{"id":30358,"date":"2023-05-05T15:20:53","date_gmt":"2023-05-05T18:20:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=30358"},"modified":"2023-05-05T15:20:53","modified_gmt":"2023-05-05T18:20:53","slug":"marx-e-o-problema-dos-salarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30358","title":{"rendered":"Marx e o problema dos sal\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30359\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30358\/3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2.png?fit=640%2C438&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,438\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2.png?fit=640%2C438&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-30359\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2.png?resize=640%2C438&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"438\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2.png?w=640&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/3faf85_7b26e3423da64fde90a6d5ab4a0db894_mv2.png?resize=300%2C205&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Coment\u00e1rios sobre o texto &#8220;sal\u00e1rio, pre\u00e7o e lucro&#8221;<\/p>\n<p>por Warlen Nunes &#8211; membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n<p>Revista Barravento<\/p>\n<p>Diante da crise do capital, os capitalistas n\u00e3o hesitam em diminuir os sal\u00e1rios dos trabalhadores, haja vista que esse mecanismo \u00e9 uma poderosa contratend\u00eancia para tentar reverter a queda na taxa de lucro m\u00e9dia. Dessa maneira, retomar algumas li\u00e7\u00f5es do famoso folheto de Marx, Sal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro, pode ter alguma import\u00e2ncia te\u00f3rica para os trabalhadores que est\u00e3o em luta neste momento hist\u00f3rico contra o sistema de explora\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Na quadra hist\u00f3rica de 1865 irrompe na Europa uma epidemia de greves e a Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores tem que se posicionar sobre esse importante acontecimento. Coube a Marx apresentar um relat\u00f3rio no conselho geral da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores contra as teses de John Weston. Este dizia que a luta pelo aumento de sal\u00e1rios por parte dos trabalhadores era in\u00fatil porque os capitalistas iriam compensar esse aumento, aumentando os pre\u00e7os das mercadorias.<\/p>\n<p>Ademais, \u00e9 nesse texto que Marx exp\u00f5e sua teoria do valor e da mais-valia e demonstra que os pre\u00e7os n\u00e3o podem ser fixados pela vontade dos capitalistas, pois essa vontade tem que estar submetida a determinadas circunst\u00e2ncias objetivas. Marx come\u00e7a demonstrando que o argumento de Weston se resume a dois pontos: 1\u00ba) que o volume da produ\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 algo fixo, [\u2026]2\u00ba) que o montante dos sal\u00e1rios reais, isto \u00e9, dos sal\u00e1rios medidos pelo volume de mercadorias que permite adquirir, \u00e9 tamb\u00e9m uma soma fixa [\u2026]. (MARX. 2010.p.41). [1]<\/p>\n<p>Para Marx, o argumento do Weston \u00e9 falso, pois devido \u00e0s cont\u00ednuas mudan\u00e7as que se operam na acumula\u00e7\u00e3o de capital e nas for\u00e7as produtivas do trabalho, o montante da riqueza \u00e9 alterado (MARX. 2010.p.47) ou seja, a simples observa\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o capitalista e das for\u00e7as produtivas demonstram que o volume da produ\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o \u00e9 uma grandeza fixa, mas vari\u00e1vel e essa varia\u00e7\u00e3o \u00e9 constatada tanto anualmente como diariamente se quisermos. Mas, se aceit\u00e1ssemos a tese de Weston de que o montante da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 fixa, isso n\u00e3o significa que suas partes n\u00e3o possam variar. Marx d\u00e1 o exemplo que se o montante total \u00e9 8, esse pode ser dividido em 6 de lucros e 2 de sal\u00e1rios, que poderiam