{"id":31093,"date":"2023-11-25T15:45:03","date_gmt":"2023-11-25T18:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31093"},"modified":"2023-11-25T15:45:03","modified_gmt":"2023-11-25T18:45:03","slug":"a-batalha-de-gaza-e-a-batalha-de-todos-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31093","title":{"rendered":"&#8220;A batalha de Gaza \u00e9 a batalha de todos n\u00f3s&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31094\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31093\/imag21-11-23\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/imag21-11-23.webp?fit=640%2C449&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,449\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"imag21-11-23\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/imag21-11-23.webp?fit=640%2C449&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31094\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/imag21-11-23.webp?resize=640%2C449&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/imag21-11-23.webp?w=640&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/imag21-11-23.webp?resize=300%2C210&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/imag21-11-23.webp?resize=120%2C85&amp;ssl=1 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Entrevista com a antrop\u00f3loga libanesa e l\u00edder comunista Leila Ghanem, conduzida e traduzida para a Coordena\u00e7\u00e3o dos N\u00facleos Comunistas (CNC) por \u00c1ngeles Maestro.<\/p>\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o de N\u00facleos Comunistas<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m \u00e9 morte se estiver em sua montaria&#8221; (*)<\/p>\n<p>1 &#8211; Por que a opera\u00e7\u00e3o militar do Hamas de 7 de Outubro chocou o Oriente M\u00e9dio e at\u00e9 o mundo? Qual \u00e9 o impacto hist\u00f3rico deste acontecimento nos movimentos de resist\u00eancia do Oriente M\u00e9dio?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, para o povo palestino e na verdade para o povo \u00e1rabe, o &#8220;Dil\u00favio de Al-Aqsa&#8221; de 7 de Outubro foi uma opera\u00e7\u00e3o militar de propor\u00e7\u00f5es m\u00edticas; em todo caso, sem precedentes desde a ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina em 1948, uma esp\u00e9cie de epopeia lend\u00e1ria aos olhos dos povos \u00e1rabes. Alguns escritores remontam a Homero para evocar a imagem da Il\u00edada, uma lenda her\u00f3ica \u201cna qual o fraco consegue derrotar o seu colonizador num equil\u00edbrio de for\u00e7as inimagin\u00e1vel\u201d. Em apenas duas horas, a maior pot\u00eancia do Oriente M\u00e9dio, o quinto maior ex\u00e9rcito do mundo, sofreu uma derrota esmagadora pelas m\u00e3os de uma modesta unidade de comando apelidada de \u201cDist\u00e2ncia Zero\u201d (para destacar o confronto do corpo contra o tanque), composto por uma centena de homens modestamente armados, mas dotados de coragem her\u00f3ica. Vinte assentamentos libertados, bases militares ocupadas \u2013 uma das quais abrigava o quartel-general de Tsahal no sul \u2013, um observat\u00f3rio militar de alta tecnologia encarregado de controlar a fronteira; a unidade de pesquisa 545 e a unidade de intelig\u00eancia 414 foram neutralizados e dois generais capturados. A lenda ocidental-sionista da invencibilidade do estado sionista foi destru\u00edda. Em poucas horas, Gaza tornou-se Han\u00f3i. E recordamos a famosa frase do General Giap durante a sua visita a Argel em dezembro de 1970: \u201cOs colonialistas s\u00e3o maus estudantes de hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Para o escritor e ativista palestino Saif Dana, o exemplo que mais se aproxima desta vit\u00f3ria militar, apesar do desequil\u00edbrio na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre colonizados e colonizadores, \u00e9 a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Haitiana\u201d, que foi e continua a ser um s\u00edmbolo importante para as pessoas de cor em todo o mundo. Os haitianos, armados de coragem e de uma \u201cvontade de emancipa\u00e7\u00e3o\u201d, lan\u00e7aram-se, liderados por Dessalines, numa batalha decisiva contra os colonizadores franceses, que acabavam de receber refor\u00e7os, comandados pelo general Rochambeau. Esta batalha parecia estrategicamente imposs\u00edvel, mas depois de quatro ataques her\u00f3icos liderados pelo l\u00edder negro Cabuat, os franceses foram finalmente for\u00e7ados a capitular em 18 de novembro de 1803 no Forte Verti\u00e8res, embora os haitianos tenham sofrido perdas consider\u00e1veis de vidas. As guarni\u00e7\u00f5es francesas renderam-se uma a uma, permitindo que a ex-col\u00f4nia proclamasse a sua independ\u00eancia em 1\u00ba de janeiro de 1804. A partir de ent\u00e3o tomou o nome de Haiti. Esta batalha lend\u00e1ria ficou nos anais da hist\u00f3ria. Mais tarde, ela inspirou revoltas de escravizados em outros lugares, como a rebeli\u00e3o de Aponte em Cuba em 1812 ou a conspira\u00e7\u00e3o de Dinamarca Vesey na Carolina do Sul em 1822. Essa vit\u00f3ria tamb\u00e9m influenciou decisivamente Sim\u00f3n Bol\u00edvar e outros l\u00edderes de movimentos de independ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina, embora tiv\u00e9ssemos que esperar at\u00e9 1834 para abolir a escravatura.