{"id":30022,"date":"2023-02-25T13:44:15","date_gmt":"2023-02-25T16:44:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=30022"},"modified":"2023-02-25T13:44:15","modified_gmt":"2023-02-25T16:44:15","slug":"brasil-a-luta-de-classes-em-campo-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30022","title":{"rendered":"Brasil: a luta de classes em campo aberto"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30023\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30022\/img-20230224-wa0021\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?fit=1600%2C1066&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1600,1066\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG-20230224-WA0021\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?fit=747%2C498&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-30023\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?resize=747%2C498&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?resize=900%2C600&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?resize=1536%2C1023&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG-20230224-WA0021.jpg?w=1600&amp;ssl=1 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Edmilson Costa &#8211; Secret\u00e1rio Geral do PCB<\/strong><\/p>\n<p>A crise militar, a crise humanit\u00e1ria, a crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica no Brasil s\u00e3o as express\u00f5es concentradas da crise org\u00e2nica do capitalismo brasileiro que envolve o pa\u00eds h\u00e1 cerca de quatro d\u00e9cadas e que vem esgar\u00e7ando o tecido social brasileiro e provocando uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos nunca observados na hist\u00f3ria brasileira, pelo menos desde o p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Como se trata de uma crise origin\u00e1ria de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es, em algum momento se apresenta como uma crise econ\u00f4mica, em outro como uma crise militar ou ainda como uma crise pol\u00edtica, humanit\u00e1ria, social e assim por diante. Mas todos esses fen\u00f4menos que emergem da conjuntura t\u00eam uma \u00fanica raiz org\u00e2nica \u2013 a crise do capitalismo brasileiro. Em artigo anterior, elenquei alguns elementos que comp\u00f5em essa crise org\u00e2nica. Portanto, n\u00e3o repetirei os argumentos anteriores, apenas prometo que, em momento oportuno, irei elaborar um ensaio mais aprofundado sobre esse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Vale compreender que, ao longo das quatro d\u00e9cadas de regress\u00e3o econ\u00f4mica, os gestores do capital tentaram reorganizar o capitalismo brasileiro, de forma a repactuar o novo papel da economia na divis\u00e3o internacional do trabalho diante da internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, das finan\u00e7as e da emerg\u00eancia das novas tecnologias no interior da produ\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses centrais. Mas essa tentativa pode ser considerada um rotundo fracasso para a economia e o povo brasileiros.<\/p>\n<p>O Brasil registrou nas quatro d\u00e9cadas um processo de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, com um crescimento med\u00edocre, muito diferente do per\u00edodo decorrido entre 1930 e 1980, quando a economia cresceu a uma m\u00e9dia de cerca de 6%, apesar da elevada concentra\u00e7\u00e3o de renda. Foram praticamente quatro d\u00e9cadas perdidas, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do moderado crescimento no per\u00edodo Lula.<br \/>\nEssa pol\u00edtica tamb\u00e9m provocou um lento processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, com a extin\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios elos das cadeias produtivas e mesmo de muitos ramos industriais. Em contrapartida, alavancou a cadeia do agroneg\u00f3cio, com uma agressiva campanha publicit\u00e1ria (\u201cO agro \u00e9 tech, o agro \u00e9 pop, o agro \u00e9 tudo\u201d) e colocou o sistema financeiro como instrumento privilegiado no saque do fundo p\u00fablico e na formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica a favor dos empres\u00e1rios, banqueiros e especuladores.<\/p>\n<p>Do ponto de vista social, o resultado desse ciclo neoliberal foi a redu\u00e7\u00e3o dos direitos, o confisco dos sal\u00e1rios dos trabalhadores, o encolhimento do mercado interno e aprofundamento da mis\u00e9ria e da fome no pa\u00eds. Essa \u00e9 a raiz da crise brasileira. Portanto, s\u00f3 observando esses elementos de fundo poderemos compreender a crise, o movimento das diversas for\u00e7as sociais, bem como a hierarquia dessas crises a cada momento da conjuntura.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria eleitoral de Lula abriu espa\u00e7o para uma mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, especialmente ap\u00f3s os epis\u00f3dios de 8 de janeiro, mas n\u00e3o podemos esquecer que o bolsonarismo ainda mant\u00e9m apoio em vastas camadas militares, em setores da burguesia, especialmente no agroneg\u00f3cio, entre os especuladores financeiros, na institucionalidade, entre lideran\u00e7as das igrejas pentecostais, nas mil\u00edcias, al\u00e9m de importantes apoios em setores m\u00e9dios conservadores, no lumpesinato e at\u00e9 no proletariado.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a vit\u00f3ria eleitoral de Lula foi importante, mas como a hist\u00f3ria tem nos ensinado, uma mudan\u00e7a efetiva na conjuntura e na luta contra o fascismo depende tanto das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do governo Lula, quanto principalmente da entrada em cena das massas organizadas na luta por mudan\u00e7as. N\u00e3o se derrota o fascismo com bons modos, nem se convence a burguesia a abrir m\u00e3o de seus interesses em nome da justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O tempo quente dos primeiros dias<\/strong><\/p>\n<p>Desde que foi anunciada a vit\u00f3ria de Lula, o Brasil passou a viver um clima permanente de tens\u00e3o, com amea\u00e7a de golpe de Estado pelas for\u00e7as de extrema-direita. Bolsonaro, em seu mundo paralelo, acreditava verdadeiramente que seria reeleito. Afinal, ao longo dos quatro anos, o governo trabalhou diariamente por sua perman\u00eancia por mais quatro anos no governo. E como todos viram, nos momentos finais do pleito, utilizou da maneira mais escandalosa a m\u00e1quina p\u00fablica, prefeitos e governadores e o empresariado para ganhar a elei\u00e7\u00e3o de qualquer forma. Basta lembrar o epis\u00f3dio da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal parando os \u00f4nibus no Nordeste, onde Lula tinha grande maioria dos votos, visando a reduzir a participa\u00e7\u00e3o dos eleitores no pleito, bem como os empres\u00e1rios chantageando os empregados e os prefeitos reunindo os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia para votarem em Bolsonaro.