{"id":30229,"date":"2023-04-05T13:21:17","date_gmt":"2023-04-05T16:21:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=30229"},"modified":"2023-04-05T13:24:15","modified_gmt":"2023-04-05T16:24:15","slug":"sobre-o-fetichismo-da-mercadoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30229","title":{"rendered":"Sobre o fetichismo da mercadoria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30230\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30229\/texto-warley-2\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/texto-warley-1.jpg?fit=678%2C452&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"678,452\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"texto-warley\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/texto-warley-1.jpg?fit=678%2C452&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-30230\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/texto-warley-1.jpg?resize=678%2C452&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"678\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/texto-warley-1.jpg?w=678&amp;ssl=1 678w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/texto-warley-1.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 678px) 100vw, 678px\" \/><!--more--><\/p>\n<div dir=\"auto\"><strong>Eles n\u00e3o sabem o que falam e o fazem mesmo assim: a pol\u00eamica envolvendo o fetichismo da mercadoria.<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<p>Por Warlen Nunes (membro do CC do PCB e militante do PCB-MG) e Ayrton Otoni<\/p>\n<p>Dentre as in\u00fameras pol\u00eamicas que parecem surgir nas redes sociais, uma em espec\u00edfico envolveu a categoria do fetichismo da mercadoria. Uma categoria que \u00e9 basilar do marxismo embora, como ficou demostrado &#8211; pelas tentativas insuficientes de explica\u00e7\u00f5es sobre o tema por parte dos \u201csociais influencers marxistas&#8221; \u2013 mostrou-se muito incompreendida.<\/p>\n<p>O debate acerca do fetichismo da mercadoria n\u00e3o \u00e9 algo novo no campo da teoria marxista, apesar de alguns se apresentarem como inovadores ou porta-vozes das boas novas, a discuss\u00e3o sobre a tem\u00e1tica j\u00e1 se acumula por algumas d\u00e9cadas. Tendo como exemplo, em \u201cA teoria marxista do valor\u201d (1928), Isaak Rubin resgata quest\u00f5es centrais e j\u00e1 apontava a necessidade de revis\u00e3o na forma de leitura dos apontamentos de Marx sobre fetichismo, sob o argumento principal de que ainda \u00e0 \u00e9poca \u201ca teoria de Marx sobre o fetichismo da mercadoria n\u00e3o ocupou lugar que merece no sistema econ\u00f4mico marxista\u201d (RUBIN, 1974). \u2003Segundo Rubin, o fato n\u00e3o se deve a falta de leitura sobre a tem\u00e1tica, pois o autor reconhecia que \u201ctanto os marxistas quanto os advers\u00e1rios do marxismo elogiaram a teoria, considerando-a como uma das mais audazes e engenhosas\u201d a apresentando como uma \u201cbrilhante generaliza\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, uma teoria cr\u00edtica de toda cultura contempor\u00e2nea, baseada na reifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas\u201d (RUBIN, 1974). Entretanto, as interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o reconheciam que o conceito de fetichismo faz parte de uma dimens\u00e3o org\u00e2nica e central para a garantia da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, em que n\u00e3o pode ser lida como um momento deslocado da l\u00f3gica interna expressa por Marx em O Capital, pois as categorias n\u00e3o s\u00e3o para o autor somente palavras vazias, mas \u201c[\u2026] as categorias expressam formas de ser, determina\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia\u201d (MARX, 2011, p. 59).<\/p>\n<p>Os apontamentos de Rubin visam inicialmente tra\u00e7ar dois diagn\u00f3sticos que nos parecem atuais: 1) a teoria sobre o fetiche da mercadoria aparece tanto sob os cr\u00edticos quanto para a tradi\u00e7\u00e3o marxista como um momento em suspenso (puramente abstrato) da forma de ser da sociedade capitalista, ou at\u00e9 mesmo enquanto, uma ilus\u00e3o puramente subjetiva e psicol\u00f3gica que acontece somente na cabe\u00e7a dos homens. 