<\/p>\n<p>O que aconteceu em 7 de outubro na Palestina \u00e9 t\u00e3o lend\u00e1rio quanto a batalha do Haiti, e de agora em diante ficar\u00e1 nos anais da hist\u00f3ria, como as batalhas de Hittin, El Kadissiya, etc. no tempo de Saladino. Imaginem o terremoto que abalou todo o sistema do Imp\u00e9rio no Ocidente devido \u00e0 s\u00fabita derrota de seu bra\u00e7o direito, no qual tinha investido bilh\u00f5es de d\u00f3lares durante quase um s\u00e9culo. O mesmo poder a que o Imp\u00e9rio confiou a fun\u00e7\u00e3o de ser uma ponte imperial para controlar rotas mar\u00edtimas estrat\u00e9gicas, recursos vitais como petr\u00f3leo, g\u00e1s e ur\u00e2nio e constituir a chave para consolidar o seu dom\u00ednio, desestabilizando os inimigos do Imp\u00e9rio, introduzindo rela\u00e7\u00f5es de classe em benef\u00edcio dos opressores&#8230; Israel estava no centro deste sistema capitalista que tinha de manter os pa\u00edses do Sul dependentes dele; para isso, o povo palestino teve que se tornar um cen\u00e1rio precursor, um modelo de persegui\u00e7\u00e3o&#8230; Para conseguir isso, foi necess\u00e1rio expuls\u00e1-los de suas terras, desumaniz\u00e1-los, mant\u00ea-los sob bloqueio, massacrar os seus l\u00edderes hist\u00f3ricos&#8230; Isto exigiu um estatuto espec\u00edfico para seus fantoches e prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, institucional, financeira e midi\u00e1tica&#8230;<\/p>\n<p>O alarme imediato que abalou todos os l\u00edderes do mundo capitalista em 8 de outubro, que aflu\u00edram a Tel Aviv, \u00e9 uma prova irrefut\u00e1vel do investimento do mundo ocidental neste Estado constitu\u00eddo \u00e0 margem da lei, independentemente de todos os direitos e normas humanas. Direitos e normas criados pelo pr\u00f3prio regime burgu\u00eas ocidental. O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista. E, a partir de agora, haver\u00e1 um antes e um depois desse 7 de outubro.<\/p>\n<p>2 &#8211; O Ham\u00e1s \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista?<\/p>\n<p>Comecemos por dizer que, al\u00e9m dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia, nenhum outro pa\u00eds do mundo acusa o Hamas de terrorismo. Se olharmos para a hist\u00f3ria, o termo \u201cterrorista\u201d nem sempre foi pejorativo. Os revolucion\u00e1rios usaram o \u201cterror\u201d contra os seus inimigos de classe. Foi durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa que o termo \u201cterrorista\u201d foi usado pela primeira vez por Gracchus Babeuf ao falar dos \u201cpatriotas terroristas do segundo ano da Rep\u00fablica\u201d. Para o marxismo, o Terror n\u00e3o era de forma alguma um objetivo pol\u00edtico, mas sim uma ferramenta, o instrumento de uma pol\u00edtica, e deve ser julgado em rela\u00e7\u00e3o aos objetivos dessa pol\u00edtica. Isto levanta duas quest\u00f5es diferentes: 1\u00aa.- A quest\u00e3o da legitimidade dos prop\u00f3sitos pol\u00edticos. 2\u00ba.- A adequa\u00e7\u00e3o dos meios. Condenar o Terror como um \u201csistema\u201d metaf\u00edsico esconde o interesse em deslegitimar os objetivos pol\u00edticos que o estabeleceram.<\/p>\n<p>Tomemos o exemplo da Comuna de Paris, o cl\u00edmax da guerra civil francesa. Ap\u00f3s a sua derrota, os comunardos foram descritos, para citar apenas o Le Figaro, o \u00f3rg\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o de Versalhes, como \u201cterroristas do H\u00f4tel de Ville [da C\u00e2mara Municipal] ou \u201cterroristas de 18 de Mar\u00e7o\u201d ou \u201ca Comuna terrorista\u201d. O terror era defendido ou combatido com base nos objetivos perseguidos pelas diferentes classes sociais e fac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e que cada uma delas considerava leg\u00edtimos. Numa carta \u00e0 sua m\u00e3e, Friedrich Engels explicou: \u201cFala-se muito dos poucos ref\u00e9ns que foram fuzilados ao estilo prussiano e dos poucos pal\u00e1cios que foram queimados ao estilo prussiano, porque todo o resto \u00e9 mentira; mas dos 40.000 homens, mulheres e crian\u00e7as que Versalhes massacraram com metralhadoras depois de terem sido desarmados, ningu\u00e9m fala.<\/p>\n<p>Parece que esta descri\u00e7\u00e3o de Engels se referia aos acontecimentos em Gaza. Poder\u00edamos pensar que ele est\u00e1 descrevendo como os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais avaliaram desproporcionalmente (e continuam a faz\u00ea-lo) o impacto do ataque do Hamas em 7 de Outubro, e o genoc\u00eddio que se seguiu com a vingan\u00e7a sangrenta do ex\u00e9rcito Tsahal \u2013 o ex\u00e9rcito de Israel \u2013 apoiado pela For\u00e7a Delta estadunidenses e os seus tr\u00eas porta-avi\u00f5es no Mediterr\u00e2neo. Aqueles que falaram da Hiroshima de Gaza n\u00e3o est\u00e3o longe da cifra das 70.000 v\u00edtimas que ca\u00edram no Jap\u00e3o em agosto de 1945. Em Gaza, o n\u00famero de civis assassinados sobe para 50.000.