{"id":3039,"date":"2012-06-20T15:34:05","date_gmt":"2012-06-20T15:34:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3039"},"modified":"2012-06-20T15:34:05","modified_gmt":"2012-06-20T15:34:05","slug":"as-origens-de-alvaro-e-dos-ventura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3039","title":{"rendered":"As origens de \u00c1lvaro e dos Ventura"},"content":{"rendered":"\n<p>Gravem esse nome: Manoel da Ventura, portugu\u00eas que ganhou do governo de Portugal 140 bra\u00e7as de terras nas imedia\u00e7\u00f5es da fortaleza de S\u00e3o Jos\u00e9 da Ponta Grossa, muito antigamente. Dele descendem os Ventura que residem em Sambaqui e na Barra do Sambaqui, al\u00e9m dos Rocha e outros sobrenomes conhecidos.<\/p>\n<p>O assunto surgiu por acaso, quando reencontrei ap\u00f3s muitos anos a poetisa e teatr\u00f3loga Maura Soares, sempre envolvida nos assuntos do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Santa Catarina, durante a posse do historiador S\u00e9rgio Luiz Ferreira na institui\u00e7\u00e3o. Foi ela quem fez as honras da casa como mestre de cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Eu a conheci em 1995 no lan\u00e7amento do livro \u201cOs Comunas\u201d, na Assembl\u00e9ia Legislativa, quando se apresentou como sobrinha-neta do personagem central do livro, \u00c1lvaro Soares Ventura, estivador, deputado constituinte em 1934 e secret\u00e1rio geral do PCB, partido que ajudou a fundar em Santa Catarina.<\/p>\n<p><strong>Sobrinha-neta<\/strong><\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o n\u00e3o havia mais me avistado com ela. No \u00faltimo dia 11.4, no reencontro no IHGSC, ela comentou que havia escrito um artigo com base no livro e nas mem\u00f3rias da fam\u00edlia sobre \u00c1lvaro. Pedi que ela encaminhasse o texto ao\u00a0<em>Daqui na Rede<\/em>, o que fez no mesmo dia. Re<strong><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/DSC_0035.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/6\/e61afcd47d4787c970221d99046c5eb3.jpg?resize=200%2C133\" border=\"0\" alt=\"Maura Soares, sobrinha-neta de \u00c1lvaro Ventura. Foto: Celso Martins\" width=\"200\" height=\"133\" align=\"right\" \/><\/a><\/strong>spondi, citando a presen\u00e7a de muitos integrantes da fam\u00edlia Ventura em Sambaqui e na Barra do Sambaqui.<\/p>\n<p>Desse di\u00e1logo surgiram algumas revela\u00e7\u00f5es, entre elas que as convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de \u00c1lvaro o afastaram da fam\u00edlia ou de alguns familiares. A mem\u00f3ria de Maura tem como refer\u00eancia muito do que ouviu de seu pai, Jo\u00e3o Auta Soares, pr\u00eamio de Oper\u00e1rio-Padr\u00e3o de Santa Catarina em 1968, eletricista da Celesc, ex-estivador em Santos-SP.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Auta era filho de Luiz Soares Ventura, irm\u00e3o de \u00c1lvaro. \u201cMeu av\u00f4 e o irm\u00e3o pouco se falavam e isto est\u00e1 citado no livro do meu primo Elivaldo Soares, que at\u00e9 hoje n\u00e3o editou, onde conta a hist\u00f3ria da nossa fam\u00edlia, romanceada, desde Manuel da Ventura\u201d, escreveu Maura.