<\/p>\n<p>Como o resultado lhe foi desfavor\u00e1vel, mas muito apertado, Bolsonaro e sua trupe de velhos generais de extrema-direita e fascistas no interior do Estado, inconformados com o c\u00f4mputo final dos votos, buscaram um atalho para reverter o resultado eleitoral. Mas realizaram um atalho desesperado, porque a maior parte da institucionalidade (C\u00e2mara, Senado, STF, principais meios de comunica\u00e7\u00e3o) e as lideran\u00e7as internacionais reconheceram a vit\u00f3ria de Lula, isolando a extrema-direita.<\/p>\n<p>Bolsonaro permaneceu v\u00e1rias semanas mudo, sem aceitar a derrota, mas na calada da noite conspirava freneticamente para reverter o resultado das urnas e estimulava seus seguidores a se manter mobilizados, insinuando que algo iria acontecer. Esses fatores explicam os acampamentos em frente aos quart\u00e9is, o tumulto que ocorreu em Bras\u00edlia no dia da posse de Lula e a tentativa de golpe de 8 de janeiro.<\/p>\n<p>Os golpistas, que h\u00e1 tempos vinham pedindo uma interven\u00e7\u00e3o militar, decidiram acampar em frente aos quart\u00e9is em todo o territ\u00f3rio nacional, com a anu\u00eancia dos comandos dessas unidades militares. Transformaram esses acampamentos em laborat\u00f3rio de prepara\u00e7\u00e3o de um golpe, especialmente em Bras\u00edlia, onde ficava o Comando Militar. Para tanto, tinham apoio organizado de financiadores empresariais, que lhes forneceram toda a infraestrutura para permanecer no local, como barracas confort\u00e1veis, banheiros qu\u00edmicos, colch\u00f5es, fog\u00f5es, comida \u00e0 vontade e apoio log\u00edstico da caserna, com a participa\u00e7\u00e3o inclusive de esposas e parentes de militares. Parecia um piquenique verde-amarelo.<\/p>\n<p>No dia da posse de Lula, sob o pretexto de libertar um manifestante que fora preso, os acampados tentaram invadir a sede da Pol\u00edcia Federal e, como n\u00e3o conseguiram, iniciaram um quebra-quebra nos arredores, com a destrui\u00e7\u00e3o de vidra\u00e7as de pr\u00e9dios e lojas e inc\u00eandio de v\u00e1rios \u00f4nibus e autom\u00f3veis que encontravam pelo caminho, espalhando o p\u00e2nico pela cidade durante v\u00e1rias horas. Os golpistas tentaram at\u00e9 realizar um atentado terrorista, ao colocar uma bomba num caminh\u00e3o carregado de gasolina pr\u00f3ximo ao aeroporto. Felizmente, o motorista, ao revisar a carga, avistou o artefato e comunicou \u00e0 pol\u00edcia. Isto evitou uma cat\u00e1strofe humana, porque se tivesse explodido seria uma trag\u00e9dia, com dezenas de mortos. O mais incr\u00edvel \u00e9 que a Pol\u00edcia de Bras\u00edlia (grande parcela simpatizante do bolsonarismo) assistiu a tudo de bra\u00e7os cruzados e ningu\u00e9m foi preso, um comportamento muito diferente de sua atua\u00e7\u00e3o diante das manifesta\u00e7\u00f5es populares, onde a repress\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica generalizada. Esse foi o ensaio geral para a tentativa de golpe do in\u00edcio de janeiro.<\/p>\n<p>Dia 8 de janeiro, domingo. As pessoas ainda estavam se preparando para o almo\u00e7o quando foram surpreendidas pelos notici\u00e1rios informando que milhares de pessoas, vindas de v\u00e1rios Estados do Brasil, vestindo verde amarelo e enroladas na bandeira do Brasil, estavam invadindo o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Pal\u00e1cio do Planalto, s\u00edmbolos do poder em Bras\u00edlia. O levante golpista estava em marcha. Para o p\u00fablico em geral era realmente uma surpresa, mas esse foi um movimento tramado a partir do acampamento em frente ao quartel militar de Bras\u00edlia, onde comandos bolsonaristas organizaram o levante. As caravanas foram financiadas por empres\u00e1rios de extrema-direita, com centenas de \u00f4nibus fretados saindo de v\u00e1rias partes do pa\u00eds, com tudo pago e promessas de uma boa estadia em Bras\u00edlia. Para disfar\u00e7ar, elaboraram uma senha para justificar as caravanas \u2013 todos vinham para a \u201cFesta da Selma\u201d.<\/p>\n<p>Os \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia chegaram a identificar o movimento e comunicar \u00e0s autoridades de Bras\u00edlia, mas o ex-ministro da Justi\u00e7a de Bolsonaro e ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a da capital federal, Anderson Torres, em vez de tomar provid\u00eancia para garantir a seguran\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es, saiu de f\u00e9rias para os Estados Unidos, colocou de folga v\u00e1rios coron\u00e9is da pol\u00edcia, e n\u00e3o montou qualquer esquema policial diante das amea\u00e7as identificadas pela intelig\u00eancia. Sabia perfeitamente dos planos golpistas, mas espertamente procurava afastar, com a viagem, sua responsabilidade com o que viesse a acontecer. Por isso, quando os golpistas invadiram o Congresso, O STF e o Pal\u00e1cio do Planalto, n\u00e3o encontraram resist\u00eancia policial porque os respons\u00e1veis colocaram apenas pequenos contingentes policiais sem a menor condi\u00e7\u00e3o de conter a invas\u00e3o golpista.<\/p>\n<p>Pelas cenas mostradas na TV, foi praticamente um passeio o processo de invas\u00e3o, com o agravante de que policiais ajudaram os manifestantes a chegar ao Planalto e muitos n\u00e3o s\u00f3 cruzaram os bra\u00e7os diante da invas\u00e3o, mas at\u00e9 se confraternizaram com os invasores. Ao longo de mais de tr\u00eas horas, os v\u00e2ndalos depredaram o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Pal\u00e1cio do Planalto, com uma f\u00faria t\u00edpica dos fascistas, pois n\u00e3o quebraram apenas m\u00f3veis e vidros, mas rel\u00edquias hist\u00f3ricas como o rel\u00f3gio doado por D. Jo\u00e3o VI, furaram obras de arte de Di Cavalcanti e quebraram esculturas hist\u00f3ricas. Quando o governo Lula decidiu intervir na seguran\u00e7a de Bras\u00edlia e os golpistas foram expulsos, o interior das institui\u00e7\u00f5es invadidas parecia um ambiente de terra arrasada, tamanha a destrui\u00e7\u00e3o realizada pelos golpistas.<\/p>\n<p><strong>Uma invas\u00e3o nada espont\u00e2nea<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da aparente espontaneidade, o movimento n\u00e3o tinha nada de espont\u00e2neo. Grupos organizados, especializados e perfeitamente conscientes dos objetivos da invas\u00e3o comandaram a manifesta\u00e7\u00e3o golpista. Sabiam perfeitamente por onde entrar e o que depredar. Seu objetivo era claro: criar uma situa\u00e7\u00e3o de caos, de tomada de s\u00edmbolos do poder e provocar uma interven\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito ou mesmo a edi\u00e7\u00e3o de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem), uma medida que \u00e9 operada pelas For\u00e7as Armadas. Se o governo Lula tivesse optado pela GLO se tornaria ref\u00e9m dos militares e perderia completamente a autoridade que ganhou nas urnas. Habilmente, Lula optou pela interven\u00e7\u00e3o na Secretaria de Seguran\u00e7a de Bras\u00edlia, e essa decis\u00e3o mudou a conjuntura, pois o interventor nomeado por Lula imediatamente colocou a Pol\u00edcia sob seu comando e iniciou a desocupa\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios, o que foi conclu\u00eddo algumas horas depois.