<\/p>\n<p>Os Estados imperialistas-coloniais denunciaram rotineiramente o terrorismo das lutas dos povos submetidos ao seu dom\u00ednio e dos seus combatentes tratados como terroristas. Recordemos, mais uma vez, que diversas organiza\u00e7\u00f5es, depreciadas como terroristas ao longo da hist\u00f3ria, chegaram a ser interlocutores leg\u00edtimos. Foi o caso do Vietcongue, do Ex\u00e9rcito Republicano Irland\u00eas (IRA), da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional da Arg\u00e9lia, do Congresso Nacional Africano (ANC) e de muitas outras organiza\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m foram classificadas como &#8220;terroristas&#8221;, como a OLP e a FPLP na Palestina. Com este termo pretendeu-se e pretende-se despolitizar a sua luta, apresent\u00e1-la como um confronto entre o Bem e o Mal. Cada vez que os palestinos se rebelam, o Ocidente \u2013 t\u00e3o r\u00e1pido a glorificar a resist\u00eancia dos ucranianos \u2013 invoca o terrorismo. F\u00ea-lo durante a primeira Intifada em 1987 e a segunda em 2000, durante as a\u00e7\u00f5es armadas na Cisjord\u00e2nia ou nas mobiliza\u00e7\u00f5es para Jerusal\u00e9m, durante os confrontos em torno de Gaza, sitiada desde 2007 e que sofreu seis guerras em 17 anos.<\/p>\n<p>Cabe questionar a legitimidade de Israel para se defender e desarmar o Hamas. Alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o sionistas chegam ao ponto de invocar Thomas Hobbes e a sua percep\u00e7\u00e3o daquilo que ele chama de dom\u00ednio, pelas classes dominantes, do \u201cmonop\u00f3lio da for\u00e7a f\u00edsica leg\u00edtima\u201d. Ignora-se assim que esta legitimidade n\u00e3o pode ser aplicada a um Estado colonialista, uma legitimidade contestada em primeiro lugar pelos palestinos, pelos povos dos pa\u00edses \u00e0 sua volta que foram atacados (libaneses, s\u00edrios, iraquianos, iemenitas e iranianos) e por todos aqueles que o consideram um estado colonizador. Antes da farsa do \u201cAcordo de Paz\u201d de Oslo, a maioria dos pa\u00edses do mundo n\u00e3o reconhecia Israel. A sua legitimidade baseia-se, sem mais delongas, numa decis\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, enquanto Israel rejeitou sistematicamente todas as decis\u00f5es relativas ao povo palestino (resolu\u00e7\u00f5es 242, 323, 194, direito de regresso dos palestinos ao seu pa\u00eds).<\/p>\n<p>3 &#8211; Pode voc\u00ea explicar brevemente o conte\u00fado pol\u00edtico do Eixo da Resist\u00eancia, quem s\u00e3o seus membros e que lugar a Palestina ocupa nele?<\/p>\n<p>S\u00e3o dois eixos diferentes, que se sobrep\u00f5em, mas n\u00e3o t\u00eam uma dire\u00e7\u00e3o comum. A\u00ed est\u00e3o o eixo dos Estados Ir\u00e3, S\u00edria, I\u00eamen, L\u00edbano (Sul) e o eixo dos movimentos de resist\u00eancia que s\u00e3o grupos pol\u00edtico-militares anti-imperialistas de orienta\u00e7\u00f5es diversas, que v\u00e3o do xiitismo dos deserdados ao Marxismo. Todos eles, incluindo o Hamas, levantam a quest\u00e3o anticolonial e alguns defendem a justi\u00e7a social no seu programa. S\u00e3o essencialmente constitu\u00eddos por Hezbollah (L\u00edbano), Jihad (Palestina), Houthiyeen (I\u00eamen), AL-Mad shaabi \/ \u201cRefor\u00e7os populares\u201d (Iraque); e podemos acrescentar a este bloco a FPLP (Palestina), a Saraya (unidade especial dos campos de refugiados palestinos no L\u00edbano) e outras organiza\u00e7\u00f5es comunistas, como o Partido Comunista do L\u00edbano, que acaba de apelar aos seus militantes para a mobiliza\u00e7\u00e3o e est\u00e3o treinando nas bases do Hezbollah.<\/p>\n<p>Existe uma importante coordena\u00e7\u00e3o entre estes grupos pol\u00edtico-militares, que atuam sob o lema \u201cUnidade de Caminhos\u201d, forma que garante a relativa independ\u00eancia de cada organiza\u00e7\u00e3o, particularmente daquelas sediadas na Palestina, como o Hamas. No entanto, importa referir que a coordena\u00e7\u00e3o com o Hamas est\u00e1 mais ou menos distante, essencialmente por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas \u2013 o Hamas pertence \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana, um grupo isl\u00e2mico sunita conservador \u2013 mas tamb\u00e9m devido a diferen\u00e7as pol\u00edticas, \u00e0 alian\u00e7a do Hamas com o Qatar e a Turquia, que tem afetado as suas rela\u00e7\u00f5es com a S\u00edria. Em 2014, o Hamas teve de abandonar o campo de Yarmouk, na S\u00edria. No entanto, \u00e9 importante notar que o Hamas tem uma estrutura diferente das organiza\u00e7\u00f5es mercen\u00e1rias isl\u00e2micas criadas pela CIA, como a Al Qaeda ou a Anossra ou o Estado Isl\u00e2mico, cujo \u00fanico objetivo era destruir as estruturas dos Estados \u00c1rabes e combater a sua resist\u00eancia anti-imperialista.