{"id":3116,"date":"2012-07-02T14:29:38","date_gmt":"2012-07-02T14:29:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3116"},"modified":"2012-07-02T14:29:38","modified_gmt":"2012-07-02T14:29:38","slug":"o-kke-perdeu-uma-eleicao-nao-a-perspectiva-revolucionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3116","title":{"rendered":"O KKE PERDEU UMA ELEI\u00c7\u00c3O, N\u00c3O A PERSPECTIVA REVOLUCION\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma natural perplexidade sobre a perda de votos do Partido Comunista da Gr\u00e9cia (KKE) nas elei\u00e7\u00f5es de 17 de junho, inclusive entre comunistas. Ningu\u00e9m est\u00e1 imune \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia hegem\u00f4nica. Se n\u00e3o estivermos vigilantes para perceber as manipula\u00e7\u00f5es e n\u00e3o nos valermos de fontes alternativas confi\u00e1veis, sairemos por a\u00ed vocalizando o discurso dos nossos inimigos. E n\u00e3o h\u00e1 manipula\u00e7\u00e3o maior do que nas elei\u00e7\u00f5es da democracia burguesa.<\/p>\n<p>O PCB, em sua \u00faltima Confer\u00eancia Pol\u00edtica Nacional, tratou desta quest\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cSabemos perfeitamente que o sistema eleitoral burgu\u00eas privilegia os partidos da ordem, com regras que tendem a restringir ao m\u00e1ximo o acesso dos partidos comprometidos com a classe trabalhadora \u00e0 m\u00eddia, ao financiamento da campanha eleitoral e, portanto, \u00e0 pr\u00f3pria conquista de mandatos parlamentares.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es burguesas s\u00e3o balizadas e manipuladas por \u201cmedia\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias\u201d, onde ganham destaque quest\u00f5es como uma melhor ou pior \u201ccompet\u00eancia para governar ou legislar\u201d, deixando de lado a discuss\u00e3o sobre temas de fundo, como o car\u00e1ter do capitalismo. S\u00e3o instrumentos de manuten\u00e7\u00e3o do status quo\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo tom, o Secret\u00e1rio Internacional do KKE, Elisseos Vagenas, definiu este jogo, em entrevista antes das elei\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u201cO KKE n\u00e3o tem ilus\u00f5es parlamentares, da mesma maneira que n\u00e3o espera o aumento gradual de seus votos at\u00e9 um dia em que tenha maioria no parlamento e forme um governo comunista. Se isso pudesse ocorrer via elei\u00e7\u00f5es, a classe burguesa teria acabado com elas\u201d.<\/p>\n<p>Na Europa, onde a crise sist\u00eamica do capitalismo \u00e9 mais aguda, consolidou-se o bipartidarismo no campo da ordem; o sistema induz a uma polariza\u00e7\u00e3o entre dois campos pol\u00edticos, um conservador e um socialdemocrata. Suas diferen\u00e7as, cada vez menores no conte\u00fado e mais sutis na forma, n\u00e3o amea\u00e7am o sistema, pois se restringem \u00e0 forma de administrar o capitalismo.<\/p>\n<p>Mas como o capitalismo hoje \u00e9 inadministr\u00e1vel &#8211; a n\u00e3o ser atrav\u00e9s de medidas impopulares que degradam as condi\u00e7\u00f5es de vida dos povos -, a chamada \u201caltern\u00e2ncia de poder\u201d praticamente setransformou em regra na Europa. O campo pol\u00edtico que governa sempre perde a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o para a sua \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d no campo da ordem. \u00c9 o modelo do monopartidarismo bic\u00e9falo, de que s\u00e3o os melhores exemplos as elei\u00e7\u00f5es estadunidenses.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia, o imperialismo e a burguesia associada deram um show de compet\u00eancia pol\u00edtica entre as elei\u00e7\u00f5es de 6 de maio e 17 de junho, gra\u00e7as \u00e0 hegemonia nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, ao dom\u00ednio de pesquisas eleitorais sofisticadas e aos ilimitados recursos materiais de que disp\u00f5em, fazendo da elei\u00e7\u00e3o burguesa um jogo de cartas marcadas.