<\/p>\n<p>Isso demonstra claramente que s\u00f3 ocorreu a invas\u00e3o porque a pol\u00edcia e o batalh\u00e3o militar respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a do Planalto simplesmente deixaram que tudo acontecesse porque tamb\u00e9m estavam de acordo com o golpe. Grande parte do que aconteceu pode ter uma explica\u00e7\u00e3o pelo fato de que o governo Lula estava iniciando o mandato e ainda n\u00e3o tinha trocado a maior parte do pessoal militar do antigo governo, o que facilitou a conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia da simpatia de setores das For\u00e7as Armadas com Bolsonaro basta dizer que o ent\u00e3o comandante do Ex\u00e9rcito, general Arruda, quando a pol\u00edcia foi desalojar e prender os golpistas que estavam acampados em frente ao quartel-general, colocou tanques protegendo os acampados e impediu a pol\u00edcia de prend\u00ea-los, mesmo com a ordem do STF para det\u00ea-los, chegando a amea\u00e7ar, segundo noticiou a imprensa, que tinha mais tropas que as for\u00e7as policiais que vieram prender os golpistas. Somente no outro dia pela manh\u00e3 os golpistas que estavam acampados foram presos.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o r\u00e1pida do governo em intervir na seguran\u00e7a de Bras\u00edlia foi fundamental para a derrota dos golpistas. Mas os meios de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tiveram um papel importante nesse processo noticiando os atos e condenando os golpistas. A tentativa de golpe tamb\u00e9m foi condenada internacionalmente pelos dirigentes dos pa\u00edses centrais. Da mesma forma, os presidentes do Senado e da C\u00e2mara condenaram a invas\u00e3o. O Supremo Tribunal Federal tamb\u00e9m foi r\u00e1pido no contra-ataque. Ordenou a pris\u00e3o dos golpistas, do secret\u00e1rio de seguran\u00e7a por sua omiss\u00e3o (este voltou dos Estados Unidos e se entregou) e afastou o governador de Bras\u00edlia por 90 dias tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da omiss\u00e3o diante dos acontecimentos e abriu inqu\u00e9rito para identificar os financiadores.<\/p>\n<p>Quando a pol\u00edcia realizava um pedido de busca e apreens\u00e3o na casa do ex-ministro Anderson Torres, encontrou uma minuta do golpe, um documento com todas as medidas para realizar o estado de exce\u00e7\u00e3o, como a implanta\u00e7\u00e3o do Estado de Defesa, a interven\u00e7\u00e3o no Tribunal Superior Eleitoral, a pris\u00e3o de ministros do Supremo Tribunal Federal, com a consequente anula\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. At\u00e9 agora essa \u00e9 a prova mais concreta de um golpe em movimento, fracassado possivelmente por falta de apoio nacional e internacional. As investiga\u00e7\u00f5es est\u00e3o em curso e, quem sabe, mais para frente se ficar\u00e1 sabendo de mais bastidores da trama golpista.<\/p>\n<p>Mas o acontecimento que mais contribuiu para a perspectiva de mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em favor das for\u00e7as democr\u00e1ticas foi a demiss\u00e3o do comandante do Ex\u00e9rcito. Bolsonaro tinha nomeado seu ajudante-de-ordens para comando de uma unidade especial do Ex\u00e9rcito pr\u00f3ximo de Bras\u00edlia, o que seria uma amea\u00e7a constante ao novo governo. Lula queria anular a nomea\u00e7\u00e3o, mas o comandante do Ex\u00e9rcito se recusava e ent\u00e3o o presidente ordenou sua demiss\u00e3o e nomeou um general que dias antes tinha feito um discurso de car\u00e1ter legalista, o que significava um fato raro na conjuntura que o pa\u00eds estava vivendo. A troca do comando do Ex\u00e9rcito n\u00e3o apenas contribui para restaurar a autoridade civil, como tamb\u00e9m serve para reduzir as tens\u00f5es no interior das For\u00e7as Armadas. Mas muito ainda precisa ser feito para desmontar o bolsonarismo na caserna e mudar a forma\u00e7\u00e3o dos militares brasileiros.<\/p>\n<p><strong>Derrota moral e pol\u00edtica dos golpistas<\/strong><\/p>\n<p>De qualquer forma, a tentativa de golpe de 8 de janeiro, do ponto de vista pol\u00edtico, foi uma derrota moral e pol\u00edtica para os bolsonaristas, que desde ent\u00e3o perderam a iniciativa e est\u00e3o na defensiva. A derrota moral vem do fato de que toda a propaganda direitista de que a esquerda era baderneira, quebrava tudo, era terrorista, foi por \u00e1gua abaixo. Aconteceu com a extrema-direita exatamente aquilo de que a esquerda era acusada permanentemente. Ainda tentaram desesperadamente, atrav\u00e9s de fake news, dizer que a baderna que ocorreu em Bras\u00edlia era coisa de esquerdista infiltrado entre eles. Mas essa mentira foi t\u00e3o absurda que se transformou num argumento rid\u00edculo e eles tiveram que recuar e amargar a ressaca do desespero.<\/p>\n<p>A derrota pol\u00edtica pode ser vista pelo fato de que, a partir da tentativa de golpe, as for\u00e7as de extrema-direita ficaram na defensiva, politicamente enfraquecidas perante a sociedade, especialmente porque os meios de comunica\u00e7\u00e3o continuam revelando detalhes dos atos golpistas e centenas de bolsonaristas est\u00e3o presos, inclusive muitos de seus financiadores. N\u00e3o se pode esquecer que os pr\u00f3prios bolsonaristas contribu\u00edram para facilitar seu indiciamento, pois a grande maioria, no momento da invas\u00e3o, talvez embriagados pelo senso de impunidade que grassou durante todo o governo Bolsonaro, filmaram os atos de vandalismo, produzindo assim provas concretas contra si mesmos. Al\u00e9m disso, as pesquisas de opini\u00e3o demonstraram uma rejei\u00e7\u00e3o da sociedade aos atos de 8 de janeiro. Isso n\u00e3o significa que o bolsonarismo esteja morto. Pelo contr\u00e1rio, esse \u00e9 um movimento que ainda levar\u00e1 tempo para ser definitivamente derrotado na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Outro elemento importante que tem contribu\u00eddo para desmoralizar os bolsonaristas \u00e9 a crise humanit\u00e1ria. Os quatro anos do governo Bolsonaro significaram para as comunidades ind\u00edgenas um tempo de terror, doen\u00e7as, mortes e fome, pois suas terras foram invadidas pelos donos de garimpos e garimpeiros, que derrubaram as \u00e1rvores, envenenaram os rios e o solo com merc\u00fario e assassinaram l\u00edderes ind\u00edgenas que realizavam