<\/p>\n<p>O Hamas \u00e9 um movimento palestino enraizado nas classes trabalhadoras de Gaza, na Cisjord\u00e2nia e na zona rural palestina do L\u00edbano, S\u00edria e Jord\u00e2nia. O Hamas foi eleito democraticamente numa elei\u00e7\u00e3o supervisionada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas em 2007 e, desde ent\u00e3o, Gaza tem sido bloqueada n\u00e3o s\u00f3 por Israel, mas tamb\u00e9m pela Europa e pelos Estados Unidos. N\u00e3o \u00e9 o Isl\u00e3 que incomoda os imperialistas, que historicamente souberam usar perfeitamente o Isl\u00e3 fascista. O confronto com o Hamas se d\u00e1 porque esta organiza\u00e7\u00e3o se recusa a depor as armas at\u00e9 libertar a Palestina e rejeita os chamados tratados de paz, como os de Camp David ou Oslo, que apenas serviram para usurpar 78% do territ\u00f3rio da Palestina hist\u00f3rica anterior \u00e0 Nakba de 1948. O Hamas recebe atualmente treino e armas do Eixo de Resist\u00eancia anti-imperialista e n\u00e3o dos seus amigos ideol\u00f3gicos em Istambul ou no Qatar. Isto explica as diferen\u00e7as dentro do Hamas entre dois ramos: o ramo militar, AL-Qassam, e o ramo pol\u00edtico cujo l\u00edder vive no Qatar e n\u00e3o em Gaza. Deve-se tamb\u00e9m notar que a liberta\u00e7\u00e3o da Palestina est\u00e1 no centro do programa deste Bloco de Resist\u00eancia, tal como o fim da interfer\u00eancia ianque no Oriente M\u00e9dio. Apesar destas diferen\u00e7as, a batalha por Gaza atualmente travada exigiu a unidade de todos os componentes acima mencionados e uma coordena\u00e7\u00e3o militar perfeita. Sua engenhosidade e bravura ficar\u00e3o para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>4 &#8211; Pode-se falar de Bloco Hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>Para caracteriz\u00e1-lo, remetemos a Gramsci e seu conceito de Bloco Hist\u00f3rico, cuja primeira men\u00e7\u00e3o se encontra no Caderno 4, em trecho que trata da import\u00e2ncia das superestruturas \u2013 estas s\u00e3o vistas por Gramsci como a esfera na qual os indiv\u00edduos tomam consci\u00eancia das suas condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia \u2013 e da necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o entre a base e a superestrutura.<\/p>\n<p>Os movimentos anticoloniais, independentemente da sua filia\u00e7\u00e3o declarada, desempenham um papel progressista na din\u00e2mica da hist\u00f3ria e representam as aspira\u00e7\u00f5es de emancipa\u00e7\u00e3o das classes dominadas e exploradas. A sua luta no terreno das contradi\u00e7\u00f5es sociais os radicaliza necessariamente. \u00c9 o caso do Hamas, que trava uma guerra de liberta\u00e7\u00e3o nacional e forjou alian\u00e7as no campo de batalha com todos os componentes da resist\u00eancia. Em outra passagem, no Caderno 7, Gramsci vincula o Bloco Hist\u00f3rico \u00e0 for\u00e7a da ideologia e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre ideologias e for\u00e7as materiais; insiste que se trata de uma rela\u00e7\u00e3o de unidade dial\u00e9tica org\u00e2nica, em que as distin\u00e7\u00f5es s\u00e3o estabelecidas apenas por raz\u00f5es &#8220;did\u00e1ticas&#8221;.<\/p>\n<p>Uma das afirma\u00e7\u00f5es de Marx, muito significativa, \u00e9 aquela que garante que uma convic\u00e7\u00e3o popular muitas vezes tem o mesmo poder que uma for\u00e7a material. Acredito que a an\u00e1lise destas afirma\u00e7\u00f5es leva a refor\u00e7ar o conceito de \u201cBloco Hist\u00f3rico\u201d. No Caderno 8, Gramsci insiste na identidade entre hist\u00f3ria e pol\u00edtica, identidade entre &#8220;natureza e esp\u00edrito&#8221;, na tentativa de elaborar &#8220;uma dial\u00e9tica de diferentes momentos, como aqueles que operam no interior da luta de classes, de uma forma que o impulso revolucion\u00e1rio dos povos oprimidos atua nas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>5 &#8211; Ser\u00e1 a demonstra\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade militar do Estado Sionista para a Resist\u00eancia Palestina compar\u00e1vel \u00e0 vit\u00f3ria da Resist\u00eancia no L\u00edbano em 2006?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que as semelhan\u00e7as existem, porque em ambos os casos s\u00e3o comandos precariamente equipados que enfrentam um ex\u00e9rcito regular dotado de recursos importantes. Os relatos da batalha que nos chegam todos os dias a partir de Gaza mostram que a for\u00e7a da determina\u00e7\u00e3o dos combatentes \u00e9 decisiva para o resultado da batalha. Quando os habitantes de Gaza se referem aos seus combatentes como \u201csamurais\u201d ou falam em \u201cDist\u00e2ncia Zero\u201d, eles querem mostrar o enorme valor de \u201cum ca\u00e7a enfrentando um tanque\u201d. Em 2006, na plan\u00edcie de Khiam, quando os combatentes do Hezbollah apreenderam 40 tanques Mer-Kaba sem os destruir, usaram a mesma t\u00e1tica. Sayed Hassan Hasrallah disse ent\u00e3o para encorajar seus homens: &#8220;Israel \u00e9 mais fraco que uma teia de aranha.