2) como uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica. Segundo o autor, esses erros est\u00e3o presentes, devido a m\u00e1 compreens\u00e3o da forma expositiva da estrutura da primeira se\u00e7\u00e3o de O Capital, onde o cap\u00edtulo sobre o fetichismo est\u00e1 \u201cseparado\u201d dos cap\u00edtulos anteriores. Entretanto, salienta o autor que \u201cesta estrutura formal, no entanto, n\u00e3o corresponde \u00e0 estrutura interna e \u00e0s conex\u00f5es das ideias de Marx\u201d (RUBIN, 1974), onde a \u201cteoria do fetichismo \u00e9, per se, a base de todo sistema econ\u00f4mico de Marx, e particularmente a sua teoria do valor\u201d (RUBIN, 1974). Nesse sentido, para afastar essas interpreta\u00e7\u00f5es que retornam no mar agitado das fr\u00e1geis pol\u00eamicas das redes sociais, o texto visa explicitar de forma sum\u00e1ria no que consiste essa categoria para Marx.<\/p>\n<p>Marx define seu projeto de Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica como o de \u201cdesvelar a lei de movimento econ\u00f4mico da sociedade moderna\u201d. O Capital de Marx, como ele mesmo disse em uma carta a Engels de 1958, se trata de uma cr\u00edtica das categorias econ\u00f4micas, o projeto de minha vida, \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do sistema da economia burguesa, ou seja, \u00e9 ao mesmo tempo a exposi\u00e7\u00e3o do sistema e sua cr\u00edtica (MARX. ENGELS: 2021).<\/p>\n<p>Dessa maneira, Marx visa p\u00f4r a nu as principais contradi\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es sociais burguesas por entender que essas rela\u00e7\u00f5es aparecem atrav\u00e9s de certas formas invertidas e coisificadas e, mesmo que essas sejam cria\u00e7\u00f5es humanas, acabam por se autonomizar e dominar os pr\u00f3prios seres humanos.<\/p>\n<p>A palavra fetichismo deriva do portugu\u00eas feiti\u00e7o. Na sua origem o termo fetiche designava um objeto ao qual se atribu\u00eda poderes m\u00e1gicos. Ele surge no contexto do colonialismo europeu para caracterizar as religi\u00f5es dos povos africanos. Marx, ao se apropriar do conceito, lhe d\u00e1 um novo significado, o relacionando como um dado insepar\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, ou seja, o ser da mercadoria tem como uma de suas propriedades essenciais o fetiche.<\/p>\n<p>Desse modo, o conceito de fetichismo explicita essa forma de aparecer das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas \u2013 \u00e9 atrav\u00e9s desta categoria que compreendemos que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o entre as pessoas assumem necessariamente a forma de rela\u00e7\u00f5es entre coisas (MARX, 2013: RUBIN, 1987).<\/p>\n<p>Desse modo, para encontrarmos uma analogia, temos de nos refugiar na regi\u00e3o nebulosa do mundo religioso. Aqui, os produtos do c\u00e9rebro humano parecem dotados de vida pr\u00f3pria, como figuras independentes que travam rela\u00e7\u00e3o umas com as outras e com os homens. Assim se apresentam, no mundo das mercadorias, os produtos da m\u00e3o humana. A isso eu chamo de fetichismo, que se cola aos produtos do trabalho t\u00e3o logo eles s\u00e3o produzidos como mercadorias e que, por isso, \u00e9 insepar\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. (MARX.2013, p.147-148)<\/p>\n<p>Para explicar esse quiproqu\u00f3, Marx vai analisar como o trabalho de produtores privados e independentes adquire seu car\u00e1ter social no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. E, como esse car\u00e1ter social do trabalho que produz valor aparece como uma qualidade natural das mercadorias, do dinheiro e do capital. \u00c9 nesse vi\u00e9s, que Rubin vai dizer que o fetichismo \u00e9 parte constitutiva da teoria do valor de Marx (RUBIN,1987).