{"id":3085,"date":"2012-06-27T16:23:26","date_gmt":"2012-06-27T16:23:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3085"},"modified":"2012-06-27T16:23:26","modified_gmt":"2012-06-27T16:23:26","slug":"camarada-herzog-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3085","title":{"rendered":"Camarada Herzog, presente!"},"content":{"rendered":"\n<p>Nesta quarta-feira, 27 de junho, o militante do PCB Valdimir Herzog completaria 75 anos se vivo fosse. Assassinado pela ditadura em 1975, sua morte &#8211; como a do oper\u00e1rio metal\u00fargico Manoel Fiel Filho, tamb\u00e9m militante do PCB &#8211; marcaram profundamente a sociedade brasileira e foram determinantes para levar ao p\u00fablico as torturas e assassinatos que ocorriam nos por\u00f5es da ditadura.<\/p>\n<p>Reproduzimos abaixo mat\u00e9ria escrita em 2005 pelo jornalista Celso Miranda sobre como se deu a morte de Herzog e suas consequ\u00eancias para a vida pol\u00edtica brasileira, al\u00e9m de uma carta divulgada na \u00faltima semana por seu ent\u00e3o colega de trabalho e camarada de Partido, Paulo Markun, endere\u00e7ada a Vladimir.<\/p>\n<p>Vladimir Herzog: Mataram o Vlado<\/p>\n<p>Celso Miranda &#8211; 01\/10\/2005<\/p>\n<p>H\u00e1 30 anos, a morte do jornalista Vladimir Herzog em um quartel do ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo escancarou para o Brasil os por\u00f5es da ditadura militar. Causou a mobiliza\u00e7\u00e3o in\u00e9dita da sociedade contra a tortura, encurralou o governo geisel e acelerou o processo de abertura pol\u00edtica<\/p>\n<p>Vladimir acordou mais cedo que de costume no s\u00e1bado, 25 de outubro de 1975. Fez a barba, tomou banho e se despediu da mulher Clarice, ainda na cama, com um beijo. Ela quis se levantar e preparar o caf\u00e9, ele disse para n\u00e3o se preocupar, que no caminho pararia em um bar e tomaria caf\u00e9 com leite. Vlado chegou ao n\u00famero 1 030 da rua Tom\u00e1s Carvalhal, no bairro do Para\u00edso, em S\u00e3o Paulo, perto das 9h. No pr\u00e9dio de muros altos guardados por sentinelas armados, onde funcionava o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es Internas &#8211; Comando Operacional de Informa\u00e7\u00f5es do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, o DOI-CODI, Vlado entrou pela porta da frente. Disse ao atendente seu nome completo, sua profiss\u00e3o e o n\u00famero de seu RG. Informou que na noite anterior, por volta das 21h30, dois homens que se identificaram como agentes de seguran\u00e7a do Ex\u00e9rcito o tinham procurado na TV Cultura, onde trabalhava, e que, para n\u00e3o ser detido, se comprometera a se apresentar ali no dia seguinte. E assim o fizera. Depois disso se p\u00f4s a esperar, sentado em um dos bancos de madeira que margeavam o largo corredor que levava a uma porta fechada de a\u00e7o e vidro. Minutos depois, quando foi levado para interrogat\u00f3rio, ele permanecia tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>O Brasil de 1975 n\u00e3o parecia ser um lugar em que um jornalista com emprego fixo e endere\u00e7o conhecido, casado e pai de dois filhos, devesse se preocupar com a pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Mas era. Em mar\u00e7o de 1974, o general Ernesto Geisel assumira a presid\u00eancia com a promessa de promover a abertura do regime ditatorial. A palavra usada na \u00e9poca era \u201cdistens\u00e3o\u201d e significava aliviar a censura, investigar den\u00fancias de tortura e aumentar a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil na pol\u00edtica. A ditadura light de Geisel, por\u00e9m, encontrou duas contrariedades. Primeiro a derrota do partido do governo, a Arena, nas elei\u00e7\u00f5es para a C\u00e2mara e o Senado. Em novembro, o oposicionista MDB fizera 16 dos 22 senadores e 160 das 364 cadeiras da C\u00e2mara. Depois, o impacto da crise do petr\u00f3leo, que colocava fim aos anos do milagre, quando a economia brasileira cresceu mais de 5% ao ano.