{"id":3049,"date":"2012-06-21T21:13:14","date_gmt":"2012-06-21T21:13:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3049"},"modified":"2012-06-21T21:13:14","modified_gmt":"2012-06-21T21:13:14","slug":"a-corrupcao-e-imanente-a-sociedade-burguesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3049","title":{"rendered":"A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 imanente \u00e0 sociedade burguesa\u00b9"},"content":{"rendered":"\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam propalado casos e casos de corrup\u00e7\u00e3o, de forma que tem se tornado id\u00e9ia comum em nossa sociedade a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201co problema do Brasil \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos\u201d. Evidente que este \u00e9 um problema, e em nenhuma hip\u00f3tese queremos justificar qualquer desvio de conduta dos chamados \u201chomens p\u00fablicos\u201d. Os casos atuais envolvendo partidos e lideran\u00e7as que outrora estiveram no campo de esquerda \u00e9 ainda mais preocupante, por algumas raz\u00f5es: como a massa do povo ainda os considera de esquerda, isso solidifica a id\u00e9ia de que \u201cs\u00e3o todos iguais, basta terem a oportunidade\u201d; indica o grau de comprometimento destas for\u00e7as com os meandros do fazer pol\u00edtica das velhas elites governantes; j\u00e1 nada os diferencia das velhas oligarquias.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia de que o problema central \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o tem servido, para al\u00e9m de tudo que a corrup\u00e7\u00e3o tem de nefasto em si, para iludir inclusive a maior parte das pequenas for\u00e7as remanescentes do campo de esquerda. Mais e mais lideran\u00e7as s\u00e3o absorvidas pela id\u00e9ia atraente e f\u00e1cil de que basta acabar com a corrup\u00e7\u00e3o. Assim, os pontos program\u00e1ticos fundamentais e o combate ideol\u00f3gico necess\u00e1rio ficam subsumidos \u00e0 promessa de moralidade, de transpar\u00eancia. O debate sobre a natureza de classes da sociedade brasileira e a conseq\u00fcente defesa do socialismo desaparece num mar de abstra\u00e7\u00f5es subjetivas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso compreender que a corrup\u00e7\u00e3o faz parte da engrenagem de sustenta\u00e7\u00e3o de sociedade de classes, sendo dela insepar\u00e1vel. Mais do que compreender, \u00e9 preciso que se diga isso ao povo. Sem corrup\u00e7\u00e3o a sociedade burguesa n\u00e3o sobrevive um dia. Por mais que pare\u00e7a exagerada a afirma\u00e7\u00e3o anterior, observando-se por dentro todos os meandros que fazem constituir o Estado atual, em todas as suas institui\u00e7\u00f5es, ficar\u00e1 n\u00edtido que esta organiza\u00e7\u00e3o social n\u00e3o resistiria a uma efetiva \u201cfaxina \u00e9tica\u201d. A maior institui\u00e7\u00e3o do Estado atual, a chamada \u201cdemocracia representativa\u201d, \u00e9 um emaranhado de falsas promessas, troca de favores, acertos de c\u00fapula, trucul\u00eancia de caciques partid\u00e1rios, tempo de propaganda \u201cgratuita\u201d no r\u00e1dio e na televis\u00e3o, financiamento de campanha, caixa dois, arregimenta\u00e7\u00e3o financiada de \u201ccabos eleitorais\u201d, propaganda enganosa, parcialidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, compra de votos, boatos estapaf\u00fardios. Tem sobrado cada vez menos legitimidade nesta forma de democracia. A express\u00e3o inscrita na constitui\u00e7\u00e3o de que \u201ctodo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido\u201d, \u00e9 uma retumbante mentira. E disso sabe perfeitamente o povo. S\u00f3 n\u00e3o percebe as formas pelas quais esta imensa mentira se processa, e at\u00e9 faz parte dela em grande medida.<\/p>\n<p>O partido ou candidato, em nosso pa\u00eds e na atual conjuntura, que tentar chagar a algum espa\u00e7o de poder (ou de governo) com um programa bem escrito, com uma campanha honesta, sem financiamento dos grandes empres\u00e1rios e sem se atolar em roubalheiras do dinheiro p\u00fablico, est\u00e1 fadado ao fracasso. As exce\u00e7\u00f5es s\u00f3 garantem a regra, e a exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue convencer nem o povo de que o \u00eaxito eleitoral foi resultado da vontade desinteressada de um grande n\u00famero de pessoas. Os detentores do poder do Estado e da sociedade buscam imprimir a id\u00e9ia de que a honestidade \u00e9 a regra e a desonestidade \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o. Mas o fato \u00e9 que a honestidade \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o, a regra. Isso porque a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 sist\u00eamica no capitalismo, e seu Estado, nas mais diversas institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o consegue viver sem ela. A come\u00e7ar pelo financiamento de campanha.