aumentar at\u00e9 6 e o lucro baixar at\u00e9 2, que o n\u00famero resultante n\u00e3o deixaria por isso de ser 8. (MARX. 2010.p.48). Desta maneira, o volume fixo da produ\u00e7\u00e3o jamais conseguir\u00e1 provar que seja fixo o montante dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Marx argumenta que Weston n\u00e3o nega que os trabalhadores possam obter aumento de sal\u00e1rios, todavia eles agiriam como tolos se assim o fizessem pois, como o montante de sal\u00e1rios \u00e9 fixo, haveria uma rea\u00e7\u00e3o por parte dos capitalistas que compensaria esse aumento com o aumento dos pre\u00e7os das mercadorias. Nessa \u00f3tica, o argumento de Weston s\u00f3 caminha em uma dire\u00e7\u00e3o (contra a luta por aumento de sal\u00e1rios). Por outro lado, ele sabe tamb\u00e9m que os capitalistas podem, do mesmo modo, impor uma baixa de sal\u00e1rios e tanto assim, que o est\u00e3o tentando continuamente. (MARX. 2010.p.48). Portanto, se os capitalistas reagem ao aumento de sal\u00e1rios \u00e9 mais que acertado que os trabalhadores se unam para reagirem a sua baixa. Uma das formas de se evitar a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios \u00e9 a luta dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Para negar essa conclus\u00e3o Weston teria que negar sua premissa e admitir que os sal\u00e1rios por serem fixos n\u00e3o podem subir, mas podem abaixar sempre que aprouver a vontade dos capitalistas. Nesta altura do texto, Marx se indaga se os pre\u00e7os das mercadorias s\u00e3o determinados pela vontade dos capitalistas ou por leis econ\u00f4micas e circunst\u00e2ncias que se faz prevalecer a essa vontade? Ele responde, que a vontade \u00e9 um princ\u00edpio muito arbitr\u00e1rio para explicar ou para se elevar ao estatuto de lei da economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em suma, o argumento do Weston se resume a dizer que qualquer aumento de sal\u00e1rios conquistado pelos trabalhadores ser\u00e1 respondido com um aumento no pre\u00e7o das mercadorias por parte dos capitalistas. Por exemplo, se os trabalhadores pagavam antes do aumento 4 no valor das mercadorias de primeira necessidade, depois do aumento passariam a pagar 5.<\/p>\n<p>Marx vai pressupor para seu argumento que n\u00e3o h\u00e1 altera\u00e7\u00e3o nas for\u00e7as produtivas, no trabalho e no capital investido, nem no valor do dinheiro em que est\u00e3o expressos os valores dos produtos, embora s\u00f3 haja mudan\u00e7as nas taxas de sal\u00e1rios. Assim, ele indaga: de que maneira poderia esta alta de sal\u00e1rios influir nos pre\u00e7os das mercadorias? Somente influindo na propor\u00e7\u00e3o real entre a oferta e a procura dessas mercadorias (MARX. 2010.p.45).<\/p>\n<p>Vejamos ent\u00e3o as varia\u00e7\u00f5es entre oferta e procura levando em considera\u00e7\u00e3o que s\u00f3 a taxa de sal\u00e1rios aumentou. Marx come\u00e7a constatando que a classe oper\u00e1ria gasta grande parte de sua renda em artigos de primeira necessidade. Assim sendo, o aumento de sal\u00e1rios levaria a um aumento da procura e esse aumento da procura levaria ao aumento dos artigos de primeira necessidade. Logo, estaria comprovado que o aumento dos sal\u00e1rios leva a um aumento dos pre\u00e7os das mercadorias. Por\u00e9m, o que aconteceria com os capitalistas que n\u00e3o produzem artigos de primeira necessidade? Estes n\u00e3o poderiam aumentar o valor de suas mercadorias j\u00e1 que a procura por elas havia ca\u00eddo.<\/p>\n<p>Diminu\u00edda a sua renda, menos teriam para gastar em artigos de luxo, com o que tamb\u00e9m se reduziria a procura rec\u00edproca de suas respectivas mercadorias. Qual seria a consequ\u00eancia desta diferen\u00e7a entre as taxas de lucro dos capitais colocados nos diversos ramos da ind\u00fastria?