<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 dessa maneira que os segredos e os mist\u00e9rios das rela\u00e7\u00f5es capitalistas poder\u00e3o ser desvelados, n\u00e3o s\u00f3 revelando que o trabalho \u00e9 a fonte oculta do valor, mas explicando por que o trabalho social assume essas formas fetichistas de manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx se expressa nos seguintes termos sobre a forma-mercadoria e o fetiche que lhe \u00e9 inerente, \u201creflete aos homens o car\u00e1ter social dos seus trabalhos como propriedades naturais das coisas, uma invers\u00e3o se opera aqui &#8211; o que \u00e9 social, fruto das rela\u00e7\u00f5es entre os homens, aparece como qualidade natural da pr\u00f3pria coisa\u201d. (MARX, 2013)<\/p>\n<p>A propriedade social do valor das mercadorias s\u00f3 pode se manifestar em sua rela\u00e7\u00e3o com outras mercadorias, desse modo, a qualidade de ter valor aparece como algo inscrito no corpo da mercadoria e n\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre pessoas. Assim, podemos entender por que a mercadoria devolve aos homens a rela\u00e7\u00e3o social de produ\u00e7\u00e3o como uma rela\u00e7\u00e3o entre coisas. Podemos denominar essa rela\u00e7\u00e3o como de coisifica\u00e7\u00e3o das pessoas e personifica\u00e7\u00e3o das coisas (RUBIN:1974).<\/p>\n<p>Ademais, o car\u00e1ter de fetiche dos produtos do trabalho como demonstra Marx surge do car\u00e1ter peculiar do trabalho social produtor de mercadoria e, para que os trabalhos privados se validem como trabalho social, a \u00fanica maneira de isso ocorrer \u00e9 mediante a compara\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de coisas que valem.<\/p>\n<p>Assim sendo, para que o valor se expresse ela tem que encontrar seu equivalente de valor. Ou seja, ela tem que ser vendida. Nos dizeres de Marx, a mercadoria tem que realizar seu salto mortal, o trabalho s\u00f3 \u00e9 validado como trabalho social no mercado. Por isso, Marx vai dizer que as rela\u00e7\u00f5es humanas est\u00e3o coisificadas, dessa forma, mediada por coisas. A quest\u00e3o toda se torna mais vis\u00edvel quando o dinheiro entra em cena. Assim, o mist\u00e9rio do fetichismo do dinheiro \u00e9 o mesmo do fetichismo da mercadoria, s\u00f3 que agora de forma vis\u00edvel e deslumbrante diante de nossos olhos (MARX, 2013). O dinheiro \u00e9 um modo de representa\u00e7\u00e3o das trocas generalizadas de mercadorias, esse \u00e9 seu fundamento que Marx vai nos explicar a partir da categoria de equivalente geral.<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel compreender o fetichismo do dinheiro desvendando sua g\u00eanese a partir da forma mercadoria. \u201cA objetividade do valor das mercadorias \u00e9 diferente de Mistress Quicklyf, na medida em que n\u00e3o se sabe por onde agarr\u00e1-la. Exatamente ao contr\u00e1rio da objetividade sens\u00edvel e crua dos corpos das mercadorias, na objetividade de seu valor n\u00e3o est\u00e1 contido um \u00fanico \u00e1tomo de mat\u00e9ria natural\u201d. (MARX, 2013, p.124-125). \u00c9 somente a partir da rela\u00e7\u00e3o social de uma mercadoria com outra mercadoria que a subst\u00e2ncia social cristalizada nas mercadorias pode se manifestar, por isso, se inicia a an\u00e1lise da forma valor pela rela\u00e7\u00e3o mais simples, isto \u00e9, a troca de uma mercadoria pela outra. \u201cCabe, aqui, realizar o que jamais foi tentado pela economia burguesa, a saber, provar a g\u00eanese dessa forma-dinheiro, portanto, seguir de perto o desenvolvimento da express\u00e3o do valor contida na rela\u00e7\u00e3o de valor das mercadorias, desde sua forma mais simples e opaca at\u00e9 a ofuscante forma-dinheiro. Com isso, desaparece, ao mesmo tempo, o enigma do dinheiro\u201d (MARX, 2013, p. 125), ou seja, como afirma Jadir Antunes: \u201cpara compreendermos o fetiche da mercadoria ser\u00e1 necess\u00e1rio compreendermos o duplo movimento da mercadoria: o movimento do vir-a-ser mercadoria e o do vir-a-ser dinheiro. O primeiro movimento da mercadoria, o do vir-a-ser mercadoria, \u00e9 o movimento atrav\u00e9s do qual uma coisa, que em sua origem existe em-si e por-si mesma, torna-se mercadoria e coisa para outro numa rela\u00e7\u00e3o de troca\u201d (ANTUNES, 2018).