resist\u00eancia \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o. Com a redu\u00e7\u00e3o da floresta, a ca\u00e7a tamb\u00e9m ficou reduzida. Com os rios e o solo envenenados, aumentaram as doen\u00e7as e regrediu a capacidade de produ\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena. O resultado n\u00e3o poderia ser outro sen\u00e3o a trag\u00e9dia humana veiculada diariamente pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, muito semelhante ao que ocorreu nos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio ex-presidente e o ex-ministro do Meio Ambiente estimulavam a devasta\u00e7\u00e3o da floresta, a garimpagem de min\u00e9rios e a invas\u00e3o das terras ind\u00edgenas. Bolsonaro \u00e9 um inimigo hist\u00f3rico dos povos origin\u00e1rios e da demarca\u00e7\u00e3o de suas terras e chegou mesmo a elogiar os Estados Unidos por terem dizimado os ind\u00edgenas por l\u00e1: \u201cA cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente sim foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus \u00edndios no passado e hoje em dia n\u00e3o tem esse problema em seu pa\u00eds\u201d. Portanto, o que est\u00e1 acontecendo agora com o povo Yanomami n\u00e3o \u00e9 nenhuma crise resultante de um drama da natureza, mas um projeto organizado e desenvolvido meticulosamente pelo governo Bolsonaro para extinguir os povos ind\u00edgenas, come\u00e7ando pelos Yanomami, cuja reserva demarcada era a maior do Brasil.<\/p>\n<p>Bolsonaro tamb\u00e9m foi conivente e participante da corru\u00e7\u00e3o, tanto que sua administra\u00e7\u00e3o, apesar da lorota de que n\u00e3o existiam pr\u00e1ticas il\u00edcitas no governo, foi um dos per\u00edodos mais corruptos da hist\u00f3ria moderna brasileira, envolvendo n\u00e3o s\u00f3 seus ministros e altos funcion\u00e1rios, mas principalmente a fam\u00edlia do presidente. Al\u00e9m disso, foi conivente com a roubalheira promovida pelo grande capital, porque praticamente desmantelou os \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o. Agora come\u00e7am a aparecer os esc\u00e2ndalos como o das Lojas Americanas, envolvendo um trio de gatunos bilion\u00e1rios bolsonaristas, a d\u00edvida astron\u00f4mica das Lojas Marisa e a negociata fraudulenta da privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobr\u00e1s, uma verdadeira bandidagem, conforme disse o presidente Lula.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que se forem desvelando os por\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o bolsonarista, novos esc\u00e2ndalos v\u00e3o aparecer para provar mais uma vez que os discursos contra a corrup\u00e7\u00e3o eram apenas uma cortina de fuma\u00e7a para que os corruptos agissem com a certeza da impunidade. Um dos elementos que podem colocar a c\u00e9u aberto a corrup\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do governo Bolsonaro \u00e9 o fim do sigilo de 100 anos em que Bolsonaro colocou suas principais a\u00e7\u00f5es, como j\u00e1 se pode ver com o verdadeiro absurdo envolvendo os gastos do cart\u00e3o corporativo do governo. As cenas dos pr\u00f3ximos cap\u00edtulo dever\u00e3o ser muito emocionantes.<\/p>\n<p><strong>A luta de classes em campo aberto<\/strong><\/p>\n<p>Em termos pol\u00edticos, o Brasil vive um per\u00edodo de luta de classes em campo aberto, com uma disputa polarizada entre dois grandes blocos e fra\u00e7\u00f5es de classe. Uma primeira luta ocorre entre a extrema-direita e as for\u00e7as democr\u00e1ticas e de esquerda: os neofascistas buscam permanentemente tumultuar a conjuntura, tanto com a\u00e7\u00f5es desesperadas, como o 8 de janeiro, quanto com as fakes news, cujo centro operacional continua atuando diariamente, muito embora sem a estrutura institucional do per\u00edodo anterior. De outro, as for\u00e7as democr\u00e1ticas e de esquerda buscando tomar a iniciativa, reprimir os respons\u00e1veis pela tentativa de golpe, denunciar as atrocidades do governo Bolsonaro, retirar os fascistas do aparelho do Estado e consolidar as liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Mas seria um equ\u00edvoco grave imaginar que a derrota das for\u00e7as de extrema-direita pode ser realizada apenas pela institucionalidade. Essas for\u00e7as s\u00f3 ser\u00e3o derrotadas com a press\u00e3o organizada das massas nas ruas. Quanto mais r\u00e1pido as massas se colocarem em movimento, melhores ser\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para uma mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, tanto entre liberdades democr\u00e1ticas e fascismo quanto na perspectiva dos interesses populares nas a\u00e7\u00f5es governamentais. At\u00e9 agora t\u00eam sido positivas as investiga\u00e7\u00f5es e pris\u00f5es dos golpistas, mas \u00e9 fundamental que o processo de investiga\u00e7\u00e3o atinja n\u00e3o apenas os operadores que estiveram em Bras\u00edlia no dia 8 de janeiro, mas toda a cadeia de comando, que envolve os financiadores, os autores intelectuais e inclusive todos os militares que foram coniventes, apoiaram ou participaram ativamente da aventura golpista. Sem perd\u00e3o ou anistia para todos os golpistas, independentemente da patente ou do poder econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Outra disputa que ocorre no interior da crise brasileira se d\u00e1 entre a burguesia e o movimento social e popular. Derrotado e neutralizado o fascismo, esta ser\u00e1 a disputa principal que dever\u00e1 se estender por todo o mandato do presidente Lula. Apesar de que a luta entre fascismo e democracia tenha at\u00e9 agora maior espa\u00e7o na imprensa, a disputa que vai definir o car\u00e1ter do governo Lula ser\u00e1 sua pol\u00edtica econ\u00f4mica e social. Essa batalha se expressa em dois vetores: a) na press\u00e3o da burguesia para capturar a agenda econ\u00f4mica do governo e manter intacto o modelo neoliberal, com apenas algumas migalhas de compensa\u00e7\u00e3o social para os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o; b) nos interesses populares representados pelo movimento social e popular que, mesmo ainda fragmentado, votou em peso em Lula querendo mudan\u00e7as profundas no modelo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A burguesia, desde o per\u00edodo eleitoral e especialmente ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Lula, vem procurando de todas as formas manter a velha pol\u00edtica econ\u00f4mica que sangra o pa\u00eds, premia os especuladores, ataca os trabalhadores e restringe o mercado interno desde o in\u00edcio dos anos 90. Para tanto, se utiliza de todo o aparato institucional, principalmente os meios de comunica\u00e7\u00e3o e seus porta-vozes como instrumento de press\u00e3o, mediante a velha catilin\u00e1ria da responsabilidade fiscal, o fantasma da infla\u00e7\u00e3o, a fuga de investimento e a continuidade da estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Se o governo ceder \u00e0 chantagem e n\u00e3o mudar a pol\u00edtica econ\u00f4mica na perspectiva dos interesses populares, dever\u00e1 ter o mesmo destino do per\u00edodo anterior, quando a burguesia n\u00e3o s\u00f3 ganhou rios de dinheiro como acumulou for\u00e7as at\u00e9 o momento em que se sentiu forte o suficiente para derrubar o PT e aprofundar o modelo neoliberal.