{"id":3105,"date":"2012-06-30T00:44:51","date_gmt":"2012-06-30T00:44:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3105"},"modified":"2012-06-30T00:44:51","modified_gmt":"2012-06-30T00:44:51","slug":"a-greve-e-a-democracia-virtual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3105","title":{"rendered":"A greve e a democracia virtual"},"content":{"rendered":"\n<p>No contexto da greve nacional dos professores tem se manifestado um debate no m\u00ednimo curioso. Um certo sindicalismo que \u00e9 a reapresenta\u00e7\u00e3o grotesca do velho sindicato ministerialista da \u00e9poca de Get\u00falio Vargas, tem apresentado o argumento que a greve n\u00e3o \u00e9 um instrumento leg\u00edtimo de luta e que as assembleias que est\u00e3o na base de sua deflagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o \u201crepresentativas\u201d, colocando como alternativa a consulta eletr\u00f4nica e os plebiscitos.<\/p>\n<p>Tal argumento ignora, oportunamente, o fato de que esta greve tem uma din\u00e2mica pr\u00f3pria e, em v\u00e1rios aspectos, distinta das outras experi\u00eancias grevistas vivenciadas pelos professores federais e que foram respons\u00e1veis por in\u00fameras conquistas e importantes resist\u00eancias. J\u00e1 come\u00e7ou bastante forte em 33 universidades e rapidamente ganhou a ades\u00e3o de mais de cinquenta universidades e institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>Sua principal raz\u00e3o de ser pode ser encontrada nas trapalhadas do governo na condu\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es entorno da carreira docente, mas fundamentalmente nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho que resultaram da proposta de expans\u00e3o materializada no REUNI. Nossa \u00faltima grande greve foi em 2001 e ningu\u00e9m pode acusar, portanto, o ANDES-SN de n\u00e3o estar dispostos ao di\u00e1logo, como demonstra a boa vontade de nossa entidade durante todo o ano de 2011 na verdadeira com\u00e9dia de erros que o Minist\u00e9rio do Planejamento protagonizou.<\/p>\n<p>Diante do fato inquestion\u00e1vel da greve e de seus motivos, vendo as universidades aderirem ao movimento mesmo naquelas unidades onde esse sindicalismo neo-conservador tentou por todos os meios impedi-lo, esses senhores lan\u00e7am m\u00e3o de um argumento que busca deslegitimar o movimento, ou seja, ele seria resultado da a\u00e7\u00e3o de uma minoria (no caso da UFRJ, um dos dirigentes do sindicalismo ministerialista n\u00e3o hesita em classificar os dirigentes e grevistas como uma \u201cmilit\u00e2ncia paga\u201d) que em assembleias pouco representativas imporiam a greve \u00e0 uma maioria que seria contra.<\/p>\n<p>Pierre Bourdieu afirmou certa vez que o que h\u00e1 de espec\u00edfico no campo da pol\u00edtica \u00e9 a disputa pelo sil\u00eancio dos \u201cprofanos\u201d, desta forma esses senhores se consideram os porta-vozes daqueles que em sil\u00eancio e aus\u00eancia est\u00e3o contra a greve, mas n\u00e3o dizem, enquanto os grevistas seriam aqueles que reivindicam este sil\u00eancio como concord\u00e2ncia. O problema, portanto, passa a ser como averiguar estas suposi\u00e7\u00f5es. Enquanto o movimento docente, como base em uma experi\u00eancia constru\u00edda em mais de trinta anos de resist\u00eancia, luta e milit\u00e2ncia, procura realizar isso atrav\u00e9s de reuni\u00f5es de unidade, semin\u00e1rios, materiais impressos e digitais, que levem ao conjunto dos professores os elementos para que estes possam formar suas convic\u00e7\u00f5es para que em assembleias enfrentem as alternativas e decidam pelos caminhos que devem trilhar; nossos senhores do sindicalismo oficialista insistem que o mais democr\u00e1tico seria uma consulta eletr\u00f4nica na qual os professores deveriam dizer sim ou n\u00e3o \u00e0 greve.<\/p>\n<p>Parece-me que h\u00e1 aqui um importante tema a tratar. Com o fim do ciclo da autocracia burguesa o debate centrava-se entre uma mera democracia representativa e uma democracia participativa de forma que question\u00e1vamos o fato que a mera manifesta\u00e7\u00e3o da vontade pelo voto e a elei\u00e7\u00e3o de representantes seria suficiente para se tornar o canal de express\u00e3o da vontade e dos interesses dos trabalhadores e da maioria da popula\u00e7\u00e3o em luta contra as demandas da ordem e dos poderosos interesses de classe que ela manifestava.