<\/p>\n<p>Nos bastidores da pol\u00edtica dominada pelos quart\u00e9is, esse cen\u00e1rio despertou o medo da chamada linha dura do regime. Gente que via qualquer oposi\u00e7\u00e3o como subvers\u00e3o e que combatia qualquer subvers\u00e3o com viol\u00eancia, tortura e assassinato. Gente que se apoiava no CIE \u2013 Centro de Intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito \u2013 e encontrava nos DOIs espalhados pelo pa\u00eds guarida para atividades ilegais e violentas. Gente que preferia o inferno \u00e0 \u201cdistens\u00e3o\u201d e ao que ela representava. Em menor ou maior grau, essa gente viveu nos por\u00f5es da ditadura e, dependendo da ocasi\u00e3o e do apoio oportunista de pol\u00edticos e militares \u00e0s suas pr\u00e1ticas, teve menor ou maior influ\u00eancia sobre o governo. Foi maior entre 1969 e 1973, depois da publica\u00e7\u00e3o do AI-5, quando o combate ao terrorismo e focos de guerrilha os al\u00e7aram \u00e0 linha de frente do regime. Foi menor em 1974, quando Geisel assumiu. Entre outubro de 1969 e dezembro de 1973, 2 mil pessoas passaram pelo DOI-CODI em S\u00e3o Paulo: 502 reclamaram de tortura e pelo menos 40 foram assassinadas. Em 1974, apenas uma foi presa.<\/p>\n<p>Em 1975, por\u00e9m, a repress\u00e3o estava de volta. \u201cSem terroristas para ca\u00e7ar e com o guerrilha do Araguaia devolvida ao sil\u00eancio da floresta, o Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito avan\u00e7ou contra o Partido Comunista\u201d, diz o jornalista Elio Gaspari, autor de A Ditadura Encurralada. Em 13 de janeiro o CIE invadiu a gr\u00e1fica da Voz Oper\u00e1ria, o jornal do partido, que operava na clandestinidade, num s\u00edtio no Rio de Janeiro. No dia seguinte, Elson Costa, um dos respons\u00e1veis pela gr\u00e1fica e dirigente do PCB, desapareceu. Foi morto numa casa mantida pelo CIE na periferia de S\u00e3o Paulo, segundo testemunho do sargento Marival Chaves Dias do Canto \u00e0 revista Veja, em 1992. Entre janeiro e julho, pelo menos 500 membros do partido foram identificados, 200 foram presos e pelo menos 14 morreram. Em outubro, nova onda de pris\u00f5es: 61 pessoas foram detidas. A inten\u00e7\u00e3o era demonstrar a tese do CIE de que o PCB havia se infiltrado no MDB, na imprensa e at\u00e9 no governo. Essa \u00faltima acusa\u00e7\u00e3o era, inclusive, foco das desaven\u00e7as entre o comandante do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, o general Ednardo D\u2019Avila Mello, e o governador do Estado, Paulo Egydio Martins.<\/p>\n<p>Aos 38 anos, Herzog assumira, em setembro, a diretoria de jornalismo da Cultura, emissora do governo. Era militante comunista, mas n\u00e3o desenvolvia atividade clandestina e sua participa\u00e7\u00e3o se limitava a ir a reuni\u00f5es. Em sua dire\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, conflu\u00edam tr\u00eas crises, todas regadas de \u00f3dio. \u201cUma era o choque da linha dura com Geisel. Outra, a ca\u00e7ada ao PCB. A terceira era o conflito entre o general Ednardo e o governador Paulo Egydio. A pris\u00e3o de Vlado servia a todas\u201d, diz Gaspari.<\/p>\n<p>Tortura e morte<\/p>\n<p>Antes de ser preso, em 17 de outubro, Paulo Markun, tamb\u00e9m jornalista da Cultura, conseguiu mandar um recado aos colegas, indicando quem seriam os pr\u00f3ximos. Anthony de Cristo, George Duque Estrada e Rodolfo Konder foram presos antes de serem alertados. Fernando Morais conseguiu escapar. Vladimir foi avisado, mas n\u00e3o quis fugir.<\/p>\n<p>Depois que entrou no DOI, Vlado trocou de roupa e vestiu o macac\u00e3o dos presos. Ainda pela manh\u00e3, foi acareado com dois presos. Com as cabe\u00e7as cobertas por capuzes de feltro preto, eles n\u00e3o podiam se ver. Mas um deles, Konder, reconheceu o amigo: \u201cEmpurrei a borda do pano e vi o preso que chegava. Eu o reconheci pelos sapatos: eram os mocassins pretos que Vlado usava.\u201d Nessa hora, Vlado negou que pertencesse ao PCB e Konder e o outro preso foram retirados para um corredor, de onde ouviram os gritos de Vlado e a ordem para que fosse trazida a m\u00e1quina de choques el\u00e9tricos. \u201cOs gritos duraram at\u00e9 o fim da manh\u00e3. Os choques eram t\u00e3o violentos que faziam Vlado urrar de dor\u201d, diz Konder. Um r\u00e1dio foi ligado em alto volume para abafar os sons. Meia hora depois, por volta das 11h, Vlado foi para a sala de interrogat\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u201cMais ou menos uma hora depois, me levaram a outra sala onde pude retirar o capuz e ver o Vlado. O interrogador, um homem de uns 35 anos, magro, musculoso, com uma tatuagem de \u00e2ncora no bra\u00e7o, mandou que eu dissesse a ele que n\u00e3o adiantava resistir\u201d, lembra Konder. Vlado estava com o capuz enfiado na cabe\u00e7a, tr\u00eamulo, abatido, nervoso. Sua voz estava por um fio. \u201cFui obrigado a ajud\u00e1-lo a redigir uma confiss\u00e3o que dizia que ele tinha sido aliciado por mim para entrar no PCB e listava outras pessoas que integrariam o partido.