<\/p>\n<p><strong>Os parentes<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMeu pai falava dos parentes\u201d, acrescenta. \u201cN\u00e3o se visitavam, sei l\u00e1 porqu\u00ea\u201d e que residiam \u201cna regi\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio e Sambaqui\u201d. Qual o motivo? \u201cO que sei \u00e9 que os dois irm\u00e3os quase n\u00e3o se falavam e os seus descendentes atribu\u00edam isso ao fato do nosso \u00c1lvaro ser comunista, naquele tempo em que no Brasil era ser colocado no limbo\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, ao procurar conhecer melhor \u201cna vida dessas criaturas, a gente v\u00ea que foram trabalhadores, honestos, cat\u00f3licos mais ou menos\u201d, acrescenta Maura, que recorda \u201cdele aqui no Bom Abrigo. Morava com uma das filhas da tia Ana casada com Silva, irm\u00e3 dele, que tinha os filhos Ros\u00e9lio, Risoleto, Rubens (era da Loja Ma\u00e7\u00f4nica, aquela perto do Campus da UFSC), Rosita e Romeu (este fazia maquetes). Risoleto era desenhista projetista\u201d.<\/p>\n<p>Foi mais ou menos por esse tempo que \u00c1lvaro viajou a Moscou para operar os olhos, deslocamento mantido em sigilo pelo PCB, mas \u201ctodos ficamos sabendo, tudo pago pelo partido\u201d. Maura guarda a lembran\u00e7a de \u00c1lvato Ventura no Bom Abrigo \u201ccarregando pesadas sacolas de compras\u201d. Depois que Ventura se mudou para a Arma\u00e7\u00e3o, no Sul da Ilha, seu pai foi visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Os textos<\/strong><\/p>\n<p>Publicamos a seguir, na \u00edntegra, o texto elaborado por Maura Soares falando de seu tio-av\u00f4, \u00c1lvaro Ventura. Em outra postagem vamos publicar o artigo do historiador S\u00e9rgio Luiz Ferreira, tamb\u00e9m ele um descendente de Manoel, sobre como um ramo dos Ventura se tornou a numerosa e bem quista fam\u00edlia Rocha de Sambaqui. (C. M.)<\/p>\n<p><strong>\u00c1LVARO SOARES DA VENTURA \u2013 O COMUNISTA<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00a0<strong>Maura Soares<\/strong>*<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/abril3\/ventura1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/8\/78a4fb3c0713790bea1e56b612a50334.jpg?resize=200%2C297\" border=\"0\" alt=\"Na juventude\" width=\"200\" height=\"297\" align=\"left\" \/><\/a>\u00c1lvaro Soares da Ventura, ou \u00c1lvaro Ventura, nasceu em setembro de 1893 e foi o sexto filho do casal Bernardino e Jesu\u00edna, num total de 12 filhos registrados, mas que pela tradi\u00e7\u00e3o oral familiar teriam sido 21. Alguns morreram de tifo, outros de var\u00edola. Quase todos foram mar\u00edtimos ou estivadores.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro teve v\u00e1rias profiss\u00f5es, sempre usando a for\u00e7a de seus bra\u00e7os. Foi tropeiro, aprendeu a manejar la\u00e7os, montar e a conduzir gado, tendo trabalhado levando mercadorias e gado pelas estradas catarinenses.<\/p>\n<p>Depois de certo tempo foi para S\u00e3o Paulo. A vida era dura e \u00c1lvaro se integrou ao movimento anarquista, tendo aprendido diversos of\u00edcios tais como carpinteiro, marceneiro, pedreiro, alfaiate, padeiro, encanador, latoeiro e outros.<\/p>\n<p>Estas habilidades aprendidas na pr\u00e1tica, pode-se verificar em seus descendentes, pois seus sobrinhos-netos tamb\u00e9m t\u00eam propens\u00f5es para eletricistas, encanadores etc. Seu sobrinho Jo\u00e3o Auta Soares, filho de Luiz \u2013 o Duca \u2013 tinha a habilidade com canivete em fazer pequenos entalhes em madeira, esculpindo figuras.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, embora n\u00e3o tendo feito cursos espec\u00edficos, o sentido do saber na pr\u00e1tica passa de uma para outra gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos dizer que dos SOARES DA VENTURA at\u00e9 a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 20 e durante mais de 40 anos, \u00c1lvaro foi o \u00fanico que se destacou nas lides pol\u00edtico-partid\u00e1rias, embora seu pai j\u00e1 tivesse encabe\u00e7ado movimentos para a melhoria social.