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio a defesa da democracia direta ou participativa procurava os canais que fosse adequados \u00e0 din\u00e2mica da luta de classes naquele momento colocada e insist\u00edamos nas assembleias, nos comit\u00eas, nos conselhos, na luta direta como nas greves, nas manifesta\u00e7\u00f5es, nos atos p\u00fablicos e na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que fosse constru\u00edda com base nesse princ\u00edpio, ou seja, dos n\u00facleos de base e nas formas de controle das bases sobre suas dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o a tudo isso o argumento da ordem era o do respeito \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, aos sindicatos oficiais e atrelados, ao Governo e ao Congresso, ainda que esses encoura\u00e7ados de legalidade jur\u00eddica carecessem de legitimidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Interessantemente, a ordem que derivou deste ciclo e que levou o PT ao governo, tem transformado esses instrumentos de democracia participativa (o exemplo mais contundente s\u00e3o os conselhos) em instrumentos de apassivamento. O chamado \u201ccontrole social\u201d entendido no contexto das lutas populares como forma da popula\u00e7\u00e3o controlar a elabora\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, como no caso do movimento sanitarista, se transforma em \u201ccontrole social\u201d restritamente concebido como controle exatamente do movimento para que n\u00e3o prejudique a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas privatizantes e mercantilizantes dos servi\u00e7os essenciais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, transporte e outros.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre \u201cdemocracia\u201d e \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d, isto \u00e9, o paradoxo pelo qual uma forma pol\u00edtica que almeja ser da maioria ter que disciplinar a participa\u00e7\u00e3o para que a maioria de fato n\u00e3o governe, leva a retorno dos instrumentos cada vez mais t\u00edpicos da \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o direta. Isso no contexto pol\u00edtico geral se materializa no fetiche do voto que como dizia o pr\u00f3prio Rousseau \u00e9 o ato pelo qual um povo que se ilude que \u00e9 soberano transfere a soberania aos que de fato Ir\u00e3o det\u00ea-la e govern\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Mas, o fetiche do voto vai al\u00e9m. Uma rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos se transforma numa fantasmag\u00f3rica rela\u00e7\u00e3o entre coisas, dizia Marx, quando a rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos mediada por coisas eleva esta media\u00e7\u00e3o ao papel de protagonista. Assim como na rela\u00e7\u00e3o mercantil, esvaziasse o valor de uso, aquele conte\u00fado que est\u00e1 relacionado a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas, revelasse como fundamental o valor de troca como express\u00e3o do valor, do trabalho abstrato.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o s\u00e3o mais as demandas reais, os interesses de classe e suas contradi\u00e7\u00f5es essenciais com a produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social da vida que est\u00e3o em jogo, mas voto em si mesmo, o momento da decis\u00e3o por este ou aquele representante ou essa ou aquela decis\u00e3o. Desta forma a pol\u00edtica pode prescindir daquele tormentoso e dif\u00edcil momento do debate e ir direto ao que interessa: o voto.<\/p>\n<p>A media\u00e7\u00e3o dos meios eletr\u00f4nicos s\u00f3 aprofunda o fetichismo, assim como o dinheiro na forma mercadoria. Da mesma forma que o dinheiro nas rela\u00e7\u00f5es de valor permite que trabalhos concretos distantes se confrontem nas rela\u00e7\u00f5es de troca como iguais, soterrando suas diferen\u00e7as concretas sob a objetividade impalp\u00e1vel do valor, o voto soterra o conte\u00fado qualitativo das diferen\u00e7as e antagonismos, no ato em si do ato de votar. Voc\u00ea, indiv\u00edduo encapsulado com suas convic\u00e7\u00f5es que lhe parecem pessoais mas s\u00e3o de fato a express\u00e3o do senso comum constru\u00eddo por uma certa ordem societ\u00e1ria que lhe \u00e9 imposta, se ilude de decidir porque aperta o bot\u00e3o ao mesmo tempo que muitos outros.