{"id":30792,"date":"2023-09-02T22:54:28","date_gmt":"2023-09-03T01:54:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=30792"},"modified":"2023-09-02T22:54:28","modified_gmt":"2023-09-03T01:54:28","slug":"politica-meios-fins-e-mentiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30792","title":{"rendered":"Pol\u00edtica, meios, fins e mentiras"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30793\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30792\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500.jpg?fit=500%2C500&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"500,500\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500.jpg?fit=500%2C500&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-30793\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500.jpg?w=500&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/artworks-000615495703-aq8pzg-t500x500.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>O perigo de uma meia verdade \u00e9 voc\u00ea<br \/>\ndizer exatamente a metade que \u00e9 mentira.<\/p>\n<p>Millor Fernandes<\/p>\n<p>Presenciamos em nosso tempo a emerg\u00eancia espetacular da mentira como arma pol\u00edtica. Os meios digitais, algoritmos, redes sociais e plataformas, apenas potencializam a profundidade e a dimens\u00e3o dos efeitos da falsifica\u00e7\u00e3o dos fatos, inverdades e manipula\u00e7\u00f5es. S\u00e3o, portanto, uma nova forma sob a qual se reveste um velho conte\u00fado.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles, l\u00e1 na velha Gr\u00e9cia, afirmava que a pol\u00edtica era fundamentalmente a associa\u00e7\u00e3o mais elevada para garantir a vida plena. Acreditava que toda associa\u00e7\u00e3o seria orientada pela natureza, desde associa\u00e7\u00e3o entre homem e mulher para procriar, senhor e escravo para a vida cotidiana, at\u00e9 a associa\u00e7\u00e3o entre seres livres na Polis, como forma superior de associa\u00e7\u00e3o capaz de ir al\u00e9m da vida animal imediata.<\/p>\n<p>Desta forma, a compreens\u00e3o filos\u00f3fica de Arist\u00f3teles sobre a vida se apresenta como ideologia, isto \u00e9, esconde as determina\u00e7\u00f5es de uma particular forma de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida, justificando e naturalizando, apresentando o interesse particular de uma aristocracia escravista como universal.<\/p>\n<p>Mas a ideologia n\u00e3o \u00e9 uma mera mentira, \u00e9 a express\u00e3o invertida de um mundo invertido, \u00e9 a express\u00e3o ideal de uma materialidade fundada no dom\u00ednio de homens sobre mulheres e senhores sobre escravos; neste sentido \u00e9 real e efetiva. No entanto, como j\u00e1 discutimos antes, baseados em Eagleton (1997), a mentira \u00e9 um componente de toda ideologia e n\u00e3o um mero fator contingente (ver a coluna A mentira e a p\u00f3s verdade, Blog da Boitempo). Isto \u00e9, apesar de expressar a materialidade real da qual parte, toda ideologia implica em invers\u00e3o e falsifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por exemplo, a ideologia escravista de Arist\u00f3teles expressa uma materialidade na qual mulheres se submetem ao dom\u00ednio dos homens, e os gregos subjugam os b\u00e1rbaros e os escravizam, mas falsifica descaradamente quando justifica esta domina\u00e7\u00e3o afirmando que a natureza criou uns para o mando e outros para a obedi\u00eancia, uns para a vida plena e outros para o trabalho. Isto \u00e9, em poucas palavras, mentira.