{"id":30101,"date":"2023-03-08T17:07:44","date_gmt":"2023-03-08T20:07:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=30101"},"modified":"2023-03-08T17:07:44","modified_gmt":"2023-03-08T20:07:44","slug":"o-governo-lula-esta-em-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30101","title":{"rendered":"O governo Lula est\u00e1 em disputa?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30096\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30095\/image-2-5\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/image-2.png?fit=525%2C350&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"525,350\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (2)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/image-2.png?fit=525%2C350&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-30096\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/lula.jpg?resize=525%2C350&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"350\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Gabriel Landi Fazzio<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cColoque tal sociedade civil, e voc\u00eas ter\u00e3o tal Estado pol\u00edtico, que \u00e9 somente a express\u00e3o oficial da sociedade civil.\u201d (Marx, carta de 1846 a P\u00e1vel V. Annenkov.)<\/em><\/p>\n<p><em>\u201c[&#8230;] o poder pol\u00edtico \u00e9 precisamente o resumo oficial do antagonismo na sociedade civil\u201d. (Marx, 1847, em Mis\u00e9ria da filosofia.)<\/em><\/p>\n<p>Com o retorno da esquerda liberal ao governo federal, retorna tamb\u00e9m \u00e0 cena pol\u00edtica a velha tese ideol\u00f3gica do \u201cgoverno em disputa\u201d. Segundo essa concep\u00e7\u00e3o, o rumo do governo Lula-Alckmin \u201cpode pender para l\u00e1 ou para c\u00e1, dependendo da evolu\u00e7\u00e3o do quadro pol\u00edtico e do desempenho dos partidos e dos movimentos populares diante das reformas em discuss\u00e3o no Congresso\u201d \u2013 conforme resumiu um editorial do Correio da Cidadania, ainda nos idos de 2003 [1]. Para quem advoga essa perspectiva, a principal tarefa dos movimentos da classe trabalhadora no pr\u00f3ximo per\u00edodo seria \u201catuar por dentro\u201d, apoiando \u201ca esquerda do governo\u201d para tentar conquistar uma \u201chegemonia\u201d de esquerda no seu interior, contra a \u201cala direita do governo\u201d.<\/p>\n<p>Mas o que isso significa, de fato? Significa, por exemplo, exigir a ren\u00fancia dos ministros liberais, como Simone Tebet? Dificilmente os governistas concordar\u00e3o com essa conclus\u00e3o. Mas, al\u00e9m disso: qual \u00e9 essa \u201cala esquerda\u201d do governo, quando at\u00e9 mesmo ministros <em>petistas<\/em>, como Haddad, defendem a mesma pol\u00edtica econ\u00f4mica liberal que Tebet e a \u201cala direita\u201d do governo? Ou seria Rui Costa, o mais reacion\u00e1rio dos petistas, que conduzir\u00e1 as privatiza\u00e7\u00f5es no setor de transportes, j\u00e1 tendo negociado com o governador de MG, Zema, a privatiza\u00e7\u00e3o do Metr\u00f4 da capital mineira e agora barganha com o governador de SP, Tarc\u00edsio, a privatiza\u00e7\u00e3o do porto de Santos? [*]<\/p>\n<p>Quanto mais refletimos sobre a concep\u00e7\u00e3o de um \u201cgoverno em disputa\u201d, mais evidente fica toda a confus\u00e3o que essa terminologia produz e o qu\u00e3o pouco \u00fatil ela \u00e9 para orientar efetivamente a luta do proletariado e do povo pobre. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, portanto, que esse mantra seja repetido desde 2003 sem nenhuma consequ\u00eancia pr\u00e1tica: ao longo de todos governos petistas, quem disputou o governo de modo eficiente foi, de fato, a burguesia, enquanto a classe trabalhadora amarrava suas pr\u00f3prias m\u00e3os e lutas em nome de \u201cn\u00e3o desestabilizar o governo\u201d, \u201cn\u00e3o jogar \u00e1gua no moinho da direita\u201d etc. Resultado: um projeto que pretendia <em>acumular for\u00e7as \u00e0 esquerda<\/em> para, depois, promover maiores mudan\u00e7as&#8230; teve como resultado a <em>desorganiza\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o ideol\u00f3gica<\/em> do movimento prolet\u00e1rio, por um lado; e, por outro lado, <em>acumulou for\u00e7as para a direita<\/em> parlamentar, que se livrou assim que p\u00f4de do governo petista e ajudou a encubar uma extrema-direita renovada (parte da qual compusera antes, inclusive, a \u201cbase aliada\u201d do governo \u2013 como \u00e9 o caso do pr\u00f3prio Bolsonaro!). Mesmo no plano institucional, para nem falar na <em>desmobiliza\u00e7\u00e3o das massas<\/em>, a fal\u00eancia dessa t\u00e1tica se evidencia pelo <em>refluxo<\/em>, em vez do <em>aumento<\/em>, da bancada petista:<\/p>\n<p>Deputados Federais do PT no parlamento:<br \/>\n2002 &#8211; 91\/513<br \/>\n2006 &#8211; 83\/513<br \/>\n2010 &#8211; 86\/513<br \/>\n2014 &#8211; 68\/513<br \/>\n2018 &#8211; 54\/513<br \/>\n2022 &#8211; 68\/513<\/p>\n<p>E pronto: celebra-se como \u201cum grande sucesso\u201d o retorno ao tamanho de 2014, ap\u00f3s uma diminui\u00e7\u00e3o de quase 30% na bancada em rela\u00e7\u00e3o a 2002&#8230;<\/p>\n<p>Ainda assim, existe at\u00e9 mesmo quem tente dar uma aura marxista a essa concep\u00e7\u00e3o liberal da luta de classes [2]. Vejamos o exemplo cl\u00e1ssico do \u201ceurocomunista