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/abril3\/ventura2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/4\/34a0aaa62383577da68a035e9446097f.jpg?resize=200%2C305\" border=\"0\" alt=\"A fam\u00edlia de \u00c1lvaro\" width=\"200\" height=\"305\" align=\"left\" \/><\/a>Eliza<\/strong><\/p>\n<p>Sua milit\u00e2ncia come\u00e7ou em 1914, em S\u00e3o Paulo, junto com anarquistas, mas j\u00e1 quatro anos antes liderava em Florian\u00f3polis.<\/p>\n<p>Em 1910, em Florian\u00f3polis, Ventura teve envolvimento com a pol\u00edcia. Seu discurso na Pra\u00e7a Fernando Machado reivindicando oito horas de trabalho, incomodou as autoridades e ele foi detido.<\/p>\n<p>Com o advento da 1\u00aa. Guerra Mundial come\u00e7aram em 1917 e 1918 a pipocar greves em S\u00e3o Paulo e o movimento trabalhista invocava os lemas \u201cabaixo a guerra\u201d e \u201cabaixo o derramamento de sangue\u201d. \u00c1lvaro teve contato com os principais l\u00edderes, todos anarquistas ou socialistas pr\u00e9-marxistas, como Edgard Leuenroth, Everardo Dias, Benjamin Mota, Jos\u00e9 Oiticica e Astrogildo Pereira.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro tamb\u00e9m teve participa\u00e7\u00e3o em greves tais como a dos padeiros em S\u00e3o Paulo, tendo sido penalizado com sua deporta\u00e7\u00e3o para Mato Grosso. L\u00e1 ele trabalhou numa fazenda da Companhia Mate-Laranjeira, que iniciava a constru\u00e7\u00e3o da estrada de ferro Madeira-Mamor\u00e9.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca conheceu aquela com quem iria se casar. Eliza Arseno Esp\u00edndola era casada com um m\u00fasico do Ex\u00e9rcito que estava desaparecido e ela o foi procurar onde \u00c1lvaro estava, em Mato Grosso. Eliza tinha duas filhas Nair e A\u00edda. A hist\u00f3ria n\u00e3o conta se o m\u00fasico foi encontrado ou n\u00e3o, s\u00f3 que \u00c1lvaro casou com Eliza no in\u00edcio dos anos 20, em Florian\u00f3polis e Jo\u00e3o, seu \u00fanico filho com \u00c1lvaro, nasceu em 1926.<\/p>\n<p>Sua vida foi marcada por encontros e desencontros com o partido comunista.<\/p>\n<p><strong>Irm\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Rompido com os anarquistas, \u00c1lvaro acabou se filiando ao PRC (Partido Republicano Catarinense). Ventura teve participa\u00e7\u00e3o destacada na campanha popular em favor de Herc\u00edlio Luz.<\/p>\n<p>Assim disse \u00c1lvaro: \u201cFoi um grupo de rapazes que atuou diretamente, como o Juca Melo, Artur Melo, Renato Moellmann, M\u00e1rio Silva. Com ele se levantou a bandeira contra o Felipe Schmidt e Lauro Muller, a bandeira do Partido Republicano\u201d.<\/p>\n<p>Em meados de 1922 \u00c1lvaro pertencia ao Sindicato de Estivadores de Florian\u00f3polis e era considerado um anarquista veterano.<\/p>\n<p>Seu companheiro de luta, Edgard Leuenroth editava um peri\u00f3dico que era impresso em papel de seda para, caso a pol\u00edcia detivesse algum companheiro, o texto seria engolido. Atrav\u00e9s de \u00c1lvaro o panfleto era distribu\u00eddo na Ilha.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro teve envolvimento tamb\u00e9m na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930. Agitava o povo mesmo sem arma e de p\u00e9s descal\u00e7os. Com os movimentos iniciados no Rio Grande do Sul e cidades de Santa Catarina, subindo para outros estados, Get\u00falio Dornelles Vargas toma o poder.<\/p>\n<p>Sempre dedicado ao trabalho mesmo tendo atividade paralela na pol\u00edtica, \u00c1lvaro narra uma passagem de sua vida.