<\/p>\n<p>Aqui o que nos interessa diretamente n\u00e3o \u00e9 o sentido geral da ideologia, mas sim a funcionalidade da mentira para o dom\u00ednio pol\u00edtico. A transi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica cl\u00e1ssica para a pol\u00edtica moderna, que emerge com o particular dom\u00ednio burgu\u00eas e o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, recoloca a quest\u00e3o em outros termos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica cl\u00e1ssica pode esconder ideologicamente o dom\u00ednio pol\u00edtico sob o manto enganoso da virtude do bom governo ou dos governantes, orientados pela ideia de um superioridade inata das classes dominantes, ao passo que a raz\u00e3o moderna tem que equacionar a contradi\u00e7\u00e3o entre os interesses individuais e o chamado interesse geral, o que a leva a uma forma inicialmente mais pragm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Antes que fosse revestida com grossas camadas de ideologia, a raz\u00e3o pol\u00edtica moderna se expressou brutalmente em Maquiavel como um jogo de for\u00e7a e interesses, nos quais a principal virtude \u00e9 conquistar e manter o poder, portanto, deve ser o h\u00e1bil jogo que lan\u00e7a m\u00e3o de a\u00e7\u00f5es boas ou m\u00e1s, verdades ou mentiras que devem ser julgadas pela efici\u00eancia ou n\u00e3o de manter o poder.<\/p>\n<p>Dizia Maquiavel que o governante prudente deve ser um bom simulador e dissimulador, mas deve \u201cdisfar\u00e7ar muito bem esta qualidade\u201d, deve aprender a ser mau e se valer ou deixar de valer-se desta qualidade segundo a necessidade. Alerta o florentino que o governante n\u00e3o precisa de fato ter todas as virtudes, \u201cbastando que aparente possu\u00ed-las\u201d (Maquiavel, 2001, p. 88). Eis aqui o surgimento da separa\u00e7\u00e3o entre a moral p\u00fablica e a moral privada que mais tarde seria estudada por Weber.<\/p>\n<p>Desta forma, ficamos informados que o exerc\u00edcio da pol\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 autorizado, mas deve lan\u00e7ar m\u00e3o de mentiras na luta pol\u00edtica pelo poder. Um cidad\u00e3o n\u00e3o pode mentir, mas um governante pode, por exemplo, afirmar que existem armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa para justificar um ataque a outro pa\u00eds ou dizer que explorar um pouco de petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia equatorial n\u00e3o agride necessariamente a natureza.<\/p>\n<p>Desde Get\u00falio afirmando que seria necess\u00e1rio um estado de s\u00edtio para combater uma iminente insurrei\u00e7\u00e3o comunista no famoso Plano Cohen at\u00e9 o juizeco do Paran\u00e1 que prendeu um ex-presidente pela compra de um triplex que n\u00e3o era dele, temos in\u00fameros exemplos hist\u00f3ricos de mentiras e sua funcionalidade para a luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No entanto, se, por um lado, o uso da mentira tem se mostrado uma constante, \u00e9 tamb\u00e9m ineg\u00e1vel que ela assumiu uma forma particular no momento presente. Vivenciamos uma esp\u00e9cie de pandemia de mentiras potencializadas por poderosas plataformas de divulga\u00e7\u00e3o e massifica\u00e7\u00e3o daquilo que eufemisticamente se convencionou chamar de fake news. Certo, os jornais j\u00e1 mentiam, a televis\u00e3o mente, assim como o r\u00e1dio e outros meios sempre mentiram, mas os meios digitais parecem ter uma vantagem sobre seus antepassados na arte de mentir.<\/p>\n<p>Estamos convictos que n\u00e3o \u00e9 apenas a enorme capacidade potencializada de ramifica\u00e7\u00e3o e contato direto com ouvidos receptivos que faz com que os atuais meios sejam poderosos ve\u00edculos de mentiras. Vejamos mais de perto.