de esquerda\u201d (sic!) Nicos Poulantzas: partindo das duas frases de Marx citadas na abertura deste artigo, o grego afirmava que o Estado burgu\u00eas n\u00e3o poderia ser concebido meramente como um &#8220;comit\u00ea gestor dos interesses da burguesia&#8221;, uma vez que \u00e9 permeado por fissuras e contradi\u00e7\u00f5es, atravessadas pelas lutas de classes. O Estado capitalista seria, portanto, uma condensa\u00e7\u00e3o material de rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as, pois ele mesmo seria uma arena dos conflitos entre as classes e os grupos sociais. Conclus\u00e3o: lan\u00e7ando para o dia de S\u00e3o Nunca a perspectiva de uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, essa vis\u00e3o prega a necessidade de \u201cdisputar o Estado\u201d desde seu interior (ou, como dizem os menos endurecidos pelo burocratismo: \u201cem um movimento de pin\u00e7a, por fora e por dentro\u201d), seja qual for a coaliz\u00e3o que permita aos movimentos dos trabalhadores &#8220;adentrar&#8221; o comando conjunto do governo ao lado da burguesia. A boa e velha ideia reformista da transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica ao socialismo por meio do crescimento da maioria parlamentar do proletariado e da sua influ\u00eancia sobre o Estado burgu\u00eas, apenas sob roupagem renovada.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as concep\u00e7\u00f5es de Poulantzas foram recebidas com dureza por seu antigo professor, o marxista franc\u00eas Louis Althusser, que retrucava ao seu disc\u00edpulo: \u201cAssim, defender que o Estado \u00e9 \u2018por defini\u00e7\u00e3o atravessado pela luta de classes\u2019, \u00e9 tomar os seus desejos pela realidade. \u00c9 tomar os efeitos, mesmo profundos, ou os tra\u00e7os da luta de classes (burguesa e prolet\u00e1ria) pela pr\u00f3pria luta de classes\u201d. [3]<\/p>\n<p>O que essa concep\u00e7\u00e3o revisionista reiteradamente perde de vista, justamente, \u00e9 o significado <em>econ\u00f4mico<\/em> da concep\u00e7\u00e3o marxista do Estado como \u201cs\u00edntese oficial do antagonismo na sociedade civil\u201d: pensando a luta de classes e a sociedade civil sob um enfoque puramente <em>pol\u00edtico<\/em>, esquece que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes em uma determinada sociedade \u00e9 dada, antes de tudo, pela <em>posi\u00e7\u00e3o ocupada na divis\u00e3o social do trabalho<\/em>, ou seja, a posi\u00e7\u00e3o social <em>em rela\u00e7\u00e3o aos meios de produ\u00e7\u00e3o<\/em>. Antes de analisar as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as pol\u00edticas entre as diversas organiza\u00e7\u00f5es sociais das classes em luta, \u00e9 preciso compreender que o <em>monop\u00f3lio sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o<\/em> determina, acima de tudo, os limites dentro dos quais essas correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as podem se manifestar. Mesmo nas excepcionais situa\u00e7\u00f5es de<em> equil\u00edbrio de for\u00e7as<\/em> [4], dentro de uma sociedade capitalista, ainda nelas a burguesia <em>predomina<\/em>, atua como classe social <em>dominante<\/em>, uma vez que seu monop\u00f3lio sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o determina n\u00e3o apenas sua fun\u00e7\u00e3o social <em>dirigente<\/em>, como determina, tamb\u00e9m, a <em>depend\u00eancia material<\/em> do proletariado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia. Dentro do capitalismo, ou seja, enquanto subsista a propriedade privada burguesa dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a \u201cs\u00edntese oficial dos antagonismos da sociedade civil\u201d sempre consagrar\u00e1, em \u00faltima an\u00e1lise, a domina\u00e7\u00e3o da burguesia sobre o proletariado e as demais classes da sociedade. Esse \u00e9, seja qual for a conjuntura, o limite \u00faltimo dessa \u201ccondensa\u00e7\u00e3o material da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Refutar essa concep\u00e7\u00e3o confusionista n\u00e3o significa dizer, evidentemente, que a classe trabalhadora seja <em>completamente impotente<\/em> frente aos des\u00edgnios da burguesia. Significa dizer, pelo contr\u00e1rio, que, <em>dentro de certos limites, <strong>todo<\/strong><\/em> governo capitalista est\u00e1 \u201cem disputa\u201d. Tomemos um exemplo pr\u00e1tico. Ningu\u00e9m ignora o grau de desorganiza\u00e7\u00e3o e fragilidade em que se encontrava o movimento sindical quando, em 2017, o governo Temer tentou encaminhar a aprova\u00e7\u00e3o da Reforma da Previd\u00eancia. Em resposta, dois dias de greve geral pol\u00edtica foram convocados (15 de mar\u00e7o e 28 de abril) [5]. E, contudo, a despeito do ceticismo dentro da pr\u00f3pria esquerda e das afirma\u00e7\u00f5es do governo e da imprensa burguesa minimizando o significado pol\u00edtico da greve, essa vigorosa mobiliza\u00e7\u00e3o paralisou mais de 40 milh\u00f5es de trabalhadores em todo pa\u00eds. Isso foi o suficiente para <em>for\u00e7ar<\/em> o governo Temer a reavaliar sua t\u00e1tica: percebendo o recha\u00e7o massivo da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 Reforma da Previd\u00eancia, Temer compreendeu que a \u201clinha de menor resist\u00eancia\u201d passava por adiar esse projeto e, antes de mais nada, priorizar a aprova\u00e7\u00e3o da Reforma Trabalhista, n\u00e3o apenas porque essa era menos compreendida e recha\u00e7ada pela popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m no intuito de minar o financiamento dos sindicatos que tanta dor de cabe\u00e7a lhe haviam causado.