<\/p>\n<p>No outro ponto da disputa est\u00e1 o movimento social e popular, que votou em Lula na expectativa de mudan\u00e7as em favor dos interesses populares, pela revoga\u00e7\u00e3o das contrareformas e do teto dos gastos, retomada do crescimento com justi\u00e7a social, amplia\u00e7\u00e3o do emprego, fim da mis\u00e9ria e da fome e a recupera\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, entre outros pontos. N\u00e3o se pode esquecer que a crise social brasileira \u00e9 dram\u00e1tica: s\u00e3o mais de 15 milh\u00f5es de trabalhadores desempregados (incluindo o desemprego oficial e o oculto), 33 milh\u00f5es nas filas da fome, disputando ossos nos lix\u00f5es e mendigando pelas cidades, cerca de 38 milh\u00f5es na informalidade e a mis\u00e9ria generalizada entre as massas da periferia, al\u00e9m dos milh\u00f5es de sem teto e sem terra.<\/p>\n<p>Como temos afirmado, uma situa\u00e7\u00e3o dessa ordem n\u00e3o pode permanecer indefinidamente sem que as massas se levantem contra a opress\u00e3o, especialmente se levarmos em contra que essa trag\u00e9dia social ocorre num pa\u00eds que est\u00e1 entre as 10 maiores economias do mundo e com uma popula\u00e7\u00e3o vivendo em mais de 80% nas cidades, especialmente nas regi\u00f5es metropolitanas. Esse imenso contingente de marginalizados sociais foi o principal respons\u00e1vel pela vit\u00f3ria de Lula nas recentes elei\u00e7\u00f5es e seus votos representaram a necessidade de rompimento com essa pol\u00edtica que vem massacrando os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o pobre e que fez o Brasil voltar ao mapa da fome. Portanto, essa massa de marginalizados e oprimidos n\u00e3o ir\u00e1 permanecer de bra\u00e7os cruzados se n\u00e3o houver uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica econ\u00f4mica e n\u00e3o se contentar\u00e1 apenas com as migalhas que foram distribu\u00eddas no per\u00edodo anterior dos governos do PT. O levante de 2013 pode ser considerado apenas uma amostra do que poder\u00e1 acontecer se essas demandas n\u00e3o forem atendidas.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva e diante da nova conjuntura, \u00e9 importante levarmos em conta que h\u00e1 espa\u00e7o para a emerg\u00eancia do movimento social e popular como protagonista da nova conjuntura. Para as for\u00e7as que lutam pelas transforma\u00e7\u00f5es na sociedade brasileira este \u00e9 um momento especial para se avan\u00e7ar no trabalho de base visando colocar as massas em movimento, de forma a evitar o que ocorreu no passado, quando o governo petista substituiu a luta de massas nas ruas e locais de trabalho pela luta institucional, cooptou o movimento social, apassivou e despolitizou a sociedade. O resultado desse processo todos conhecemos e n\u00e3o se pode repetir, sob pena de amargarmos um longo processo de frustra\u00e7\u00f5es e derrotas como ocorreu recentemente. As li\u00e7\u00f5es desse passado amargo s\u00e3o importantes tanto para termos clareza do que n\u00e3o deve ser feito quanto para organizarmos o futuro.<\/p>\n<p><strong>As armadilhas da conjuntura<\/strong><\/p>\n<p>Estamos diante de uma conjuntura complexa, dif\u00edcil, com armadilhas variadas, mas com possibilidades para o movimento oper\u00e1rio e popular. Para se navegar num ambiente dessa dimens\u00e3o \u00e9 fundamental n\u00e3o se perder de vista o norte estrat\u00e9gico e os elementos de fundo da conjuntura, de forma a que se possa atuar no sentido de fazer avan\u00e7ar as conquistas e a organiza\u00e7\u00e3o popular. Para os comunistas, nosso norte estrat\u00e9gico foi definido no XVI Congresso e, como a hist\u00f3ria tem nos ensinado, a estrat\u00e9gia \u00e9 a carta n\u00e1utica que ilumina os movimentos t\u00e1ticos, tanto para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho pol\u00edtico de base junto aos trabalhadores, a juventude e o povo pobre das periferias, quanto para se evitar cair no reformismo, sempre levando em conta o \u00e2nimo das massas e sua disposi\u00e7\u00e3o de participar das lutas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante voltarmos a enfatizar que a crise org\u00e2nica do capitalismo brasileiro n\u00e3o pode ser resolvida com medidas paliativas ou concilia\u00e7\u00e3o com as classes dominantes. Afinal, a burguesia brasileira foi a principal respons\u00e1vel pela implementa\u00e7\u00e3o do ciclo devastador neoliberal de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas e n\u00e3o vai abrir m\u00e3o dos seus interesses se n\u00e3o for obrigada atrav\u00e9s da press\u00e3o organizada das massas. Querer conciliar os interesses da burguesia, viciada na trucul\u00eancia e na superexplora\u00e7\u00e3o, com as necessidades das massas que votaram pelas mudan\u00e7as \u00e9 uma tarefa praticamente imposs\u00edvel. Se o governo insistir nessa ilus\u00e3o ter\u00e1 como resultado n\u00e3o s\u00f3 o fortalecimento das for\u00e7as conservadoras, inclusive da extrema-direita, como poder\u00e1 colher o mesmo resultado do ciclo anterior, com a captura da pol\u00edtica governamental pela burguesia ou mesmo a queda do governo, al\u00e9m da frustra\u00e7\u00e3o que ocorrer\u00e1 no movimento social e popular. J\u00e1 vimos esse filme em passado recente.<\/p>\n<p>Portanto, o fen\u00f4meno pol\u00edtico-social que pode mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e derrotar esse modelo econ\u00f4mico destruidor da economia, dos direitos e sal\u00e1rios dos trabalhadores, da mis\u00e9ria e da fome e construir uma nova economia baseada nos interesses populares \u00e9 a entrada em movimento da luta organizada das massas nas ruas, locais de trabalho, moradia e estudo. Esta \u00e9 a coluna vertebral para qualquer mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, sem a qual o governo dificilmente ser\u00e1 capaz de realizar as transforma\u00e7\u00f5es que o pa\u00eds necessita. N\u00e3o existe possibilidade de romper a armadilha neoliberal das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas sem resolver a quest\u00e3o social, revogar as contrareformas, o teto dos gastos e a lei de responsabilidade fiscal e proceder a reapropria\u00e7\u00e3o pelo Estado das empresas estrat\u00e9gicas privatizadas na bacia das almas, com o objetivo de resgatar o interesse p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o ao privado. Sem essas medidas iniciais a crise org\u00e2nica vai continuar e ressurgir\u00e1 com mais intensidade em um futuro n\u00e3o muito distante.