\u201d Konder foi levado e os gritos recome\u00e7aram. Essa foi a \u00faltima vez que Vlado foi visto e ouvido. \u201cNo meio da tarde, fez-se sil\u00eancio na carceragem\u201d, diz George Duque Estrada que tamb\u00e9m estava preso no DOI, em relato no livro Dossi\u00ea Herzog \u2013 Pris\u00e3o, Tortura e Morte, de Fernando Pacheco Jord\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s 22h08 a Ag\u00eancia Central do SNI, em Bras\u00edlia, recebeu uma mensagem: \u201cInfo que hoje, dia 25 out, cerca de 15 hs, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se no DOI\/CODI\/II Ex\u00e9rcito\u201d. Seria o 38\u00ba suicida, o 18\u00ba a se enforcar e, de acordo com o Laudo de Encontro de Cad\u00e1ver, emitido pela Pol\u00edcia T\u00e9cnica de S\u00e3o Paulo, teria feito isso com uma tira de pano. Herzog teria se amarrado pelo pesco\u00e7o numa grade a 1,63 metro do ch\u00e3o. Sem espa\u00e7o para que seu corpo pendesse, teria ficado com os p\u00e9s no ch\u00e3o e as pernas curvadas, como mostrava a foto anexada ao laudo. Segundo comunicado do comandante do DOI, a tira de pano era a \u201ccinta do macac\u00e3o que o preso usava\u201d. Os macac\u00f5es do DOI n\u00e3o tinham cinto. \u201cSuic\u00eddios desse tipo s\u00e3o poss\u00edveis, por\u00e9m raros. No por\u00e3o da ditadura, tornaram-se comuns, maioria at\u00e9. O \u00faltimo, em S\u00e3o Paulo, acontecera cerca de um m\u00eas antes, na mesma cela. Dos 17 casos anteriores de suic\u00eddio por enforcamento, oito n\u00e3o tiveram v\u00e3o livre. Em dois, os presos teriam morrido sentados\u201d, diz Gaspari.<\/p>\n<p>O morto fala<\/p>\n<p>Sem not\u00edcias do marido desde a manh\u00e3, Clarice estava preocupada. Por volta das 23h bateu \u00e0 sua porta um grupo de diretores e funcion\u00e1rios da Cultura. Entraram calados, sentaram-se na sala e disseram-lhe que as coisas se complicaram. \u201cMataram o Vlado!\u201d, ela teria dito, segundo seu relato no livro Vlado, de Paulo Markun. \u201cEles me falaram que Vlado estava morto e que fora suic\u00eddio. Senti \u00f3dio. E uma grande impot\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEles mataram o Vlado\u201d, disse o amigo e jornalista Fernando Pacheco Jord\u00e3o, autor de Dossi\u00ea Herzog, em telefonema para Aud\u00e1lio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas. Era quase 1 da manh\u00e3 e Jord\u00e3o ainda daria muitos telefonemas na madrugada. \u201cMataram o Vlado\u201d, repetiu a dom Paulo Evaristo Arns. \u201cN\u00e3o sei se j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 hora de um protesto mais forte. Quem sabe sair pelas ruas\u201d, respondeu o cardeal.<\/p>\n<p>O jornalista Mino Carta, na \u00e9poca diretor da revista Veja, foi um dos primeiros a chegar \u00e0 casa dos Herzog. Ele vinha de Santos, onde estivera justamente para pedir a ajuda do secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do Estado, Erasmo Dias, no caso das pris\u00f5es dos colegas. Segundo depoimento a Paulo Markun, no livro Vlado, Mino ligou para o coronel Golbery do Couto e Silva, ministro da Casa Civil. \u201cV\u00e1 ao Paulo Egydio\u201d, teria dito o \u201cfeiticeiro\u201d, como era conhecido por sua intimidade quase m\u00e1gica com o poder. Golbery lhe disse, ainda, que aquilo, a morte de Vlado, era uma tentativa de golpe contra Geisel. Mino seguiu o conselho e procurou o governador Paulo Egydio, no Pal\u00e1cio dos Bandeirantes. Quando saiu, o governador chorava.<\/p>\n<p>Desde a morte do ex-deputado Rubens Paiva, num quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito no Rio, em 1971, era a primeira vez que morria no por\u00e3o da ditadura algu\u00e9m da elite, com vida profissional legal e atividade pol\u00edtica praticamente nula. \u201cHoras depois da morte de Herzog come\u00e7ou um daqueles processos em que rea\u00e7\u00f5es individuais e desarticuladas desembocam em comportamentos que, sem coordena\u00e7\u00e3o ou planejamento, constroem os fatos hist\u00f3ricos\u201d, diz Gaspari.