<\/p>\n<p>\u201c<em>Eu era cat\u00f3lico e professava o catolicismo. Fui irm\u00e3o da Irmandade do Senhor dos Passos, no Hospital de Caridade. Ajudava a fabricar caix\u00e3o de defunto, consertar canos de \u00e1gua e outros servi\u00e7os. Os senhores Brando e Faraco um dia ofereceram dois oper\u00e1rios em troca do meu afastamento, porque era comunista. Mas as Irm\u00e3s disseram que n\u00e3o sabiam que eu era comunista, mas sabiam que o senhor Ventura servia bem. Se \u00e0 meia-noite faltava \u00e1gua, o senhor Ventura ia consertar o cano.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas quando fui eleito deputado e fiz minha confiss\u00e3o de f\u00e9 comunista, me expulsaram da Irmandade. Apesar disso eu continuei a lutar dentro do Partido contra o ate\u00edsmo, por entender que isso dificultava o povo a se aproximar do movimento revolucion\u00e1rio. Tinha muitas discuss\u00f5es com elementos do Partido, mas nunca se levava aos congressos, pois antes de tudo se evitava o conflito que pudesse culminar com a dissolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o.<\/em>\u201d (p.21)<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/abril3\/ventura3.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/4\/744a9ec42424b884b12521a22a50f40f.jpg?resize=200%2C149\" border=\"0\" alt=\"\u00c1lvaro (esquerda) na reda\u00e7\u00e3o do jornal A Noite. Reprodu\u00e7\u00e3o: Marco cezar\" width=\"200\" height=\"149\" align=\"left\" \/><\/a>Deputado<\/strong><\/p>\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o no sindicalismo em Florian\u00f3polis foi muito din\u00e2mica e o Sindicato dos Trabalhadores na Constru\u00e7\u00e3o Civil, com base regional, sempre foi o mais forte. Reivindicavam o sal\u00e1rio-m\u00ednimo apresentando tabela de valores para pagar carpinteiro, marceneiro, torneiro, pintor, servente e canteiro. Os esfor\u00e7os deram, em parte, resultados positivos tendo o prefeito de Florian\u00f3polis, Durval Melqu\u00edades de Souza assinado a Resolu\u00e7\u00e3o n. 57 que estendia o pagamento para guarda-jardins, empregados da limpeza p\u00fablica, conservadores de rua e oper\u00e1rios em geral.<\/p>\n<p>Trabalhadores organizados em sindicatos sempre foram \u201cuma pedra no sapato\u201d do poder p\u00fablico, e em Florian\u00f3polis o caso n\u00e3o fugia \u00e0 regra. Depois do Sindicato da Constru\u00e7\u00e3o Civil, foi a vez da organiza\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Padeiros que fizeram a sua primeira greve em 1931, tendo sido vitoriosa ao mudar o sistema de horas de trabalho.<\/p>\n<p>Outras greves se sucederam a partir de 1934 com os sindicatos dos carroceiros; dos ferrovi\u00e1rios e o dos trabalhadores em hot\u00e9is, restaurantes e cong\u00eaneres. Com o sucesso nas reivindica\u00e7\u00f5es, muitos propriet\u00e1rios de restaurantes passaram a trabalhar com a tabela de pagamento do sindicato.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/abril3\/ventura4.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/2\/f2d82a883ce7f1901c57e0244a020da0.jpg?resize=200%2C199\" border=\"0\" alt=\"Deputado Ventura, 1934. Foto: Jornal A Noite. Reprodu\u00e7\u00e3o: Marco Cezar\" width=\"200\" height=\"199\" align=\"right\" \/><\/a>Em 1934 assumiu como Deputado Classista, uma cadeira na C\u00e2mara Federal de Deputados.