<\/p>\n<p>Esse exemplo evidencia que a<em> disputa pelos rumos da pol\u00edtica burguesa<\/em> se realiza muito mais <em>contra<\/em> o Estado do que<em> em seu interior<\/em>. Diante de uma maioria parlamentar burguesa que toma como ref\u00e9m mesmo o mais bem-intencionado dos governos sonhados, apenas a luta de massas da <em>maioria social prolet\u00e1ria<\/em> pode <em>impor<\/em> a realiza\u00e7\u00e3o de medidas que beneficiem os trabalhadores ou <em>bloquear<\/em> a aprova\u00e7\u00e3o de medidas que os prejudiquem.<\/p>\n<p>Outro exemplo: basta lembrar como, durante a Constituinte de 1988, a despeito de possuir uma \u00ednfima presen\u00e7a na Assembleia Constituinte, o movimento popular dos trabalhadores logrou, com a for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, arrancar \u00e0 maioria parlamentar liberal uma s\u00e9rie de demandas sociais significativas, como a previs\u00e3o constitucional da reforma agr\u00e1ria, a afirma\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 moradia, a estrutura\u00e7\u00e3o do SUS etc.<\/p>\n<p>Um \u00faltimo exemplo, mais recente e localizado, mas muito significativo: na cidade de Piracicaba, no interior de S\u00e3o Paulo, o movimento de moradia acaba de ter uma grande vit\u00f3ria com a aprova\u00e7\u00e3o da Lei do Despejo Zero (Lei 226\/22), que cria uma s\u00e9rie de imposi\u00e7\u00f5es \u00e0 prefeitura antes de qualquer tentativa de realiza\u00e7\u00e3o de despejo em terreno ocupado pelos trabalhadores sem-teto (imposi\u00e7\u00f5es que dizem respeito \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de assegurar moradias alternativas dignas, desde as necessidades de saneamento, de atendimento m\u00e9dico e de transporte at\u00e9 as necessidades escolares das crian\u00e7as etc). O Projeto da Lei foi elaborado pelas pr\u00f3prias comunidades sob risco de despejo, com o apoio org\u00e2nico e direto do Partido Comunista Brasileiro. Na C\u00e2mara, a \u00fanica vereadora petista da cidade se disp\u00f4s a apresentar o projeto. \u00c9 evidente que os outros 22 vereadores, liberal-conservadores em sua maioria, n\u00e3o tinham qualquer propens\u00e3o inicial a apoiar um projeto que permite a defesa e amplia\u00e7\u00e3o do movimento local de ocupa\u00e7\u00f5es urbanas. Ainda assim, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular foi t\u00e3o ampla e expressiva que pressionou todos os vereadores a aprovarem o projeto e, mesmo ap\u00f3s o veto pelo prefeito (Luciano Almeida &#8211; Democratas), a novamente votarem em conformidade com a demanda popular, derrubando na C\u00e2mara Municipal o veto! Isso sim \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da hegemonia prolet\u00e1ria, sem negociatas ou concess\u00f5es! [6]<\/p>\n<p>A tese que considera os governos reformistas como estando \u201cmais abertos \u00e0 disputa\u201d comete o pecado de tratar como <em>virtude<\/em> aquela que \u00e9 a maior <em>debilidade<\/em> desses governos: o fato de serem governos de <em>concilia\u00e7\u00e3o de classes<\/em>, que cooptam lideran\u00e7as da classe trabalhadora para postos pol\u00edticos secund\u00e1rios em nome de \u201cgovernar ao lado\u201d dos grandes capitalistas \u2013 que, por sua vez, recebem os principais minist\u00e9rios econ\u00f4micos, a prioridade no atendimento \u00e0s suas demandas etc. Acreditando \u201cdisputar\u201d os rumos dessa coaliz\u00e3o, as lideran\u00e7as prolet\u00e1rias apenas <em>facilitam a disputa dos rumos do movimento popular pela pr\u00f3pria burguesia<\/em>, \u00e0 qual amarram seu destino.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 evidente que devemos \u201cdisputar os rumos do governo atual\u201d, se entendermos essa disputa em conex\u00e3o com a<em> independ\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora<\/em>, e n\u00e3o como uma desculpa para sua <em>subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica burguesa<\/em>. Para isso, devemos cortar pela raiz as ilus\u00f5es liberais que se infiltram no movimento prolet\u00e1rio e popular pelo veio ideol\u00f3gico do reformismo, compreendendo com nitidez aquilo que<strong><em> n\u00e3o est\u00e1 em disputa<\/em> <\/strong>no atual governo.<\/p>\n<p>O que <em>n\u00e3o est\u00e1 em disputa<\/em> no governo Lula-Alckmin? Sua <em>ess\u00eancia<\/em>, seu <em>sentido geral<\/em>: seu <em>car\u00e1ter<\/em> enquanto um governo que busca conciliar os inconcili\u00e1veis interesses dos trabalhadores com os interesses dos seus exploradores, sob o predom\u00ednio destes \u00faltimos. Ou, como Lula muito honesta e humildemente define seu programa pol\u00edtico social-liberal: n\u00e3o est\u00e1 em disputa o fato de que esse governo se limita \u00e0 perspectiva de \u201cinserir o pobre no or\u00e7amento\u201d <em>p\u00fablico<\/em> sem, com isso, erguer qualquer contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista e aos lucros bilion\u00e1rios dos grandes monop\u00f3lios econ\u00f4micos <em>privados<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o espanta, ent\u00e3o, que o governo n\u00e3o consiga dar consequ\u00eancia pr\u00e1tica a essa ret\u00f3rica de \u201cdisputa\u201d \u2013 antes de mais nada, pelo simples fato de querer encontrar nas <em>pol\u00edticas p\u00fablicas<\/em> os rem\u00e9dios para os males estruturais da<em> sociedade civil burguesa<\/em>. \u201cO intelecto pol\u00edtico \u00e9 pol\u00edtico exatamente na medida em que pensa dentro dos limites da pol\u00edtica.