<\/p>\n<p>Como refletimos em outra oportunidade (O dilema do dilema das redes &#8211; 20\/10\/2020, Blog da Boitempo), as plataformas e aplicativos nada mais s\u00e3o que a vers\u00e3o moderna dos ve\u00edculos de propaganda que se especializaram em captura de aten\u00e7\u00e3o para que os algoritmos pudessem dirigir com espantoso grau de certeza a propaganda. O dilema \u00e9tico dos agentes t\u00e9cnicos das plataformas de captura de aten\u00e7\u00e3o se apresenta quando percebem que a manipula\u00e7\u00e3o pode ir al\u00e9m da imposi\u00e7\u00e3o de mercadorias, mas induzir a comportamentos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Ora, a rela\u00e7\u00e3o entre propaganda e pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade como podem comprovar o nazismo, a an\u00e1lise de Weber sobre a pol\u00edtica americana submetida \u00e0 racionalidade instrumental, o Estado Novo ou o lucrativo mercado dos marqueteiros nas campanhas eleitorais. O que h\u00e1 de particularmente novo \u00e9 um tipo espec\u00edfico de propaganda em massa descaradamente fundada em mentiras e, principalmente, na assustadora efici\u00eancia de tais m\u00e9todos.<\/p>\n<p>O papel destacado de Steve Bannon na elei\u00e7\u00e3o de Trump em 2016 e na de Bolsonaro em 2018 consagraram o m\u00e9todo da mentira e seu eficiente meio digital, mas a apar\u00eancia do fen\u00f4meno levou muitos analistas a destacar mais os meios do que o conte\u00fado daquilo que se buscava compreender, acabando por culpabilizar o instrumento.<\/p>\n<p>Creio que a efic\u00e1cia da mentira como arma pol\u00edtica se deva a dois aspectos pouco avaliados. Para entend\u00ea-los devemos focar nossa aten\u00e7\u00e3o, em um primeiro momento, no receptor. O mesmo Maquiavel j\u00e1 sabia que \u201caquele que engana sempre encontrar\u00e1 quem se deixe enganar\u201d (idem, ibidem), ou como diz mais diretamente minha sogra: \u201cquando um bobo se acha esperto, sempre encontra um esperto que acha um bobo\u201d.<\/p>\n<p>A mensagem mentirosa encontra ouvidos receptivos e nisto devemos focar nossa aten\u00e7\u00e3o. Pessoas minimamente esclarecidas n\u00e3o deveriam acreditar que qualquer governo pudesse distribuir mamadeiras com bicos em formato de p\u00eanis para induzir homossexualismo em crian\u00e7as ou que a Rep\u00fablica Popular da China teria criado uma pandemia, inclu\u00eddo microchips em vacinas para controlar as pessoas, num plano maquiav\u00e9lico para que o comunismo tomasse o mundo. Mas a recep\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel n\u00e3o tem nada a ver com o conte\u00fado manifesto da mentira.<\/p>\n<p>O medo n\u00e3o \u00e9 da mamadeira de piroca que n\u00e3o existe, mas de sua pr\u00f3pria sexualidade reprimida e a inseguran\u00e7a que a ela vem associada. Da mesma forma, o receio n\u00e3o \u00e9 de um chip escondido em uma vacina que fa\u00e7a as pessoas de bem entenderem a dial\u00e9tica marxista tornando-se homossexuais comunistas que cantam a Internacional e copulam fora dos sagrados la\u00e7os do matrim\u00f4nio. Existe uma dimens\u00e3o ainda mais profunda: o receio de que um poder maior nos domine e possa afetar-nos sem que saibamos.<\/p>\n<p>Veja bem, este poder existe e n\u00e3o apenas pode como faz isso mesmo, ou seja, controla sua vida e faz voc\u00ea fazer coisas terr\u00edveis. No entanto, este poder n\u00e3o \u00e9 o abstrato \u201csistema\u201d ou \u201ctudo isto que t\u00e1 a\u00ed\u201d, este poder \u00e9 a sociedade burguesa e o modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida fundada na mercadoria e no capital. Esta \u00e9 a materialidade na qual estamos todos subsumidos e que produz uma sociabilidade na qual o ser social cindiu entre o indiv\u00edduo privado na sociedade civil burguesa e o ser coletivo (pol\u00edtico) alienado no Estado como cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideologia, assim como seu componente constitutivo que \u00e9 a mentira, para usar um termo de Althusser, interpela este conte\u00fado e produz um reconhecimento. Mas \u00e9 necess\u00e1rio esclarecer que, do ponto de vista