<\/p>\n<p>O capital e o trabalho se deslocariam dos ramos menos remunerativos para os que o fossem mais. E este processo de deslocamento iria durar at\u00e9 que a oferta em um ramo industrial aumentasse a ponto de se nivelar com a maior procura e nos demais ramos industriais diminu\u00edsse proporcionalmente \u00e0 menor procura. Uma vez operada esta mudan\u00e7a, a taxa geral de lucro voltaria a igualar-se nos diferentes ramos da ind\u00fastria (MARX. 2010. p.46).<\/p>\n<p>Quando se constata que uma taxa de lucro \u00e9 maior em um determinado ramo da economia, opera-se uma redistribui\u00e7\u00e3o do trabalho e do capital. Quando isso ocorre, os capitais migram para aquele setor que est\u00e1 obtendo maiores taxas de lucro. Isso posto, se aumenta a oferta deste setor gerando, por conseguinte, a diminui\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os relativos das mercadorias e o aumento tempor\u00e1rio de pre\u00e7os volta ao seu estado de equil\u00edbrio ou abaixo do seu valor. Portanto, como todo esse desarranjo obedecia originariamente a uma simples mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o entre a oferta e a procura de diversas mercadorias, \u201ccessando a causa, cessariam tamb\u00e9m os efeitos, e os pre\u00e7os voltariam ao seu antigo n\u00edvel e ao antigo equil\u00edbrio.\u201d (MARX. 2010.p.46).<\/p>\n<p>O que se mostrou a partir da pressuposi\u00e7\u00e3o de Marx \u00e9 que o aumento da taxa de sal\u00e1rios n\u00e3o produz uma eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os de forma duradoura no conjunto da economia, j\u00e1 que Marx pressup\u00f4s que n\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o nas for\u00e7as produtivas. Agora, se n\u00f3s pressupormos que os trabalhadores n\u00e3o consomem s\u00f3 artigos de primeira necessidade \u201cseria in\u00fatil que nos detiv\u00e9ssemos a demonstrar que seu poder aquisitivo havia experimentado um aumento real. Em s\u00edntese, n\u00e3o haveria aumento da procura, visto que o incremento da procura de um lado seria contrabalan\u00e7ado pela diminui\u00e7\u00e3o da procura do outro lado\u201d (MARX. 2010.p.47). Logo, n\u00e3o haveria aumento geral de pre\u00e7os. O que o aumento da taxa de sal\u00e1rios produz nessas circunst\u00e2ncias \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da taxa de lucro.<\/p>\n<p>Segundo Marx, todo o argumento de Weston assim se resume: todo aumento da procura se opera sempre \u00e0 base de um dado volume de produ\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o pode fazer aumentar nunca a oferta dos artigos procurados, mas unicamente fazer subir o seu pre\u00e7o em dinheiro (MARX. 2010.p.51).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s expor que os meios de pagamento monet\u00e1rio (notas promiss\u00f3rias, letras de c\u00e2mbio, papel-moeda) variam e se adequam com as necessidades da circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, Marx diz: Deveria ter-se informado das leis que permitem aos meios de pagamento adaptar-se a condi\u00e7\u00f5es que variam de maneira t\u00e3o constante em lugar de converter a sua falsa concep\u00e7\u00e3o das leis da circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria em argumento contra o aumento dos sal\u00e1rios (MARX. 2010.p.55).<\/p>\n<p>Oferta e procura: o dogma dos economistas<\/p>\n<p>Oferta e procura \u00e9 o dogma m\u00e1ximo dos economistas e do senso comum. Basicamente, \u00e9 ela que \u00e9 utilizada para explicar os pre\u00e7os tanto das mercadorias, quanto do \u201ctrabalho\u201d, embora o que n\u00e3o se explica, \u00e9 qual a lei econ\u00f4mica que regula oferta e procura. De acordo com Marx, seria errado acreditar que oferta e procura regulam o pre\u00e7o do trabalho ou de qualquer outra mercadoria. O que oferta e procura fazem \u00e9 t\u00e3o somente regular as oscila\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias dos pre\u00e7os no mercado. Elas explicam porque o pre\u00e7o de um artigo no mercado se eleva acima ou desce abaixo do seu valor, mas n\u00e3o explicam jamais esse valor em si mesmo (MARX. 2010.p.57).