{"id":30566,"date":"2023-06-26T22:26:33","date_gmt":"2023-06-27T01:26:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=30566"},"modified":"2023-06-26T22:26:33","modified_gmt":"2023-06-27T01:26:33","slug":"terapia-nao-basta-saude-mental-e-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30566","title":{"rendered":"Terapia n\u00e3o basta: sa\u00fade mental e capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30567\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30566\/image10-4\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/image10-1.png?fit=750%2C375&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"750,375\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image(10)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/image10-1.png?fit=747%2C374&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-30567\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/image10-1.png?resize=747%2C374&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/image10-1.png?w=750&amp;ssl=1 750w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/image10-1.png?resize=300%2C150&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por \u00c1gatha Luz<\/p>\n<p>Jornal O MOMENTO &#8211; PCB da Bahia<\/p>\n<p>Categorizar e solucionar o adoecimento ps\u00edquico do ser humano \u00e9 insuficiente e perigoso sem pautar a pr\u00f3pria estrutura que motiva nosso sofrimento coletivo.<\/p>\n<p>Em nosso cotidiano, seja no ambiente de trabalho, no conte\u00fado transmitido pelas redes sociais ou at\u00e9 certos setores acad\u00eamicos de pesquisa, existe um reducionismo perigoso em nossa interpreta\u00e7\u00e3o do que significa estar adoecido mentalmente: os termos e descri\u00e7\u00f5es adotados corriqueiramente em nossos di\u00e1logos sobre sa\u00fade mental refletem fen\u00f4menos ps\u00edquicos como a exaust\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o ou des\u00e2nimo profundos como simples processos de m\u00e1-gest\u00e3o individual das dificuldades di\u00e1rias. \u00c9 necess\u00e1rio, no entanto, superar tal ponto de vista individualista e enxergar transtornos e sintomas dessa natureza como intimamente proporcionados e aprofundados pela estrutura econ\u00f4mica em que somos obrigados a existir.<\/p>\n<p>A grande problem\u00e1tica de desconsiderar as contradi\u00e7\u00f5es pavorosas do sistema capitalista em nossa compreens\u00e3o sobre adoecimento mental em massa n\u00e3o \u00e9 sempre expl\u00edcita. Acontece que a pr\u00f3pria forma com a qual discutimos sa\u00fade mental \u00e9 programada de forma s\u00fabita para descartar essas implica\u00e7\u00f5es sociais da nossa consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Em Neoliberalismo com gestor do sofrimento ps\u00edquico (2021), o fil\u00f3sofo Vladimir Safatle defende que o modo de produ\u00e7\u00e3o que forja o terreno em que nossa cultura e sociedade tomam forma n\u00e3o apenas \u00e9 respons\u00e1vel por gerar sistematicamente certas formas de profundo sofrimento humano, como tamb\u00e9m de as manter vivas atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio debate sobre o tema. Em suas palavras: \u201ccontrolar a gram\u00e1tica do sofrimento \u00e9 um dos eixos fundamentais do poder\u201d.<\/p>\n<p>Safatle ilustra essa tese com a forma em que a categoriza\u00e7\u00e3o tradicional de transtornos mentais que adotamos h\u00e1 d\u00e9cadas, notadamente difundidas pelas extremamente bem-sucedidas edi\u00e7\u00f5es do Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (ou DSM, editadas pela Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria), ditam desde o princ\u00edpio a linguagem que utilizamos como ponto de partida em nossas formula\u00e7\u00f5es habituais sobre o que \u00e9 ou n\u00e3o \u201cnormal\u201d e \u201csaud\u00e1vel\u201d dentro da psicologia sem nem percebermos.