\u201d [7] Incapaz de conceber a <em>supera\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o do proletariado pela burguesia<\/em>, resta aos reformistas conceber formas de atenuar as agruras dessa domina\u00e7\u00e3o \u2013 um esfor\u00e7o digno de S\u00edsifo, a personagem mitol\u00f3gica condenada pelos deuses a rolar eternamente uma pedra colina acima, apenas para depois v\u00ea-la rolar para o outro lado e recome\u00e7ar do zero seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>E esse esfor\u00e7o \u201cconciliador\u201d vai ainda al\u00e9m do terreno econ\u00f4mico: mesmo no terreno pol\u00edtico, a impot\u00eancia desesperada do governo fica evidente na busca por conciliar a ret\u00f3rica antigolpista \u00e0 alian\u00e7a com golpistas civis e militares de toda esp\u00e9cie (vide o emblem\u00e1tico Ministro da Defesa de Lula-Alckmin, que n\u00e3o esconde de ningu\u00e9m seus la\u00e7os com a extrema-direita dos quart\u00e9is).<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que os reformistas concebem sua \u201chegemonia\u201d n\u00e3o de um ponto de vista marxista, mas de um ponto de vista liberal. N\u00e3o como express\u00e3o da <em>for\u00e7a social impositiva<\/em> da classe trabalhadora, mas como resultado das <em>negociatas em busca de meio-termos<\/em> entre a esquerda liberal e a direita. N\u00e3o consideram que \u201chegemonia\u201d signifique <em>arrastar irresistivelmente o centro da pol\u00edtica em sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o<\/em>; consideram como \u201chegemonia\u201d o movimento de <em>deslocar-se voluntariamente em dire\u00e7\u00e3o aos pontos de vistas dos seus advers\u00e1rios, para persuadi-los de boa f\u00e9 no meio do caminho.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o espanta que, nessa toada, o patamar da concilia\u00e7\u00e3o seja cada vez mais rebaixado e favor\u00e1vel \u00e0 burguesia, uma vez que essa n\u00e3o se limita a \u201cdisputar o governo\u201d de modo pac\u00edfico e diplom\u00e1tico. Ao contr\u00e1rio: vale-se de todo o tipo de terrorismo midi\u00e1tico e econ\u00f4mico (por meio das amea\u00e7as de fechamento de postos de trabalho ou da fuga de capitais, por exemplo, ou por meio das histerias especulativas da Bolsa etc.), e estando pronta inclusive para <em>derrubar<\/em> o governo de concilia\u00e7\u00e3o, quando este revele-se incapaz de atender a seus des\u00edgnios na envergadura e velocidade desejadas.<\/p>\n<p>Existe uma v\u00edrgula sequer de novidade em tudo o que foi exposto acima? De modo algum. H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, em 1901, a marxista polonesa Rosa Luxemburgo constatava (comentando a t\u00e1tica de Millerand e Jaur\u00e8s, os primeiros socialistas a praticarem a participa\u00e7\u00e3o dos socialistas em governos burgueses):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Assim, a t\u00e1tica de Jaur\u00e8s, que com o sacrif\u00edcio da oposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio socialista buscou alcan\u00e7ar resultados pr\u00e1ticos, provou-se a mais impratic\u00e1vel do mundo. Em vez de aumentar a influ\u00eancia dos socialistas sobre o governo e o parlamento burgu\u00eas, os transformou em ferramentas involunt\u00e1rias do governo e ap\u00eandices passivos dos radicais pequeno-burgueses. Em vez de dar um novo impulso \u00e0s pol\u00edticas progressistas da C\u00e2mara, a ren\u00fancia \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o socialista eliminou a \u00fanica for\u00e7a motriz que ainda poderia ter levado o parlamento e o governo a uma pol\u00edtica decisiva e corajosa. [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O socialismo, que \u00e9 conclamado a abolir a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e a abolir o dom\u00ednio de classe burguesa, participa do governo do Estado burgu\u00eas, que tem a tarefa de preservar a propriedade privada e perpetuar o dom\u00ednio de classe da burguesia. Os socialistas, conclamados a organizar o proletariado em um partido de classe particular e a conduzi-lo \u00e0 luta contra todas as classes burguesas, transformam a classe oper\u00e1ria em um ap\u00eandice da burguesia republicana.