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro era suplente de Antonio Pennaforte que havia sido eleito pelo Partido Oper\u00e1rio Socialista de S\u00e3o Francisco do Sul. Antonio se envolveu em um tri\u00e2ngulo amoroso com Odete, casada com Leonel Augusto de Azevedo, comerciante de secos e molhados. Odete incentivou o romance, mas em dado momento, n\u00e3o quis mais saber de Antonio e o denunciou \u00e0 Pol\u00edcia por ass\u00e9dio. Antonio compareceu ao Distrito Policial, deu seu testemunho e dali partiu para o estabelecimento comercial do marido de Odete, para tirar satisfa\u00e7\u00f5es com a traidora, no seu entender. No auge da discuss\u00e3o Antonio, que estava armado, deu um tiro para o alto. Odete, apavorada com a situa\u00e7\u00e3o, sacou o revolver colt do marido e desfechou cinco tiros em Pennaforte. A mulher foi presa e liberada com a alega\u00e7\u00e3o de leg\u00edtima defesa.<\/p>\n<p>Assim, \u00c1lvaro assumiu a cadeira.<\/p>\n<p>Nove anos depois, em 1943, \u00c1lvaro foi indicado para a secretaria-geral do Partido Comunista Brasileiro, ficando at\u00e9 1945, quando entregou o cargo para Luis Carlos Prestes.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/abril3\/ventura6.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/f\/bf2e73c5a55ba48f617ab1509bf9764a.jpg?resize=200%2C137\" border=\"0\" alt=\"Com Jorge Amado em mesa-redonda no jornal Folha Carioca em 1945. Foto: Folha Carioca. Reprodu\u00e7\u00e3o: Marco Cezar\" width=\"200\" height=\"137\" align=\"left\" \/><\/a>\u00c1lvaro Ventura, retornando de seus trabalhos na C\u00e2mara Federal, teve contato com os principais l\u00edderes do movimento sindicalista em Florian\u00f3polis Jos\u00e9 Rodrigues da Fonseca, Antonio Vieira Machado e Oct\u00e1vio Britto.<\/p>\n<p>De 15 a 18 de setembro de 1934, em Itaja\u00ed, foi realizado o I Congresso Prolet\u00e1rio de Santa Catarina, dirigido por Leandro Machado. \u00c1lvaro foi um dos participantes e no encontro foram apresentadas 45 teses reivindicat\u00f3rias de todos os principais munic\u00edpios catarinenses.<\/p>\n<p>Outros congressos se sucederam e o IV Congresso do PCB em 1954 foi tido como uma farsa. N\u00e3o teve a presen\u00e7a de Luis Carlos Prestes. No geral, o congresso ratificou a linha que vinha sendo seguida desde 1948, refor\u00e7ada com o Manifesto de Agosto de 1950.<\/p>\n<p><strong>Moscou<\/strong><\/p>\n<p>O ano de 1954 marcou o suic\u00eddio de Vargas, pressionado por movimento que envolveu Carlos Lacerda.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/images\/stories\/abril_dois\/abril_tres_2012\/abril3\/ventura9.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/3\/632dd243629ca60f734cc28489216a6b.jpg?resize=200%2C299\" border=\"0\" alt=\"Momentos\" width=\"200\" height=\"299\" align=\"left\" \/><\/a>O Partido engajou-se na campanha para a elei\u00e7\u00e3o de Juscelino Kubitschek, no pleito de 1955. Nessa \u00e9poca, com mais de 60 anos, \u00c1lvaro embora cansado da milit\u00e2ncia pol\u00edtica, ainda mantinha acesa a chama da incredulidade ante a injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p>Juscelino foi eleito, depois foi a vez de J\u00e2nio Quadros e finalmente, o golpe de 1964.<\/p>\n<p>Eliza faleceu em 1969 e \u00c1lvaro mudou-se para a praia da Arma\u00e7\u00e3o, em Florian\u00f3polis. \u00c0s vezes visitava a antiga sede do Sindicato da Estiva, no centro, que havia ajudado a construir. O terreno havia sido conseguido por seu irm\u00e3o, Jo\u00e3o Bernardo, que era ligado \u00e0 \u00e9poca ao governador Herc\u00edlio Pedro da Luz. Visitava a loja de sua enteada A\u00edda e o marido Rubens Lira: \u201cA Exposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Por causa da idade, em 1975, \u00c1lvaro ficou de fora da Opera\u00e7\u00e3o Barriga Verde em que 42 comunistas do estado foram presos.