender jornal e ele n\u00e3o queria sair.<\/p>\n<p>Ele dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Maria, eu sou um homem velho.<\/p>\n<p>Eu dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Tu \u00e9s velho nada.<\/p>\n<p>Eu sabia que ele tinha uma mulher na rua.<\/p>\n<p>\u2013 Tu tens mulher na rua, com filho de dois anos, como \u00e9 que tu \u00e9s velho?<\/p>\n<p>\u2013 Tu n\u00e3o \u00e9s velho nada.<\/p>\n<p>\u2013 Eu arrastava o velho pra trabalhar comigo, era o \u00fanico que tinha coragem mesmo de sair e que sa\u00eda comigo.<\/p>\n<p>\u2013 Ele sa\u00eda reclamando, mas sa\u00eda, sect\u00e1rio danado, n\u00f3s \u00edamos fazer finan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2013 Me lembrei, como me lembrei dele! Foi horr\u00edvel a morte dele, me puseram pra falar, eu falei chorando, foi horr\u00edvel, disse que nunca mais falava em enterro de ningu\u00e9m, falei.<\/p>\n<p>\u2013 Greg\u00f3rio Bezerra, ent\u00e3o, ele ia fazer finan\u00e7as com um cara desse conhecido aqui viu. Preciso de dinheiro pro jornal tatat\u00e1, tatat\u00e1\u2026<\/p>\n<p>E o homem dizia:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, eu n\u00e3o posso dar.<\/p>\n<p>Ele dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Olha rapaz (passando a m\u00e3o no pesco\u00e7o), olha a revolu\u00e7\u00e3o, olha a revolu\u00e7\u00e3o, chega a\u00ed\u2026<\/p>\n<p>A\u00ed ele disse:<\/p>\n<p>\u2013 Espera a\u00ed, eu vou dar, vou dar.<\/p>\n<p>A\u00ed eu dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Rapaz, isso \u00e9 meu modo de amedrontar as pessoas.<\/p>\n<p>Disse ele:<\/p>\n<p>\u2013 Tu \u00e9s doido?<\/p>\n<p>Maria se pergunta a si mesma:<\/p>\n<p>\u2013 Ele deu?<\/p>\n<p>\u2026 e ela responde:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o deu.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 assim que eu sei trabalhar. Nunca vi um sujeito igual a Queiroz, eu fazia as coisas, cometia muitos erros, mas trabalhei esses anos todos, todos esses anos, mas n\u00e3o estudava, porque Euclides Neiva, que era o Secret\u00e1rio Geral que veio mandado pra c\u00e1 pra organizar o Partido, n\u00e3o estudava, ele n\u00e3o tinha nenhuma base te\u00f3rica e os outros pobres coitados tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Por infelicidade minha, fez-se uma reuni\u00e3o dos que existiam aqui e tamb\u00e9m pra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Eu era da gente pobre, era de agita\u00e7\u00e3o e propaganda, porque eu era uma agitadora mesmo, viu?<\/p>\n<p>\u2013 Mas isso que eu fiz, foi errado. Primeiro, se eu chegasse aqui tranquilamente e se fosse trabalhar como m\u00e9dica, eu me firmava aqui.<\/p>\n<p>\u2013 Eu nem sei como \u00e9 que eu cheguei a ser Maria Arag\u00e3o hoje.<\/p>\n<p>\u2013 Isso a\u00ed \u00e9 um caso digno de estudo, viu?<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o, eu cheguei aqui mandando brasa ao ponto de um jornal dizer que eu tinha vindo aqui, do Rio, tamb\u00e9m pra organizar o partido, babab\u00e1, babab\u00e1\u2026<\/p>\n<p>Perguntando a si mesma:<\/p>\n<p>\u2013 Sabe o que aconteceu?<\/p>\n<p>\u2013 O clero e a rea\u00e7\u00e3o inteirinha veio em cima de mim. Como os outros n\u00e3o apareceram, tudo era em cima de mim. Eu que era Doutora, que tinha tido um nome bom como professora aqui, era conhecida como professora, fui conhecida como aluna, era tida como aluna brilhante (risos\u2026). S\u00f3 porque eu era uma coisa diferente, o Haroldo me chamou uma vez e disse:<\/p>\n<p>\u2013 Maria, o que tu \u00e9s, \u00e9 petulante. Ela concorda para si mesma:<\/p>\n<p>\u2013 Eu acho que eu era mesmo petulante.<\/p>\n<p>\u2013 Eu hoje acho que ele tinha raz\u00e3o, eu era petulante mesmo, viu? Por isso eu fiz um curso brilhante como professora, cursei brilhantemente as tr\u00eas s\u00e9ries, eu me metia a falar, discutir, sobretudo discutir, por isso era tida petulante.