<\/p>\n<p>Em suma, quando a curva de oferta se equilibra com a curva de procura, a saber, como dizem os economistas, quando chegamos ao ponto de equil\u00edbrio, cessa a capacidade explicativa dessa lei. Se ela me explica as oscila\u00e7\u00f5es do valor das mercadorias, ela nada tem a dizer sobre o pr\u00f3prio valor. Por conseguinte, se queremos investigar o car\u00e1ter deste valor, n\u00e3o nos devemos preocupar com os efeitos transit\u00f3rios que a oferta e a procura exercem sobre os pre\u00e7os do mercado. E outro tanto caberia dizer dos sal\u00e1rios e dos pre\u00e7os de todas as demais mercadorias (MARX. 2010.p.57).<\/p>\n<p>Vai dizer Marx que todo argumento de Weston pode ser resumido no seguinte dogma: \u201cos pre\u00e7os das mercadorias s\u00e3o determinados ou regulados pelos sal\u00e1rios&#8221;. Isso posto, significa dizer: \u201cComo o sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 mais do que uma denomina\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do trabalho, queremos dizer com isso que os pre\u00e7os das mercadorias se regulam pelo pre\u00e7o do trabalho\u201d (MARX. 2010.p.59). Weston se move em meio ao c\u00edrculo vicioso, em virtude de, ora colocar que o valor do trabalho determina o valor das mercadorias, ora o valor do trabalho \u00e9 determinado pelos pre\u00e7os das mercadorias que ele pode comprar. O dogma de que &#8221; os sal\u00e1rios determinam os pre\u00e7os das mercadorias&#8221; equivale a dizer que &#8220;o valor se determina pelo valor&#8221;. Visando fugir dessa falta total de l\u00f3gica, Marx no restante do manuscrito passar\u00e1 a expor sua teoria do valor e da mais-valia.<\/p>\n<p>A Teoria do Valor e da Mais-valia<\/p>\n<p>Destarte, Marx diz que \u00e9 chegada a hora de entrar no verdadeiro tema da contenda \u2013 o que \u00e9 o valor de uma mercadoria e como se determina esse valor? Primeiro, devemos diferenciar o valor da mercadoria do seu valor de troca. Este, \u00e9 s\u00f3 a propor\u00e7\u00e3o de determinada quantidade da mercadoria que ser\u00e1 trocada por outras mercadorias. Por exemplo: x da mercadoria A, que se troca por y da mercadoria B. Portanto, para in\u00edcio de conversa devemos distinguir, ou melhor abstrair, das mercadorias, suas propriedades f\u00edsicas e qu\u00edmicas, para encontrar algo que seja comum \u00e0s mercadorias, posto que do ponto de vista da qualidade, as mercadorias s\u00e3o distintas e tamb\u00e9m apresentam propor\u00e7\u00f5es distintas que se expressam nas trocas. Marx usa o exemplo do trigo: x de trigo equivale a y de seda, z de ferro etc. mas, na troca, elas expressam algo de igual.<\/p>\n<p>Como os valores de troca das mercadorias n\u00e3o passam de fun\u00e7\u00f5es sociais delas e nada t\u00eam a ver com suas propriedades naturais, devemos antes de mais nada perguntar: Qual \u00e9 a subst\u00e2ncia social comum a todas as mercadorias? \u00c9 o trabalho. Para produzir uma mercadoria tem-se que inverter nela ou a ela incorporar uma determinada quantidade de trabalho (MARX. 2010.p.62).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s abstrair as propriedades naturais da mercadoria s\u00f3 resta nela que \u00e9 disp\u00eandio de trabalho humano, mas n\u00e3o simplesmente de qualquer trabalho, mas trabalho social. Quanto mais trabalho tiver uma mercadoria mais valor ela ter\u00e1. Mas, como se medem as quantidades de trabalho? Pelo tempo que dura o trabalho, medindo este em horas, em dias etc. Algu\u00e9m poderia dizer que quanto mais pregui\u00e7oso e demorado for o trabalhador nos seus afazeres mais valor ele acrescentar\u00e1 \u00e0 mercadoria. Errado, por trabalho social Marx entende o trabalho que est\u00e1 condicionado por certo desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, i.e., trabalho necess\u00e1rio para produzir essa mercadoria num dado estado social e sob determinadas condi\u00e7\u00f5es sociais m\u00e9dias de produ\u00e7\u00e3o, com uma dada intensidade social m\u00e9dia e com uma destreza m\u00e9dia no trabalho, de tal forma que, se uma ind\u00fastria, com