<\/p>\n<p>Mas o DOI tinha sua pr\u00f3pria estrat\u00e9gia para lidar com o assunto. O corpo de Herzog foi entregue \u00e0 Pol\u00edcia T\u00e9cnica e levado ao Instituto M\u00e9dico Legal, onde chegou sem a roupa com que fora fotografado, mas com os pr\u00f3prios trajes. O laudo do exame de corpo de delito, assinado pelos m\u00e9dicos Harry Shibata e Arildo de Toledo Viana, do IML, concluiu: \u201cquadro m\u00e9dico legal cl\u00e1ssico de asfixia mec\u00e2nica por enforcamento\u201d. Ainda na noite de s\u00e1bado, o corpo foi enviado ao Hospital Albert Einstein. Estava tudo pronto para mais um sepultamento t\u00edpico de mortes ocorridas nas depend\u00eancias das For\u00e7as Armadas, durante a ditadura: r\u00e1pidos e discretos.<\/p>\n<p>Clarice n\u00e3o quis assim. Para que houvesse vel\u00f3rio, ela marcou o enterro para a segunda. No domingo, cerca de 600 pessoas foram \u00e0 cerim\u00f4nia, entre eles o cardeal Arns e o senador Franco Montoro. \u201cEra a primeira vez que um arcebispo e um senador da Rep\u00fablica velavam um morto do regime\u201d, diz Gaspari. \u201cFormou-se uma grande frente e, na segunda, todos estavam mobilizados pela morte de Herzog.\u201d<\/p>\n<p>No cemit\u00e9rio israelita do Butant\u00e3, os respons\u00e1veis pelo funeral apressaram tanto a cerim\u00f4nia que dona Zora, m\u00e3e de Vlado, n\u00e3o chegou a tempo de se despedir do filho, viu apenas quando jogavam terra por cima do caix\u00e3o. Quatro jornalistas que estavam presos no DOI-CODI foram levados at\u00e9 o local. Konder foi um deles: \u201cN\u00e3o deixaram a gente se trocar, me levaram com roupas sujas de urina, sangue e fezes. Foi assim que assisti ao enterro de meu amigo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSenhor Deus dos Desgra\u00e7ados, \/ Dizei-me V\u00f3s, Senhor Deus \/ Se \u00e9 mentira, se \u00e9 verdade, \/ Tanto horror perante os c\u00e9us.\u201d Depois de ler o trecho de Navio Negreiro, de Castro Alves, Aud\u00e1lio Dantas fez correr entre os presentes outro verso: \u201cReuni\u00e3o no sindicato\u201d.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u201cSe a tigrada quisera desmantelar o PCB, j\u00e1 o conseguira. Se queria outra coisa, era outra coisa que queria\u201d, afirma Elio Gaspari. Pelo menos uma pessoa achou, assim que Vlado morreu, que era \u201coutra coisa\u201d: o presidente Geisel.<\/p>\n<p>Ele s\u00f3 soube da morte de Herzog no domingo. Na segunda, em visita ao Rio, n\u00e3o tratou do assunto e parecia ter assimilado o golpe. Mas a linha dura queria mais. Na manh\u00e3 de quarta, dia 29, o general Sylvio Frota, ministro do Ex\u00e9rcito, ligou para o ministro da Justi\u00e7a, Armando Falc\u00e3o. Falc\u00e3o relata o telefonema em seu livro Tudo a Declarar. \u201cO senador do Paran\u00e1, Leite Chaves, disse no Congresso que o suic\u00eddio do jornalista Vladimir Herzog n\u00e3o passa de \u2018um crime ignominioso\u2019. Estou reunido com o Alto-Comando e ningu\u00e9m aceita o insulto. Queremos uma repara\u00e7\u00e3o imediata.\u201d Era a \u201coutra coisa que queriam\u201d. Queriam atacar o Congresso, provocar cassa\u00e7\u00f5es e, por tabela, jogar areia no projeto de distens\u00e3o de Geisel.<\/p>\n<p>Nas ruas de S\u00e3o Paulo, o clima era outro. Ainda na segunda-feira, cerca de 30 mil estudantes da USP, PUC e Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas entraram em greve. A garotada queria marchar pela cidade, mas aguardava a reuni\u00e3o com os jornalistas. Juntos, aprovaram a realiza\u00e7\u00e3o de um ato religioso pela mem\u00f3ria de Vlado na sexta, dia 31. O cardeal Arns tomou a iniciativa: ofereceu a catedral da S\u00e9 e disse que estaria l\u00e1.<\/p>\n<p>Na quarta-feira, Geisel mandou chamar Frota. H\u00e1 duas vers\u00f5es parecidas para a conversa dos dois generais. Uma narrada pelo presidente ao seu secret\u00e1rio Heitor Ferreira e relatada por Gaspari em A Ditadura Encurralada.