<\/p>\n<p>Os grandes grupos econ\u00f4micos distribuem imensas quantias de recursos financeiros aos partidos e candidatos, e o fazem segundo a probabilidade de \u00eaxito eleitoral de cada um, embora seja comum contribu\u00edrem com v\u00e1rios, com praticamente todos. E o fazem dessa forma porque sabem que \u00e9 o meio mais garantido de terem vantagens posteriores. E as vantagens posteriores podem ser diversas: isen\u00e7\u00e3o fiscal; abatimento ou perd\u00e3o de d\u00edvidas com bancos p\u00fablicos de fomento; aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o de suas atividades, muitas vezes em confronto com a lei, com a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente e com os direitos trabalhistas; aprova\u00e7\u00e3o de projetos leis que os venham a beneficiar; arquivamento de projetos de leis que os venham a prejudicar; privil\u00e9gios em licita\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de obras p\u00fablicas ou para a realiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os junto ao Estado.<\/p>\n<p>Um deputado no Brasil deve custar menos de cem mil reais, e dizer isso dessa forma pode parecer ofensivo ou exagerado. Mas, imaginem se uma empresa que doa cem mil reais para a campanha de um deputado algum dia ter\u00e1 um voto contra do referido deputado em um projeto de seu interesse, ou se este deputado vai votar a favor de algum projeto que seja contra o interesse da empresa que lhe doou cem mil reais! E cem mil reais para um banco privado, para um monop\u00f3lio da ind\u00fastria, do com\u00e9rcio ou do agroneg\u00f3cio, para uma grande empreiteira \u00e9 uma bagatela! Num simples contrato com um minist\u00e9rio, com um governo de estado e mesmo com uma prefeitura pode render milh\u00f5es. Quanto pode render um perd\u00e3o de d\u00edvida, um \u201cprograma\u201d de incentivo fiscal, o n\u00e3o recolhimento de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria?<\/p>\n<p>Os monop\u00f3lios sabem que a forma mais garantida de auferirem grandes \u201clucros\u201d \u00e9 terem boa rela\u00e7\u00e3o com os gestores p\u00fablicos, o que \u00e9 tamb\u00e9m garantia para terem vantagem nos momentos de conflitos trabalhistas com seus empregados. E os \u201chomens p\u00fablicos\u201d n\u00e3o s\u00e3o seres sa\u00eddos do espa\u00e7o para administrarem o Estado segundo os pressupostos da soberania popular, isentos de interesses de classe. Pelo contr\u00e1rio, a maioria s\u00e3o sujeitos que j\u00e1 entram nos espa\u00e7os de \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d com um mandato decisivamente comprometido com a classe economicamente dominante. N\u00e3o que a maioria seja objetiva e organicamente pertencente \u00e0 classe dominante, e sim que a complexa engrenagem de controle da democracia representativa j\u00e1 o fez um agente da classe economicamente dominante no seu processo de ingresso. S\u00e3o o que se chama de ofice boy de luxo da burguesia. Alguns s\u00e3o org\u00e2nicos da burguesia, mas a grande maioria constitui-se em um lumpesinato de palet\u00f3 e gravata. Custa barato para a grande burguesia dominar os aparatos de domina\u00e7\u00e3o do Estado atual.<\/p>\n<p>E o povo, como entra nessa hist\u00f3ria? O povo entra com o voto, e s\u00f3. Mais n\u00e3o leva nenhuma vantagem? Naquilo que mais interessa, leva muitas desvantagens. No momento eleitoral pode receber alguns dividendos, inclusiveem esp\u00e9cie. Masa maioria n\u00e3o recebe e nem pede nadaem esp\u00e9cie. Pedirou aceitar dinheiro pelo voto s\u00f3 ocorre onde o n\u00edvel de desqualifica\u00e7\u00e3o moral \u00e9 quase impronunci\u00e1vel. Na maioria das vezes, o povo recebe esperan\u00e7as v\u00e3s, cren\u00e7a (mesmo que subjetiva) de que aquele \u00e9 o melhor caminho. A liberdade de voto, nos processos eleitorais de pa\u00edses como o Brasil \u00e9 absolutamente relativa, pois est\u00e1 mediada pela falsa propaganda, pelo ass\u00e9dio dos \u201ccabos eleitorais\u201d financiados, pela troca de favor, mesmo que muito sutil. Da desgra\u00e7a das amplas massas do povo surge a possibilidade de um \u201cacordo\u201d que pode render muitos votos. \u00c9 bom para o modelo atual de democracia representativa que o acesso aos servi\u00e7os p\u00fablicos, que o acesso ao emprego dependam cada vez mais de um \u201cempurr\u00e3o\u201d de algum pol\u00edtico, seja vereador (potencial \u201ccabo eleitoral\u201d de algum deputado) ou mesmo do pr\u00f3prio deputado, ou do secret\u00e1rio de estado. Quem tiver a indica\u00e7\u00e3o de um governador ou de um ministro pode se considerar \u201csalvo\u201d.