<\/p>\n<p>Aqui Marx realiza o que jamais foi tentado: buscar compreender a express\u00e3o de valor contida na rela\u00e7\u00e3o de troca das mercadorias, da forma simples a ofuscante forma dinheiro, assim desaparece o enigma da forma dinheiro, por conseguinte, seu fetiche pode ser revelado.<\/p>\n<p>A forma simples de valor pode ser representada da seguinte maneira: x mercadorias A = y mercadorias B ou: x mercadorias A t\u00eam o valor de y mercadorias B (20 bra\u00e7as de linho = 1 casaco ou: 20 bra\u00e7as de linho t\u00eam o valor de 1 casaco).<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o de troca as duas mercadorias n\u00e3o desempenham o mesmo papel. A, a forma relativa tem que expressar seu valor em um outro corpo distinto do seu, e B expressa o valor de A. Mas, para que B se torne a forma de express\u00e3o do valor de A, ele tem que se tornar uma forma autonomizada do valor, ou seja, ele tem que se tornar coisa de valor, ao se tornar coisa de valor ele se torna a forma equivalente.<\/p>\n<p>Nessa rela\u00e7\u00e3o, a forma equivalente B, aparece como uma coisa tang\u00edvel em que o valor se manifesta, desse modo, a forma B parece possuir naturalmente a capacidade de ser a express\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 pelo valor de uso da mercadoria B, que ela pode expressar o valor da mercadoria A. O valor est\u00e1 dado nas suas propriedades naturais, por exemplo, 20 metros de linho valem 1 casaco, 10 metros de linho meio casaco. O casaco fora da rela\u00e7\u00e3o de troca \u00e9 s\u00f3 um valor de uso, embora quando ele entra nessa rela\u00e7\u00e3o social, o casaco adquire a propriedade de ser express\u00e3o de valor como algo dado no seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno onde uma coisa possui na sua materialidade natural a qualidade de ser forma equivalente independente da rela\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja \u2013 quando ele se torna forma de valor autonomizado, uma forma espec\u00edfica de mercadoria, o ouro, se estabelece por costume.<\/p>\n<p>Nesse sentido, os produtores vinculam suas mercadorias a um equivalente geral que representa seu valor, esse processo que os homens fazem, mas n\u00e3o sabem que est\u00e3o fazendo, transforma o corpo natural da mercadoria em equivalente socialmente v\u00e1lido. Junto das propriedades e qualidades naturais uma outra qualidade do equivalente geral \u00e9 de ser trocado imediatamente por todas as demais mercadorias.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter fetichista do dinheiro consiste em se fixar como forma equivalente e, assim, ao lado das suas propriedades naturais ele desenvolve a qualidade social de ser uma coisa sens\u00edvel-suprassens\u00edvel, dessa maneira, seu valor de uso passa a representar a magnitude do valor social das mercadorias.<\/p>\n<p>Com o fetichismo da mercadoria vimos que este \u00e9 determinado pelo car\u00e1ter espec\u00edfico do trabalho social produtor de valor que se manifesta como determinada magnitude, j\u00e1 a partir da an\u00e1lise das formas do valor, o fetichismo do dinheiro \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o coisificada que se d\u00e1 entre coisas, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o das mercadorias como equivalentes particulares com o dinheiro como equivalente universal. \u00c9 essa \u00e9 a forma espec\u00edfica do trabalho social no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Para expressar o valor do linho como objetividade de valor, ela tem que entrar em uma rela\u00e7\u00e3o social- o polo equivalente \u00e9 o casaco, coisa que se manifesta o valor ou coisa que representa o valor. Existe uma mudan\u00e7a no casaco, nessa rela\u00e7\u00e3o de expressar o valor de outra mercadoria ele sofre uma transforma\u00e7\u00e3o, seu corpo de casaco passa a ser encarna\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>Agora passamos ao dinheiro, o dinheiro \u00e9 uma mercadoria que tem o monop\u00f3lio de expressar o valor que concentra muito tempo de trabalho em pouca quantidade. Quando o equivalente se torna encarna\u00e7\u00e3o de valor seu corpo natural parece possuir por natureza valor.