\u201cVoc\u00eas escolham l\u00e1 um presidente e venham me substituir\u201d, teria dito. A outra foi narrada por Frota a Falc\u00e3o e reproduzida em Tudo a Declarar: \u201cO presidente me disse que se quisessem insistir no caso tratassem de ir arranjando outro para colocar em seu lugar\u201d. A amea\u00e7a encostou Frota na parede. O ministro recuou.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da semana, os dois lados temeram que o outro reagisse e fosse para a rua. Em Bras\u00edlia temia-se que os universit\u00e1rios promovessem passeatas. Em S\u00e3o Paulo, o medo era de que o regime proibisse a manifesta\u00e7\u00e3o. Geisel foi a S\u00e3o Paulo na quinta e se hospedou no Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, onde se reuniu com os chefes militares do Estado. Para come\u00e7o de conversa, perguntou ao general Ednardo sobre o Inqu\u00e9rito Policial Militar a respeito da morte de Herzog. N\u00e3o fora instalado, porque o ministro Frota determinara que n\u00e3o fosse. Pois seria. Embora n\u00e3o se destinasse a apurar as causas da morte de Vlado, mas \u201cas circunst\u00e2ncias em que ocorreu o suic\u00eddio do jornalista\u201d, a instaura\u00e7\u00e3o do IPM j\u00e1 era uma derrota para Ednardo, Frota e a turma do por\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 noite, o governador promoveu uma festa em homenagem a Geisel. Entre os 1500 convidados estava a bancada oposicionista, at\u00e9 o deputado Alberto Goldman, l\u00edder do partido na Assembl\u00e9ia e militante do PCB\u201d, diz Gaspari. Goldman relata a r\u00e1pida conversa que teve com o presidente em seu livro Caminhos de Luta. \u201cPresidente, o MDB est\u00e1 apreensivo com o que vem acontecendo em S\u00e3o Paulo, quanto ao respeito dos direitos humanos\u201d, disse o deputado. \u201cN\u00e3o pensem que eu n\u00e3o entendo o significado de suas presen\u00e7as aqui, neste momento\u201d, respondeu o general.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o povo estava na rua e fazia a primeira manifesta\u00e7\u00e3o contra a ditadura ap\u00f3s o AI-5. Um pouco antes da hora do culto, dois secret\u00e1rios do governador ainda procuraram o arcebispo de S\u00e3o Paulo e lhe pediram para cancelar o evento. \u201cFui informado que existiriam mais de 500 policiais na pra\u00e7a com ordem de atirar ao primeiro grito. Se houvesse protestos, eles metralhariam a popula\u00e7\u00e3o\u201d, lembra dom Paulo. A estrat\u00e9gia dos manifestantes era chegar \u00e0 pra\u00e7a em pequenos grupos, evitando aglomera\u00e7\u00f5es. Cerca de 8 mil pessoas se espalharam pelas escadarias da S\u00e9. As que conseguiram entrar viram o cardeal, o rabino Henry Sobel e mais 20 sacerdotes, entre eles dom Helder C\u00e2mara, arcebispo de Olinda e Recife. \u201cNingu\u00e9m toca impunemente no homem, que nasceu do cora\u00e7\u00e3o de Deus para ser fonte de amor\u201d, disse dom Paulo. \u201cNas minhas dores, \u00f3 Senhor, fica ao meu lado\u201d, respondeu a audi\u00eancia.<\/p>\n<p>Para Elio Gaspari, naquela tarde de 31 de outubro de 1975, a oposi\u00e7\u00e3o brasileira passou a encarnar a ordem e a dec\u00eancia. \u201cA ditadura, com sua \u2018tigrada\u2019 e seu aparato policial, revelara-se um anacronismo que procurava na anarquia um pretexto para a pr\u00f3pria reafirma\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Veias abertas &#8211; Exuma\u00e7\u00e3o refuta falsa vers\u00e3o de suic\u00eddio<\/p>\n<p>Por Marina Della Valle<\/p>\n<p>Durante mais de 30 anos, os restos mortais da psic\u00f3loga Iara Iavelberg (na foto) ficaram na ala dos sepultados \u201ccom desonras\u201d do Cemit\u00e9rio Israelita de S\u00e3o Paulo. O motivo foi que o laudo oficial n\u00e3o era claro sobre a causa de sua morte. O legista anotou: \u201cSuic\u00eddio?\u201d \u2013 assim mesmo, com ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Segundo a vers\u00e3o dos militares da Opera\u00e7\u00e3o Pajussara (que perseguia Iara e seu companheiro, Carlos Lamarca), ela teria se suicidado com um tiro no peito em Salvador, em 1971, ao se ver cercada pelos agentes do governo. \u201cNo juda\u00edsmo, o suic\u00eddio \u00e9 um crime t\u00e3o grave quanto o assassinato\u201d, diz o rabino Henry Sobel. Na \u00e9poca, a fam\u00edlia de Iara n\u00e3o teve acesso ao corpo, que foi enterrado num caix\u00e3o lacrado. Em 2003, ap\u00f3s anos de brigas na Justi\u00e7a contra o cemit\u00e9rio, a fam\u00edlia conseguiu encaminhar os restos mortais para a exuma\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise do legista Daniel Mu\u00f1oz, da USP, mostrou que a dist\u00e2ncia do disparo que matou Iara era incompat\u00edvel com um ato suicida. O jornalista Samuel Iavelberg, irm\u00e3o da v\u00edtima, falou sobre o resultado. O que a exuma\u00e7\u00e3o significou para a fam\u00edlia?