&#8221; Nas palavras de Mao, \u201co imperialismo \u00e9 um tigre de papel.\u201d<\/p>\n<p>A derrota do Tsahal foi t\u00e3o amarga que desde 2006 Israel, que travou seis guerras destrutivas em 25 anos, j\u00e1 n\u00e3o se atreve a aventurar-se no L\u00edbano. Hoje em Gaza, sua terr\u00edvel vingan\u00e7a covarde contra civis, sobretudo mulheres e crian\u00e7as, n\u00e3o funciona a seu favor. Em termos militares, as for\u00e7as fortemente armadas israelo-americanas, Tsahal e Delta, n\u00e3o foram capazes, em 40 dias de guerra feroz, reprimir o fogo dos combatentes, deter o Hamas ou capturar um \u00fanico dos seus combatentes. A resist\u00eancia de Gaza, de seu povo e de seus combatentes est\u00e3o fazendo ressuscitar a batalha de Stalingrado.<\/p>\n<p>6 \u2013 A opini\u00e3o de que o governo sionista sabia do ataque palestino de 7 de Outubro e permitiu que este desencadeasse o massacre tem alguma base real?<\/p>\n<p>Como j\u00e1 referimos anteriormente, Israel foi escandalosamente apanhado de surpresa. O comando passou a ocupar os gabinetes da Dire\u00e7\u00e3o-Geral, que se apresentava como uma j\u00f3ia da tecnologia. O ataque revelou as falhas estruturais do 5\u00ba ex\u00e9rcito mais poderoso do mundo; mostrou como este ex\u00e9rcito foi desestabilizado e come\u00e7ou a disparar contra tudo o que se movia, incluindo os seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os. Estes fatos foram revelados tanto por membros do comando palestino como pela imprensa israelense, que citou testemunhas. Nasrallah tamb\u00e9m aludiu no seu discurso \u00e0 perplexidade do ex\u00e9rcito israelenses, que disparou contra civis israelenses.<\/p>\n<p>7 &#8211; Quais s\u00e3o os principais planos do imperialismo sionista que foram frustrados pelo ataque palestino?<\/p>\n<p>O Hamas ainda n\u00e3o revelou as duas raz\u00f5es fundamentais da sua interven\u00e7\u00e3o: a escolha da data e local da sua opera\u00e7\u00e3o, mas vale a pena fazer algumas an\u00e1lises para caracterizar a situa\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u2013 A necessidade vital de romper o bloqueio, ap\u00f3s o fechamento dos t\u00faneis do lado eg\u00edpcio em opera\u00e7\u00f5es conjuntas israelo-eg\u00edpcias em 2019, que sufocaram Gaza;<br \/>\n&#8211; A vontade de parar a limpeza \u00e9tnica que ocorre na Cisjord\u00e2nia desde 2020 e que atingiu 1.600 jovens, especialmente em Jenin, Nablus, Jerusal\u00e9m e El-Hawara, onde houve um pogrom em 2022.<br \/>\n\u2013 O desejo de salvar El-Aqsa, santu\u00e1rio mu\u00e7ulmano e s\u00edmbolo da capital da Palestina, que Netanyahu decidiu confiscar e abrir ao Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es. Os ataques nas ora\u00e7\u00f5es de sexta-feira tornaram-se sistem\u00e1ticos.<br \/>\n\u2013 Acabar com o processo de reaproxima\u00e7\u00e3o entre a Ar\u00e1bia Saudita e Israel, que incluiu a constru\u00e7\u00e3o, j\u00e1 iniciada, do Canal Ben Gurion (1) entre a Ar\u00e1bia Saudita e Israel, o qual deveria levar a Gaza.<br \/>\n\u2013 A inten\u00e7\u00e3o de Israel de tomar os campos mar\u00edtimos de g\u00e1s de Gaza (2).<br \/>\n\u2013 As repetidas declara\u00e7\u00f5es de Israel sobre a necessidade de reduzir a popula\u00e7\u00e3o de Gaza para metade e enviar a outra metade para o Sinai, bem como de enviar combatentes do Hamas para Guant\u00e1namo e os l\u00edderes pol\u00edticos para o Qatar.<\/p>\n<p>8 &#8211; Por que a solu\u00e7\u00e3o de dois Estados, israelense e palestino, \u00e9 inaceit\u00e1vel para as diversas correntes da Resist\u00eancia Palestina, que descrevem esta proposta como uma colabora\u00e7\u00e3o com o inimigo?<\/p>\n<p>Se quisermos resumir a hist\u00f3ria da ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina em algumas datas, diremos que a Palestina foi ocupada em tr\u00eas fases: a Nakba de 1948, a Naksa ou derrota de 1967 e os acordos de Oslo de 1993. Como reconhece El\u00edas Sambar, chefe da delega\u00e7\u00e3o palestina respons\u00e1vel pelas negocia\u00e7\u00f5es de paz, os assim chamados acordos de paz (sic), que duraram 32 anos, serviram apenas para reduzir gradualmente a Palestina. Hoje restam apenas 6% da Palestina original.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma das raz\u00f5es para a &#8220;popularidade&#8221; do Hamas, que foi eleito democraticamente em 2007 sob os ausp\u00edcios de uma miss\u00e3o internacional de observa\u00e7\u00e3o da ONU, \u00e9 que os habitantes de Gaza, contra todas as probabilidades, escolheu este partido n\u00e3o pela sua \u201cdoutrina isl\u00e2mica\u201d, mas porque esta organiza\u00e7\u00e3o se recusa a depor as armas e a negociar um acordo de \u201ccapitula\u00e7\u00e3o\u201d. Uma postura que custou a vida a uma d\u00fazia dos seus l\u00edderes hist\u00f3ricos, incluindo o seu fundador, o Xeque Yasin, brutalmente assassinado. Desde ent\u00e3o, Israel colocou Gaza sob bloqueio como puni\u00e7\u00e3o coletiva. Um bloqueio total que dura 17 anos, que transformou Gaza numa