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o dos trabalhos concretos que produzem coisas \u00fateis a um trabalho humano igual, transforma a rela\u00e7\u00e3o dos produtores em rela\u00e7\u00e3o entre os produtos do trabalho. Uma rela\u00e7\u00e3o na qual esses produtos representam seus valores de troca mutuamente e todas elas v\u00e3o se referir a uma coisa espec\u00edfica como seu equivalente geral, ou seja, o dinheiro. Assim, o fetichismo \u00e9 a forma de apari\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalista naquilo que ela \u00e9, ou seja, rela\u00e7\u00f5es sociais coisificadas.<\/p>\n<p>Desse modo, as rela\u00e7\u00f5es sociais aparecem n\u00e3o como rela\u00e7\u00f5es sociais diretas entre os produtores e seus trabalhos, mas como rela\u00e7\u00f5es coisificadas das pessoas e como rela\u00e7\u00f5es sociais das coisas. Desse jeito, s\u00e3o as coisas que desempenham pap\u00e9is sociais. (RUBIN:1984). As determina\u00e7\u00f5es sociais dos trabalhos privados aparecem como determina\u00e7\u00f5es naturais dos produtos do trabalho, de rela\u00e7\u00f5es sociais entre pessoas e rela\u00e7\u00f5es sociais entre coisas. As rela\u00e7\u00f5es sociais agora aparecem na forma de objeto.<\/p>\n<p>Portanto, poderemos compreender o significado do fetichismo: o car\u00e1ter de fetiche dos produtos do trabalho nasce, como a an\u00e1lise demonstra, do peculiar car\u00e1ter social do trabalho que produz mercadorias.<\/p>\n<p>Ao analisar as formas de valor Marx vai nos dizer, que o casaco como coisa de valor se iguala ao linho- como produto de trabalhos concretos distintos linho e casacos s\u00e3o coisas distintas, mas como valores eles s\u00e3o reduzidos a algo em comum, isto \u00e9, a trabalho humano igual, e \u00e9 mediante a express\u00e3o de valor equivalente que os trabalhos de diferentes esp\u00e9cies s\u00e3o reduzidos de fato a seu comum, a trabalho humano em geral.<\/p>\n<p>Quando digo que o casaco, a bota etc. se relacionam com o linho sob a forma da incorpora\u00e7\u00e3o geral de trabalho humano abstrato, salta aos olhos a sandice dessa express\u00e3o. Mas quando os produtores de casaco, bota etc. relacionam essas mercadorias ao linho \u2013 ou com o ouro e a prata, o que n\u00e3o altera em nada a quest\u00e3o \u2013 como equivalente universal, a rela\u00e7\u00e3o de seus trabalhos privados com seu trabalho social total lhes aparece exatamente nessa forma insana (MARX. 2013, p. 150-151, grifos meus).<\/p>\n<p>Portanto, a troca transforma os trabalhos privados em trabalho abstrato igual e social mediante sua equipara\u00e7\u00e3o com o valor na sua forma autonomizada, ou seja, com o dinheiro. \u00c9 s\u00f3 com a generaliza\u00e7\u00e3o das trocas que podemos falar de trabalho abstrato, assim, como s\u00f3 podemos falar de fetichismo se os trabalhos privados se tornarem sociais ao passarem pela dimens\u00e3o das trocas. Por isso, Marx vai afirmar que as mercadorias s\u00e3o coisa sens\u00edveis-suprassens\u00edvel, algo cheio de sutilezas metaf\u00edsicas e manhas teol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Em sequ\u00eancia, Marx demonstra que o fetichismo n\u00e3o se restringe s\u00f3 \u00e0 mercadoria, mas ao conjunto das categorias econ\u00f4micas. No capital o lucro n\u00e3o aparece como fruto da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas como uma caracter\u00edstica que remunera o tamanho do capital, por conseguinte, a renda aparece n\u00e3o como fruto da sociedade, mas como uma propriedade natural do fator de produ\u00e7\u00e3o terra.<\/p>\n<p>E esse fetichismo se completa com o capital portador de juros, pois, a realidade espectral do capital portador de juros \u201capaga\u201d e mistifica o processo produtivo efetivo de produ\u00e7\u00e3o do mais-valor, \u201co juro aparece como uma mera rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica\u201d (MELO, 2019, p 203), autonomizado do processo produtivo, o juro parece ser uma fonte de rendimento engendrado a partir de si mesmo. Apoiando-se nessa constata\u00e7\u00e3o, segue Melo: \u201cD-D\u2019 ou a circula\u00e7\u00e3o do capital portador de juros converte-se em um movimento aut\u00f4nomo do ciclo real do capital. Em D-D\u2019 temos a forma do capital vazia de conceito, a invers\u00e3o e a reifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o levadas ao extremo\u201d (MELO, 2019, p.204). Consequentemente, o capital portador de juros \u00e9 a forma pura do fetichismo das rela\u00e7\u00f5es sociais mercantis.