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A participa\u00e7\u00e3o na subjuga\u00e7\u00e3o do proletariado como um meio de liberta\u00e7\u00e3o do proletariado e a articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com os partidos burgueses como um meio de luta contra a burguesia \u2013 a contradi\u00e7\u00e3o interna parece saltar aos olhos. [8]<\/p>\n<p>Como j\u00e1 dissemos, em certo sentido, <em>todo<\/em> governo capitalista est\u00e1 \u201cem disputa\u201d. Mas essa disputa n\u00e3o ocorre, como pensam os governistas, <em>dentro<\/em> dos governos, nem expressa a maior ou menor boa vontade desse ou daquele governo frente aos movimentos populares: essa disputa ocorre <em>fora<\/em> do governo, na sociedade civil, da qual o Estado nada mais \u00e9 do que uma \u201cs\u00edntese oficial\u201d. Por isso mesmo, a \u00fanica arma da qual a maioria trabalhadora da sociedade disp\u00f5e no capitalismo \u00e9 a sua <em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em>, a sua <em>independ\u00eancia pol\u00edtica<\/em>, sem a qual \u00e9 incapaz de travar uma luta at\u00e9 o fim por seus interesses. Novamente, nas palavras da camarada Rosa Luxemburgo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Precisamente porque n\u00f3s n\u00e3o concedemos nem um cent\u00edmetro de nossa posi\u00e7\u00e3o, n\u00f3s for\u00e7amos o governo e os partidos burgueses a nos conceder os poucos sucessos imediatos que podem ser ganhos. Mas se n\u00f3s come\u00e7amos a perseguir o que \u00e9 \u201cposs\u00edvel\u201d de acordo com os princ\u00edpios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos pr\u00f3prios princ\u00edpios, e por meios de troca como fazem os estadistas, ent\u00e3o n\u00f3s iremos logo nos encontrar na mesma situa\u00e7\u00e3o que o ca\u00e7ador que n\u00e3o s\u00f3 falhou em matar o veado, mas tamb\u00e9m perdeu sua arma no processo. [9]<\/p>\n<p>Que os reformistas se limitem a <em>negociar os rumos dos governos de concilia\u00e7\u00e3o<\/em>. Os comunistas t\u00eam \u00e0 sua frente uma tarefa muito maior: <em>disputar os rumos da luta de classes<\/em>, sem nos limitarmos ao quadro e ao ritmo da pequena pol\u00edtica, ao quadro da sociedade capitalista e do Estado burgu\u00eas (que alguns revisionistas apaixonados pela \u201c<em>Realpolitik<\/em>\u201d burguesa gostariam de chamar de \u201cgrande pol\u00edtica\u201d)[10].<\/p>\n<p>Enquanto os utopistas da concilia\u00e7\u00e3o imploram desesperadamente pelo imposs\u00edvel (a pacifica\u00e7\u00e3o social duradoura, a coaliz\u00e3o nacional-desenvolvimentista entre a burguesia e o povo trabalhador etc), os materialistas dial\u00e9ticos trabalham pela \u00fanica possibilidade progressiva dada na atual conjuntura da luta de classes: organiza\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora, sem a qual a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tende cada vez mais irresistivelmente \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Essa tarefa, embora aparentemente <em>mais dif\u00edcil<\/em>, \u00e9, na realidade, a <em>\u00fanica vi\u00e1vel<\/em> \u2013 e isso, no fundo, \u00e9 <em>reconhecido pelos pr\u00f3prios reformistas<\/em>, quando apelam <em>\u00e0s massas para quem entrem em cena<\/em>, para que <em>apoiem o governo<\/em>, para que \u201cpor favor ajudem a empurrar \u00e0 esquerda o governo\u201d que esses pr\u00f3prios reformistas, com suas press\u00f5es institucionais e t\u00e1ticas de negocia\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguem evitar que continue cedendo cada vez mais \u00e0 direita.<\/p>\n<p>A tarefa dos comunistas n\u00e3o \u00e9 a mera ades\u00e3o passiva ou reboquismo espont\u00e2neo diante do tabuleiro de xadrez da \u201c<em>Realpolitik<\/em>\u201d burguesa. \u00c9 preciso <em>preparar a classe trabalhadora para uma luta direta pelo poder<\/em>, para arrancar em absoluto todo o poder pol\u00edtico das m\u00e3os dos propriet\u00e1rios privados dos grandes meios de produ\u00e7\u00e3o e estabelecer a <em>domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica exclusiva do proletariado e do povo trabalhador<\/em>. Levando em conta o est\u00e1gio presente da luta de classes, \u00e9 evidente que o trabalho de <em>prepara\u00e7\u00e3o<\/em> para essa luta definitiva \u00e9 t\u00e3o urgente quanto subestimado pela maioria das lideran\u00e7as populares, que depositam sua f\u00e9 nas melhorias graduais pela via institucional. E isso mesmo depois dessa via ter desembocado em um golpe parlamentar e na impot\u00eancia para evitar que todas as melhorias fossem revertidas, muitos mant\u00eam-se incapazes de pensar para al\u00e9m da receita tradicional da concilia\u00e7\u00e3o! N\u00e3o \u00e0 toa, <em>a luta ideol\u00f3gica pelo marxismo revolucion\u00e1rio entre os movimentos prolet\u00e1rios e populares<\/em> salta aos olhos como um dos mais indispens\u00e1veis aspectos desse trabalho de <em>prepara\u00e7\u00e3o<\/em>. Mas, evidentemente, essa luta ideol\u00f3gica \u00e9 insuficiente por si s\u00f3.<\/p>\n<p>Por isso, h\u00e1 apenas <em>uma alternativa efetiva<\/em> para aqueles que desejam <em>engajar-se <strong>imediatamente<\/strong><\/em> nessa luta pelo poder, sem cair no aventureirismo blanquista, por um lado, ou no reboquismo reformista, por outro (dois desvios complementares, que decorrem ambos do qu\u00e3o \u201cdistante\u201d parece a possibilidade da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria). Essa alternativa \u00e9 a <em>estrat\u00e9gia e a t\u00e1tica do Poder Popular<\/em>: atuar decididamente em torno dos instrumentos de organiza\u00e7\u00e3o e de luta da classe trabalhadora no sentido de uma luta independente, <em>contra o Estado burgu\u00eas<\/em>, impondo as demandas e reivindica\u00e7\u00f5es populares por meio da for\u00e7a de massas da classe trabalhadora organizada em torno dos seus pr\u00f3prios interesses, e n\u00e3o em torno dos jogos palacianos das diversas esferas da pol\u00edtica burguesa (inclusive a <em>pol\u00edtica burguesa para oper\u00e1rios<\/em>, como L\u00eanin designava o reformismo social-liberal aos moldes do sindicalismo ingl\u00eas).