subjetivo, esta materialidade que nos conforma n\u00e3o revela suas determina\u00e7\u00f5es, uma vez que \u00e9 interiorizada na forma abstrata de valores, cargas afetivas e representa\u00e7\u00f5es e que, portanto, podem ser interpeladas por gatilhos distintos que busquem reconhecimento na subst\u00e2ncia abstrata da subjetividade capturada. Dito de forma direta, a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica usa meu medo de ser um joguete do sistema e apresenta, no lugar daquilo que oculta (a sociedade do capital), a figura simb\u00f3lica que deseja que odiemos.<\/p>\n<p>A for\u00e7a e a convic\u00e7\u00e3o daquele que acredita na mentira e se move contra o objeto de \u00f3dio costuma surpreender e penso que esta surpresa se deva ao vi\u00e9s de nosso pensamento racional que acredita que podemos combater a mentira oferecendo argumentos racionais que demonstrem a verdade.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que costumamos desconsiderar que a interpela\u00e7\u00e3o da subjetividade alienada e reificada vem associada \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de impulsos b\u00e1sicos, assim como o recalque e a repress\u00e3o destes impulsos que voltam na forma de sintoma como defendia Freud e mais precisamente Reich. Estamos em uma forma societ\u00e1ria que est\u00e1 em antagonismo com o desejo, n\u00e3o apenas na forma como pensava Freud, segundo a qual toda civiliza\u00e7\u00e3o e cultura s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a repress\u00e3o dos impulsos e desejos, mas da sociedade das mercadorias sob a forma do capital, que resulta em uma sociedade na qual a rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos se apresenta na forma fantasmag\u00f3rica de uma rela\u00e7\u00e3o entre mercadorias (Marx), o que leva a repress\u00e3o do desejo e dos impulsos b\u00e1sicos ao paroxismo.<\/p>\n<p>Assim como analisou Reich ao tratar do nazismo, n\u00e3o podemos compreender a for\u00e7a da ideologia e a ades\u00e3o dos trabalhadores \u00e0 ordem que os oprime se n\u00e3o entendermos que este dom\u00ednio se apropria da repress\u00e3o da sexualidade como forma de domina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os valores ditos conservadores dialogam com o senso comum mobilizando a defesa da fam\u00edlia, a masculinidade e os valores religiosos, invocando os perigos do sexo livre, da homossexualidade e do abandono dos preceitos morais dos bons crist\u00e3os. A energia que se manipula pela mentira n\u00e3o \u00e9 apenas a ordem que se imp\u00f5e e nos controla, mas esta ordem econ\u00f4mica, social, cultural e pol\u00edtica que, internalizada como uma inst\u00e2ncia de nosso psiquismo na forma de um superego, reprime nossos impulsos prim\u00e1rios em nome das normas de uma civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na teoria pol\u00edtica tal fato se expressa no medo hobbesiano da guerra de todos contra todos no qual sucumbiria a propriedade, a vida, a liberdade, o casamento monog\u00e2mico e o respeito \u00e0s pessoas que usam fardas.<\/p>\n<p>A mentira e a manipula\u00e7\u00e3o em sua vertente conservadora e reacion\u00e1ria apresenta ainda uma vantagem. Ao apresentar o inimigo que expressa a subjuga\u00e7\u00e3o abstrata a uma ordem ou sistema abstrato, colocando como alvo deste perigo os valores tradicionais (a fam\u00edlia, a religi\u00e3o, a propriedade, o patriarcalismo, etc), a manipula\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo se anuncia como libertadora (contra o sistema que conspira contra voc\u00ea) e como controle civilizado que mant\u00e9m seus impulsos fundamentais trancados no arm\u00e1rio. Resulta que me sinto liberto e protegido de mim mesmo.