<\/p>\n<p>Todas as sociedades que produzem mercadorias de forma generalizada tomam parte nesse fetichismo. (MARX; 2013). Como vimos ao longo deste texto a categoria do fetichismo constituir parte insepar\u00e1vel da teoria do valor de Marx \u2013 quest\u00e3o que o marxismo vulgar acha sem import\u00e2ncia pr\u00e1tica, at\u00e9 porque esse conceito poderia se levado a cabo desmistificar as forma\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o romperam com a forma-mercadoria e se apresentam aos olhos dos iludidos como grandes express\u00f5es do socialismo. Para os ing\u00eanuos que adotam como socialista qualquer sociedade em que impera formas de propriedade estatal, inclusive, esse \u00e9 o ponto em comum entre os del\u00edrios liberais que saltam nas redes sociais brasileiras e em certo marxismo nacional-estatista. Para finalizar afirmamos: se houver troca generalizada de mercadorias independente se tem mais ou menos estado o fetiche se faz presente com todas as invers\u00f5es, mistifica\u00e7\u00f5es e ilus\u00f5es que lhe \u00e9 inerente.<\/p>\n<p>Bibliografias.<\/p>\n<p>MARX, Karl. O Capital: cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. Livro 1: O processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. Tradu\u00e7\u00e3o: Rubens Enderle. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>MARX, Karl. O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u2013 Livro III: O Processo Global da Produ\u00e7\u00e3o Capitalista. Tradu\u00e7\u00e3o: Rubens Enderle. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/p>\n<p>MARX, Karl. \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o\u201d. In: Grundrisse \u2013 manuscritos econ\u00f4micos de 1857-1858: esbo\u00e7os da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo\/Rio de Janeiro: Boitempo\/UFRJ, 2011.<\/p>\n<p>MELO, Ricardo Pereira. Sobre o desenvolvimento da categoria capital portador de juros. Revista Idea\u00e7\u00e3o, Feira de Santana, v.1, n.39, p.198-210, 2019.<\/p>\n<p>RUBIN, Isaak. A teoria marxista do valor. S\u00e3o Paulo: Editora Polis, 1987.<\/p>\n<p>ANTUNES, Jadir. Marx e o fetiche da mercadoria dinheiro. Revista Dialectus, Fortaleza, v. 5, n. 12, p. 139-162, jan.\/jul. 2018.<\/p>\n<p>Publicado originalmente em: <a href=\"https:\/\/www.revistabarravento.com\/post\/eles-n\u00e3o-sabem-o-que-falam-e-o-fazem-mesmo-assim-a-pol\u00eamica-envolvendo-o-fetichismo-da-mercadoria\">https:\/\/www.revistabarravento.com\/post\/eles-n\u00e3o-sabem-o-que-falam-e-o-fazem-mesmo-assim-a-pol\u00eamica-envolvendo-o-fetichismo-da-mercadoria<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acompanhe todas as m\u00eddias do nosso jornal: https:\/\/linktr.ee\/jornalopoderpopular e contribua pelo Pix jornalopoderpopular@gmail.com<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/opoderpopular.com.br\/eles-nao-sabem-o-que-falam-e-o-fazem-mesmo-assim-a-polemica-envolvendo-o-fetichismo-da-mercadoria\/\">https:\/\/opoderpopular.com.br\/eles-nao-sabem-o-que-falam-e-o-fazem-mesmo-assim-a-polemica-envolvendo-o-fetichismo-da-mercadoria\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30229\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,10],"tags":[226],"class_list":["post-30229","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-s19-opiniao","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7Rz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30229"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30229\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30237,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30229\/revisions\/30237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}