<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria foi saber a verdade tantos anos depois. \u00c9 o primeiro ind\u00edcio concreto sobre a maneira como ela morreu. O importante \u00e9 que a tiramos da \u00e1rea de suicidas. Para l\u00e1 ela n\u00e3o volta. O que ser\u00e1 feito com o corpo? Gostar\u00edamos que ela fosse colocada ao lado de meus pais, como eles pediram, mas, se n\u00e3o houver lugar, ela pode ser enterrada por perto, em terra consagrada. A entidade que dirige o cemit\u00e9rio alega motivos religiosos, mas na verdade n\u00e3o quer que um crime militar seja esclarecido.<\/p>\n<p>A gota d\u2019\u00e1gua &#8211; A morte de Manoel Fiel Filhoteve impacto in\u00e9dito: custou acabe\u00e7a de um general<\/p>\n<p>Erasmo Dias, coronel reformado do Ex\u00e9rcito, viu coisas muito sujas durante a ditadura \u2013 e fala delas com uma m\u00f3rbida naturalidade. Em janeiro de 1976, quando era secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo, teve que ir verificar mais uma morte ocorrida nas celas do DOI-CODI. \u201cFui l\u00e1 e levei o Rodrigues comigo. Combinei com ele que \u00edamos ver se era mesmo suic\u00eddio. Ele me diria, em uma escala de 1 a 100, se era poss\u00edvel\u201d, relembra Dias, referindo-se ao legista Armando Canges Rodrigues. O m\u00e9dico logo afirmou que a chance de que aquele homem tivesse tirado a pr\u00f3pria vida era de apenas 0,1 em 100. \u201cBem, a\u00ed fizemos a aut\u00f3psia, porque 0,1 era uma chance e precis\u00e1vamos verificar. E deu suic\u00eddio. Foi assim: ele enrolou tr\u00eas len\u00e7os, fez um n\u00f3, e apertou no pesco\u00e7o at\u00e9 morrer\u201d, afirma o militar. O laudo oficial sobre a morte do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho (na foto), por\u00e9m, n\u00e3o corresponde ao relato de Dias \u2013 na melhor das hip\u00f3teses, por falha na mem\u00f3ria do velho ex-secret\u00e1rio. Segundo a vers\u00e3o divulgada, o metal\u00fargico de 49 anos, pai de duas crian\u00e7as, teria se enforcado com um par de meias de n\u00e1ilon azuis. Na manh\u00e3 do dia 16 de janeiro, uma sexta-feira, Fiel Filho foi retirado da Metal Arte, onde era chefe de setor de prensas met\u00e1licas, e conduzido por agentes armados para sua casa. Eles buscavam exemplares do jornal comunista Voz Oper\u00e1ria, do qual o metal\u00fargico era acusado de ser distribuidor. N\u00e3o acharam nada e o levaram para o DOI-CODI, sob os protestos da esposa Teresa \u2013 a quem foi dito, segundo Carlos Alberto Luppi, autor de Manoel Fiel Filho \u2013 Quem Vai Pagar por este Crime?, que seu marido retornaria em breve. Ele foi levado de volta no s\u00e1bado. Morto. A trag\u00e9dia teria um grande impacto nos bastidores da ditadura. Enforcar algu\u00e9m no mesmo lugar em que, 84 dias antes, haviam matado Herzog soava como uma grande provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade do presidente. No domingo \u00e0 noite, quando soube do \u201csuic\u00eddio\u201d pelo governador paulista Paulo Egydio Martins, Geisel n\u00e3o conseguiu dormir. Na segunda-feira, o comandante do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, Ednardo D\u2019Avila Mello, respons\u00e1vel pelo DOI-CODI, recebeu um telefonema durante uma reuni\u00e3o com seus generais subalternos. Levantou-se, saiu da sala e foi atender. Ao voltar, conforme relata Elio Gaspari em A Ditadura Encurralada, disse: \u201cFui exonerado\u201d. Era a primeira vez em toda a hist\u00f3ria brasileira que um general era destitu\u00eddo de seu cargo. Quando D\u2019Avila Mello tentou voltar a presidir a reuni\u00e3o, foi interrompido por Ariel Pacca da Fonseca. O comandante da 2\u00aa Regi\u00e3o Militar era seu sucessor imediato e n\u00e3o perdeu tempo em assumir a nova fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Meu querido Vlado<\/p>\n<p>16 de junho de 2012<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima quarta-feira, amigo, voc\u00ea far\u00e1 75 anos. Por raz\u00f5es alheias \u00e0 nossa vontade, n\u00e3o vou poder lhe dar os parab\u00e9ns pessoalmente e assim, aproveito para fazer isso aqui \u2013 e contar algumas coisas que aconteceram desde a \u00faltima vez que nos vimos, numa sexta-feira, 19 de outubro de 1975 \u2013 sim, h\u00e1 37 anos!