<\/p>\n<p>Sua vida na praia da Arma\u00e7\u00e3o era um tanto solit\u00e1ria. A vis\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o o estava ajudando. A enteada A\u00edda ia sempre visit\u00e1-lo, at\u00e9 que um dia, do ano de 1982, percebendo a fragilidade de Ventura, chamou o filho que o levou para Curitiba. O artista pl\u00e1stico Expedito Rocha, sabendo do problema de vis\u00e3o de \u00c1lvaro, mobilizou os companheiros e \u00c1lvaro foi enviado a Moscou para opera\u00e7\u00e3o da catarata. Foi acompanhado pelos estudantes Rog\u00e9rio Figueiredo e Nildo Jos\u00e9 Martins que iriam estudar por seis meses no Instituto L\u00eanin.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/9\/899c4bb0f97cc5329dbedddb47e28a47.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/c\/2c5399574d54b0c7df3f5cc17a6b3581.jpg?resize=200%2C189\" border=\"0\" alt=\"\u00c1lvaro Ventura na Arma\u00e7\u00e3o (Florian\u00f3polis-SC) em 6.7.1979. Foto: S\u00e9rgio Ros\u00e1rio\" width=\"200\" height=\"189\" align=\"left\" \/><\/a>Na viagem, escolheu um lugar \u00e0 janela para olhar o mundo l\u00e1 de cima. Pensou em sua m\u00e3e, Jesu\u00edna, falecida em 1937, a qual n\u00e3o pode visitar no hospital por estar preso. Nereu Ramos, interventor no Estado, n\u00e3o permitiu que ele sa\u00edsse da pris\u00e3o para ver sua m\u00e3e que tanta preocupa\u00e7\u00e3o tinha para com ele. Quando ela estava sendo velada \u00e9 que veio a autoriza\u00e7\u00e3o para ele comparecer no sepultamento, que havia falecido com esclerose m\u00faltipla nas pernas. Disse: \u201cAgora n\u00e3o quero. Preferia t\u00ea-la beijado viva\u201d. Lembrou dos atritos que tinha com a esposa Eliza e da sua eterna preocupa\u00e7\u00e3o que a milit\u00e2ncia pol\u00edtica deixava, principalmente em Partido de esquerda que foi sempre perseguido pela situa\u00e7\u00e3o de direita que existia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, o filho de Ventura, fez concurso para exator de rendas federais, passou, mas nunca foi chamado para exercer o cargo. At\u00e9 que um dia resolveu ir a Bras\u00edlia, cobrar do ministro. Bem no dia anterior ao golpe de 64. Resultado: com o sobrenome VENTURA, todas as portas foram-lhe fechadas. A persegui\u00e7\u00e3o foi ampliada para outros parentes de \u00c1lvaro, os quais no final da d\u00e9cada de 30 e principalmente nos anos 40 foram levados a excluir este sobrenome, preferindo outros, como SOARES.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/0\/f0b5f33953ef5a3497c6d76b1e0e7948.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/f\/7f34836f908ce4f7668f7e6e4fd63b40.jpg?resize=200%2C297\" border=\"0\" alt=\"\u00c1lvaro na Arma\u00e7\u00e3o (Florian\u00f3polis-SC) em 12.5.1981. Foto: Tarc\u00edsio Mattos\" width=\"200\" height=\"297\" align=\"right\" \/><\/a>Adeus<\/strong><\/p>\n<p>No retorno ao Brasil, ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o que foi bem sucedida, resolveu ir morar com o filho em Curitiba. Mais tarde ganhou um quarto na casa do neto Roberto Brumow Ventura, no bairro Cascatinha.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o tendo sido elevado ao Hall da Fama, \u00c1lvaro recebeu homenagens em vida, com o reconhecimento de mais de 47 anos dedicados \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Desde o instante em que uma pessoa ingressa numa agremia\u00e7\u00e3o, seja ela pol\u00edtica ou n\u00e3o, tem que seguir as normas. Assim tamb\u00e9m n\u00e3o foi diferente com \u00c1lvaro. Ciente do seu papel, homem de id\u00e9ias firmes, sempre fez valer a sua palavra, desconfiando de quem se chegava a ele oferecendo parceria. Sabia que em troca queriam algo. Tinha por norma n\u00e3o citar nomes e nem se lembrar deles para, caso fosse