<\/p>\n<p>\u201cParticipar em cada luta de massas, intervindo atrav\u00e9s de uma agita\u00e7\u00e3o e propaganda revolucion\u00e1ria coordenada, capaz de lan\u00e7ar luz sobre cada aspecto da vida social, elucidando as tarefas hist\u00f3ricas do proletariado e os caminhos para sua emancipa\u00e7\u00e3o \u2013 eis a tarefa hist\u00f3rica dos comunistas brasileiros.\u201d [11]<\/p>\n<p>O centro de nossa tarefa n\u00e3o deve ser o <em>poder burgu\u00eas vigente<\/em>, mas o <em>poder prolet\u00e1rio em forma\u00e7\u00e3o<\/em>. Em seus est\u00e1gios embrion\u00e1rios, esse segundo poder invariavelmente se bate sob o primeiro, enquanto n\u00e3o \u00e9 capaz de mais do que barganhar contra tal ou qual retrocesso, em favor de tal ou qual pequena concess\u00e3o. Mas, para os marxistas, o poder da massa organizada n\u00e3o se limita a ser uma \u201cfor\u00e7a de press\u00e3o da sociedade civil sobre o Estado\u201d, como concebem os reformistas: \u00e9, muito mais que isso, o ponto de partida para a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e para a <em>reorganiza\u00e7\u00e3o socialista da sociedade<\/em>.<\/p>\n<p>Depois de um longo per\u00edodo de ataques frontais e de hegemonia dos elementos mais reacion\u00e1rios da burguesia brasileira, n\u00e3o \u00e9 incompreens\u00edvel que muitos trabalhadores se desarmem em otimismo, diante das promessas de melhorias e avan\u00e7os sociais \u2013 ou, no m\u00ednimo, diante da promessa de interrup\u00e7\u00e3o das pioras e retrocessos sociais. Mas os comunistas alertam que s\u00f3 se pode garantir avan\u00e7os ou evitar retrocessos, numa sociedade cindida em classes, pela pr\u00f3pria luta direta das classes exploradas contra as classes exploradoras. Trocando em mi\u00fados: o gado burgu\u00eas precisa sentir no seu cangote a for\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o do proletariado, por meio de sua luta de massas, de suas greves, ocupa\u00e7\u00f5es e mobiliza\u00e7\u00f5es. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel desencorajar as aventuras golpistas, que saber\u00e3o o tamanho da resist\u00eancia material contra a qual ter\u00e3o de se bater. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel constranger a maioria burguesa no parlamento e quaisquer governos submetidos \u00e0 chantagem burguesa a fazer concess\u00f5es e evitar ataques. O resto \u00e9 pura utopia social-liberal.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] https:\/\/www.correiocidadania.com.br\/antigo\/ed348\/editorial.htm<\/p>\n<p>[*] https:\/\/valor.globo.com\/politica\/noticia\/2023\/01\/05\/queremos-fugir-de-dogmas-na-economia-diz-ministro-da-casa-civil.ghtml<\/p>\n<p>[2] \u201cN\u00e3o basta dizer que a luta de classes s\u00f3 se torna aut\u00eantica, consequente, desenvolvida, quando abrange o dom\u00ednio da pol\u00edtica. Tamb\u00e9m em pol\u00edtica \u00e9 poss\u00edvel limitar-se a pormenores insignificantes ou ir mais fundo, at\u00e9 ao fundamental. O marxismo apenas reconhece a luta de classes como inteiramente desenvolvida, \u2018nacional\u2019, quando ela n\u00e3o s\u00f3 abrange a pol\u00edtica, mas toma na pol\u00edtica aquilo que \u00e9 mais essencial: a organiza\u00e7\u00e3o do poder de Estado. Pelo contr\u00e1rio, o liberalismo, quando o movimento oper\u00e1rio adquiriu alguma for\u00e7a, n\u00e3o ousa mais negar a luta de classes, mas procura reduzir, truncar, castrar o conceito de luta de classes. O liberalismo est\u00e1 pronto a reconhecer a luta de classes tamb\u00e9m no dom\u00ednio da pol\u00edtica, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que no seu dom\u00ednio n\u00e3o entre a organiza\u00e7\u00e3o do poder de Estado. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender quais os interesses de classe da burguesia que suscitam essa deforma\u00e7\u00e3o liberal do conceito de luta de classes.\u201d L\u00eanin, em: https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1913\/05\/05.htm<\/p>\n<p>[3] ALTHUSSER, Louis (1994). \u00c9crits philosophiques et politiques. Tome I. Paris: Stock, Imec, p. 448. A posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, no escrito citado na nota 2, \u00e9 plenamente coerente com essa argumenta\u00e7\u00e3o de Althusser: \u201cTodas as lutas de classes s\u00e3o lutas pol\u00edticas . \u00c9 sabido que os oportunistas, subjugados pelas ideias do liberalismo, compreenderam erradamente estas profundas palavras de Marx e se esfor\u00e7aram por interpret\u00e1-las de forma deturpada. Entre os oportunistas figuraram, por exemplo, os economicistas, irm\u00e3os mais velhos dos liquidacionistas. Os economicistas pensavam que qualquer choque entre classes \u00e9 j\u00e1 uma luta pol\u00edtica. Os economicistas reconheciam por isso como \u2018luta de classes\u2019 a luta por um aumento de 5 copeques por rublo, recusando-se a ver a luta de classes mais elevada, desenvolvida, nacional, por objetivos pol\u00edticos. Deste modo, os economicistas reconheciam a luta de classes embrion\u00e1ria sem a reconhecerem na sua forma desenvolvida. Por outras palavras, os economicistas reconheciam na luta de classes apenas aquilo que era mais toler\u00e1vel do ponto de vista da burguesia liberal, recusando-se a ir mais longe que os liberais, recusando-se a reconhecer uma luta de classes mais elevada, inadmiss\u00edvel para os liberais. Os economicistas transformavam-se assim em pol\u00edticos oper\u00e1rios liberais. Os economicistas renunciavam assim ao conceito marxista, revolucion\u00e1rio, da luta de classes.