<\/p>\n<p>Voc\u00ea certamente n\u00e3o ficou sabendo, mas no s\u00e1bado seguinte, 25 de outubro, um carcereiro chegou diante da grade e chamou meu nome. Eu estava com pelo menos uma d\u00fazia de presos na \u00faltima cela de um corredor do Doi-Codi em S\u00e3o Paulo, o centro de tortura do regime militar. Todos vestidos com macac\u00f5es verdes do ex\u00e9rcito, sem cinto e no meu caso, sem bot\u00f5es tamb\u00e9m. O fulano abriu a cela, colocou o capuz preto sobre a minha cabe\u00e7a e come\u00e7ou a me guiar como um cego. Imaginei que pudesse ser uma acarea\u00e7\u00e3o com outro preso, mais um interrogat\u00f3rio, nova sess\u00e3o de tortura, quem sabe uma excurs\u00e3o pelas ruas da cidade em busca de outro companheiro. J\u00e1 passara por tudo isso e por muito mais \u2013 at\u00e9 mesmo a ins\u00f3lita sa\u00edda para batizar Ana, a minha filha (virou atriz), acompanhado por uma equipe com as armas enfiadas em duas sacolas de lona preta. Mas quando o sujeito tirou meu capuz, havia diante de mim uma carteira de f\u00f3rmica, dessas de escola, com uma esp\u00e9cie de prancheta do lado direito. Sobre ela, uma pilha de papel alma\u00e7o e uma caneta. Antes de me deixar ali, recebi uma ordem curta e grossa:<\/p>\n<p>&#8211; Escreva tudo o que voc\u00ea sabe sobre Vladimir Herzog.<\/p>\n<p>Embora j\u00e1 ganhasse a vida escrevendo h\u00e1 quatro anos, foi meu texto mais dif\u00edcil. \u00a0Quase trinta anos mais tarde, encontrei as folhas amareladas no Arquivo do Estado, quando buscava as informa\u00e7\u00f5es para contar nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Lembro que nos conhecemos na reda\u00e7\u00e3o da Folha de S\u00e3o Paulo, em mar\u00e7o de 1975, provavelmente. Voc\u00ea assumira a chefia da sucursal do Opini\u00e3o e queria que eu fosse um dos colaboradores. O jornalzinho era o sonho de consumo, se \u00e9 que a met\u00e1fora se aplica, para os jornalistas que viam a profiss\u00e3o como uma trincheira de luta pela democracia. N\u00e3o conseguia noticiar quase nada, barrado pela censura, mas se dispunha a fazer o que muito jornal\u00e3o evitava.<\/p>\n<p>Escrevi umas mat\u00e9rias \u2013 um punhado passou pela censura \u2013 e substitu\u00ed voc\u00ea na dire\u00e7\u00e3o da sucursal, durante uma viagem aos Estados Unidos. Na volta, emprestei uma casinha de praia pra voc\u00ea escrever o roteiro do Doramundo, aquele filme que voc\u00ea queria fazer e o Jo\u00e3o Batista de Andrade realizou e ficamos amigos. Mas, caramba, voc\u00ea nunca me contou sua hist\u00f3ria. Nem deu tempo. Fiquei sabendo em 1985, quando escrevi meu primeiro livro sobre sua hist\u00f3ria e descobri sua inf\u00e2ncia como refugiado judeu na It\u00e1lia, vivendo sob nome falso, seu pai fingindo ser mudo para esconder o sotaque iugoslavo, o resto da fam\u00edlia indo parar num campo de concentra\u00e7\u00e3o. Aos oito anos, quando os Herzog chegaram a S\u00e3o Paulo e foram morar na Mooca, o Brasil vivia a abertura democr\u00e1tica. Eu tinha seis anos quando voc\u00ea se preparava para o vestibular e fez um teste no jornal O Estado de S. Paulo. Come\u00e7ou a estudar filosofia, mas j\u00e1 tinha mergulhado no jornalismo. Integrou a equipe pioneira que implantou a sucursal de Bras\u00edlia. No final de 1962, conheceu Clarice, com quem se casou pouco antes do golpe de 1964. Em 65, com uma bolsa de estudos, voc\u00ea foi trabalhar na BBC e Clarice o seguiu seis meses depois.<\/p>\n<p>Em setembro de 1975, voc\u00ea se tornou diretor de jornalismo da TV Cultura e teve a coragem de me transformar em chefe de reportagem (eu tinha 23 anos, lembra?). Bom, o resto da hist\u00f3ria, a gente conhece: fomos alvejados por uma campanha destinada a abater o governador Paulo Egydio Martins e, por tabela, o general Ernesto Geisel, que era presidente. Campanha facilitada pela repress\u00e3o ao Partido Comunista, onde n\u00f3s dois milit\u00e1vamos, em posi\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias e acreditando que era um caminho para reconquistar a democracia e construir um Brasil socialista e livre.