o n\u00edvel de desenvolvimento m\u00e9dio da produtividade do trabalho, leva duas horas para produzir uma cadeira, seu tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio, que expressar\u00e1 seu valor, ser\u00e1 independente se um economista liberal leve a vida toda para produzir o mesmo objeto. Al\u00e9m disso, para calcularmos o valor da mercadoria, temos que acrescentar o trabalho passado que est\u00e1 materializado nas mat\u00e9rias-primas, nas m\u00e1quinas, em suma, os objetos que s\u00e3o desgastados no ato da produ\u00e7\u00e3o e transferem seu valor para o produto final. Em s\u00edntese, o valor das mercadorias \u00e9 determinado pela subst\u00e2ncia social cristalizada nelas, ou seja, o trabalho. J\u00e1 seu valor de troca \u00e9 determinado pela quantidade dessa subst\u00e2ncia social medida pelo tempo m\u00e9dio de sua dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, o pre\u00e7o \u00e9 s\u00f3 a express\u00e3o em dinheiro do valor das mercadorias. Se oferta e demanda se equilibra, as mercadorias ser\u00e3o vendidas pelo seu valor, ou como vai dizer Marx no livro III d\u2019 O Capital: pelos seus pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o. Se oferta e demanda n\u00e3o se equilibram, as mercadorias podem ser vendidas abaixo ou acima de seu valor. Mas, no longo prazo, tendem a se equilibrar. Dessa forma, o capitalista se enriquece vendendo a mercadoria pelo seu valor. Afinal, se ele vendesse acima de seu valor e todos os outros capitalistas fizessem o mesmo, o que ele ganharia na venda perderia na compra. \u201cAs verdades cient\u00edficas ser\u00e3o sempre paradoxais, se julgadas pela experi\u00eancia de todos os dias, que somente capta a apar\u00eancia enganadora das coisas\u201d (MARX. 2010, p.68).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s determinar o valor das mercadorias pelo tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio, Marx pergunta o que determina o \u201cvalor do trabalho\u201d? Marx come\u00e7a advertindo que o que o trabalhador vende n\u00e3o \u00e9 o seu trabalho e sim sua for\u00e7a de trabalho, cedendo ao capitalista o direito tempor\u00e1rio de uso dessa for\u00e7a de trabalho. Se n\u00e3o fosse assim, o regime capitalista teria restitu\u00eddo a escravid\u00e3o. Para que os capitalistas encontrem no mercado homens livres s\u00f3 possuindo sua for\u00e7a de trabalho para vender, Marx diz ser preciso investigar o que os economistas chamam &#8220;acumula\u00e7\u00e3o pr\u00e9via ou origin\u00e1ria&#8221;, mas que deveria chamar-se expropria\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. Remeto o leitor que quer se aprofundar nessa tem\u00e1tica para o cap\u00edtulo XXIV do Livro I d\u2019 O Capital. Na sociedade burguesa, os produtores diretos foram expropriados dos seus meios de produ\u00e7\u00e3o. Em raz\u00e3o disso, a mercadoria for\u00e7a de trabalho se encontra em abund\u00e2ncia no mercado. O que nos interessa aqui, \u00e9 como determinar o valor dessa mercadoria? O valor da mercadoria for\u00e7a de trabalho \u00e9 determinado como o de qualquer mercadoria pelo tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o. Nesse vi\u00e9s, ele precisa de certa quantidade de meios de subsist\u00eancia para si e sua fam\u00edlia, condi\u00e7\u00e3o para que sua prole se reproduza como trabalhadores.<\/p>\n<p>Distintas for\u00e7as de trabalho levam distintos tempos de trabalho social para serem produzidas e reproduzidas. Logo, elas t\u00eam distintos valores, j\u00e1 que umas levam mais tempo do que as outras para serem produzidas. Desse modo, elas t\u00eam distintos pre\u00e7os. Marx conclui essa parte, dizendo: \u201cPedir uma retribui\u00e7\u00e3o igual ou simplesmente uma retribui\u00e7\u00e3o justa, na base do sistema assalariado, \u00e9 o mesmo que pedir liberdade na base do sistema da escravatura\u201d (MARX. 2010. p.71).