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o era t\u00e3o inteligente e eu n\u00e3o era nem a mais inteligente dos meus irm\u00e3os. Eu era talvez a terceira ou quarta mais inteligente entre meus irm\u00e3os. Mas eu era tida como a mais inteligente, porque eu era isso, petulante, como Haroldo classificou muito bem. Ent\u00e3o este clero caiu em cima de mim, dizendo:<\/p>\n<p>\u2013 Chegou aqui uma mulher, uma prostituta, ela se diz que \u00e9 m\u00e9dica, mas ela n\u00e3o \u00e9 m\u00e9dica, uma dona Maria, ela \u00e9 uma prostituta, n\u00e3o se consultem com ela.<\/p>\n<p>EUCLIDES: Era prega\u00e7\u00e3o na igreja.<\/p>\n<p>MARIA ARAG\u00c3O: Prega\u00e7\u00e3o na Igreja, durante as Missas. Sei l\u00e1 quem eram esses filhos da puta.<\/p>\n<p>\u2013 Era tudo, todos os que se diziam padres.<\/p>\n<p>\u2013 Era o clero todo em cima de mim.<\/p>\n<p>\u2013 Era o clero todo, puseram at\u00e9 no jornal.<\/p>\n<p>\u2013 Eu me lembro que o padre Elias Cruz, que tinha sido meu professor, que gostava muito de mim e que um dia me encontrou no Rio de Janeiro com a minha filha no bra\u00e7o e ficou feliz de me ver. Ent\u00e3o ele veio com um babab\u00e1, babab\u00e1\u2026<\/p>\n<p>Ele disse:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 aqui. Essa garotinha \u00e9 sua afilhadinha?<\/p>\n<p>Eu disse:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, \u00e9 minha filha. Mas eu n\u00e3o sabia que voc\u00ea tinha casado.<\/p>\n<p>A\u00ed eu disse:<\/p>\n<p>\u2013 Mas eu n\u00e3o casei.<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed ele ficou me olhando meio besta, de olho arregalado, olhando pra tr\u00e1s. Olhando, parecendo que ele tinha visto n\u00e3o sei o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Parece que ele tinha visto assombra\u00e7\u00e3o, de olho esbugalhado olhando pra tr\u00e1s, porque eu disse pra ele que eu n\u00e3o tinha casado. E aquilo foi a fonte que os padres tinham pra me chamarem de prostituta.<\/p>\n<p>Pois bem, mas aqui chegou\u2026<\/p>\n<p>Maria se maldiz:<\/p>\n<p>\u2013 L\u00e1 vem o tro\u00e7o do ano, da data, n\u00e3o sei quarenta e quantos\u2026 45, 46, devia ter sido entre 46 e 47, pois o Partido ainda estava na legalidade\u2026 N\u00e3o t\u00ednhamos sa\u00eddo da legalidade, pois isso s\u00f3 aconteceu em 47\u2026.<\/p>\n<p>\u2013 Quando o regime cassou o Partido, deve ter sido de 47 para 48, a\u00ed sa\u00edmos da legalidade\u2026 foi cassado o Partido Comunista, ent\u00e3o deve ter sido de 47 para 48.<\/p>\n<p>Com convic\u00e7\u00e3o Maria declara:<\/p>\n<p>\u2013 Chegou aqui um dirigente comunista maravilhoso, Orestes Timba\u00faba. Era o nome dele. Ele me deu a maior ajuda que eu tive. Ele dizia o seguinte:<\/p>\n<p>\u2013 Olha isso que voc\u00ea fez, estava errado.<\/p>\n<p>Perguntou ele a mim:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea sabe que isso tava errado? Imediatamente, pensei:<\/p>\n<p>\u2013 Por isso, por isso, por isso deu certo, mas podia dar errado, voc\u00ea ia se arrebentar mais do que j\u00e1 se arrebentou aqui. Se tivesse dado errado, ele poderia dizer:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 porque voc\u00ea n\u00e3o estuda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, resolvi perguntar:<\/p>\n<p>\u2013 O que \u00e9 que eu vou estudar? Ele pegou, me deu uma lista de livros e disse:<\/p>\n<p>\u2013 Vou mandar os livros pra voc\u00ea. Mandou buscar os livros e eu comecei a estudar.<\/p>\n<p>Ele disse:<\/p>\n<p>\u2013 Olhe, se voc\u00ea estudar, voc\u00ea n\u00e3o comete mais esses erros.<\/p>\n<p>Decidi come\u00e7ar a ler:<\/p>\n<p>\u2013 Eu senti as palavras do L\u00eanin, que eu fui ler. Vi as palavra do L\u00eanin e senti que era verdade:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 movimento revolucion\u00e1rio, sem teoria revolucion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 a\u00ed eu comecei a estudar, foi muito doloroso, e me d\u00f3i lembrar aquele come\u00e7o de n\u00e3o terem me dito que \u00e9 preciso estudar isso, isso, isso\u2026 \u00e9 preciso se ter base te\u00f3rica pra fazer isso ou pra fazer qualquer outra atividade\u2026 fa\u00e7a isso, desta maneira. Eu sempre estive aqui.