<\/p>\n<p>Naquele s\u00e1bado, 25 de outubro, os militares do Doi-Codi reuniram os jornalistas que estavam presos e nos disseram que voc\u00ea tinha se suicidado e que era agente da KGB! Ningu\u00e9m aceitou a ideia e para provar que choque n\u00e3o mata ningu\u00e9m, me fizeram acionar a m\u00e1quina chamada pimentinha com um torturador segurando os fios. No dia seguinte, fomos soltos temporariamente para ir ao seu enterro. \u00a0Tinha muita gente, todos chocados.<\/p>\n<p>Voltamos ao Doi-Codi e dali para o DOPS, onde ouvimos os policiais treinando tiro para reprimir o culto ecum\u00eanico que aconteceu na catedral da S\u00e9. Primeira grande manifesta\u00e7\u00e3o contra a tortura, resultado da a\u00e7\u00e3o de dom Paulo Arns, do rabino Henry Sobbel e do reverendo James Wright, com respaldo do Sindicato dos Jornalistas, de estudantes e pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois disso, amigo, muita coisa aconteceu. Um inqu\u00e9rito armado pelo governo e manipulado concluiu que voc\u00ea se matara, apesar de todas os depoimentos em contr\u00e1rio. O general Geisel demitiu o comandante do II Ex\u00e9rcito quando outro comunista desimportante, o oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho foi \u201csuicidado\u201d no Doi-Codi. O problema do presidente era a desobedi\u00eancia, n\u00e3o a tortura.<\/p>\n<p>Clarice entrou com uma a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a e provou que o Estado era respons\u00e1vel pela sua morte. N\u00e3o pediu indeniza\u00e7\u00e3o, s\u00f3 justi\u00e7a. Houve a anistia, os exilados voltaram e com eles, as elei\u00e7\u00f5es diretas para governador \u2013 a oposi\u00e7\u00e3o ganhou em dez estados. A campanha das diretas parou o pa\u00eds e se n\u00e3o acabou com o col\u00e9gio eleitoral, garantiu a elei\u00e7\u00e3o indireta do Tancredo Neves, que morreu antes da posse. Jos\u00e9 Sarney virou presidente, fez a Constituinte e em 1989, elegemos um certo Fernando Collor, de que voc\u00ea nunca ouviu falar. Acabou saindo pelo impeachment.<\/p>\n<p>Fernando Henrique, que era do conselho editorial do Opini\u00e3o virou presidente, foi reeleito e passou a faixa para o Lula (lembra?) que tamb\u00e9m governou oito anos e foi sucedido por uma ex-guerrilheira, Dilma Roussef, que afinal criou a Comiss\u00e3o da Verdade para apurar casos como o seu e tantos outros menos conhecidos.<\/p>\n<p>Seu filho Ivo criou o Instituto Vladimir Herzog, para valorizar a liberdade de imprensa e os direitos humanos. Est\u00e1 fazendo um belo trabalho de resgate da hist\u00f3ria dos jornais alternativos e uma programa\u00e7\u00e3o de festa pelos seus 75 anos. Quando lembro dele e do Andr\u00e9 garotinhos, me sinto meio velho. Andr\u00e9 trabalha em Washington no Banco Mundial com pol\u00edticas p\u00fablicas para \u00c1sia e \u00c1frica. Clarice vai muito bem, obrigado.<\/p>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m vai bem. N\u00e3o tanto quanto sonhamos, mas muito melhor do que no tempo em que convivemos. A democracia tem seu valor, apesar (ou por causa) das den\u00fancias e das CPIs, que n\u00e3o existiam na ditadura. Ah, vivo parte do tempo em Florian\u00f3polis. Escrevi uns livros, fiz uns document\u00e1rios e fui presidente da TV Cultura. Mas um dia conto como foi essa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os, saudades e parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>Markun<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3085\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-3085","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-NL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3085","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3085"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3085\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3085"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3085"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3085"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}