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos tamb\u00e9m deixar de registrar outro elemento importante da conjuntura, que \u00e9 a disputa geopol\u00edtica do imperialismo com o eixo China-R\u00fassia-Eur\u00e1sia e que ter\u00e1 impactos em toda a periferia capitalista, inclusive no Brasil. O imperialismo em decl\u00ednio, pr\u00f3ximo a sofrer uma derrota na guerra da Ucr\u00e2nia, est\u00e1 cada vez mais agressivo e vai buscar de todas as formas enquadrar sua reserva estrat\u00e9gica, que \u00e9 o continente americano. Como o governo vem desenvolvendo uma pol\u00edtica externa com autonomia relativa, isso pode entrar em choque com as pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas dos Estados Unidos. No passado isso at\u00e9 foi tolerado porque n\u00e3o existia a crise que agora estamos testemunhando, mas agora o imperialismo em crise com certeza vai endurecer sua posi\u00e7\u00e3o e exigir fidelidade aos interesses de Washington.<\/p>\n<p>As recentes declara\u00e7\u00f5es da subsecret\u00e1ria para assuntos pol\u00edticos do Departamento de Estado, Victoria Nuland, exigindo que o governo Lula \u201ccalce os sapatos da Ucr\u00e2nia\u201d e que condene a opera\u00e7\u00e3o russa de forma mais firme, \u00e9 apenas o ensaio das press\u00f5es e exig\u00eancias que vir\u00e3o do imp\u00e9rio no futuro, principalmente se o Brasil estreitar os lados comerciais com a China, principal inimigo dos Estados Unidos. Em caso de um impasse, as for\u00e7as burguesas brasileiras e imperialistas (que sempre estiveram juntas em todos os momentos de nossa hist\u00f3ria moderna) j\u00e1 t\u00eam o homem certo para uma eventual substitui\u00e7\u00e3o de Lula, que \u00e9 o vice-presidente Geraldo Alckmin, cujo perfil \u00e9 diferente de um lumpem desclassificado como Jair Bolsonaro ou de um corrupto e impopular como Michel Temer.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o se ter ilus\u00f5es, os comunistas precisam ter claro qual o ambiente pol\u00edtico em que o movimento social e popular est\u00e1 atuando no Brasil. Estamos diante de um governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, eleito a partir de uma frente ampla que envolveu partidos pol\u00edticos de esquerda, do centro e de direita, a maior parte do movimento sindical (quase todo ele dirigido por sociais-liberais e pelegos hist\u00f3ricos), al\u00e9m de setores da burguesia urbana e rural, o que significa uma contradi\u00e7\u00e3o em processo diante das necessidades e demandas dos movimentos sociais e populares.<\/p>\n<p>Todos temos consci\u00eancia de que o pa\u00eds vive uma trag\u00e9dia social. Assim, qualquer medida que beneficie a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 benvinda, mesmo aquelas de compensa\u00e7\u00e3o social t\u00edpicas do neoliberalismo. Mas a gravidade da crise, em fun\u00e7\u00e3o da devasta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica acumulada ao longo do ciclo neoliberal, exigem mudan\u00e7as de fundo capaz de reverter o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de renda, o que significa a luta de classes na veia.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es oriundas da pr\u00f3pria frente que possibilitou a elei\u00e7\u00e3o de Lula nos levam a acreditar que existe uma margem estreita de manobra por parte do governo para realizar qualquer tipo de mudan\u00e7a mais avan\u00e7ada sem a luta social. A burguesia vai continuar lutando para manter o velho modelo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas e chantagear o governo com o objetivo de garantir os privil\u00e9gios que obteve ao longo do ciclo neoliberal, enquanto o movimento social e popular, passado o per\u00edodo de lua de mel com o governo e diante da expectativa das mudan\u00e7as que dificilmente vir\u00e3o, poder\u00e1 intensificar a luta social, afinal ainda est\u00e3o bem vivos na mem\u00f3ria popular os erros cometidos pela administra\u00e7\u00e3o do PT e a frustra\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao estelionato eleitoral do segundo governo Dilma, que levaram ao golpe de 2016, \u00e0s contrareformas, \u00e0 regress\u00e3o no mundo do trabalho, \u00e0 emerg\u00eancia da extrema-direita e ao governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Mesmo com todos os ensinamentos do per\u00edodo anterior, o que se pode esperar \u00e9 que o social-liberalismo n\u00e3o deve ter aprendido as li\u00e7\u00f5es do passado e tudo indica que tender\u00e1 ao masoquismo na luta pol\u00edtica. Portanto, o que se projeta \u00e9 uma disputa acirrada no interior do movimento social e popular e entre as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sociais liberais e revolucion\u00e1rias, constituindo-se em basicamente duas vertentes em rela\u00e7\u00e3o ao futuro da conjuntura. Esses s\u00e3o os elementos da disputa:<\/p>\n<p>a) os sociais-liberais v\u00e3o agir da mesma forma que no passado, buscando transferir a luta nas ruas para a institucionalidade, cooptar as principais lideran\u00e7as do movimento popular, refrear a luta das massas, sob o pretexto de que qualquer cr\u00edtica ao governo, paralisa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas ou a luta independente do movimento popular favorecer\u00e1 o golpismo, que a hora \u00e9 a luta pela democracia, que o governo se encarregar\u00e1 de realizar o que prometeu;<\/p>\n<p>b) de outro lado est\u00e1 o movimento popular que ir\u00e1 lutar pela reorganiza\u00e7\u00e3o de nossa classe, no entendimento de que as velhas dire\u00e7\u00f5es forjadas no ascenso do final dos anos 70 e 80 se acomodaram , perderam a combatividade e j\u00e1 est\u00e3o superadas pela atual conjuntura da luta de classes no pa\u00eds. O momento exige um movimento social combativo, disposto a disputar nas ruas e locais de trabalho o futuro, em busca de um novo rumo para o pa\u00eds na perspectiva das transforma\u00e7\u00f5es sociais. Essa disputa definir\u00e1 o futuro da conjuntura no Brasil.