\u00a0 O povo \u201cganha\u201d a aus\u00eancia de direitos, e isso \u00e9 tamb\u00e9m uma excelente forma de deix\u00e1-lo comprometido pelo resto da vida (as vezes de algumas gera\u00e7\u00f5es futuras tamb\u00e9m) em virtude do \u201cgrande apoio\u201d que algum pol\u00edtico deu na hora que precisava desesperadamente. O mesmo Estado que enriquece os monop\u00f3lios explorando e restringindo os direitos elementares ao povo \u00e9 o Estado que se constitui montado sobre a pr\u00f3pria desgra\u00e7a do povo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o existe alternativa? Existe! Mas ela n\u00e3o est\u00e1 na democracia representativa sob o Estado burgu\u00eas. Est\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o dos explorados e oprimidos para enfrentar toda essa ordem de coisas, e para construir outra ordem, n\u00e3o mais burguesa, n\u00e3o mais capitalista. \u00c9 preciso destruir os aparatos do Estado atual, em todas as suas institui\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e de controle. Construir outra ordem depende da expropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores, do combate de classes at\u00e9 o fim da sociedade de classes, da constru\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es, que estejam a servi\u00e7o da \u00fanica alternativa vi\u00e1vel para o futuro da humanidade, o socialismo, como processo transit\u00f3rio \u00e0 sociedade sem classes. Por mais que se possa considerar essa uma tarefa dif\u00edcil em pequeno prazo, ainda assim ela \u00e9 prefer\u00edvel, pois \u00e9 a \u00fanica correta. N\u00e3o importa a t\u00e1tica, desde que ela n\u00e3o confunda a estrat\u00e9gia, desde que ela n\u00e3o atrapalhe a travessia para o futuro necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso elevar o n\u00edvel de consci\u00eancia e de organiza\u00e7\u00e3o do povo, em todos os lugares onde pudermos nos inserir, e reedificar as organiza\u00e7\u00f5es populares a partir das bases da sociedade. Mesmo que sejamos poucos hoje, \u00e9 certo que no futuro seremos muitos, e tanto melhor ser\u00e1 se esses muitos estiverem em condi\u00e7\u00f5es de entender a sua grande tarefa, que n\u00e3o \u00e9 fazer mais do mesmo, nem atrapalhar-se na administra\u00e7\u00e3o das iniq\u00fcidades do capitalismo. A corrup\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, o abandono de pontos program\u00e1ticos centrais e a transig\u00eancia com os princ\u00edpios de classe do proletariado levam ao oportunismo pol\u00edtico e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o moral. Combater a corrup\u00e7\u00e3o sob o capitalismo, sem combater o capitalismo, \u00e9 ter a ilus\u00e3o de que os burgueses s\u00e3o seres moralmente superiores, e que querem um Estado racional para a felicidade de todos os seres da terra. Essa \u00e9 uma id\u00e9ia absurda, pois o Estado \u00e9 corrupto porque \u00e9 assim que a burguesia precisa dele. Na constru\u00e7\u00e3o do socialismo tamb\u00e9m teremos problemas com a corrup\u00e7\u00e3o, seria idealista pensar que n\u00e3o. Mas, neste caso, as manifesta\u00e7\u00f5es da corrup\u00e7\u00e3o ser\u00e3o exatamente o resqu\u00edcio da sociedade velha, ser\u00e3o os estertores do ego\u00edsmo da sociedade atual tentando subsistir e perseverar. O socialismo ter\u00e1 que aniquilar a corrup\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sua inexist\u00eancia, pois do contr\u00e1rio ser\u00e1 engolido pela l\u00f3gica hoje dominante. Mas \u00e9 plenamente poss\u00edvel fazer isso, se todos forem obrigados a trabalhar e se a ningu\u00e9m for permitido acumular qualquer riqueza ou favorecimento.<\/p>\n<p>\u00b9 Texto publicado originalmente no jornal\u00a0<em>Voz Oper\u00e1ria, <\/em>n 18, Novembro de 2011.<\/p>\n<p>\u00b2 Membro da Dire\u00e7\u00e3o Nacional da CCLCP e Deputado Estadual em SC.<\/p>\n<p>http:\/\/www.cclcp.org\/index.php\/noticias\/nacional\/47-a-corrupcao-e-imanente-a-sociedade-burguesa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CCLCP\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Sargento Amauri Soares\u00b2\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3049\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-3049","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c70-eleicoes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Nb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3049"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3049\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}