<\/p>\n<p>De posse destes desdobramentos, podemos ter a compreens\u00e3o da mais-valia. Como o que o trabalhador vende \u00e9 a sua for\u00e7a de trabalho durante determinado per\u00edodo de tempo, ou seja, durante uma jornada, vamos pressupor que nosso oper\u00e1rio trabalhe 6 horas para si e isso corresponda ao valor de 10 reais, o necess\u00e1rio para comprar as mercadorias para reproduzir sua for\u00e7a de trabalho di\u00e1ria. No entanto, o capitalista comprou a for\u00e7a de trabalho para uma jornada de 12 horas. Nesse sentido, ele trabalha mais 6 horas e agrega mais 10 de valor ao longo da jornada. \u201cAl\u00e9m das 6 horas necess\u00e1rias para recompor o seu sal\u00e1rio, ou o valor de sua for\u00e7a de trabalho, ter\u00e1 de trabalhar outras 6 horas, a que chamarei horas de sobre trabalho, e este sobre trabalho ir\u00e1 traduzir-se em mais-valia e em sobre produto\u201d (MARX.2010 p. 79). O capitalista desembolsou 10 de sal\u00e1rio e se apropriou de um valor de 20. Se somarmos a isso, que o capitalista gastou com meios de produ\u00e7\u00e3o: m\u00e1quinas, mat\u00e9rias-primas e instala\u00e7\u00f5es, um valor de 10, seu produto final valer\u00e1 10 de sal\u00e1rios e 10 de meios de produ\u00e7\u00e3o, que ter\u00e3o seus valores transferidos ao produto final e 10 de mais-valia que foi agregado pelo trabalhador ao longo da jornada. A esse 10 de mais-valia, o capitalista n\u00e3o pagar\u00e1 equivalente algum.<\/p>\n<p>Aqui, o mecanismo da for\u00e7a de trabalho \u00e9 revelado e a origem do lucro do capitalista se mostra: a for\u00e7a de trabalho \u00e9 a \u00fanica mercadoria que, ao ser consumida, produz mais valor do que ela pr\u00f3pria vale. \u201cEste tipo de interc\u00e2mbio entre o capital e o trabalho \u00e9 o que serve de base \u00e0 produ\u00e7\u00e3o capitalista, ou ao sistema de salariado, e tem que conduzir, sem cessar, \u00e0 constante reprodu\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio como oper\u00e1rio e do capitalista como capitalista\u201d (MARX. 2010, p. 79). Nessa sociedade \u00e9 poss\u00edvel calcular o grau de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Marx chamou de taxa de mais-valia, no nosso exemplo, a rela\u00e7\u00e3o entre o valor do sal\u00e1rio 10 sobre a mais-valia 10. Temos, assim, uma taxa de explora\u00e7\u00e3o de 100%.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, ap\u00f3s explicar o que \u00e9 a mais-valia, Marx retorna \u00e0 express\u00e3o \u201cvalor do trabalho\u201d e demonstra porque essa express\u00e3o \u00e9 enganosa e mistificadora. No capitalismo, criou-se a ilus\u00e3o de que o capitalista, ao pagar a for\u00e7a de trabalho, est\u00e1 pagando pela totalidade do trabalho e o que a an\u00e1lise da mais-valia exp\u00f5e \u00e9 que o capitalista se apropria, de forma gratuita, do sobre trabalho ou, como as tradu\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do capital utilizam, do mais-valor. Marx faz um comparativo da sociedade capitalista com a escravid\u00e3o. Na escravid\u00e3o, o trabalho for\u00e7ado oculta que o senhor de escravos tem que pagar a parte da jornada referente \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho do escravo. O trabalho aparece o tempo todo como trabalho n\u00e3o pago. Marx salta para o campon\u00eas da idade m\u00e9dia. Nesta, o campon\u00eas tem que trabalhar tr\u00eas dias para si e tr\u00eas dias para o senhor feudal. Uma parte da sua produ\u00e7\u00e3o fica com ele e a outra parte ele \u00e9 obrigado a entregar de gra\u00e7a ao Lorde.<\/p>\n<p>Os liberais ficam indignados moralmente com este fato, como fala Marx, j\u00e1 que no caso da sociedade feudal o trabalho pago e o n\u00e3o pago aparece vis\u00edvel, embora \u201cno primeiro caso, o trabalho n\u00e3o remunerado \u00e9 visivelmente arrancado pela for\u00e7a. No segundo, parece entregue voluntariamente. Eis a \u00fanica diferen\u00e7a\u201d (MARX.2010, p. 82).