pris\u00e3o a c\u00e9u aberto, antes de se tornar um cemit\u00e9rio a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>O Hamas n\u00e3o foi o \u00fanico a rejeitar os Acordos de Oslo, conhecidos como Acordos Vergonhosos. Todas as outras organiza\u00e7\u00f5es palestinas os rejeitam, incluindo fac\u00e7\u00f5es do Fatah (Conselho Revolucion\u00e1rio), bem como a maioria dos l\u00edderes da OLP e personalidades pr\u00f3ximas de Arafat, como Mahmoud Darwish, que escreveu os discursos de Arafat, ou Edward Said. O Estado dormit\u00f3rio, ou Estado-tamp\u00e3o presidido por Mahmoud Abbas, \u00e9 acima de tudo um Estado de seguran\u00e7a concebido para proteger Israel. Na realidade, a solu\u00e7\u00e3o de dois Estados nada mais \u00e9 do que um engodo que permitiu a Israel continuar a desapropriar os palestinos, acelerando a constru\u00e7\u00e3o de centenas de colonatos e a realiza\u00e7\u00e3o de limpeza \u00e9tnica sistem\u00e1tica na Cisjord\u00e2nia. Este ano, antes do 7 de Outubro, 266 jovens palestinos foram massacrados nas suas casas diante das suas fam\u00edlias, numa opera\u00e7\u00e3o preventiva, j\u00e1 que por decis\u00e3o do Tsahal \u201cestes jovens s\u00e3o terroristas\u201d em potencial.<\/p>\n<p>Israel nunca escondeu a sua inten\u00e7\u00e3o de \u201creduzir para metade, isto \u00e9 \u2013 aniquilar um milh\u00e3o de seres humanos \u2013 o n\u00famero de palestinos na Faixa de Gaza\u201d, provocando uma \u201cNova Nakba\u201d e, portanto, o \u00eaxodo e o genoc\u00eddio. O que estamos atualmente a viver em Gaza faz parte de uma longa e sangrenta prova\u00e7\u00e3o para o povo de Gaza: em 2006, 400 m\u00e1rtires; em 2008-2009, 1.300 m\u00e1rtires; em 2012, 160 m\u00e1rtires; em 2014, 2.100 m\u00e1rtires; em 2021, quase 300 m\u00e1rtires; e na primavera de 2023, v\u00e1rias dezenas. Segundo Mich\u00e8le Sibony [Mich\u00e8le Sibony para Agence M\u00e9dia Palestine, 13 de outubro de 2023] (3), declarada anti-sionista e porta-voz da Uni\u00e3o Judaica Francesa para a Paz (UJFP): \u00abSabemos o que o objetivo de longa data \u00e9: \u201co menor n\u00famero poss\u00edvel de palestinos no maior territ\u00f3rio anexado poss\u00edvel, desde o mar at\u00e9 ao Jord\u00e3o\u201d. Por outras palavras, uma terra esvaziada dos seus habitantes palestinos e aberta \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, uma verdadeira \u201cgrande substitui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado em Haaretz, intitulado \u201cPor que os palestinos nos matam\u201d, Amira Hass, jornalista israelense antissionista, comenta os acontecimentos de 7 de Outubro da seguinte forma: &#8220;Os palestinos n\u00e3o atiraram em n\u00f3s porque somos judeus, mas porque somos os seus ocupantes, os seus torturadores, os seus carcereiros, os ladr\u00f5es das suas terras e da sua \u00e1gua, os demolidores das suas casas, aqueles que os exilaram e bloquearam seus horizontes. Os jovens palestinos est\u00e3o dispostos a dar as suas vidas e a causar uma enorme dor \u00e0s suas fam\u00edlias porque o inimigo que enfrentam mostra-lhes todos os dias que a sua crueldade n\u00e3o tem limites.&#8221;<\/p>\n<p>Um dos criadores de Oslo, Gideon L\u00e9vy, que foi o bra\u00e7o direito de Sim\u00f3n P\u00e9rez , acaba de declarar numa confer\u00eancia de imprensa em Nova Iorque que &#8220;Israel \u00e9 respons\u00e1vel pelo que est\u00e1 acontecendo em Gaza e o problema n\u00e3o \u00e9 o atual governo de extrema-direita, mas o fato de Israel recusar a paz e ter mentido o tempo todo. Para ele, Israel s\u00f3 tem uma ideia fixa: cumprir o que come\u00e7ou com a guerra de 1948. Tania Reinhardt j\u00e1 publicou um livro com o mesmo t\u00edtulo. Para Israel, a paz \u201cnada mais era do que um pretexto para ganhar tempo e terras e continuar a construir assentamentos\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a \u201cpaz\u201d de Oslo foi feita sob os ausp\u00edcios dos Estados Unidos, que queriam proteger o seu subordinado, dando-lhe reconhecimento internacional. Oslo deu a Israel o reconhecimento de todos os pa\u00edses asi\u00e1ticos, incluindo a China, os pa\u00edses latino-americanos e 52 pa\u00edses africanos. Segundo Ilan Papp\u00e9, a chamada paz tamb\u00e9m deu ao Estado colonizador \u201ca absolvi\u00e7\u00e3o total de todos os seus crimes cometidos contra o povo palestino desde 1948\u201d.<\/p>\n<p>9 &#8211; O que mudou definitivamente na regi\u00e3o desde o 7 de Outubro?<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo para avaliar todo o significado do acontecimento, que depender\u00e1 do resultado da guerra, mas o certo \u00e9 que estremeceu a equa\u00e7\u00e3o em que assenta o equil\u00edbrio entre o arrogante Ocidente imperialista e os pa\u00edses do Sul. O fato de Israel ter devastado o norte de Gaza e matado 30.000 civis, 70% dos quais mulheres e crian\u00e7as, e for\u00e7ado um milh\u00e3o e meio de pessoas a fugir, n\u00e3o significa que Israel tenha vencido. Ap\u00f3s 40 dias de ataques, os seus objetivos n\u00e3o foram alcan\u00e7ados. \u00c9 tamb\u00e9m verdade que a desocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo se acelerou para os pa\u00edses do Sul. O Ocidente b\u00e1rbaro foi desmascarado diante dos povos. \u00c9 marcante o fim das ilus\u00f5es sobre a Europa como um modelo de democracia ou um santu\u00e1rio para os direitos humanos, e a sua verdadeira face foi revelada em todo o mundo. Os respons\u00e1veis no Ocidente s\u00e3o acusados de serem criminosos de guerra.