<\/p>\n<p>\u2013 Em 1951 houve aqui aquela greve pol\u00edtica [1] que voc\u00ea deve saber que houve, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos feito a greve pol\u00edtica, n\u00f3s apoiamos a greve pol\u00edtica. Quem foi a alma disso foi o Neiva Moreira [2].<\/p>\n<p>\u2013 Bem, mas n\u00f3s apoiamos, tomamos parte da greve e tal.<\/p>\n<p>\u2013 Bem, no \u00faltimo dia da greve, a essa altura eu tinha me casado.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 preciso falar desse casamento?<\/p>\n<p>\u2013 Porra\u2026<\/p>\n<p>EUCLIDES: Fala logo da greve.<\/p>\n<p>MARIA ARAG\u00c3O: A essa altura tinha me casado, e meu marido chamava Alfredo Galv\u00e3o, era um sujeito interessante, inteligente, com uma coragem f\u00edsica muito grande, grande, brigador, mas duma covardia pol\u00edtica, at\u00e9 danada.<\/p>\n<p>\u2013 Ele tinha um aspecto jovem, era um homem da minha idade, diferen\u00e7a de um ano mais ou menos, mas tinha um aspecto muito jovem, ent\u00e3o quando tava com as minhas amigas.<\/p>\n<p>Ele dizia: \u2013 Tenho 22 anos.<\/p>\n<p>E eu dizia: \u2013 Tu ainda me pagas.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, quando ele fez 40 anos, eu ia fazer uma festa pra ele (interrompe para dizer que uma de suas cadeiras estava quebrada). Eu ia fazer uma festa pra ele e botar as 40 velas. Ent\u00e3o a gente tava trabalhando\u2026 tinha peru pra matar\u2026 a mulher estava l\u00e1 trabalhando\u2026 e tinha doce\u2026 tinha as velas\u2026 bem era os 40 anos do Alfredo. Mas nessa altura batem a porta.<\/p>\n<p>[O relato continua com a pris\u00e3o de Maria Arag\u00e3o em 1951].<\/p>\n<p><strong>Notas de Rodap\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>[1] A greve foi um movimento articulado pelas oposi\u00e7\u00f5es contra a posse do Governador Eug\u00eanio Barros, que era ligado a Vitorino Freire, \u201cvitorioso\u201d em elei\u00e7\u00f5es marcadas por den\u00fancias de fraude. As Oposi\u00e7\u00f5es Coligadas apresentaram como candidato Saturnino Bello, que rompeu com a situa\u00e7\u00e3o em virtude de sua n\u00e3o indica\u00e7\u00e3o como candidato ao governo pelo vitorinismo. Aproveitando-se das dissid\u00eancias abertas no seio do grupo dominante, as oposi\u00e7\u00f5es vislumbraram em \u201cSat\u00fa\u201d Bello a possibilidade de finalmente alcan\u00e7arem o governo estadual. [\u2026] A campanha eleitoral de 1950 foi particularmente agitada e provocou forte interesse da popula\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>[2] No Jornal do Povo, alguns dias depois, Neiva Moreira fez um balan\u00e7o do p\u00f3s-greve, afirmando que, apesar dos objetivos n\u00e3o terem sido alcan\u00e7ados, houve um avan\u00e7o consider\u00e1vel \u201cna forma\u00e7\u00e3o de uma nova consci\u00eancia de for\u00e7a popular e de um n\u00facleo de resist\u00eancia que tem feito os prepotentes mudar de rumos e atenuar a arbitrariedade\u201d. Pois, apesar de tudo, no decorrer da greve foram sedimentados os eixos do discurso oposicionista: o combate \u00e0 fraude eleitoral e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o administrativa, preconizando a liberta\u00e7\u00e3o do Maranh\u00e3o do jugo opressivo da oligarquia de Vitorino Freire. Sem dramaticidade e hero\u00edsmo, o cordel de \u201cZ\u00e9 Pequeno\u201d [Jos\u00e9 Ribamar Bog\u00e9a, fundador do Jornal Pequeno] abordou os \u00faltimos dias do movimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/29975\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,231,1,46,382,5,15],"tags":[226],"class_list":["post-29975","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-fdr","category-geral","category-c56-memoria","category-negro","category-s4-pcb","category-s18-sindical","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Nt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29975","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29975"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29975\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}