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico, tamb\u00e9m haver\u00e1 uma disputa entre organiza\u00e7\u00f5es e partidos pol\u00edticos pelos rumos da conjuntura. O PT, agora totalmente dependente do prest\u00edgio de Lula, seguir\u00e1 a mesma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes buscando conciliar o inconcili\u00e1vel, sob o argumento de que o que est\u00e1 sendo feito \u00e9 o poss\u00edvel, al\u00e9m do fato de que o mais importante \u00e9 garantirmos a democracia. O PC do B, em profunda crise org\u00e2nica e ideol\u00f3gica, amarrou o seu destino ao do PT para sobreviver institucionalmente, mesmo que essa pol\u00edtica venha reduzindo sua influ\u00eancia institucional. Uma outra parte da esquerda, especialmente a dire\u00e7\u00e3o do Psol, com quem at\u00e9 h\u00e1 pouco caminh\u00e1vamos juntos, abandonou a independ\u00eancia de classe e aderiu de malas e bagagens ao governo Lula, muito embora com a resist\u00eancia de uma grande parcela de seus militantes e dirigentes. Em outras palavras, essas organiza\u00e7\u00f5es, apesar de suas diverg\u00eancias formais, est\u00e3o cada vez mais se parecendo com um balaio de caranguejo e se n\u00e3o mudarem sua posi\u00e7\u00e3o ser\u00e3o engolidas pela crise org\u00e2nica.<\/p>\n<p>O movimento social e popular n\u00e3o pode dar um cheque em branco para o governo e muito menos cair na armadilha de que a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas deve ofuscar a batalha pelas mudan\u00e7as sociais. Os comunistas t\u00eam claro seus objetivos nessa conjuntura: lutamos contra a extrema-direita e contra o fascismo junto com outras for\u00e7as, que inclusive s\u00e3o contra o socialismo, mas manteremos nossa independ\u00eancia pol\u00edtica e org\u00e2nica em qualquer situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos confundir nossos interesses estrat\u00e9gicos com os interesses de aliados ocasionais numa luta espec\u00edfica da conjuntura. Nosso objetivo de m\u00e9dio prazo \u00e9 construir a Frente Anticapitalista e Anti-imperialista, na perspectiva do poder popular e do socialismo. Portanto, n\u00e3o podemos confundir a luta para derrotar a extrema-direita com a luta pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais. Ou seja, quando os objetivos espec\u00edficos coincidirem estaremos juntos, mas marcharemos separados na luta pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Que fazer, uma quest\u00e3o atual<\/strong><\/p>\n<p>Sabemos perfeitamente que o fascismo sempre se constituiu em alternativa para a burguesia nos momentos de crise do capital e tamb\u00e9m nos momentos de calmaria. Ali\u00e1s, historicamente o fascismo cumpre tr\u00eas pap\u00e9is relevantes para as classes dominantes: a) quando a crise est\u00e1 aguda, serve como tropa de choque para destruir o movimento oper\u00e1rio e popular e reprimir os comunistas; b) em tempos normais, constitui uma for\u00e7a de press\u00e3o e chantagem para que os governos de concilia\u00e7\u00e3o possam rebaixar sua pauta pol\u00edtica e econ\u00f4mica; c) al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 um instrumento \u00fatil para que as for\u00e7as reformistas do movimento social e popular possam justificar a luta pol\u00edtica com as for\u00e7as classistas, sob o argumento de que n\u00e3o se devem radicalizar as demandas dos trabalhadores e as lutas sociais para evitar o fascismo ou o golpismo, como no caso brasileiro.<\/p>\n<p>Ou seja, esse trabalho \u00fatil das for\u00e7as fascistas para a burguesia refor\u00e7a o poder das for\u00e7as da concilia\u00e7\u00e3o de classe para realizar o \u201cpacto social\u201d, como ocorreu no per\u00edodo anterior do governo do PT. Nessa nova conjuntura, essas for\u00e7as buscar\u00e3o incrementar as pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social, de forma a atender as demandas mais urgentes da popula\u00e7\u00e3o. Essas pol\u00edticas dever\u00e3o gerar um grande al\u00edvio na parcela mais pobre do povo e conseguir\u00e1 no primeiro momento apoio da maioria dos brasileiros, afinal ningu\u00e9m pode ser contra combater a mis\u00e9ria e a fome. Assim, cria-se uma cortina de fuma\u00e7a para n\u00e3o desmontar a pol\u00edtica neoliberal, para n\u00e3o revogar as contrareformas, nem a pol\u00edtica de austeridade fiscal e muito menos retomar para o setor p\u00fablico as empresas estatais privatizadas na bacia das almas. O que precisa ser dito \u00e9 que as pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social s\u00e3o apenas uma vitrine para que o governo possa manter os interesses b\u00e1sicos das classes dominantes na economia. Apenas como exemplo, enquanto o governo vai destinar R$ 53 bilh\u00f5es para o Bolsa Fam\u00edlia em 2023, o gasto com o pagamento de juros da d\u00edvida interna no mesmo per\u00edodo dever\u00e1 ser de cerca de 15 vezes maior que isso &#8211; R$ 790 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, os comunistas ter\u00e3o a tarefa de esclarecer pacientemente a popula\u00e7\u00e3o sobre as contradi\u00e7\u00f5es de fundo do projeto de concilia\u00e7\u00e3o de classes e disputar o novo ciclo com esses setores, pois sabemos que nos momentos de crise h\u00e1 imensas possibilidades de ascens\u00e3o do movimento de massas tanto pela pr\u00f3pria necessidade de sobreviv\u00eancia do povo quanto pelas demandas n\u00e3o atendidas. Em todos os momentos da hist\u00f3ria as massas se levantaram quando a situa\u00e7\u00e3o chegou a um limite insuport\u00e1vel e esse limite est\u00e1 na ordem do dia no Brasil. Para tanto, \u00e9 fundamental termos confian\u00e7a nas bases objetivas para um processo de transforma\u00e7\u00e3o social no Brasil. Temos em nosso pa\u00eds o segundo maior contingente do proletariado do continente, constitu\u00eddo por mais de 90 milh\u00f5es de trabalhadores ocupados, dos quais mais de 36 milh\u00f5es ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do valor. Esse imenso potencial revolucion\u00e1rio deve ser organizado e mobilizado no curso do ciclo que se abriu com a elei\u00e7\u00e3o de Lula para que possamos alcan\u00e7ar os objetivos da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de arrega\u00e7ar as mangas, fazer o trabalho de base nos bairros, nos locais de trabalho, moradia e estudo e transformar as bases objetivas das transforma\u00e7\u00f5es sociais em movimento consciente na constru\u00e7\u00e3o do poder popular e do socialismo. Esta n\u00e3o \u00e9 uma tarefa que ser\u00e1 realizada da noite para o dia, nem os comunistas t\u00eam uma varinha m\u00e1gica para atingir seus objetivos. No processo de constru\u00e7\u00e3o a milit\u00e2ncia tem que colocar o p\u00e9 no barro para chegar ao cora\u00e7\u00e3o das massas. Um bom exemplo de que o trabalho de base gera bons frutos pode ser observado nos dois principais movimentos sociais do pa\u00eds atualmente, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Precisamos ter humildade e recolher os ensinamentos da pr\u00e1tica dessas organiza\u00e7\u00f5es junto ao povo pobre e combin\u00e1-los com nossa centen\u00e1ria experi\u00eancia de trabalho junto ao proletariado tradicional e buscar alternativas criativas de organiza\u00e7\u00e3o do novo proletariado, tanto aquele ligado \u00e0s fronteiras tecnol\u00f3gicas quanto o precarizado nas plataformas digitais.