<\/p>\n<p>Segundo um jornal dos EUA, Israel \u00e9 o pa\u00eds mais odiado do mundo, o que afetar\u00e1 o seu estatuto privilegiado. Num editorial intitulado \u201c\u00c9 hora de acabar com a rela\u00e7\u00e3o especial entre os Estados Unidos e Israel\u201d, Stephen Walt, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na prestigiada Universidade de Harvard (Boston MA), acrescenta que o \u201capoio incondicional\u201d ao Estado de Israel come\u00e7a a cobrar seu pre\u00e7o. \u201cO custo desta rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica est\u00e1 aumentando e este custo n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mico.\u201d E acrescenta: &#8220;Quando os Estados Unidos usam o seu veto tr\u00eas vezes, sozinhos, no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU sobre um cessar-fogo, est\u00e3o na verdade endossando o &#8216;direito de Israel se defender&#8217;, um direito que se apoia numa nova transa\u00e7\u00e3o militar no valor de 735 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Gastando muito ou n\u00e3o, os EUA n\u00e3o abandonar\u00e3o a sua criatura Israel, mas tais vozes revelam uma nova realidade.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 posi\u00e7\u00e3o dos BRICS, constitui uma decep\u00e7\u00e3o total para o mundo \u00e1rabe e especialmente para os movimentos de resist\u00eancia. Os BRICS t\u00eam-se mostrado uma alian\u00e7a exclusivamente econ\u00f4mica, que s\u00f3 zela pelos seus pr\u00f3prios interesses. Isto est\u00e1 muito longe do esp\u00edrito do N\u00e3o-Alinhamento ou de Bandung. Est\u00e3o interessados em que os EUA afundem no Oriente M\u00e9dio e esperam tirar partido disso.<\/p>\n<p>10 &#8211; Qual a import\u00e2ncia da solidariedade internacional nos pa\u00edses que est\u00e3o hoje no centro do imperialismo?<\/p>\n<p>De Los Angeles ao Rio de Janeiro, de Estocolmo a Madri, da Tun\u00edsia \u00e0 Cidade do Cabo e de Bombaim a Sydney, a opini\u00e3o p\u00fablica mundial tem expressado a sua revolta frente \u00e0 guerra impiedosa de Israel contra os palestinos h\u00e1 mais de um m\u00eas. Agora que as massas tomaram conta da internet para a colocar a seu servi\u00e7o a sua causa, desafiando e contornando todos os m\u00e9todos repressivos das multinacionais que dominam os meios de comunica\u00e7\u00e3o social, conseguiram abrir uma brecha no muro midi\u00e1tico para mostrar o que est\u00e1 acontecendo no territ\u00f3rio e transmitir aos habitantes de Gaza a solidariedade dos povos em todo o mundo.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es massivas em todas as principais cidades do mundo s\u00e3o o testemunho de uma revolta contra os crimes de Israel e dos seus protetores envolvidos em a\u00e7\u00f5es militares com os Estados Unidos; uma revolta contra a hipocrisia de um Ocidente que moveu c\u00e9us e terras contra Putin a um ponto que beira o racismo anti-russo, enquanto aqui permanecem silenciosos contra estes crimes s\u00f3rdidos. Assim, enquanto os Estados Unidos se consideram o principal defensor de Israel , \u00e9 interessante notar que as imagens de manifesta\u00e7\u00f5es estudantis em apoio ao povo palestino nos campi estadunidenses mostram uma mistura heterog\u00eanea de \u00e1rabes, descendentes de escravos americanos e netos de emigrantes latino-americanos.<\/p>\n<p>A opress\u00e3o sofrida pelo povo palestino \u00e9 ecoada tanto pelos pa\u00edses do Sul como por uma parte importante dos cidad\u00e3os dos pa\u00edses do Norte, que se lembram da opress\u00e3o sofrida durante s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo da humilha\u00e7\u00e3o e da crueldade infligidas por parte de seus antepassados. Israel aparece assim como o \u00faltimo dos pa\u00edses \u201cbrancos\u201d a oprimir um povo do Sul. E o palestino despossu\u00eddo, pobre e aterrorizado torna-se um s\u00edmbolo de classe. Lendo as faixas dos manifestantes, tem-se a impress\u00e3o de que a &#8220;exce\u00e7\u00e3o israelense&#8221;, concedida pelo Ocidente em nome das v\u00edtimas do Holocausto, e que minimiza o sofrimento e a crueldade sofrida por outros povos do mundo, em breve chegar\u00e1 ao fim.