<\/p>\n<p>O inusitado sistema pol\u00edtico-eleitoral grego \u00e9 moldado para garantir a governabilidade institucional. O partido que chega em primeiro lugar nas elei\u00e7\u00f5es legislativas tem um \u201cb\u00f4nus\u201d de um ter\u00e7o do n\u00famero de cadeiras a que teria direito na proporcionalidade matem\u00e1tica e um prazo de tr\u00eas dias, a partir do an\u00fancio do resultado, para compor um governo de maioria parlamentar. Caso n\u00e3o o consiga, este direito \u00e9 atribu\u00eddo, pela ordem, ao segundo e at\u00e9 ao terceiro colocado. No caso de nenhum desses tr\u00eas partidos conseguir formar o governo, novas elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o convocadas para trintadias depois. Foi o que aconteceu na elei\u00e7\u00e3o de 6 de maio.<\/p>\n<p>Essas novas elei\u00e7\u00f5es funcionam como um segundo turno, onde viceja a l\u00f3gica do chamado \u201cvoto \u00fatil\u201d, ou seja, muitos eleitores trocam o voto estrat\u00e9gico que deram no primeiro turno por um voto t\u00e1tico no segundo, para derrotar o que consideram o inimigo maior. Este fen\u00f4meno, comum em todos os pa\u00edses que t\u00eam segundo turno, levou quase cinquenta por cento dos votos do KKE para o Syriza, que aparecia como favorito no campo progressista, por ter chegado \u00e0 frente do Pasok j\u00e1 no primeiro turno. O Nova Democracia, que polarizou pela direita todo o processo, tamb\u00e9m foi beneficiado pelo \u201cvoto \u00fatil\u201d.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 6 de maio, houve uma fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica t\u00e3o grande, que nenhum dos tr\u00eas partidos mais votados, cada um com seus tr\u00eas dias de prazo, conseguiu formar o governo: respectivamente, Nova Democracia (centro-direita), Syriza (Coaliz\u00e3o da Esquerda Radical) e Pasok (Partido Socialista).<\/p>\n<p>J\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es de 17 de junho, o imperialismo e a burguesia grega foram vitoriosos em todos os seus objetivos, t\u00e1ticos e estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Nova Democracia continuou em primeiro lugar, com mais de 10% de votos em rela\u00e7\u00e3o ao turno anterior, e ainda ganhou o \u201cb\u00f4nus\u201d, ficando com quase 40% das trezentas cadeiras do Parlamento. Com isso, criou condi\u00e7\u00f5es para indicar o Primeiro-Ministro e formar o governo. Deu-se ao luxo de escolher a alian\u00e7a, que poderia ser com partidos do p\u00f3lo conservador ou do socialdemocrata. A op\u00e7\u00e3o pela composi\u00e7\u00e3o com o Pasok foi funcional tanto para o novo governo parecer de uni\u00e3o nacional como para ter um ar progressista.<\/p>\n<p>O Syriza, incensado pela m\u00eddia, tamb\u00e9m obteve mais de 10% dos votos novos e se manteve no segundo lugar, passando a ser o p\u00f3lo socialdemocrata, em raz\u00e3o da desmoraliza\u00e7\u00e3o do Pasok como \u201cesquerda\u201d, j\u00e1 que este, no mandato anterior, comandou o governo que levou a efeito as medidas impopulares. E tamb\u00e9m porque volta agora ao governo, desta vez como coadjuvante.<\/p>\n<p>Monitorando e induzindo as elei\u00e7\u00f5es diuturnamente, a burguesia conseguiu escolher o primeiro e o segundo lugares. Na reta final, em que o pouco conhecido Syriza subia a ponto de amea\u00e7ar oNova Democracia, mais confi\u00e1vel, criou-se midiaticamente um p\u00e2nico social insinuando a iminente substitui\u00e7\u00e3o do euro pelo dracma, o que levou a uma desenfreada corrida aos bancos e aos supermercados, de forma a suscitar o medo de qualquer mudan\u00e7a, o que favoreceu o voto conservador.<\/p>\n<p>Outra vit\u00f3ria da burguesia foi a perda de votos do KKE para o Syriza, funcional para tentar isolar seu principal inimigo, a vanguarda das lutas de massa na Gr\u00e9cia, o partido revolucion\u00e1rio que n\u00e3o aceita alian\u00e7as com a burguesia, que defende uma ruptura com a Uni\u00e3o Europeia, a sa\u00edda da zona do euro, o n\u00e3o pagamento da d\u00edvida e um governo dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Criou-se em torno do Syriza uma imagem como se fosse mais combativo que o KKE. O at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido l\u00edder do Syriza se tornou uma personalidade global, chegando a ser chamado pela m\u00eddia de \u201cChe Guevara da Gr\u00e9cia\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a m\u00eddia responsabilizou o KKE pelo fato de o Syriza n\u00e3o ter conseguido compor um governo de maioria de centro-esquerda, quando chegou sua vez de tent\u00e1-lo, como segundo colocado no primeiro turno. Acontece que, tendo o Nova Democracia chegado em primeiro lugar e, portanto, tendo ganho o \u201cb\u00f4nus\u201d, mesmo se em tr\u00eas dias o Syriza, o Pasok e o KKEconseguissem se compor politicamente, o n\u00famero total de cadeiras obtidas por eles n\u00e3o chegavam a um ter\u00e7o do Parlamento!