<\/p>\n<p>Essa linguagem patologiza e busca corrigir o indiv\u00edduo \u201canormal\u201d, al\u00e9m de n\u00e3o levar em conta as condi\u00e7\u00f5es sociais que influenciam ou acarretam certos comportamentos adversos \u00e0 normalidade. Inclusive, esse l\u00e9xico individualista, correcional e acr\u00edtico serve como a gram\u00e1tica adotada em grande parte do conte\u00fado produzido e amplamente circulado atualmente dentro das redes sociais, que repopularizaram, por exemplo, conceitos como a \u201cs\u00edndrome de burnout\u201d em nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Assentar nossas conversas sobre sa\u00fade mental sob de categorias (sintomas e diagn\u00f3sticos) pr\u00e9-estabelecidos, sem questionar em que se fundamentam essas categorias e onde se equivocam, tem o poder nefasto de legitimar, como inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, o sofrimento ps\u00edquico de propens\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria s\u00edndrome de burnout \u00e9 um \u00f3timo exemplo. Tamb\u00e9m chamada de estresse ocupacional, a express\u00e3o j\u00e1 tem uma certa idade em seu emprego acad\u00eamico, por\u00e9m, obteve enorme resson\u00e2ncia desde o in\u00edcio da pandemia de Covid-19, quando a exaust\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade frente \u00e0 crise sanit\u00e1ria virou uma grande pauta midi\u00e1tica. Desde f\u00f3runs an\u00f4nimos a artigos m\u00e9dicos divulgados em portais oficiais de medicina e psicologia, o mais propagandeado como tratamento para essa condi\u00e7\u00e3o de exaust\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a de estilo de vida. Isso significa aprender a gerenciar melhor a rotina, investir mais em exerc\u00edcio f\u00edsico e ser assistido por um terapeuta, al\u00e9m de adotar pr\u00e1ticas relaxantes como a aten\u00e7\u00e3o plena e o yoga.<\/p>\n<p>Basicamente, a orienta\u00e7\u00e3o geral mais aceita e propagada \u2013 a mais legitimada \u2013 \u00e9 a de se conscientizar sobre seus h\u00e1bitos pessoais di\u00e1rios e transform\u00e1-los. Seriam ent\u00e3o essas escolhas individuais, e somente elas que acarretam ou evitam toda a indisposi\u00e7\u00e3o, tristeza e cansa\u00e7o relacionados \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o profissional do sujeito. Nunca fatores externos.<\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m, n\u00e3o menos contradit\u00f3rios, aqueles completamente avessos \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o do mundo moderno, e que culpam a pr\u00f3pria moderniza\u00e7\u00e3o como fator prim\u00e1rio e \u00fanico do adoecimento ps\u00edquico global.<\/p>\n<p>Muito mais raro \u00e9 encontrar discuss\u00f5es sobre os pr\u00f3prios padr\u00f5es de trabalho impostos \u00e0 classe trabalhadora que ocasionam esse adoecimento e, al\u00e9m do mais, dificultam em si a possibilidade de mudan\u00e7as ben\u00e9ficas de h\u00e1bito: para uma grande parte de n\u00f3s, um melhor aproveitamento do tempo e maior dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio bem-estar \u00e9 simplesmente, muitas vezes, invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Enquanto existem duras cr\u00edticas a serem feitas sobre a responsabilidade relativa que conservamos em rela\u00e7\u00e3o a nossa qualidade de vida, como tamb\u00e9m sobre a din\u00e2mica problem\u00e1tica que a tecnologia assume em nossa realidade \u2013 inclusive em rela\u00e7\u00e3o a superexplora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora \u2013 ambas an\u00e1lises s\u00e3o sup\u00e9rfluas porque falham em reconhecer o b\u00e1sico. Trabalhar mais, com maior precariedade e menor seguran\u00e7a, em troca de um menor acesso \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o digna e menor garantia a direitos trabalhistas, s\u00e3o causadores e catalizadores fundamentais das particularidades que o sofrimento humano incorpora atualmente. Isso sem contar com as diversas formas de opress\u00e3o que orientam nossas intera\u00e7\u00f5es com o mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>Por isso, lutas a favor da diminui\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para trinta horas semanais ou contra a terceiriza\u00e7\u00e3o devem ser, tamb\u00e9m, b\u00e1sicas quando se discute sa\u00fade mental. Inclusive, \u00e9 necess\u00e1rio que a pr\u00f3pria linguagem de categoriza\u00e7\u00e3o que adotamos seja profundamente revisada, a fim de compreender a classe trabalhadora de forma realista, coletivizada, e produzir tratamentos e solu\u00e7\u00f5es reais ao inv\u00e9s de medidas superficiais e individualizadoras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30566\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[226],"class_list":["post-30566","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7X0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30566"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30566\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30568,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30566\/revisions\/30568"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}