preso, n\u00e3o denunciar, pela tortura, o nome dos companheiros. Embora tenha sido preso v\u00e1rias vezes, jamais delatou um companheiro, pois n\u00e3o sabia o nome de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro esteve ao lado de grandes l\u00edderes sindicais e conheceu, na sua luta pol\u00edtica, muitos homens p\u00fablicos que passaram \u00e0 hist\u00f3ria catarinense e brasileira. A lista \u00e9 grande, citamos, no entanto, Aristiliano Ramos, Luiz Carlos Prestes, Hip\u00f3lito Pereira, Pl\u00ednio Salgado, Fulvio Aducci, Herc\u00edlio Pedro da\u00a0<a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/8\/d8c5277e0c7bf31165d72addcb045154.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"lightbox[id_1476]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.daquinarede.com.br\/cache\/0\/108c8e6ee3d336551d06f668523726d1.jpg?resize=200%2C299\" border=\"0\" alt=\"Ventura na Arma\u00e7\u00e3o (Florian\u00f3polis-SC) em 12.5.1981. Foto: Tarc\u00edsio Mattos\" width=\"200\" height=\"299\" align=\"right\" \/><\/a>Luz, Othon Gama d\u00b4E\u00e7a, Antonio Bottini, Carlos Sada, Mimo Ribeiro, Expedito Rocha, Sebasti\u00e3o Vieira, Durval Melqu\u00edades e tantos e tantos que lutaram em prol de uma sociedade digna.<\/p>\n<p>A luta continua nos dias atuais, pois na sociedade capitalista em que vivemos, sempre haver\u00e1 patr\u00f5es e empregados, opressores e oprimidos, mas aquele que n\u00e3o teme, luta contra as injusti\u00e7as e at\u00e9 com a vida paga se preciso for, para dar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras condi\u00e7\u00f5es melhores de vida.<\/p>\n<p>Embora \u00c1lvaro n\u00e3o tenha tido seu nome escrito nos livros da hist\u00f3ria oficial de seu estado natal, para n\u00f3s, seus descendentes, ele deixou um exemplo de honestidade e f\u00e9 inquebrant\u00e1vel na justi\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia 10 de julho de 1989, aos 96 anos, deixando filho, netos e bisnetos, \u00c1lvaro deu adeus ao mundo que ele acreditava que um dia iria melhorar.<\/p>\n<p align=\"right\">Texto de Maura Soares com bibliografia de apoio:<\/p>\n<p align=\"right\">MARTINS, Celso.\u00a0<em>Os comunas \u2013 \u00c1lvaro Ventura e o PCB catarinense<\/em>. Florian\u00f3polis: Paralelo 27;<\/p>\n<p align=\"right\">Funda\u00e7\u00e3o Franklin Cascaes, 1995. (Subt\u00edtulos inseridos na edi\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>*Nasceu no dia 7.1.1943, em Florian\u00f3polis &#8211; SC. Autora teatral, com cerca de 30 pe\u00e7as. Integra o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Santa Catarina, Grupo de Poetas Livres e Academia Desterrense de Letras. Saiba mais sobre Maura Soares no site do\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.poetaslivres.com.br\/\" target=\"_blank\">Grupo de Poetas Livres<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.daquinarede.com.br\/index.php\/secoes\/memoria\/1476-as-origens-de-alvaro-e-dos-ventura\">http:\/\/www.daquinarede.com.br\/index.php\/secoes\/memoria\/1476-as-origens-de-alvaro-e-dos-ventura<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: daquinarede.com.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nMem\u00f3rias de \u00c1lvaro e dos Ventura de Sambaqui e Barra do Sambaqui\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3039\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-3039","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-N1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3039"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3039\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}