<\/p>\n<p>Quem poderia ter composto um governo de maioria no primeiro turno era a centro-direita, mas isso n\u00e3o lhe convinha, pois ficaria sozinha com o \u00f4nus de administrar a crise e poderia favorecer uma unidade da esquerda na oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es e personalidades progressistas do mundo, em quest\u00e3o de dias, se encantaram com o novo p\u00f3lo socialdemocrata, que conheceram pelos relatos da m\u00eddia hegem\u00f4nica. Slavoj Zizek, o \u201cint\u00e9rprete\u201d de Marx da moda, assim se pronunciou na conven\u00e7\u00e3o eleitoral do Syriza, em que foi a grande estrela, com a frase mais aplaudida no evento:<\/p>\n<p>\u201cO KKE ainda vive porque se esqueceu de morrer\u201d.<\/p>\n<p>De fato, este desejo de que o KKE morra n\u00e3o \u00e9 somente do imperialismo. Talvez seja um dos grandes pontos de unidade da frente de organiza\u00e7\u00f5es chamada Syriza, que surgiu em 2004, com seis deputados do Synaspismos, partido formado ap\u00f3s a queda da URSS por dissidentes do KKE, e que hegemoniza a coaliz\u00e3o, composta, al\u00e9m dos eurocomunistas, por dissidentes do Pasok, por outros socialdemocratas e democratas radicais, nacionalistas, ambientalistas, movimentistas, juntando at\u00e9 o improv\u00e1vel: grupos que se reivindicam maoistas e trotsquistas numa mesma legenda.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que esses novos simpatizantes j\u00e1 haviam visto antes os s\u00edmbolos e a bandeira do Syriza? Viram-na tremulando nas in\u00fameras greves e manifesta\u00e7\u00f5es de massa na Gr\u00e9cia, todas hegemonizadas pelo KKE?<\/p>\n<p>Jogando com a matem\u00e1tica eleitoral, a m\u00eddia tenta agora caracterizar o KKE como um partido residual. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Trata-se de um partido comunista perigoso para o sistema, por n\u00e3o dar ouvidos ao canto de sereia da concilia\u00e7\u00e3o de classe e por travar, no seio do movimento comunista internacional, uma luta sem tr\u00e9guas contra os partidos reformistas, inclusive alguns que ainda mant\u00eam a palavra comunista no nome.<\/p>\n<p>A burguesia e os reformistas queriam que \u2013 com medo de perder votos &#8211; o KKE abandonasse sua estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, a sua linha pol\u00edtica que arma a classe oper\u00e1ria na luta de classes. Mas se o KKE participasse de um governo socialdemocrata, nos marcos da OTAN e da Uni\u00e3o Europeia, para tentar \u201chumanizar\u201d a crise e \u201camenizar\u201d seus efeitos para os trabalhadores, a\u00ed sim estar\u00edamos diante de uma derrota pol\u00edtica para a classe oper\u00e1ria e suas lutas.<\/p>\n<p>Mas se iludem aqueles que acham que \u00e9 poss\u00edvel existir um sistema intermedi\u00e1rio entre o capitalismo e o socialismo. N\u00e3o existe compartilhamento do poder: ou ele \u00e9 da burguesia ou dos trabalhadores.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es passam. Mas a luta de classe continua e se acirra, quanto mais se agrava a crise do capitalismo, colocando em relevo o papel do proletariado e das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Com oprov\u00e1vel agravamento da crise grega e o aprofundamento das medidas de \u201causteridade\u201d, a coer\u00eancia pol\u00edtica do KKE o credenciar\u00e1 cada vez mais como a vanguarda dos trabalhadores.<\/p>\n<p>*Ivan Pinheiro \u00e9 Secret\u00e1rio Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: KKE\n\n\n\n\n\n\n\n\nIvan Pinheiro*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3116\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-3116","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Og","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3116\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}