<\/p>\n<p>A forma digital desta interpela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por acaso denominada de \u201credes socias\u201d, \u201ccomunidade\u201d ou \u201cgrupos\u201d, permite que a mentira massificada e a interpela\u00e7\u00e3o destas subjetividades se reconhe\u00e7am como senso comum, levando \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 verdade, pois todos n\u00f3s pensamos isso. Freud j\u00e1 percebia este fen\u00f4meno quando da situa\u00e7\u00e3o de grupo. Dizia o pai da psican\u00e1lise:<\/p>\n<p>Os grupos nunca ansiaram pela verdade. Exigem ilus\u00f5es e n\u00e3o podem passar sem elas. Constantemente d\u00e3o ao que irreal preced\u00eancia sobre o real; s\u00e3o quase t\u00e3o intensamente influenciados pelo que \u00e9 falso quanto pelo que \u00e9 verdadeiro. Possuem tend\u00eancia evidente a n\u00e3o distinguir entre as duas coisas\u201d (Freud, 1976, p. 104)<\/p>\n<p>Devemos somar a estas constata\u00e7\u00f5es um aspecto mais geral que as cont\u00e9m e determina. N\u00e3o estamos falando de uma ordem capitalista somente, mas da ordem capitalista no momento mais agudo de sua crise e isto tem um impacto decisivo em nosso tema. Marx e Engels na Ideologia Alem\u00e3 dizem que, no momento da crise, quando as for\u00e7as produtivas avan\u00e7adas acusam sua contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es sociais estabelecidas, \u00e9 natural que as ideias que correspondiam a esta ordem percam sua correspond\u00eancia e se tornem meras f\u00f3rmulas idealizantes ou, nos termos dos autores, uma hipocrisia deliberada.<\/p>\n<p>Quanto mais desmentidas pela vida, seguem os autores, \u201ctanto mais s\u00e3o resolutamente afirmadas, tanto mais hip\u00f3crita, moralista e santa se torna a linguagem normal da sociedade em quest\u00e3o\u201d (Marx e Engels , 2007, p. 284). Para nossa reflex\u00e3o, o que se quer destacar \u00e9 que, no per\u00edodo revolucion\u00e1rio da burguesia, esta classe podia invocar os valores de progresso, emancipa\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, uma vez que apresentava em sua ideologia a emancipa\u00e7\u00e3o burguesa como se fosse a emancipa\u00e7\u00e3o humana, mas, no per\u00edodo de sua crise e decad\u00eancia, na qual sua universalidade abstrata \u00e9 reconduzida \u00e0 sua particularidade med\u00edocre, ela \u00e9 obrigada a abandonar a raz\u00e3o, a sua teleologia hist\u00f3rica e abrigar-se no irracionalismo e na hipocrisia.<\/p>\n<p>\u00c9 natural que neste momento os argumentos, a raz\u00e3o e a ci\u00eancia sejam substitu\u00eddos pelo preconceito, o irracionalismo e a mentira, assumindo a forma expl\u00edcita de uma hipocrisia deliberada, de uma ilus\u00e3o consciente.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s estamos envoltos em nossa \u00e9poca e esta \u00e9 a \u00e9poca da crise da sociedade do capital. No entanto, os trabalhadores e aqueles que querem ter o direito, o privil\u00e9gio e a responsabilidade de represent\u00e1-los devem guiar-se por princ\u00edpios \u00e9ticos que os fa\u00e7am diferenciar da ordem que agoniza e apontar a possibilidade de uma nova ordem que se anuncia. Para n\u00f3s, comunistas, como defendia Gramsci, a verdade \u00e9 revolucion\u00e1ria, pois nos interessa desvelar as determina\u00e7\u00f5es, desmitificar o que a ideologia apresenta como natural e revelar os interesses particulares que se ocultam em pretensas universalidades.