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer que esta solidariedade internacional \u00e9 alimentada pela resist\u00eancia e pelo sacrif\u00edcio de um povo martirizado que sofre tr\u00eas guerras ao mesmo tempo: o terr\u00edvel bloqueio total, o genoc\u00eddio e o \u00eaxodo. Um representante da FPLP declarou que \u201co nosso povo recusa-se a partir, aprendeu desde a primeira Nakba que, se deixarem a sua terra natal, nunca mais regressar\u00e3o; ent\u00e3o sua \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;vencer ou morrer&#8221;. Permanecer na sua p\u00e1tria j\u00e1 \u00e9 uma vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pessoalmente, estou convencida de que a batalha de Gaza \u00e9 a batalha de todos n\u00f3s, tal como foi a Guerra Civil Espanhola, a de Beirute em 1982, ou a do L\u00edbano em 2006. Ainda ressoam em meus ouvidos as palavras de Miguel Urbano quando veio saudar a resist\u00eancia: &#8220;Onde o imperialismo concentra as suas for\u00e7as militares, pol\u00edticas, econ\u00f4micas e midi\u00e1ticas, aqueles que o confrontam fazem-no em nome de toda a humanidade.&#8221; A queda de Gaza ser\u00e1 a queda de todos n\u00f3s perante a barb\u00e1rie capitalista. O m\u00e9rito desta solidariedade \u00e9 ter apontado o dedo ao nosso inimigo de classe.<\/p>\n<p>Novembro de 2023<\/p>\n<p>* Verso da poesia &#8220;Galope&#8221; de Rafael Alberti:<\/p>\n<p>Nadie, nadie, nadie, que enfrente no hay nadie;<br \/>\nque es nadie la muerte si va en tu montura.<br \/>\nGalopa, caballo cuatralbo,<br \/>\njinete del pueblo,<br \/>\nque la tierra es tuya.<\/p>\n<p>\u00a1A galopar,<br \/>\na galopar,<br \/>\nhasta enterrarlos en el mar!<\/p>\n<div dir=\"auto\">\n<div>\n<div>\n<div><span style=\"font-size: large;\"><span lang=\"pt\">1 &#8211; Nota de tradu\u00e7\u00e3o. A import\u00e2ncia estrat\u00e9gica do Canal Ben Gurion (Ben Gurion \u00e9 o nome do l\u00edder sionista que dirigiu o massacre e expropria\u00e7\u00e3o do povo palestino em 1948) que iria do Mar Vermelho a Gaza, uma alternativa ao Canal de Suez e que canalizaria 30% do com\u00e9rcio mundial de energia, pode ser entendida aqui: <a href=\"https:\/\/es.sott.net\/article\/90564-Israel-se-propone-abrir-el-Canal-Ben-Gurion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/es.sott.net\/article\/90564-Israel-se-propone-abrir-el-Canal-Ben-Gurion&amp;source=gmail&amp;ust=1701021823182000&amp;usg=AOvVaw2E3z6mV9jYW5RSBcTFNGG5\">https:\/\/es.sott.net\/article\/<wbr \/>90564-Israel-se-propone-abrir-<wbr \/>el-Canal-Ben-Gurion<\/a><\/span><\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: large;\"><span lang=\"pt\">\u00a0<\/span><\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: large;\"><span lang=\"pt\">2 &#8211; Nota de tradu\u00e7\u00e3o. A import\u00e2ncia do campo de g\u00e1s da Marina de Gaza estimada em 30 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos, juntamente com outros campos de g\u00e1s e petr\u00f3leo encontrados em terra, entre Gaza e a Cisjord\u00e2nia, na atual guerra de Israel contra a Palestina, \u00e9 analisada aqui: <a href=\"https:\/\/www\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www&amp;source=gmail&amp;ust=1701021823182000&amp;usg=AOvVaw3YlQt6tilG0DuY7JPQDBdd\">https:\/\/www<\/a>. <a href=\"http:\/\/palestinalibre.org\/articulo.php?a=51528\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/palestinalibre.org\/articulo.php?a%3D51528&amp;source=gmail&amp;ust=1701021823182000&amp;usg=AOvVaw2Thk_NSMutVuYw-a9FQ5zY\">palestinalibre.org\/articulo.<wbr \/>php?a=51528<\/a><\/span><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><a id=\"m_-5886563172442310700m_-4735189678818789835gmail-sdfootnote3sym\" href=\"https:\/\/cncomunistas.org\/?p=1405#sdfootnote3anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/cncomunistas.org\/?p%3D1405%23sdfootnote3anc&amp;source=gmail&amp;ust=1701021823182000&amp;usg=AOvVaw2h5Lo8Vq2txUx1vTLl6p8r\">3 <\/a>&#8211; Mich\u00e8le Sibony para l\u2019Agence M\u00e9dia Palestine, 13 outubro de 2023<\/span><span style=\"font-size: large;\">Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol para o portugu\u00eas: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><span style=\"font-size: large;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/cncomunistas.org\/?p=1405\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/cncomunistas.org\/?p%3D1405&amp;source=gmail&amp;ust=1701021823182000&amp;usg=AOvVaw2mKD-xkc-rEToWrYMZB3ay\">https:\/\/cncomunistas.org\/?p=<wbr \/>1405<\/a><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31093\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9,65,10,78],"tags":[221],"class_list":["post-31093","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-85v","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31093","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31093"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31093\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31095,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31093\/revisions\/31095"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31093"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31093"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31093"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}