<\/p>\n<p>Por isso, a express\u00e3o \u201cvalor do trabalho\u201d \u00e9 enganosa e equivocada, haja vista que ela oculta que na sociedade capitalista o mais-valor, que se tornar\u00e1 o lucro, \u00e9 apropriado pelo capitalista totalmente de gra\u00e7a. Enfim, o capitalista obt\u00e9m lucro vendendo a mercadoria pelo seu valor. Nesta altura da exposi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 podemos determinar que o que comumente n\u00f3s chamamos de lucro, juros e renda [2] n\u00e3o passam de formas em que a mais-valia \u00e9 dividida na sociedade burguesa. Aqui, Marx critica a teoria vulgar dos fatores de produ\u00e7\u00e3o, segundo a qual o trabalho se remunera pelo sal\u00e1rio, a terra se remunera pela renda e o capital pelo lucro. Como podemos ver, essa \u00e9 uma teoria fetichista que atribui, \u00e0s coisas, propriedade social, ocultando que essas partes s\u00e3o as formas que a mais-valia assume ao longo das rela\u00e7\u00f5es capitalistas. \u201cPor isto, desta rela\u00e7\u00e3o entre o empregador capitalista e o oper\u00e1rio assalariado depende todo o sistema de salariado e todo o regime atual de produ\u00e7\u00e3o\u201d (MARX. p. 86).<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, Marx, ao final do texto, passa a falar da luta pelo aumento de sal\u00e1rio e contra sua redu\u00e7\u00e3o. Desse modo, come\u00e7a retomando a defini\u00e7\u00e3o de valor da for\u00e7a de trabalho e os 2 vetores que a determinam: s\u00e3o esses o f\u00edsico, a quantidade de meios de subsist\u00eancia que deve consumir e o outro, de car\u00e1ter hist\u00f3rico e social. A luta de classes tem peso na defini\u00e7\u00e3o de quanto os capitalistas devem nos pagar pela explora\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, visto que \u201co capitalista est\u00e1 tentando constantemente reduzir os sal\u00e1rios ao seu m\u00ednimo f\u00edsico e a prolongar a jornada de trabalho ao seu m\u00e1ximo f\u00edsico, enquanto o oper\u00e1rio exerce constantemente uma press\u00e3o no sentido contr\u00e1rio\u201d (MARX.2010. p. 99). Marx vai dizer que, em 99% dos casos, a luta pelo aumento de sal\u00e1rio se faz para mant\u00ea-lo de p\u00e9 e impedir que ele abaixe ao m\u00ednimo. Portanto, \u201cao mesmo tempo, e ainda abstraindo totalmente a escraviza\u00e7\u00e3o geral que o sistema de salariado implica, a classe oper\u00e1ria n\u00e3o deve exagerar, a seus pr\u00f3prios olhos, o resultado final destas lutas di\u00e1rias. N\u00e3o deve esquecer-se de que luta contra os efeitos, mas n\u00e3o contra as causas desses efeitos\u201d (MARX.2010. p. 102).<\/p>\n<p>Vale salientar: em vez do lema conservador de &#8220;Um sal\u00e1rio justo por uma jornada de trabalho justa!&#8221;, dever\u00e1 inscrever na sua bandeira esta divisa revolucion\u00e1ria: &#8220;Aboli\u00e7\u00e3o do sistema de trabalho assalariado!&#8221;.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1, Estamos usando a edi\u00e7\u00e3o online de Trabalho Assalariado e Capital. Sal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro. Editora: Express\u00e3o Popular. Ano: 2010. Conserva\u00e7\u00e3o estado de novo. Edi\u00e7\u00e3o:2; P\u00e1ginas:142; Edi\u00e7\u00e3o online. A pagina\u00e7\u00e3o difere da do livro f\u00edsico.<\/p>\n<p>2. No livro III d\u2019 O Capital, Marx faz uma an\u00e1lise pormenorizada do capital portador de juros e da renda terra.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>MARX, Karl. Trabalho Assalariado e Capital. Sal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro. Editora: Express\u00e3o Popular. Ano: 2010. Conserva\u00e7\u00e3o estado de novo. Edi\u00e7\u00e3o:2; P\u00e1gina:142; Edi\u00e7\u00e3o \u201con line\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30358\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[225],"class_list":["post-30358","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7TE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30358"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30360,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30358\/revisions\/30360"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}