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, uma vez constatada a efici\u00eancia da manipula\u00e7\u00e3o, de cair na ilus\u00e3o de que podemos utilizar os mesmos meios para atingir nossos objetivos. Este n\u00e3o \u00e9 apenas um desvio \u00e9tico, mas principalmente um grande equ\u00edvoco pol\u00edtico. A experi\u00eancia hist\u00f3rica tem tristes exemplos de falsifica\u00e7\u00f5es e mentiras como arma na luta interna, com conhecidas e tr\u00e1gicas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Quando a direita mobiliza massas pela mentira, consegue uma ades\u00e3o passiva, movida fundamentalmente por paix\u00f5es e instintos, no lugar da raz\u00e3o. Isto pode levar a engajamentos moment\u00e2neos e uma efic\u00e1cia de a\u00e7\u00e3o contra seus advers\u00e1rios, no entanto refor\u00e7a a aliena\u00e7\u00e3o e a depend\u00eancia a l\u00edderes mistificados que podem fazer com que estas massas sigam, muitas vezes, contra seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Permitam-me um exemplo pessoal. A extrema direita no ano seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es em que fui candidato pelo PCB, retirando do contexto a cita\u00e7\u00e3o de um poema do Brecht, transformou-me em um perigoso comunista que propunha fuzilar todos os crentes e conservadores. Uma vez espalhada nas redes e reproduzida ad nauseam, comecei a receber milhares de mensagens amea\u00e7adoras de pessoas que nunca vi e n\u00e3o me conhecem, mas que tinham convic\u00e7\u00f5es muito fores sobre meu car\u00e1ter e propens\u00e3o ao assassinato.<\/p>\n<p>Ocorreu uma evidente manipula\u00e7\u00e3o do medo gen\u00e9rico em rela\u00e7\u00e3o ao comunismo caricatural, muito longe de todo o fundamento do debate pol\u00edtico e program\u00e1tico que o PCB desempenhara um ano antes. Da mesma forma os ataques (contra mim foi apenas um dos muitos casos similares, recentemente a camarada Sofia Manzano sofreu ataques do mesmo tipo) produzem a coes\u00e3o do campo conservador em torno da lideran\u00e7a mitificada que viria a ganhar as elei\u00e7\u00f5es em 2018.<\/p>\n<p>A extrema direita se utilizou do medo do comunismo para chegar a um governo catastr\u00f3fico e genocida. A pandemia deixou 700 mil mortos, somente em 2021 a pol\u00edcia matou 6.145, pessoas sendo 84% negras e v\u00e1rias pessoas foram assassinadas por bolsonaristas. Eu, at\u00e9 o momento em que escrevo esta coluna, ainda n\u00e3o fuzilei ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Bom, a mentira corre r\u00e1pido, mas a verdade n\u00e3o se cansa.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES. A pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1998.<br \/>\nEAGLETON,T. Ideologia. S\u00e3o Paulo: Boitempo: UNESP, 1997.<br \/>\nFREUD, F, \u201cPsicologia de grupo e a an\u00e1lise do ego [1921]\u201d. Obras psicol\u00f3gicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 18 (1922-1929).<br \/>\nIASI, M. L. A mentira e a p\u00f3s verdade, Blog da Boitempo &#8211; https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/04\/11\/a-mentira-e-a-pos-verdade\/)<br \/>\n______ . O Dilema do dilema das redes. https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/10\/20\/o-dilema-do-dilema-das-redes-a-internet-e-o-opio-do-povo\/<br \/>\nMARX, K. O Capital, livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013,<br \/>\nMARX, k. e Engels, F. A ideologia Alem\u00e3. S\u00e3o paulo: Boitempo, 2007.<br \/>\nMaquiavel, N. O Principe. Bauru, SP: edipro, 2a. edi\u00e7\u00e3o, 2001.<br \/>\nREICH, W. Psicologia de massas do fascismo. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<br \/>\nWEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/30792\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[224],"class_list":["post-30792","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-80E","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30792"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30792\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30794,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30792\/revisions\/30794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}