<\/p>\n<p>No pavilh\u00e3o constru\u00eddo por ocasi\u00e3o da Rio + 20 e que recebe o nome sugestivo de pavilh\u00e3o da humanidade (financiado por empres\u00e1rios, a Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho e outros que pretensamente esperam representar a humanidade) h\u00e1 uma instala\u00e7\u00e3o na forma de biblioteca e ao centro uma esp\u00e9cie de pendulo fora do prumo.\u00a0 Para que o pendulo fique no prumo todos tem que apertar v\u00e1rios bot\u00f5es simultaneamente. Segunda a representante da Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho, isso para \u201cdar a sensa\u00e7\u00e3o de que a sa\u00edda depende de todos n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se exatamente disso: uma sensa\u00e7\u00e3o. Enquanto um n\u00famero muito grande de pessoas apertam seus bot\u00f5es para vivenciar a gratificante sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o decidindo alguma coisa, um n\u00famero bem pequeno de pessoas, aquelas que controlam os verdadeiros bot\u00f5es que podem definir o prumo das coisas, est\u00e3o de fato decidindo.<\/p>\n<p>A vota\u00e7\u00e3o virtual pode ser um bom instrumento eletr\u00f4nico para realizar uma consulta, mas de forma alguma pode substituir o processo pol\u00edtico do debate, do contradit\u00f3rio, do conhecimento de causa, da informa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o mesmo processo pelo qual o fetiche da comunica\u00e7\u00e3o substitui a comunica\u00e7\u00e3o propriamente dita.<\/p>\n<p>\u00c9 significativo que aqueles setores que abandonara a democracia direta e se renderem \u00e0 democracia formal, que escondem o particularismo de seus interesses sob o v\u00e9u ideol\u00f3gico de uma universalidade abstrata, queiram agora levar a mesma inflex\u00e3o para a a\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>A resposta, no entanto, veio exatamente de onde deveria vir. Estes senhores que passaram o ano passado inteiro em salas fechadas com o governo numa atitude subserviente e vergonhosa (na pr\u00e1tica como assessores do Governo), e at\u00e9 o final do ano passado ainda n\u00e3o tinham uma proposta integral para discutir a carreira al\u00e9m de alguns m\u00edseros pontos, est\u00e3o sendo varridos por assembl\u00e9ias nas pr\u00f3prias universidades que diziam \u201ccontrolar\u201d, como foi na UFG, em parte da UFSCar, na UFBA e no UFC. Nesta \u00faltima com um requinte de poesia. For\u00e7aram um plebiscito eletr\u00f4nico que ocorreu esta semana e o resultado foi esse: 883 professores favor\u00e1veis \u00e0 greve e 379 contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>Saberemos enterrar esses senhores fetichistas e seus fetiches na mesma cova onde enterraremos um dia a raiz de tudo isso: a mercadoria, o Estado e o capital. Como dizia Silvio Rodriguez: onde h\u00e1 homens n\u00e3o h\u00e1 fantasmas.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi<\/strong> \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/boitempo.com\/livro_completo.php?isbn=85-87767-10-0\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002). Colabora para o<strong> Blog da Boitempo<\/strong> mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/boitempoeditorial.wordpress.com\/2012\/06\/27\/a-greve-e-a-democracia-virtual\/\" target=\"_blank\">http:\/\/boitempoeditorial.wordpress.com\/2012\/06\/27\/a-greve-e-a-democracia-virtual\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Boitempoeditorial\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Mauro Iasi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3105\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[56],"tags":[],"class_list":["post-3105","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c67-greve"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-O5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3105"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3105\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}