<\/p>\n<p>Temos convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se chega \u00e0s massas com programa m\u00e1ximo, mas com reivindica\u00e7\u00f5es concretas que falem diretamente \u00e0s necessidades imediatas da popula\u00e7\u00e3o e s\u00f3 ap\u00f3s esse primeiro movimento \u00e9 que devem ser colocadas as propostas mais avan\u00e7adas. Em outros termos, uma vanguarda n\u00e3o deve ficar atrasada em rela\u00e7\u00e3o ao movimento das massas porque pode ser engolida pela institucionalidade e o reformismo, mas ao mesmo tempo n\u00e3o pode avan\u00e7ar demasiadamente, para al\u00e9m da subjetividade do sentimento popular, sob pena de correr o risco de pregar no deserto e ficar isolada. A arte da pol\u00edtica \u00e9 exatamente encontrar o ponto de conflu\u00eancia entre essas duas perspectivas. Em suma, os comunistas devem ser criativos para combinar dialeticamente os objetivos estrat\u00e9gicos com uma t\u00e1tica que fale diretamente aos interesses objetivos concretos das massas de forma a coloc\u00e1-las em movimento para atingir seus objetivos mais imediatos e realizar a tarefa das transforma\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Nosso Partido obteve um crescimento extraordin\u00e1rio nos tr\u00eas \u00faltimos anos em fun\u00e7\u00e3o de uma linha pol\u00edtica correta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de classes nessa conjuntura complexa e dif\u00edcil. Fomos uma das principais organiza\u00e7\u00f5es a convocar as manifesta\u00e7\u00f5es do dia 29 de maio de 2021, em plena pandemia, quando outras organiza\u00e7\u00f5es, como o PT e o Psol, se posicionaram contra e somente nos \u00faltimos minutos do segundo tempo, quando suas organiza\u00e7\u00f5es de base j\u00e1 tinham aderido aos atos, \u00e9 que as dire\u00e7\u00f5es envergonhadamente resolveram participar. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o nacional foi um grande sucesso e marcou a retomada das lutas nas ruas no Brasil e deu ao nosso Partido grande autoridade pol\u00edtica porque as nossas colunas vermelhas estavam entre as maiores nas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Agora no processo eleitoral lan\u00e7amos uma candidata a presidente da Rep\u00fablica, a camarada Sofia Manzano. Apesar das imensas press\u00f5es pelo voto \u00fatil no primeiro turno, a nossa candidatura obteve expressiva repercuss\u00e3o pol\u00edtica, especialmente entre a juventude, e muitas das pautas que apresentamos foram incorporadas por outras candidaturas. No segundo turno apoiamos Lula, o que foi correto, pois naquele momento a disputa se dava entre civiliza\u00e7\u00e3o ou barb\u00e1rie. Os ganhos pol\u00edticos desse processo podem ser constatados pelo fato de que milhares de lutadores sociais em todo o Brasil estejam batendo \u00e0s portas do Partido e dos nossos Coletivos para lutar de forma organizada.<\/p>\n<p>O programa que defendemos nesse processo eleitoral tem uma atualidade extraordin\u00e1ria e deve nortear nossa a\u00e7\u00e3o no novo ciclo da luta social e pol\u00edtica no Brasil. Devemos realizar nosso trabalho nos bairros e locais de trabalho e estudo a partir das reivindica\u00e7\u00f5es concretas das massas, como uma pol\u00edtica contra o desemprego, a mis\u00e9ria e a fome; constru\u00e7\u00e3o dos restaurantes populares a pre\u00e7os simb\u00f3licos em todas as cidades e particularmente nos bairros das grandes metr\u00f3poles; redu\u00e7\u00e3o da jornada de 30 horas sem redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios; reajuste dos sal\u00e1rios acima da infla\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o das perdas dos \u00faltimos anos, moradia para todos; fortalecimento do SUS 100% estatal; ensino p\u00fablico e gratuito de qualidade; revoga\u00e7\u00e3o do teto dos gastos, da Lei de Responsabilidade Fiscal e institui\u00e7\u00e3o da Lei de Responsabilidade Social, como forma de vincular o or\u00e7amento \u00e0s demandas da popula\u00e7\u00e3o, entre outros pontos.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que as massas forem se incorporando \u00e0s lutas por reivindica\u00e7\u00f5es concretas, \u00e9 hora de come\u00e7ar a colocar propostas mais avan\u00e7adas, entre outros pontos, como a estatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro; o resgate para o setor p\u00fablico das empresas estrat\u00e9gicas que foram privatizadas em meio a um escandaloso processo de corrup\u00e7\u00e3o; tornar a Petrobr\u00e1s 100% estatal e indutora do desenvolvimento econ\u00f4mico; estatiza\u00e7\u00e3o do sistema educacional e de sa\u00fade; uma pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o que incorpore o pa\u00eds \u00e0s fronteiras tecnol\u00f3gicas e que esteja voltada aos interesses populares; uma pol\u00edtica para o meio ambiente que proteja o ecossistema e induza a constru\u00e7\u00e3o de polos avan\u00e7ados de biotecnologia; uma reforma tribut\u00e1ria progressiva que taxe dividendos, grandes fortunas, heran\u00e7as e patrim\u00f4nio; reforma agr\u00e1ria e urbana; democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, com a quebra dos monop\u00f3lios e cria\u00e7\u00e3o de uma poderosa rede p\u00fablica de comunica\u00e7\u00f5es, inclusive possibilitando a que as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e pol\u00edticas possam ter canais de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o pontos importantes para colocarmos em debate com as outras for\u00e7as de esquerda que estejam de acordo com o princ\u00edpio de que s\u00f3 a luta de massas \u00e9 capaz de mudar a sociedade na perspectiva dos interesses populares, de forma a que possamos construir no processo de luta um programa contra-hegem\u00f4nico capaz de superar a fragmenta\u00e7\u00e3o atual e dar uma nova dire\u00e7\u00e3o ao movimento social e popular. As lutas que emergir\u00e3o nessa conjuntura ter\u00e3o papel importante para forjar a unidade do campo classista e abrir caminhos para a reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento sindical, popular e da juventude, instrumento fundamental para realizamos as tarefas das transforma\u00e7\u00f5es sociais no Brasil. Os comunistas devem realizar todos os esfor\u00e7os para contribuir com essa perspectiva. Tenho certeza de que cumpriremos essa tarefa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30022\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,65,66,26,10,383],"tags":[221],"class_list":["post-30022","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-c78-internacional","category-c79-nacional","category-c25-notas-politicas-do-pcb","category-s19-opiniao","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Oe","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30022"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30022\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}