\u201d A esse respeito, em Marx: Manifesto comunista e Mis\u00e9ria da filosofia.<\/p>\n<p>[4] Para o conceito de \u201cequil\u00edbrio de for\u00e7as\u201d, vide a obra Estrat\u00e9gia e t\u00e1tica, de Marta Harnecker. Em L\u00eanin:<br \/>\n\u201c1) O resultado at\u00e9 hoje (segunda-feira, 30 de outubro) \u00e9 um equil\u00edbrio de for\u00e7as [&#8230;].<br \/>\n2) O czarismo n\u00e3o \u00e9 mais forte o suficiente; a revolu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 forte o suficiente para vencer.<br \/>\n3) Da\u00ed a tremenda vacila\u00e7\u00e3o. Por um lado, o espantoso e enorme aumento de acontecimentos revolucion\u00e1rios (greves, com\u00edcios, barricadas, comit\u00eas de seguran\u00e7a p\u00fablica, completa paralisia do governo etc.); por outro lado, a aus\u00eancia de medidas repressivas resolutas. As tropas est\u00e3o vacilando. [&#8230;]<br \/>\nA Corte est\u00e1 vacilando e ganhando tempo. A rigor, essas s\u00e3o suas t\u00e1ticas corretas: o equil\u00edbrio de for\u00e7as a obriga a aguardar seu tempo, pois o poder est\u00e1 em suas m\u00e3os.<br \/>\nA revolu\u00e7\u00e3o chegou a um est\u00e1gio em que \u00e9 desvantajoso para a contra-revolu\u00e7\u00e3o atacar, assumir a ofensiva.<br \/>\nPara n\u00f3s, para o proletariado, para os democratas revolucion\u00e1rios consistentes, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. Se n\u00e3o subirmos a um n\u00edvel superior, se n\u00e3o conseguirmos lan\u00e7ar uma ofensiva independente, se n\u00e3o esmagarmos as for\u00e7as do czarismo, se n\u00e3o destruirmos o seu poder atual, ent\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o vai parar no meio do caminho, ent\u00e3o a burguesia vai ludibriar os trabalhadores.\u201d<br \/>\nEm: https:\/\/www.marxists.org\/archive\/lenin\/works\/1905\/oct\/17d.htm<\/p>\n<p>[5] Vide:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"UurM9WMzcK\"><p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2017\/05\/26\/ensaio-geral-os-resultados-parciais-da-greve-de-massas\/\">Ensaio geral: os resultados parciais da greve de massas<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Ensaio geral: os resultados parciais da greve de massas&#8221; &#8212; LavraPalavra\" src=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2017\/05\/26\/ensaio-geral-os-resultados-parciais-da-greve-de-massas\/embed\/#?secret=UurM9WMzcK\" data-secret=\"UurM9WMzcK\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p>[6] https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30040<\/p>\n<p>[7] A esse respeito, a reflex\u00e3o de Marx mant\u00e9m toda sua atualidade:<br \/>\n\u201cPode o Estado comportar-se de outra forma?<br \/>\nO Estado jamais encontrar\u00e1 no &#8220;Estado e na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade&#8221; o fundamento dos males sociais, como o &#8220;prussiano&#8221; exige do seu rei. Onde h\u00e1 partidos pol\u00edticos, cada um encontra o fundamento de qualquer mal no fato de que n\u00e3o ele, mas o seu partido advers\u00e1rio, acha-se ao leme do Estado. At\u00e9 os pol\u00edticos radicais e revolucion\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o procuram o fundamento do mal na ess\u00eancia do Estado, mas numa determinada forma de Estado, no lugar da qual eles querem colocar uma outra forma de Estado.<br \/>\nO Estado e a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade n\u00e3o s\u00e3o, do ponto de vista pol\u00edtico, duas coisas diferentes. O Estado \u00e9 o ordenamento da sociedade. Quando o Estado admite a exist\u00eancia de problemas sociais, procura-os ou em leis da natureza, que nenhuma for\u00e7a humana pode comandar, ou na vida privada, que \u00e9 independente dele, ou na inefici\u00eancia da administra\u00e7\u00e3o, que depende dele. Assim, a Inglaterra acha que a mis\u00e9ria tem o seu fundamento na lei da natureza, segundo a qual a popula\u00e7\u00e3o supera necessariamente os meios de subsist\u00eancia. Por um outro lado, o pauperismo \u00e9 explicado como derivando da m\u00e1 vontade dos pobres, ou, de acordo com o rei da Pr\u00fassia, do sentimento n\u00e3o crist\u00e3o dos ricos, e, segundo a Conven\u00e7\u00e3o, da suspeita disposi\u00e7\u00e3o contra-revolucion\u00e1ria dos propriet\u00e1rios. Por isso, a Inglaterra pune os pobres, o rei da Pr\u00fassia admoesta os ricos e a Conven\u00e7\u00e3o guilhotina os propriet\u00e1rios.<br \/>\nFinalmente, todos os Estados procuram a causa em defici\u00eancias acidentais intencionais da administra\u00e7\u00e3o e, por isso, o rem\u00e9dio para os seus males em medidas administrativas. Por que? Exatamente porque a administra\u00e7\u00e3o \u00e9 a atividade organizadora do Estado.<br \/>\nO Estado n\u00e3o pode eliminar a contradi\u00e7\u00e3o entre a fun\u00e7\u00e3o e a boa vontade da administra\u00e7\u00e3o, de um lado, e os seus meios e possibilidades, de outro, sem eliminar a si mesmo, uma vez que repousa sobre essa contradi\u00e7\u00e3o. Ele repousa sobre a contradi\u00e7\u00e3o entre vida privada e p\u00fablica, sobre a contradi\u00e7\u00e3o entre os interesses gerais e os interesses particulares. Por isso, a administra\u00e7\u00e3o deve limitar-se a uma atividade formal e negativa, uma vez que exatamente l\u00e1 onde come\u00e7a a vida civil e o seu trabalho, cessa o seu poder. Mais ainda, frente \u00e0 consequ\u00eancias que brotam da natureza a-social desta vida civil, dessa propriedade privada, desse com\u00e9rcio, dessa ind\u00fastria, dessa rapina rec\u00edproca das diferentes esferas civis, frente a estas consequ\u00eancias, a impot\u00eancia \u00e9 a lei natural da administra\u00e7\u00e3o. Com efeito, esta dilacera\u00e7\u00e3o, esta inf\u00e2mia, esta escravid\u00e3o da sociedade civil, \u00e9 o fundamento natural onde se apoia o Estado moderno, assim como a sociedade civil da escravid\u00e3o era o fundamento no qual se apoiava o Estado antigo. A exist\u00eancia do Estado e a exist\u00eancia da escravid\u00e3o s\u00e3o insepar\u00e1veis. O Estado antigo e a escravid\u00e3o antiga \u2013 fracas ant\u00edteses cl\u00e1ssicas \u2013 n\u00e3o estavam fundidos entre si mais estreitamente do que o Estado moderno e o moderno mundo de traficantes, hip\u00f3critas ant\u00edteses crist\u00e3s. Se o Estado moderno quisesse acabar com a impot\u00eancia da sua administra\u00e7\u00e3o, teria que acabar com a atual vida privada. Se ele quisesse eliminar a vida privada, deveria eliminar a si mesmo, uma vez que ele s\u00f3 existe como ant\u00edtese dela. Mas nenhum ser vivo acredita que os defeitos de sua exist\u00eancia tenham a sua raiz no princ\u00edpio da sua vida, na ess\u00eancia da sua vida, mas, ao contr\u00e1rio, em circunst\u00e2ncias externas \u00e0 sua vida. O suic\u00eddio \u00e9 contra a natureza. Por isso, o Estado n\u00e3o pode acreditar na impot\u00eancia interior da sua administra\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de si mesmo. Ele pode descobrir apenas defeitos formais, casuais, da mesma, e tentar remedi\u00e1-los. Se tais modifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o infrut\u00edferas, ent\u00e3o o mal social \u00e9 uma imperfei\u00e7\u00e3o natural, independente do homem, uma lei de Deus, ou ent\u00e3o a vontade dos indiv\u00edduos particulares \u00e9 por demais corrupta para corresponder aos bons objetivos da administra\u00e7\u00e3o. E quem s\u00e3o esses pervertidos indiv\u00edduos particulares? S\u00e3o os que murmuram contra o governo sempre que ele limita a liberdade e pretendem que o governo impe\u00e7a as consequ\u00eancias necess\u00e1rias dessa liberdade.<br \/>\nQuanto mais poderoso \u00e9 o Estado e, portanto, quanto mais pol\u00edtico \u00e9 um pa\u00eds, tanto menos est\u00e1 disposto a procurar no princ\u00edpio do Estado, portanto no atual ordenamento da sociedade, do qual o Estado \u00e9 a express\u00e3o ativa, autoconsciente e oficial, o fundamento dos males sociais e a compreender-lhes o princ\u00edpio geral. O intelecto pol\u00edtico \u00e9 pol\u00edtico exatamente na medida em que pensa dentro dos limites da pol\u00edtica.\u201d<br \/>\nhttps:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1844\/08\/07.htm<\/p>\n<p>[8] Rosa Luxemburgo, em A crise socialista na Fran\u00e7a. Dispon\u00edvel em: https:\/\/lavrapalavra.com\/produto\/a-outra-rosa-pre-venda-promocional-entregas-a-partir-de-5-4\/<\/p>\n<p>[9] https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/luxemburgo\/1898\/09\/30.htm<\/p>\n<p>[10] \u201cGrande pol\u00edtica (alta pol\u00edtica) \u2013 pequena pol\u00edtica (pol\u00edtica do dia-a-dia, pol\u00edtica parlamentar, de corredor, de intrigas). A grande pol\u00edtica compreende as quest\u00f5es ligadas \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de novos Estados, \u00e0 luta pela destrui\u00e7\u00e3o, pela defesa, pela conserva\u00e7\u00e3o de determinadas estruturas org\u00e2nicas econ\u00f4mico-sociais. A pequena pol\u00edtica compreende as quest\u00f5es parciais e cotidianas que se apresentam no interior de uma estrutura j\u00e1 estabelecida em decorr\u00eancia de lutas pela predomin\u00e2ncia entre as diversas fra\u00e7\u00f5es de uma mesma classe pol\u00edtica. Portanto, \u00e9 grande pol\u00edtica tentar excluir a grande pol\u00edtica do \u00e2mbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena pol\u00edtica.\u201d (GRAMSCI, Antonio. Cadernos do c\u00e1rcere. Vol. III. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000, p. 21.) Ainda assim, os marxistas vulgares insistem em chamar a pol\u00edtica institucional burguesa, a diplomacia entre as pot\u00eancias capitalistas etc. de \u201cgrande pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>[11] https:\/\/lavrapalavra.com\/2019\/12\/02\/o-poder-popular-gramsci-e-a-dualidade-de-poderes-no-ocidente\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30101\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"O que n\u00e3o est\u00e1 em disputa no governo Lula-Alckmin? 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